Escravos de Jó

Admito ter uma tendência incontrolável a inventar bobagens.

Há alguns anos resolvi convencer uma moça, numa manhã meio tediosa, de que a música infantil “Escravos de Jó” era uma ode ao homossexualismo que já estava aí por mais de dois mil anos.

Segundo a minha explicação, a cantiga vinha dos acampamentos militares espartanos, famosos por incentivar namoros entre seus soldados, que assim lutariam com mais bravura. Esses soldados eram normalmente recrutados entre os escravos. Jó teria sido um famoso general, amante de Péricles numa das mais belas páginas da história antiga devido à rivalidade entre suas cidades. Ele escrevera alguns livros, hoje perdidos, estabelecendo a relação entre guerra e homossexualismo.

Era fácil. O verso “Escravos de Jó jogavam caxangá” significava que os escravos sexuais de Jó faziam brincadeiras entre eles. Caxangá, em grego vulgar arcaico, era uma dança sensual, vinda da Turquia, em que os órgãos sexuais dos dançarinos se tocavam.

“Tira, bota deixa o zabelê (ou Zé Pereira) entrar” — referência clara à penetração e à necessária permissão da parte passiva.

“Guerreiros com guerreiros fazem zig-zig-zá” — novamente, referências aos jogos sexuais; aqui está configurada uma orgia, realizada alegremente nos acampamentos dos valorosos espartanos.

Ela acreditou.

Por isso a minha tese de que é fácil convencer as pessoas de quaisquer absurdos que você queira. Basta que alguém não conheça o assunto e você reforce sua teoria com alguns dados pretensamente históricos: elas normalmente têm preguiça de checar. É mais fácil acreditar em você. As pessoas partem do princípio de que ninguém é tão idiota a ponto de inventar uma história dessas.

Tadinhas.

Esse foi o mais próximo da semiótica que já cheguei em toda a minha vida. Uma besteira combina com a outra.

23 thoughts on “Escravos de Jó

  1. Muito bom!Eu já pensei nisso também…eheh…basta você se valer de alguns dados e sem denunciar com algum risinho que aquilo é uma mentira deslavada.As vezes eu invento umas coisas…mas eu não consigo prosseguir e acabo revelando a mentira…rs

  2. Gostei da sua história. Lembro-me uma vez que dei argumentos satisfatórios para uma amiga, provando que a letra “Festa no Apê”, de Latino era uma obra de arte… E ela acreditou.

  3. Salve, Rafael. Muito legal este post. Recomendei seu blog a uma pá de gente. Parabéns! Um abraço, Eduardo.

  4. Gostei da versão gay de “escravos de jó”. É uma brincadeira que provavelmente guarda reminiscências de antigos africanos no Brasil. Vou escrver um artigo para explicar que o jogo não tem origem bíblica, nem, por essa razão, foi inventado por monges, como dizem outros.
    Yeda Pessoa de Castro
    Especialista em Línguas Africanas e autora do livro “Falares Africanos na Bahia”

  5. ADOREi essa versão. inclusive me serviu muito num dia em que precisava faze rum trabalhob de escola o qual o assunto era essa antiga brinacdeira de roda.. dai tava procurando na internet e axei isso aki…
    Como a minha professora é um idiota….. c]olokei isso e ela adoroou e ficouo muito surpresa com a historia..
    Vc me ajudou bastante.. Obrigada x)

  6. A linha de construção escolhida para inventar essa estória remete ao padrão de se fazer analogias que brincam com a combinação entre o sagrado (jogos infantis e, por consequência, a criança na perspectiva da nossa sociedade) e o profano (no caso os jogos sexuais, a partir do olhar pudico dessa mesma sociedade judaico-cristã). Um exemplo clássico é o daquela famosa música natalina do Banco Nacional que muito engraçadinho apelidou de “Melô do Sexo Anal”. Para quem não entendeu, confira um trecho da música: “Quero ver
    você não chorar /
    Não olhar pra trás /
    Nem se arrepender do que faz/ Quero ver o amor vencer /
    Mas se a dor nascer /
    Você resistir e sorrir/
    Se você pode ser assim /
    Tão enorme assim /
    Eu vou crer /
    Pra você

  7. ai…
    o.o
    nunck parei p pensar na musica… mas tem fundamento isso ai
    legal ainterpretação.
    ual neh?
    hauhauhauhauhauhau
    e as criaças de varias geraçoes cantando
    XD~
    ate eu!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Mais é sério msm, mt bom!

  8. Olá!
    Achei seu texto no Google e erroneamente comecei a lê-lo da metade para frente.
    Caaaaara… Quase me convenci de que a história era verdade! hehehehe
    Abraço!

  9. Eu ouvi uma colega de trabalho comentando sobre esse assunto hoje.
    E resolvi pesquisar, pois não estava acreditando que fosse verdade, mas ela sim.
    O estranho é ela ter dito que aprendeu isso na aula de História. Sua brincadeira de mau gosto foi parar longe. Você é muito criativo, desculpe, mas a acho que você ganharia muito mais se usasse sua criatividade com coisas úteis. Quem sabe até escrever um livro, pense nisso.

  10. Legal, as vezes eu faço isso tb, mas sempre revelo logo depois a farsa…Como seria entao aquela pirulito que bate bate, pirulito que ja bateu? Atirei o pau no gato?
    Eu passei um ano na California e como os gringos sempre me faziam perguntas meio que fora da realidade sobre indios e animais selvagens, eu me aproveitava pra contar varias “lorotas” pra eles..hahahahah
    Tipo, uma vez minha mae foi sequestrada por indios, outro dia eu passei de carro e tinha um quebra-molas, dai quando a gente viu era uma cobra gigante, eles ficavam loucos, depois que contava que era mentira eles caiam na real e viam que eles e que eram loucos de achar aquilo!!!

  11. Eu trabalho com crianças e uso muito cantar essa música, estava passando e encontrei a sua definição… É dá até para acreditar, ótima definição tem tudo a ver, se não tivesse lido bem a definição ia acreditar nela, ufa ainda bem que não é verdadeira…

  12. Olá Rafael,
    Estava procurando no Google a letra da cancao escravos de Jo, porque me puseram uma duvida..
    Acabei encontrando a letra e, melhor ainda, encontrei o seu blog!!
    E simplesmente uma delicia!!
    Da vontade de ler, post atras de post.. Mas vou me segurar e guardar um pouquinho para amanha..
    Beijo e parabens!!

    (PS-Desculpe a ausencia de acentos..Ainda nao me encontrei nesse teclado novo..)

  13. Uma vez meu irmão lançou numa banca de amigos deles durante uma transmissão de tv das olimpíadas, que a Ednanci (judô) era irmã do Popó. A banca toda teria acreditado (mais de 20) se não fosse uma pessoa engraçadinha que teria alertado a todos da farsa em que estavam caindo.

  14. E tem aquela mensagem sexual que tocava no programa “Vila Sésamo”: “Todo dia é dia, toda hora é hora…”

  15. Achei muito interessante, percebo André que você tem uma mente muito fertil, mas ainda não é o que eu estou procurando para apresentar uma aula para a educação infantil.

  16. NOSSA………….

    ESTAVA ACREDITANDO E FICANDO “EMBASBACADA”

    VOCÊ É MUITO BOM ……..

  17. Acabei de passar essa notícia para uma amiga que sei lá por que decidiu me perguintar se eu sabia a história dos escravos de Jó. Vim logo aqui e busquei sua “verdade” sobre o fato…kkkk

    Depois eu desminto, deixa ela se embasbacar primeiro. rsrsrs

    abraços…

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