Os donos do futuro

Há umas duas semanas, perto do Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo, um evangélico pregava em um cruzamento daqueles calçadões.

Usava um terno barato e tinha uma barba preta e comprida. Gritava, vociferava, batia com força e raiva em sua Bíblia. Acenava com os martírios do inferno a todos aqueles que se recusavam a ver a Salvação.

É uma imagem muito semelhante aos primeiros cristãos. Gente que em uma época de absoluta tolerância religiosa assumia uma postura sectária e, como diria Gibbon, até amarga em relação ao mundo.

Paradoxalmente era essa a sua força. Ao seu zelo, juntavam a noção de imortalidade da alma, que não era exatamente corriqueira em Roma (e a bem da verdade não era sequer entre os antigos judeus; procure algo sobre isso no Gênesis, para ver se acham). Os romanos não se comportariam daquele jeito deliciosamente depravado se achassem que havia uma vida após morte. Foi Tolstói ou Dostoiévski quem disse que “sem Deus, tudo é permitido”?

E a isso aquele povo esquisito juntava aquele jeito maluco de se comportar, aquele zelo em se manter puro em sua fé e em rejeitar aquelas manifestações pagãs que, naturalmente, eram as mais puras expressões do mal. Se os romanos cumpriam seus ritos e sacrifícios com o desdém com que a maior parte das pessoas hoje segue uma procissão, ou acompanha uma solenidade oficial, os cristãos viam naquilo uma perfeita manifestação de Satanás. E fizeram disso sua força.

Da próxima vez que alguém vir um chato pregando e vomitando ódio com palavras divinas, é melhor ficar quieto. Provavelmente, o futuro é deles.

Bildungsroman

Jeová nasceu em uma família simples no Oriente Médio há uns 5 mil anos.

Apenas mais um deusinho, um entre tantos, indistinto em meio a uma variedade de outros deuses.

Com um pouco de imaginação pode-se imaginar como foi Sua infância, a construção dos ritos, do princípio de arcabouço dogmático.

Os filhos de Abraão se reproduziam como coelhos, e a família virou tribo e a tribo acabou virando nação.

E então Jeová cresceu e virou Deus.

A maresia da Piovani

Luana Piovani é o que os anglo-saxões chamam de media whore — alguém incapaz de peidar sem que haja um repórter por perto.

É assim que um grande número de artistas sustentam suas carreiras e, no fundo, não é nada tão ruim (nem importante). Mas o bafafá em torno do uso de maconha pela moça é curioso. Já teve gente querendo que ela fosse presa por apologia ao uso de drogas.

Sem contar o seu mau gosto (que me perdoem os chincheiros, mas maconha fede e emburrece) não custava nada lembrar que o ex-presidente Fernando Henrique também fumou. Clinton também — mas esse não tragou. Depois Clinton se dedicaria à fina arte de apreciar um charuto, mas essa é uma outra história.

Classificados

Há uma coisa que só existe em Sumpaulo: pequenos adesivos, colados nos orelhões, de mulheres oferecendo seus serviços. Estou me tornando um colecionador dessas pérolas.

ROSE PELUDA
Sento no anal
Deixo você gozar na minha boca

BIBI AFRODITA
Loira olhos verdes
Adoro ser chupada
Dou beijo de língua

LILIAN 19a
Apertadinha no anal
Fogosa no oral

BRUNA 19a
Anal apertadinho
Oral molhadinho
Venha me ecitar

CARMEN COROA
Oral sem camizinha
Chupo ate suas bolas
Anal cadelinha

Numa outra viagem tinha uma tal de “Yoko Peluda” anunciando na Paulista, e que sumiu. Acho que essa deixou a vida. Deve ter encontrado seu John Lennon.

Aluga-se

Dizer que Sumpaulo é uma terra de putas é exagero?

Talvez.

Mas lá ia eu, entrando num sebo ali pelos fundos da Sé, quando uma mulher sorri para mim.

Epa. Mulheres não sorriem para mim; mulheres costumam me chamar de cafajeste, quando querem elogiar, embora o mais comum seja o desprezo: “Como é que fui dar para esse gordo filho da puta?”. Só podia ser puta, mesmo. E não era só uma, havia várias.

Do sebo fiquei olhando para elas (e para os velhinhos que paravam para negociar).

Era o que eu precisava saber para ter certeza de que a cidade é, realmente, muito cara.

Como diriam os Titãs…

Um comentário do Tuzi ficou me incomodando esses dias.

Falando da Benedita, ele notou que, por ter comido o pão que o diabo amassou com o rabo, ela deveria ter aprendido a evitar cair nessas armadilhas da vaidade em que está sempre caindo.

O Tuzi comete o mesmo pecado que eu: acreditar que a experiência negativa nos ensina a evitá-las.

Temos a noção meio romântica de que a pobreza nos ensina invariavelmente a ter um senso de ética mais rigoroso e mais humano. Sei de alguém que acreditou ainda mais nessa idéia, um velhote barbudinho chamado Karl Marx. A idéia de que o proletariado, ao se desenvolver e organizar, acabaria optando pelo socialismo é apenas essa noção enfeitada por uma base teórica hegeliana.

Infelizmente, todos nós estamos errados, mesmo que as nossas crenças — talvez fosse mais adequado dizer fé — sejam mais bonitas.

Miséria não ensina nada a ninguém, a não ser talvez que é sempre urgente evitá-la.

ECAD

Eu nunca parei para pensar no ECAD até que vi um anúncio deles na Veja. No anúncio, eles reclamavam que o promotor do show do U2 no Brasil não pagou os direitos autorais devidos. Enquanto isso, na Argentina (segundo o anúncio), pagaram quase 1 milhão de dólares. Eu não sabia que os milongueiros lá do sul eram tão otários.

Foi quando vi o absurdo que é o ECAD. Não consta que o U2 cante músicas dos outros. Portanto, de acordo com o ECAD eles teriam que pagar para tocar suas próprias músicas.

Isso não é arrecadação de direitos autorais. É, simplesmente, uma espécie de imposto ilegal sobre uma manifestação artística, feita de uma forma covarde: através de uma legislação canalha.

Mais que isso, é apropriação do talento e do suor dos outros. Um grupo de gente esperta decidiu que os outros trabalham, criam e eles recebem dinheiro por isso. É algo muito semelhante à proteção vendida por mafiosos.

Eu não entendo do assunto, claro. Mas de vez em quando o ECAD aparece nos jornais porque alguém se revoltou contra o seu esquema de extorsão. E parece estar na hora que um Elliott Ness acabe com essa farra.

While my guitar gently weeps

A Rolling Stone publicou uma lista dos 100 melhores guitarristas da história. O primeiro lugar, óbvio, fica com Hendrix, seguido de Duane Allman, B.B. King, Eric Clapton, Robert Johnson e Chuck Berry.

Até aí a lista está corretíssima. É depois disso que os erros absurdos começam. George Harrison vem em 21o, atrás de gente como o mundialmente desconhecido Richard Thompson. Só para lembrar: George foi o guitarrista solo da banda mais influente de todos os tempos. Sendo ou não genial, só por isso foi um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos, e ponto final.

A lista de gente boa que vem atrás de mediocridades é impressionantemente alta. Dick Dale em 31o, Pete Townshend em 50o, David Gilmour em 82o, Eddie Cochran em 84o, Angus Young em 96o.

Django Reinhardt sequer aparece. E John McLaughlin, provavelmente o guitarrista mais importante do fusion, vem lá atrás, como uma humilhação não merecida.

Mas o que mais dói em mim, mesmo, é ver Scotty Moore em 44o. O sujeito, guitarrista de Elvis no tempo em que The Pelvis fazia a diferença, foi um dos mais inventivos guitarristas do rock and roll. E no entanto alguns idiotas acham que Brian May é melhor e mais influente do que ele.

Deve vir logo uma lista dos 100 maiores baixistas. E deixa eu avisar uma coisa: só admito que Paul McCartney perca o primeiro lugar para John Entwistle, do Who, ainda que não concorde com isso. E mesmo assim porque essas listas são sempre pessoais.

Mandarim

Em “O Pai Goriot” Balzac faz seu personagem Rastignac passar por um pequeno teste ético.

Imagine que nos confins da China há um velho mandarim. Ele é muito, muito rico. Agora imagine que, com apenas um pensamento, você pode matar o velho e herdar toda a sua fortuna.

Você pode racionalizar como quiser. Ele é muito mau. Muito velho. Muito doente. Sozinho. Ninguém jamais descobrirá que você foi o responsável pela sua morte.

A questão é: você mataria o seu mandarim?

E a quem interessar possa: eu já estou no qüinquagésimo oitavo mandarim.

Por que torço pelo touro

Houve uma época em que eu gostava de touradas, porque nunca tinha visto uma.

Não é difícil gostar delas. Os movimentos do toureador, em sua estilização, são maravilhosamente elegantes. Aquela dança entre o toureiro e o touro, a sensação de controle que o toureiro transmite, são impressionantes.

O fato do touro ser morto no final, com uma estocada na nuca, nunca me incomodou demais. A tourada é um esporte violento, e sempre achei que à força do touro o toureiro tinha o direito de contrapor uma espada.

Mas as coisas não são assim tão róseas. A tourada é um exercício de crueldade e, principalmente, de covardia.

O que o toureiro mata não é um touro em igualdade de condições, mas um animal que foi enfraquecido e esfaqueado de forma vil por picadores a cavalo.

Se fosse o combate justo entre um homem e um touro, a tourada seria um espetáculo bonito de se ver, uma alegoria da luta do homem para superar suas fraquezas e controlar o seu ambiente. Mas não é, e o resultado é apenas o que de pior a raça humana pode oferecer.

E é por isso que um certo sentimento misantrópico de júbilo toma conta de mim quando vejo o touro ter o seu momento de glória e vingança, enquanto balança o toureiro para lá e para cá, sob os ohs! e ahs! de uma torcida agraciada com aquilo que ela secretamente deseja.