Mais um sobre Jerry Lewis

Assisti nos últimos dias a alguns filmes de Jerry Lewis. Fiz isso porque percebi que fazia mais tempo do que eu imaginava desde sua morte. Na minha cabeça ele tinha morrido há três, quatro meses. Tomei um susto quando vi que foi em agosto do ano passado. O tempo está passando rápido demais para mim, e isso é ruim, mas Jerry foi um dos meus ídolos de infância e agora me percebo um fã ingrato, indigno.

Acontece.

Na verdade, fazia alguns anos que eu não assistia a um filme dele, com exceção de “Max Rose”, de 2013. E fazia muito mais tempo que não assistia a algo que já tinha visto várias vezes, como “Bancando a Ama Seca” ou “Errado Pra Cachorro”.

Então no fim de semana assisti a “A Barbada do Biruta”, “Artistas e Modelos” e “Cinderelo Sem Sapato”. Amanhã assisto a “O Terror das Mulheres”.

“A Barbada do Biruta” eu peguei da metade para o final, em 82. Assistindo a ele sem prestar a atenção devida, concluí que era um filme ruim, talvez porque nos últimos tempos vinha vendo apenas suas obras ruins, como “3 em um Sofá” e, antes disso, “O Fofoqueiro” e “Um Biruta em Órbita”. Eu estava enganado: esse é um dos bons filmes de Martin & Lewis, típico dos seus primeiros tempos, com todos os vícios maravilhosos das apresentações da dupla.

“Artistas e Modelos”, que assisti há quase 40 anos, é outro bom filme, e embora eu não lembrasse de muita coisa, há cenas indeléveis que me acompanham há quase 40 anos, como Jerry pegando um bife na janela (na versão dublada, eu lembro, era filé), e Shirley MacLaine cantando Innamorata para ele.

“Cinderelo Sem Sapato” eu vi em 1999 ou 2000. Achei ruim na época. Mas depois vi críticas boas sobre o filme, a cena da dança na escadaria é antológica, e achei que estava errado, que não lhe tinha dado a devida atenção. Não estava: o filme é muito ruim, mesmo. Passa a sensação de que foi severamente cortado, tirando do corte final elementos essenciais para a compreensão da história, como a transformação dele pelo “fado padrinho”. Além disso, a história de amor é completamente absurda, mal construída e inverossímil; deve ter sido outra vítima de cortes.

Foi coincidência, mas esses filmes, nessa ordem, acabam ilustrando bem a evolução de sua carreira. E me fizeram pensar em algo que eu nunca tinha pensado de verdade: a causa de sua decadência a partir da metade dos anos 60.

Em Dean and Me, Jerry credita sua derrocada ao divórcio entre ele e o gosto do público. Ele está parcialmente certo, mas as causas são muito maiores do que apenas isso, ou pelo menos mais variadas.

A principal é o fato de que, sem Dean Martin, ele foi forçado a crescer, ou (se levarmos em conta o seu ego monstruoso e a certeza da própria genialidade) aproveitou a oportunidade para isso. Do espiroqueta amalucado e anárquico dos filmes da dupla, ele tentou desenvolver uma persona mais complexa, mais hollywoodiana: se tornou mais “ator”. Seus personagens deixaram de ser tão histriônicos, tão naturalmente engraçados, porque ele se viu obrigado a demonstrar um espectro maior de sentimentos e atuação. Talvez não tivesse escolha: basta assistir a “O Delinquente Delicado”, concebido para Martin & Lewis mas filmado depois do rompimento, para ver que aquele modelo só funcionava com aqueles dois indivíduos. (O filme também mostra que Dean tinha razão em juntar os panos de bunda e ir embora:  é um veículo para Jerry, não para a dupla, embora a mutilação do papel que caberia a Martin possa ter sido feita depois da separação.)

O Jerry Lewis mais velho já não podia se permitir o completo abandono de si mesmo em que aquele garoto, que tinha Dean Martin para o controlar, se esbaldava. Ele não era mais infantil, e embora seus personagens sempre apostassem na ingenuidade e na pureza de coração, era a ingenuidade do adulto comparada à ingenuidade da criança: a atitude que desperta nas pessoas a vontade de dar uns tapas, em vez de rir. Não tinha como dar certo por muito tempo.

A isso se junta algo que eu sempre senti, mas nunca tinha racionalizado: fisicamente ele foi mudando muito à medida que se aproximava dos 40 anos. O rosto antes magro e anguloso, adolescente, ficou mais gordo, mais cansado, e ele perdeu aquela pureza transparente e ansiosa que tinha nos anos 50. Mais que isso, seu rosto oleoso e sua expressão passaram a ter algo cansado, cínico, até ruim — o rosto de um magnata do cinema, gasto, vicioso. Ele deixou de ser alguém de quem você gostaria imediatamente. Talvez eu esteja exagerando, mas o fato é que não dava para um homem de 40 anos se comportar como um menino de 8. E acho que Jerry percebeu isso.

Ao mesmo tempo, rever seus filmes dos anos 50 reavivam a sensação de deslumbramento que eu e o público, torcendo nossos narizes para os críticos, sempre tivemos. Sobre isso eu já escrevi aqui, não faz sentido me alongar. “A Barbada do Biruta” traz um bocado desse esplendor. Mas a verdade é que nada pode se aproximar do que esses dois sujeitos faziam no palco.

Hoje qualquer pessoa pode achar suas apresentações no Colgate Hour. Estão disponíveis no YouTube. Dia desses encontrei uma que não tinha visto ainda. E estou maravilhado até agora.

Por isso faço uma aposta com você. Assista a esse vídeo aí embaixo e não ria. Não acredito que seja necessário entender inglês para cair na gargalhada. Mas se você conseguir, volte aqui e eu te pago uma Heineken. Eu preciso ser honesto e avisar que pago, mas vou pensar em você, por todo o sempre, como o personagem de Kevin Kline ouvindo I Will Survive em “Será Que Ele É?”.

6 thoughts on “Mais um sobre Jerry Lewis

  1. Rafael:

    Recentemente eu li uma biografia do Frank Sinatra (Sinatra – O Chefão) em que se fala sobre o fato do Dean Martin dever a sua incrível postura cool a uma doutrinação que havia na sua família, incentivada pelo seu pai, doutrinação essa que pregava que as pessoas da família deveriam se portar de uma forma tal que ninguém de fora do círculo intimo deles pudesse saber nada a respeito das dificuldades pelas quais eles estavam passando, e essas foram muitas. Ou seja, o Mr. Cool era mais gelado do que se podia imaginar.
    Talvez por isso nós, que somos fãs da dupla Martin & Lewis, não tenhamos percebido o sofrimento do Dean com o final da dupla, e também do Lewis, afinal, convenhamos, nenhum dos dois voltou, em suas carreiras solo, a experimentar os píncaros do sucesso que a dupla desfrutou.

    • Só uma correção em termos, Serge, ou melhor, um adendo: enquanto a carreira de Lewis declinava despudoradamente a partir da segunda metade dos anos 60, a de Martin ascendia. Primeiro como parte do Rat Pack, como você lembrou, mas também como ator de westerns. E no final da década ele teve um grande sucesso com a série de Matt Helm, uma paródia dos filmes de James Bond, como o Flint de James Coburn, mas na minha opinião bem melhor. Certamente não era o sucesso dos tempos da dupla no Copacabana, mas era bem maior que o de Lewis.

      • Com o seu adendo me lembrei do sucesso como cantor do Dean Martin que com Everybody Loves Somebody que deu um “caldo” nos Beatles e, segundo a lenda, serviu até para uma tirada de sarro no Elvis com o Dean Martin falando: “viu Elvis, é assim que se faz!”.

  2. Off topic:

    Rafael, acabei de re-assistir aquele pocket show dos Beatles no telhado, o Rooftop Concert.
    Como eu o considero um dos maiores especialistas em Beatles, preciso te fazer uma pergunta: vendo os Beatles naquele show, com aquela alegria evidente e total cumplicidade, demonstrada até nos olhares entre Paul, John e, até mesmo, pelo sorumbático George, cantando afinados como nunca em shows ao vivo (em show ao vivo eles desafinavam um pouco, talvez pelo barulho ensurdecedor de plateia), tocando com toda energia, da pra dizer aquela era uma banda que iria se dissolver em pouco tempo?

    • Serge, eu discordo de você quanto ao desafinamento dos Beatles. Acho que, dadas as circunstâncias (equipamentos insuficientes, ausência de PA e de retorno, milhares de adolescentes molhando as cadeiras, etc.), eles se saíam muito bem. Apenas na última turnê, cansados e de saco cheio, se nota que eles não se esforçavam para nada. Quanto ao resto, respondo com o post de hoje.

Leave a Reply to Rafael Cancel reply

Your email address will not be published.