Sobre um blog antigo chamado Bombordo

Talvez as pessoas tenham esquecido rápido demais do Bombordo, um blog sobre política que o Verbeat publicou durante alguns meses, há coisa de dois anos. Dele sobrou apenas a homepage; nem mesmo os artigos estão disponíveis.

Originário de uma lista de discussões, o Bombordo congregava uma porção de blogueiros de centro e de esquerda. O momento era adequadíssimo: em um ano importante como 2006, ano de eleições presidenciais, o Bombordo tinha tudo para se afirmar como uma espécie de think tank de centro-esquerda. Gente boa como o Hermenauta e o Sergio Leoo escreviam lá. No seu blog, o Sergio Leo tinha feito uma cobertura da crise do gás boliviano de fazer inveja a qualquer jornal brasileiro, principalmente pela qualidade das análises feitas. O Hermenauta tinha um dos blogs mais filhos da puta que eu conheço.

No entanto, o Bombordo derivou e soçobrou.

O problema era o seu lastro. O transcorrer dos fatos mostrou que o Bombordo estava totalmente desconectado da realidade. Aquele era um ano extremamente importante do ponto de vista político. A polarização partidária e, acima de tudo, a discussão ideológica entre dois projetos diferentes de governo mobilizaram a sociedade. Enquanto isso o Bombordo se debruçava sobre a situação política em um fim de mundo qualquer dos Estados Unidos. Para um blog que pretendia oferecer uma alternativa política, ele simplesmente não tinha o que oferecer. Não conseguia sequer entender que o seu assunto era o Brasil.

Esse distanciamento da realidade era resultado de uma conjunção de fatores. Um deles era a liberdade excessiva em relação aos blogueiros que escreviam. Um exemplo do quão pernicioso isso pode ser está em um post que considero antológico, sobre a entrada da Starbucks no Brasil. No texto, uma grande preocupação com a provável destruição da tradição do cafezinho brasileiro. Ou seja, o post demonstrava um total e absoluto alheamento à situação real, simplesmente porque não conhecia o país em que a Starbucks estava abrindo filiais. Não se pode falar de alguma coisa estando virado de costas para ele. Uma bobagem deste tamanho cabe em um blog pessoal, mas não em um empreendimento coletivo mais ambicioso.

Essa ignorância e essa falta de controle impossibilitaram que o Bombordo enfunasse suas velas. Um blog político não pode estar distante da realidade, dos fatos que fazem a evolução política do país. Não pode se negar a falar do que é importante naquele momento. Além disso, é preciso ter um direcionamento explícito; do contrário, não tem valor maior que qualquer blog individual por aí. E não se pode oferecer alternativas de pensamento sem que eles estejam solidamente baseados na realidade.

De qualquer forma, a proposta inicial do Bombordo tinha tudo para oferecer uma boa alternativa de esquerda. E poderia ser retomada hoje. Essa é a razão deste post: uma sugestão para o Tiagón e para o Gaijin, ou para o Ina e o Edney.

Seria preciso, acima de tudo, acabar com o que o “democratismo”: essa idéia ingênua de que todo mundo é igual e de que todo mundo tem os mesmos direitos; de que se alguém escreveu algo, tem que ser publicado. É preciso ordem no galinheiro, uma pauta mínima, umas regrinhas sobre o conteúdo. Ou seja, uma linha editorial clara e definida. Além disso, alguém tem que dirigir a coisa, e não ficar preocupado em ferir suscetibilidades. Não é porque fulano escreveu um texto de que gosta muito que ele tem que ser necessariamente publicado — porque pode não ser bom, ou mesmo bom, pode não ser adequado. Um bom blog tem que atacar os problemas atuais e oferecer boas análises sobre eles.

Se eu fosse o Tiagón e o Gaijin, ou o Ina e o Edney, eu tentaria trazer o Bombordo de volta.

8 thoughts on “Sobre um blog antigo chamado Bombordo

  1. Rapaz, você me fez lembrar de um comentário que deixei num post no Bombordo, não sei de quem, na qual ousei defender o uso de patrocínio em uniformes escolares. Quase fui crucificado por lá, e isso em tempos nos quais ainda não era tão lugar comum martelar-se expressões como “tucanalhas” e “petralhas”. Lamentavelmente as discussões sobre política no Brasil saem do espectro ideológico para virarem meros embates de torcidas organizadas de futebol, onde o racionalismo vai pras cucuias em nome de (des)argumentos passionais e sanguinolentos. Aliás, toda vez que escrevo sobre política no Pensar Enlouquece acabo em embates com algum xiita imbecil nos comentários, um pé no saco. Mas, felizmente, meu espaço de comentários nunca chegou ao péssimo nível dos comentários do Pedro Doria, que deve ter uma paciência de Jó pra aturar a ranhetice e o desfile de ofensas gratuitas por lá. Já o Marcos Guterman não suportou a barra.

    Menos mal que o Imprensa Marrom, escrito pelo Gravatai e hospedado no Interney Blogs, é um espaço de discussões políticas que passam muito ao largo das reinaldoazevedices e paulohenriqueamorizadas da vida.

  2. em suma, vc quer um blog estalinista…. na verdade, o que vc quer nao eh um blog, eh um think tank… uma coisa eh uma coisa, outra coisa eh outra coisa… o bombordo tinha textos bons mas comentaristas absolutamente retardados e xiitas….

  3. boa lembrança. concordo contigo – faltou um editor. mas a própria gênese, que foi uma lista de discussão que acabou de forma autofágica, não permitia isso.

    achemos um editor e retomemos a iniciativa, oras. conto com tuas sugestões. 🙂

  4. O Bombordo foi uma invenção minha e sei muito bem porque soçobrou. O problema é que dar as razões circunstanciadas aqui em público seria impossível. De uma forma geral, posso dizer que houve uma guerra de egos para a qual não conheço justificativa inteligente. Até hoje há pessoas que simplesmente não se falam e tudo começou ali.

    Houve gente se demitindo três dias antes da estréia por motivo de eu ter alterado uma agenda dos blogueiros que aconteceria dali a quinze dias… Outros dois demitiram-se depois de lerem os primeiros posts, alegando que não poderiam manter a qualidade… Se leres o primeiro post que ficou a meu cargo por ser o pai da criança, verás: é simplíssimo!

    Se o Tiago quiser reativá-lo podemos conversar aqui em casa – ele é amicíssimo meu -, mas eu apenas diria o que não repetir e lhe desejaria boa sorte. Não preciso ganhar inimigos de graça.

    Mas há lances muito engraçados, claro. Algumas pessoas muito conhecidas revelaram-se muuuuuuito ridículas.

    Abraço, Rafa.

  5. bem, eu não me demiti e tentei não botar nada de esquerda lá. quando elogiei a marta suplicy tomei porradas pacas, aí achei melhor parar.

    acho que devia voltar, mas eu tô fora.
    :^)

  6. Pode não acreditar na coincidência, mapaz, estava eu pensando: “ih, faz tempo que não vou lá no blogue do Rafael”, corri pra cá e me vejo elogiado pelas costas. Que covardia, Galvão, isso não se faz.(-; Valeu camarada pelos exageros de amigo.
    O Bombordo, apesar da apresentação que tentava dizer a que ele veio, tinha como problema sério o fato de não ter um perfil definido, uma definição sobre que tipo de publicação ou site seria _ até para evitar interpretações erradas, de acharem que era algo partidário, ou sectário, ou de algum grupo político determinado… Me lembro que o denominador comum do grupo era o de todos se considerarem “progressistas”, termo vago o suficiente para caber todas as correntes políticas, da extrema esquerda à centro-direita. Me lembro, quando começou _ logo _ a degringolar , de conversarmos sobre profissionalizar a coisa, fazer uma pauta mais clara, esses troços. Mas aí esbarramos nos redemoinhos da vida de cada um; nem sempre estávamos disponíveis para produzir PARA o Bombordo, ou com disposição para. E teve a briga pessoal, troca de caneladas na lista de discussão, uma pena. Não sabia que os arqwuivos tinham sumido.

    O que está faltando é uma iniciativa que arregimente os excelentes escritores que se espalharam em sites como os do verbeat e do interney, e dê a eles uma feição menos de agruopamento de blogs e mais de portal mesmo, u7ma espécie de revista eletrônica, chamando colaboradores, com algum plano de negócios… Eu seria, com prazer, leitor de um troço desses.

  7. gente, esse “portal”, com uniformidade de idéias e edição de pautas, conteúdos e até imagens, já existe e se chama Papo de Homem.
    e é muito bom.
    beijocas

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