E alguém realmente acha que eu sou besta de tentar chegar a alguma?
Category Archives: A vida como ela é
Por outro lado…
Imagine que Maria de Nazaré decidisse fazer um aborto e seu filho Jesus Cristo não tivesse nascido.
Por um lado…
Imagine que Clara Pölzel decidisse fazer um aborto e seu filho Adolf Hitler não tivesse nascido.
O Estado como "fazedor de anjos"
Aborto é um tema delicado, Paulo.
Mas naquele post eu não estava falando especificamente sobre o aborto em si; acho que me expliquei mal. Me referia à questão legal que envolve o assunto.
Alguns acham um crime hediondo; outros não. A questão aqui não é exatamente o aspecto moral do aborto, mas sim a possibilidade daqueles que estão dispostos a fazer um de contarem com o apoio do Estado — ou, quando menos, de não serem atrapalhados por ele.
É ingenuidade acreditar que o fato de existir uma lei proibindo o aborto seja eficaz em coibi-lo, assim como seria achar que sua legalização iria incentivar sua prática. Abortos nunca foram legais no Brasil (com exceção de alguns casos bem específicos), e não consta que seu número tenha diminuído ou aumentado por isso. Porque o que faz com que uma mulher, diante de uma gravidez indesejada, decida ter ou não o seu bebê é a sua visão moral e ética do mundo, aliada a uma série de circunstâncias imponderáveis. Nessa hora ela não poderia ligar menos para o que uma lei pouquíssimo aplicada diz.
Se ela decidir pelo aborto, e for de classe média ou superior, poderá recorrer a bons médicos (bons no sentido técnico; me abstenho de fazer julgamentos morais). Em último caso, pode recorrer a dois comprimidos de Cytotech. Já aquela miserável que toma a mesma decisão terá que recorrer a soluções que muitas vezes parecem saídas de um circo de horrores. Sem falar nos abortos feitos em fetos com até 6 meses de gestação.
Pode-se achar ou não o aborto algo condenável, mas a questão é que o Estado, diante de uma realidade objetiva e bem definida, deve simplesmente parar de esconder a cabeça em um buraco na areia. Legais ou não, abortos vão continuar sendo feitos. E é bom lembrar que é dever do Estado dar o máximo de igualdade a todos; é para isso que ele existe. Por definição, o Estado é laico e é o resultado da correlação de forças da sociedade que regula.
Mas é praticamente impossível falar de aborto sem resvalar no aspecto ético. Eu, pelo menos, acho que uma mulher tem o direito de decidir o que fazer com o corpo dela; dizer que o embrião é outro ser é apenas meia-verdade, porque se fosse mesmo não dependeria do corpo dela.
(Pequena questão filosófica: uma mulher grávida tem o direito de se suicidar?)
Não acho que ninguém tenha a autoridade de dizer a uma pessoa que ela deve ter um filho que não quer.
Além disso, acho que pior que um aborto é uma criança ser criada sem amor. Orfanatos estão cheios de abortos que não foram feitos.
Ainda os comentários
A Mônica fez um comentário perfeito (na minha opinião, claro) sobre a questão da inseminação artificial, a “O Estado como fazedor de anjos”. Vale a pena ler.
Estou com inveja. Droga. Por que não pensei nesse argumento?
Comentários dos comentários
Paulo: quanto à questão do direito de uma gestante a se suicidar, posso concluir então que ela pode fazer isso logo após parir, correto?
Julia: acho engraçado quando as pessoas usam medidas diferentes para julgar a mesma questão. Por exemplo, se o abortado fosse Hitler, diz-se “como ela poderia saber?” Mas se é Jesus (obviamente estou vendo tudo sob uma perspectiva histórica e desconsiderando eventuais Anunciações; se quiser, pode substituí-lo por Gandhi, Luther King, Madre Teresa, irmã Dulce ou qualquer outro) se diz um “pois é”, quando a pergunta deveria ser a mesma: “como ela poderia saber?”. A pergunta é feita para dar o benefício da dúvida a qualquer feto, sob uma ótica positiva. Mas esse mesmo benefício pode ser dado sob a ótica inversa.
Beto: as pessoas podem retirar um rim ou um pulmão na hora que quiserem. Aliás, às vezes doar um rim é uma obrigação moral. E tenho a séria desconfiança de que, se quem precisasse fosse certo acidente genético (aquela mocinha que é linda mesmo parecendo com o pai), você daria os dois. No que diz respeito à questão de prevenção, aqui não se está dizendo que aborto é algo louvável ou condenável: apenas que é um fato inegável e que o Estado tem o dever de respeitar isso, garantindo o bem estar dos cidadãos. Finalmente, quanto à questão de marketing (o que seria impossível pela regulamentação do CONAR, ainda que o governo permitisse), que tal essas campanhas “maravilhosas”: “Faça seu aborto aqui e ganhe camisinhas grátis por um ano!”? Ou “Clínica de Abortos São Miguel: de anjos nós entendemos”? Ou “Ele botou? Nós tiramos!”? Ou…
Pro Stupidity
Eis o texto de um anúncio finalista do anuário do Art Director’s Club de Nova York, 1993:
Vote now or forever hold your sperm.
If George Bush and the anti-choice movement have their way, the right to a safe, legal abortion will be history. This leaves you with two options. You can either vote for Pro Choice candidates on November 3rd. Or you can abstain. Vote Pro Choice.
O anúncio foi criado por uma das melhores agências da história, a Chiat|Day. E é um dos melhores exemplos de estupidez que já vi.
A idéia de que o aborto é uma solução simples para uma gravidez indesejada assusta, pela sua irresponsabilidade e canalhice. E me parece um tiro no pé.
Antes de mais nada, o aborto deve ser um direito de cada mulher. Há vários argumentos para isso, principalmente no Brasil, geralmente sociais. Mas a essência é simples: as pessoas devem ter o direito de escolher se querem ter um filho ou não.
Mas um direito não significa uma obrigação, e muito menos uma justificativa para que se aja com a mais insensata irresponsabilidade.
A questão é que de acordo com esse anúncio o pessoal do Pro Choice parece um bando de imbecis assassinos. Infelizmente, o pessoal do Pro Life parece ser constituído de imbecis ainda maiores, porque um anúncio desses era uma chance e tanto de desqualificar qualquer lobby dos “fazedores de anjos”.
A propósito, eles têm várias outras opções, e não apenas a abstinência. Camisinha, pílula, DIU, diafragma são apenas algumas delas.
Leio esse anúncio de vez em quando, há vários anos. Só para me certificar do nível de idiotice a que o mundo pode chegar. E a verdade é que até hoje não consegui me acostumar.
O aprendiz de guerrilheiro
Deixa ver por onde começo: o menino de 14 anos resolveu ser guerrilheiro das FARC colombianas para combater o capitalismo, e durante 3 meses economizou 1000 reais do dinheiro que papai e mamãe lhe davam para ir ao shopping e sair com os amigos. Fugiu mas “caiu” em Manaus, e voltou para casa onde foi recebido com beijos do papai e da mamãe e brigadeiro, seu doce predileto, da vovó.
Agora deixa eu colocar as coisas nos meus termos.
Segundo os depoimentos da família, o debilóide pirou depois que foi assaltado, há cerca de um ano. Devem ter dado uma coronhada na cabeça dele, sei lá. Só pode ser isso. É como posso explicar as ações desse babaca.
Algumas coisas me impressionaram nessa história. A decisão do retardado de se juntar às FARC demonstra uma ignorância profunda, sim, mas também uma burrice descomunal. Ignorância por não saber das ligações entre guerrilha e tráfico, e burrice porque há jeitos melhores de se combater a violência. O que esse mongolóide queria era ser herói, só isso. Pode ser um demente que não duraria 15 dias na selva, mas querer ser herói é direito de todos.
É curioso, e até irritante, que o idiota possa economizar mais de 300 reais por mês do dinheiro do seu lazer. É mais do que dezenas de milhões de brasileiros conseguem ganhar em um mês inteiro de trabalho duro. E é esse menino de classe média, talvez classe média alta, filho de um casal que aparentemente tem se dado bem no sistema, que resolveu “combater o capitalismo”, só porque foi assaltado e viu a violência de perto. Tem gente que tenta se suicidar para chamar a atenção; ele resolveu ser guerrilheiro.
Que me desculpem seus pais, mas esse menino é só um garoto mimado e voluntarioso. E burro, imensamente burro, burro até dizer chega. No lugar de seus pais, uma pessoa com juízo daria a ele algumas sessões num psicólogo, em vez de brigadeiros. Mas, antes, daria-lhe uma surra homérica.
Hospitalidade carioca
Gwyneth Paltrow está vindo para o Rio e quer conhecer lugares românticos.
Alguém avise a ela que meu quarto está aberto. De domingo a domingo.
Get Back
Tinha jurado para mim mesmo que não ia comentar, mas é mais forte que eu.
Uma garotada de Londrina arranjou uma desculpa para emigrar ilegalmente para a Inglaterra: um festival sobre os Beatles. A PF de lá desconfiou, fez umas perguntinhas e o resultado é que o sonho da velha Albion dançou para esses rapazes.
Demorei muito até conseguir parar de rir. Não por terem sido deportados, já que perder um sonho é uma das coisas mais duras que se pode imaginar, mas por duas razões.
A primeira é por não terem se preparado para o evento. Custava nada ler uma biografia qualquer dos Beatles, daquelas de uma página, só para ter uma idéia geral do que é aquilo.
A segunda é a completa ignorância dos rapazes em termos de cultura geral. Tudo bem não saber que só Paul e Ringo estão vivos. Mas não saber quem é Yoko Ono — aquela velhinha que apareceu há um tempo no Fantástico, ao lado de Paulo Ricardo — é uma das provas mais cabais de falta de informação que eu já vi na vida. Para que ganhar o mundo, se você não sabe nada sobre ele?
E fico aqui, imaginando os fiscais ingleses cantando para o pessoal: Get back, get back to where you once belonged…