Shakespeare do século XX

O grande momento de “Júlio César” é a eulogia de Marco Antônio diante do cadáver de César. E logo no começo do seu discurso (Friends, Romans, Countrymen, lend me your ears), preparando a tempestade que vai causar a desgraça de Bruto e de Cássio, ele fala com ironia: For Brutus is an Honourable man / So are they all; all Honourable men.

(Melhor que ler a peça é ver o filme de 1953, com Brando interpretando Marco Antônio; você vai descobrir por que Shakespeare era genial e por que Brando era o maior dos atores.)

Em 1992, Gil Gomes apresentou uma de suas reportagens no Aqui Agora. Contava a história de um assassinato, obviamente. Em determinado momento, diante de depoimentos que diziam que todos os três envolvidos (inclusive o defunto) eram boas pessoas, ele olhou para a câmera em sua camisa de surfista, cara de areia mijada, mão que se mexe como quem alisa um cabeção e voz de Vincent Price:

“Um bom, dois bons, três bons — mas um morreu.”

Gil Gomes é Shakespeare para as massas.

4 thoughts on “Shakespeare do século XX

  1. Cara de areia mijada e mão de quem alisa um cabeção são associações perfeitas, mais até do que Shakespeare/Gil. Sempre que me lembro deste reporter policial é inevitável esta lembrança, e…. morro de rir.
    De onde tira tanta criatividade?
    Um grande abraço.

    Sônia Maria

  2. Alguns personagens têm a capacidade de transitar entre o brega e o cult. Chacrinha, Gil Gomes e Zé do Caixão, são alguns deles. O que pouca gente percebe é a criatividade empregada na construção de tais personagens, o que costuma garantir-lhes uma vida relativamente longa.
    Cara de areia mijada é a melhor definição do Gil Gomes.
    Ciao.

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