A mãe de todas as pesquisas de universidades inglesas

E-mail recebido hoje:

De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Saudade não tem idade

Ontem tive a certeza de que estou ficando velho.

Na coluna do Ancelmo Góis, uma nota sobre Cláudia Abreu mostra a idade que ela diz ter: 29 anos.

Tão novinha, ela, e já mentindo a idade descaradamente. Cláudia tem um ano a mais que eu, ou pelo menos a minha idade. Já passou dos 29 há algum tempo.

É mau sinal quando as mulheres, mesmo as lindas como a Abreuzinha, começam a mentir a própria idade. Significa que você está ficando velho, muito velho. E que o tempo não pára de debochar de você.

E um viva à hipocrisia

Pergunte, e 11 em cada 10 pessoas responderão que odeiam hipocrisia.

E todas elas estarão sendo hipócritas nesse momento.

O amor, a bondade, a idéia de altruísmo — todos esses sentimentos nobres são o que fazem esta vida parecer tolerável. Mas são os sentimentos ruins como a cobiça, a raiva, a inveja que fazem o mundo andar. É a ganância que faz alguém querer mais e mais dinheiro, movimentando as forças produtivas e gerando riquezas. É uma variedade da inveja que faz uma pessoa querer ser melhor que outra e, apesar de razões tão vis, eventualmente tornar o mundo um pouco melhor com seus atos. É a preguiça, aliada à inventividade, que torna o mundo mais confortável, como bem sabe aquele preguiçoso cansado de levantar para mudar o canal da TV que inventou o controle remoto.

Falta aos sinceros e francos a coragem de admitir que a hipocrisia, essa atitude tão vilipendiada, é fundamental e necessária à vida cotidiana.

Imagine, minha senhora, sua vida sem pequenas doses diárias de hipocrisia. Você pergunta se sua melhor amiga gostou do seu novo penteado. Ela, pessoa franca e sincera, qualidades das quais tem orgulho e não cansa de anunciar ao mundo, diz que está horroroso — a propósito, o seu cabelo é horrível, mesmo, não tem penteado que dê jeito; e olha, já que falamos nisso, seu marido está saindo com a Lurdes.

Ou você, senhor letrado, que escreve um poema do qual se orgulha e aquele mestre, a quem você admira e respeita, diz que ele é irremediavelmente medíocre, e extremamente parecido com um dos piores poemas de Verlaine — mas você não é plagiário, porque nem conhecia o tal sujeito: você é só ignorante, mesmo.

Por outro lado, imagine a senhorinha recém-casada com um homem a quem ama acima de todas as coisas, e que perguntada por ele, sequioso de aprovação e desejoso de agradar, a respeito de seu desempenho sexual pífio, responde que sim, que ele a completa e que aquela mixaria arfante é o melhor sexo que ela já fez. E um casamento é salvo por uma pequena mentira.

Os exemplos podem seguir ad aeternum. Muitas vezes somos hipócritas por motivos nobres, embora geralmente o sejamos por covardia e sabedoria; mas o resultado continua sendo hipocrisia, atitude que julgamos ver restritas aos Uriah Heep da vida.

Ah, quantos assassinatos a hipocrisia já conseguiu evitar. E apesar de toda a nossa ingratidão, da nossa recusa em reconhecer seus méritos, essa atitude salvou mais vidas que as Belas Artes, tão elogiadas e admiradas como exemplos do que de melhor o homem pode fazer. Guernica, tão nobre em seus ideais, não salvou uma só vida; mas pequenas mentiras salvam milhares a cada dia.

Admitamos todos, com o máximo de alegria possível diante do esmaecimento dos nossos sonhos de pureza: sem hipocrisia, o mundo acabaria em uma semana.

A hipocrisia é a base sobre a qual se sustenta a pólis, em que opiniões contrárias e muitas vezes excludentes precisam conviver com um mínimo de harmonia. É a sua porção, hypocrite lecteur, seja ela grande ou pequena, que lhe permite escutar e tentar aceitar a opinião de outra pessoa, mesmo quando você está convencido de que está certo e aquilo que o outro está falando é um punhado de estultices que poderiam muito bem ter saído da bundinha de um jumento.

Por mais que gostemos de alardear e mesmo cultivar nossa própria integridade pessoal, é a hipocrisia que, insidiosamente, subverte a lei do mais forte, criando uma base mínima de igualdade sobre a qual idéias e opiniões podem conviver.

Portanto, agradeçamos a Deus — ou ao diabo — a invenção dessa arte milenar e salvadora. Sejamos realmente sinceros uma vez na vida, e continuemos hipócritas.

O fantasma e o vento

Mais uma daquelas pesquisas utilíssimas e significativas de universidades inglesas — desta vez da Universidade de Hertfordshire e do Laboratório Nacional de Física.

O pesquisador Richard Wiseman afirma que o infra-som é o grande responsável por sentimentos de “sobrenatural” que às vezes temos. Nas igrejas, por exemplo, as notas extremamente baixas de alguns órgãos facilitam o êxtase religioso. Nas casas mal-assombradas, calafrios seriam o resultado do som provocado pelo vento. “O fantasma, na verdade, é o vento”, diz glorioso em seu racionalismo o bom Wiseman.

Longe de mim querer contradizer um sujeito sábio no próprio nome, até porque estou mais próximo de um wiseguy que de um wise man.

Mas a esse pessoal falta poesia, falta aquele respeito pelo metafísico, falta aquela sabedoria que vem da convivência com o mistério que torna a vida um pouco mais bela. Seu racionalismo cético cega e oprime, e tenta levar o mundo a uma irremediável chatice. E é por isso que ouso dizer que Wiseman está errado em suas conclusões.

O fantasma não é o vento disfarçado. O vento é que é o fantasma disfarçado.

Digitando e datilografando

Assim como o Alter, acho “datilografar” um verbo muito mais melhor de bom. Até porque significa “escrever com a ponta dos dedos”; tenho a impressão de que “digitar” está mais próximo de “apontar”.

Há uma coisa que chamo de “arrogância da ignorância”, e que é provavelmente a coisa que mais me irrita em todo o mundo. É quando a ignorância mostra toda a sua truculência, todo o seu orgulho em ser o que é, e tenta se impor majestosamente sobre o que é certo, geralmente se baseando no senso comum.

Agora juntando os dois parágrafos para dar algum sentido a isso: há algum tempo, conversando bobagem com um semi-desconhecido, falei que estava datilografando algo no computador. O idiota riu. “É ‘digitando’, animal”.

Animal, sim. Mas racional.

(Ah, Alter, você esqueceu da queridinha dos call centers: “eu vou estar mandando isso amanhã”.)

Teoria do Caos

Foi Thomas Huxley quem disse que, se deixassem chimpanzés diante de uma máquina de escrever, datilografando aleatoriamente, um dia eles acabariam escrevendo um soneto de Shakespeare.

Pesquisadores da universidade inglesa de Plymouth resolveram tirar a prova. Colocaram seis macacos diante de um computador durante um mês.

Os resultados não comprovam a teoria de Huxley. Os macacos não produziram uma única palavra, e mostraram pouco interesse em qualquer outra letra que não fosse a S. Na verdade, interesse mesmo eles mostraram em urinar e defecar no teclado.

Um amigo diz que toda pesquisa realmente idiota vem invariavelmente de uma universidade qualquer da Inglaterra. Estou começando a achar que ele tem razão.

Epicuro

Enquanto vivemos, a morte não existe; quando a morte passa a existir, nós já não existimos.

Foi o Plataformista quem escreveu esse axioma epicurista aqui, num comentário a um post perdido no tempo. É uma frase simplesmente brilhante.

De espíritos de porco e assemelhados

Há alguns dias falei sobre o babaca que resolveu se juntar às FARC. Mas hoje ele acaba de ser promovido à categoria de simples bobão, porque coisa pior apareceu no Rio.

Um sujeito de 17 anos resolveu se divertir nos últimos dias atirando, de sua janela, nos funcionários de um supermercado do Leblon. Acertou 3 com sua espingarda de ar comprimido.

Esse rapaz é só um espírito de porco, um escroto que devia levar porrada todo dia antes de levantar. Não tem sequer idade para alegar que não sabia o mal que estava perpetrando. É só um garoto de índole ruim, uma dessas pessoas com um nível de sadismo inconseqüente excessivamente alto que vagam por aí, tentando encontrar uma razão para viver enquanto, querendo ou não, sacaneiam com os outros.

Talvez essa maldade intrínseca do rapaz seja perfeitamente explicável. De certa forma, ainda piores que ele são seus familiares. Eis um trecho da matéria:

Para amigos e parentes que foram à 14 DP, no entanto, tudo não passou de uma brincadeira de adolescente, que queria atirar em pombos. Uma amiga da família, que se identificou como Flávia Fonteneli, afirmando ser filha de um delegado de polícia, disse que tudo não passava de uma grande bobagem: “É uma história que não vale nem a pena ser contada”.

Se essa imbecil é filha de um delegado de polícia deve saber muito bem o que o escroto fez, a não ser que além de burra e do medo que sente da fofoca seja também uma ignorante consumada — o que não é exatamente improvável.

Mas o que assusta, mesmo, é a prepotência de uma classe social. A idéia de que para amigos que moram na Dias Ferreira não há limites, de que tudo é perdoável, é mais nociva do que qualquer traficante no Vidigal. Porque corrói a base moral da sociedade, e fornece justificativas suficientes para que um traficante diga: “se eles podem, mesmo tendo tudo, por que eu não posso, eu que não tive nada?”

Mais mulés

Emancipação feminina é o direito que as mulheres conquistaram de se acharem o máximo por ainda serem umas antas.

Não fui eu quem escreveu isso. Foi a Mônica. A Mônica é mulher. Se eu escrevesse seria um porco chauvinista, logo eu que faço o maior esforço para ser um sujeito bonzinho.

Mas como geralmente não consigo, deixa eu me resignar a assinar embaixo do que a Mônica escreveu.

As mulé vão à luta

Este artigo de Caitlin Flanagan na Atlantic Monthly é bem interessante. Conservador? Talvez, como tudo naquela revista — que, por sinal, é uma das melhores publicadas na Bushlândia.

Flanagan defende alguns pontos de vista curiosos. O primeiro deles é simples: a função da “dona-de-casa” praticamente acabou nos EUA; sendo substituído, no máximo, pelo que ela chama de “mães em casa”. Além disso, nota que a “emancipação” da mulher americana foi conseguida às custas da exploração das classes mais baixas, imigrantes que passaram a fazer os serviços domésticos. E ela tem razão.

Outro ponto digno de nota é a observação de como o trabalho da dona-de-casa passou a ser denegrido a partir dos anos 50. De repente, passou a ser mais interessante trabalhar por mixaria do que cuidar da casa. Ela não toca nesse ângulo, mas Marx daria uma explicação simples. A expansão da economia americana no pós-guerra fez com que se precisasse mais de gente suficientemente educada para ocupar novos postos de trabalho. Curiosamente, a emancipação das mulheres pode ter custado também os empregos dos homens das classes mais baixas.

O artigo é extenso, mas vale a pena. E fica a discussão: afinal de contas, o que é essa emancipação feminina? E até onde vale a pena?