Nossos campos de concentração

Costumamos falar da hipocrisia americana em relação à liberdade; não cansamos de execrar o racismo deles.

E no entanto a gente esquece dos campos de concentração que Brasil criou durante a II Guerra Mundial, como Tomé-Açu para os japoneses, e no resto do país para alemães e italianos. Em Pernambuco foram forçados a trabalhar nas indústrias da família Lundgren, aquela das Lojas Pernambucanas.

Os americanos perseguem, mas depois discutem o assunto. A gente persegue e depois todo mundo finge que não aconteceu nada. Afinal, este é o país da tolerância, onde todos somos iguais.

Pobres meninos ricos e a ética protestante do trabalho

A Veja desta semana traz uma matéria sobre um documentário de um dos herdeiros da Johnson & Johnson. O documentário ridiculariza os pobres meninos e meninas ricos, cuja vida excessivamente fácil os leva a existências vazias e sem propósito.

Moral da história: só o trabalho dignifica o homem.

Parece que a ética calvinista nos contaminou a todos. Uma vida só é válida se é economicamente produtiva. Não trabalhar, não fazer parte da cadeia econômica é uma desonra e uma humilhação.

O mundo chegou a um estado lamentável, pelo visto. Porque se puxarmos um pouco pela memória, vamos lembrar que o ócio já produziu a melhor parte do conhecimento nos séculos anteriores à revolução industrial. Montesquieu não dava expediente em um escritório.

A combinação de ócio e dinheiro pode resultar em belas coisas. Pode dar grandes mecenas, como no passado; pode tornar possível a alguém realizar grandes feitos, de qualquer tipo. Ou alguém pode simplesmente se dedicar à contemplação, a compreender a vida. Ninguém mais tem tempo para isso.

Além disso, por que trabalhar, se não é necessário? Isso é tão lógico. No entanto, por causa daquele alucinado do Calvino, as gentes se consomem em culpas e falta de propósito, como se simplesmente viver não oferecesse propósito suficiente. Um dos milionários do documentário resolveu sua crise existencial indo suar num campo de petróleo durante dois anos. Isso quer dizer que, provavelmente, um pai de família passou dois anos sem ter como colocar comida na boca de seus filhos simplesmente porque um desocupado resolveu ter pruridos de consciência.

Eles parecem não compreender a profundidade da frase de McCartney: “Eu quero dinheiro. Dinheiro para não fazer nada, e dinheiro para o caso de querer fazer alguma coisa”. Para eles, o dinheiro não é libertação. E essa é a maior ofensa que se pode cometer contra o capital.

Por incrível que pareça, quem deu mais indícios de ter compreendido essa verdade foi o pai do diretor, que a reportagem da Veja ridiculariza como “um sujeito alienado que passa os dias pintando”. Em nenhum momento, quando o filho perguntou o que fazer da vida, ele apelou para um medíocre “vá trabalhar”. Sua sugestão foi a de um esteta: “colecione documentos raros”. A verdade é que esse senhor “alienado” compreendeu que a sua condição lhe possibilita fazer algo maior e mais abstrato pelo espírito da humanidade, livre dos grilhões da necessidade de subsistência.

É por isso que durante muito tempo fui fã de Jorginho Guinle. Vi uma entrevista dele ao Roberto Ávila, no fim dos anos 90. Já quebrado, sem dinheiro, ele não demonstrava nenhum arrependimento por ter esbanjado toda a sua fortuna. Em sua cara, parecia estar escrito: “Vivi como quis, uma vida que ninguém teve”. O dinheiro podia ter ido embora, mas foi embora com uma suavidade e uma joie de vivre que um Antônio Ermírio de Moraes, por exemplo, jamais vai ter.

Mas talvez o que tenha me deixado realmente fã do sujeito foi a constatação de que ele não tinha nada de especial. Não era brilhante, não era bonito, era um sujeito até meio apagado. Era um nada. Devia sua vida espantosa ao simples fato de ter dinheiro e não sentir culpa em se aproveitar disso. Sua honestidade era contagiante.

Dia desses vi uma declaração em que ele finalmente demonstrava um laivo de arrependimento. Diz que errou os cálculos de quanto ia viver, gastou tudo antes do que devia e hoje almoça de favor no Copacabana Palace. Há agora um travo de amargura em suas palavras.

Ah, Jorginho, você podia ter resistido um pouco mais.

Ata de fundação da Brigada Humphrey Bogart

The Lancet, jornal médico inglês famoso em todo o mundo, pediu em editorial que a Inglaterra proíba definitivamente o cigarro em terras do Príncipe Tampax.

É claro que cigarro incomoda os não-fumantes, e a maioria dos tabagistas tenta chegar a um meio-termo na convivência com o resto do mundo. As exigências de não fumar em lugares fechados, e outras do mesmo tipo, são razoáveis e justas.

Mas o rebaixamento do cigarro ao mesmo nível legal da maconha é um abuso que não pode ser tolerado. O principal argumento contrário é que isso, em primeiro lugar, cria um mercado imensurável para o crime. E eu, pelo menos, não consigo me imaginar subindo o Pavão-Pavãozinho para comprar um maço de Kent, provavelmente falsificado no Paraguai e custando 5 vezes mais.

O mais preocupante, mesmo, é que essa perseguição cria um precedente perigoso no cerceamento da liberdade individual, o que parece cada vez mais comum na era Bush. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vão probir homossexuais de fazerem sexo; e vão arranjar alguma razão científica para isso.

Se o pedido viesse dos EUA não seria uma surpresa tão grande. Uma terra que começou a ser colonizada por gente que se recusava a deixar de perseguir os outros só podia ser assim. Essas atitudes histéricas são típicas dos puritanos, de gente que tem uma visão de vida e exige que o resto do mundo compartilhe dela. Eles não têm mais católicos e judeus para perseguir, japoneses são ricos demais, então restariam os tabagistas, essa escumalha de desgraçados fedorentos.

O que não se poderia esperar é que essa atitude viesse justamente da velha e civilizada Europa. Mas cada vez mais os bretões, em tempos idos um povo orgulhoso e altaneiro, se resignam em ser capachos de sua ex-colônia. Tudo bem. Cada povo tem o destino que merece. Um povo que não gosta da França só podia dar nisso. Não é à toa que uma ex-ministra francesa disse que 1 em cada 4 ingleses dá ré no quibe. Só pode ser falta de mulher bonita. É o clima horroroso. É a comida insuportável — o que dizer de um país cujo prato nacional é o peixe com fritas? Esses desocupados deveriam continuar fazendo suas pesquisas bisonhas sobre o id das baratas em vez de vigiar os pulmões dos outros.

Bem, é melhor parar com isso. Pequenas ofensas e deboches não valem a pena, neste momento em que a liberdade está seriamente ameaçada.

Se é guerra que querem, guerra eles terão. E começo por anunciar, aqui e agora, a fundação da Brigada Humphrey Bogart.

A Brigada Humphrey Bogart será um grupo de tabaco-terroristas, que se quer financiado pela Souza Cruz e pela Phillip Morris, cuja missão é defender a liberdade do consumo de nicotina em todo o mundo. Será baseado em Paris, terra dos Gitanes e dos Gauloises e da Juliette Binoche, e dedicará sua vida a ações terroristas contra esses governos totalitários, inimigos da liberdade e patronos da estupidez persecutória.

Inspirados no velho “Anauê!” dos integralistas, já temos o nosso grito de guerra: “Cof, cof!”. E nada, nem mesmo um enfisema, conseguirá nos impedir de derrotar a opressão.

Os biriteiros derrubaram a Lei Seca nos Estados Unidos. A Brigada Humphrey Bogart defenderá o direito de centenas de milhões de fumantes de exercerem a sua plena liberdade.

E se a guerra recrudescer, estaremos preparados para tudo. Até para atos vis como dar cigarros a criancinhas.

Avante, fumantes de todo o mundo!

À vitória!

Mainardi

Não sei a razão, mas no meu clã não há deficientes físicos. Por outro lado, talvez por alguma lei divina de compensação, a esmagadora maioria é deficiente mental.

Mesmo assim, mesmo sem ter convivido de verdade com essa situação, deu para sentir exatamente o que o Diogo Mainardi sentiu ao tentar matricular seu filho numa escola aqui no Rio, episódio que ele relatou em sua coluna na Veja desta semana e onde, felizmente, dá nome aos bois.

Não gosto do Mainardi, como já disse aqui. Eu o acho um polemista fútil, amante da polêmica pela polêmica. Sou fã é do seu pai, um dos maiores publicitários que o país já viu (“Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”). Mas faz muito tempo que não vejo um artigo com uma capacidade tão grande de provocar indignação, revolta e simpatia.

Idéia para um novo blog velho

Assim que tiver tempo, vou começar um novo blog. Algo com tintas de Glauber Rocha.

Vai ser destinado à terceira idade, em direção à qual sigo lenta e inexoravelmente. Será uma visão contemplativa da passagem do tempo, e uma constante reflexão acerca da falibilidade e da angústia humanas diante da proximidade da odiada das gentes.

O endereço vai ser www.kkk.blogger.com.br

O nome vai ser “Keda, Katarro e Kaganeira”.

Mais Paris Hilton

Paris Hilton é o conjunto de palavras mais procurado na Internet ultimamente, e o que mais traz incautos a este blog.

Então deixa eu provocar um pouco mais, colando aqui a transcrição do sketch dela no Saturday Night Live do sábado passado (lá, não aqui):

Tina Fey: Paris Hilton is a name that’s on everyone’s lips these days. Here now in an exclusive interview with Jimmy Fallon in Paris Hilton.
Jimmy Fallon: Thanks for coming on.
Paris Hilton: Nice to be here.
JF: So, we agreed, we won’t be discussing the scandal that’s been in the papers the past couple weeks.
PH: I appreciate that.
JF: We want to find about you, Paris Hilton. Your family…the Hiltons own hotels all around the world.
PH: Yes, in New York, London, Paris.
JF: Wait, there actually is a Paris Hilton?
PH: Yes, there is.
JF: Is it hard to get into the Paris Hilton?
PH: Actually, it’s a very exclusive hotel, no matter what you’ve heard.

Se Paris Hilton tivesse nascido na minha terra, as senhoras de certa idade, experientes em relação à vida, simplesmente olhariam para ela com cara de censura e diriam, balançando tristemente a cabeça: “Se respeite, menina…”

Ao panamá

Que voltem os chapéus.

Chapéus são necessários. Mas isso vai além da sua necessidade óbvia e mesquinha, a mera proteção contra o sol. Que não nos restrinjamos às obviedades, porque o que está em discussão aqui é algo mais que isso; é o que nos faz humanos, é a busca e a necessidade do supérfluo. Não é por serem úteis que chapéus são importantes. É por serem belos.

Ah, que se olhem as fotos de 50 anos atrás. Homens em ternos de linho muçulmanicamente branco, preces vivas a Oxalá e um desafio mudo ao calor dos trópicos, traziam nas cabeças seus chapéus, faziam deles extensões de sua personalidade, e em retribuição amorosa eles moldavam-se com tamanha perfeição ao seus donos que muitos deles não podem ser sequer concebidos com a cabeça descoberta.

Um chapéu deve ser visto como uma gravata; algo cuja única finalidade realmente importante é estética, é diferenciar um ser humano de outro. Não precisa de uma razão de ser, além da certeza de que, delicadamente pousado sobre uma cabeça, é um elemento que revela a superioridade humana sobre o resto da Criação.

Em vez disso, o que temos hoje? O boné. Arremedo mal ajambrado, primo pobre envergonhado de seu passado majestoso, medíocre em sua pala, emblema estúpido dos bebedores de cerveja sem cérebro. Ou ainda o único sobrevivente que mantém uma semelhança razoável com seus antepassados, o Stetson americano, que grita histericamente a um mundo exalando estrume que o seu portador é um vaqueiro.

Esses são bastardos, indignos de sua herança, porque sinalizam que seus donos fazem parte de uma tribo, qualquer tribo. São a negação do espírito do chapéu, porque apontam para o coletivo. O verdadeiro chapéu é símbolo da singularidade, da consciência tranqüila de que não interessa que sejam apenas um grão de areia no Cosmo — porque o que é realmente importante é que é um grão de areia único, seja qual for o seu tamanho. A importância de um dono de chapéu não está nos outros; está em si mesmo.

Que voltem os chapéus — os panamás a zombar do sol, os chapéus de feltro em cores discretas e circunspectas, até mesmo o chapéu coco inglês. As cabeças dos homens foram feitas para algo mais que apenas pensar.

A lógica simples do Império

A frase está no New York Times de hoje:

Com uma boa dose de medo e violência, e um bocado de dinheiro para projetos, acho que poderemos convencer as pessoas de que estamos aqui para ajudá-las.
Tenente-Coronel Nathan Sassaman, cuja unidade supervisiona a aldeia iraquiana de Abu Hishma.

The 'Nan

Pela primeira vez vi um filme da série Braddock, com Chuck Norris. Na adolescência corri dessas coisas como corria de mulher feia e cachorro grande, mas o tempo nos amolece.

É interessante. Pelo menos em filme, Norris ganha sozinho a guerra que os americanos perderam para um bando de mortos de fome, maus como uma legião de demônios (convenientemente esquecendo My Lai, claro).

O filme me trouxe boas lembranças. Aquela metade dos anos 80, pelo menos para mim, foi marcada em parte pelos filmes em que os americanos, escorraçados de Saigon, recorriam à fantasia para tirar a forra.

Eu pensava que era apenas um trauma antigo que se recusava a afundar no subconsciente. Só agora percebi, de verdade, como tudo aquilo era tão recente: entre a queda de Saigon, em 75, e “Rambo II” decorreram apenas 10 anos. E isso é muito pouco tempo. Na época, para mim, a Guerra do Vietnã era quase tão distante quanto a II Guerra Mundial. Para um país humilhado, certamente não era.

A ferida talvez tenha começado a cicatrizar depois do “sucesso” em Granada; os americanos voltaram a achar que poderiam ganhar uma guerra, como se tivessem ganho alguma depois de 1945.

Provavelmente esses filmes desempenharam um papel importante em fazer o povo americano voltar a achar que era imbatível, que ganhava todas. Fizeram com que o trauma submergisse diante da hipnose coletiva de que, afinal, eles poderiam ter vencido.

O resultado disso foi a invasão do Iraque. E não dá para deixar de lembrar do que Kaká disse em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”: a história só se repete como farsa.

E assim se passaram 20 anos

Tenho na cabeça a escalação do Flamengo em 1981: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.

Também tenho na cabeça a escalação do Flamengo em 2003: Júlio César, Fulano, Sicrano, Beltrano e Aquele; Alguém, Mais Alguém, Outro Alguém e Sei Lá; Qualquer Um e Quem Sabe.