A destruição do mundo pelos cristãos

Toda religião é deletéria e nociva. As religiões monoteístas derivadas do judaísmo são ainda piores. Mas nenhuma gerou tanta destruição quanto o cristianismo em seus primeiros séculos.

Da primeira vez que fui à Itália, uma das visões que mais me impressionaram foi, no caminho entre Fiumicino e Roma, uma velha igreja católica construída sobre um templo romano. As colunas de mármore em estilo coríntio estavam lá, mas sobre elas tinham erigido uma nova besta, tijolos de argila assentados por uma civilização mais atrasada, uma cultura nitidamente inferior se sobrepondo a algo mais belo. Ali se podia entender como o cristianismo se impôs à cultura romana: através da destruição de todo um mundo e da construção sobre suas ruínas.

A maneira como se deu essa destruição é o tema de The Darkening Age, da inglesa Catherine Nixey, livro interessante que vale a pena por ser lido.

A história que Nixey conta é aterrorizante. Começando pela destruição do Templo de Atena em Palmira, passando pelos mais diversos exemplos de mutilação e destruição de estátuas, ideias e, quando necessário, pessoas, mostrando sua origem doutrinária e terminando com o fechamento da Academia de Atenas (é, aquela de Sócrates e Platão) pelo Código Justiniano, em 532 D.C., ela narra a trajetória da consolidação do cristianismo a partir da tentativa de obliteração não apenas das religiões pagãs, mas também de seus marcos e de pessoas.

Nixey não está no patamar de um Paul Veyne ou mesmo de uma Mary Beard. Seu livro é limitado, com foco excessivamente estreito na crônica da destruição causada pelo cristianismo nos séculos IV e V. Ela não quer ou não pode escrever um livro que tente esgotar o assunto, que aborde com mais profundidade a variedade de fatores que geraram essa destruição. Essa é a grande falha de The Darkening Age: a falta de contextualização e de aprofundamento no processo histórico que possibilitou a consolidação do cristianismo e sua radicalização absoluta e totalitária.

São muitas lacunas, muitas delas no mínimo úteis para que se compreenda apropriadamente o fenômeno da ascensão destruidora do cristianismo. Por exemplo, para um livro que fala tanto em demônios, especialmente em sua primeira parte, não custava lembrar que eles não são um conceito judaico introduzido pelos cristãos na cultura ocidental, mas a vilificação dos daemons que estavam presentes no cotidiano de cada romano. Ao cristianismo nunca bastou mostrar a opção de um mundo diferente: cumpria também dizer que o mundo ao qual forçavam uma alternativa era maléfico, seus valores e crenças eram intrinsecamente perversos. Era necessário destruir o outro para validar-se.

Nixey gasta páginas demais para contar histórias escabrosas de Nero sem nenhum critério, mais ou menos como a fofoqueira que comenta o “mau passo” da filha da vizinha sem se responsabilizar por isso. Há muito tempo nenhum historiador que se dê ao respeito leva ao pé da letra as histórias fantásticas contadas sobre Nero por historiadores como Suetônio e Tácito. Entendem o viés de classe, ou a menos a luta política entre facções, na formação da lenda negativa do sujeito da lira ardente e sua inserção no contexto histórico de um período turbulento de Roma. Mais importante, levam em consideração outras evidências para perceber que há um problema inerente à imagem de Nero quando entendemos que ele foi um imperador tão popular que, depois de sua morte, pipocaram impostores dizendo ser ele em vários cantos do império. Nixey não quer contexto, no entanto: ela apenas apresenta as estórias sem nenhuma ressalva historiográfica, porque fazem leitura saborosa. Nixey é professora de história, mas é também jornalista — o que talvez tenha lhe angariado uma boa vontade excessiva nas resenhas publicadas na imprensa inglesa —, e quem quer que conheça o mau estado atual dos jornais da velha Albion pode entender os padrões narrativos a que ela obedece.

Mas há falhas mais graves do que o deleite em mostrar Nero prestando serviços sexuais a todo um pelotão de soldados. Por exemplo, Nixey se abstém de lembrar que o processo de afirmação do cristianismo foi acompanhado também por vários níveis de negociação e de acomodação com a cultura pagã. O processo de evolução cultural nunca se dá por via única, nem de maneira absoluta. O cristianismo não se impôs de modo tão puro como o registro de suas atrocidades faz parecer. Absorveu muitas das estruturas religiosas do mundo romano — a começar pela criação de uma hierarquia de santos que guarda semelhança quase xerográfica com a lógica da multidão de deuses romanos —, buscou pontos de convergência entre suas culturas, e com o tempo acomodou muitas das práticas que, antes que religiosas, representavam o modo de vida dos romanos.

É a aparente opção por ignorar aspectos mais complexos desse processo, talvez para reforçar a monstruosidade cristã, que introduz a falha mais grave nesse livro: não colocar o triunfo do cristianismo dentro do contexto do Império Romano.

No século V, o Império Romano estava implodindo. A partir de Trajano, havia se expandido muito além dos limites definidos no testamento de Augusto, menos em razão da busca da glória apontada por Gibbon do que pela necessidade objetiva de sustentar Roma, e agora sucumbia ao seu tamanho. Pressões migratórias enfraqueciam o império por todos os lados, e a sua descentralização cobrava um preço alto. As legiões romanas, antes temíveis e uma das mais fantásticas unidades bélicas da história, agora eram compostas pelos povos que ajudavam a dominar, o que fazia mais difícil e complexa a imposição da pax romana. Se tornara impossível impedir as convulsões sociais causadas pelas necessidades de tantos povos diferentes — cidadãos romanos desde o Édito de Caracala —, e que levariam ao melancólico destino do pobre Rômulo Augusto. Não custa lembrar que Odoacro era cristão.

Aquela era uma civilização em crise, tanto material quanto ética. E nesse contexto, a mensagem cristã — milenarista, salvacionista, austera, fortalecendo-se sobre a ideia de culpa e de negação de qualquer tipo de prazer — encontrou um campo fértil. As pessoas viam o seu mundo ameaçado e tinham medo. Jesus Cristo e sua mensagem de auto-justificativa e perdão a si mesmo se tornavam, cada vez mais, uma opção atraente.

O cristianismo cresceu utilizando a seu favor o medo e a intolerância: o momento histórico ajudava a tornar suas ameaças e promessas mais eficientes, até desejáveis. Explicar esse contexto ajudaria os leitores a compreender melhor como a cristianismo gerou a Idade Média.

Talvez fosse recomendável, também, lembrar que a ascensão do cristianismo se deu de baixo para cima. Cresceu primeiro entre a patuleia, entre os mais ignorantes, desesperados e crédulos, e certamente carregou em si muito da visão de mundo e dos preconceitos dessa camada social. É difícil não ver na ascensão do cristianismo também uma resposta de classe, com seus ressentimentos, seu desejo de vingança e de acerto de contas, seus recalques e a vontade de impor uma visão de mundo condicionada pela escassez material e pela indigência intelectual. Qualquer brasileiro que tenha passado pelas eleições de 2018 poderia compreender o que isso significa.

Mas esse não é o livro que Nixey quis escrever. Seu escopo é muito mais modesto, e ela se concentrou na crônica da destruição. Delineados os seus limites, o que resta é um relato competente e bem escrito de uma história fascinante, ainda que aterradora.

É uma história de fanatismo, ódio, ressentimento, de crueldade pia.

A fúria destruidora dos cristãos dificilmente encontraria paralelos hoje em dia; mesmo o Talibã e o Estado Islâmico, adeptos entusiasmados da destruição de monumentos heréticos, não chegam sequer perto do nível de destruição alcançado pelos cristãos a partir do momento em que tiveram respaldo estatal, com a conversão de Constantino. O linchamento de Hipácia de Alexandria é contado aqui com detalhes, e serve como símbolo do ódio misógino do cristianismo ao conhecimento e à liberdade.

Uma após a outra, Nixey nos apresenta as ideias e ensinamentos assustadores dos primeiros grandes doutrinadores cristãos. São João Crisóstomo, Orígenes, Santo Agostinho e São Jerônimo têm seus textos citados como o que também eram, anúncios e chamados a um mundo diferente: sombrio, odiento, negativo. Aqueles que tentam convencer o mundo de que as tragédias causadas pelos cristãos são obras de indivíduos, e não resultado da religião em si, encontrariam dificuldades em justificar as palavras de seus pensadores. “Não há crime para quem está com Cristo”, disse São Shenoute, e nisso pode-se resumir sua filosofia. Para salvar almas, era válido destruir os corpos dos infiéis; o cristianismo se tornou exatamente o que seus doutrinadores queriam que ele se tornasse.

Nixey dedica ainda alguns capítulos aos ascetas e eremitas que formaram a lenda cristã. São trechos saborosos, em que ela demonstra que grande parte das tentações e das visões desse pessoal se devia basicamente a coisas tão prosaicas como a fome auto-inflingida, e que se tornam ainda mais pitorescos em um tempo em que a humanidade recuperou alguns dos valores hedonísticos que eles tentavam destruir. Para um pobre eremita que não come direito há semanas, é quase inevitável dizer que ele só pensa em enfiar os dentes num pernil de cordeiro, aquela imagem desgraçada que não lhe sai do pensamento e atrapalha cada Pai Nosso que ele tenta repetir, por causa das tentações do diabo. Nixey fala de gente que passou a vida se vestindo com andrajos e abdicando de qualquer noção de higiene, gente que realmente acreditava que não tomar banho lhe colocava mais perto de Deus Nosso Senhor — um ser tão superior que sequer tem olfato. Fala de gente que fez da hipocrisia um modo de vida, que acreditava nas mentiras que contava, de gente que encontrou na religião uma maneira fácil de justificar a sua existência e sublimar sua vaidade apostando na conquista de algum tipo de reconhecimento em uma outra vida. E que eventualmente transformava isso em perseguição ao resto da humanidade. Afinal, “a perseguição pela Igreja é um ato de amor”, dizia Santo Agostinho.

A negação do prazer e do desejo, o ódio à tolerância — exemplificados na instituição da pena de morte a todos os que fizessem sacrifícios religiosos, na rejeição à boa cozinha ou na criminalização do homossexualismo no século V por Justiniano —, o ódio à arte e a disposição para matar e torturar em nome da piedade definiram o cristianismo e pautaram a existência de seus seguidores e a civilização que eles criaram. Santo Agostinho é o pai carinhoso de São Tomás de Torquemada.

No fim das contas, tudo isso geraria um período de atraso que o Ocidente precisaria de mais de mil anos para superar.

Nixey ajuda ainda a derrubar um mito antigo mas persistente. Ela lembra que embora a Igreja seja louvada pela preservação de tantos textos da Antiguidade, o fato é que ela é responsável, ainda mais, pela obliteração de um volume muito maior. A censura eclesiástica condenou ao esquecimento e à destruição boa parte da produção filosófica e literária da cultura greco-romana, ao escolher preservar essencialmente o que estava de acordo com os preceitos da Santa Madre, ou ao menos não a ofendia em demasia. Foi graças às escolhas discricionárias de monges progressivamente mais ignorantes que o mundo se viu privado de 90% do que o mundo clássico produziu de mais notável. Essa dívida o cristianismo jamais poderá pagar.

The Darkening Age serve também para lembrar que a queda do império romano não é a mesma coisa que a obliteração da cultura clássica. Roma implodiu, os cristãos destruíram templos e mutilaram estátuas, celtas e pictos botaram os romanos para correr da Britânia; mas os reinos que os substituíram eram cristãos. Foi no campo das ideias que os cristãos levaram o mundo ocidental a um retrocesso cultural sem precedentes na história mundial. O fim do império romano não é a mesma coisa que, por exemplo, a substituição da Inglaterra pelos Estados Unidos como grande potencia mundial. É o fim de uma era e de uma civilização. E para que isso fosse possível, primeiro foi necessário destruir o pensamento e os símbolos romanos — que, por sua vez, sintetizavam tudo o que de bom e ruim o Ocidente tinha produzido até então.

Ultimamente tem aparecido gente para dizer que a Idade Média, afinal de contas, não foi uma era tão sombria. Com todas as suas limitações, o livro de Catherine Nixey serve para colocar as coisas em seu lugar: foi, sim, uma era de trevas e de retrocesso inédito. Não foi o resultado de uma hecatombe, como a destruição da Biblioteca de Alexandria, ou as mudanças climáticas que aparentemente causaram o fim da civilização maia, ou os 168 espanhóis de Pizarro chacinando 20 mil soldados do império inca; foi o resultado de um processo lento, constante e consciente de obliteração de uma série de conquistas da humanidade. Tudo isso em nome de Deus. O maior mérito de The Darkening Age é justamente mostrar que o advento do cristianismo interrompeu o processo civilizatório no Ocidente. Pagamos por isso até hoje.

7 thoughts on “A destruição do mundo pelos cristãos

  1. “Não há crime para quem está com Cristo”, porque isso me lembra um certo político, “o homem mais honesto do mundo” que está cumprindo pena, mas se diz injustiçado, porque roubou um bilhão, mas tirou 20 milhões da linha da pobreza?
    Talvez por isso o que está descrito no início do seu post me pareça com a gênesis do que viria, após a Revolução Francesa, ser conhecido como esquerdismo.

    • Rapaz, me lembram mais o pessoal que votou em Bolsonaro, ou o pessoal que continua achando que Moro e Dallagnol tinham razão em passar por cima da lei pra ferrar Lula…

  2. Até num texto que resenha um livro sobre religião eles veem o Lula… Eu acho que o problema dos coxinhas em relação ao barbudão é de cunho sexual.

    • Cristãos. Pelo número altíssimo de seitas diferentes, e pelo fato de que era assim que eles se viam. Católicos, protestantes, ortodoxos, tudo isso vem depois.

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