Os comedores de criancinhas

A Igreja Católica americana, no início dos anos 60, publicou uma revistinha em quadrinhos destinada a alertar os Estados Unidos — que àquela altura estavam, ela acreditava, à beira de uma revolução socialista — dos perigos do marxismo.

O mais interessante são as conclusões a que a Igreja chega. Porque Hegel rompe com a tradição idealista platônica, e percebe o básico dos básicos — que novas idéias são produto de um processo dialético –, a revista coloca duas frases brilhantes nas bocas dos alunos.

Marx, o segundo aluno a partir da esquerda, se identifica com Hegel (e depois viraria seu pensamento de cabeça para baixo, mas isso é outra história) porque essa conclusão significa que Hegel não acredita em livre arbítrio. E o papa-hóstias renitentemente ignorante, por coincidência na extrema direita, contrapõe logo a brilhante explicação católica, decorada na escola dominical.

Investidas sobre Marx, principalmente primárias como essa, são aceitáveis a esta altura. Já são tão comuns que não surpreendem mais. Mas os sujeitos atacavam até o velho Hegel.

Obscurantismo, ignorância e má-fé são as únicas expressões que consigo associar a essa revistinha.

O link está aqui, neste post do Boing Boing.

7 thoughts on “Os comedores de criancinhas

  1. engraçado vc falar isso a respeito do marxismo, rafael. engraçado pq sinto q em alguns posts seus (p. ex. aquele em q defende q o Estado deve financiar a produção cinematográfica nacional) vc apresenta a mesma visão distorcida e simplificadora do liberalismo. a revanche dos liberais vem agora qdo a nova esquerda, manifestantes anti-globalização e movimentos sociais defendem idéias como a derscentralização, fortalecimento da sociedade civil, ’empoderamento’ ´[empowerment] dos indivíduos e o foco do governo como servidor do cidadão, idéias postuladas por milton friedman (papa do liberalismo) desde “capitalismo e liberdade”…

  2. Não acho que o Rafael apresente naqueles posts uma visão simplificadora dos liberais. É a própria direita anaeróbica internética que seqüestrou esse rótulo para defender suas sandices.

  3. Ah, Rafael, esse tipo de coisa, pra mim, é que nem o Olavo de Carvalho: muito mais do que me deixar indignado, me diverte.

    Nesse sentido, tão divertido quanto o The Godless Communism é o documentário Atomic Cafe. É uma coletânea com perólas da propaganda anti-comunista americana da década de 50. Tem até um trecho sobre “o que aconteceria se os comunistas dominassem os EUA” que é muito parecido com a HQ que você linkou.

    E outro dia eu soube que a América de Bush já aprontou uma versão sécula XXI dessa tosqueira. Dá uma olhada: http://accstudios.com/f/synopsis1.htm

  4. Oi, Rafael,
    Apesar da evidente distância do tempo que passou, desde essa revistinha até hoje, a “fantasia” americana sobre os perigos do comunismo (ainda existe, tal coisa?) permanece.
    De fato, divirto-me mais do que preocupo-me, como já disse o Edson, acima.
    Abraços
    fernando cals

  5. O engraçado é que vejo semelhança por aqui, na terra do Diogo Mainardi. Persistem no “obscurantismo, ignorância e má-fé”. Tudo em nome da isenção. Puá.

  6. Só acho engraçado alguém chegar tão facilmente assim a uma conclusão sobre de onde vêm as idéias. “Oras, o cérebro humano….simples! Oras, o pensamento…! Oras, a computação quântica…! Oras, Shakespeare…!” Isso vindo de alguém que diz que filosofia é um saco.
    Quando dois debatedores que têm no mínimo dois mil anos de história pensante atrás de si se desentendem, acho que o melhor que temos a fazer é escutar e tentar aprender alguma coisa.
    Mas obviamente esses quadrinhos são uma tentativa da Igreja de fazer pessoas mais ou menos ignorantes entenderem coisas que não estavam ao alcance delas. Se você já leu Hegel, não precisa disso. Assim como se você sabe ler rótulo de sucrilhos, não precisa de propaganda. Propaganda é e sempre foi coisa feita para pessoas ignorantes. Não acho que se podia esperar nada profundo desse tipo de coisa. Se estivesse defendendo o outro lado, seria igualmente ridículo.

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