Pequena contribuição rafaeliana à história política de Sergipe

Achei, sem querer, um artigo sobre o movimento estudantil em Sergipe entre os anos 60 e 90. É assinado por Kátia Maria Araújo Souza e Heleneide Vieira Lessa.

Caras Kátia e Heleneide: vão perdoando a sinceridade, mas o artigo de vocês é muito ruim. Ruim de doer, mesmo: vago demais, sem consistência, generalista demais. Não demonstra ter havido pesquisa alguma. A geração de que trata já tinha chegado ao poder quando vocês escreveram o artigo, mas isso parece não significar nada. Vocês preferiram falar de aspectos nacionais, de modo solto, repetir informações disponíveis em qualquer artigo de segunda, em vez de tentar descobrir um pouco como as coisas ocorreram aqui. Citação de um ou dois nomes, leitura de um ou dois jornais e boletins de facções partidárias não são pesquisa. E como o artigo foi financiado pelo Estado, isso era o mínimo que vocês deveriam fazer.

Por isso aqui vão, com a humildade de mentira que me é característica, algumas pequenas contribuições ao artigo mal feito e preguiçoso de vocês.

Posso falar apenas de um momento específico, a segunda metade dos anos 80. Parece distante, mas foi um momento interessante e singular: o país, recém-saído da ditadura, tomava uma overdose de democracia — às vezes com exageros. Quem viveu os anos Sarney lembra bem disso.

Agora deixem-me dividir uma impressão minha com vocês. Sempre achei que o fim da ditadura (e o fato de os campi ficarem longe dos centros das cidades) deixou o movimento universitário meio sem rumo. Depois de um momento brilhante no início dos anos 80 (quando tanto o atual prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, quanto seu vice Edvaldo Nogueira foram presidentes do DCE da Universidade Federal de Sergipe), que vai basicamente até 85, o movimento universitário perdeu muito da sua relevância. Por exemplo, foi em Aracaju que Maluf, em 1984, começou a descer ladeira abaixo, queda só revertida quando Duda Mendonça assumiu o controle sobre seu marketing. E vocês sequer citam o grande quebra-quebra de ônibus em 1984. Foi um momento histórico no movimento estudantil do Estado e vocês fingem que ele não existiu.

Para dar um pouquinho de conteúdo ao artigo vocês não precisavam sequer ir atrás de uma biblioteca. Bastava conversar com as pessoas certas.

Mas vamos continuar. Não sei se vocês sabem, mas a partir daí o movimento secundarista passou a ter mais importância. Era quem levava estudantes para a rua e quem no fim das contas acabava, se não pautando, pelo menos dando ressonância ao debate político.

Há provavelmente 4 momentos importantes no movimento estudantil dessa época — que não é sequer mencionado no tal artigo. A reconstrução dos grêmios e a expulsão de 4 alunos do Atheneu, o mais tradicional colégio público de Aracaju, em 1987; a greve (e conseqüente saída da diretora) dos alunos do João Alves, em 1988, provavelmente o momento de glória do movimento secundarista; e um último quebra-quebra de ônibus em 1988, na universidade, evento extemporâneo e já sem tanta relevância.

Com exceção do tal quebra-quebra, todos eles foram eventos liderados por secundaristas. A luta pela meia-entrada e pelo passe escolar, que se estendeu até 1990, se não me engano, era definida pelas palavas de ordem dos secundaristas. Na campanha de Lula, eram os secundaristas que faziam estudantes caminharem quilômetros para os comícios. No Fora Collor até eu, afastado havia anos de qualquer tipo de movimento popular, resolvi puxar umas duas passeatas, só para sentir de novo o gostinho dos velhos tempos. Eu sou um nostálgico, vocês entendem. Mas para que vocês tenham uma idéia da situação, eu fazia direito na UFS mas fui puxar passeatas em colégios secundaristas. Por isso posso afirmar que a grande massa de estudantes que estavam ali não eram mobilizados pelo DCE, e sim pelos secundaristas. E por favor, não confundam as circunstâncias políticas do sul do país com as de Sergipe. Ao fazerem isso vocês acabam com o seu texto. Mais.

Por isso, caras Kátia e Heleneide, quando fizerem um novo artigo sobre o movimento estudantil nessa época, procurem informações nos partidos políticos. Eles podem lhes informar quem foi quem, como as coisas aconteceram, seus erros e acertos. Não custa muito. Procurem por gente como Alberto Paixão, Indira Amaral, Helmiton Laurentino, Adailton Batista, Marcelo Menezes e Ronaldo Galvão, do PCdoB na época; Iraci Mangueira e Êuton, do PCB.

Eu, por exemplo, posso lhes dizer como era ser presidente do grêmio do João Alves quando colocamos a diretora para fora. Posso lhes garantir que é uma história até engraçada, e que, pelo menos da minha parte, tem como moral “herói é aquele que não teve tempo de correr”. Como também posso contar, se lhes interessar, das brigas entre os diretores do grêmio — esses que sem querer deveriam fazer parte dessa tal história — para fazer “plantão” no turno da noite, onde estavam as mulheres mais, bem… Ah, esqueçam.

2 thoughts on “Pequena contribuição rafaeliana à história política de Sergipe

  1. Tu tens uma memória ímpar, meu caro. Entretanto, fico me indagando por que não atuaste na política. Será que as oportunidades eram escassas?

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