Der Untergang

Sempre me incomodou uma certa abordagem do nazismo através dos loucos de sempre, como Hitler e Goebbels.

Isso ajuda a ver o nazismo como um fenômeno extemporâneo e inexplicável, algo que aconteceu de repente na nação que se orgulhava de ser a mais avançada culturalmente do mundo, e que brandia com orgulho Kant e Goethe ao mundo (mas esquecia convenientemente de algumas características e Nietzsche e Wagner).

Der Untergang, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, é um belo filme. Mas é, principalmente, um documento fantástico sobre essa era. Conta os últimos dez dias de Hitler em seu bunker, de onde só sairia morto para ser queimado na porta. É baseado nas memórias de sua secretária, que morreu há alguns anos.

O filme mostra uma Berlim com os russos já à sua porta. O Reich já acabou, embora Hitler tenha dificuldades em perceber isso. Já não há mais controle, já não há mais a terrível máquina nazista de guerra: o que se tem é um império sendo demolido, o vácuo de poder e os dramas pessoais em meio a uma das grandes tragédias da história. É um retrato amplo da queda de Berlim.

O Hitler interpretado brilhantemente por Bruno Ganz mostra isso: é um homem no fim de suas forças, mas principalmente um homem; e com isso o filme ajuda a mostrar a real dimensão do nazismo. Ele não foi feito por monstros. Ele foi feito por gente comum. E a decisão de fazer poucas referências a um dos elementos constitutivos do nazismo, o anti-semitismo, ajuda nesse retrato.

É o mais fascinante em todo o filme: a maneira como ele mostra loucura da queda do Reich sem perder de vista a dimensão humana. Já não há mais controle. O Reich, que deveria durar mil anos, se esfacela diante de todos, e é isso é que expõe a loucura de tudo aquilo. A crônica da queda do nazismo ajuda a mostrar sua gênese; e com isso pode-se ter uma compreensão que a simples repetição de slogans não consegue dar.

Der Untergang não cai naquele maniqueísmo bobo de mostrar os nazistas como pessoas inerentemente monstruosas. E com isso ajuda a comprender melhor um dos fenômenos que definiram o século XX.

(Sobre o nazismo e a II Guerra Mundial, cujo fim completa 60 anos em 2005, já escrevi este, este, este, este e este posts.)

14 thoughts on “Der Untergang

  1. Por falar em Nietzsche, lembrei do título do livro: “Humano, Demasiado Humano”. E no fundo não é tudo assim? Você disse: “Ele não foi feito por monstros. Ele foi feito por gente comum. E a decisão de fazer poucas referências a um dos elementos constitutivos do nazismo, o anti-semitismo, ajuda nesse retrato.”
    Gente comum é isso mesmo. É assim que eu penso. É coisa boa, é coisa ruim… Chamar de monstruoso o que é característica humana revela uma visão bem limitada do que é ser gente. Bom, fiquei com vontade de ver o filme. Isto aqui, “É o mais fascinante em todo o filme: a maneira como ele mostra loucura da queda do Reich sem perder de vista a dimensão humana.”, dá mesmo vontade de ver. Afinal, mesmo que a escala seja maior, não é tudo dimensão humana? Muito bom o post.

  2. Mauro, o seu gordinho não teria coesão mental para se tornar líder de um movimento que, mesmo com todos os absurdos cometidos ou teorizados, conduziu um país todo a uma loucura tão bem organizadinha. Prova disso é que ele já se suicidou aos 16 anos. Nunca ví Hitler e compania como simples doidos, não eram.

  3. Rafael, você me convenceu a ver esse filme. Parece muito interessante essa abordagem do nazismo como algo feito por gente comum.

  4. Curiosa tem sido a reação de rejeição que o filme tem despertado em alguns sectores sempre prontos a simplificar as coisas e em especial a loucura do nazismo.
    O pesadelo do III Reich esteve muito longe de ser personificado por meia dúzia de alucinados. Infelizmente uniu milhões de seres humanos ditos normais, numa gigantesca epopeia de terror.

  5. O último filme que eu assisti sobre o tema foi “Matematica do Diabo” (The Devil’s Arithmetic) e… bem, além do filme ser bem ruizinho, eu tomei a decisão de parar de ver filmes que mostram apenas o lado judeu da 2a. Guerra. Já assisti muitos (alguns ótimos), agora cansei… estão muito repetitivos. Além disso, há que se considerar o que está acontecendo com os Palestinos…

  6. Rafael, mais um pergunta, desculpe-me pela ignorância, mas quem é Goebbels? Ficaria grato se vc me respondesse. Nunca ouvi falar esse nome. 🙂
    Abraço!

  7. re: (Joseph Paul Goebbels, orador mordaz e um dos principais nomes do Partido Nazista, tornou-se ministro da Propaganda Nazista em 13 de março de 1933.)
    “Belo post sobre o filme que é realmente estraordinario!”
    Abraço

  8. Tudo q ele queria era exterminar os judeus…para isso, convenceu o país de que ele apenas queria devolver a alemanha aos alemães.
    Ele era a maior e melhor autoridade no parlamento, 207 cadeiras era do partido nazista, e ele havia começado apenas com 7 cadeiras…o cara era louco, e ao mesmo tempo um genio.Tinha um talento de persuasão incomparavel…ele teria vencido a guerra se tivesse deixado os judeus para o segundo-plano…gosto dele, mas odeio o q ele fez, quase 50Milhoes de mortos, 1,5 eram apenas crianças…
    Se Hitler fosse “bonzinho”, talvez teria sido pior…
    HEIL HITLER!!!
    (OBS: “Ein Vowk, Ein Reich, Ein Furher”)

Leave a Reply to Reginaldo Siqueira Cancel reply

Your email address will not be published.