Urubu de chocalho

Este é um post para um poeta que tem uma pinimba com os ingleses.

Eu gosto de poetas que dizem assim, na lata, que não gostam de poetas ingleses; muito mais do que daqueles que de vez em quando citam um Swinburne, versão fleumática e esnobe de um J. G. de Araújo Jorge. Mas gosto mesmo é daqueles que dizem que têm uma pinimba com eles.

Porque aí está a diferença entre nós e eles; e não estamos apenas batendo pé com altivez e confiança diante da inglesada, mas fazemos isso nos nossos termos, chamamos esses branquelos que tomam chá para uma surra na nossa taba. Eu não gosto de chá. E só um conheço um poeta que tenha essa pinimba com os saxões.

Quanto o poeta falou de sua pinimba provavelmente já estava meio bêbado como todos nós, os cabelos que insisto branco-azulados brilhando no lusco-fusco da casa de Cauê. Acho que foi enquanto o Paulinho e o Marcelo cantavam e lembravam histórias de outros tempos, ou quando o José me falava sobre a poesia da Libras, post que prometi e agora devo, não nego, pago quando puder. Não sei; sei que foi.

Foi graças aos e-mails que de vez em quando o poeta manda para a gente — poeta esquisito, esse, que tem e-mail mas não tem celular; eu tenho uma dificuldade grande para entender essas tomadas de posição não radicais, seletivas, mas talvez eu intua o acerto e o savoir vivre do poeta — que li a história do urubu de chocalho.

São os e-mails que fazem valer a pena abrir uma caixa de entrada sempre abarrotada de mensagens de trabalho e anexos enormes. É neles que o fauno em seu entardecer — esse é o único jeito de falar na idade de um poeta, acima de tudo um boêmio como o poeta que tem uma pinimba com os ingleses — lembra de sua infância em Capela e da juventude em uma Aracaju que o progresso espancou, coisa de umas décadas atrás. Eu e todos os outros ficamos torcendo para que tudo isso seja reunido em livro, mas o poeta faz charme, diz que não vale a pena, que não são crônicas, só besteirinhas, e faz com a mão o gesto típico de desdém que um dia provo serem fingidos.

E um desses e-mails eu queria publicar aqui. Eu sou assim mesmo, roubo o que gosto, vai desculpando aí.

Crueldade em criança é tema pouco estudado. Freud explica a saudade uterina, o malfadado desejo de voltar à tepidez recôndita — lá nas entranhas da mãe. Outros cuidam da intrepidez infantil na vida começando sempre, outros (quase todo mundo) da inocência dos meninos, tão irrefutável e tão bela! Balela! Da crueldade ninguém fala.

Passa esquecido o prazerzinho de arrancar uma por uma as pernas dos besouros, de espetar a bunda das tanajuras num palito para ouvir zunindo a agonia delas. Ternura malvada, essa!

Antes que se dessem às crianças o canhão de nêutrons do vídeo game para destruir o mundo — maldade virtual — era na baleadeira, na espingarda de chumbinho socado, no canivete mesmo que exercitávamos o instinto natural de matar. Ninguém se lembra do bicudo no sapo, da lagartixa enforcada num cipó, do gato alvejado, brincadeiras cruéis da nossa infância.

***

Acho que a idéia foi de Carlinhos meu primo, mas foi bom demais! Mocosados no quintal lá de casa, olho firme no anzol camuflado sob a carniça (tripa de galinha matada ontem), espreitávamos. Era sábado, dia em que a feira deixava guloseimas podres na pedra. Qual urubu da vizinhança não agendava uma incursão às maravilhas da feira? Depois, sair por aí e missão de faxina, afinal era dia da cidade produzir carniça.

Pois bem, lá vem um famélico urubu sonsando no beiral. Pé ante pé cuidou: o cheiro das tripas lhe zonzava o medo, mas qual, manjar fino no quintal de Corina, vou que vou. E foi, e engoliu o anzol da nossa crueldade. Pegamos ele.

Já a idéia do chocalho foi minha. Senhor da vida, rei do urubu cativo, eu queria o espetáculo da tortura, marcar a criatura e dominar de vez sua liberdade. Foi-se com anzol na goela e o chocalho no pescoço, aos tropeços, descrente da humanidade. Mas se vingou, o pestinha: ninguém dormiu com o blém-blém no telhado, a família inquieta, o Pai virado na peste, os vizinhos reclamando, o remorso sob os lençóis a me jogar no inferno. Deus viu, ele vai me pegar. Depois o pior: — “Foi Carlinhos, meu pai, eu bem que não queria, mas ele é doido, sabe? Pobrezinho do urubu”. Dez lapadas no lombo.

Deus me perdoe a infância.

Amaral Cavalcante – setembro/2007

3 thoughts on “Urubu de chocalho

  1. Este é o biscoito fino servido pelo nosso poeta contemporâneo maior. Grande Amaral.

  2. Esse negócio de internete é mesmo uma doideira. Dei uma passada no biscoito fino e me mandam pra cá. Um urubu de anzol na goela e chocalho no pescoço me carrega pra Aracaju e me deparo com um monte de botecos na beira do mar, galopes e ventanias …
    Chega de virtualidades, vou encher a cara e foda-se a segunda !
    Tentei mandar uma mensagem pro Amaral mas não consegui, voltava tudo.

    Abraços pra vc e pra ele

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