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	<title>Rafael Galvão &#187; Beatles</title>
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		<title>O dia em que Paul McCartney perdeu seu swing</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 14:41:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia, muito tempo atrás, Paul McCartney dialogou com o futuro &#8212; e nesse diálogo foi um dos principais artífices da música que se seguiria. Além disso, sem medo de errar, pode-se dizer que ele foi um dos melhores cantores da era de ouro do rock. Versátil, capaz de gravar na mesma sessão uma balada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Beijinho pode." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/kissesonthebottom.jpg" alt="" width="300" height="300" />Um dia, muito tempo atrás, Paul McCartney dialogou com o futuro &#8212; e nesse diálogo foi um dos principais artífices da música que se seguiria.</p>
<p>Além disso, sem medo de errar, pode-se dizer que ele foi um dos melhores cantores da era de ouro do rock. Versátil, capaz de gravar na mesma sessão uma balada como <em>Yesterday</em> e um <em>rocker</em> à la Little Richard como <em>I&#8217;m Down</em>. Não tinha a emoção de um Lennon, nem conseguia transmitir a verdade que ele passava; mas ia facilmente a extremos que poucos outros conseguiam.</p>
<p>Os anos passaram, muitos anos, e de uns tempos para cá ele vem se contentando em fazer música &#8212; muitas vezes muito boa, por sinal; seus últimos lançamentos não fazem vergonha a um ancião com mais de 40 discos nas costas (comentários sobre eles foram feitos <a title="O disco de 2005. Bom disco." href="http://www.rafael.galvao.org/2005/09/chaos-and-creation-in-the-backyard/" target="_blank">aqui</a> e <a title="Memory Almost Full" href="http://www.rafael.galvao.org/2008/07/a-memoria-dos-grandes/" target="_blank">aqui</a>). Por outro lado, sua voz acabou há muitos anos; McCartney já não é capaz de chegar aos agudos que atingia nos anos 60, até mesmo nos 80; e desenvolveu vícios que o tornam, em alguns momentos, quase brega.</p>
<p>Agora ele resolveu voltar lá para trás. Seu novo disco, <em>Kisses on the Bottom</em>, é uma coletânea de antigos <em>standards</em> americanos &#8212; a maioria relativamente desconhecida. Acompanhando-o está a banda de Diana Krall, responsável também pelo grosso dos arranjos. Pela primeira vez McCartney gravou um disco em que não toca nenhum instrumento (com uma única exceção, violão em <em>The Inch Worm</em>). Talvez isso contribua, em parte, para o fato de que na maioria das canções não há o seu toque, a sua marca. De modo geral, parece um disco de Diana Krall &#8212; principal arranjadora do disco e presente em virtualmente todas as faixas &#8212; com McCartney nos vocais. É um erro.</p>
<p>Talvez o mais incômodo em <em>Kisses on the Bottom</em> seja justamente isso, os vocais de McCartney. Ele se aproxima das canções com um tom ao mesmo tempo reverente e autocondescendente; o resultado é apenas pretensioso. A intenção aparente de soar intimista e <em>low key</em>, então, soa caricatural. Sua abordagem das canções é completamente equivocada, deixando evidente sua incapacidade de alcançar as variadas nuances exigidas pelas canções. Isso fica mais claro em canções como <em>Ac-cent-tchu-ate the Positive</em> (duvida? Ouça a versão das Andrews Sisters).</p>
<p>A McCartney faltam tanto a versatilidade vocal e a riqueza tonal dos <em>crooners</em> d&#8217;antanho; mas acima de tudo lhe faltam as qualidades de intérprete que essas canções parecem exigir. Ele não tem aquele quê a mais que fazia Sinatra dar uma vida antes inimaginável a uma canção, ou o charme aparentemente preguiçoso de Dean Martin, ou ainda a sensação de casualidade que Bing Crosby imprimia ao que cantava &#8212; e, em todos esses casos, uma técnica perfeita. Interpretando velhos <em>standards</em>, McCartney é um mau intérprete, é só mais um cantor. Não é sequer dos melhores: é um cantor sem voz. Além disso, aparentemente o disco pretende ser minimalista; mas não se compara, por exemplo, ao que Fred Astaire fez em <em>The Irving Berlin Songbook</em>. É um minimalismo quase burocrático, o minimalismo batido do jazz aguado à la Diana Krall ou Harry Connick, Jr. que as pessoas ouvem hoje em dia.</p>
<p>Resumindo: o problema desse disco é que Paul McCartney não tem swing.</p>
<p>Em entrevistas ele diz ter evitado durante muito fazer esse disco porque não queria ser comparado a Rod Stewart, que andou perpetrando coisas parecidas nos últimos tempos. Ele devia ter mais medo de ser comparado com Ringo Starr. O que Ringo fez 42 anos atrás, em seu primeiro disco solo, <em>Sentimental Journey</em>, McCartney fez agora. A diferença é que Ringo não se levava a sério, até porque não podia, e seu disco tem um tom moderno, ainda que paródico, que quase chega a dar alguma personalidade aos grandes clássicos que o baterista não teve vergonha de regravar.</p>
<p>McCartney, no entanto, está sempre tentando se manter à altura de sua história. Talvez por isso tenha tido o cuidado de evitar ao máximo os grandes clássicos do cancioneiro americano. Foi uma medida acertada. Se se aventurasse a interpretá-los, o resultado seria provavelmente trágico, evidenciando ainda mais suas limitações. Uma pista disso está em <em>Bye Bye Blackbird</em>. Sua interpretação aqui é, em uma palavra, tenebrosa. Cheque a versão de Doris Day &#8212; que dificilmente seria incluída entre as mais conhecidas &#8212; para ver como se pode cantar essa canção com simplicidade e alcançar resultados excelente. Em vez disso, McCartney acrescenta floreios desnecessários e uma interpretação arfante a uma canção que deveria ser interpretada apenas com um banjo, um contrabaixo e uma <em>washboard</em>. (Pensando bem, cheque a versão de Ringo em <em>Sentimental Journey</em>. Até essa é melhor.)</p>
<p>Como você vai baixar o disco nas redes P2P da vida (afinal, a quem queremos enganar, não é?), dê preferência à versão <em>deluxe</em>, que inclui duas canções bônus. Entre elas uma regravação de <em>Baby&#8217;s Request</em>, a canção que fechava um dos álbuns mais subestimados dos Wings, <em>Back To The Egg.</em></p>
<p><em>Baby&#8217;s Request</em> simboliza tudo o que há de errado em <em>Kisses on the Bottom</em>. Em sua versão original era uma canção simples, despretensiosa, que pretendia apenas fechar com graça o disco. Era aquilo que sua letra dizia: uma música para tocar antes de empacotar os instrumentos, depois que todo o salão se esvaziou, uma canção boba para um casal apaixonado em fim de noite. A nova versão, no entanto tem outras aspirações; a musiquinha simples se tornou pretensiosa, a voz de McCartney, antes sedutora em sua simplicidade, agora tenta se alçar a maneirismos que já não é capaz de conseguir.</p>
<p>Eu sei que tudo isso parece uma condenação absoluta do disco. Não é. <em>Kisses on the Bottom</em> é agradável, os arranjos são de extremo bom gosto, os músicos são de competência ímpar. E se você deixa de se preocupar com a voz de McCartney, ou sua interpretação de cantor de baile, se aceita sem problemas a sensação de <em>dejà vu</em> nas canções, <em>Kisses on the Bottom</em> se torna o tipo de disco que se pode colocar no CD player em uma noite com os amigos. Ou se no seu carro ou em sua casa está uma moça ou um moço que gosta desse tipo de música. É um disco útil. O problema é que utilidade é a última coisa que se deveria dizer de uma obra de arte.</p>
<p><em>Kisses on the Bottom</em> tem outra grande qualidade, e essa é inquestionável. As duas canções que McCartney escreveu para este disco são surpreendentemente bem construídas, melodicamente sofisticadas, mostrando que McCartney afinal é um compositor em pleno controle de sua técnica. <em>My Valentine</em> é de uma elegância estonteante, sem perder a marca registrada de McCartney; <em>Only Our Hearts</em> é virtualmente indistinguível do que se fez de melhor nos anos 40. São, provavelmente, o melhor do disco.</p>
<p>Daqui a alguns anos, quando McCartney estiver morto e enterrado e vermes carnívoros não respeitarem suas vontades vegetarianas e devorarem suas carnes, <em>Kisses on the Bottom</em> vai ser lembrado dentro do conjunto da obra de Paul McCartney, talvez o maior artista pop da história. Vai ser visto com um acréscimo importante à obra impressionante de um sujeito que foi capaz de ajudar a mudar o mundo, que escreveu de rocks a balés, de oratórios a sinfonias. Mas enquanto isso não acontece, <em>Kisses on the Bottom</em> é só mais um disco feito para tocar em BG.</p>
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		<title>Uma pequena bibliografia dos Beatles</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jan 2011 02:48:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, é hora de atualizar a lista. The Complete Beatles Recordings Mark Lewinsohn Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação &#8212; e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, é hora de atualizar a lista.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Complete Beatles Recordings</strong></span><br />
<em>Mark Lewinsohn</em><br />
Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação &#8212; e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. <em>The Complete Beatles Recordings</em> é um diário de todas as sessões da banda, provavelmente o livro mais acurado que já se escreveu sobre ela. Infelizmente fora de catálogo há muitos anos, se tornou uma bíblia de beatlemaníacos, o livro a que se recorre para dirimir dúvidas. Ainda espero a chance de colocar novamente minhas mãos sobre um exemplar, é o único fundamental que falta na minha estante. Mas essa espera já foi pior: os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações. O livro mostrou ter lacunas e erros. Mas continua sendo o livro mais importante já escrito sobre o dia-a-dia dos Beatles, e necessário para que se entenda a dinâmica que fez da banda a maior de todos os tempos.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Complete Beatles Chronicle</strong></span><br />
<em>Mark Lewinsohn</em><br />
Lançado depois do <em>Complete Beatles Recordings</em>, é basicamente um roteiro das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida, assim como um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, etc. Tem também uns bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento. Foi relançado há alguns anos e vale muito a pena.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Beatles Anthology</strong></span><br />
<em>The Beatles</em><br />
Parte do projeto <em>Anthology</em> &#8212; que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) &#8211;, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua história, a sua versão edulcorada para a posteridade. Independente disso, é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso?</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Love You Make</strong></span><br />
<em>Peter Brown</em><br />
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em <em>The Ballad of John and Yoko</em>), e este é um relato de <em>insider</em>. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor. As chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ter um só, é um daqueles livros necessários para que se tenha uma visão mais completa da história da banda.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Shout</strong></span><br />
<em>Phillip Norman</em><br />
Foi a primeira biografia decente dos Beatles. Lançada no começo dos anos 80, apresentava um panorama abrangente sobre a banda. Infelizmente tem muitas falhas factuais, e até mesmo investe numa teoria conspiracionista absurda sobre a morte de Brian Epstein. Além disso, como Norman tem aparentemente ligações mais próximas com Yoko Ono, tenta passar uma visão excessivamente deletéria de McCartney. No início dos anos 2000 o livro sofreu uma revisão geral, mas sua essência continuou. Mais recentemente Norman escreveu uma biografia insípida sobre John Lennon, lançada no Brasil.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Lives of Lennon</strong></span><br />
<em>Albert Goldman</em><br />
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do Notícias Populares, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que ele tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido &#8212; Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados. É também um bom mergulho sobre a personalidade de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que Lennon era uma mistura de carisma e talento impressionantes e personalidade complexa e muitas vezes detestável.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Here, There and Everywhere</strong></span><br />
<em>Geoff Emerick</em><br />
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de <em>Revolver</em>, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É um livro fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está na lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor o seu papel real na história do que Martin, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir o papel do ex-patrão.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Beatles Gear</strong></span><br />
<em>Andy Babiuk</em><br />
É o livro mais específico dessa lista: uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação &#8212; indo do Zenith de McCartney e o violão &#8220;garantido contra rachaduras&#8221; de Lennon ao Fender VI usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender o que havia na música dos Beatles. Incidentalmente, é o livro que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Many Years From Now</strong></span><br />
<em>Paul McCartney</em><br />
Oficialmente a autoria é de Barry Miles, mas isso é apenas um disfarce para a autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o <em>ghost writer</em> apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. De qualquer forma, abrangente e bem detalhado, é importante para a compreensão da história dos Fab Four.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>You Never Give Me Your Money</strong></span><br />
<em>Pete Doggett</em><br />
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contraprocessos posteriores. Cobre uma lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro tem um bom senso de história dos Beatles, um bom nível de imparcialidade e um bom senso de apreciação musical; mas falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livor imporante para entender o processo de separação da banda.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>The Beatles: The Biography</strong></span><br />
<em>Bob Spitz</em><br />
Spitz se beneficiou da passagem do tempo e da abundância de material biográfico para escrever um livro abrangente e bem equilibrado, que tenta fugir dos mitos sem explorar em excesso aspectos sensacionalistas. O resultado é a biografia mais completa dos Beatles, com um excelente grau de neutralidade. De modo geral Spitz tenta sempre ver todos os lados de uma questão, e mostra um bom entendimento do que era a dinâmica interna da banda. Consegue ter os fatos em boa perspectiva e evita dourar pílulas. Tem um número talvez excessivo de erros factuais &#8212; alguns graves, como errar a data da reunião em que Lennon &#8220;pediu o divórcio&#8221; ao resto da banda, e muitos outros menores; mas com exceção de <em>Many Years From Now</em>, <em>Anthology</em> e <em>Can&#8217;t Buy Me Love</em> (de Jonathan Gould, e recomendado de modo geral), é o único traduzido para o português, o que faz dele a melhor biografia dos Beatles disponível no Brasil.</p>
<div style="text-align: center;">***</div>
<p>O livro definitivo sobre a banda ainda não foi publicado &#8212; está sendo escrito neste exato momento. Todas as biografias dos Beatles, sem exceção, contêm erros, e muitas têm defeitos de interpretação e compreensão; mas há alguns anos, Mark Lewisohn anunciou que estava escrevendo uma biografia que deveria se estender por três volumes. Lewisohn é o sujeito que mais entende de Beatles no mundo, é próximo de todos os ex-beatles e é um bom historiador. O primeiro volume deveria ter sido publicado em 2008 e o último em 2016; a Amazon inglesa promete o livro para <a title="Aleluia." href="http://www.amazon.co.uk/Beatles-Biography-Tune-v/dp/0316729604">setembro deste ano</a>, e o título será <em>The Beatles &#8212; The Biography: Tune In, Vol. 1</em> (o que me leva a crer que o segundo se chamará <em>Turn On</em> e o terceiro, <em>Drop Out</em>; títulos adequados, a propósito). Quando finalmente for publicado, vai dispensar virtualmente todas as biografias dos Beatles, o que inclui a maioria dos livros recomendados aqui.</p>
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		<title>Pequena introdução à discografia de John Lennon</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 01:13:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Já fiz uma pequena discografia de McCartney &#8212; que um dia reescrevo, melhorando e aprofundando; agora é a vez de Lennon. Não é segredo para ninguém que considero McCartney um músico mais capaz. E apesar de altamente irregular, alternando bons e maus momentos, sempre achei que tem uma discografia mais consistente que a de Lennon. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já fiz uma pequena discografia de McCartney &#8212; que um dia reescrevo, melhorando e aprofundando; agora é a vez de Lennon.</p>
<p>Não é segredo para ninguém que considero McCartney um músico mais capaz. E apesar de altamente irregular, alternando bons e maus momentos, sempre achei que tem uma discografia mais consistente que a de Lennon. As <i>personas</i> públicas dos dois interferem de maneira excessiva na percepção de seus talentos como músicos: e isso beneficia Lennon enquanto prejudica McCartney &#8212; talvez até mais do que os seus piores álbuns.</p>
<p>Mas independente de qualquer coisa, John Lennon foi uma das personalidades que ajudaram a definir a história a partir de 1970. Como artista, de um ponto de vista geral, mas principalmente como músico, Lennon deixou uma marca indelével na história da cultura pop.</p>
<p>Essa imagem, infelizmente, costuma ser dissociada de sua música. Para milhões de pessoas, John Lennon é <i>Imagine</i>; e essa é apenas uma das suas tantas canções, uma de que, a propósito, ele não gostava particularmente. Ela foi fundamental na definição da imagem de John Lennon, mas ao mesmo tempo tornou essa imagem, além de unidimensional, falsa. Porque Lennon era muito mais que isso.</p>
<p>Abaixo segue uma pequena análise, disco a disco, deixando-se de lado bisonhices como <i>Two Virgins</i> e os discos ao vivo.</p>
<p><span id="more-2825"></span></p>
<p><u><b>John Lennon/Plastic Ono Band</b></u><br />
Se você for ouvir um, e apenas um, disco de um ex-beatle, esse provavelmente é o disco a ser ouvido. É o primeiro disco de verdade lançado por Lennon, depois de bizarrices e egotrips que melhor ficariam guardadas em uma estante com chave e cadeado. É talvez o melhor disco lançado por um ex-beatle. É dono de uma força e de uma sinceridade que impressionam qualquer pessoa que conheça um tiquinho só de música pop. O que Lennon consegue aqui poucos artistas conseguiram em suas carreiras: falar de si mesmo em uma linguagem universal. O <i>Plastic Ono Band</i> é o melhor disco que Lennon lançou em toda a sua carreira. Não há uma só concessão a absolutamente nada. Além disso, é um disco variado, que vai da extrema catarse de <i>Mother</i> à beleza estonteantemente simples de <i>Love</i>. Eu não sei exatamente o que Phil Spector faz nesse disco, porque em lugar algum se consegue perceber sua marca. O disco foi produzido por Lennon, nada mais que isso, em parte como uma reação à produção elaborada dos Beatles que ele associava a McCartney, mas principalmente porque era essa a sua visão do rock and roll. É um disco cru, com instrumentação esparsa, básica, e a realização perfeita da visão de Lennon sobre o <i>rock and roll</i>. Uma obra-prima.</p>
<p><u><b>Imagine</b></u><br />
<i>Imagine</i> é um disco brilhante e de uma sensibilidade invejável. Tem o brilho do seu antecessor, mas agora mais comercial. A influência de Yoko Ono é muito maior do que pode parecer à primeira vista. E ao contrário do que se veria em outras obras de Lennon, essa influência é benéfica. <i>Imagine</i> tem algumas das mais belas e simples melodias que John Lennon escreveu em sua vida, de uma riqueza que o estereótipo só permite esperar de McCartney. Canções como <i>Jealous Guy</i>, <i>Oh My Love</i> e <i>How?</i> são de uma delicadeza, de uma riqueza e de uma sensibilidade que ele dificilmente voltaria a demonstrar de maneira tão completa em algum disco seu. Phil Spector agora consegue se fazer notar, e deixa aqui sua marca nos arranjos, e na produção às vezes pesada a que, mais tarde, Lennon voltaria por conta própria. Entre as curiosidades está uma foto de Lennon segurando um porco, uma paródia à capa de <i>Ram</i>, de McCartney, e que ele chegou a cogitar em transformar na capa do disco.</p>
<p><u><b>Some Time in New York City</b></u><br />
É o disco mais panfletário de John Lennon. A essa altura, ele estava profundamente envolvido com movimentos políticos de esquerda, como os Black Panthers e Abbie Hoffman. O panfletarismo e o senso de urgência cobraram um preço a Lennon: o disco é datado, funcionando mais como um documento de sua época do que como uma obra de arte atemporal. Lennon aqui se desvia do caminho traçado pelos seus dois discos anteriores e tenta ser um cronista de seu tempo, tenta refletir a urgência política que tinha se tornado uma marca de sua vida naquele momento. Isso tem seu valor, claro; mas diminui a permanência de sua obra. Se as mensagens de <i>Imagine</i> continuam válidas ainda hoje, boa parte de <i>Some Time In New York City</i> soa ultrapassado. Mesmo assim é um disco com algumas grandes canções. Para algumas pessoas, o que estraga o disco é Yoko Ono: sua voz de criança esganiçada põe abaixo algumas das boas canções, e praticamente o segundo disco inteiro, que de bom, mesmo, tem apenas uma pequena parte da <i>jam session</i> com Frank Zappa. Mas a verdade é que algumas das melhores canções do disco, como <i>Sister, O Sister</i> e <i>We&#8217;re All Water</i>, são cantadas por ela. <i>Some Time</i> acaba sendo um bom disco, forte, urgente &#8212; seu problema é que, para que se admire essas qualidades, é preciso contextualizar o álbum em seu tempo, e é isso, paradoxalmente, que o torna menor. Mas alguns elementos incômodos já começam a se fazer notar. Apesar de se autodefinir como roqueiro, o que se tem aqui é um Lennon que começa a envelhecer e a limitar suas referências ao rock and roll que ouviu em sua adolescência, o que leva a canções com estruturas velhas, recicladas. De qualquer forma, se se descontar o panfletarismo, o saxofone (influência do som de New York da época; os Beatles tinham horror a saxofones, e com exceção de uma brincadeira chamada <i>You Know My Name</i>, não se acha uma só canção deles com solos desses instrumentos do diabo) e o fato de ter envelhecido não muito bem, é um disco que reflete razoavelmente as tensões políticas nos Estados Unidos de sua época.</p>
<p><u><b>Mind Games</b></u><br />
É aqui que Lennon começa a se perder. É um disco que, praticamente todo dedicado a Yoko Ono, se ressente da falta de boas melodias e de grandes idéias. É um Lennon cansado, o autor de <i>Mind Games</i>. E que começa a repetir suas próprias fórmulas musicais e líricas. Uma tendência que se viu no disco anterior se consolida aqui: a de fazer de suas melodias grandes pastiches do rock diluído dos anos 50 &#8212; e tome saxofone nas fuças dos ouvintes, guitarras rockabilly, uma reciclagem eterna de um material limitado. É no <i>Mind Games</i> que as diferenças reais entre Lennon e McCartney se definem de maneira clara: musicalmente, enquanto McCartney se aventurava por caminhos novos e diversos a cada novo álbum, muitas vezes fracassando de maneira retumbante, Lennon se restringe a fazer e a refazer as mesmas coisas. Seu horizonte musical começa a se tornar limitado. Lennon começa a repetir fórmulas melódicas, recorrendo preferencialmente a clichês do rock dos anos 50. A crítica que se faz a McCartney pode ser feita a Lennon também: sem a presença do parceiro, Lennon não parecia se esforçar muito para se superar, e sua ausência se fará notar claramente na sua discografia. As baladas são monótonas, sem a riqueza melódica de suas melhores canções e sempre lembram alguma coisa; os <i>rockers</i>, musicalmente, são mais do mesmo. Em <i>Mind Games</i> chega a hora da verdade para Lennon. É a primeira vez que algo que se pode antever no disco anterior se torna evidente: a partir daqui, a ausência de McCartney se fará notar claramente na discografia de Lennon. Sem McCartney,  Lennon também se revela um mau produtor, com tendência a arranjos excessivos e pesados, parecendo ter aprendido mais com Phil Spector que com George Martin. Mas que isso não pareça uma condenação completa: um mau Lennon é melhor, por exemplo, que um excelente Noel Gallagher. Lennon ainda continua um excelente letrista, e um cantor brilhante. É curioso que a versatilidade absoluta de McCartney costume obscurecer as enormes qualidades do canto de Lennon. Menos técnico e versátil que McCartney, Lennon por sua vez tem uma qualidade muitas vezes ausente da voz do parceiro: verdade.</p>
<p><u><b>Walls and Bridges</b></u><br />
É um disco irregular, parece incompleto, às vezes meio confuso. Mas é um excelente álbum. Cair na esbórnia fez bem a Lennon. <i>Walls and Bridges</i> foi gravado em meio a um período turbulento da vida de Lennon, vida de excesso e boemia exagerada. É um disco mais alegre que o anterior, e conta com algumas grandes canções. Curiosamente tem mais baladas que um disco de Engelbert Humperdinck, como quando ele resolve bater em Allen Klein (<i>Steel and Glass</i>) ou chorar por Yoko (<i>Bless You</i>). Mas tem também boas levadas funk, como na excelente <i>What You Got</i>, e uam atmosfera geral de força. É um bom disco, e isso basta. O CD destruiu uma das melhores coisas deste álbum, a capa, em que tiras de papel faziam as vezes daqueles antigos métodos de identificação de suspeitos em delegacias.</p>
<p><u><b>Rock and Roll</b></u><br />
As gravações deste disco foram uma bagunça. Excesso de cocaína, de álcool, tiros no estúdio. Teve até McCartney tocando com Lennon numa jam session aterrorizante de tão ruim, disponível para os valentes num disco pirata chamado &#8220;<i>A Toot and a Snore in &#8217;74</i>&#8220;. O resultado é um disco irregular e confuso que apresenta uma visão bastante particular do rock and roll, o que não é necessariamente uma qualidade. Há duas maneiras possíveis de ouvir esse disco. Uma é reconhecendo a coragem de Lennon &#8212; irreverência talvez fosse a palavra adequada &#8212; em mexer nos arranjos das canções, em gravar versões debochadas de algumas delas. A outra é apontando a falta de energia e de &#8220;atitude&#8221; do rock and roll no disco, a não ser em pouquíssimas faixas como <i>Stand by Me</i>. Mas o que eu acho mais interessante é uma impressão que vem depois que se compara este disco aos similares de McCartney. A lenda reza que Lennon era o roqueiro básico enquanto McCartney era o mais aventureiro musicalmente e o mais middle of the road. No entanto, os discos de covers de McCartney são mais crus, mais básicos, enquanto Lennon se permite ser mais moderno nos arranjos, e fazendo maiores concessões ao som de sua época &#8212; com resultados bem diversos. A reedição feita por Yoko Ono há alguns anos incluiu algumas gravações da época (que por problemas legais com um sujeito chamado Morris Levy demoraram a ver a luz do dia, oficialmente) e que só tinham sido incluídas em discos póstumos, como <i>Be My Baby</i> e <i>To Know Her is To Love Her</i>. O resultado é um disco melhor que o original, e que finalmente reforça a visão daqueles que definem o disco como um olhar debochado sobre o rock and roll, o que talvez não fosse necessariamente a visão do próprio Lennon, mas que beneficia, e muito, o disco.</p>
<p><u><b>Double Fantasy</b></u><br />
Depois de cinco anos, Lennon voltou com um disco <i>mezzo</i> Lennon, <i>mezzo</i> Ono. Segundo Albert Goldman, a divisão foi uma imposição de Yoko, que sabia que um disco só seu não iria a lugar nenhum. Não interessa. Na verdade, o melhor a fazer é simplesmente pular a parte de Yoko e ouvir as canções de Lennon &#8212; muito embora assim se perca um elemento importante: este é um disco conceitual, que deve representar o diálogo de um casal. Se &#8212; assim como Lennon alguns anos antes &#8212; você não liga muito para essa história de conceito, aí vem a parte boa: com exceção de <i>Cleanup Time</i>, as canções de Lennon incluídas são brilhantes. Quando copia descaradamente <i>Havana Moon</i> de Chuck Berry para criar a delicadíssima e brilhante <i>Beautiful Boy</i> (<i>Life is what happens to you while you&#8217;re busy making other plans</i>), ou quando escreve uma das maiores declarações de amor já vistas em música (<i>Woman</i>). Mas há uma ressalva a se fazer: que não se espere uma abordagem roqueira, ou mesmo inovadora. O Lennon que voltava à ativa em 1980 consolidava um  processo iniciado no início dos anos 70, e se limita a baladas e canções reminiscentes dos anos 50. O Lennon que voltava copiava deliberadamente Chuck Berry, Buddy Holly (em <i>Dear Yoko</i>) para definir a sonoridade de sua música. O disco foi um pequeno fracasso de vendas durante os primeiros meses. Então Lennon foi morto, e a história mudou.</p>
<p><u><b>Milk and Honey</b></u><br />
Primeiro disco póstumo de Lennon, é praticamente uma espécie de &#8220;lado B&#8221; do <i>Double Fantasy</i>. Tem seus momentos &#8212; como <i>Nobody Told Me</i> e <i>I Don&#8217;t Wanna Face It</i>, aparentemente um ataque tardio a McCartney &#8211;, mas é basicamente um <i>Double Fantasy</i> mais fraco. Ao mesmo tempo, por ter sido um projeto finalizado por Yoko Ono, fica distante daquele pastiche de anos 50 que tinha se tornado a marca registrada da música de Lennon. Como produtora, Yoko deu um toque moderno à música de Lennon, se recusando a copiar Buddy Holly, por exemplo. E isso é uma coisa boa, apesar de talvez, para os ouvidos de alguns, excessivamente pop.</p>
<p><u><b>Menlove Ave.</b></u><br />
Sobras do &#8220;<i>lost weekend</i>&#8221; e do <i>Rock and Roll</i>. Tem uns momentos curiosos, especialmente no lado A &#8212; mas é apenas um disco de <i>outtakes</i>, em sua maioria chatos e autocomplacentes.</p>
<p><u><b>John Lennon Anthology</b></u><br />
Caixa com 4 discos de sobras de estúdio, demos e shows, é um conjunto irregular, como é a natureza de projetos como este. De modo geral, é uma boa caixa; apresenta algumas surpresas, muitas delas pungentes como um Lennon bêbado e drogado dizendo que Elton John vai morrer cedo e que ele vai ser um guru de 90 anos, e versões instigantes de músicas já conhecidas, como <i>God</i>. Uma pedida melhor para a maior parte das pessoas é  <i>Wonsaponatime</i>, um extrato do <i>Anthology</i> que contém o que há de melhor na caixa</p>
<p><u><b>Acoustic</b></u><br />
Sobras das sobras. Yoko Ono não tinha mais de onde tirar novas gravações e juntou o que podia para tirar uns tostões dos fãs. É um disco que pode ser perfeitamente ignorado por quem já conhece os lançamentos anteriores de Lennon.</p>
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		<title>George Harrison</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Nov 2009 03:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Um comentário antigo do Luiz a um post sobre Michael Jackson me chamou a atenção: ele não concorda totalmente com o que eu disse sobre George Harrison aqui. O Bruno também é um dos fãs de George Harrison. Então vamos lá. Quando George Harrison morreu, em 29 de novembro de 2001, nasceu um santo. De [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um comentário antigo do <a title="Do Olho no Fato" href="http://deolhonofato.blogspot.com/" target="_blank">Luiz</a> a um post sobre Michael Jackson me chamou a atenção: ele não concorda totalmente com o que eu disse sobre George Harrison aqui. O <a title="Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho" href="http://lembrancaeterna.wordpress.com/" target="_blank">Bruno</a> também é um dos fãs de George Harrison.</p>
<p>Então vamos lá.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Morre um santo" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/harrison01.jpg" alt="" width="250" height="329" />Quando George Harrison morreu, em 29 de novembro de 2001, nasceu um santo. De repente, Harrison conquistou tudo o que não conseguiu durante sua vida: reconhecimento absoluto como guitarrista, louvor como compositor, consolidação do papel de parte fundamental dos Beatles. Como eu já disse aqui, em alguns momentos se podia ter a impressão de que Lennon e McCartney eram apenas coadjuvantes de um gênio absoluto.</p>
<p>A morte faz isso com algumas pessoas. Cria um mito injusto e exagerado que não sobrevive a uma simples recapitulação dos fatos.</p>
<p>Harrison era um bom guitarrista, e ninguém diz o contrário. Esforçado, diligente, capaz de repetir o mesmo solo indefinidamente &#8212; algo que Jimmy Page, por exemplo, não consegue. Mas ele viveu em uma era em que guitarristas excepcionais tomavam conta do cenário pop: Jimi Hendrix, Eric Clapton, Page, Jeff Beck. Harrison não estava à altura deles. Nunca esteve. Aliás, se alguém esquece, alguns dos melhores <em>riffs</em> dos Beatles não são sequer de sua autoria (os de <em>I Feel Fine</em> e <em>Day Tripper</em>, por exemplo, são de Lennon).</p>
<p>Isso não quer dizer que Harrison era dispensável. Sem ele, os Beatles dificilmente seriam a mesma banda. Ao contrário dos Stones, que sobreviveram à saída de Mick Taylor com mudanças apenas sutis em seu som, os Beatles perderiam muito de sua própria identidade se Harrison sumisse &#8212; nesse caso, seria mais acertado compará-lo a Brian Jones. Os Beatles não seriam uma banda melhor por ter um guitarrista superior como Hendrix &#8212; e esse é um dos aspectos mais interessantes do grupo, o fato de que sua importância e permanência não dependia de super-instrumentistas, mas sim da interação única entre eles. Harrison era, sim, fundamental. Mas não única, ou mesmo principalmente, por seus méritos como guitarrista.</p>
<p>Tampouco pelos seus méritos como compositor. Ninguém discute que a primeira grande canção de Harrison tenha sido <em>While My Guitar Gently Weeps</em> &#8212; e eu desconfio que sua importância venha principalmente do solo antológico de Eric Clapton. Seus dois outros clássicos são<em> Something</em> e <em>Here Comes the Sun</em>. Essas três canções são de 1968 e 1969; até lá &#8212; ou seja, durante praticamente toda a existência dos Beatles &#8211;, Harrison não tinha sido capaz de compor nenhum grande clássico, ao contrário dos seus colegas. McCartney e Lennon estavam certos no seu julgamento sobre Harrison: como compositor, ele simplesmente não estava no mesmo nível que eles.</p>
<p><img class="alignright" style="margin: 5px 8px;" title="No início ele era feio que doía" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/harrison02.jpg" alt="" width="250" height="338" />Apesar da colaboração importantíssima de George Harrison e Ringo Starr, os Beatles tinham um núcleo duro bem claro, e esse era composto por Lennon e McCartney, e ninguém mais. (John Lennon: &#8220;Os Beatles eram Paul e eu.&#8221;) A relação entre os dois era especial, e todos sabiam disso. Além disso, eram os principais compositores e, digamos assim, os diretores musicais. Mas quando Harrison morreu &#8212; e eu lembro especificamente da cobertura d&#8217;O Globo &#8212; ele foi chamado, literalmente, de &#8220;a alma dos Beatles&#8221;.</p>
<p>Pelo amor de Deus. Harrison não era suficientemente respeitado sequer pelos seus colegas. Quando Lennon saiu, McCartney e Allen Klein (que morreu há alguns meses) imploraram para que ele não contasse a ninguém, porque a banda acabaria e eles deixariam de renegociar um contrato importante. Quando McCartney passou a perna em Lennon e avisou ao mundo que tinha saído também, a banda acabou. Mas quando Harrison saiu da banda, em meio às gravações do que viria a ser o <em>Let it Be</em>, Lennon simplesmente comentou que poderiam chamar Eric Clapton para o seu lugar. Era uma brincadeira nervosa no meio de um turbilhão, mas com enorme fundo de verdade. Mais tarde, as opiniões de Lennon sobre Harrison não seriam das mais elogiosas &#8212; basta ver o que ele diz a respeito do ex-amigo em sua última entrevista à Playboy.</p>
<p>Seu papel na dissolução da banda é também subestimado. Normalmente, as análises mais primárias oscilam entre a culpa de Lennon e a de McCartney. O processo, claro, foi mais complexo, e envolvia uma série de outros elementos. Mas a atitude de George Harrison costuma ser subestimada em excesso.</p>
<p>Seu descontentamento era ainda mais consistente que o de Lennon. Ainda que inconscientemente, Harrison sabotou todas as tentativas de união de grupo &#8212; era uma das principais vozes de oposição a McCartney, às vezes mais vocal do que o próprio Lennon. Eu não teria medo em afirmar que ele queria sair da banda muito mais do que Lennon, sempre bastante explícito em relação a isso. E tenho uma idéia do por quê. Fora da banda, George Harrison era &#8220;O Venerável Beatle George Harrison&#8221;, merecedor de um respeito e uma deferência que ele jamais conseguiria dentro da banda e que infelizmente se devia, em grande parte, às qualidades de Lennon e McCartney. Lennon achava que os Beatles o limitavam, e em certo aspecto estava certo; não vou discutir aqui se essas limitações também o protegiam de micos federais. Harrison não percebia que, ao contrário, era o que mais se beneficiava do fato de ser um beatle: além do seu próprio talento, era também caudatário da genialidade absurda dos outros.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Paul, I coulda had class... I coulda been a contender!" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/harrison04.jpg" alt="" width="300" height="302" />Ele tampouco conseguiu avaliar corretamente o seu papel dentro da dinâmica da banda. Em 1992, numa entrevista a uma rádio inglesa, disse que McCartney o tinha destruído como guitarrista. Se isso foi tudo o que ele conseguiu após 15 anos de convivência com um dos mais talentosos músicos da história da música pop, o problema é com ele, e é grave. A relação entre Lennon e McCartney apenas fez com eles dessem o melhor de si, misturando competição e colaboração em doses semelhantes &#8212; mas competir com esses dois, e especialmente com McCartney, fez com que Harrison achasse que era um eterno injustiçado e que isso o prejudicou.</p>
<p>O ego de Harrison, definitivamente, o atrapalhou. Não era maior que os de Lennon e McCartney, mas durante algum tempo, pelo menos, foi maior que o seu próprio talento. Em algum momento, Harrison achou que tinha capacidade suficiente para sustentar uma carreira solo brilhante e consistente, mesmo quando tomava decisões equivocadas como a <em>Dark Horse Tour</em>. Quando saiu dos Beatles, resolveu mostrar para o mundo que o peso da entidade Lennon/McCartney estava sufocando um grande talento e lançou um álbum triplo, o excelente <em>All Things Must Pass</em>.</p>
<p>Mais que um álbum, era uma egotrip. Porque embora muito bom, <em>All Things Must Pass</em> poderia ter sido um álbum duplo brilhante, e certamente um dsico simples absolutamente perfeito &#8212; talvez tão bom quanto o <em>John Lennon/Plastic Ono Band</em>. Há gordura demais em <em>All Things Must Pass</em>, um número excessivo de faixas desnecessárias, e essa gordura pode ser creditada a nada mais, nada menos que um ego inchado e sem noção de suas limitações. Em última análise, e independente de sua qualidade, <em>All Things Must Pass</em> é George Harrison gritando &#8220;Eu sou tão bom quanto John e Paul!&#8221;.</p>
<p><img class="alignright" style="margin: 5px 8px;" title="Depois de velho ele foi melhorando" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/harrison03.jpg" alt="" width="250" height="362" />(E é aí que mora a diferença entre Harrison e Lennon. Quando Lennon dizia que os Beatles o limitavam, se referia ao fato de não encontrar na banda um canal para um disco como o <em>Plastic Ono Band</em> e canções como <em>Cold Turkey</em>. Aquilo, realmente, não tinha &#8220;cara de Beatles&#8221; &#8212; como também, por outro lado, bobagens como o <em>Two Virgins</em>; era disso que os Beatles o protegiam, além de forçar que suas piores canções continuassem inéditas. Isso não se aplica à obra de Harrison. Todas as suas canções poderiam, sem problemas, ser gravadas pelos Beatles. Afinal, eles gravaram <em>Love You To</em> e <em>The Inner Light</em>, não gravaram?)</p>
<p>Noves fora, a carreira solo de Harrison foi medíocre, superior apenas à de Ringo &#8212; o que não quer dizer absolutamente nada. Se as de McCartney e de Lennon têm altos e baixos, a de Harrison foi uma trajetória descendente &#8212; do brilhante <em>All Things Must Pass</em> ao deprimente <em>Gone Troppo</em>, de 1982. Não foi à toa que, em seus últimos 20 anos de vida, ele lançou apenas dois álbuns solo &#8212; sem contar os dois discos do Travelling Wilburys, a banda à la <em>Sgt. Pepper&#8217;s</em> que formou com Bob Dylan, Roy Orbinson, Jeff Lynne e Tom Petty.</p>
<p>Harrison simplesmente não tinha o que dizer &#8212; por isso preferia se dedicar a aperfeiçoar os jardins de Friar Park, sua mansão que aparece na capa do <em>All Things Must Pass</em>, e a produzir filmes brilhantes como &#8220;A Vida de Brian&#8221;, do Monty Phyton.</p>
<p>E embora seja algo menos importante, uma das coisas que me impressionam são as referências constantes ao santo espiritualizado e superior ao mundo material que ele era. Porque definitivamente Harrison não era isso &#8212; ou, para ser mais exato, era muito mais complexo que isso. Sua sensação de inferioridade diante de Lennon e McCartney &#8212; mais velhos e mais talentosos &#8212; era compensada, por exemplo, em sua relação com Eric Clapton. Inseguro, complexo, com Harrison a relação de Clapton seguia uma hierarquia rígida, e ele era o ente superior. George reproduzia, ali, a relação que tinha com Lennon, apenas invertendo os papéis. Em cima de alguém ele tinha que descontar, afinal.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Something in the the she moves her mouth..." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/harrison05.jpg" alt="" width="250" height="372" />Além disso, mulherengo em excesso, George ofereceu a mulher para Eric Clapton para tentar pegar a irmã dela; teve um caso com a mulher de Ringo, seu melhor amigo (e depois, quando perguntaram por que, ele respondeu simplesmente: &#8220;incesto&#8221;). E mesmo Olivia Harrison, com quem George teve um casamento bem mais sólido e maduro que o anterior, teve que agüentar a vergonha de ver uma prostituta de Los Angeles (parece que os Beatles tinham uma queda por putas angelenas, a julgar por experiências semelhantes de McCartney) contar publicamente que, enquanto prestava um serviço sexual a Harrison, ele tocava o seu ukelele e cantava uma canção de George Formby.</p>
<p>(A propósito, Harrison ganhou pontos comigo quando fiquei sabendo disso. Não há dúvida: George Harrison, definitivamente, era um grande artista.)</p>
<p>Mas é preciso fazer uma ressalva. Depois de ler tudo isso acima é fácil ficar com a impressão de que George Harrison era um nada, e isso seria uma injustiça. Era um grande músico, capaz de compor canções extraordinárias como <em>Something</em> e <em>All Things Must Pass</em>. Não era um grande cantor, mas não fazia vergonha. O problema é que é impossível deixar de compará-lo aos seus parceiros de banda. Harrison não fazia vergonha cantando? Certo, mas não era versátil como McCartney nem visceral como Lennon. É nesse contexto que George Harrison é diminuído: a sombra de dois gigantes como Lennon e McCartney dava a sua exata dimensão. Porque, bem ou mal, ele é o autor de algumas das mais belas canções da história da música pop, um guitarrista superior a 98% de todos os guitarristas pop, e um homem cujo nome está na história. Seu único problema é que seus companheiros de banda eram muito melhores que ele. E essa foi a dor que George Harrison carregou até o fim de sua vida.</p>
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		<title>As revoluções dos Beatles</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 19:53:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pergunte às pessoas que gostam um pouco que seja dos Beatles e a grande maioria dirá que gosta mesmo é da segunda fase da banda, aquela que se inicia com o Revolver. Dirão que a primeira fase é bobinha, e em parte isso vai se dever ao respeito a uma convenção simples e já consolidada: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pergunte às pessoas que gostam um pouco que seja dos Beatles e a grande maioria dirá que gosta mesmo é da segunda fase da banda, aquela que se inicia com o <i>Revolver</i>. Dirão que a primeira fase é bobinha, e em parte isso vai se dever ao respeito a uma convenção simples e já consolidada: a segunda fase, melódica e harmonicamente mais ambiciosa e mais sofisticada, é a fase universalmente considerada &#8220;revolucionária&#8221; dos Beatles.</p>
<p>E elas estarão erradas. Porque em termos de &#8220;revolução&#8221; nada se compara àqueles quatro meninos cabeludos de Liverpool que cantavam ié ié ié. Esses são os verdadeiros revolucionários. O resto é só conseqüência.</p>
<p>É engraçado que se tenha perdido a perspectiva histórica do que representou a chegada dos Beatles ao cenário musical. Foi o som de uma única canção, <i>Please Please Me</i>, que criou o que hoje se chama de rock inglês e que, por tabela, revitalizou o então moribundo rock americano. E que abriu caminho para que dezenas de outras bandas e artistas aparecessem e trouxessem elementos novos, alguns dos quais fundamentais, para a evolução da música.</p>
<p>As pessoas esquecem que no início da década de 60 o rock and roll estava morto. Buddy Holly e Eddie Cochran haviam morrido em acidentes (respectivamente de avião e de táxi), Chuck Berry tinha ido para a cadeia, Little Richard tinha entrado numa grave crise existencial e se convertido à religião, Jerry Lee tinha caído em desgraça porque comeu a prima &#8212; mas casou &#8211;, e Elvis, bem, Elvis tinha morrido também. Outros grandes artistas da primeira onda do rock tinham se esgotado em termos de inovação criativa &#8212; e aí se inclua Carl Perkins, Everly Brothers e tantos outros. O que se ouvia então era twist. Twist não é música que se dê ao respeito.</p>
<p>Dentro desse cenário, o que os Beatles representaram em termos de renovação da música pop em 1963 é virtualmente impossível de ser quantificado. Há uma série de teorias sobre as razões pelas quais os Beatles tomaram os Estados Unidos de assalto em 1964, que vão da necessidade de uma válvula de escape a partir do assassinato de John Kennedy à combinaçào de irreverência e seriedade ilustrada nos terninhos eduardianos que os Beatles usavam sob seus cabelos compridos. Mas nada disso é tão importante quanto a sua música.</p>
<p><i>I Want To Hold Your Hand</i> não se parece com nada feito antes dela. A energia, a coesão harmônica e a inventidade melódica que faziam parte da música dos Beatles representaram uma mudança de padrão muito mais importante, por exemplo, que a que eles fariam anos mais tarde com o<i> Sgt. Pepper&#8217;s</i>, considerado por muita gente o disco mais importante da história do pop.</p>
<p>Era aqui que estava o novo.</p>
<p>Havia mais coisas acontecendo simultaneamente &#8212; ou melhor, sendo gestadas. Na California os Beach Boys estavam aparecendo com algo novo; mas quem quer que ouça seus primeiros discos vai ver como o som parecia &#8220;comportado&#8221;. Em 1965 eles se aventurariam em uma grande aventura sonora, em canções mais elaboradas como <i>Good Vibrations</i>. Mas em 1963 eles apenas repetiam a fórmula da <i>surf music</i> com letras debilóides como as de <i>Be True To Your School</i>. Enquanto isso, a Inglaterra se preparava para regurgitar o <i>rhythm and blues</i> americano, mais ou menos como a França tinha absorvido o cinema americano; uma abordagem diferente e renovadora da música pop que estouraria em 1965 &#8212; e <i>Satisfaction</i>, dos Rolling Stones, talvez seja o seu maior símbolo.</p>
<p>Mas foram os Beatles que mostraram o que era realmente o novo. <i>Satisfaction</i> é caudatária direta desse caminho aberto por <i>Please Please Me</i>, inclusive na sonoridade. Com aqueles seus primeiros compactos &#8212; <i>Please Please Me, She Loves You, I Want To Hold Your Hand</i> &#8212; os Beatles definiram um padrão novo para a música pop. O que hoje pode parecer bobinho era revolucionário em 1964.</p>
<p>Bob Dylan percebeu isso imediatamente, e abandonou o <i>folk</i> para entrar de cabeça no <i>rock and roll</i> (o que talvez não tenha sido uma boa idéia, mas isso é uma opinião bem pessoal). O poeta Phillip Larkin também:</p>
<blockquote><p><i>Sexual intercourse began<br />
In nineteen sixty-three<br />
(which was rather late for me) -<br />
Between the end of the</i> Chatterley <i>ban<br />
And the Beatles&#8217; first LP.</p>
<p>Up to then there&#8217;d only been<br />
A sort of bargaining,<br />
A wrangle for the ring,<br />
A shame that started at sixteen<br />
And spread to everything.</p>
<p>Then all at once the quarrel sank:<br />
Everyone felt the same,<br />
And every life became<br />
A brilliant breaking of the bank,<br />
A quite unlosable game.</p>
<p>So life was never better than<br />
In nineteen sixty-three<br />
(Though just too late for me) -<br />
Between the end of the</i> Chatterley <i>ban<br />
And the Beatles&#8217; first LP.</i></p></blockquote>
<p>O impacto da chegada dos Beatles é sentido em outras áreas do <i>show business</i>. Foram eles, por exemplo, que também criaram o que hoje se entende por cena rock. Foi a beatlemania que possibilitou  os shows em grandes estádios. Para que se tenha uma idéia do que isso representa, é só lembrar que Elvis costumava se apresentar em feiras estaduais, em tablados.</p>
<p>Nada disso significa que se deva subestimar a sua importância a partir do <i>Revolver</i>, o momento em que eles viraram os queridinhos de um público que finalmente se rendia incondicionalmente à força crua do rock mas queria manter ainda uma certa dignidade; no entanto é bom lembrar que em 1967, ano do <i>Sgt. Pepper&#8217;s</i>, também surgiram coisas como os primeiros do Velvet Underground e dos Doors.</p>
<p>No Verão do Amor os Beatles não estavam mais sozinhos. Mas em 1964 estavam. Um sujeito com o cabelo na cintura podia ser transgressor em 1967, mas havia muitos outros como ele ao seu lado. Em 1963, os cabelos nos ombros dos Beatles eram absolutamente únicos. Quase tão únicos quanto a música que faziam. E por mais ingênuos que eles hoje pareçam, assim como a irreverência e até mesmo suas canções, a verdade é que foi naquele momento que eles pariram um mundo novo.</p>
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		<title>As besteiras que dizem em nome dos Beatles</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 03:48:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda não ouvi os discos remasterizados dos Beatles que foram lançados na semana passada. Estão demorando muito para baixar (&#8220;desculpe, Paul e Ringo, mas você já são ricos o bastante&#8221;, escreveu o moço gentil que disponibilizou essas gravações na internet, e eu faço minhas suas palavras). Mas ouvi uns trechos e posso começar a comparar. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda não ouvi os discos remasterizados dos Beatles que foram lançados na semana passada. Estão demorando muito para baixar (&#8220;desculpe, Paul e Ringo, mas você já são ricos o bastante&#8221;, escreveu o moço gentil que disponibilizou essas gravações na internet, e eu faço minhas suas palavras). Mas ouvi uns trechos e posso começar a comparar. Pelo menos uma canção está pior do que sua última versão, <i>Hey Bulldog</i>, tendo perdido um bocado de sua força. Já o álbum <i>Please Please Me</i> parece recuperar a riqueza sonora do antigo LP estéreo, e isso já é uma grande vantagem. Que ninguém espere uma grande revelação, no entanto: são exatamente as mesmas canções. Ou seja, isso que está saindo agora é interessante, é legal, mas não é fundamental.</p>
<p>Infelizmente, mesmo sem ouvir as canções alguns efeitos colaterais ruins já se fazem notar. Um dos mais curiosos é causado pela avalanche de mídia espontânea gerada pelo lançamento. Isso obriga fãs bobos como o autor destas maltraçadas a ler algumas críticas e cometnários que beiram a idiotice. Nenhuma, no entanto, foi tão ruim quanto a matéria assinada pelo Luís Antônio Giron na revista Época desta semana.</p>
<p>A matéria de Luís Antônio Giron é um amontoado de erros crassos e uma coleção de bobagens. Por exemplo, se refere ao <i>Past Masters</i> como uma coleção de &#8220;faixas raras&#8221;. <i>She Loves You, I Wanna Hold Your Hand, Let it Be, Get Back, Day Tripper</i> são algumas das canções do disco. Não são exatamente raridades. O mais curioso é que Giron centra sua atenção no <i>Past Masters</i>, fazendo inadvertidamente parecer que o disco é a grande novidade do pacote, quando ele existe há 21 anos. A única diferença é que agora, em vez de dois volumes separados, é um álbum duplo (como aliás foi a versão em vinil lançada em 1988).</p>
<p>Giron diz que os Beatles gravaram <i>Komm, Gib Mir Deine Hand</i> (versão em alemão para<i> I Want To Hold Your Hand</i>) porque &#8220;sentiram a deficiência&#8221; das condições de gravação. É uma grande bobagem. Eles gravaram essa canção &#8212; e <i>Sie Liebt Dich</i>, versão de<i> She Loves You</i> &#8212; pela mesma razão que Nat King Cole gravou aquele bocado de canções em castelhano: para seduzir um mercado específico, mais nada, e por pressão da Electrola Gesellschaft, o braço alemão da EMI. Eles não queriam gravar essas versões.</p>
<p>Mas a coisa ainda fica pior: os Beatles apenas regravaram os vocais para essa canção, sobre o instrumental original de <i>I Want To Hold Your Hand</i>. Ou seja, mudaram nada, apesar de, segundo o Giron, &#8220;terem sentido a deficiência&#8221;.</p>
<p>O jornalista diz também que <i>You Know My Name</i> &#8220;foi a última faixa produzida pelos Beatles, em novembro de 1969&#8243;. </p>
<p>A faixa (que acabaria sendo o lado B do compacto <i>Let it Be</i>) na verdade foi gravada em duas sessões em 1967 (com Brian Jones, dos Stones, tocando sax, entre outras curiosidades) e esquecida. Em abril de 1969 John e Paul fizeram alguns overdubs para a canção. Em novembro (26, mais exatamente), John Lennon, sozinho, se juntou a Geoff Emerick (engenheiro de som dos Beatles que, recentemente, deu uma grande <a href="http://www.musicradar.com/news/guitars/beatles-engineer-geoff-emerick-on-abbey-road-219542" title="Bela entrevista sobre um belo disco" target="_blank">entrevista sobre o Abbey Road</a>) para fazer a edição final da canção, sem nenhum outro beatle presente. Aliás, a canção nem deveria sair creditada aos Beatles, mas à Plastic Ono Band.</p>
<p>A última gravação dos Beatles ocorreria pouco mais de um mês depois. Em 3 e 4 de janeiro de 1970 Paul, George e Ringo (Lennon estava de férias na Dinamarca) se reuniram no estúdio para finalizar <i>I Me Mine</i>, de George, e essa seria a última vez que mais de um Beatle trabalhariam juntos no estúdio. (Só para constar: a última vez em que os quatro estiveram juntos nos estúdios da EMI, hoje Abbey Road Studios, foi no dia 20 de agosto de 1969, finalizando <i>I Want You [She's So Heavy]</i>).</p>
<p>Outra informação impressionantemente equivocada é a de que a discografia americana foi lançada no Brasil. Isso é uma das maiores mostras de ignorância que eu já vi. Porque as versões americanas dos discos dos Beatles, com grandes diferenças em relação aos originais ingleses, nunca, jamais, em hipótese alguma foram lançadas no Brasil.</p>
<p>Até 1965 o Brasil lançava suas próprias versões dos álbuns dos Beatles, como acontecia nos Estados Unidos. Lá foram lançados os seguintes discos (descontando outros lançados por outras gravadoras como a Swan e a VeeJay): <i>Introducing The Beatles, Meet The Beatles, The Beatles&#8217; Second Album, A Hard Day&#8217;s Night, Something New, Beatles&#8217; 65, The Early Beatles</i> (basicamente o <i>Introducing The Beatles</i> com outra ordem de músicas, agora lançado pela gravadora Capitol), <i>Beatles VI, Rubber Soul, Yesterday and Today</i> e <i>Revolver</i>. Todos esses discos trazem diferenças em relação aos originais ingleses. Daí em diante os discos seriam iguais aos ingleses, com exceção do <i>Magical Mystery Tour</i>, que mais tarde seria adotado pelos ingleses também. No Brasil, foram lançados o &#8220;Beatlemania&#8221; (1963), &#8220;Beatles Again&#8221; (1964), &#8220;Os Reis do Iê, Iê, Iê&#8221; (1964; era o único com as mesmas canções do equivalente inglês, o &#8220;A Hard Day&#8217;s Night&#8221;), &#8220;Beatles 65&#8243; (1965) e &#8220;Help!&#8221; (1965); só a partir do <i>Rubber Soul</i> os discos passaram a ser iguais aos originais. São versões diferentes das inglesas e também das americanas. A propósito, algumas das gravações americanas eram levemente diferentes das inglesas. As brasileiras eram iguais.</p>
<p>Mas a maior barbaridade escrita pelo Giron nesse artigo absolutamente ignorante diz respeito à versão de <i>Love Me Do</i> presente nos <i>Past Masters</i>: &#8220;o compacto [a versão incluída no disco, com bateria tocada por Ringo, diferente da versão do LP <i>Please Please Me</i>, que tem bateria tocada por um músico de estúdio chamado Andy White] traz a versão lenta do primeiro sucesso da banda, com um arranjo mais acústico. Bem diferente da gravação percussiva que figura no LP de estréia.</p>
<p>É uma das idéias mais estúpidas ditas sobre os Beatles ao longo dos anos, quase iguais a uma matéria antológica de Ruy Castro sobre a banda na Folha de São Paulo há uns 20 anos, um samba do crioulo doido escrita por alguém que ouviu o galo cantar mas não sabe onde.</p>
<p>A pergunta que eu faço, nesse caso, é simples: custava pelo menos ouvir a droga da música? Porque as duas versões são virtualmente iguais, e eu duvido que um ouvinte médio consiga distinguir uma da outra. Tudo isso que o Giron falou só existe na cabeça dele. Não seria um grande trabalho se informar um pouquinho sobre as canções antes de falar essas bobagens.</p>
<p>Giron se pergunta ainda se faz sentido lançar esses discos apenas em CD, e não nos sites de música como o iTunes. O volume de vendas devia ser uma boa resposta. Dos dez CDs mais vendidos da Amazon hoje, oito são dos Beatles. A caixa estéreo está no top 100 há 60 dias &#8212; quase dois meses antes de ser sequer lançada. Me desculpe, Giron, mas isso faz todo o sentido do mundo. O que os Beatles perceberam foi que, ao não oficializar as canções em downloads, pelo fato de serem ícones da cultura pop, valorizam momentaneamente o produto que estão lançando, que tem alguns diferenciais em relação ao já disponível e que agrega muito mais valor que os downloads. Essa estratégia não deve voltar a funcionar, mas por enquanto tem dado muito certo. Provavelmente, quando a empolgação pela novidade passar, as músicas irão para o download.</p>
<p>Minha sorte é que eu não leio a Veja. Tenho a impressão de que seria ainda pior. Porque essa é a situação atual do jornalismo cultural pátrio: os jornalistas são os mesmos de 20, 30 anos atrás, com os mesmos vícios e a mesma ignorância. Mas agora há a internet, e as pessoas não podem mais escrever esse tipo de besteira (ou cópias como a matéria da Veja sobre o lançamento do <i>Anthology</i>, em 1995; o jornalista Celso Masson basicamente traduziu uma matéria da Newsweek) impunemente.</p>
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		<title>Beatlemania</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 03:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dos posts que comecei a escrever e que nunca terminei ou publiquei, há uns três anos, comparava a Apple Corps, a empresa dos Beatles, a um elefante. Na época todo mundo batia na dita por não ter aderido ao iTunes, por estar perdendo dinheiro com o P2P, essas coisas. Eu achava que a Apple [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos posts que comecei a escrever e que nunca terminei ou publiquei, há uns três anos, comparava a Apple Corps, a empresa dos Beatles, a um elefante. Na época todo mundo batia na dita por não ter aderido ao iTunes, por estar perdendo dinheiro com o P2P, essas coisas.</p>
<p>Eu achava que a Apple estava correta. Que não tinha necessidade de correr atrás da última inovação. Se não me engano, eu tinha um título para o post: quando elefantes se movem. Elefantes são lentos, mas seus movimentos nunca passam despercebidos. Por isso eu achava que na hora em que eles se movessem em direção ao comércio eletrônico, depois de passada a primeira empolgação do mercado e depoois de criada uma certa expectativa quanto a eles, eles ganhariam mais dinheiro. Do ponto de vista de mercado, os Beatles não são exatamente o Bon Jovi. Podem se dar ao luxo de criar suas próprias condições. E podem esperar o momento propício, porque quando isso acontecer nada disso passará em branco.</p>
<p>Eu devia ter terminado e publicado o post porque eu hoje poderia dizer: olha, eu sei ver o futuro. Não exatamente, porque a Apple ainda não anunciou o que vai fazer do comércio eletrônico. Ou mesmo se vai fazer: eles estão ganhando um dinheiro danado apenas reempacotando o que já tinham.</p>
<p>O lançamento dos CDs remasterizados dos Beatles ontem virou a grande notícia do showbiz deste ano. Para que se tenha uma idéia, a New Musical Express está distribuindo uma edição com 13 capas diferentes &#8212; uma para cada álbum dos Beatles. Gente insuspeita de beatlemania está desesperada pelas caixas com os CDs. A primeira prensagem das caixas já se esgotou. Respeitadas as proporções, é uma nova pequena beatlemania. Nada mal para uma banda que no próximo dia 20 completará 40 anos de morta, embora a notícia oficial só tenha sido dada meses depois.</p>
<p>A máquina de relações públicas dos Beatles é impressionantemente competente. </p>
<p>Mas apesar disso, e apesar de assumidamente beatlemaníaco, até hoje não comprei os CDs dos Beatles. Porque já tinha tudo em vinil e porque me parece muito mais simples (e justo) copiar os MP3 de qualquer canto da internet. Mas havia um outro motivo para não comprar os CDs: eu não gostava do trabalho porco que foi feito com a remasterização (que eles sempre negaram, mas que foi realmente feita) de algumas canções e álbuns.</p>
<p>Para não ser injusto, algumas canções foram bem realçadas, especificamente os da segunda fase &#8212; o<i> Magical Mystery Tour</i> pós-1987 tem uma sonoridade geral muito melhor que as disponíveis até então. Feitas as contas, o resultado foi positivo. Mas algumas canções foram massacradas. Quem nunca ouviu o <i>Rubber Soul</i> em vinil não sabe exatamente quão bom é aquele disco, e que em <i>Drive My Car</i> há pequenos trechos que foram modificados. Quem nunca ouviu<i> I Feel Fine</i> no <i>Oldies But Goldies</i> ou naquele álbum duplo vermelho antes da remasterização sequer sabe que os Beatles ficam latindo no final da música. O som do <i>Please Please Me</i> em CD é ruim, metálico, culpa da má masterização dos CDs e muito inferior aos LPs em <i>fake stereo</i> disponíveis até 1988.</p>
<p>A nova remasterização pode resolver esses problemas de violação de cadáveres, e é o que eu espero. Eu estou curioso para ouvir &#8212; embora jamais o suficiente para gastar 1500 reais numa dessas caixas. Porque no fim das contas, muito disso que se discute agora é uma grande bobagem. Não há nenhuma música nova; o que se vai ouvir é a mesma coisa que se ouve há quase meio século, apenas com uma qualidade de som um pouco melhorada. No fim dos anos 90, quando relançaram o desenho animado <i>Yellow Submarine</i>, deu para se ter uma amostra de como a sonoridade das canções ficariam. Muito boas, é verdade. Mas continuam as mesmas canções. E agora, com remasterização ou não, elas continuam as mesmas.</p>
<p>Mas depois disso, fica-se imaginando o que restará para ser lançado e chamar a atenção de novos compradores.</p>
<p>Eu apostaria no <i>Let it Be</i> restaurado e com horas de cenas extras. Por pior que seja o filme &#8212; e acredite, é um filme realmente ruim &#8211;, seria a última coisa realmente interessante que a Apple Corps poderia oferecer aos fãs.</p>
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		<title>Beatlegs</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Feb 2009 03:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[A minha primeira bíblia sobre os Beatles foi a revista Beatles Documento (ou Documento Beatles), uma edição especial da revista Somtrês escrita pelo Marco Antonio Mallagoli, do fã clube Revolution. Era 1985, uma época em que informação era difícil de achar. Minha primeira cópia se desfez de tanto uso, e comprei outra. Depois eu veria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" style="border: 0pt none; margin: 7px;" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/deccatapes.jpg" border="0" alt="Decca Tapes, o pirata primordial" hspace="7" vspace="7" width="250" height="249" align="left" />A minha primeira bíblia sobre os Beatles foi a revista Beatles Documento (ou Documento Beatles), uma edição especial da revista Somtrês escrita pelo Marco Antonio Mallagoli, do fã clube Revolution. Era 1985, uma época em que informação era difícil de achar. Minha primeira cópia se desfez de tanto uso, e comprei outra. Depois eu veria que tem muita informação errada ali. Muita, mesmo, além de opiniões bastante descartáveis. Mas independente disso, foi a revista responsável por eu querer entender um pouco mais sobre a banda. A Beatles Documento foi inestimável.</p>
<p>A Beatles Documento foi também minha introdução na pirataria. Uma seção da revista fazia uma boa lista de discos piratas. De repente, eu ficava sabendo que além das músicas que eu já sabia que existiam &#8212; eu ainda não tinha ouvido todas &#8212; havia também uma infinidade de outras que não estavam facilmente disponíveis. Foi lá que fiquei sabendo do <em>The Decca Tapes</em>, o primeiro álbum pirata que comprei na minha vida, ainda naquele ano, e de tantos outros. As imagens que acompanham este post são de discos mencionados naquela revista.</p>
<p><img class="alignright" style="border: 0pt none; margin: 7px;" title="Silver Linging, um disco que hoje perdeu a razão de ser" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/silverlining.jpg" border="0" alt="" hspace="7" vspace="7" width="250" height="244" />Pirataria dos Beatles é coisa de fã, mesmo. A maior parte é simplesmente ruim. Não é algo que interesse realmente a ninguém, porque são geralmente canções descartadas, incompletas ou simplesmente ruins. Mas mesmo levando-se isso em consideração, pirataria já foi mais interessante. Até há 15 anos, uma boa porção de material inédito bastante interessante era encontrado apenas em discos piratas. A Apple contornou esse problema lançando o <em>Live at the BBC</em>, em 1994, e nos anos seguintes a série <em>Anthology</em>, com um montão de sobras de estúdio e algumas gravações ao vivo. Com isso, eliminaram boa parte dos atrativos desses discos. Pirataria é para completistas que se dão ao trabalho de tentar escutar tudo que a banda fez. Ou seja: para bobos.</p>
<p>O conselho que dou para qualquer pessoa que queira escutar isso é: não perca seu tempo. O que fez dos Beatles uma grande banda não foi o material que descartaram por considerarem ruim; é o que está nos discos lançados entre 1962 e 1970. Mas o mundo também tem lugar para malucos como eu. Então aqui vai uma breve introdução para aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre pirataria.</p>
<p><img class="alignleft" style="border: 0pt none; margin: 7px;" title="Rarer Than Rare, outra coletânea que perdeu a razão de ser" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/rarerthanrare.jpg" border="0" alt="" hspace="7" vspace="7" width="250" height="250" />Durante muito tempo, esses discos foram lançados por &#8220;selos&#8221; tão verdadeiros quanto uma nota de 3 reais. Alguns, como a Yellow Dog, Audifön, Vigotone e Great Dane se notabilizaram pela alta qualidade dos seus lançamentos. Mas até há alguns anos era extremamente difícil achar discos piratas &#8212; e quando se achava, eles eram caríssimos. A coisa melhorou muito com o surgimento do CD. Mas a grande virada, mesmo, foi a consolidação da internet como canal de distribuição. Foi quando surgiu a Purple Chick.</p>
<p>A Purple Chick é, provavelmente, um grupo de fãs (ou um louco só) que está realizando compilações quase perfeitas e abrangentes de todo esse material disponível e distribuindo-as gratuitamente na internet. Hoje, Purple Chick é, se me permite o paradoxo, garantia de qualidade em gravações de má qualidade.</p>
<p>Basicamente, os discos piratas dos Beatles vêm de seis fontes distintas: gravações caseiras, gravações de programas de rádio na BBC, shows ao vivo, <em>outtakes</em> das sessões de estúdio, e as sessões de gravações do <em>Get Back/Let it Be</em>, como o show no telhado da Apple, que na última sexta completou 40 anos.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Decca Tapes</strong></span><br />
É o meu preferido, e o único que tenho em vinil. É a gravação da audição dos Beatles na Decca, aquela que fez o diretor da gravadora, Dick Rowe, dispensá-los e dizer que &#8220;bandas de guitarra estão fora de moda&#8221;, para seu eterno arrependimento. É um bom disco. As gravações são encontradas em vários outros discos, hoje em dia, mas esse é o disco original por excelência. É um clássico.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Demos</strong></span><br />
<img class="alignright" style="margin: 7px;" title="É um dos bons discos de shows, apesar da performance pífia da banda" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/judoarena.jpg" alt="" width="250" height="251" />Demos é como são chamadas as gravações caseiras feitas para não esquecer uma música que acabaram de compor ou para mostrar aos outros membros da banda. Anrigamente elas estavam espalhadas por vários discos diferentes, em coletâneas como a série <em>Artifacts</em>, mas hoje há uma série chamada <em>The Complete Home Recordings</em>, que abrange desde as primeiras gravações, ainda com Stuart Sutcliffe, até o final. A maior parte é chata de doer, mas aqui e ali uma ou outra canção se sobressai. Serve também para entender que, na época do &#8220;Álbum Branco&#8221;, as canções já eram apresentadas ao resto da banda praticamente em sua forma final.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>BBC</strong></span><br />
Foram uma das grandes fontes de pirataria dos Beatles durante muito tempo. Nos seus shows na BBC, eles tocavam músicas inéditas &#8212; são dezenas delas &#8211;, brincavam, etc. Durante muito tempo a melhor compilação desses shows foi o <em>The Complete BBC Sessions</em>; hoje, se alguém quer a mais completa, deve procurar pela edição com mesmo nome da Purple Chick. Está tudo ali. É a melhor de todas. Mas o fato é que mesmo para fãs o disco oficial <em>Live at the BBC</em> é mais que suficiente. Com algumas poucas exceções, praticamente tudo o que os Beatles gravaram de interessante na BBC está lá. O resto é redundante.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Shows</strong></span><br />
<img class="alignleft" style="border: 0pt none; margin: 7px;" title="Sempre quis esse disco. Alguém tem em vinil?" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/vancouver1964.jpg" border="0" alt="" hspace="7" vspace="7" width="250" height="252" />Os dois únicos discos ao vivo oficiais dos Beatles foram lançados 7 anos depois do fim da banda. O <em>Live at Hollywood Bowl</em>, uma mixagem de pedaços dos shows de 1964 e 1965, ainda não foi lançado em CD, e o <em>The Beatles Live! At Star Club, Hamburg 1962</em> sempre enfrentou problemas legais, já que nunca foi autorizado pela banda. (Em 1998 eles finalmente venceram um processo judicial para tirá-lo de catálogo, e hoje é um disco pirata. Mas é brilhante. Serve, quando menos, para mostrar que os Beatles eram uma grande banda de rock and roll e que eram brilhantes ao vivo, antes da rotina dos shows da beatlemania.) A maioria dos discos de shows têm qualidade de som ruim, servindo principalmente como registro histórico. Mas há exceções. O <em>Shea Stadium</em> é o maior show da história dos Beatles (embora tenha sido &#8220;aperfeiçoado&#8221; em estúdio algumas semanas depois), e o primeiro mega-show da história. No <em>Live in Atlanta, 1965</em>, você pode ouvir Lennon esnobando a sua audiência, que obviamente não podia ouvir nada por causa dos seus próprios gritos. O <em>Five Nights at a Judo Arena</em>, dos shows japoneses da última turnê dos Beatles, tem som excelente mas mostra uma banda que já não faz o mínimo esforço em tocar sequer afinada. E finalmente há o <em>Candlestick Park</em>, o último show ao vivo dos Beatles, em São Francisco (e melhor que os outros shows dessa turnê).</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Out-takes</strong></span><br />
Ah, qualquer um. Tem um monte por aí. A maior parte é deprimente &#8212; mixagens da sala de controle, essas coisas. Com raras exceções, são todas inferiores ao que foi liberado. Não valem a pena. Há uma série chamada &#8220;The Alternate&#8230;&#8221; (<em>The Alternate Help</em>, <em>The Alternate Rubber Soul</em>, etc.) que faz um bom resumo do que foram as sessões de gravação de cada um desses discos, e se você quer se aventurar por esse pântano, são os mais recomendáveis. Costumam ser os discos com melhor qualidade de som &#8212; afinal, foram tirados diretamente do estúdio. E sempre se pode achar uma ou outra coisa realmente interessante nelas, uma versào esquisita de alguma canção, coisas desse tipo.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Let it Be</strong></span><br />
<img class="alignright" style="border: 0pt none; margin: 7px;" title="O Sweet Apple Trax era um dos melhores discos piratas" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/sweetappletrax.jpg" border="0" alt="" hspace="7" vspace="7" width="250" height="250" />Essa é a outra grande fonte da pirataria. Afinal, foram mais de 90 horas de gravações. Há coisas inacreditáveis ali. Acho que chegam a centenas de canções diferentes. A série <em>Thirty Days</em> é clássica, e foi durante muito tempo a mais completa. Mas recentemente a Purple Chick lançou a série <em>A-B Road</em>, baseada nas fitas do filme &#8212; um &#8220;álbum&#8221; para para cada dia, com mais de 90 faixas em cada. Nos dois casos, a verdade é que qualquer ouvinte ficaria perdido entre tantas gravações dispensáveis, redundantes ou ruins. Diálogos, afinação, falsos começos, gravações sem absolutamente nenhum interesse &#8212; é uma infinidade de bobagens que não interessa a ninguém, além de colecionadores <em>hardcore</em>. É por isso que eu recomendaria os 3 discos de <em>The River Rhine Tapes</em>. Uma excelente seleção do que saiu de melhor daquelas sessões &#8212; John cantando <em>Get Back, Maxwell&#8217;s Silver Hammer, Something</em> e <em>I&#8217;ve Got a Feeling</em>, por exemplo, as melhores versões de <em>Two of Us</em>, e muito mais &#8212; com qualidade de som muito boa. É definitivamente melhor que o <em>Anthology III</em>.</p>
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		<title>The Beatles Virtual Museum</title>
		<link>http://www.rafael.galvao.org/2008/12/the-beatles-virtual-museum/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Dec 2008 13:52:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante muito tempo, imaginei escrever uma série de posts sobre cada álbum dos Beatles. Teria um texto sobre cada um, incluindo seu contexto histórico, a descrição de cada canção com datas de gravação e mixagem, autor, lista de músicos, letras e cifras, e eventualmente um link para um arquivo qualquer &#8212; no caso dos covers, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante muito tempo, imaginei escrever uma série de posts sobre cada álbum dos Beatles.</p>
<p>Teria um texto sobre cada um, incluindo seu contexto histórico, a descrição de cada canção com datas de gravação e mixagem, autor, lista de músicos, letras e cifras, e eventualmente um link para um arquivo qualquer &#8212; no caso dos covers, para as gravações orginais, apenas para mostrar como os Beatles conseguiam, na maior parte dos casos, recriar de maneira surpreendente cada canção; no caso das composições próprias, links para versões piratas diferentes, essas coisas.</p>
<p>Nunca fiz isso porque nunca tive muito tempo vago, nem paciência para compilar esses dados ou para escrever algo decente.</p>
<p>Só que agora eu não preciso mais. O <a href="http://beatlesite.blogspot.com/" target="_blank">The Beatles Virtual Museum</a> é um belo site sobre os Beatles. Dados, imagens e, acima de tudo, links para muitos discos piratas.</p>
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		<title>Uma pequena bibliografia dos Beatles</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 20:15:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beatles]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, chegou a hora de atualizar a lista. The Complete Beatles Recordings Mark Lewinsohn Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação &#8212; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, chegou a hora de atualizar a lista.</p>
<p><u><b>The Complete Beatles Recordings</b></u><br />
<i>Mark Lewinsohn</i><br />
Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação &#8212; e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são até hoje. <i>The Complete Beatles Recordings</i> é um diário de todas as sessões da banda, provavelmente o livro mais acurado que já se escreveu sobre ela. Infelizmente fora de catálogo há muitos anos, se tornou a bíblia dos beatlemaníacos, o livro a que se recorre para dirimir dúvidas. Ainda espero a chance de colocar novamente minhas mãos sobre um exemplar, é o único fundamental que falta na minha estante. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações. O livro mostrou ter lacunas, e mesmo alguns erros pequenos. Mas continua sendo o livro mais importante já escrito sobre o dia-a-dia dos Beatles, e necessário para que se entenda a dinâmica que fez da banda a maior de todos os tempos. Nunca foi lançado no Brasil.</p>
<p><u><b>The Complete Beatles Chronicle</b></u><br />
<i>Mark Lewinsohn</i><br />
Lançado depois do <i>Complete Beatles Recordings</i>, inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida, assim como um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, etc. Tem também uns bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda. Nunca foi lançado no Brasil e passou um bom tempo fora de catálogo, mas vale a pena comprar via Amazon.</p>
<p><u><b>The Beatles Anthology</b></u><br />
<i>The Beatles</i><br />
Parte do projeto <i>Anthology</i> &#8212; que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil), é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua história, a sua versão para a posteridade. Independente disso, é um livro fantástico como objeto.</p>
<p><u><b>The Love You Make</b></u><br />
<i>Peter Brown</i><br />
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em <i>The Ballad of John and Yoko</i>). Portanto este é um relato de <i>insider</i> &#8212; cheio de todas as fofocas imagináveis. Foi o primeiro livro a revelar, de forma razoavelmente confiável, o lado negro da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor. As chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade da banda, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas internas. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ter um só, é um daqueles livros necessários para que se tenha uma visão mais completa da história da banda.</p>
<p><u><b>The Lives of Lennon</b></u><br />
<i>Albert Goldman</i><br />
Lançado em 1988 pelo sujeito que mostrou ao mundo a ruína drogada e inadequada que era Elvis Presley, <i>The Lives of Lennon</i> foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do Notícias Populares. Mas o fato é que esse é um livro excelente. Goldman se mostra, acima de tudo, um excelente pesquisador. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, foram mais tarde comprovados. É um grande mergulho sobre a personalidade de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que Lennon era uma mistura de carisma impressionante e personalidade complexa e detestável. O lado negativo do livro é que, às vezes, Goldman parece excessivamente iconoclasta, o que pode levar a alguns erros de avaliação e algumas presunções equivocadas.</p>
<p><u><b>Many Years From Now</b></u><br />
<i>Paul McCartney</i><br />
Oficialmente a autoria é de Barry Miles. Mas isso não ilude ninguém. O livro é, na verdade, a autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o <i>ghost writer</i> apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca se sentisse mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. De qualquer forma, é um daqueles livros fundamentais para a compreensão da história dos Fab Four. A versão brasileira é melhor que a minha, porque tem alguns acréscimos feitos depois da morte de Linda McCartney.</p>
<p><u><b>The Beatles: The Biography</b></u><br />
<i>Bob Spitz</i><br />
Spitz se beneficiou da passagem do tempo e da abundância de material biográfico a respeito da banda para escrever um livro abrangente e equilibrado, que tenta fugir dos mitos sem explorar em excesso aspectos sensacionalistas. O resultado é a biografia mais completa dos Beatles, com um excelente grau de neutralidade. De modo geral Spitz tenta sempre ver todos os lados de uma questão, e mostra um bom entendimento do que era a dinâmica interna da banda. Consegue ter os fatos em boa perspectiva e evita dourar pílulas. Aqui e ali erros aparecem &#8212; alguns gravíssimos, como antecipar em um ano a reunião em que Lennon &#8220;pediu o divórcio&#8221; ao resto da banda, e outros menores; mas com exceção de <i>Many Years From Now</i> e do <i>Anthology</i>, que não contam, é o único traduzido para o português, que faz dele a melhor biografia dos Beatles disponível no Brasil.</p>
<div align="center">***</div>
<p>Mas o livro definitivo sobre a banda ainda não foi publicado &#8212; está sendo escrito neste exato momento. Há alguns anos, Mark Lewisohn anunciou que estava escrevendo uma biografia da banda que deverá se estender por alguns volumes. Se ele mantiver nessa obra o mesmo nível de excelência demonstrado nas outras, o que se pode esperar é, finalmente, a biografia definitiva dos Beatles.</p>
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