Sobre as opções sexuais do prefeito Kassab

A campanha da Marta Suplicy fez um comercial com uma série perguntas sobre a história e o comportamento de Kassab e o céu da mídia caiu. O assunto virou pauta grande: Marta insinuou que Kassab é gay.

O Idelber, como sempre (ou quase sempre: não devo esquecer jamais que o sujeito é um trotskista safado), faz uma análise impecável do episódio. Não há o que acrescentar a ele.

Mas eu posso dar uns pitacos, digamos, técnicos.

Ética é, ou deveria ser, atributo recomendável a qualquer campanha. Não por ingenuidade, como aquela que o pessoal da oposição cobra do governo sem nunca tê-la praticado (ingenuidade, favor lembrar, não é burrice, atributo ultimamente bastante aplicável a essa oposição), mas porque é geralmente mais eficiente. Mesmo assim, e embora eu seja o primeiro defensor da idéia de que a única ideologia de uma campanha deva ser a vitória, e que para isso você usa as armas que tiver à disposição, acho também que uma campanha eleitoral cumpre um papel cívico importante. Insinuações sobre a sexualidade de um candidato deveriam ser algo totalmente banido de campanhas. A intimidade de uma pessoa pública não interessa a ninguém.

Além disso, particularmente não gosto desses comerciais vagos demais. Parecem, sempre, covardes. Não sei até que ponto são eficazes, e certamente funcionam de maneira diferente em circunstâncias diferentes. Há jeitos e jeitos de bater e desconstruir; eu, pessoalmente, não considero esse um dos melhores. Sempre me passam a impressão de serem insidiosos demais. E embora eu possa estar errado, acho que há jeitos mais eficazes de alcançar o efeito desejado.

Convicções à parte, o mais interessante no comercial é que a lebre levantada sobre a sexualidade do Kassab faz parte de um conjunto grande de perguntas. Para a maior parte das pessoas, principalmente as classes C e D, a insinuação sobre a sexualidade de Kassab pode passar despercebida. Eles se esforçaram para ser sutis.

Mas a mídia indignada em defesa de Kassab amplificou desnecessariamente essa questão. O que era apenas um item meio obscuro virou ponto central da peça e da campanha. Talvez a equipe de Marta tenha sido sutil demais; mas contaram com a ajuda da imprensa, que na ânsia de defender Kassab bem pode ter dado um tiro no próprio pé.

Não conheço o eleitorado paulistano. Não sei como reage a insinuações sobre a sexualidade de um candidato (em Sergipe, por exemplo, elas não costumam ser bem recebidas e são contraproducentes); lembro apenas que Quércia sempre sobreviveu a essa insinuações, embora com muito menos consistência que as feitas em relação a Kassab.

Mas sei que dificilmente Kassab tomará a palavra para dizer que é hetero ou homossexual. E a discussão, se continuar, se dará em um campo desfavorável para ele — desfavorável não por sua opção sexual, mas porque ele não terá nenhum controle sobre ela. E para isso ele terá contado com a ajuda inestimável daqueles que tentavam defendê-lo.

12 thoughts on “Sobre as opções sexuais do prefeito Kassab

  1. Querido Rafael,
    O que mais me surpreende disso tudo é que uma “suposta” crítica vem justamente de alguém que saiu do anonimato, com um programa de sexologia ultramoderno para a época. Marta era a pessoa mais liberal do mundo e chocava a população com suas idéias revolucionárias décadas atrás.
    A falta de ética e respeito é o que mais me incomoda neste país.
    abraço
    pat

  2. Rafael:

    A Pat disse tudo o que penso. A Marta machou a credibilidade.

    Ser gay não é defeito no Kassab, agora ele ser o Kassab, isso sim é um grande defeito. Em tempo: não voto na Marta.

  3. Marta não insinuou que Kassab era gay. Se ele foi tão rápido em vestir a carapuça deve ser. E o eleitorado paulistano não é tão intolerante e a imprensa não é tão esclarecida assim.

  4. Amigao
    Bom dia
    É verdade, a Marta não insinuou que Kassab era gay. Ela praticamente afirmou.
    Na Sabatina da Folha de S.Paulo com os candidatos foi feita a pergunta: “O senhor é homossexual?”.
    Resposta: “Não. Existem tantas mulheres querendo casar comigo”.
    O eleitorado paulista, aquela parte que não é petista, está puto da vida com o que considera arrogancia e incoerência da candidata do PT. A outra parte não viu nada demais nas tais perguntas.
    O fato é o TRE tirou a campanha do ar e deu direito de resposta pro Kassab. Ontem só deu ele, o dia inteiro na TV.

    Abração do amigao

  5. Pat e Amigão
    Não, a Marta não afirmou que o Kassab era gay.

    E eu acho lindo quando alguém diz que “O eleitorado paulista, aquela parte que não é petista, está puto da vida com o que considera arrogancia e incoerência da candidata do PT”. Eu apenas gostaria que todo mundo reclamasse assim quando a Marta e a Erundina era achincalhadas em sua vida pessoal por esse mesmo pessoal que agora se mostra indignado.

    E o TRE está errado. Aquele comercial não é caso para direito de resposta. A pergunta sobre situação civil vem dentro de um contexto que não justifica o direito de resposta. O TRE, aí, tomou claramente uma posição política e tendenciosa.

    Agora, me diz uma coisa: vamos todos concordar que a Marta está errada ao entrar na seara da opção sexual do cabeçudinho. Mas o Kassab está certo — caso ele seja gay, o que todo esse auê me faz crer que sim — em mentir ao seu eleitorado e negar que é?

    Então tá.

  6. Transcrição de carta recebida por mim.

    Diante da premissa acima exaustivamente defendida pela senhora e por sua equipe, percebo que tenho a prerrogativa de conhecer, em todos os aspectos possíveis, a candidata que se apresenta para governar a maior cidade deste país, razão pelas quais, indago:

    1) Depois de tantas campanhas e cargos públicos ocupados, não há dúvida de que a senhora é tão ou mais conhecida pelos eleitores que o senador Eduardo, seu ex-marido, razão pela qual indago: Por que continua a assinar Marta Suplicy?
    2) Após separar-se do senador, V. Sa, ao que consta, casou-se (ou tem uma união estável) com o Sr. Felipe Belisario Wernus. Considera ético estar casada com Wernus e assinar Suplicy?
    3) O nome verdadeiro do seu atual marido é Felipe Belisario Wernus ou Luis Favre? Quem é Luis Favre?
    4) Há alguma razão justificável para que a senhora e seu atual marido não divulguem os nomes que constam em seus registros civis? Qual é a motivo?
    5) É verdade que o seu atual marido controla as contas de números 60.356356086 e 60.356356199, do Trade Link Bank nas Ilhas Cayman? Em caso negativo, a senhora ou o Sr. Felipe Wernus processaram quem veiculou a informação? Qual o número do processo e foro onde tramita/tramitou? Em caso negativo, por que não tiveram interesse em esclarecer os eleitores? A senhora confia nas instituições financeiras brasileiras?
    6) Candidata, a senhora acha que a mulher deve sustentar o homem? Mais especificamente, pensa que a mulher deve sustentar o marido se, eventualmente, ele não tiver afinidade com o trabalho? Qual é a atual profissão de seu ilustre marido, candidata? Essa profissão é remunerada? 7) A senhora se envergonha do passado de seu atual marido, candidata? Por que escondeu dos eleitores seu relacionamento com Felipe Belisario Wernus em meio à campanha eleitoral de 2004 ? 8) Consta (foi divulgado pela imprensa) que a senhora se relaciona com Felipe Belisario Wernus desde o ano de 2000. A senhora traiu o senador Suplicy, candidata? A senhora mentiu para os seus eleitores? Como explica a omissão? 9) Qual é a ligação exata de seu marido com o Foro de São Paulo ? E com a Internationalist Communist Organisation (OCI), a Trotskyist party in France (segundo descrição ret irada do blog do próprio Favre)? 10) A senhora é contra ou a favor do Foro de São Paulo ? Costuma participar das reuniões do “grupo” ? Com que freqüência ? 11) É verdade que a senhora mudou a lei para admitir a contratação de estrangeiros, e assim beneficiar seu atual marido e presenteá-lo com salário pago pelo erário publico na função de assessor internacional? 12) A senhora, que já foi Ministra do Turismo, sabe que, ao embarcar, todos os passageiros são obrigados a passar a bagagem de mão pelo Raio X? Como explica ter decidido não passar a sua pela revista, ou seja, burlar a lei, quando, recentemente, embarcava para a China com escala em Paris? A senhora se julga superior aos demais mortais brasileiros, obrigados a cumprir a Lei? Não adianta negar candidata, tenho uma amiga que estava no mesmo vôo. 13) A senhora pretende indenizar os demais passageiros pelo atraso e transtorno voluntariamente ocasionado a eles? 14) A quantas cirurgias plásticas a senhora já se submeteu? Esteve em licença remunerada durante os correspondentes períodos de recuperação? A senhora não se aceita como é? 15) Quais são os seus maiores complexos?
    16) A senhora gosta de apanhar de homem? É verdade que já apanhou de Belisario/Favre? Se é mentira, por que não desmentiu a imprensa?17) A senhora já teve amantes ou casos extraconjugais? Em caso positivo, quantos? Durante o primeiro ou o segundo casamento? Dona Marta, por ser o primeiro questionário, faço apenas essas primeiras perguntinhas, o que não significa que minhas dúvidas param por aqui.

    Atenciosamente,
    Juçara Mazza Zaramella – eleitora paulistana

    Eu gostaria de acrescentar ainda mais duas perguntas:
    1 – Além de sexóloga, a sra. possui alguma formação acadêmica?
    2 – Aquele conselho que a sra. deu aos passageiros aflitos na época do apagão na aviação tem alguma coisa a ver com a sua verdadeira profissão?

  7. Caro Lucas.

    E é esse pessoal, mestres no achincalhe pessoal, como se pode ver por essa carta, que vem fingir indignação com a pergunta da Marta, não é?

    Deviam ter vergonha de achar que têm moral para criticar a pergunta da Marta.

  8. Galvão:

    Vamos com calma. A carta da Juçara Zaramella é uma resposta ao questionamento da Marta em relação a sua condição civil.

    E as perguntas são todas pertinentes. Eu acho que o Kassab tem o dever de responder o que ela perguntou e ela tem o dever de responder cada item dessa carta, uma vez que tudo que está ali é verdade. Afinal os dois pleiteiam cargo público e temos o direito de saber tudo. Lembra da palavra escrutínio? A quarta definição da palavra no Michaelis é “Exame minuncioso”, sacou?

    Nesta você não tem razão.

  9. Existem algumas perguntas simples que podem ser mal interpretadas:
    Dona Marta qual era mesma a verdadeira profissão da senhora sua mãe?
    A mae poderia ser médica mas o contexto poderia induzir a prostituição. As perguntas foram feitas com maldade ambígua.

  10. OK, Santiago. Então o que havia de errado na pergunta de Marta sobre a situação civil de Kassab?

    Escrutínio, etc.

    Por que o auê em torno disso, então?

  11. Galvão,

    Olha, eu sou insuspeito de Kassabismo. Mas a Marta foi babaca to the core, principalmente para alguém com seu histórico.

    Acho que ela teria razão ao perguntar: candidato, o Sr. é homossexual? _ porque algo que não se pergunta em um contexto de privacidade não é necessariamente um assunto que não tem interesse público (por menos que a esfera municipal tenha a apitar nessa seara em particular). A tática escolhida, porém, foi roviana. Há provavelmente centenas de milhares de homens em São Paulo solteiros e sem filhos e que não são homossexuais. Kassab poderia tranquilamente responder “não e não”. Portanto a estratégia não era confrontar o candidato com a necessidade de um esclarecimento público ao seu eleitorado, mas sim a de deixar no ar a suspeita _ o que é quase difamação, penso eu.

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