50 anos depois

Essa é a capa da edição especial da revista Manchete publicada em abril de 1964, comemorativa ao golpe militar.

A capa serve para lembrar qual era, exatamente, o pensamento da elite brasileira em 1964, as razões pelas quais apoiou o golpe, as esperanças que tinha na obediência da caserna.

Ela embarcou alegre na aventura militar golpista porque acreditava que aquela era a maneira mais fácil, ou talvez a única, de tirar do poder um governo não apenas eleito democraticamente — mas, mais importante ainda, referendado no plebiscito de 1963. Acreditava também que os militares apenas fariam o seu papel abjeto de cães de guarda e, derrubado Goulart, lhe entregariam o poder.

A elite carioca, especificamente, depositava todas as suas esperanças em Carlos Lacerda. O tempo passou e as pessoas talvez esqueçam que esse homem, o responsável pela crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas dez anos antes e talvez a principal vivandeira do golpe de 64, foi uma das personalidades mais nocivas da história brasileira. O mal que ele fez ao país é imensurável.

Não satisfeito com o suicídio de Vargas, tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek como presidente em 1955. Depois do exílio na Cuba de Fulgêncio Batista, voltou para ser eleito governador da Guanabara. Foi um bom governador, de acordo com os registros. Melhor ainda para empreiteiras que realizaram obras importantes como os túneis Rebouças e Santa Bárbara. É tentador supor que os moradores da zona norte se encantaram com ele porque acharam que os túneis os tinham transformado em quase moradores da zona sul — mais ou menos como a classe média que hoje não gosta de ver pobres no avião porque eles acabam com a ilusão de que ela é quase rica.

Era esse homem que as elites brasileiras esperavam ver na presidência. Assim como Aécio Neves 50 anos depois, ele apostou na imposição do caos como maneira de chegar ao poder, não importando se, com isso, destruiria as instituições nacionais e criaria uma crise que dividiria e implodiria o país. Lacerda, brilhante como Aécio nunca foi, não teve trabalho para fazer as elites brasileiras, sempre canalhas, acreditarem que os militares entregariam a elas o poder assim que fizessem o trabalho sujo de depor Jango, devolvendo a aparência de normalidade democrática.

Pouco mais de quatro anos depois dessa capa, Lacerda estava na prisão, preso pelo regime que, como poucos, ajudou a instalar. Não viveu para ver o fim do regime militar. Assim como Aécio Neves 50 anos depois, foi engolido pelo monstro que alimentou.

Para as elites, o golpe compensou. Elas receberam seu investimento de volta; elas sempre recebem. Não consta que os ricos tenham deixado de ficar ricos, que as empreiteiras tenham deixado de pagar propinas para realizar obras públicas superfaturadas, que as mesmas estruturas de poder e clientelismo herdadas da nossa tradição ibérica tenham sido modificadas.

Mas as classes médias e os pobres, que apoiaram o golpe acreditando no discurso hipócrita e udenista de combate à corrupção, de medo do comunismo que iria lhes roubar as posses que nunca tiveram, que fizeram seu o discurso dos ricos, desses a história cuidou sem muita compaixão.

Foi essa gente cada vez mais iletrada e ignorante, que se recusa a aprender a lição de meio século de história porque agora tem a legitimação de seus iguais no WhatsApp, gente igualmente estúpida que compartilha suas ideias bovinas e destila a frustração, o despeito e os maus sentimentos de uma classe média ética e moralmente decadente, que ajudou a eleger Bolsonaro.

Mas a história é uma megera, e é também essa gente que agora vê calada o seu paladino Sergio Moro ter sua corrupção exposta enquanto é constantemente humilhado pelo ex-tenente terrorista. Que vê calada o ex-tenente atropelar as instituições para proteger seus filhos corruptos. Que vê calada os seus direitos desparecerem. Que vê calada o país que dizia defender em patacoadas verde-e-amarelas sendo desmontado e humilhado mundialmente — calada em um silêncio cúmplice porque, sempre obtusa, se recusa a admitir que sua estupidez atávica foi a principal causa dessa tragédia que o país vive hoje.

Infelizmente, repetindo a história, ela vai apenas seguir o destino de Carlos Lacerda.

11 thoughts on “50 anos depois

  1. Rafael:
    Você tem muita razão em uma coisa: o Lacerda era um crápula profissional.
    Pena que você esqueceu que só o Wattsapp nunca elegeria o Bolsonaro se a canalhice do Lula, ladrão condenado e cumprindo pena, não tivesse levado os eleitores que votariam no Haddad, a votar no “vamos conter o PT.
    Direita, esquerda, militar; se for brasileiro, é uma merda só.

  2. Galvão, só uma observação: você parece achar que Bolsonaro foi expulso do exército (chamando agora de ex-tenente e antes, em outro texto, de tenente expulso do exército). Essa informação está errada: por mais que Bolsonaro tenha sido um militar de bosta e de fato tenha cometido crime militar, como é de conhecimento geral, ele foi absolvido pelo STM e foi para a reserva por ter sido eleito vereador, já nos termos da atual constituição, promulgada menos de dois meses antes da eleição de 1988.

    • Ele foi absolvido num arranjo comum: eu absolvo, você sai. Tem um livro sobre isso, inclusive.

      • Eu já imaginava que tinha acontecido mutreta, o então ministro da guerra estava dando cobertura a ele e, com tudo que se tinha mão, não seria possível que ele fosse absolvido honestamente. Em todo caso ele não foi expulso, né?

        Fiquei curioso pelo livro. Qual é? Vou dar uma folheada, se for o caso eu leio.

        • Os jornais brasileiros diriam que não. O fato é que foi.

          Qianto ao livro eu não sei o titulo. É recém-lancado. Ouvi ontem uma entrevista com o autor.

  3. Galvão, eu só faria uma ressalva/adendo. É certo que herdamos “estruturas de poder e clientelismo … da nossa tradição ibérica”. Vc não diz isso, mas fica um pouco a impressão de que, se pelo menos não tivéssemos tido essa herança, não seríamos quem somos. Acho isso uma tremenda sacanagem com nossos irmãos portugueses. Eles sempre podem dizer (e já me disseram mais de uma vez) que tivemos quase 200 anos para mudar essa herança. “Culpá-los” por ela depois de tanto tempo é desfaçatez. Principalmente porque Portugal me parece um país bastante civilizado atualmente. Mais uma vez, não estou dizendo que você escreveu isso. Mas vale a pena chamar a atenção para essa “olhada no espelho” que nossos amigos lusitanos nos pedem para fazermos.

    • Isso me lembra um guia português em Queluz. Uma amiga comentou que tudo aquilo era resultado do ouro roubado do Brasil. O guia respondeu: “Quem mandou vocês serem burros e se deixarem ser roubados?”

      Fora essa mania de culpar exclusivamente a gente, com 200 anos de história, pelo que fizeram nos outros 300, o fato é que não seríamos quem somos sem eles — assim como os americanos seriam diferentes sem os puritanos. Herdamos uma estrutura social muito ruim, ponto. A burguesia daqui, como a portuga, é extremamente canalha, colonial, sem senso de nação. A fruta não cai longe da árvore.

      De qualquer forma, que Portugal tão superior é esse? Saíram de uma ditadura ainda maus longa que a nossa há 45 anos. Eram (ainda são?) o país mais atrasado da Europa Ocidental. Eles deviam agradecer ao Brasil pela chance de se sentirem superiores. É a única. 😉

      • Na verdade, nunca estive em Portugal, e só vim a reparar nessa sensação de superioridade quando li textos de sites de jornais portugueses sobre o incêndio no Museu Nacional — até os Orléans e Brangança foram citados. Aparentemente, a narrativa é que os selvagens (em 1822 ou 1889, depende de quem conta a história) se revoltaram contra a civilização e expulsaram seus benfeitores.

        Deve ser consolador ter um tipo de parente em relação a quem se sentir superior. Se o Brasil não existisse, os portugueses tê-lo-iam inventado.

  4. Outras obras importantes que o Lacerda fez foram o Aterro do Flamengo e a Estação de Tratamento do Guandu. Por outro lado, eliminou várias favelas (Praia do Pinto, Pasmado, Esqueleto, etc) e colocou a população pra morar lá no caixa prego, em Vila Kennedy e na Cidade de Deus, pois para a UDN pobre tinha mais é que se danar.

    Lacerda era neto, filho e sobrinho de políticos (o pai e o tio eram socialistas!) e foi comunista na juventude. Saiu do PCB por uma questão de ego e bandeou para a direita. E nunca concluiria o curso de Direito. Mas era um sujeito inteligentíssimo e cultíssimo, orador soberbo, literato, etc. Seu mau caratismo fica evidente no complô para derrubar Getúlio (tem gente que pensa que ele deu o tiro no próprio pé no atentado da Tonelero), na conspiração contra JK e, evidentemente, no complô de 64, onde a ideia era limpar a área para que ele vencesse as eleições presidenciais de 65. Com o AI-5 os milicos se livram dele, que acaba indo para o mercado editorial (Nova Fronteira e Nova Aguilar). Morre em circunstâncias estranhas, como Jango e JK.

    Falta uma boa biografia do Lacerda, um personagem tão rico. A do Foster Dulles (brazilianista, filho do Secretário de Estado do Eisenhower) é maçante e sem grandes análises. O Rodrigo Lacerda, neto do Carlos, escreveu um “romance histórico” chamado “República das Abelhas”, péssimo tanto como romance quanto como relato histórico. O jornalista Mário Magalhães, biógrafo do Marighella, está escrevendo uma bio do Lacerda a ser lançada em 2020 ou 2021. Espero que seja mais satisfatória e que aborde aspectos controversos ou desconhecidos do grande público, como a bissexualidade do Lacerda. Na UDN dos anos 50/60 isso era assunto comentado nos bastidores (parentes da minha avó materna eram membros da seção mineira do partido e esses jovens oficiais sempre com ele em 54, não sei não…). O Luís Nassif, em seu blog, uma vez comentou que o Lacerda estava sendo monitorado por gente infiltrada em sua chácara em Petrópolis nos anos 70 e que haveria uma gravação em que ele canta um jardineiro que era agente infiltrado (https://jornalggn.com.br/cultura/cronica-cultura/trinta-anos-sem-lacerda/).

    O livro “Depoimento”, fruto de uma longa entrevista do Lacerda um pouco antes de morrer, é muito interessante, descontados os ressentimentos, frustrações e contradições do personagem. Está esgotado há mais de 30 anos. Por isso, disponibilizo esse livro para download no link abaixo:

    https://www.dropbox.com/s/7hpswym2r7qsqu1/docslide.com.br_carlos-lacerda-depoimento.pdf?dl=0

    • Eu não sabia das suspeitas de bissexualismo de Lacerda. Quanto ao Aterro, o que me chama a atenção é que uma das arquitetas foi a Lota de Macedo Soares, mulher da Elizabeth Bishop e muito amiga de Lacerda. Tudo entre amigos.

      Sabia do “Depoimento”, mas tudo o que eu tinha visto do Lacerda (fora uma coletânea de crônicas chamada “Uma Rosa é uma Rosa é uma Rosa”, que comprei há muitos anos num sebo do Rio), era uma coletânea de seus discursos parlamentares. Obrigado mesmo por disponibilizar o livro.

      • Sim, Lacerda era muito amigo da Lota. Eram vizinhos em Petrópolis, lá no Rocio.

        Curiosamente, o Lacerda enriqueceu incrivelmente depois da cassação, pois passou a se dedicar full-time à Ed. Nova Fronteira e publicou a obra da Agatha Christie, que a classe média lia avidamente nos anos 70.

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