Ser ou não ser, ou ser e não ser

Em agosto, o New York Times publicou uma matéria sobre um filósofo de Oxford, Nick Bostrom, que aventa a possibilidade de estarmos todos vivendo numa simulação de computador. Não teríamos sequer um corpo de carne e osso plugado a alguma coisa, como em “Matrix”. Seríamos bits, apenas, equações matemáticas extremamente elaboradas. Uma espécie de Second Life em computadores quânticos de 57689a geração.

Na verdade, essa idéia não é propriamente nova. Muita gente — eu inclusive — já pensou nisso pelo menos uma vez na vida. E embora a reportagem não faça nenhuma menção ao fato, já foi explorada em um filme chamado “O 13o Andar”, feito há alguns anos com a belíssima Gretchen Moll.

Eu pensava que a filosofia de verdade, aquela metafísica grandiosa que lida com coisas ou conceitos maiores que ao ser, era coisa da época dos escolásticos e que Kant tinha dado um basta nessa conversa mole. Eu estava enganado, como sempre acontece. O computador, esse trequinho que uso para escrever e que o Bia usa para fazer sexo virtual, abre possibilidades interessantes.

O mais engraçado é que, se a idéia de um simulador controlado diretamente por alguém é relativamente pobre, a possibilidade de sermos apenas bits em um computador se realimentando constantemente a si mesmo, numa espécie de moto contínuo absolutamente dialético, é fantástica. Deus é um computador. Que grande idéia.

Eu não me importaria em ser um joguinho de computador, como não ligaria em ser uma criação divina. Não faz muita diferença. Como disse o filósofo David Chalmers na reportagem do New York Times, o teclado em que datilografo este post não seria menos real para mim só por ser composto de bits. Em qualquer mundo ou de qualquer matéria, eu continuaria esse ser que um dia fez a delícia do sexo feminino, e por enquanto isso me basta.

Mas mesmo assim não consigo evitar imaginar que — no caso de um cenário bobinho como aquele do simulador, de eu ser uma brincadeira de um nerd espinhento que melhor faria se fosse encher a cara na rua — haveria algumas coisas que eu poderia fazer. Por isso, meu senhor que neste momento me vê escrevendo isto, tome vergonha na sua cara de nerd trancado em casa comendo Cheetos. Se isso é um jogo, vamos ganhar. Arranja aí uma mega sena para mim. Se não dá para fazer isso de modo liso e honesto, eu não estou preocupado. Se vire. Dê seus pulos. Foi você — ou eu deveria escrever Você? — quem começou o jogo. Arranja um cheat desses que websites oferecem a jogadores preguiçosos. Vamos ganhar essa merda.

10 thoughts on “Ser ou não ser, ou ser e não ser

  1. Rafa, fiquei confusa: uns dizem que somos bits, outros que somos energia vibracional formados por átomos (física quântica). Eu já não sei o que quero e agora não sei nem o que sou? É demais prá mim!

  2. Somos apenas bits, mas eu sou o bit-nerd que acabei de ganhar o jogo. Vocês são apenas parte daquela animação final do jogo que diz “You won!”.

    Recursividade é uma merda!

  3. Na mesma linha, Descartes estava meio-certo. Penso, existo, mas quem diabos sou eu de verdade? Sou o cara que está escrevendo aqui, ou uma ameba binária delirante que imagina vividamente ser um cara que está escrevendo aqui?

    Bosta. Acho que meu game player precisa treinar mais.

  4. pra mim da tudo na mesma coisa… se considerarmos que todas as coisas do universo sao composta por atomos… é só subtitui-los por bits que dá no mesmo cu de mundo…

    vou é ver tv que essa hora tem mulher pelada :p

  5. Patético, a ameba estava meio-certa. Descartes pensava que existia. Aquele pensamento binário dele é a prova cabal de que ele era apenas um algorítimo implementado em assembl>>>>>
    >>>> fatal error >>>>

  6. acho que a resposta de wittgenstein pra essa questão da metafísica me parece mais convincente. à filosofia não cabe fornecer respostas para hipóteses causais; isso é função da ciência. a função da filosofia é prover um método de análise e o caráter desse deve ser terapêutico. a filosofia está doente e isso acaba transparecendo na nossa linguagem, na maneira como usamos os conceitos. coisas como a dicotomia interno/externo não passam de ficção pra ele. o debate dele é justamente com essa maneira de pensar a filosofia, porque isso acaba nos imobilizando. enfim, o buraco é mais embaixo, mas eu gosto der pensar que todos os nossos problemas vêm desse enfeitiçamento que a linguagem é capaz de operar. [adorei o post]. bjs

  7. No livro Futuro Proibido, da Editora Conrad, que é uma coletânea de varios autores da Literatura do Caos, há um conto muito bom, mas ainda na linha de uma realidade virtual criada em cima de um corpo real. O conto chama Visite Port Watson, e é de Sol Yurick, e eu gostei bastante e recomendo.

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