A vida íntima das marcas

Aracaju é uma desgraça para marcas. É o único lugar do mundo onde Levi’s, Calvin Klein, Pierre Cardin e Yves Saint-Laurent não valiam nada.

E isso não acontecia porque sergipanos estão acima de coisas comezinhas como moda e futilidade.

No caso da Levi’s, a razão estava no posicionamento da loja que os revendia com exclusividade, a Jimmy’s. Era uma loja nos moldes (e com uma marca bem parecida) da Bunny’s antes da reformulação do fim dos anos 80. A Jimmy’s foi pioneira em Aracaju no uso do crediário. A prazo o proletariado podia comprar o que quisesse; podia adentrar com orgulho e perfume barato o paraíso capitalista. Todos eles, portanto, usavam jeans Levi’s. Para a loja era uma boa: são muito melhores pagadores que a classe média.

Isso criava um problema. Obviamente, as pessoas evitam usar o que sua empregada doméstica usa. E assim, por uma reação exatamente contrária ao que fez sua fama — o valor que se dá aleatoriamente a algo que é pouco mais que uma commodity — a Levi’s era desprezada por aqui. Virou coisa de pobre, sabe como é. Quando o relançamento do modelo 505 (aquela com botões e que ganhou um comercial antológico, do rapaz que tira a calça numa lavanderia) tomou o mundo de assalto, Aracaju se tornou uma pequena Gália defendida pelos Asterix, Obelix e Ideafix da estética. Levi’s, aqui, não.

No caso das outras marcas, a razão era outra. A Villa Romana, concessionária das marcas na época, tinha uma unidade fabril aqui. Produzia especificamente jeans. E a fábrica tinha uma loja, que vendia jeans a preços muito mais baixos que quaisquer outros. Na verdade, a preços de Taco. Para completar, funcionários públicos tinham direito a bons descontos, provavelmente resultantes de acordos da fábrica com o Governo na hora de negociar isenções fiscais. Vendia também ternos, aparentemente o que sobrava das outras fábricas. Eram horrorosos, mas se podia achar coisa razoável. Ainda tenho um blazer Pierre Cardin, infelizmente fora de moda. E todas as minhas calças, durante muito tempo, foram Calvin Klein.

Obviamente, elas só impressionavam as pessoas que não moravam aqui.

Que me desculpem os sergipanos, mas não dá para levar a sério uma cidade que trata marcas com tamanha esquizofrenia. É preciso um mínimo de decência na hora de ser fútil.

4 thoughts on “A vida íntima das marcas

  1. O homem continua um eterno seduzido pelo que é difícil, raro. O abuso que se faz hoje na criação de objetos de desejo é enorme e os patinhos caem sempre no mesmo buraco. Porém isto não está só na moda. Lembro de um colega no segundo grau que afirmava ter lido Ulisses na íntegra. Era ele que usava a calça levi’s naquela época. As coisas valem pelo que faltam.

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