A queda do Império Britânico

O que é a vida.

Quando os Beatles receberam seus MBE (Member of British Empire) em 1965, alguns veteranos de qualquer uma das guerras que a Inglaterra lutou no século passado devolveram suas medalhas em sinal de protesto e indignação.

Para eles, que arriscaram a vida pela pátria, era um insulto se verem reduzidos ao mesmo nível de uns roqueiros recém-saídos dos cueiros e metidos a espertos.

Agora é a vez de David Beckham receber uma comenda — em grau imediatamente maior que a MBE –, a OBE. Isso não é nada: há dois anos Lennox Lewis recebeu uma CBE (por sua vez imediatamente superior à OBE).

Já não se fazem mais homenagens como antigamente.

Aliás, já não se fazem mais impérios como antigamente.

Histórias da II Grande Guerra

Se alguém se interessa pela história da II Guerra Mundial vai encontrar neste site da BBC material muito interessante.

Conta histórias de ingleses durante a guerra. O povo dos dentes feios sofreu o diabo sob os bombardeios nazistas.

Ao mesmo tempo, é interessante ver como a história é sempre contada pelos vencedores. Berlim foi provavelmente mais maltratada do que Londres; basta ver filmes feitos logos após o fim da guerra para ver que os Aliados, mais do que simplesmente bombardear a cidade para vencer a guerra, resolveram liberar a raiva e a sede de vingança. Mas há poucas histórias de sobreviventes alemães que não sejam judeus ou nazistas importantes, provavelmente pelo simples fato de que lutaram do lado errado. Ninguém quer ouvir a história de seus sofrimentos.

Outro aspecto notável: o tempo está passando. E passando rápido. Ainda é possível conhecer veteranos da II Guerra, ouvir suas histórias em primeira mão. O avô de um sujeito que trabalhou comigo contava ao neto histórias de sua passagem pela FEB na Itália, onde deixara um braço. Contava como foram para lá completamente despreparados, e como foram vestidos, alimentados e equipados pelos americanos para servirem como bucha de canhão. Valorosos, corajosos, mas bucha de canhão. (Ou seria “bucha de canhão, mas valorosos e corajosos”?)

Essas histórias vão se acabando. Vão morrendo com seus protagonistas, assim como esse senhor. E de algo vivo, presente, a história no máximo se transforma em palavras imobilizadas em livros ou em um website.

Provavelmente nunca houve momento histórico tão fascinante como este. E nem tão efêmero.

Aturando o Halloween

Agora que já passou eu posso dizer: eu odeio Halloween.

Entendo que a gente importe algumas modas culturais dos anglo-saxões. Eles mandam no mundo há quase 400 anos, esse “intercâmbio de mão única” faz parte do negócio. Mas a comemoração do All Hallow’s Eve irlandês é incompreensível, pelo menos para mim, brasileiro e baiano.

(Quem quiser conhecer as origens do Halloween dê uma passada aqui.)

A facilidade com que o Halloween se espalhou por aqui tem uma explicação simples: uma elite que não cansa de abanar o rabo para tudo o que é americano, que tem vergonha de suas origens e vira o rosto para tudo o que tem cheiro de povo.

A história do Halloween pode até ser bonita, mas não é minha. Enquanto isso, o Brasil tem uma infinidade de tradições tão ou mais belas que o Halloween. Só para dar um exemplo, o candomblé tem uma riqueza de mitos impressionante. Trick or treat é especialidade, por exemplo, de Exu. Quem se veste de bruxa no dia 31 de outubro devia conhecer como Xangô carregou seu pai Oxalá, com as pernas quebradas, nas costas. Ou saber que, quando antes de beber derrama um pouco no chão “para o santo”, está pedindo permissão a Exu.

Tem mais. O sul tem o Negrinho do Pastoreio, o Curupira e o Caipora se espalham por todo o país. Se tem uma coisa de que o Brasil não precisa é de superstições importadas.

Mas podia ser pior. Nos Estados Unidos, os radicais religiosos ainda perdem tempo discutindo se o Halloween é só uma festinha de criança ou uma perigosa festa demoníaca.

Como perder uma guerra de cervejas

A campanha da Nova Schin é um exemplo de planejamento acurado com uma solução criativa simples de doer, que basicamente se limita a traduzir o planejamento da maneira mais obviamente ululante possível.

Não é sorte. A campanha é da agência do Eduardo Fischer, o mesmo que criou a mais brilhante campanha de cerveja de todos os tempos, a “No. 1” da Brahma. Não é sorte porque as duas campanhas são absolutamente diferentes, já que tratam de produtos e situações diferentes. É uma campanha brilhante, e o resultado é que a Nova Schin já tem que olhar para trás se quiser ver a Kaiser e a Antarctica.

Enquanto isso, as respostas da Brahma e da Antarctica são de uma pobreza estrondosa.

Na Veja desta semana a Brahma veiculou um anúncio em que diz que “Brahma é a minha cerveja e sempre será”. A Antarctica, por sua vez, está com um comercial em que seus bebedores usam fones de ouvido pra evitar o apelo da Schincariol e tomar sua cerveja em paz. Deve querer dizer que a Schin é apenas propaganda, na melhor das hipóteses.

As duas campanhas são medíocres. A da Brahma por dar um apelo ufanista quando não é cabível; a Brahma é uma cerveja, não é uma pátria, não é sequer um time de futebol. A Brahma só é a minha ou a sua cerveja até o momento em que aparecer outra melhor.

Quanto à da Antarctica, que cerveja vagabunda é essa, cujos consumidores são incapazes de resistir aos apelos de uma boa campanha, e só tomam sua Antarctica com os ouvidos tampados?

Enquanto escrevia os parágrafos acima pensei em pelo menos duas soluções melhores para os problema das duas cervejas que se vêm ameaçadas pela Nova Schin. Eis uma sinopse simples para um comercial bem mais pertinente: Fulano chega num bar, Sicrano oferece sua cerveja para que ele experimente, Fulano se recusa, Sicrano insiste, Fulano experimenta — e pede outra cerveja.

Mas talvez isso seja muito simples. É preciso arranjar uma piadinha, alguma coisa para complicar o que deveria ser simples. É como o general que insiste em criar situações táticas criativas numa guerra quando a situação pede um simples bombardeio, para arrebentar tudo de uma vez.

A Antarctica e a Brahma bem que podiam experimentar isso.

Mais um contra os currais

Há algum tempo eu taquei um post aqui reclamando dos currais em que os departamentos de criação das agências de propaganda haviam se transformado, com todo mundo junto num salão só. O que deveria favorecer o fluxo de idéias na verdade (pelo menos para mim) havia se transformado em um nivelador. Por baixo.

Pois agora alguém finalmente se manifesta contra os currais: e esse alguém é Nizan Guanaes. Numa entrevista à Top Magazine, ele disse que isso não funciona para ele. Porque distrai, confunde.

É tão bom não ser uma voz sozinha no deserto.

O homem que se dizia chamar Waldih

Numa livraria na Rua do Ouvidor, babando incontrolavelmente sobre “Retratos da Bahia”, de Pierre Verger (fãs de Cartier Bresson Sebastião Salgado, vocês precisam conhecer a beleza ensolarada de Verger).

Ele chega e discretamente pergunta se eu não sei de um lugar onde precisem de garçom. Não, não sei; é melhor procurar em restaurantes que eles podem te indicar.

Contato feito, agora é hora de desfiar a história. Ele é desenhista. Veio para o Rio trabalhar com uma arquiteta, mas algo deu errado e ele está na rua há 3 dias. Entrou em um restaurante e pediu um prato de comida em troca de trabalho, mas o dono do restaurante disse a ele que isso é coisa de cinema.

Ele é de Recife, diz. Pergunta se sou carioca; e ao saber que sou baiano diz que o povo do Rio é muito ruim, frio, não é, quase-conterrâneo?

Ele me mostra o verso de uma carteira de identidade para mostrar que é pernambucano. O nome que consta ali é Waldih.

Ele se lamenta da sorte, diz que é uma humilhação para alguém como ele, e então dou a ele tudo o que tenho na carteira: 3 reais e algumas moedas. E então ele vai embora, grato.

Provavelmente vai embora rindo por dentro, achando que enganou outro otário.

Conheço bem o sotaque pernambucano; é o único sotaque brasileiro que acho feio, com seus “tu visse”. E o sotaque do Waldih, decididamente, não era de Pernambuco. Era sotaque do sul do país, o que inclusive combina com seu tipo físico, italiano de olhos claros.

Por outro lado, não conheço malandro que não seja documentado. Trabalhadores podem se dar ao luxo de andar sem documentos, mas malandro sempre tem uma carteira de trabalho, uma carteira de identidade, uma receita de remédio para provar que está falando a verdade. O homem que dizia se chamar Waldih tomou o cuidado de não me mostrar a foto da carteira de identidade.

Mas a verdade é que a conversa e a verve do homem que se dizia chamar Waldih valia, e bem, os 3 reais que ganhou. Assim como “Retratos da Bahia” vale os 140 reais que custa.

A adolescente de 30 anos

Quando Balzac publicou “A Mulher de 30 Anos”, um livro de resto absolutamente medíocre, alguém disse que ele deu uma sobrevida amorosa às mulheres, numa época em que era comum se casarem aos 15 anos. Mas se Honoré fosse vivo hoje, teria que escrever outro livro: “A Adolescente de 30 Anos”.

De uns anos para cá as revistas, quando lhes falta assunto, falam do novo homem, da crise por que eles passam. (Falo eles porque ainda sou do tipo antigo; defendo veementemente o direito feminino de ir às ruas lutar pelos seus direitos, desde que deixem minha comida pronta.)

O que as revistas parecem não notar é a crise por que passam as mulheres nos primeiros anos do século XXI. Com algumas raras exceções, uma mulher que chega aos 30 anos solteira começa a sentir um desespero inexplicável, uma espécie de revival da histeria do final da era vitoriana diagnosticada por Freud. É como se sentissem incompletas, como se lhes faltasse algo. A conta que fazem de suas vidas precisa de um fator que nem sempre está lá.

Esse fator é um homem.

São adolescentes aos 30 anos. Não percebem, mas têm o mesmo jeito de olhar a vida que tinham aos 17, como se não houvesse passado tanta água sob a ponte. Sem querer ser cruel, é como se o fato de amadurecerem emocionalmente antes dos homens implicasse uma estagnação depois disso. Chegam primeiro à adolescência e demoram a sair dela — muitas vezes direto para a velhice. Algumas, sem perceber, continuam fazendo aos 30 as mesmas exigências em relação aos seus parceiros que faziam quando ainda estavam na escola e alimentavam paixões imortais pelos garotos mais populares. Mudam apenas detalhes; já não querem um atleta, e sim um sujeito capaz de dividir os encargos da vida com elas ou, mais comumente, alguém “emocionalmente estável” [infelizmente, em 32 anos de vida ainda não vi ninguém emocionalmente estável de verdade, apenas instáveis em repouso]).

O resultado é apenas mais solidão. “Nossa, ela acha que vai encontrar homem na night!”, me disse uma das adolescentes. Enquanto isso, no trabalho não há homens disponíveis, e os poucos que há são casados; sempre são. Por um processo de exclusão, vão eliminando todas as possibilidades de encontrarem alguém. Não importa o desespero: elas continuam criando para si torres de Rapunzel absolutamente intransponíveis.

Elas não se parecem se sentir à vontade em seus papéis. Para boa parte delas, a obrigação de independência parece um fardo insuportável a ser carregado. Se os homens foram achacados nas últimas décadas, com a obrigação de mostrarem sentimentos de forma feminina, as mulheres ainda tentam se acostumar a um mundo que deu uma certa igualdade a elas.

Alguém deveria dizer a essas moças umas coisas básicas, que elas deveriam saber.

Por exemplo, que todo o seu relacionamento com o sexo oposto é baseado em códigos que elas definem na adolescência. Muitos adolescentes do sexo masculino labutam anos infrutíferos até descobrirem esses códigos (sem contar, claro, os afortunados que os conhecem instintivamente). Mas depois que descobrem, o jogo acaba. Vira uma brincadeira, em que é necessário dizer apenas a coisa certa na hora certa. (Certo, estou simplificando e há muitas outras filigranas; mas estas são as linhas gerais, e são suficientes para um post em um weblog). Daí tantas mulheres infelizes, que não compreendem ou aceitam o simples fatos de existirem tempos e interesses diferentes entre duas pessoas.

De certa forma, as Teen Thirties criam seus cafajestes. Depois não sabem lidar com eles, porque ao criarem seu Frankenstein, achavam estar criando o novo Adão. E esqueceram que, entre Eva e Adão, havia uma serpente oferecendo uma maçã.

Um pouco de ufanismo

A gente reclama de estrangeiros esquisitos, mas o Brasil tem sua cota.

Esta moça, por exemplo. Tem mais piercings no corpo do que eu tenho em reais na minha conta bancária. Há dez anos fora, mora em Edimburgo e diz que não volta ao Brasil por ter medo de ser assaltada. Só fala em inglês, dizendo que não se sente mais à vontade falando português.

Cada um vive como quer, mas tenho uns comentários a fazer. Primeiro, se ela esqueceu o português é porque nunca soube. Era analfabeta aqui, e provavelmente agora é analfabeta em inglês.

Segundo, que ela não fique com medo. Embora não faça falta, pode voltar ao Brasil. A gente não a agrediria, não. A gente só não pode garantir controlar as risadas e o deboche diante dessa coisa bisonha que é a sua cara.

(Se bem que, dando uma olhada atenta à foto da moça, fiquei com a impressão de que talvez os piercings a deixem mais bonita…)