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	<title>Rafael Galvão</title>
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		<title>Mulungu, que chamam por outro nome</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 13:59:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rafael - ou quase]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se isso acontece com você, mas de vez em quando eu esqueço os nomes de coisas simples. Dia desses esqueci o nome de uma árvore. Eu sabia que em algum momento soube o nome da dita, lembrava que era um nome estrangeiro, acho que francês. E a ignorância do nome outrora conhecido passou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se isso acontece com você, mas de vez em quando eu esqueço os nomes de coisas simples.</p>
<p>Dia desses esqueci o nome de uma árvore. Eu sabia que em algum momento soube o nome da dita, lembrava que era um nome estrangeiro, acho que francês. E a ignorância do nome outrora conhecido passou a me incomodar e exasperar.</p>
<p>Me vinham dois nomes à cabeça. O primeiro era buganvília. Mas eu sabia que não era, sabia que buganvília era outra coisa, era uma plantinha vagabundinha dessas miudinhas, uma primavera. A árvore de que eu falava não, era uma árvore de tronco quase liso, frondosa, folhas esquisitinhas, flores vermelhas, que dava uns frutos que pareciam umas espadas largas com umas favas redondas, parecidas com moedas &#8212; quando essa árvore floria era uma beleza, e eu costumava ver tantas delas antigamente.</p>
<p>O outro nome que me vinha à memória era mulungu. Na verdade era uma árvore até que bem parecida, mas não era ela. Mas lembrei que durante muito tempo achei que aquele pequeno enigma desimportante era um mulungu, porque Monteiro Lobato falava dessas árvores em algum dos seus livros &#8212; os mulungus que floriam no sítio, algo assim.</p>
<p>Mas alguém tinha me corrigido com o tal nome gringo, exatamente esse nome que eu tinha conseguido esquecer.</p>
<p>(Não podiam ter me deixado na minha ignorância, chamando a árvore de mulungu? Se eu achasse que era um mulungu não tinha esquecido o seu nome. E que mal faria eu achar que a tal árvore era um mulungu, me diga? Isso ia mudar a vida de alguém? Não ia.)</p>
<p>Durante muitas semanas tentei descobrir que árvore era aquela. Não consegui. Aumentei minha cultura inútil, no entanto; aquelas folhas esquisitinhas, na minha busca infrutífera, descobri que eram bipinadas, com vários pares de folíolos. Só não descobri o diabo do nome da árvore que eu procurava.</p>
<p>Lembrei também que antigamente eu via mais dessas árvores pelas cidades, mas elas parecem cada vez mais raras. Hoje sei que minha impressão estava correta: não é só um caso de sair de moda, é uma necessidade objetiva, porque as raízes são e superficiais (o que faz delas árvores mais bonitas, por sinal), invasivas e pouco adequadas à infraestrutura urbana.</p>
<p>Muitos anos atrás, quando moramos em Itapuã, cada um de nós, crianças, ganhou uma das árvores do quintal. Eu tomei posse de um cajueiro que nunca deu caju, ao menos que eu lembre, e minha irmã ganhou uma dessas árvores.</p>
<p>Necessidade besta, essa de saber o nome das coisas. Mas sem isso eu não poderia reconstruir meu passado, e então vem a consciência aguda da importância de um nome; por que você acha que não se podia falar o nome de Deus? O Velho sabia a importância dos nomes próprios. Se algo não tem um nome todo seu, essa coisa não existe. Se ela não existe, meu passado também não &#8212; e isso coloca em risco, pelo menos de um ponto de vista bem metafísico, a minha própria existência.</p>
<p>Por isso saí perguntando a quem podia: que árvore é aquela? E ninguém sabia. Curioso: quando o homem vai deixando de ser nômade ele desaprende o nome de muitas das plantas que conhecia. Mas agora era demais, não é possível que sejamos tão urbanos ao ponto de esquecer o nome de uma árvore comum. Isso não pode ser admitido, em nenhuma hipótese. Porque, se se admitir uma coisa dessas, se isso deixar de incomodar, daqui a pouco a gente esquece o nome das coisas mais comuns. &#8220;Qual é mesmo o nome desse negócio preto aqui embaixo, Zé?&#8221; &#8220;Asfalto, Rafael-seu-idiota&#8221;.</p>
<p>Perguntei a todo mundo. E descobri que a ignorância acerca do nome de uma árvore comum independe de classe social ou de nível cultural: ninguém sabia. Alguns amigos, mais sofisticados, soltaram umas hipóteses: aquilo era um ipê. Mas ipê é árvore brasileira, e essa árvore se não me engano tinha nome estrangeiro e não era brasileira, era daquelas plantas exóticas que faziam o desgosto de Gilberto Freyre.</p>
<p>Eu desisti.</p>
<p>É feio desistir das coisas, principalmente de uma bobagem como essas. É um paradoxo: desistir de escalar o Everest não envergonha ninguém, por difícil que é; desistir de algo bobo é um atestado de incompetência à vigésima nona potência. Ao mesmo tempo, ressalta o atestado de incompetência passado por quem, em plena era do Google, não consegue descobrir o nome de uma árvore comum e vagabunda. Dane-se. Não me importava mais, não depois de tantas semanas sem conseguir descobrir o nome daquela árvore. E por ser bobagem eu me dou o direito de desistir do que quer que seja.</p>
<p>Aí, na fazenda de um amigo eu vi uma árvore dessas, recém-plantada. O coração bateu mais forte, se me permitem a licença poética. Ele havia de saber que caralho era aquilo, uma árvore tão comum.</p>
<p>E ele respondeu com aquela simplicidade que as pessoas que desconhecem a sua grande angústia existencial: &#8220;Tá falando do flamboyant aí da frente?&#8221;</p>
<p>A <em>delonix regia</em>. O flamboyant. Árvore vagabunda e comum, dessas que você encontra a três por quatro por aí; e no entanto bateu a minha memória. É, flamboyant &#8212; você conhece esse nome, eu conheço esse nome, e ele certamente jamais poderia ser dado a qualquer outra árvore. Se a ordem das coisas fosse invertida, nada isso teria acontecido. Se alguém me perguntasse que árvore é o flamboyant eu diria &#8212; é aquela árvore de tronco liso, folhinhas esquisitinhas, e que quando floresce é uma belezura.</p>
<p>Descobri que chamam também de pau-rosa. Eu gosto do nome. Pau-rosa é um nome meio erótico &#8212; &#8220;Vai sentar num pau-rosa&#8221; devia ser ofensa corrente neste país de tantas árvores. Mas isso não importa mais para mim. O fato é que eu não quero mais esquecer o nome do flamboyant. E por isso a partir de agora eu só vou chamá-lo de &#8220;mulungu, que os outros chamam flamboyant.&#8221;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; border: 0pt none;" title="Folíolos bipinados, saca?" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/flamboyant.jpg" alt="" width="600" height="338" align="middle" border="0" hspace="8" vspace="5" /></p>
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		<title>Literatura, coisa supérflua</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 14:14:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Roger Ebert, crítico americano de cinema, escreveu há alguns meses um post no seu blog no Chicago Sun-Times desancando uma adaptação literária de &#8220;O Grande Gatsby&#8221; para um vocabulário intermediário. Vale a pena ler. E eu concordo com Ebert. Essa é provavelmente uma das adaptações menos necessárias de que já tive notícia. Isso não é, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Roger Ebert, crítico americano de cinema, escreveu há alguns meses um post no seu blog no Chicago Sun-Times desancando uma adaptação literária de &#8220;O Grande Gatsby&#8221; para um vocabulário intermediário. Vale a pena <a title="Ebert não fala mais, mas ainda escreve" href="http://blogs.suntimes.com/ebert/2011/07/_did_it_seem_to.html" target="_blank">ler</a>.</p>
<p>E eu concordo com Ebert.</p>
<p>Essa é provavelmente uma das adaptações menos necessárias de que já tive notícia. Isso não é, claro, uma condenação a todas as adaptações. Li muitas na infância, e não acho que tenham me feito mal, nem me emburreceram. Como &#8220;O Conde de Monte Cristo&#8221; e &#8220;David Copperfield&#8221;, versões razoavelmente saneadas de clássicos antigos. No caso de &#8220;Copperfield&#8221;, por exemplo, é omitido o fato de que Steerforth seduz Emily e indiretamente a leva à prostituição. É por isso que não tenho queixas deles, porque não acho que precisasse saber disso aos oito anos.</p>
<p>Mas &#8220;O Conde de Monte Cristo&#8221; e &#8220;David Copperfield&#8221; são acima de tudo grandes histórias, que valem a pena conhecer. Depois de ver o comentário de Ebert passei os olhos na minha edição adaptada do livro de Dickens. Ainda é fascinante. A adaptação de Oswaldo Waddington mantém um bocado da ironia e do humor dickensianos. E, acima de tudo, mantém o espírito dos grandes tipos como Micawber e o meu preferido, Uriah Heep. Desde os oito anos de idade, quando vejo um hipócrita fingindo humildade, é a imagem untuosa, reptiliana de Heep que me vem à cabeça. E quantos Micawbers conheci na vida, gente que apesar de tudo admirei sinceramente.</p>
<p>Infelizmente esse não é o caso de &#8220;O Grande Gatsby&#8221;. O que Ebert acha é simples e corretíssimo: &#8220;O que importa no romance de Fitzgerald não é a história em si. É como a história é contada.&#8221; Ele tem razão ao lembrar que é a maneira como o velho cachaceiro conta um pequeno retrato da saga americana que faz o valor do livro, algo que acontece com basicamente toda a literatura moderna. Já faz tempo que o &#8220;grande romance&#8221; deixou de fazer sentido; de certa forma, ele foi esgotado no século XIX &#8212; &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;, por exemplo, já é outra coisa, já não é Balzac. O que Ebert diz de &#8220;Gatsby&#8221; se aplica, quase sem exceções, a toda a literatura que veio depois dos modernistas.</p>
<p>Ou seja, a história de &#8220;O Grande Gatsby&#8221;, em si, não é tão importante que valha a pena ser resumida e reescrita em inglês medíocre para estrangeiros. Ao destruir a prosa de Fitzgerald, eles resumiram a obra a pouco mais que nada e tiram a sua razão de ser. Contada dessa forma simplória, &#8220;O Grande Gatsby&#8221; é pouco mais que a sinopse de um melodrama oitocentista. Reescrito, perde seu valor literário, e os estrangeiros fariam melhor lendo a tradução em sua língua; para o simples aprendizado da língua do bardo o Google oferece milhões de alternativas mais adequadas. Tampouco é adaptação necessária para crianças: Gatsby não conta uma história para elas, se não estão preparadas para ler o livro original. Elas ganhariam mais lendo &#8220;Harry Potter&#8221; ou &#8220;Crônicas de Nárnia&#8221;. (Li o livro pela primeira vez aos 13 anos. E o que me marcou mesmo foi a lista de atividades do jovem Gatsby que Carraway descobre no final. Aquilo me inspirou a fazer listas semelhantes pelos dois anos seguintes. Foi preciso reler o livro alguns anos mais tarde para entendê-lo de verdade e entrever o seu gênio; e, finalmente, castigar o original para ver a beleza da prosa de Fitzgerald, escritor de quem gosto muito mais que Hemingway, por exemplo.)</p>
<p>Mas isso lembra outra coisa, mais incômoda que uma adaptação que as pessoas podem simplesmente ignorar: o valor desproporcional que se parece dar à literatura e à ficção.</p>
<p>Isso vai além da mitificação da leitura em si. A impressão que tenho é que leitura é sobrevalorizada como poucas coisas na sociedade moderna. E o pior é que ler não é nada. A escrita é só o jeito que a humanidade encontrou de preservar e compartilhar conhecimento. Só isso. Mais nada. Uma mosca faz isso imprimindo informações no seu código genético. A gente faz isso nascendo com menos sinapses e utilizando meios externos de preservação do conhecimento.</p>
<p>A partir do momento em que a tecnologia possibilita outras formas de transmissão de conhecimento, a escrita se torna apenas mais um deles. Só isso. Nada que justifique esse fetichismo.</p>
<p>A coisa se torna mais grave quando se fala de literatura. Literatura &#8212; mais especificamente ficção &#8212; não é necessária, e isso é algo que as pessoas parecem entender cada vez menos. O fato é que, para todo e qualquer efeito prático, ninguém precisa ler ficção, de qualquer tipo. Se você é advogado, do que precisa é de livros de doutrina escritos em português embolorado e da última versão do código de qualquer coisa. Se você é engenheiro, &#8220;O Velho e o Mar&#8221; dificilmente vai lhe ajudar a fazer o cálculo estrutural de um edifício de 20 andares. Literatura é produto supérfluo de uma civilização cujas elites descobriram há uns cinco mil anos que a escrita era o melhor meio de fixar e transmitir conhecimento e acumular poder. Literatura é <a title="A vida, negra e esfumaçada" href="http://www.rafael.galvao.org/2009/03/a-vida-negra-e-esfumacada/" target="_blank">coca-cola</a>.</p>
<p>Mas milênios de existência e associação ao poder continuam a mitificá-la. O ato de ler se tornou um valor desejável há tanto tempo que passou a ser um daqueles valores presumidos, inquestionáveis. Ou seja: se eu leio, eu sou melhor que você. Não importa o que eu leio; importa o ato em si. E essa espécie de fetiche parece tanto maior quanto menos lê o fetichista. Ou seja, se eu disser que li 50 &#8220;Júlias&#8221;, &#8220;Sabrinas&#8221; ou &#8220;Biancas&#8221; ano passado, para muita gente vai parecer que li muito mais do que se disser que li apenas um, um tal de &#8220;A Montanha Mágica&#8221; de um alemão meio viado.</p>
<p>O que faz a ficção importante não é o ato de ler, em si. É o que você lê, e como isso enriquece sua vida. Assim como a literatura moderna diz respeito menos à trama do que à maneira como ela é contada. E ler por ler não quer dizer absolutamente nada. As pessoas dizem que estão lendo um cocozinho qualquer como se estivessem fazendo a hermenêutica de <em>Finnnegan&#8217;s Wake</em>; para quê? Isso não tem valor real. Não acrescenta nada. Não é melhor do que ver um bom filme ou ouvir um bom disco.</p>
<p>A melhor evidência da superfluidade da literatura é o fato de que desde o século passado não é sequer preciso ler um livro para saber com bom nível de detalhes o que ele conta. Muita gente que jamais leu &#8220;Moby Dick&#8221; sabe do que ele trata, sabe que sua primeira frase é &#8220;<em>Call me Ishmae</em>l&#8221;, sabe quem é Ahab, sabe qual o <a title="Baleia filha da puta." href="http://en.wikipedia.org/wiki/Essex_(whaleship)" target="_blank">caso</a> que inspirou o livro, sabe como ele termina e sabe que pode ser visto como uma batalha do bem contra o mal, entre tantas outras coisas; sabe até quem fez o caixão que salva a vida de Ismael. Para muita gente isso é suficiente; e talvez seja assim que deve ser. Se a questão aqui é saber o básico da história, em vez de ler uma versão adaptada para &#8220;1600 palavras ou menos&#8221; é melhor ver o filme com Gregory Peck.</p>
<p>As pessoas, em seu apego a valores antigos, esquecem que o século XX inventou vários outros meios de transmissão do conhecimento, como o gramofone e o cinema. Obviamente eles não podem ter, por sua natureza, a riqueza que a literatura pode alcançar; mas quando se tiram os elementos que fazem essa riqueza, como fizeram com &#8220;O Grande Gatsby&#8221;, o que sobra é só a história, muitas vezes menor, e para isso esses novos meios são perfeitamente adequados.</p>
<p>Eu, pessoalmente, não levo muito em consideração sequer a idéia de que a gente começa a ler com coisas bobas e vai evoluindo aos poucos. A experiência mostra que muita gente que começa com coisas bobas para por aí, nas coisas bobas, e são muito felizes assim, obrigado. Assim como maconha não leva necessariamente a drogas mais pesadas, Harry Potter não leva necessariamente a James Joyce. É o hábito, o estímulo que fazem uma criança ler. E certamente, em idade adequada, a capacidade de discernir entre o que vale a pena e o que não vale. Por exemplo, minha filha lê e escreve em um nível superior à média das crianças de sua idade. Mas tenho minhas dúvidas de que isso se deva aos livros de Harry Potter que devorou aos oito anos; é mais provável que o fato de se ver às voltas com centenas de livros em casa, livros que ela via o pai lendo, assim como eu via o meu, tenha exercido o mesmo efeito, ou maior.</p>
<p>A essa altura da vida, essa conversa de literatura como um valor absoluto não me empolga mais.</p>
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		<title>Au revoir, les photogrammes</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 13:50:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[O André Setaro fez um post falando da experiência moribunda de ir ao cinema. O saudosismo do Setaro é o meu também (e o tal senhor que vendia fotogramas de filmes na Piedade &#8212; acho que lembro dele também; se não lembro, de um bem semelhante). Embora mais novo, e certamente menos hostil à televisão, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O André Setaro fez um post falando da <a href="http://setarosblog.blogspot.com/2012/01/bons-tempos-aqueles-dos-cinefilos.html" title="André Setaro" target="_blank">experiência moribunda de ir ao cinema</a>.</p>
<p>O saudosismo do Setaro é o meu também (e o tal senhor que vendia fotogramas de filmes na Piedade &#8212; acho que lembro dele também; se não lembro, de um bem <a href="http://www.rafael.galvao.org/2008/11/barroquinha/" title="Barroquinha, cá neste blog" target="_blank">semelhante</a>). Embora mais novo, e certamente menos hostil à televisão, sou outro que sinto essa decadência da experiência coletiva, e lamento por isso.</p>
<p>Um dos poucos filmes a que fui assistir no cinema durante o ano passado foi &#8220;Meia Noite em Paris&#8221;. Não é sempre que o Cinemark, esse grande carrinho de pipoca, exibe um Woody Allen assim, na lata; e os meses longos sem ir ao cinema cobravam sua tarifa à minha consciência.</p>
<p>O cinema cheirava a mofo, um cheiro mais forte do que o habitual. E o filme seria exibido com a imagem levemente desfocada.</p>
<p>A menina na poltrona ao meu lado mandava mensagens de texto para alguém. Enquanto ela ria retardadamente durante os trailers, tudo bem; mas fazer isso durante o filme é sinônimo não apenas de má educação, mas de falta de respeito absoluta e grau elevando de cretinice fisiológica. Eu me mostrava desconfortável, olhava feio, encarava, e a pequena idiotinha não percebia. Tive que falar, com toda a doçura que mamãe me deu, que estava incomodando para que ela se controlasse.</p>
<p>Eu não entendo. Se é para prestar atenção a uma conversa qualquer em vez de ao que se desenrola na tela, por que ir ao cinema? Por que não ficar em casa? Por que não se jogar da ponte?</p>
<p>Mas essas são as novas gerações, e é com elas que temos que dividir as salas de exibição.</p>
<p>Eu me recuso a passar por isso, não tenho mais idade para essas coisas. Nem idade nem paciência. Antigamente, com TVs de 20 polegadas em formato 4:3, a gente tinha que se submeter a esses vexames para conseguir assistir à obra cinematográfica em sua plenitude &#8212; tem coisa mais bizarra que assistir a filmes originalmente em Cinemascope ou Vistavision numa tela pequena, quadradinha? Mas nada isso é necessário, agora. As novas TVs têm formato e resolução suficientes para apresentar um filme como ele foi concebido, ou quase. E assim oferecem uma experiência melhor do que o cinema tem oferecido para mim; sem falar na possibilidade parar o filme e desmoralizar para sempre o velho e bom Hitchcock, que dizia que um filme deveria ter a duração da resistência da bexiga humana.</p>
<p>A decisão de evitar ir ao cinema vai me poupar de coisas tão ruins. As gentes ao meu lado fazendo barulhos desagradáveis. Projetistas incompetentes. Os ruídos de pipoca sendo mastigada. Os risos de boca cheia. Os barulhos de sacos de plástico &#8212; jujubas, as inevitáveis jujubas &#8212; sendo rasgados. As conversinhas bobas de gente sem noção. Adeus. Adeus. Nada disso vai fazer falta.</p>
<div align="center">***</div>
<p>Mas isso implica a deterioração da experiência coletiva. É um sinal ruim de um mundo novo normalmente admirável: o isolamento, a ausência de uma sensação difusa mas reconfortante de pertencimento.</p>
<p>Fico imaginando como era viver 30 e 70 anos atrás, pelo menos no que diz respeito ao cinema.</p>
<p>Há 70 anos ver um filme era experiência relativamente incomum &#8212; uma, duas vezes por semana, no máximo. Os filmes ficavam em cartaz durante meses, às vezes anos. Cada estúdio produzia uns 50 filmes por ano, e havia espaço para tudo isso.</p>
<p>Talvez as gerações mais novas não consigam entender o que isso significava. Mas a relação com a obra cinematográfica era diferente. Muitas vezes, se você não via um filme que, por alguma razão, não alcançava muito sucesso de bilheteria, nunca mais teria uma chance de vê-lo. Não havia TV, TV a cabo, DVD. E por isso os grandes sucessos eram reprisados periodicamente. Os filmes da Disney cumpriam um ciclo de cerca de 7 anos. Vi &#8220;&#8230;E O Vento Levou&#8221; em cartaz em 1982, um ano antes de estrear na TV.</p>
<p>30 anos atrás &#8212; e essa época eu peguei &#8212; já havia filmes na TV. Você podia assistir a uns dois longas por dia, talvez três; e ainda tinha acesso a novidades como telenovelas e seriados. Mas o espaço para filmes novos ainda era restrito, eles demoravam a chegar às TVs, e fora delas não havia alternativas. Por isso os filmes ainda ficavam meses em cartaz &#8212; alguém lembra dos anúncios nos jornais?, miniaturas dos cartazes em preto e branco e os dizeres: &#8220;9<sup><u>a</u></sup> semana de sucesso!&#8221; Eu lembro. Lembro de <a href="http://www.rafael.galvao.org/2004/10/se-nao-me-falha-a-memoria/" title="Como diz o Bia, bolinar a namorada num filme dos Trapalhões é feio, mas é ainda mais feio durante Marcelino Pão e Vinho" target="_blank">muita coisa</a>.</p>
<p>Ir ao cinema era bom, e uma experiência rica. Meninos debilóides mastigando de boca aberta e teclando mensagens em seus celulares acabaram com isso.</p>
<div align="center">***</div>
<p>Mas também lembro que faço parte da geração que descobriu o cinema na televisão. Antes do DVD, antes mesmo do videocassete, o que existia era a TV. Foi nela que assisti a dezenas dos filmes que hoje considero entre os melhores da história. E vem daí a minha devoção a um certo crítico de cinema.</p>
<p>Costumamos falar de grandes críticos como Moniz Viana, Paulo Emilio Sales Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles. Mas há um que nem sempre é lembrado: Paulo Perdigão.</p>
<p>O problema é que, de todos eles, para mim Perdigão foi certamente o mais influente. Não pelo que escreveu &#8212; acho que nunca li nada dele, e sei basicamente que fez parte da geração brilhante do Correio da Manhã e é o autor de um livro sobre &#8220;Os Brutos Também Amam&#8221; &#8211;, mas pelo que nos fez assistir.</p>
<p>Perdigão era o responsável pela programação cinematográfica da TV Globo. Era ele quem decidia que filmes seriam exibidos. E por isso a Globo sempre tinha um horário na semana para os grandes clássicos.</p>
<p>Nos anos 70 era talvez mais fácil, porque os filmes demoravam muitos anos para chegar à TV, até esgotar o circuito cinematográfico; e então se trabalhava com o estoque das décadas anteriores. E nos anos 80 ainda havia uma lei curiosa, que obrigava as TVs a exibirem pelo menos um filme legendado por semana, para atender aos deficientes auditivos. O SBT exibia lixo, claro &#8212; e foi assim que assisti a boa parte de &#8220;<i>El Neurosurgeano Loco</i>&#8220;; um filme mais que <i>trash</i>, piorado ainda mais pelas circunstâncias: era americano, dublado em espanhol e com legendas em português. Juro por Deus.) Mas o Perdigão aproveitava esse horário para exibir clássicos de altíssima qualidade. Era a sessão Cineclube. E onde mais você veria &#8220;Em Cada Coração Um Pecado&#8221; num domingo à noite, com a melhor atuação da carreira de Ronald Reagan (&#8220;<i>Where&#8217;s the rest of me?!</i>&#8220;) Ou &#8220;Paixão dos Fortes&#8221;?</p>
<p>Perdigão ensinou, a mim e à minha geração, a ver cinema. E isso faz dele um dos maiores, se não o maior, crítico do país, pelo menos em sua função social.</p>
<div align="center">***</div>
<p>Tudo isso para lembrar a mim mesmo, e talvez me convencer, de que cinema não é tão necessário assim.</p>
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		<title>Essa gente que bota gosto ruim no nosso amor</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 20:29:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Putas, políticos e palhaços]]></category>

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		<description><![CDATA[Assim que vim morar em Sergipe, no começo dos anos 80, um comercial da Telebrás falava de Canindé do São Francisco &#8212; cidade onde hoje está a Usina Hidrelétrica de Xingó. O município sergipano mais distante da capital, situado no alto sertão, na esquina com a Bahia e Alagoas, finalmente ganhava acesso à telefonia, pouco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assim que vim morar em Sergipe, no começo dos anos 80, um comercial da Telebrás falava de Canindé do São Francisco &#8212; cidade onde hoje está a Usina Hidrelétrica de Xingó. O município sergipano mais distante da capital, situado no alto sertão, na esquina com a Bahia e Alagoas, finalmente ganhava acesso à telefonia, pouco mais de 100 anos depois de sua invenção. Esse era o nível do desenvolvimento da região.</p>
<p>Passaram-se dez anos e então, aí pelo começo dos anos 90, eu costumava ir regularmente à cidade, passar fins de semana na fazenda de um amigo. Aprendi a reconhecer a região e a caatinga. Mas depois fui embora de Sergipe, não vi mais Canindé, não vi mais caatinga e nem essas coisas de sertão.</p>
<p>Passei pela cidade novamente no começo de 2004, e mencionei o fato neste blog para fazer um <a title="Da arte de mungir" href="http://www.rafael.galvao.org/2004/04/da-arte-de-mungir/" target="_blank">agradecimento extemporâneo</a>. Aquele sertão que eu conhecia razoavelmente continuava basicamente o mesmo, apenas com as melhorias naturais do tempo. Ao longo das estradas que hoje compõem a Rota do Sertão, e cortam boa parte do sertão sergipano, as paisagens urbanas se mantinham mais ou menos as mesmas de 1992. Cidade após cidade, a mesma miséria, a mesma sensação de fim de mundo. Claro que naqueles 11, 12 anos a região tinha crescido. Mas era um crescimento inercial, o crescimento natural e mínimo de todo lugar abandonado por Deus. Lembro de estar parado num povoado de Canindé e observar um homem forte passando na rua. Era o meio do dia. Fiquei impressionado ao perceber o que a falta de oportunidades fazia com aquelas pessoas: gente que pela constituição física estava acostumada ao trabalho duro, mas condenada a vagar pelo meio do povoado por falta do que fazer.</p>
<p>Agora vejo um artigo da jornalista <a title="Se é pra falar, que se fale mal." href="http://arquivoetc.blogspot.com/2012/01/eliane-cantanhede-que-potencia-e-essa.html" target="_blank">Eliane Cantanhêde</a> falando da ascensão do Brasil à posição de sexta potência econômica do mundo. Falando mal, obviamente: ela se pergunta que desenvolvimento é esse, se a pobreza está em todo lugar, e usa o Nordeste como exemplo da miséria que esses governos incompetentes não conseguiram resolver.</p>
<p>É um padrão de comportamento típico de certos setores da imprensa: a notícia é boa, não traz nada negativo, mas há que fazer um pequeno esforço e ver como se pode falar mal; com jeitinho sempre se descobre que é possível fazer um comentário desagradável, e se a gente procurar vai ver que o país continua a mesma merda de antes, na verdade até pior. Jornalistas de oposição &#8212; e o termo é usado aqui propositalmente &#8212; parecem ter complexo de viralata, e se o copo não estiver completamente cheio tem que estar totalmente vazio.</p>
<p>De qualquer forma, eu não sei o quanto a Cantanhêde conhece o Nordeste, para falar assim com propriedade da evolução da região. Mas ao usá-lo como exemplo para questionar a qualidade e mesmo a veracidade do desenvolvimento brasileiro, ela mostra desconhecer, se não a realidade, a história recente do torrão natal do ex-presidente Lula.</p>
<p>O artigo da Cantanhêde me fez lembrar que passei por Canindé e por aquele povoado novamente há umas duas semanas. E para isso precisei atravessar outras cidades &#8212; aquelas mesmas que até cerca de oito anos atrás pareciam paradas no tempo.</p>
<p>Eu não impressiono com muita coisa, porque já me acostumei a fingir que a idade me dá o direito de ter uma atitude <em>blasé</em> diante da vida. Mas eu fiquei bobo, genuinamente embasbacado. Em menos de sete anos construiu-se um mundo completamente diferente. As cidades cresceram absurdamente, a ponto de algumas delas se tornarem praticamente irreconhecíveis para mim. Os sinais de desenvolvimento se espalham por elas: lojas de material agropecuário, redes locais de lojas de móveis &#8212; o comércio floresceu de uma maneira que me deixou de boca aberta. É outro lugar. O que antigamente eram variedades indistintas do fim do mundo, hoje são lugares possíveis de se morar. Além disso um detalhe curioso: assentamentos de Sem-Terra &#8212; Sergipe tem um dos melhores programas de reforma agrária do país, se não o melhor &#8212; estão dando origem a novas cidades.</p>
<p>Muito desse desenvolvimento se deve à ação do governo de Sergipe, que inverteu o mecanismo político ao intervir diretamente nos municípios e levando para o interior um tipo de desenvolvimento que, até pouco tempo atrás, estava restrito à capital. Mas o principal elemento de transformação do sertão foi o Bolsa Família, o Luz para Todos, os investimentos federais.</p>
<p>Ver as cidades do Alto Sertão sergipano me lembrou que costumamos &#8212; eu inclusive &#8212; falar do Bolsa Família e de outros programas do Governo Federal a partir de um ponto de vista urbano. Se isso não é um erro, agora estou convencido de que é insuficiente. Por mais benefícios que o BF tenha trazido para as cidades médias e grandes, não é nada que se compare ao efeito redentor alcançado nos lugares mais miseráveis como o sertão. É imensurável, mas estapafurdiamente óbvio.</p>
<p>É por isso que é tão estranho o parágrafo final da Cantanhêde:</p>
<blockquote><p>O que está em pauta não é (só) o ritmo da economia e o complexo equilíbrio entre crescimento mais baixo e inflação debochada, mas principalmente a qualidade do desenvolvimento. Há que se discutir por que, para que e para quem o Brasil assume ares de potência.</p></blockquote>
<p>Então, dona Cantanhêde, deixa eu explicar uma coisinha para a senhora: o que fez a diferença nesses anos &#8212; e agora, depois de ver o que aconteceu com o sertão nesses últimos anos, tenho mais certeza do que nunca &#8212; foi justamente a qualidade do desenvolvimento promovido pelos governos Lula e Dilma Rousseff. Não há novidade nisso, mas jornalistas de oposição como a senhora parecem se recusar a entender, não importa quantas vezes isso lhes seja repetido e demonstrado. Foi justamente porque a qualidade do desenvolvimento mudou que nossa economia conseguiu aguentar os trancos da crise econômica mundial e ultrapassar a inglesa. É, aquela mesma que por sua vez continua recitando o ideário que a senhora acha bonito.</p>
<p>O artigo da Eliane Cantanhêde me lembrou algo mais legitimamente nordestino do que suas impressões: um trecho de &#8220;Karolina com K&#8221;, uma das obras primas de Luiz Gonzaga. Mais especificamente o trecho em que Karolina, doidinha para ir embora do forró e ficar sozinha com o seu sanfoneiro, vê o pessoal indo atrás deles e comenta: &#8220;Olha, Gonzaga! Puxa mesmo que a cabrueira vem aí atrás, parece que eles tão querendo botar gosto ruim no nosso amor!&#8221;</p>
<p>Karolina não sabe, mas a cabrueira continua agoniada, botando gosto ruim nas coisas que não consegue compreender nem aceitar.</p>
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		<title>Por que o Brasil não vai ganhar a Copa de 2014</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 03:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[A vida como ela é]]></category>

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		<description><![CDATA[O Brasil conquistou o tricampeonato mundial em 1970. Só conseguiu ser tetra em 1994, 24 anos depois. A Itália conquistou o tricampeonato mundial em 1982. Só conseguiu ser tetra em 2006, 24 anos depois. A Alemanha conquistou o tricampeonato mundial em 1990.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil conquistou o tricampeonato mundial em 1970. Só conseguiu ser tetra em 1994, 24 anos depois.</p>
<p>A Itália conquistou o tricampeonato mundial em 1982. Só conseguiu ser tetra em 2006, 24 anos depois.</p>
<p>A Alemanha conquistou o tricampeonato mundial em 1990.</p>
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		<title>A verdade não está lá fora</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 22:56:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tequinologia]]></category>

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		<description><![CDATA[O History Channel era uma das razões pelas quais assino TV. A outra, provavelmente, é o TCM. O resto &#8212; programas como o do Anthony Bourdain e os peitos da Nigella Lawson, um ou outro filme mais novinho, Charlie Sheen nas reprises de Two and a Half Men &#8212; é brinde que vem de graça. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Olha, mamãe, um disco voador!" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/pictures/plan9_01.jpg" alt="" width="350" height="231" />O History Channel era uma das razões pelas quais assino TV. A outra, provavelmente, é o TCM. O resto &#8212; programas como o do Anthony Bourdain e os peitos da Nigella Lawson, um ou outro filme mais novinho, Charlie Sheen nas reprises de <em>Two and a Half Men</em> &#8212; é brinde que vem de graça.</p>
<p>Mas isso foi há algum tempo. Sobrou o TCM. Porque um canal que deveria se dedicar à história (e que já teve excelentes programas, como uma bela série sobre Roma) passou a me brindar com programas que beiram a idiotice: &#8220;Alienígenas do Passado&#8221;, MonsterQuest&#8221;, &#8220;Caçadores de OVNIs&#8221;.</p>
<p>Isso faz com que eu perca tempo me perguntando: por que será que em pleno século XXI, este século em que deveríamos estar usando roupas prateadas e veraneando na Lua, ainda há gente que acredita em monstro do lago Ness? Por que alguém perde seu tempo assistindo a programas sobre isso? Por que toda hora que um cachorro sarnento e pelado aparece morto aparece um idiota para dizer que é o Chupa-Cabras? Por que alguém, em plena era de satélites cobrindo cada centímetro quadrado da Terra, acha que um bicho do tamanho do Abominável Homem das Neves poderia continuar existindo sem ser visto por quase ninguém?</p>
<p>Eu não sei as respostas para isso e duvido que alguém saiba &#8212; ou, pelo menos, que alguém possa responder a essas perguntas com um mínimo de civilidade e sem uns três palavrões bem ofensivos. De qualquer forma, essas coisas me incomodam, sim, mas não são o pior.</p>
<p>São os programas sobre ufologia que realmente me tiram do sério.</p>
<p>Não se trata de negar a possibilidade de vida inteligente fora da Terra. É até improvável que ela não exista (embora Carl Sagan, em seu &#8220;Cosmos&#8221;, tenha calculado que vida inteligente pudesse existir em uns 10 planetas, se tanto). O problema é outro: é acreditar que eles tenham vindo para cá, para este planetinha simpático, a despeito de todas as impossibilidades.</p>
<p>Sempre desconfiei que ufologia é basicamente uma espécie de deísmo atualizado para a era atômica &#8212; e é por isso que ETs sempre parecem com a gente, têm cabeça, tronco e membros. Assim como obrigamos Deus a nos criar à Sua semelhança, criamos ETs parecidos conosco; ultimamente Deus anda fora de moda, então arranja-se outra coisa inexplicável em que ter fé. Essas nossas criações, por definição, precisam ser maiores do que nós, algo que fuja à nossa compreensão e que tenha poderes mágicos &#8212; e quer mágica maior que andar por aí em velocidade superior à da luz, feito um neutrino despirocado?</p>
<p><img class="alignright" style="margin: 5px 8px;" title="Nós vamos dominar o mundo. Só não sei para quê." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/pictures/plan9_02.jpg" alt="" width="350" height="250" />Essa não é a única semelhança entre ufologia e outros tipos de fé. Não importa, por exemplo, que visitas de extra-terrestres sejam uma implausibilidade física. É justamente nessas horas que a malucada apela para a fé, para a ignorância: &#8220;Claro que é possível a uns ETs com cara de fuinha viajar 300 milhões de anos-luz para nos saudar com um &#8216;Klaatu barada nikto&#8217; nas fuças. É que eles têm tecnologia que a gente não conhece.&#8221; Ou para a pura fofocada: &#8220;Não, eu nunca vi um ET, mas um primo do amigo de meu cunhado foi abduzido.&#8221;</p>
<p>É exatamente como dizer que Deus existe porque existe, e fim de papo. É o tipo de argumento que, como qualquer teoria de conspiração, se baseia na ignorância.</p>
<p>A essência da fé mais burra e a da ufologia são as mesmas. É a idéia de que necessariamente existe algo acima da nossa capacidade de compreensão, algo no qual acreditamos apesar da falta de provas. Ou seja, Deus e ET são a mesma pessoa; a diferença é que antigamente Deus era melhor, mandava um povo inteiro andar quarenta anos no deserto atrás de um terreno; hoje, no máximo telefona para lá. Por outro lado, antigamente jogava fogo, sal e enxofre em Sodoma e Gomorra, coisa vagabunda com que um Deus que se respeitasse não deveria perder tempo; hoje, a gente vive sob a ameaça d&#8217;Ele invadir a Terra em astronaves gigantescas criadas em CGI e destruir o mundo inteiro.</p>
<p>Esse pessoal dos discos voadores só não parece perceber o quanto esse tipo de bobagem, e especialmente os indícios que eles alegam serem provas de suas teorias lisérgicas, é obscurantista e anti-humanista. Nega acima de tudo a capacidade de imaginação e de realização do ser humano &#8212; um egípcio de 4 mil anos atrás não poderia construir uma pirâmide; uns incas de merda (aquele povo incompetente que levou um cacete memorável de Pizarro) jamais poderiam construir Macchu Picchu.</p>
<p>A desumanidade desse pessoal é tão grande que eles parecem duvidar que o ser humano sequer pudesse criar a idéia de Deus &#8212; os deuses, dizia o Von Daniken, eram astronautas. É a síndrome do &#8220;not invented here&#8221; adaptada ao homem. Ou ao menos um grave exemplo de baixa autoestima existencial.</p>
<p>É verdade que a situação já foi pior, durante aquele período da história humana que cheirava a patchuli e em que se acreditava que adentrávamos a era de Aquário (Deus do céu, <em>isto</em> é a era de Aquário?). Essas idéias, por mais mirabolantes, por mais ilógicas, se mostravam adequadas àquela nova consciência telúrica, àquela coisa cósmica meio odara em que tudo era tudo e nada era nada &#8212; e você ainda tinha que mastigar 50 vezes cada garfada de arroz integral. O tempo passou, o sândalo saiu de moda, nos acostumamos à tecnologia, à fissão do átomo, ao Concorde e aos ônibus espaciais, e então passamos a pensar menos nessas coisas.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="O seu marido acabou de nos descobrir." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/pictures/plan9_03.jpg" alt="" width="300" height="383" />Mas vaso ruim não quebra e eles continuam por aí. É difícil para mim entender a razão, mas há milhares de ufólogos no Brasil. Há até associações que juntam esse pessoal. Tem gente que se ressente da existência de crentes? Eu me ressinto da existência de ufólogos &#8212; e diabo, ninguém nota a ironia contraditória nesse nome? Porque ufologia é obscurantismo disfarçado de pseudo-ciência.</p>
<p>Para piorar, ufólogos tendem a acreditar em conspirações malucas. Eles realmente acreditam que os governos sabem que somos visitados cotidianamente por ETs vindos de quadrantes a que nem a Enterprise chegou, e escondem isso de nós. Se não vemos ETs por aí não é porque eles não estão na Terra, mas porque há um grande complô do governo, qualquer governo, para esconder a verdade.</p>
<p>E isso é o que mais me impressiona: a idéia de complô, de uma grande conspiração orquestrada pelos governo para nos manter na ignorância. Para mim é ainda mais difícil acreditar que o SNI e sua sucessora Abin tenham competência para esconder esse tipo de fato da população do que acreditar na existência de ETs congelados como carne num açougue. O que prova a imbecilidade desse pessoal é a crença na hipótese absurda de que esses governos, que sequer conseguem esconder as merdas cotidianas que fazem, poderiam guardar um segredo de tamanha grandeza. Na verdade, <a title="A Nasa é gerida por brasileiros?" href="http://info.abril.com.br/noticias/ciencia/amostras-extraterrestres-desapareceram-da-nasa-12122011-16.shl" target="_blank">a Nasa sequer consegue guardar as amostras espaciais que possui</a>; como conseguiria guardar segredos como picolés de ETs, que escapam mais fácil, é coisa que me foge à compreensão.</p>
<p>O fato é que o governo sequer esconde de mim a existência da Ana Maria Braga; por que iria esconder a existência de um disco voador é coisa que, sinceramente, jamais vou conseguir entender.</p>
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		<title>Jesus Manero</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 03:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[A vida como ela é]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu sei que tem gente por aí, gente desocupada que redundantemente não tem o que fazer, que diz que não levo religião a sério. Na verdade eu levo. Levo tanto que até hoje tento descobrir como é que o puto do Moisés atravessou o Mar Vermelho. Se parar para pensar numa bobagem dessas não é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei que tem gente por aí, gente desocupada que redundantemente não tem o que fazer, que diz que não levo religião a sério.</p>
<p>Na verdade eu levo. Levo tanto que até hoje tento descobrir como é que o puto do Moisés atravessou o Mar Vermelho. Se parar para pensar numa bobagem dessas não é levar a sério, eu não sei mais o que é.</p>
<p>Quem não leva essa merda a sério é o pessoal do <a href="http://jesusmanero.com" title="Maravilha" target="_blank">Jesus Manero</a> &#8212; o site mais abençoado da internet. O mané aqui nem sabia que essa pérola existia. Agora estou rindo há horas enquanto passo o arquivo do site em revista.</p>
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		<title>Disney e o passado</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Dec 2011 21:45:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[A vida como ela é]]></category>

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		<description><![CDATA[Um site magnífico para quem lembra das revistinhas Disney de eras passadas: o Vila Xurupita&#8217;s Brazilian Covers apresenta todas as capas das revistas Disney publicadas no Brasil nesses pouco mais de 60 anos, de maneira bem simples e organizada. Mas há outro ainda mais completo, o InDucks, um banco de dados abrangente com cada histórias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Primeirona." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/ad76.gif" alt="" width="204" height="331" />Um site magnífico para quem lembra das revistinhas Disney de eras passadas: o <a title="Deus do céu." href="http://www.papersera.net/vilaxurupita/bdc.htm" target="_blank">Vila Xurupita&#8217;s Brazilian Covers</a> apresenta <em>todas</em> as capas das revistas Disney publicadas no Brasil nesses pouco mais de 60 anos, de maneira bem simples e organizada.</p>
<p>Mas há outro ainda mais completo, o <a title="Quem são os malucos que fazem isso?" href="http://www.inducks.org/" target="_blank">InDucks</a>, um banco de dados abrangente com cada histórias incluída em cada revista Disney publicada em vários países, o que inclui o Brasil. É um trabalho hercúleo de documentação, e um tesouro de informação ao mesmo tempo pouco importante e inestimável. Pouco importante porque são só revistas em quadrinhos de algumas vidas atrás, útil apenas para sessões sem sentido de nostalgia; inestimável porque para muita gente que não tem medo de sessões sem sentido de nostalgia é um documento acurado de parte de suas vidas.</p>
<p>Deve ser o meu caso. De muitas dessas capas lembrei imediatamente. Algumas apenas sei que tive, pela época em que foram publicadas, embora não lembrasse delas. Mas lembro bem, por exemplo, dos números 1470 da Pato Donald e 1471 da Zé Carioca, quando a logomarca foi mudada. Comprei a Mickey 340 e a 341, agora também com logomarca diferente. Foi lendo a Zé Carioca comemorativa de 20 anos da revista, em julho de 1981, que fiquei sabendo do torpedeamento do Lusitânia &#8212; infelizmente, eu só fui descobrir quando, e que diabos aquilo tinha significado, muitos anos depois. Li a Tio Patinhas 170, em 1979, e descobri a palavra &#8220;sarraceno&#8221;. Na Tio Patinhas de Ouro 2 ouvi falar de uns sujeitos na Pérsia &#8212; que já não existia àquela época &#8212; chamados dervixes.</p>
<p><img class="alignright" style="margin: 5px 8px;" title="Astronautas, não." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/de44.gif" alt="" width="204" height="331" />Era o tempo em que as revistas traziam impresso um pequeno aviso na capa: &#8220;Manaus, Santarém, Boa Vista, Altamira, Macapá, Porto Velho, Rio Branco, Jiparaná (via aérea): Cr$ 00,00 &#8211; CÓD. 0051&#8243; &#8212; e isso significava, basicamente, um aumento de cerca de 30% no preço de capa. Era um Brasil diferente e a região Norte ficava mais longe. Tão longe que até hoje eu não sei onde fica Jiparaná.</p>
<p>O site avivou lembranças antigas, mas corrigiu também algumas. Sempre achei que a primeira Almanaque Disney que eu havia comprado tinha sido a 90; na verdade foi a 76, em setembro de 1977. Há muitos anos comecei um post neste blog dizendo que &#8220;Ainda lembro do dia em que comprei o meu primeiro Almanaque Disney. Foi em agosto de 1977.&#8221; Eu estava errado. Na verdade foi em setembro, e comprei porque, de brinde, vinham umas moedas douradas; crianças, macacos e corvos gostam de coisas que brilham. A confusão vem porque nesses meses eu morava num hotel em Salvador. Também achava que tinha comprado a &#8220;Anos de Ouro do Mickey&#8221; no final daquele ano, mas isso aconteceu dois anos depois &#8212; mas do local eu não esqueci: na banca do Renato, um sujeito que me lembrava o Emerson Fittipaldi, banca que fica ainda hoje no Largo da Barra.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="A trolha sarracena! (Ih, isso já é outra história...)" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/tp170.gif" alt="" width="204" height="331" />Além disso, ver a palavra &#8220;Bingola&#8221; &#8212; um joguinho de tabuleiro com tampinhas de Coca-Cola, se não me engano &#8212; nas capas de várias revistas me lembrou que eu brinquei com isso, o que quer dizer que comprei outras revistas antes da tal Almanaque Disney 76. (Uma busca por &#8220;Bingola&#8221; mostrou que há por aí gente mais maluca do que eu, gente que guardou suas tampinhas até hoje. Ano passado um sujeito estava vendendo sua coleção por 1.500 reais no Mercado Livre.)</p>
<p>É impressionante que eu ainda consiga lembrar de capas de revistas que li mais de 30 anos atrás. É difícil saber se a minha fascinação por elas &#8212; e o valor que lhes dou &#8212; vem do seu valor real ou porque elas simplesmente fizeram parte de minha vida e de minha formação &#8212; ou seja, no final das contas essas revistas não eram tão boas assim, eu é que era suficientemente ignorante para julgá-las excelentes. Talvez seja uma mistura dos dois; reler as histórias publicadas nessa época mostra que, se minha memória afetiva talvez tenha aumentado sua importância, ao mesmo tempo elas são infinitamente superiores ao que se tem publicado da Disney ultimamente, com exceção das histórias de Don Rosa.</p>
<p>O melhor nessas revistas é que havia um universo variado de personagens e temáticas. Não eram apenas os personagens tradicionais de Disney, aqueles que continuam até hoje e basicamente vivem em Patópolis; mas havia uma variedade de elementos paralelos &#8212; as histórias das Aristogatas, de Banzé, Hawita e tantos outros, e quadrinizações dos filmes das Disney &#8212; que emprestavam àquelas revistas uma abrangência que outras não têm. Além disso havia elementos retirados da série True-Life Adventures, com informações sobre o mundo animal. Havia também um bom núcleo brasileiro, com as histórias do Zé Carioca e do 00-ZÉro.</p>
<p>E algo de que eu tinha esquecido: um bando de meninos e meninas maluquinhos, na faixa dos 8, 10 anos, que queriam se corresponder com outras crianças e davam seus endereços publicamente &#8212; algo impensável nos tempos paranóicos de hoje, em que a meninada não vai mais à esquina sozinha.</p>
<p><img class="alignright" style="margin: 5px 8px;" title="Antes de ver no cinema" src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/ee114.jpg" alt="" width="204" height="312" />O site também acaba sendo uma crônica visual da decadência dos quadrinhos Disney no Brasil. Quem conhece as revistas feitas há 30, 40 anos lembra da impressão com cores sempre chapadas, os defeitos da colorização manual e das tecnologias de impressão disponíveis; lembra das variações de letras a cada história, também feitas à mão. De lá para cá houve imensos progressos técnicos. Tudo, da finalização à colorização e às letras, é feito no computador. As impressoras trazem cores mais ricas, com mais nuances tonais e mais controle sobre o resultado final. O tempo operou suas mudanças também na lingua, e hoje ela se apresenta mais coloquial.</p>
<p>No entanto basta uma olhadela superficial nas capas para ver que, paralemente ao avanço técnico, houve um retrocesso terrível no campo das idéias.</p>
<p>Cada capa trazia uma gag visual significativa, piadas simples e muitas vezes excelentes. A novas capas das revistas Disney, ao menos as poucas que ainda se sustentam, perderam isso. Ficaram mais parecidas com as revistas de super-heróis, puro lixo pouco criativo, artesanato que se faz sem pensar, e com vistas apenas a chamar a atenção do eventual comprador. As capas refletem um pouco a pobreza das histórias mais novas. A julgar pelo pouco que vejo aqui, a Disney não conseguiu se atualizar sem perder sua essência &#8212; algo que eventualmente conseguiu nos longa-metragens animados, como &#8220;A Bela e a Fera&#8221; e &#8220;Rei Leão&#8221;.</p>
<p>E há a questão do negócio em si.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin: 5px 8px;" title="Nova Mickey. Em 1981." src="http://www.rafael.galvao.org/archives/images/mk241.gif" alt="" width="204" height="312" />Há 30 anos &#8212; e as capas de diversas revistas mensais e edições especiais comprovam isso &#8212; esse era um negócio excelente. Hoje, diante do tamanho do império de dívidas da Abril, não tenho essa certeza. No começo deste século, por exemplo, ela não teve problemas em se desfazer dos super-heróis da Marvel e, cerca de um ano depois, da DC. No entanto se apega às revistas Disney, mesmo que pareça não mais saber o que fazer com elas. Por uma matéria lida há uns dez anos na finada Gazeta Mercantil, parece que é por razões sentimentais: o Pato Donald foi a primeira revista publicada pela editora, em 1950, e questão de honra para o fundador, Victor Civita. Isso torna ainda mais incompreensível e injustificável o trabalho porco que realizam com essas revistas. A única coisa decente que ainda publicam é uma tal de Disney Big &#8212; mais ou menos a mesma coisa que a antiga Disney Especial, mas sem o fio temático que era a marca daquelas revistas e cada vez mais limitado ao universo de Carl Barks. O resto é lixo mal editado &#8212; e é deprimente que, com mais de meio século de histórias, eles não consigam simplesmente escolher as melhores.</p>
<p>Mas isso interessa pouco. Passei horas procurando as revistas que ajudaram a me formar &#8212; aquelas do final dos anos 70, começo dos 80.</p>
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		<title>E aí, Sergio Leo, o mundo acabou?</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 03:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[A vida como ela é]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem os senadores brasileiros aprovaram em primeiro turno uma Proposta de Emenda Constitucional que traz dos mortos a exigência de diploma de comunicação social para o exercício do jornalismo, derrubada há pouco mais de dois anos num daqueles raros momentos de sanidade do STF. Em tempos d&#8217;antanho este blog defendeu o fim da exigência do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem os senadores brasileiros aprovaram em primeiro turno uma Proposta de Emenda Constitucional que traz dos mortos a <a title="O boêmio voltou novamente" href="noticias.uol.com.br/educacao/2011/11/30/senado-aprova-em-1-turno-pec-que-exige-diploma-para-exercicio-da-profissao-de-jornalista.jhtm" target="_blank">exigência de diploma de comunicação social para o exercício do jornalismo</a>, derrubada há pouco mais de dois anos num daqueles raros momentos de sanidade do STF.</p>
<p>Em tempos d&#8217;antanho este blog defendeu o fim da exigência do diploma. Porque jornalismo não é profissão que precise oferecer uma defesa à sociedade na forma de diploma individual; porque a lei era uma intromissão desnecessária do Estado no que essencialmente é a sociedade falando consigo própria; e pelas próprias origens da nefanda, uma lei de ditadura concebida para controlar jornalistas.</p>
<p>Mas já há muito tempo, uns 20 anos pelo menos, essa discussão era desnecessária e anacrônica. Sua queda ou manutenção, na prática, significava coisa nenhuma. Novos jornalistas continuariam a ser necessariamente recrutados nos bancos das faculdades, simplesmente porque a oferta é grande demais e, de modo geral, recém-formados são mais qualificados que focas vindos de outras áreas. Não consta haver muita gente vindo de fora querendo ser jornalista. E há tantos estudantes implorando por uma primeira chance que a seleção já não é feita entre os que têm e os que não têm diploma, mas entre aqueles nas multidões de recém-formados que têm algum talento e estão dispostos a trabalhar por muito pouco em nome de uma primeira oportunidade.</p>
<p>Não foi a exigência do diploma que criou essa situação. Foi basicamente a evolução natural do mercado. Este é cada vez mais um mundo de especialistas superficiais, cujas origens estão nas crianças que, por várias razões, são obrigadas a fazer escolhas de vida fundamentais aos 17 anos de idade. É isso que gera o excedente de mão de obra que afasta os eventuais não-jornalistas das redações. E esse fenômeno que se vê no jornalismo também se repete em outras profissões, mesmo as que não exigem diploma, como a publicidade: é nas faculdades que são recrutados os estagiários de criação, mídia ou qualquer coisa assim, porque por pior que sejam &#8212; e, também generalizando, essa meninada parece vir cada vez pior, cada vez mais ignorante &#8211;, ainda assim têm uma formação específica melhor do que quem nunca fez um layout em toda a vida. Ou seja, não é necessário diploma para garantir esse tipo de evolução socioeconômica. O mercado já se encarregou disso faz um certo tempo.</p>
<p>Mas para o <a title="O Sergio é gente boa." href="http://sergioleo.opsblog.org" target="_blank">Sergio Leo</a>, e tantos outros jornalistas, a queda do diploma parecia significar o maior golpe que a profissão poderia sofrer. Em seu momento mais empolgado, o Sergio invocou neste blog a maldade intrínseca dos patrões, que seriam a favor da queda do diploma para ter à sua disposição mão-de-obra farta e barata &#8212; como se &#8220;mão-de-obra farta e barata&#8221; não fosse quase sinônimo de &#8220;recém-formado&#8221;.</p>
<p>Pelos bons argumentos, e pelo fato de ser um excelente jornalista, o Sergio merecia ser ouvido. Poucas pessoas escrevem tão bem sobre relações internacionais, com tanta clareza. Pessoalmente acho que isso se deve ao seu imenso talento pessoal, e não exatamente à sua formação específica em jornalismo; mas não é isso que está em questão aqui. De qualquer forma, é justamente por esse respeito que pergunto: e aí, Sergio Leo? Dois anos depois, o mundo acabou? As redações foram infestadas por padeiros ávidos por assinar seu nome em uma matéria com chamada de capa? Estagiários no seu e nos outros grandes jornais do país &#8212; e nos pequenos, também &#8212; passaram a ser recrutados nas faculdades de matemática? Os donos de jornal utilizaram os milhões de pedreiros, garis, advogados, médicos e guardas de trânsito que agora podem ser jornalistas para chantagear a classe por salários mais baixos, quase de fome?</p>
<p>Mais que isso: o caos reinante nas redações justifica a volta dessa exigência estranha que nos leva de volta à companhia de bastiões da imprensa de qualidade como <a title="...e África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Croácia, Equador, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia" href="http://www.rafael.galvao.org/2009/06/um-adeus-a-exigencia-de-diploma-de-jornalista/" target="_blank">Congo, Costa do Marfim e Honduras</a>&#8211; embora agora de maneira democrática, como deve ser?</p>
<div align="center">***</div>
<p>Nos dias seguintes à derrubada do diploma, eu e muitos outros servimos como destinatários involuntários de grandes desabafos de jornalistas indignados com o que consideravam ataque à sua profissão.</p>
<p>Jornalistas de todo o país se manifestaram e apontaram o início do apocalipse, o fim da profissão, o desrespeito absoluto à catiguria, essas coisas. Jornalistas se revoltaram ao serem, como quiseram fazer parecer, comparados a cozinheiros &#8212; por sinal um episódio típico do <em>modus operandi</em> de certo segmento da imprensa brasileira, não apenas pelo elitismo e bacharelismo que tenta fazer pensar que uma profissão é mais importante do que outra, mas pela má fé demonstrada ao destacar uma frase de seu contexto e fazer o mais baixo sensacionalismo a partir dela.</p>
<p>No final das contas, a mobilização vazia de jornalistas no pós-queda acabou sendo uma prova de miopia e de incapacidade de ver o mundo como ele é &#8212; além, é claro, de prova da incapacidade da categoria de se organizar politicamente. E esse é o tipo de coisa que se pode cobrar deles mais de dois anos depois, especialmente às vésperas de uma volta ao antigo <em>status quo</em>.</p>
<p>Mas a pergunta a ser feita agora, na minha opinião, deveria ser outra: como alguém que se propõe a explicar para mim o mundo em que vivo pode-se arrogar esse direito se não consegue sequer compreender fatos que lhe afetam diretamente? Com que moral um jornalista vai tentar interpretar um fato para mim se ele mesmo não consegue entender corretamente os sinais que o mundo lhe dá a cada novo dia? Ou, se entende &#8212; algo do que duvido, a julgar pelas manifestações vistas há dois anos &#8211;, não tem a honestidade necessária para me dizer como as coisas realmente são?</p>
<p>Talvez isso explique o nível geral da imprensa deste país. Não foram jornalistas sem nível universitário que perpetraram a cobertura desmoralizante das eleições do ano passado &#8212; o que por si só deveria desqualificar qualquer tentativa de justificativa do diploma como garantia ética, erro que tantos defensores da obrigatoriedade cometem. Agora, um ano depois, cabe também perguntar quem fez mais mal à profissão: Gilmar Mendes e sua alusão a padeiros ou o papel indigno que os principais jornais deste país desempenharam na cobertura da última campanha presidencial?</p>
<p>Eu tenho uma resposta para isso, e acho que ela está certa. No entanto, preferia estar errado. Preferia concordar com tantos jornalistas e achar que a queda do diploma iria destruir a profissão. Porque só a incompetência de gente aboletada na desculpa da falta de preparo teórico poderia explicar o que está acontecendo com a imprensa deste país.</p>
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		<title>De como deixei de lado as preocupações e aprendi a amar a opinião das massas</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2011 12:32:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Galvão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura e outras bobagens]]></category>

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		<description><![CDATA[Como quase todo mundo, nunca gostei muito de consensos, de unanimidades; mas gostava menos ainda das opiniões da maioria; elas costumam ter a burrice das unanimidades e a falta de perspicácia da opinião minoritária, e aliam a isso uma arrogância bastante sentida por qualquer um que discorda. Sempre achei, por exemplo, que um camelo é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como quase todo mundo, nunca gostei muito de consensos, de unanimidades; mas gostava menos ainda das opiniões da maioria; elas costumam ter a burrice das unanimidades e a falta de perspicácia da opinião minoritária, e aliam a isso uma arrogância bastante sentida por qualquer um que discorda.</p>
<p>Sempre achei, por exemplo, que um camelo é um cavalo criado por um comitê &#8212; é o tipo de coisa que ainda se diz em departamentos de criação de agências de publicidade, por exemplo. Mas deixei de me preocupar e aprendi a amar a bomba, e é por isso que, ao ler <a href="http://online.wsj.com/article/SB10001424052970204452104577056083369184616.html" title="Necessários, é?" target="_blank">este artigo no Wall Street Journal</a> argumentando que críticos profissionais de literatura ainda são fundamentais, eu torci o nariz.</p>
<p>Há um ou dois anos comprei<i> Empire of the Summer Moon: Quanah Parker and the Rise and Fall of the Comanches</i>; atendia a um fascínio antigo pela formação do Velho Oeste americano, uma curiosidade também antiga sobre os comanches &#8212; povo transformado como nenhum outro pela chegada de uma nova tecnologia, o cavalo &#8212;  e a uma recomendação entusiasmada do New York Times ou do Wall Street Journal, não sei bem. Fui na Amazon e comprei, ponto. Nunca olhava aquelas críticas de leitores. Confiava mais na opinião de críticos profissionais.</p>
<p>Em alguns momentos da leitura deu vontade de jogar o livro na parede. Uns erros bobos &#8212; o autor diz que os comanches foram os únicos a desenvolver a criação de cavalos, esquecendo, por exemplo, dos Nez Perce que criaram o appaloosa, e os navajos e apaches eram grande cavaleiros, também &#8211;, uso excessivo de hipérboles, eventual falta de contextualização (ele se refere à baixa taxa de natalidade dos comanches, mas populações nômades obrigatoriamente têm taxas de natalidade muito baixas). Mas o que realmente irritava era uma linguagem que até para gente que, como eu, tem pavor ao politicamente correto, eventualmente soava incômoda. As referências aos &#8220;selvagens&#8221;; e, principalmente, trechos que eventualmente pareciam ser uma tomada de posição ostensiva demais ao lado dos colonos brancos.</p>
<p>Não me arrependi de ter comprado o livro. Acho inclusive que a linguagem utilizada ajuda a ter uma idéia clara do que o choque de civilizações representou, e provavelmente foi utilizada para se apropriar do espírito da época. Mas isso me despertou uma certa curiosidade e fui ler as resenhas na Amazon. E percebi que se as tivesse lido antes, poderia ter uma idéia melhor do que me esperava; poderia inclusive julgar se esse era o melhor livro para os meus propósitos.</p>
<p>Uma parte dos leitores reclamava que o livro não era suficientemente politicamente correto, não mostrava os índios como heróis impolutos. O que para eles era defeito para mim é qualidade. Não me sinto à vontade com a maior parte das queixas modernas sobre o tratamento aos índios americanos entre os séculos XVI e XVIII. Me incomodam muito os tratados não cumpridos pelos EUA, porque têm outro nível de complexidade política; mas as guerras de conquista para mim são compreensíveis no contexto do século XVI, por exemplo. Não justificáveis; mas compreensíveis. Os mesmos índios que perderam as guerras contra os brancos ganharam de outros índios; e ninguém reclama dos visigodos que destruíram Roma, por exemplo (sobre esse período recomendo um livro chamado <i>Empires and Barbarians</i>, de Peter Heather.). A visão do índio como inerentemente bom e superior ao europeu mercantilista &#8212; visão que parece ter se consolidado nos últimos 60 anos, pelo menos &#8212; me incomoda.</p>
<p>Outra parte elogiava profusamente, fazendo parecer que o livro era o que de melhor se fez sobre o assunto. Isso não deveria ser um defeito, mas era: significava que incomodou pouco algumas pessoas, que manteve intactos seus preconceitos e pressuposições. Além disso, por já conhecer o livro, eu sabia que ele estava longe de ser perfeito. Bom, especialmente para quem conhecia pouco a história dos comanches, mas não perfeito. Além disso, quem gosta muito de qualquer coisa normalmente não consegue fazer boas críticas. Paixão cega.</p>
<p>Mas uma grande parte elogiava o livro com ressalvas. E essas eram as críticas realmente úteis, e as que me fizeram entender que a opinião coletiva nem sempre é ruim. O conjunto de análises, os pontos individuais que várias delas levantam, acabam formando um panorama acurado do livro. Você pode tirar dali o que irá te incomodar ou não no livro; pode descobrir se ele tem o que você procura, ou não.</p>
<p>É por isso que eu, que já escrevi post <a href="http://www.rafael.galvao.org/2008/07/tomates-podres/" title="Como é bom poder mudar de opinião." target="_blank">descendo a lenha</a> em coisas como o rottentomatoes, me rendi à opinião das massas. Aprendi como utilizá-las, na verdade, e meus preconceitos foram embora.</p>
<p>É muito simples: vejo primeiro o número de resenhas positivas e negativas. Se um livro tiver mais críticas negativas que positivas, ele certamente não presta, e procuro outra coisa para ler. Desconsidero também a maioria das críticas que dão cinco estrelas, são bobos deslumbrados; e evito as que dão uma, porque esses normalmente são idiotas confessos. Essas opiniões extremadas, no entanto, não são de todo inúteis, e vale a pena lê-las para ter uma idéia do que mais chama a atenção nas pessoas; No entanto, são as críticas de duas a quatro estrelas que fornecem uma compreensão maior e mais equilibrada do livro.</p>
<p>Isso não vale, claro, para obras de ficção. Casablanca não é genial porque, digamos, 80% dos usuários do rottentomatoes acha isso, mas porque <i>eu</i> acho. A obra de arte não pode e não deve se submeter a critérios de massa. Mas hoje em dia eu leio principalmente não-ficção, história e assemelhados em particular, e para isso o repositório de experiências individuais de sites como a Amazon ajuda a dar um bom norte.</p>
<p>E isso traz um novo problema: a decadência da imprensa cultural deste país. Não sei se por falta de preparo ou por interesses comerciais, ou se a própria forma da crítica na imprensa diária se diminuiu e vulgarizou em excesso; mas o fato é que está ficando cada vez mais difícil respeitar a opinião da imprensa, não só a do Brasil, mas a de todo o mundo. Não dá mais para saber o que é crítica incompetente ou desinteressada.</p>
<p>Por causa disso demorei alguns meses para comprar uma nova biografia de McCartney chamada <i>Fab</i>, de Howard Sounes. Havia ainda poucas críticas quando fiquei sabendo dele. Controlei o ímpeto inicial e esperei que as resenhas atingissem um número suficiente para dar um panorama mais completo do livro. Foi apenas quando vi os resenhistas darem uma estrela ao livro porque ele não era suficientemente respeitoso com um homem genial e maravilhoso e lindo e cheiroso como McCartney que me decidi a comprá-lo. Não me arrependi.</p>
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