O quinto poder

As fotos dos prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib (Mario Sergio Conti faz uma análise primorosa delas em nomínimo) não são somente a documentação definitiva da bestialidade dos soldados americanos.

Elas indicam que, numa guerra em que a imprensa se tornou apenas mais uma das armas do governo, em que toda a credibilidade que a CNN conquistou em 20 anos foi por água abaixo, a democratização da informação — atavés de rupturas tecnológicas como a fotografia digital e internet — representou talvez a principal força capaz de mostrar a verdade ao mundo.

A imprensa ajudou a acabar com a Guerra do Vietnã ao mostrar aos americanos a verdade da guerra — corporificada na menina correndo nua, braços abertos, queimaduras de napalm. Mas em 2003 se tornou a grande agência de relações públicas do exército americano. O quarto poder se tornou um apêndice servil do primeiro, encarapitada em tanques de guerra e torcendo para que o fato de sua cobertura se dar em tempo real escondesse a vergonha de ser controlada e dirigida. Durante a invasão do Iraque, a imprensa foi um filme com roteiro fraco e bons efeitos especiais.

Sempre se disse que não há democracia sem imprensa livre. Se esse axioma continua sendo verdadeiro, perde cada vez mais sua importância. Em outros tempos, não haveria alternativa a uma situação como a que se enfrenta durante a invasão do Iraque. Mas agora o cidadão prescinde cada vez menos dela, porque tem as ferramentas necessárias em suas mãos. Precisa cada vez menos de porta-vozes, e não há democracia maior que essa.

As fotos de Abu Ghraib foram tiradas por pessoas comuns e enviadas via internet. Muitas delas para que bestas iguais aos torturadores se deliciassem com a humilhação daquele povo esquisito. Mas outras, certamente, chegaram aos Estados Unidos movidas pela indignação e pela consciência de que se devia fazer alguma coisa — e foram espalhadas internet afora por essa razão.

O que importa é que sem elas não haveria, dentro dos Estados Unidos, a aceleração na mudança da opinião pública que provavelmente se verá a partir de agora. E em que pesem os sentimentos do resto do mundo, é o único lugar que realmente importa, porque só os americanos podem tirar aquele genocida do poder.

Essa mudança nos papéis e na relevância da imprensa e dos cidadãos é importante, provavelmente uma das mais importantes dos últimos anos. Pela primeira vez a tecnologia e a internet desempenharam um papel fundamental e claramente identificável na garantia da liberdade. Este é um momento histórico e que não deve ser esquecido.

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