Adeus ao Pato Donald

É mais ou menos como se, de repente, você recebesse a notícias de que seus avós estão se separando.

Na semana passada, a notícia de que a Editora Abril tinha perdido os direitos de publicação dos personagens Disney no Brasil chocou os fãs mais antigos. A manchete do Planeta Gibi, que deu a notícia, resume tudo: é o fim de uma era.

Eu cresci com esses quadrinhos, e os considero muito melhores que os da Turma da Mônica; enquanto Carl Barks e Don Rosa nos apresentam o mundo, Maurício de Sousa nos regala com as pequenas coisinhas fáceis de um mundo restrito à rua do Limoeiro. Para a Abril, no entanto, esse episódio deve ter um peso ainda maior.

A Abril nasceu com a revista do Pato Donald, em 1950. Victor Civita costumava parafrasear Walt Disney ao dizer que “tudo começou com um pato”. Há uns 20 anos, uma matéria com um colecionador das revistas do Pato Donald no Brasil, no caderno de cultura da Gazeta Mercantil, contava que a publicação do Pato Donald era uma questão de honra para a Abril, algo que transcendia os meros interesses comerciais; tive a impressão de que os Civita viam o Pato Donald como o Tio Patinhas via a sua moedinha número 1. A notícia então se torna ainda mais melancólica. Mesmo sendo a Abril, uma editora cujos desserviços para o país são numerosos demais para contar, é impossível não ficar triste. É um pedaço da história de um bocado de gente que vai embora.

Aí pela segunda metade dos 70 havia umas quatro editoras que publicavam quadrinhos de maneira mais consistente. A Vecchi, com seus faroestes tipo Tex e Zagor e os personagens da Harvey (além da Mad); a legendária Ebal, que publicava entre outros Tom e Jerry, a DC, Epopéia Tri e Zorro; a RGE (depois Rio Gráfica e finalmente Globo, quando a rede carioca conseguiu comprar a Editora Globo gaúcha), que publicava a Marvel, Fantasma e Mandrake, Sítio do Picapau Amarelo; e finalmente a Abril, a melhor de todas, com uma qualidade editorial muito superior às concorrentes e que tinha também a Turma da Mônica.

Uma a uma, essas editoras foram desaparecendo. A Vecchi faliu no início da década de 80. A Ebal agonizou durante anos, e quando fechou já não tinha nenhuma relevância. Em 1985 a Abril parecia ser a dona do mundo: Disney, Mônica, Marvel, DC — tudo parecia estar em suas mãos. É verdade que esse fastígio absoluto não durou muito tempo e logo depois a Turma da Mônica foi para a Globo; mas ainda assim a Abril era a grande editora de quadrinhos do país. No início dos anos 2000 foi a vez dos super-heróis irem para a Panini, e a partir daí a decadência parece ter se acelerado, inexorável.

Mais ou menos nessa época, uma olhada nas bancas deixava claro que os quadrinhos Disney passavam por uma fase muito ruim. A Abril tinha deixado de produzir histórias da Disney já fazia algum tempo, e a qualidade das revistas era muito inferior ao padrão a que ela havia nos acostumado ao longo de décadas. (Curiosamente, foi nessa época que, graças ao Inagaki, descobri Don Rosa.)

Mas de lá para cá a situação havia mudado, e isso é o mais irônico. Parecia que a Abril tinha encontrado uma saída comercial para a crise óbvia no setor de quadrinhos, publicando edições de luxo com o melhor da sua produção e reedições dos manuais que tinham feito a alegria das crianças dos anos 70. Ela tinha se voltado para um segmento mais específico e de maior poder aquisitivo — velhos saudosistas e fãs de quadrinhos, especificamente. Além disso, tinha ressuscitado alguns dos seus títulos clássicos, como Disney Especial e Almanaque Disney, embora sem a qualidade editorial de outrora — o novo Almanaque Disney, por exemplo, não tinha nada a ver com a revista original e era muito inferior.

Eu não faço ideia do que está acontecendo, obviamente. Mas os números dos prejuízos recorrentes da Abril, impressionantes, devem servir de indício. A Abril está em processo de falência há muito tempo, e não para de encolher. O que foi um império simbolizado pelo prédio imponente ao lado da rua do Sumidouro está implodindo de maneira consistente há muitos anos, e quando ela chega ao noticiário é com demissões e “reestruturações”, uma palavra bonita que nunca significa outra coisa que não encolhimento. Normalmente, essas notícias são lamentadas por jornalistas que vêm seu mercado de trabalho encolher, ou comemoradas por quem, como eu, tem verdadeira ojeriza ao papel malfazejo da Abril na política nacional. Mas dessa vez não há nenhum aspecto positivo na notícia.

Porque em tudo isso há um aspecto que não devia passar batido, e que deve ajudar a dar a dimensão real desse acontecimento: nos últimos 68 anos, em nenhum momento deixou de haver uma revista Disney nas bancas brasileiras. Isso não aconteceu sequer nos Estados Unidos, onde a Disney passou alguns períodos sem ser publicada. É isso que estamos perdendo agora. É bem provável que os quadrinhos sejam assumidos por alguma editora — a melhor aposta seria a Panini, que já tem todo o resto, mesmo —, e quem gosta dos personagens que ajudaram a definir a visão de mundo de gerações vai continuar sendo servido, talvez até melhor.

Mas há um pessoal que gostava, também, da Disney na Abril. Talvez porque ver o Pato Donald ou o Mickey numa banca de revistas lhes desse um pouco de segurança e familiaridade em um mundo que não para de mudar e que, nos últimos tempos, passou a desafiar até os mais otimistas. Talvez porque mesmo em tempos de Facebook a desgraça dos outros não seja motivo de regozijo. Eu me junto a eles.

14 thoughts on “Adeus ao Pato Donald

  1. Quando eu tinha 12 anos mais ou menos me lembro de ter lido em um Almanaque Especial a estória “O Navio Pirata Voador” em que (lá vem spoiller!) o tal navio era construído com uma madeira tão leve que esse voava. Era um surrealismo a la Gabriel Garcia Marques em uma revista em quadrinhos, um gibi! Era uma coisa maravilhosa. Eu entrei nessa estória de uma forma tal, que parecia estar participando dela, os personagens chegavam a se mexer na revista. A partir disso li milhares de revistas em quadrinhos do Walt Disney e as aventuras do Tio Patinhas em busca de tesouros e as do Mickey detetive sempre foram minhas preferidas.
    Essa noticia do seu post tem um aspecto crepuscular que da sinais do final que se aproxima a galope.

    • Disney Especial I, “Os Bandidos”, publicado em junho de 72 e reeditado em outubro de 80 — essa foi a que eu li. A do navio pirata era a minha segunda favorita: a preferida era uma em que os sobrinhos do Mickey fogem pra uma ilha pluvial, inspirada em Tom Sawyer. 🙂

  2. Nós tínhamos conta no jornaleiro da esquina. Meu pai colocava um limite semanal e nós quatro decidíamos o que pegar: tudo da Disney, Brasinha, Gasparzinho, Recruta Zero e aquela turma de Pafúncio & Cia., um ou outro da Mônica (que eu era fã do Horácio) e o jornaleiro sorria sorrisos largos. O problema era quando saía algum almanaque, que nos obrigava a escolhas difíceis. Os gibis sobreviventes, trocávamos com os vizinhos por Mandrake, Fantasma e outros.

    A Abril já tinha quebrado nos anos 70. Foi a coleção “Os Bichos” que a salvou. Depois, a moda dos fascículos pegou com o “Vida Íntima” e ela voltou aos trilhos. Brigaram com o Aldo Pereira para não pagar o combinado pelo “Os Bichos”, mas tiveram que engolir o que ele pediu pelo “Vida Íntima”.

    Boa parte da minha vida foi acompanhada pelos produtos Abril.

    • Allan, quebrar nos anos 70? Eu sempre ouvi que os anos 70 tinham sido bons pra Abril, graças à proximidade com o regime militar, a força dos fascículos (que nos anos 50 ela esnobava) e uma estrutura de distribuição excelente.

      Acho que que editoras e jornais sempre viveram no limite da quebradeira. O caso da Abril é um pouco diferente porque é um conglomerado gigantesco que, em alguns momentos, tinha um pé solidamente fincado no mercado educacional.

      • Rafael:
        O Allan deve se referir ao período do lançamento da revista Veja, que foi um estouro nas primeiras edições, depois começou a cair, cair e aí e o Victor Civita, para não desistir da revista nos moldes da “Time”, como sonhava, teve que torrar o que tinha e se endividar mais algumas vezes nos bancos, até que as vendas voltassem a subir e a Veja se tornasse o que se tornou. Realmente o nessa época o abismo esteve perto.

    • Alan:

      Você teve muita sorte. Eu tinha que comprar os meus escondido do meu pai que não gostava que eu lesse gibi. Dizia-se na época. , primeira metade da década de “70, que não era bom pras crianças e meu pai acreditava. Cortei um dobrado por causa disso.

  3. Sim, Rafael. A Abril estava quebrada na segunda metade dos anos 70. Foi nessa época que conheci o jornalista Aldo Pereira (já falecido). Durante dez anos, ele foi o único a me bater no xadrez. Nos tornamos amigos e acabei me tornando amigo do filho dele, que tem a minha idade. Na época ele escrevia “Os Bichos”, apoiando-se em edições estrangeiras. Em seguida, escreveu “Vida Íntima” e mais umas duas séries. Lembro que o Aldo saiu da Abril para a Folha muito chateado. E que a Abril respirou muito, mas muito aliviada.

    Serge, meu pai sempre foi exagerado. Num dia caviar, no outro, sopa. 🙂

  4. Sinceramente, nunca gostei muito do Pato Donald. Sempre maravilhei-me pelo exótico, e até exotérico. Aí, as aventuras das meninas, Madame Min e Maga Patalógica, me ganharam de vez. Vovó Donalda me evocava uma suavidade muito parecida com o que eu queria que fosse sempre o temperamento de minha própria avó, que revezava esse, com o seu oposto. E a sorte do Gastão sempre me intrigou.

  5. Bela crônica.

    Com certeza um dia vão contar a história da queda da editora, mas pra mim que comprava Marvel e DC todos os meses nos anos 80 é estranho pensar que essa editora vai acabar.

    • Achou certíssimo. 😉

      O mais fascinante é ver a reação das pessoas. E a maneira como juntou uma multidão diante da casa quando souberam que seu vizinho ilustre estava lá.

      Agora, eu não sabia que ele nunca tinha entrado na casa depois que se mudou. Sabia apenas de uma história que ele já contou milhares de vezes, que foi até lá e um garoto, que não o reconheceu, ofereceu uma visita guiada, por uma módica quantia, claro.

      • Que bom que você gostou! E achei bem interessante a decoração da antiga casa do Paul, ainda no estilo dos anos 40/50. E impressionante como uma casa proletária daquela época assume ares “vintage”, “cult” nos dias de hoje. De qualquer modo, deve ser uma mansão em comparação com a habitação do Ringo em Dingle. Esse sim, veio do lumpemproletariado…

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