The Beatles: Get Back

Get Back é a melhor coisa que os Beatles lançaram nos últimos 25 anos, a única realmente fundamental e necessária.

Depois do projeto Anthology a Apple Corps vem lançando uma série de caça-níqueis indignos da estatura da banda: raspas de tacho gourmetizados pela remasterização ou filmes canalhas como Eight Days a Week, em que obliteram de sua história Pete Best, o 4º beatle, e se dão ares de grandes responsáveis pelo fim da segregação racial nos EUA.

Uma esfinge significativa, no entanto, ainda restava: as filmagens de janeiro de 1969 que resultaram no filme Let it Be.

Sempre houve algo de realmente especial, ainda que por incômodo, no Let it Be. Mesmo restaurado há décadas, seu relançamento era constantemente adiado. Para os beatles restantes o principal motivo era óbvio: o desconforto diante do registro do que agora sabiam ser o fim do ápice de suas vidas. Mas sempre se soube também que mais cedo ou mais tarde ao menos um Let it Be restaurado, e talvez ampliado, viria à tona, ainda que só depois que os remanescentes envergassem seus terninhos eduardianos de madeira.

O que Peter Jackson entrega agora é muito superior a todas essas expectativas.

O áudio desse material bruto está disponível na internet há muito tempo. O blog A Moral To This Song vem transcrevendo há anos vários trechos dessas fitas, e especialmente o primeiro episódio de Get Back chega a parecer estruturado a partir das seleções feitas pelo blog. Para o fã mais acirrado, não há propriamente muita novidade na informação bruta; e ao mesmo é tudo novo, agora, porque as imagens dão materialidade ao que se ouvia, possibilitam interpretações mais acuradas, e a excelente editoria desse material fornece um guia competente para o espectador. Jackson fez um trabalho excelente de curadoria, agindo com um método simples: contar a história da maneira mais completa possível, sem tentar adicionar o seu “toque pessoal”.

Eu esperava que ele ampliasse o Let it Be original, acrescentando material inédito e corrigindo a narrativa estranha legada pelo diretor Michael Lindsay-Hogg, o 29º beatle. Mas Jackson, que já pode ser considerado o 14º beatle, foi mais sábio do que isso. Partiu do zero, adotando uma narrativa linear e deixando que o desenrolar dos fatos criasse a tensão narrativa necessária, o que faltava no Let it Be que, afinal de contas, deixava a impressão de não ser mais que um amontado desconjuntado de momentos ruins. Claro, Get Back é informado pelo filme original, embora Jackson tente ao máximo evitar cenas já usadas, a não ser quando é realmente impossível.

Mas sua grande conquista, mesmo, foi escapar de duas armadilhas — reprisar o baixo astral enganador do filme original ou transformá-lo em outro conto de fadas chapa-branca, adequado ao esforço de edulcoração de sua biografia empreeendido pelos ex-beatles. Hoje é possível afirmar que Scorsese, há décadas o meu indicado para o serviço, não faria trabalho melhor.

Para quem tem interesse apenas superficial nos Fab Four, o documentário provavelmente é cansativo. São quase oito horas de imagens e músicas incompletas de uma banda que tem um prazo final a cumprir mas não consegue descobrir, em nenhum momento, o que fazer. Cinquenta anos atrás, um filme como esse seria impossível. Mas o tempo não parou, como aliás costuma fazer, e nesse intervalo um novo gênero se afirmou no imaginário das pessoas: o reality show. Décadas de exposição da patuleia a espiadas na intimidade alheia pelo buraco da fechadura possibilitaram que aquilo que era apenas um documentário reencarnasse em algo totalmente imprevisto, uma espécie de Big Beatles Brother. E o triste estado da música mundial permite que esse material tão velho adquira um frescor impensável até mesmo em seu tempo.

Para fãs de longa data, no entanto, o filme não é apenas uma delícia visual, musical e histórica: ele traz algumas surpresas.

O primeiro vai além de comprovar o que sempre foi óbvio: que Michael Lindsay-Hogg não tinha a experiência e o talento necessários para fazer aquele filme. Mas o que Get Back mostra é que sua participação foi ainda pior: foi nociva e deletéria.

Em defesa de Lindsay-Hogg pode-se dizer que o projeto original era irrealizável. Os Beatles estavam esgotados depois da maratona de gravações do “Álbum Branco”. Sair do zero e em dezoito dias aparecer com catorze novas canções, e azeitada o suficiente para dois concertos, era virtualmente impossível até mesmo para uma banda como aquela, e disso ele não tem culpa. Assim como eu, o 37º beatle, Lindsay-Hogg (que alega ser filho bastardo de ninguém menos que Orson Welles) sempre viu o Let it Be como uma história de superação, com um final feliz. Mas isso se dá não por seus esforços e habilidades como diretor, e sim porque nem ele conseguiu subverter totalmente a cronologia dos fatos. Nada disso, no entanto, o redime da culpa por editar um filme cuja mediocridade Peter Jackson agora esfrega em sua cara: quer dizer que ele tinha todo esse material à disposição e só conseguiu fazer aquele filme horroroso? Vergonha, vergonha, vergonha eterna.

Mas foi ao aceitar algo que estava obviamente além de sua capacidade, ao botar constantemente lenha na fervura da panela de pressão em que aquilo se tornou, ao esquecer o seu papel de diretor e tentar se imiscuir na relação já complicada de Lennon e McCartney, ao aparecer com ideias mirabolantes e impraticáveis para complicar ainda mais a situação, Michael Lindsay-Hogg em sua tentativa de ser o 9º beatle foi parte ativa no processo de desintegração da banda. Ele vai entrar na história como o sujeito que disse a Linda McCartney, a 29ª beatle: “Eu sou mais fã que você”. Tenho certeza de que Lennon, se estivesse ali, teria perguntado na hora: “Mas Paul também come você, fio?” (E fã mesmo era Maureen Starkey, roqueira raiz e proto-headbanger, como se vê mais adiante.)

Jackson também corrige uma grande injustiça histórica ao dar o destaque merecido a Mal Evans, o 7º beatle. A história de Mal é talvez a mais triste de todas as que cercaram essa aventura. Absolutamente dedicado à banda, depois do seu fim Mal zanzou pela vida até ser morto pela polícia num quarto de hotel em Los Angeles, seis anos depois. O “brother Malcolm” aparece proeminentemente aqui, inclusive dando uma de suas legendárias contribuições às letras de McCartney. Seu papel na história finalmente é devidamente registrado, e esse é um reconhecimento devido há muito tempo.

Uma das melhores coisas do filme é que agora é possível avaliar com clareza o papel real de George na dinâmica da banda. Para desgosto dos millenials que acham que George Harrison era quase um Paul McCartney, Get Back deixa claro que embora importante para a banda, George sempre foi uma figura secundária no que diz respeito à sua direção musical. Ele sempre foi o terceiro, muito longe da simbiose conhecida como Lennon/McCartney. O que o filme mostra é que agora ele está cansado disso, adotando uma postura passiva-agressiva de rebeldia. Ele simplesmente não quer mais ser tratado como PCD.

George reclamava muito da vida, mas observando bem, sua contribuição autoral naquelas sessões foi pequena, maior apenas que a de John — sendo que este tinha a desculpa de estar atoleimado pela heroína. Harrison apresentou apenas quatro músicas completas: I Me Mine (que John, ao ser apresentado a ela, disse ser apenas um bom jingle, o que infelizmente não aparece no filme), For You Blue, Old Brown Shoe e All Things Must Pass. E aí a gente se pergunta: ele reclamava de quê, afinal? I Me Mine e For You Blue, duas canções medíocres, foram para o álbum. Old Brown Shoe virou lado B de compacto. E foi ele quem retirou All Things Must Pass da fila, talvez já pensando em seu disco solo.

Sua saída da banda é mais bem explicada, finalmente. Durante meio século se achou que isso tinha acontecido no dia da discussão entre Paul e George sobre a guitarra de I’ve Got a Feeling; só se discutia se tinha sido por causa daquilo ou por uma discussão feia com Lennon na hora do almoço. As datas agora estão corrigidas.

(O filme corrige também um erro deste blog: eu tinha postado um vídeo de uma jam tenebrosa com Yoko — mostrada em Get Back de maneira ainda mais resumida — como se fosse da tarde daquele dia; na verdade ele é posterior, já no estúdio da Apple. Mas infelizmente deixou de fora algumas coisas importantes. Por exemplo, Lennon se perguntando diante de McCartney se, afinal, queria mesmo que George voltasse. Ou o processo de criação de Dig It.)

Por outro lado, é assustador ver a genialidade de McCartney em ação. Dia após dia, diante da pressão e do prazo exíguo, McCartney trazia um novo clássico. Essa capacidade de criação, com tamanha qualidade, é absolutamente sobrenatural. É inexplicável. McCartney acaba emergindo de Get Back como o grande gênio da banda e talvez o maior gênio musical da segunda metade do século XX. Se essa impressão é tendenciosa, já que naquele momento Lennon estava ainda mais ausente de alma que de corpo e isso naturalmente muda a natureza de sua relação, não deixa de ser verdadeira. Paul McCartney é um gênio, e não se fala mais nisso.

Mas um gênio que enfrenta problemas bem comezinhos. Em 1981, depois de ler uma declaração de Yoko dizendo que ninguém magoou tanto Lennon quanto ele, McCartney ligou para Hunter Davies, o 25º beatle, para desabafar: e as vezes em que Lennon o tinha magoado? Lennon, segundo Macca, podia ser “um escroto manipulador”. O filme traz exemplos magníficos de ambas as acusações. Lennon espera McCartney sair para contar aos outros colegas que tinha ido encontrar com o empresário Allen Klein, angariando poder político suficiente para enfrentar McCartney posteriormente. Ali se vê o nascer da última crise que levaria a banda ao fim.

E é em uma gravação de Oh! Darling que o drama daqueles dias está mais claro. Paul no baixo, John no piano. Um olha para o outro, felizes com o que adivinham estarem fazendo. Mas então Yoko Ono, a 23ª beatle, se senta ao lado de John, e então a expressão de McCartney muda completamente. Diferente de George, que nunca escondeu sua irritação d, McCartney era o maior defensor de Yoko na banda, menos por convicção do que por uma tentativa de acomodar o que percebia ser inevitável; mas se sabia o maior perdedor.

Em outro momento, no dia seguinte à saída de George da banda e temendo que Lennon tivesse seguido seu exemplo, não dá para ver McCartney tentando conter o pranto diante da possibilidade que a banda tenha acabado — nem tanto por George, mas por Lennon — sem entender claramente o que ele sentiu. Esse é, talvez, o momento mais pungente de todo o filme: “And then there were two”.

Esse é o outro lado do que mais impressiona no filme: a história de amor entre John Lennon e Paul McCartney. Ali é possível ver, como nunca antes o nível de sincronia em que os dois estavam. A maneira como um entende o outro, como operam quase sempre na mesma frequência, como embarcam facilmente nos esboços de ideias do outro e os levam adiante, é impressionante. É justo imaginar que seria ainda mais, estivesse Lennon em melhores condições.

Get Back é isso: um ajuste de contas dos Beatles com o seu capítulo final, feito de maneira digna e à altura da maior pequena banda da história do mundo. Um fim digno para a maior epopeia musical do século XX. Não se pode querer mais que isso.

9 thoughts on “The Beatles: Get Back

  1. Tendo lido seu texto, fiquei animado pra ver o “Get Back”. Quem sabe meu trauma de décadas com o “Let It Be” é superado…
    E eu sempre achei o Macca o melhor, tanto como compositor quanto como músico. Ele extrapola o rock, estando no mesmo nível dos gigantes do jazz e da Tin Pan Alley.

    • Wagner, se você conseguiu assistir ao Let it Be, Get Back vai ser um passeio. Assista, vale realmente a pena.

      Eu também sempre achei McCartney superior. Há décadas. E mesmo assim, fiquei surpreso com a facilidade com que o sujeito tirava clássicos da cartola, dia após dia. Isso não é normal.

      • Tá separado pro recesso de fim de ano. O “Get Back” e o novo filme do Paolo Sorrentino. Um abraço!

      • Eu acho que o Paul será eterno, como um Cole Porter. Suas composições são atemporais. Lennon talvez tenha captado melhor o zeigeist, daí seu maior impacto nos anos 60-70 (embora ele também tenha escrito coisas mais atemporais como a belíssima “In My Life”).

  2. Rafael:
    Eu, que adoro ensaios, achei muito legal ver o John e o Paul, principalmente, começando a vocalizar as músicas que hoje conhecemos já na sua forma definitiva, ainda sem forma, as vezes começadas meio fora do tom, do ritmo e sem a divisão rítmica que teriam na sua forma definitiva. Eu ressalto isso porque hoje que já conhecemos as canções na sua forma definitiva e maravilhosa, não temos ideia do talento, paciência e competência necessárias pra fazer uma obra de arte sem a menor referência. Coisa pra legítimos gênios.

    • O que mais me impressionou nesse aspecto foi a dinâmica da relação entre os dois. A maneira como um entendia com um olhar o que o outro queria, e a maneira como eram capazes de dar um passo a frente, um realimentando o outro. E aí vem Yoko. 🙂

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