Personalidade

Ainda não me acostumei a ser personalidade.

Acho que porque esse negócio ainda é novo para mim. Eu não era personalidade até algumas semanas atrás, quando o Pedro Dória colocou este blog na página de Personalidade do seu novo site, As Últimas. Fiquei honrado e envaidecido pela inclusão. Muito, mesmo. O Pedro não imagina o sorriso de orgulho que tomou conta da meu rosto quando vi o nome Rafael Galvão ali. Valeu, Pedro. Estou orgulhoso até agora.

O que me atrapalha é que, até agora, eu não era personalidade nem aqui em Aracaju, cidadezinha litorânea e agradável com cerca de 520 mil habitantes à qual dou minha modesta contribuição evitando sujar muito as ruas. Ninguém me conhece. Ninguém sabe quem sou — eventualmente, se encontro algum amigo no shopping e ele está acompanhado, pode ser que essa sua companhia lhe diga, depois de nos despedirmos: “Ah, eu acho que já vi esse gordinho em algum lugar”. Mas ele dirá porque a cidade é pequena e, como diz uma colunista social badalada nestas bandas, “em Aju tudo se sabe”, e não saberá exatamente quem sou eu.

Por isso é estranho ver meu nome como personalidade. Principalmente, é estranho ver meu nome perto de uma porção de gente boa. Estou tão mais acostumado a ofensas leves, como as que me são dirigidas eventualmente neste blog, que fico com o pé atrás. Pensei em mandar um e-mail para o Pedro perguntando que sacanagem era essa, por que a pegadinha, mas achei melhor ficar quieto — porque vai que foi só um engano e ele tira meu nome dali, e aí, como é que fico? Eu não quero ser como aquele pessoal do Big Brother que vira personalidade por três dias e depois some no mundo sem avisar.

Mas mesmo assim, mesmo com esse estranhamento, decidi que eu tinha mais era que aproveitar esse negócio de ser personalidade.

Quando vi o meu nome ali fui para casa e disse à minha mulher: “Mulher, me trate melhor que agora eu sou uma personalidade”. Ela não me bateu, porque é uma senhora elegante, mas deu uma risadinha e voltou para o Dostoiévski que estava lendo; e então pensei em imitar Raskhólnikov dando um chocolate nas velhinhas usurárias, e me consolei, superior como toda boa personalidade, pensando que ela não sabia do que tinha escapado — porque eu era uma personalidade. E uma personalidade prudente, também: esse povo de Itabaiana, quando não está roubando caminhão, está matando gente.

A essa altura me restava a minha mãe. Ela sempre disse que sou bonito e inteligente, sempre acreditou em mim quando todos duvidavam, ainda que demonstrasse essa fé de maneiras pouco ortodoxas e levemente traumatizantes. Ela repetiu tantas vezes esse negócio de eu ser bonito e inteligente, que eu tinha potencial, que não devia me deixar influenciar pelo que diziam e que toda unanimidade é burra, que acabei acreditando. Imaginei como ela ficaria feliz quando eu lhe dissesse que aqueles anos gritando para que eu tomasse vergonha na cara e fosse trabalhar valeram a pena, que agora eu era uma personalidade. Coloquei o meu Contouré e, bem cheiroso, fui até a casa dela para dizer que aqueles anos tinham valido a pena, mais ou menos como Huckleberry Finn imaginando o orgulho da viúva ao saber que ele se tinha tornado um salteador.

Mas ela está velha, coitada. Acho até que está começando a caducar. “Mãe, eu sou uma personalidade”. E a velhinha começou a gargalhar, e tive medo que ela tivesse um troço qualquer, uma crise de apoplexia, e como sou um bom filho quando não estou batendo nela resolvi que era melhor ir embora. Depois ela me ligou, preocupada: “Meu filho, você deu pra fumar maconha depois de velho? Já não basta a cachaça, Rafael? Onde foi que eu errei?”

Aí falei com minha filha. Pelo menos alguém receberia a notícia da minha novel personalidade com alegria e reconhecimento, e amanhã na escola ela diria “Sabe o meu pai? Ele é uma personalidade”, e as amiguinhas morreriam de inveja e certamente uma delas diria: “É? Pois o meu pai é mais personalidade que o seu!”. Mas as coisas não correram bem assim; ela ouviu, puxou o cabelo para o lado, baixou a cabeça e falou: “Papaaaaaaaaaai, paaaara.” Ela ainda não sabe, mas com essas palavras perdeu a viagem à Disney. Na verdade tinha perdido há muitos anos, que eu não tenho dinheiro para isso, mas pelo menos agora vou ter uma boa desculpa para dar, e vou me mostrar magoado pelo seu desprezo de filha ingrata, e quando ela me colocar no asilo vou fazer questão de lhe lembrar isso nas visitas semestrais. Porque uma das verdades da vida é essa: não basta ser pai, tem que traumatizar.

De qualquer forma, nada disso importa mais. Não são essas opiniões de gente que não entende das coisas boas da vida que vão baixar meu moral. Elas não são personalidades e eu sou, é essa a diferença. Não vou ligar. Tudo isso me ensinou a ser persistente e a não me importar com essas pessoas que se recusam a entender que, afinal, eu sou uma personalidade.

De vez em quando eu ria no trânsito, quando na minha frente estava um táxi com uma inscrição dizendo: “Não tenha inveja de mim: trabalhe”, porque acho engraçada a idéia de ter inveja de um taxista. Mas agora entendo o que eles querem dizer. A sabedoria do taxista — uma variante daquela que o faz estacionar em fila dupla repentinamente — quer dizer que a gente deve ser feliz pelo que é, e não ligar para o que os outros dizem, e lembrar sempre que, mesmo anos depois que este blog tiver acabado e ninguém mais se lembrar de mim, vou poder dizer que um dia eu fui uma personalidade.

13 thoughts on “Personalidade

  1. Ah, larga de ser menina, Rafael. Você sabe que para nós, desocupados que te lemos, você já era uma personalidade bem antes do PD te colocar lá numa seção.

    Santo de casa não faz nem nunca fez milagre: tua mulher preferia que você consertasse o vazamento do banheiro (e talvez aparecesse mais no quarto) em vez de ficar aqui sendo “personalidade”, tua filha, como todas as filhas e filhos (e falo por experiência), te acha um velho idiota (e morre de vergonha se um coleguinha nerd pergunta “Mas teu pai não é aquele do blog?”) e tua mãe não sabe onde errou, mesmo, nossas mães nunca sabem que o erro foi ter dado mole para os nossos pais. Mas isto vai ser assim mesmo se você for eleito a “Personalidade do Ano” do iBest.

  2. Rafael,
    Eu entendo perfeitamente o que você está sentindo, pois já passei por isso. Foi no dia que vi meu nome no Blogroll aí do lado!! Realmente, tudo no mundo parece diferente, e nenhuma emoção se compara à de poder dizer: finalmente, sou uma personalidade!
    Grande abraço, colega do mundo das personalidades, e parabéns, a sua inclusão no ‘As Últimas’ foi mais que merecida!

  3. vamos ao que interessa: ser personalidade dá dinheiro? Paga aluguel e dentista? Se não, desculpa aí qualquer coisa, mas como diz minha vó: “bela robba!”
    Agora sem brincadeira, vc é bom mesmo! Me alegra os dias e olhe que não é fácil!!
    abração

  4. Você tá pondo o carro na frente dos bois. O Pedro Dória vai ser personalidade quando entrar no teu blog-roll. Você não precisa dele…

  5. rapaz, eu me recusaria a ser considerado personalidade. pegaria briga com o pedro dória e ainda sairia resmungando por ele ter me feito essa ursada.

    num país onde participante de big brother é chamado de personalidade, receber essa alcunha é um acinte tão grave quanto xingar a mãe.

  6. Rafael,
    Sujeito que caga para essa merda de politicamente correto. Que escreve puta, puta, puta, puta. Que chama mulher feia de mulher feia. É personalidade! E das boas. Meu irmão mora em Aracaju e é professor em Itabaiana. Quando estiver por aí passeando posso te pedir um autografo. Se você der sorte de estar acompanhado da família, eles começaram a te levar mais a sério. abs, rodrigo.

  7. Rafa, em Aracaju todo mundo se conhece. APOSTO que se um dia fizesse qualquer coisa “nao recomendavel” na cidade, todos saberiam e ainda dariam nome aos burros. Aqui em Sao Paulo, do tamanho que eh acontece isso? Imagina ai…

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