Carta do Além

É isso, basta um sinal vermelho para que alguém lhe entregue um panfleto qualquer.

O panfleto era assinado por uma tal Sociedade Bíblica Ebenézer. Nome estranho, Ebenézer, parece personagem sovina de Dickens. Trazia umas silhuetas de saguaros ao entardecer — o que saguaros têm a ver com o tema eu não consigo perceber — e o texto que segue abaixo:

Carta do Além

Imagine se o diabo resolvesse escrever uma carta para alguém aqui da Terra.

Dessas pessoas folgadas, que não estão nem aí com Deus ou a igreja. Creio que ela seria mais ou menos assim:

“Caro amigo”:

Saudações infernais!

Estou tão ansioso por nosso encontro final que resolvi escrever-lhe afim (sic) de manifestar minha paixão por você. Você é tão perverso, orgulhoso, malvado e rancoroso!

A característica que mais admiro em você é esse seu desprezo por Deus. Noto que você transgride todos os mandamentos da Bíblia. Particularmente estou torcendo para que você adquira logo uma doença. Com sua vida promíscua, creio que isto não vai demorar.

Também torço para que você se arrebente quando dirigir bêbado. Isto o traria logo para os meus braços, numa união eterna.

Outro dia, quando se livrou daquele chato que, com a Bíblia na mão, insistia que você mudasse de vida, nós fizemos a maior festa.

Para encerrar, espero que você permaneça firme. Fuja da igreja. Nunca ouça ou veja aqueles programas que falam do meu maior inimigo — Jesus.

Atenciosamente,
Satanás.

Esta carta é uma peça de ficção. Mas o seu conteúdo é verdadeiro. Se você não gostou do que nela está escrito, vai gostar menos ainda de ir para o inferno. Ainda dá tempo de se arrepender de seus pecados e se entregar a Jesus.

Agora olha a sacanagem, a sinuca de bico em que me meteram. De um lado Satanás (Sassá para os íntimos) declarando sua paixão por mim, sem que algum dia eu tivesse lhe dado um vislumbre sequer de ousadia para tanto. Do outro Cristo — para não deixá-Lo por baixo, vamos chamá-Lo de Jejê — querendo que eu me entregue a Ele; justo o bonzão do Jejê, o grande moralista, o sujeito que sempre disse que antes do casamento a gente não deve fazer essas coisas de safadeza.

Ou seja, é todo mundo querendo me foder, que eu sei bem aonde essas coisas de paixão e entrega acabam levando.

É de bom alvitre lembrar a esses dois malandros que sou moço de boa família e de bons princípios. Não vou me entregando assim a qualquer uma, quanto mais a um barbudinho com cara de trotskista e a um corno vermelho que nem aqueles itabaianenses que trabalham de sol a sol roubando cargas de caminhão.

Em não tendo escolha, a princípio eu tenderia para Sassá, porque Jejê tem barba enquanto Sassá tem um rabo enorme, e rabos me são agradáveis.

Mas confesso que a sua cartinha me deixou um pouco chateado. Não por querer que eu me arrebente dirigindindo bêbado, porque isso é coisa de mulher rejeitada e, além do mais, não gosto e dirijo muito pouco, muito menos bêbado. Tampouco por me chamar de perverso, essa é a menor das sacanagens. Não. Posso ser orgulhoso, confesso, mas perverso, não. Todas as maldades que faço têm motivo de força maior, uma provocação. São reações, apenas. Eu gosto mesmo é do pecado da preguiça. Me deixe quieto no meu canto e não faço maldade a ninguém, porque antes de ser orgulhoso eu sou baiano. E não fui eu quem se livrou daquele chato. Foi ele que não quis me pagar o dízimo e foi embora, irritado. É impressionante como esse pessoal manda sua fé e sua atividade missionária para os quintos quando você pede um dinheirinho a eles.

O verdadeiro problema na cartinha do Sassá foi dizer que levo uma vida promíscua. Por que o deboche, assim tão desnecessário? Ele sabe que isso era tudo o que eu queria: uma vida promíscua e estróina, cheia de mulheres daquelas que inspiram um samba de Lupicínio Rodrigues. Por uma vida promíscua eu iria dez vezes para o inferno, feliz da vida, encangado no pescoço de uma negona do Cabula, deixando para trás uma vida de bandalheira. Era assim que eu queria viver: na orgia, na esbórnia, rodeado de mulheres, muitas mulheres, as mais vagabundas e cachorras e depravadas e ninfomaníacas que possa haver neste mundo. Daquelas que botam as mãos nos quartos, quebram assim para a esquerda e perguntam “Você tá pensando que eu sou o quê, hein?”, para que você entenda que são justamente o que você está pensando e siga o ritual comme il faut. Sassá sabe que sou um homem de desejos tão simples, não quero muito da vida em meu ascetismo.

Mas essa vida maravilhosa está além da minha capacidade, e esse Satanás filho da mãe sabe disso. Aí vem esse coisa ruim tripudiar, me humilhar porque afinal estou tão aquém dos meus sonhos. É essa a enorme sacanagem sutil no título da carta do Sassá: leia-se “Carta do além da sua capacidade, Rafael seu otário”.

Fiquei tão chateado com o deboche de Sassá que a despeito do seu rabo enorme talvez me entregue mesmo a Jejê, com um suspiro resignado. Sei a desgraça que me espera ali. Só peço que seja gentil. Eu não gosto dessas coisas, muito menos da posição a que Ele quer me submeter, estamos invertendo as coisas aqui. O caminho dos céus não vale tudo isso. A perdição antes da salvação, é assim que eu gostaria de viver se pudesse, mas o deboche do Sassá mostra que devo perder minhas esperanças, e sem esperanças uma eternidade de sofrimento é tudo o que me resta.

14 thoughts on “Carta do Além

  1. Você é um doente.
    Quanto a falar do povo de Itabaiana…eu vou ficar calada.
    Tem jeito não…vc é um caso perdido.

  2. Rafael:

    Eu gostei deste seu inferno lúdico. É melhor que aquele ( acredito que tenha lido a Divida Comedia) inferno do Dante que parece uma repartição pública brasileira. Já pensou se você for para aquele inferno? Do jeito que se descreve serão anos em cada degrau. Purgatório é pior que um sumário caldeirão fervente!

  3. Caro Rafael:

    Agradeço a publicação dos meus comentários. Desculpe a minha impertinência no caso Lennon/Elvis. Coisa de fanático.

    Por favor, corrija uns erros de digitação que cometi nos meus comentários, não sei se por falha da configuração do teclado ou por eu ser um datilógrafo, apesar de formado e diplomado, sofrível.

    Seguem as correções:
    Divida Comédia: Divina Comédia (Carta do além)
    Bestels: Beatles. (Vidas de John Lennon)
    Se houver outros erros fique a vontade para repara-los; fiquei chateado por macular seu blog.

    Mais uma vez, agradeço a boa vontade!

    Abraço!

  4. O texto do folheto é equivocado na forma, não no conteúdo. E você foi lastimável em ambos.

  5. Bem, eu dispenso as duas companhias, quando morrer vou me dissolver no ar e ficar vagando por ai, espiando a vida alheia, como eu sempre desejei fazer…

  6. Hahahhaha. Olha eu aqui de novo, Rafael.
    Sabe que às vezes me sinto assim meio perdida com o amor do Sassá por mim também? rsrs

  7. E os filhos do satanas o diabo serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.
    Este enganara a muitos, cuidado para não serem enganados.

    Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para morrer por nós

    “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” diz o Senhor Jesus. Somos informados de forma clara que o caminho que Deus provê é Cristo, a verdade que Deus revela

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