Em defesa da propaganda

Faz tempo que fico de comentar um comentário do AlterEgo sobre propaganda.

Alter não tem a propaganda em alto conceito. Não é uma posição exatamente incomum. Eis o que ele diz:

Não conheço nenhuma propaganda que fale mal do produto que está sendo divulgado. Eu já escrevi sobre isso no dia 27/03. Ao meu ver, omitir características negativas é tão indesejável quanto mentir. Publicidade como é feita, atualmente, ao meu ver é antiética por definição.

Eu discordo veementemente disso.

Na verdade, boa propaganda é necessariamente ética. Não porque publicitários são bonzinhos ou empresas são exércitos da salvação, e nem mesmo porque leis e códigos de ética proíbem isso; mas porque é mau negócio mentir sobre um produto. Basta uma simples experiência para o consumidor jamais voltar a sequer olhar para aquilo: ninguém agüenta ser enganado.

O que a propaganda faz é ressaltar os pontos positivos de um produto ou serviço, e isso é perfeitamente natural. Nesse caso, sim, se pode dizer que a propaganda é parcial. E é, mesmo. Mas alguém conhece um sujeito que chega para uma menina numa boate e diz: “Meu nome é Zé e embora seja uma excelente pessoa, meu pinto é deste tamanhinho”?

O detalhe é que, ao assistir um comercial, ouvir um spot ou ler um anúncio, você sabe quem está dizendo isso, e sabe que ele jamais diria algo contra si mesmo como cartão de visitas, assim como eu ou qualquer pessoa com juízo ou um mínimo de auto-estima.

Paradoxalmente, a propaganda é provavelmente a maior garantia da liberdade de expressão que eu conheço. Se não fosse pela receita publicitária, jornais não poderiam jamais ter independência para criticar ou denunciar de forma isenta. É o que acontece até hoje em absolutamente todas as cidades menores que São Paulo e Rio de Janeiro.

Além disso, em termos de ética, muito mais deficiente que a propaganda, mesmo a ruim, é o jornalismo — e nesse caso, muitas vezes até o bom. Mas esse, por alguma razão esquisita, é sempre tido em alta conta.

Publicitários no curral

E já que falei tanto de putas naqueles posts da semana passada, deixa eu falar de publicitários. Dá no mesmo, mas é que ultimamente dei para me repetir.

Quando comecei a fazer o trottoir, duplas de criação — redatores e diretores de arte — ficavam em salas individuais, numa demonstração de status só inferior à diretoria. Isso mudou quando Washington Olivetto, seguindo o exemplo de Jay Chiat, resolveu botar todo mundo junto num “mesão”, ou pelo menos na mesma sala. Parecia uma proposta renovadora — que, como publicitário brilhante, o Olivetto alcunhou de “revolucionária”.

Isso acabou virando moda. Todas as agências entraram nesse modelo. E ninguém diz que é um modelo horroroso, que é um acinte à criatividade e à razão de ser da atividade.

O departamento de criação das agências virou um grande curral. E essa idéia é ruim porque uma peça é o resultado do trabalho de uma ou duas pessoas, sempre.

Mas, principalmente, é ruim porque distrai e atrapalha. E o resultado, em várias agências, é um ambiente em que se trabalha em silêncio quase absoluto, porque a sua risada pode atrapalhar aquele sujeito que está escrevendo um anúncio sério. É uma grande diferença em relação ao ambiente de balbúrdia total de antigamente — na minha opinião, uma balbúrdia que ajudava a criatividade.

Posso estar exagerando, mas acho que o curral é um dos grandes responsáveis pela má qualidade da propaganda brasileira ultimamente, em que todos viraram cópias do Marcelo Serpa, e fazem anúncios com títulos engraçadinhos, duas linhas de texto e uma foto bonitinha e bem produzida.

Saudades do Neil Ferreira.

Meus filhos de Deus, pra variar

Dois posts sobre os canalhas de quem gosto e um tempão sem escrever. Acho que é hora de variar um pouco.

Eu gosto, como já disse, da Irmã Dulce. É um exemplo de altruísmo levado às últimas conseqüências. É uma daquelas pessoas em quem você não consegue encontrar um só defeito e que, se você a encontra pessoalmente, inspira uma sensação de respeito que poucas pessoas conseguem inspirar.

Eu gosto da Marina Silva, pela integridade pessoal, pela doçura e pela leveza que não conseguiram ser destruídas pelas dificuldades que enfrentou em sua vida. Ela é algo que eu jamais conseguiria ser.

Acorda, Brasil, está na hora da escola

Essa ouvi agora, e fiquei tão impressionado que tive que dividir a experiência o mais rápido possível.

Uma professora particular estava explicando a uma menina: “frase é coletivo de palavra”.

Eu vou ficar de olho. Estou esperando o dia em que ela vai falar que carro é o coletivo de pneu. Não deve demorar.

Rio-Niterói III

Deixe-me considerar Niterói a “zona leste” do Rio. Em que outra cidade você sai das barcas e dá de cara com uma rodinha de choro tocando “Lamentos” de Pixinguinha, exatamente naquela hora, como uma espécie de pequeno consolo pela semana terrível, cansativa e frustrante que você pode ter tido?

Rio Niterói II

Nas barcas o passageiro tem apenas a vista da baía de Guanabara para se divertir. No catamarã, com janelas com insulfilm, resta-nos a televisão e uns episódios antigos de Mr. Bean. É óbvio que os passageiros das barcas não apenas pagam menos, como têm à disposição uma vista muito mais bonita. Mas ontem, pela primeira vez, percebi que Mr. Bean, odiado por mim até há pouco, não é ruim: pelo contrário, é capaz de belíssimas gags visuais, em algo que mistura Tati e Buster Keaton. E o episódio que eu vi, Goodnight Mr. Bean, é de uma crueldade espantosamente hilariante.

Rio-Niterói I

Na estação das barcas, a porteira se abre para que o rebanho entre no catamarã, em filas desorganizadas. Mugidos imaginários se sucedem enquanto a turba pacífica e submissa segue lentamente as ordens ditas por ninguém. Dissimuladamente alguns olham para a fila ao lado, vendo a multidão ainda maior entrar nas barcas, pouco mais baratas e muito mais lentas, e por algum motivo misterioso se acham mais afortunados. Marujos cansados fazem as vezes de vaqueiros, gritando “olha o degrau!” em vez de “Estrela! Mimosa! Eia!” As vozes com sotaque da zona norte são o berrante dos cowboys do mar.