As medidas dos santos

Não consigo lembrar onde li isso, não lembro sequer o nome do sacerdote. Mas o monsenhor responsável pela Igreja do Bonfim, em Salvador, disse que a tradição de usar as fitinhas do Senhor do Bonfim vendidas ali para realizar desejos é apenas conversa de vendedor, que não tem origem em nenhuma tradição católica, que é artifício para enganar turista.

Isso me lembrou outro tempo, coisa de século e meio atrás.

Era o tempo em que as caixas de esmolas se espalhavam pelas cidades e a Igreja fazia dumping contra os mendigos. Em que vendedores ambulantes não podiam vender objetos abençoados por padres, mas podiam trocá-los por dinheiro, e nessa sutileza de termos conseguiam definir toda uma sociedade extremamente católica e extremamente permissiva.

Nessa época faziam muito sucesso as medidas de santos.

Eram fitas cortadas pelos padres, do tamanho das imagens dos santos a quem suas igrejas eram consagradas. Costumavam ser usadas em torno da cintura e, dizia o povo e diziam os padres, removiam dores, doenças e realizavam as vontades de quem as usava.

Algumas eram de veludo, com imagens de santos gravadas nelas; outras eram fitas comuns, a maioria, dadas àqueles que podiam contribuir pouco com os cofres da Santa Madre. A cor variava de acordo com o santo. Havia até uma “medida do Espírito Santo”. Como esse Senhor não tem tamanho ou forma, mas dele não queriam prescindir as almas pias dos fiéis, pegavam uma fita de tamanho qualquer, gravavam nela um triângulo e uma pomba e assim se tinha um remédio eficaz contra todo tipo de enfermidade, que o Espírito Santo, convenhamos, é bamba de verdade, mais bamba que quaisquer daqueles santos menores que se especializavam em uma ou outra mazela.

As mulheres costumavam usar fitas de santos do seu sexo; e nisso eram mais bem aquinhoadas que os homens, porque ainda melhor que o Espírito Santo costuma ser Nossa Senhora. Mas também usavam fitas de São Brás, Santo Antônio e São Gonçalo, este o santo que lhe poderia curar a mais grave das moléstias, o caritó — função apenas depois usurpada por Santo Antônio.

Seria fácil acusar o tal monsenhor de ignorância das tradições da sua própria igreja, inferir também que ele não deve saber que já houve tempo, esse mesmo tempo das medidas dos santos, em que no pavilhão de mini-deuses da Igreja havia até espaço para uma Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança, cujo altar ficava na Rua do Carmo, Rio de Janeiro; herança das grandes navegações portuguesas e bem adequada a um tempo em que o Brasil ainda ostentava trágica presença no comércio no Atlântico Sul.

Mas uma acusação dessas seria uma mentira. Porque não é isso, e o que parece ignorância é em verdade o disfarce para uma inveja e um despeito profundos, aquele tipo negro que corrói a alma e enche o esôfago de bile.

O monsenhor nega as origens religiosas das fitinhas do Senhor do Bonfim porque, se as reconhecesse, teria que admitir que se essa tradição sobrevive ali não é por causa de qualquer santo católico, nem mesmo de um São Jorge que encarna a persistência dos homens e mulheres daquela terra. É por causa dos santos de verdade do povo baiano, e as fitas já não têm as cores de Nossa Senhora da Glória ou de Santa Prisciliana, mas são azuis para Iemanjá, amarelas para Oxumaré, vermelhas para as filhas de Iansã.

E o monsenhor teria que admitir uma derrota fragorosa e inconteste, admitir também que o que eles dizem entender do sincretismo religioso está errado, e que na Cidade da Bahia foram os santos da ascese e da renúncia que sobreviveram encolhidos sob a proteção do manto branco de Oxalá.

Originalmente publicado em 9 de maio de 2006

2 thoughts on “As medidas dos santos

  1. Massa, ótimo texto.
    Concordo com todo ele. A parte ruim de ler esses seus textos antigos é perceber que não precisam de atualização, que a situação descrita é a mesma.

    Abraços

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