Beatlemania

Um dos posts que comecei a escrever e que nunca terminei ou publiquei, há uns três anos, comparava a Apple Corps, a empresa dos Beatles, a um elefante. Na época todo mundo batia na dita por não ter aderido ao iTunes, por estar perdendo dinheiro com o P2P, essas coisas.

Eu achava que a Apple estava correta. Que não tinha necessidade de correr atrás da última inovação. Se não me engano, eu tinha um título para o post: quando elefantes se movem. Elefantes são lentos, mas seus movimentos nunca passam despercebidos. Por isso eu achava que na hora em que eles se movessem em direção ao comércio eletrônico, depois de passada a primeira empolgação do mercado e depoois de criada uma certa expectativa quanto a eles, eles ganhariam mais dinheiro. Do ponto de vista de mercado, os Beatles não são exatamente o Bon Jovi. Podem se dar ao luxo de criar suas próprias condições. E podem esperar o momento propício, porque quando isso acontecer nada disso passará em branco.

Eu devia ter terminado e publicado o post porque eu hoje poderia dizer: olha, eu sei ver o futuro. Não exatamente, porque a Apple ainda não anunciou o que vai fazer do comércio eletrônico. Ou mesmo se vai fazer: eles estão ganhando um dinheiro danado apenas reempacotando o que já tinham.

O lançamento dos CDs remasterizados dos Beatles ontem virou a grande notícia do showbiz deste ano. Para que se tenha uma idéia, a New Musical Express está distribuindo uma edição com 13 capas diferentes — uma para cada álbum dos Beatles. Gente insuspeita de beatlemania está desesperada pelas caixas com os CDs. A primeira prensagem das caixas já se esgotou. Respeitadas as proporções, é uma nova pequena beatlemania. Nada mal para uma banda que no próximo dia 20 completará 40 anos de morta, embora a notícia oficial só tenha sido dada meses depois.

A máquina de relações públicas dos Beatles é impressionantemente competente.

Mas apesar disso, e apesar de assumidamente beatlemaníaco, até hoje não comprei os CDs dos Beatles. Porque já tinha tudo em vinil e porque me parece muito mais simples (e justo) copiar os MP3 de qualquer canto da internet. Mas havia um outro motivo para não comprar os CDs: eu não gostava do trabalho porco que foi feito com a remasterização (que eles sempre negaram, mas que foi realmente feita) de algumas canções e álbuns.

Para não ser injusto, algumas canções foram bem realçadas, especificamente os da segunda fase — o Magical Mystery Tour pós-1987 tem uma sonoridade geral muito melhor que as disponíveis até então. Feitas as contas, o resultado foi positivo. Mas algumas canções foram massacradas. Quem nunca ouviu o Rubber Soul em vinil não sabe exatamente quão bom é aquele disco, e que em Drive My Car há pequenos trechos que foram modificados. Quem nunca ouviu I Feel Fine no Oldies But Goldies ou naquele álbum duplo vermelho antes da remasterização sequer sabe que os Beatles ficam latindo no final da música. O som do Please Please Me em CD é ruim, metálico, culpa da má masterização dos CDs e muito inferior aos LPs em fake stereo disponíveis até 1988.

A nova remasterização pode resolver esses problemas de violação de cadáveres, e é o que eu espero. Eu estou curioso para ouvir — embora jamais o suficiente para gastar 1500 reais numa dessas caixas. Porque no fim das contas, muito disso que se discute agora é uma grande bobagem. Não há nenhuma música nova; o que se vai ouvir é a mesma coisa que se ouve há quase meio século, apenas com uma qualidade de som um pouco melhorada. No fim dos anos 90, quando relançaram o desenho animado Yellow Submarine, deu para se ter uma amostra de como a sonoridade das canções ficariam. Muito boas, é verdade. Mas continuam as mesmas canções. E agora, com remasterização ou não, elas continuam as mesmas.

Mas depois disso, fica-se imaginando o que restará para ser lançado e chamar a atenção de novos compradores.

Eu apostaria no Let it Be restaurado e com horas de cenas extras. Por pior que seja o filme — e acredite, é um filme realmente ruim –, seria a última coisa realmente interessante que a Apple Corps poderia oferecer aos fãs.

14 thoughts on “Beatlemania

  1. Eu nem reparei que lançaram os discos remasterizados, estava olhando para o outro lado da jogada e acompanhando o lançamento do maior jogo de videogame de todos os tempos, “The Beatles: RockBand”.

    Um abraço

  2. é uma crônica fascinante.

    sem entender lhufas de música clássica eu penso nos PQPBachs da vida comparando maestros e Bach. no meu quintal, perscruto diferenças em bootlegs do Sabbath. nunca esse grau de especificidade foi tão alto, e tão inerentemente inútil.

    tua comparação de edições digitalizadas com o vinil também é muito relevante. cresci ouvindo Beatles no prato (Cadensa) do meu pai, e ouvir em mp3 — ainda aqueles toscos primeiros, um só arquivo pra um disco inteiro, em 128k — eram uma perda enorme. pobre Ringo, que tinha sua bateria esmagada, além das críticas. MAS também li muito moleque no twitter comemorando essa edição remasterizada como quem revive a nostalgia de algo que nunca viveu, e nesse momento acho que esse renascimento da beatlemania tem sim um ápice notório.

    agora, $1500? desculpaê, vou ali chamar meu amigo FLAC.

  3. Hj a Barnes & Noble fez uma promoção de lançamento dessa caixa em uma das lojas aqui vendendo a 200 dólares. Aí acho q dá até pra pensar, não? 😉
    A questão é: será q sobrou alguma na loja depois desse buzz todo?

  4. ontem eu escutei o album branco remasterizado. tá maravilhoso. só conheço o album branco do cd, então não posso falar do vinil. mas a mudança é muito significativa.

    algumas músicas apenas ganharam mais volume (Yer Blues, por exemplo), mas em outras a música se renovou. Os arranjos de ‘Good Night’ antes pareciam datados, artificiais. Agora é um arranjo lindo de cordas. Tb fiquei impressionado com Piggies e Cry Baby Cry.

  5. Um amigo meu pretende comprar a caixa (aqui custa uns 250 euros) e tem uma dúvida básica: deve ele comprá-lo em mono (que é como a gravação original foi feita) ou em estéreo (que, segundo ele, tem qualidade de som muito melhor)? O que você diria? Purismo ou “qualidade”?

  6. Eu diria para ele comprar e me dar de presente, isso sim. 🙂

    É simples: se o sujeito não é fã daqueles doentes, compre a estéreo. Se é daqueles malucos, compre a estéreo e a mono. 😉

    E não é que as gravações sejam originalmente em mono: é que eles lançavam duas versões (com exceção do Abbey Road que só saiu em estereo), e dizem que a preferida deles era a mono. Quando lançaram os CDs, foi essa a versão da maioria.

    Eu prefiro as versões em estéreo.

  7. Rafael:

    Por que todos os cantores, e conjuntos, inclusive os Beatles, cantam e tocam tão bem estúdio e sào tão sofriveis ao vivo?

    Outro dia eu vi uma apresentação do Queen ao vivo e foi patético. O Fred Mercury ainda estava em plena forma (era um show antigo), mas seu desepenho ao vivo assassinou a maior parte dos seus clássicos.

    Por que será que isso acontece?

  8. Serge:

    Nem sempre.

    Há artistas e bandas que funcionam bem melhor no palco do que em estúdio. Exemplo 1: The Who. Exemplo 2: Cream. No jazz inclusive talvez seja essa a regra geral.

    Acho que varia muito.

  9. Fala, Rafael,

    Uma dúvida: você não confundiu os latidos de Hey Bulldog por I Feel Fine não? Ou eles latem em I Feel Fine também? Essa eu não sabia.

    Abraços,

    Luis

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