Reencontrando os Clássicos da Literatura Juvenil

No último Natal consegui me dar um presente que procurava havia muito tempo.

Eu tinha sete anos, quase oito quando cheguei em casa e havia uma encomenda para mim. Naquele dia específico as pessoas estavam com raiva desta pobre criança, porque aparentemente eu tinha desaparecido a tarde toda, com um amigo. Era injustiça, porque não procuraram direito: tivessem ido ao Porto da Barra e nos encontrariam mergulhando do quebra-mar, aproveitando a maré cheia do fim de tarde.

Jailton, o amigo que estava comigo, ganhou uma surra. Eu ganhei um esporro e livros. Minha avó tinha mandado do Rio uma caixa com uns quinze volumes de uma mesma coleção, “Clássicos da Literatura Juvenil”. Os números dos livros eram descontinuados, e isso me deu a certeza de que havia mais volumes. Eu estava certo, e algumas semanas depois chegaria outra remessa: eram ao todo trinta livros.

Eram livros belíssimos para mim: capa dura, bem ilustrados, um cheiro único e inesquecível. Nos três anos seguintes eu leria todos os eles, alguns muitas vezes. Só não li então o número 21, “Robinson Crusoé”, que caiu do caminhão numa mudança, e “Aventuras de um Petroleiro” porque me parecia chato — quem em sã consciência deixaria de reler “As Aventuras de Tom Sawyer” para saber das desventuras de um navio? Eu os leria anos depois, mas não seria a mesma coisa e eles não fazem parte da minha infância.

Esses trinta títulos, de qualquer forma, fariam parte da minha vida.

Como vieram em duas levas diferentes, desde o início tive a impressão de que havia mais do que apenas aqueles trinta. Essa impressão durou anos, e aumentou em 80, 81, quando comprei dois livros de banca, “O Corsário Negro” de Salgari e “O Máscara de Ferro” de Dumas. Eles tinham muitas semelhanças com a minha coleção, embora fossem brochuras e pertencessem a outra série, “Grandes Aventuras”: mas era o mesmo estilo de capa, a mesma estrutura, até a mesma tipologia. Só fui confirmar essa desconfiança no final dos anos 80, quando achei o número 38 na casa de um amigo. Eu estava certo desde o início. Eram cinquenta volumes, quase o dobro do que tinha embalado a minha infância. Mais tarde, cheguei a comprar alguns que achava em sebos, mas eles não me interessavam mais, e eu comprava para dar de presente.

Com o tempo a minha coleção foi se deteriorando e sumindo. Depois, morando no Rio, eu os encontraria em absolutamente todos os sebos a que ia, custando 2, 3 reais. Mas nunca a coleção inteira, e nunca em bom estado.

Com a chegada do Mercado Livre passei a procurar por ela com alguma regularidade. Mas as que apareciam eram sempre esculhambadas, degradadas em excesso pelo tempo, ou excessivamente caras. A essa altura os livreiros entenderam que só quem procura por esses livros é gente nostálgica que quer recuperar um pedaço de sua própria infância e que, naturalmente, está disposta pagar mais por isso; só não entendem que nenhuma infância vale o preço que eles passaram a cobrar, criança é bicho chato que só merece cascudo. Além disso, eu nunca quis a coleção completa. Queria apenas os trinta primeiros.

E então, no fim do ano passado, apareceu uma coleção incompleta, mas com todos os volumes que eu queria em excelente estado e mais uns 15 de lambuja, pelos quais não me importaria em pagar.

Feliz Natal, Rafael.

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Anos atrás, falando dessa coleção aqui no blog, um post comparando-a à Coleção Vagalume gerou uma pequena polêmica, desnecessária. As pessoas ficam ofendidas quando você não liga para algo que lhes é importante, exigem um respeito indevido; se eu disser que Anitta é lixo, o que eu sinceramente acho, vai aparecer alguém para falar da minha estupidez, do meu preconceito, do meu elitismo, do meu mau gosto. Nada contra a Vagalume (li quase todos os publicados até o início dos anos 80, e alguns, como “Cabra das Rocas”, são excelentes), mas não dá para comparar Marcos Rey a Alexandre Dumas, mesmo aguado para crianças. Revendo a coleção, passando os olhos em todos eles para reencontrar palavras velhas conhecidas, essa certeza aumentou. Dei sorte de ler esses livros quando era criança. Se tem algo por que devo ser grato é pela chance de passar a infância em meio a essa coleção. A literatura moderna só existe por causa de livros como esses. O século XX viu se esgotarem as possibilidades do grande romance, e foi forçado a ir além, a lidar com outras formas de contar uma história, porque autores como Dickens, Dumas ou o Balzac que não está aqui contaram o que havia para ser contado. Proust, Mann levaram o romance adiante por falta de opção, porque livros como os livros desta coleção já tinham sido escritos. Posso apostar que Joyce só escreveu Finnegan’s Wake porque Cooper já tinha escrito “O Último dos Moicanos”.

Mas há um outro aspecto que me chama a atenção. Passar os olhos sobre essa coleção, se me traz de volta à infância, também mostra que vivo em outro tempo.

O fato é que, parcialmente graças a esses livros, boa parte os meus referenciais estiveram sempre no passado, e o faroeste sempre foi mais interessante para mim do que, por exemplo, ficção científica — mesmo os livros de Verne faziam parte do passado. Por isso não me interessei por “Aventuras de um Petroleiro”. A II Guerra Mundial ainda era muito recente, havia acabado menos de trinta e cinco anos antes; para que se tenha ideia, é menos tempo do que o que se passou desde que aquela caixa de livros chegou lá em casa. E este é um mundo totalmente diferente. Daqui a pouco se comemora o centenário da invasão da Polônia pela Alemanha. Veteranos da II Guerra, se ainda existem, não estarão vivos em quinze anos, e nenhuma informação nova poderá ser produzida, e a guerra que definiu o mundo em que cresci será algo que definitivamente ficará no passado, congelado para sempre. As bancas em que esses livros eram vendidos vivem hoje seus últimos dias, desaparecem uma a uma como lemingues se jogando de um penhasco.

***

Infelizmente os livros que comprei não têm mais o cheiro dos que minha avó me mandou mais de 40 anos atrás, e do qual ainda lembro. Mas reconheço cada um deles. Sempre soube de cor a ordem de cada livro, e há uma série de nomes, como Miécio Tati (que ainda hoje pronuncio Táti) Marques Rebelo, Carlos Heitor Cony, Herberto Salles, Paulo Mendes Campos, Virginia Lefèvre, até mesmo Orígenes Lessa, que conheci ali e que foram meus amigos de infância. Eram os responsáveis pelas adaptações. Alguns deles sabiam até onde ir em termos de supressão de informações — Miécio Tati, por exemplo, adaptou “O Conde de Monte Cristo” e retirou de maneira bastante sutil as referências à homossexualidade da filha de Danglars; Oswaldo Waddington julgou melhor não nos informar que Emily foi seduzida por Steerforth em “David Copperfield” e virou puta. Outros não: Herberto Salles omitiu a morte de Beth em “Mulherzinhas”, e não havia necessidade disso.

A internet me mostrou que não fui o único a ser profundamente influenciado por esses livros. Uma moça dedicou um blog inteiro a eles.  Dia desses o Sergio Leo, numa discussão no Facebook sobre o racismo de Monteiro Lobato (discussão para mim excessivamente adulta e acadêmica, porque tenho a impressão de que crianças hoje se interessam tanto por Monteiro Lobato quanto por Huckleberry Finn), falou da coleção. E um repórter da Globo, em suas aparições em casa durante a pandemia, ostentava orgulhosamente esses livros em lugar de destaque na sua estante.

Já vi internet afora gente lamentando que esses livros deveriam ser republicados. É bobagem. As pessoas já não se interessam por eles, eles dialogam com outro tipo de sensibilidade, e com outro tempo. A coleção, por exemplo, traz dois livros de Zane Grey, e não foram poucas as vezes em que, caindo de algum cavalo, me imaginei um Nevada ou um Ben Ide em dia de pouca sorte. Muitos dos seus livros de faroeste ainda estão no prelo nos EUA, mas eu realmente não compreendo que uma criança brasileira hoje tenha algum interesse nisso. Esse mundo não lhes pertence mais, eles seguiram adiante. Videogames, redes sociais e maratonas de séries na Netflix vêm antes de livros; e se os leem, garanto que preferem Harry Potter ou Percy Jackson a mosqueteiros seiscentistas usando talabartes e espadas.

Em algum momento, imaginei que deveria ter esses livros para que meus filhos os pudessem ler. Vã esperança. Como eu disse, eu não esperava que o mundo continuasse girando e as pessoas perdessem o interesse por coissa de duzentos, trezentos anos atrás. Quer dizer: ninguém, não. Só eu, bobo a ponto de comprar de novo aqueles livros que li na infância, apenas para poder passear pelas suas páginas, e reencontrar a infinidade de pedaços de texto que nunca esqueci.

A solidariedade do “trade”

Nos últimos dias andou circulando nas redes esse card com um apelo do trade turístico.

Sinto informar, mas eu quero é que se fodam.

Eu tinha uma viagem a Roma marcada para ontem. Há algumas semanas, quando a chapa por aquelas bandas começou a ficar realmente quente, liguei para a TAP tentando remarcar as passagens para novembro. Até podia, mas teria que pagar a diferença tarifária e taxa de remarcação. No fim das contas, as passagens sairiam pelo triplo do preço original. E se cancelasse não receberia nenhum tipo de reembolso porque, compradas em novembro do ano passado, elas tinham preço promocional.

Não adiantou argumentar que o adiamento era por uma questão de saúde pública, etc; eu estava por minha conta e o prejuízo, em qualquer caso, seria só meu.

Naquela hora não vi nenhum oferecimento de ajuda ao turismo, nenhum pedido de união e de solidariedade.

Eu desisti e já estava conformado em acionar a empresa na justiça. Só que a Terra é plana, mas dá voltas. Veio o lockdown italiano e a TAP se viu obrigada a cancelar todos os voos para a bota.

Na última semana, passei literalmente horas pendurado ao telefone esperando para resolver a questão do reembolso. Foram dezenas de ligações, que sempre caíam, às vezes depois de mais de uma hora ouvindo a muzak terrível deles, técnica que imagino feita justamente para fazer você desligar em desespero. Agradeço à boa alma que inventou o viva-voz, sem o qual eu não conseguiria passar por essa via crúcis. Só fui conseguir falar com eles ontem à noite, coincidentemente quase na hora em que deveria estar embarcando.

São essas companhias que vêm agora pedir solidariedade e ajuda. As mesmas que cobram pela sua bagagem enquanto mentem dizendo que vão baixar o preço da sua passagem. Que têm lucros bilionários e quando a coisa aperta correm atrás do dinheiro do Estado.

Que se fodam.

Ah, mas não é bem assim, dizem. Tem os pequenos, dizem. As agências de turismo, o receptivo, etc.

O problema é que aí a coisa é ainda pior.

É inacreditável que não percebam o quão canalha e irresponsável é esse apelo para que as pessoas viajem em um momento tão grave. Remarcar para quando, se ninguém sabe quando essa crise Walking Dead termina? Deixar o dinheiro com eles enquanto o governo autoriza empresas a reduzirem pela metade os salários de doentes?

O que eles estão pedindo é que você salve a pele deles, e que se danem a saúde e mesmo as vidas das outras pessoas. Inclusive a sua. Neste exato momento, centenas de pessoas estão presas em cruzeiros e quetais porque, sem tirar a responsabilidade desses idiotas — e daqueles que cederam às pressões embutidas no “nós não vamos devolver o dinheiro”—, essas empresas exerceram uma versão muito própria desse tipo de solidariedade, como sempre.

Eu importo pouco para eles porque não sou cliente de agências de turismo há muito tempo, desde que, para evitar trabalho e aproveitar a suposta expertise do pessoal, fui em uma e pedi para organizarem uma viagem. Me sugeriram hotel em Whitechapel com preço de Bloomsbury, além de uma série de penduricalhos que só serviam, obviamente, para aumentar a comissão da vendedora. Saí de lá com um “amanhã a gente compra” que, se funcionava para minha mãe, deve funcionar para mim também.

Afinal, que solidariedade é essa? Eu me pergunto quanto dessa solidariedade foi posta em prática antes. Comigo eu sei que não foi.

Me pergunto quanto dessa solidariedade é exercida no dia a dia. Quantos deles deixam de pegar Uber para pegar um táxi e ajudar um defensor que tem uma cota diária de dinheiro para entregar ao dono do táxi? Indo mais longe, quantos deles se juntaram aos funcionários públicos na defesa de suas aposentadorias? Quantos protestaram contra a reforma da Previdência? E é melhor não falar da reforma trabalhista, que sei que eles apoiam em sua quase totalidade.

Não, não. Eu não sou solidário a eles. Fodam-se e boa viagem.

Quando eu era top model

Naqueles dias o mercado publicitário brasileiro, fora de São Paulo, era sustentado pelo tripé varejo, governo e mercado imobiliário. Havia também um número ainda razoável de bancos locais, tanto privados quanto estaduais. Salvador, especificamente, também tinha nas indústrias de Aratu e Camaçari, como a Copene, alguns grandes anunciantes.

Eram tempos em que publicitários ganhavam bem e publicidade era bom negócio. Em que uma campanha se resolvia com um comercial de TV, um spot de rádio, um anúncio de jornal e um outdoor. As comissões de agência, muito generosas, possibilitavam uma lucratividade muito grande. Se na década seguinte a publicidade ganhou definitivamente glamour como profissão, isso se deve às condições econômicas que já estavam presentes naqueles tempos.

A partir dos anos 90 esse panorama foi se modificando. O varejo local foi paulatinamente engolido pela consolidação das grandes redes nacionais, a maioria com base no sudeste. Os bancos locais foram incorporados ou simplesmente extintos, principalmente durante a hecatombe do governo FHC. E o imobiliário se transformou numa sombra muito pálida do que era. Hoje, a lógica de comunicação desse mercado é bem diferente; além de novas exigências legais, quando um empreendimento chega à mídia é basicamente para desovar o que corretores já não venderam a investidores, é quase para vender o que sobrou.

Mas naqueles dias tudo era festa e Salvador não parava de crescer. Tinha redes de varejo como Paes Mendonça, Tio Correa, Fernandez, Ao Leão de Ouro, Ipê e Romelsa, tinha o Baneb e o Banco Econômico. E um mercado imobiliário absolutamente exuberante, em franco crescimento: entre 1960 e 1980 a cidade de Jorge Amado quase triplicou de tamanho, e isso exigia a construção incessante de novos edifícios, levantados rapidamente onde quer que houvesse um barranco vazio. A riqueza da cidade também possibilitava a criação de novos loteamentos, à medida que ela ia crescendo em direção ao norte — vamos falar a verdade, Salvador sempre quis ser Aracaju, sempre quis estar perto das terras do cacique Serigy. E aparentemente, a comunicação dos empreendimentos ficava a cargo das imobiliárias, que faziam lançamentos maciços na mídia. A campanha publicitária de um empreendimento podia ficar meses seguidos nos jornais. Salvador se especializou tanto nesse nicho que, na minha opinião, chegou a fazer publicidade imobiliária melhor que qualquer outro lugar do país.

Foi nessa época que virei top model.

Aqui e ali eu aparecia em uns comerciais, uns anúncios de jornal. Não lembro da maioria deles. Mas houve um que me fez eternamente solidário ao drama das modelos de hoje, aquelas que se entopem de cocaína para não engordar, que fazem da fome seu estado natural, tudo isso com um sorriso no rosto. Eu entendo a sua miséria e sei dos sofrimentos que elas passam.

Era uma tarde quente, provavelmente de dezembro — já lá se vão mais de quarenta anos — e um fotógrafo chegou lá em casa avisando que precisava tirar uma foto minha para um anúncio. Acho que era Dario, não tenho certeza. Eu estava na rua como em toda tarde, brincando com Jailton e Pedrinho, imundo como em todos os dias; devem ter me dado um banho, jogado uns panos quaisquer nos meus costados e me mandado seguir o meu destino de star.

A foto seria de um menino numa bicicleta. Não faço ideia de quem conseguiu uma Caloi 10, muito maior do que eu; talvez tenha sido Pedrinho, ou Dario já trazia uma no porta-malas do carro. Ele botou a mim e aos meus amigos lá dentro e fomos para o Morro do Cristo. A foto foi tirada ali, do lado da encosta, de frente para o mar.

Tirada a foto Dario pagou o meu cachê milionário — e, generoso, o estendeu também aos meus amigos que tinham se transformado, por alguns minutos, em seus assistentes: um sorvete na Bambinella, uma sorveteria na Marques de Leão que deixou de existir há muito tempo. O meu foi de tangerina.

Algumas semanas depois passei na agência e vi o anúncio sendo finalizado numa prancheta. Estranhei a demora, pensava que o anúncio já tinha sido veiculado havia tempos, mas aquilo não era da minha conta. Vi a minha foto no pé do anúncio, não era sequer a mais importante — se eu tivesse um agente provavelmente iria me queixar a ele da falta de respeito aos meus talentos. Mas o que me revoltou foi outra coisa.

A foto estava recortada. Todo o meu sofrimento tinha sido por nada. Porque aquilo que estava diante de mim, e que seria exibido para milhares de baianos desavisados, era o resultado de uma eternidade de terror e pânico, dos quais eu não fazia ideia quando aceitei tirar aquela foto.

Há alguns meses, depois de 40 anos, achei o anúncio. Foi difícil encontrá-lo porque eu não sabia exatamente quando tinha sido veiculado — na verdade eu só o veria naquela prancheta, na arte-final —, e nunca soube qual era o cliente. Lembrava apenas da foto, o horror, o horror, e da sua localização na parte inferior central do anúncio. Demorou, mas consegui achá-lo. Era o lançamento de um loteamento chamado Vila de Ogum, ali pelo que hoje é a Estrada do Coco.

Na fotografia sorri o autor destas maltraçadas, confiante e despreocupado, o bom menino de classe média baiana, branco, louro, cabelo de cuia cortadinho em Severiano mas já grande. A camisa tinha listras verdes e brancas. Quarenta anos depois, ela me faz a gentileza de permitir que eu tenha orgulho de uma memória que conseguiu sobreviver aos anos e às noites e às cachaças. Mas também mostra que essa mesma memória é caprichosa e traidora: eu lembrava da imagem como se eu estivesse de frente, encarando o fotógrafo, pura e simplesmente, mais ou menos como a marca da Caloi na época. Mas nela se vê o trabalho de um grande fotógrafo, e não era à toa que Dario era considerado dos melhores da Bahia. Não é só o olhar para o lado, o torso suavemente curvado, as pernas dobradas dando movimento e graça à imagem. É o fato de que, olhando para ela hoje, eu quase esqueço que estava apavorado, com medo de morrer. E quem a vê não percebe um detalhe simples, que passa quase despercebido: minhas mãos apertam desesperada, sôfrega, avidamente os freios da bicicleta.

Tudo ainda está muito claro na minha memória. Dario me colocou na bicicleta, grande demais para mim e na qual eu não conseguia alcançar o chão. Jailton e Pedrinho ficaram segurando a bicicleta por sua roda traseira, abaixados. Mas para mim isso não significava nada.

Porque eu tinha certeza de que se soltasse os freios meus amigos não aguentariam, e a bicicleta deslizaria descontrolada até as pedras tantos metros abaixo, e lá iria eu me espatifar junto com as ondas, e seria ali que eu encontraria o meu fim, levado para Janaína para nunca mais ser encontrado, tudo isso abençoado pelo Cristo que abria os braços canalhas sobre mim, indiferente ao meu terror.

E mesmo assim, mesmo com o pânico que sentia naquele momento, apesar das minhas mãos apertando os freios da bicicleta com ânsia e desespero, eu mantinha um sorriso profissional no rosto.

Não é para todo mundo.

Agora a foto aparecia recortada, nada do Cristo ao fundo. Calado, xinguei Dario, xinguei o autor do anúncio, xinguei meus amigos que se prestaram a colaborar com aquele plano macabro de assassinato, xinguei a hora danada em que eu tinha aceitado fazer aquela foto.

Então tinha sido para aquilo que eu passei por minutos de terror que pareceram durar séculos? Eu sabia que uma foto daquelas podia ser tirada num estúdio, sem problemas, daqueles com paredes brancas e cantos arredondados que eu ainda não sabia chamar-se fundo infinito. Podia tirar a foto em qualquer lugar, não precisava nem ter saído da rua onde eu brincava.

Hoje imagino que provavelmente o layout original foi rejeitado, que o cliente exigiu uma foto do empreendimento ou algo assim, e aquela imagem do menino de bicicleta para quem o Cristo abria os braços e dava de ombros precisou ser mutilada. Ou o diretor de arte, ignorante quanto ao meu padecimento, simplesmente mudou de ideia. Talvez até o anúncio em que ela deveria sair tenha sido rejeitado, e a foto foi reaproveitada em outra peça. Uso esses pensamentos para tentar me consolar pelos momentos de terror que vivi ali. Ajuda um pouco, mas não resolve.

Porque nada, muito menos um sorvete de tangerina, seria capaz de pagar aqueles minutos de terror. Quarenta anos depois, o anúncio foi esquecido, a agência desapareceu, a propaganda deixou de ser o que era, até mesmo eu fui embora de Salvador. Mas jamais esqueci o medo que senti enquanto vivia as agruras de ser top model.

O Natal de 1980

No Natal de 1980 eu não ia ganhar nenhum presente.

Minha mãe nos avisou. A coisa está complicada, ela me disse. Não vai dar para comprar presentes para vocês. Eu entendi. Eram cinco filhos, e pelo visto daquela vez não seria possível dar presentes. Tudo bem.

Eu sempre tinha recebido presentes interessantes no Natal. A verdade é que estava acostumado a ganhar o tipo de presente, em qualquer momento do ano, que outras famílias só trocavam no Natal, no máximo no Dia das Crianças e em aniversários. E por isso, o Natal era reservado para presentes bem mais caros, aqueles que você passava o ano desejando.

Devia ser uma seis da tarde, um pouco mais que isso, quando minha mãe chegou afobada em casa, carregando um saco grande de plástico, desses usados para colocar lixo. Dentro dele uma porção de brinquedos. Eram todos brinquedos muito baratos, o tipo que não costumávamos ganhar, ainda menos em datas especiais. Porque Natal, aniversário, Dia das Crianças, todos esses dias mereciam presentes mais caros, mamãe fazia o possível para nos dar o que pedíamos.

O meu foi uma lancha de plástico amarela. Não uma lancha chique, com motor ou plástico de qualidade ou cheia de detalhes: uma lancha simples, sem absolutamente nada, plástico e uns adesivos de papel, apenas. O tipo de presente que se compraria mais tarde em lojas de 1,99, em dollar stores.

Foi o presente mais vagabundo que eu ganhei em qualquer Natal. Foi o melhor presente que eu ganhei em qualquer Natal. Aquilo tornou aquele Natal pungente, doce, inesquecível. Ainda que não tivéssemos tantas provas da sua dedicação a todos nós, naquele momento nós saberíamos.

Por uma dessas estranhezas da vida, não lembro bem dos presentes que ganhei ao longo daqueles anos. Lembro mais dos que não ganhei: o Panzer, o Stratus, o Ar-Tur, porque minha mãe não gostava de brinquedos desse tipo, controlados por controle remoto. Mas sei que no Natal de 1980 eu ganhei uma lancha de plástico amarelo.

Antes e depois ganhei presentes muito mais caros. Nunca mais ganharia de Natal um presente tão simples, tão barato, tão vagabundo. Mas também nunca mais ganharia um presente tão maravilhoso, tão carregado de amor e esforço quanto aquela lancha de plástico amarelo.

Aqueles presentes tiveram um significado muito maior que qualquer outro depois. Porque percebi imediatamente que era o resultado de um esforço grande. Aquilo era tudo o que ela podia nos dar; talvez fosse até mais do que era possível. Estávamos todos conformados com o fato de não ganhar presentes; e mesmo assim ela fez um esforço grande para evitar que seus filhos não ganhassem nada. Aqueles presentes foram uma surpresa. Eu sabia que os tempos eram difíceis.

Mais tarde, depois da ceia, assisti a uma adaptação de “Romeu e Julieta” na TV Aratu, estrelada por Fábio Júnior e Lucélia Santos. Jamais esqueceria da cena em que Romeu, num porão pedregoso de uma igreja, acreditando que sua Julieta tinha morrido, se oferece a um escorpião: “Vem, bicho nojento.” Quase quatro décadas depois pude rever essa cena no YouTube, e me impressiona ver como eu lembrava perfeitamente dela.

Esse é o Natal de 1980: Shakespeare e uma lancha de plástico amarelo. É também a salada de frutas na mesma bandeja inox que um ano antes, em tempos de fartura absoluta, em tempos de seis empregados em casa, tinha presenciado um Natal tão farto, mas do qual não lembro que presente ganhei.

Vieram outros presentes depois. De alguns ainda lembro, a maioria se perdeu na minha memória. Depois disso, uns poucos Natais permanecem: o primeiro Natal da minha filha, o Natal em que passei doente. Mas em nenhum deles minha mãe chegou com um saco plástico, trazendo dentro dele o melhor presente que eu recebi em minha vida.

Dia desses, uma moça encontrou minha irmã e falou da gratidão que sente em relação à minha mãe: ela era doméstica num apartamento vizinho, ficou doente, e mamãe a colocou lá em casa e garantiu que ela melhorasse. Eu não lembro disso, e minha mãe também não. Mas essa moça lembra, e isso é o bastante. Do que lembro é do Natal em que ganhei uma lancha de plástico amarelo, e decidi que aquele era o melhor presente que eu ganhei em toda a minha vida. Porque tem gente que é filho de gente boa, e tem gente que é filho de gigantes. Eu tenho essa sorte.

Bruna Lombardi

Fiquei velho.

E cheguei à conclusão de que a única certeza na vida é a Bruna Lombardi.

Uns tempos atrás — mentira; isso foi há oito anos, mas o tempo para mim não passa mais como passava antigamente, o passado não tem mais meio-termo: ou foi ontem ou foi há muito tempo, o passado agora pode ser o que eu quiser, como quiser — passei uma noite vendo as novelas da Globo, depois de uns dez anos sem sequer ter TV aberta em casa. Tomei um susto porque não conhecia os atores novos, e os que conhecia d’antanho, outros tempos de dois canais que entravam no ar às nove da manhã, esses estavam velhos, velhinhos cujo ápice tinha passado. E se o tempo tinha passado para eles, provavelmente tinha passado para mim, também.

Aquilo me lembrou que à medida que meus dias neste vale de lágrimas vão encurtando, o meu passado se torna mais longo que meu futuro. É uma sensação estranha.

Deve ser a idade; mas chega o momento em que a gente precisa admitir que tem menos tempo pela frente do que para trás, que os anos já vividos são mais numerosos do que os que ainda se vai viver. Percebi isso quando entendi que a maneira como eu contava o tempo tinha mudado.

Resumindo, isso foi em 2010. Foi quando percebi que 1990 tinha sido vinte anos atrás.

Antes disso, à medida que os anos passavam eu vinha me acostumando aos poucos, de maneira indolor, a números cada vez mais inflacionados. Ainda lembrava de quando 1977 tinha sido “o ano retrasado” — lembrava do momento exato em que me assustei ao perceber isso, numa manhã chuvosa na rua John Kennedy, na Barra (em frente ao bar do Chico que ainda está lá, com o mesmo cheiro único), e sabia que essa tinha sido a primeira vez em que me apercebi que o tempo, afinal, era e não era relativo. Mas enquanto 1977 tinha sido há cinco, dez, trinta anos, estava tudo bem, o mundo continuava o mesmo. Porque quando eu lembrava disso, lembrava de um momento em que ainda era criança, e havia uma diferença muito grande entre o adulto assustado com o tempo que tinha passado e aquele menino perambulando pela Vila Velha do Pereira.

Essa diferença permitia que aquele momento se congelasse para sempre, enquanto permitia uma elasticidade e conforto na percepção do tempo que outros dias não permitiriam. Porque enquanto o tempo passava eu mudava, aos poucos mas com constância, e isso criava um universo de distância entre um adulto e uma criança, algo que os separa e os torna independentes, uma ruptura que, paradoxalmente, estabilizava as coisas. É um universo que pode ser de dois, cinco, vinte, cinquenta anos; não faz diferença, porque são pessoas diferentes. Em 1987, em 1997 ou em 2007, 1977 continuava no mesmo lugar e eu era outra pessoa.

Ao mesmo tempo, enquanto 1990 era o ano retrasado, ele continuava próximo, e o tempo não tinha passado para mim. (As pessoas reclamam que o tempo está passando mais rápido. A verdade é que a memória tende a fixar apenas o que é novo; e o ser humano não lembra das coisas — lembra na verdade da última vez que lembrou das coisas, e por isso as memórias tendem a mudar com o tempo. Por isso, quando se tem oito anos, seis meses duram uma eternidade; é tudo novo e a mente tem que processar muita coisa. Mas quando ficamos adultos, e como há pouca coisa realmente nova entre o que acontece, a memória tende a processar apenas o inédito e o tempo parece mais curto.)

Mas quando 1990 se tornou vinte anos atrás, passei a lembrar de um Rafael adulto, ou quase. Era o Rafael de então, o mesmo de hoje; o Rafael que estava se tornando Rafael Galvão porque começava a ganhar a vida escrevendo e tinha que assinar com um nome diferente do nome do pai. Era o mesmo Rafael, só que vinte anos mais velho.

Há uma infinidade de experiências e percepções novas que constroem um abismo quase intransponível entre o Rafael de 1977 e o de 1990; mas quase nenhuma entre o de 1990 e o de 2017. Há experiências novas, sim; mas o que importa é a maneira como você reage a elas, e essa maneira já não muda.

Aparentemente, o mundo em que vivo é o mesmo em que vivi nos anos 70, nos 80, nos 90 ou no início deste milênio, quero crer. Internet, satélite, celular, saco plástico no supermercado, freio ABS e um bocado de eletrônica no carro? Isso não é nada. Balangandãs, só. Uma roupa diferente, o rayon que era moda e depois virou brega, os jeans verdes e as camisas verde-limão no intervalo, dos quais ficou apenas o orgulho por não tê-los usado. Balangandãs, bugigangas do tempo.

Mas ao mesmo tempo, tanta coisa ficou para trás, tanta coisa mudou. À medida que o tempo passa, entendo que lembro de tempos diferentes, que garotos de hoje não conseguem entender. De tempos piores e melhores, tempos em que as pessoas tinham aprendido a se comportar com medo do que os generais iriam dizer, mas também tempos em que as pessoas não se irritavam porque não conseguiam lhe encontrar ao celular. Tempos em que era educado oferecer um cigarro antes de fumar, de cinzeiros na mesa de trabalho, tempos de ler o jornal e ficar com as mãos sujas de tinta. Esses meninos, a quem o mundo vai jogar o fardo de lhe carregar, não podem ver a queda do muro de Berlim, não sabem o que foi o dia 15 de novembro de 1989, não viram a Challenger explodir a professorinha, não puderam acompanhar as mudanças que eu vi, não entendem o meu mundo. Não podem entender, e para eles o impeachment de Collor é tão distante quanto o suicídio de Vargas era para mim. A eles o mundo que para mim ainda está em construção lhes foi dado de porteira fechada.

Muita gente enfrenta isso dizendo que “minha infância foi melhor que a sua”, tentando disfarçar o fato singelo de que estão ficando obsoletos, de que a pele se torna mais flácida, de que as carnes despregam dos ossos, de que os cabelos cada vez mais brancos rareiam, e de que sua infância foi apenas a que ele pôde ter, assim como a de hoje é somente a infância possível a esses meninos. Mas não há enfrentamento possível. O tempo passa, você está mais perto da morte, e ela virá — embora eu insista que, ao menos no meu caso, isso não é garantido; embora às vezes desconfie de que há uma boa probabilidade de algo tão deselegante acontecer a mim, uma probabilidade talvez tão grande quanto a de eu, que não jogo, ganhar na Mega Sena.

O mais fascinante em tudo isso é que a mesma tecnologia que ressalta essas diferenças é a mesma que torna a velhice mais complexa.

40 anos atrás, o passado só existia na sua memória. Às vezes existia também na memória de um amigo com quem você conversasse eventualmente sobre os bons velhos tempos, lembra disso, lembra daquilo? Fulano, o que foi feito de fulano? O passado estava no seu lugar, agradavelmente distante mas guardado à sua disposição, e era tão pouco diante do presente, às vezes do futuro.

Mas então veio a internet e a humanidade passou a poder compartilhar com os outros as suas próprias lembranças, algo que jamais deveria ter sido permitido, como jamais deveriam ter aberto a caixa de Pandora. Para algumas pessoas, a principal mudança que a tecnologia trouxe não foi o futuro: foi o passado. Não é o YouTube que vejo na minha TV, e transforma a televisão em algo assíncrono, que faz essa mudança: são os programas que encontro nele, programas que vi há 40 anos e que agora posso ver de novo, iguais ao que eram e diferentes do que eu lembro. É essa onipresença de um passado que se recria diante de mim, essa subversão da passagem do tempo que incomoda e reforça essa sensação.

A chegada do que devia ser o futuro, seu rebaixamento a presente, fez com que o passado mudasse, e por isso ninguém esperava. Às vezes pode-se ter a impressão de que as pessoas mudaram. Gente que nos anos 80 conseguiu a proeza de programar seu videocassete para gravar um filme na TV hoje compartilha não os filmes, mas os comerciais que os mutilavam, porque são eles que se tornaram raros. Tudo isso em um espaço de tempo que, do ponto de vista histórico, é menor que um átimo.

O passado faz escândalo diante de você, o seriado que você viu há 40 anos está no YouTube, no Mercado Livre alguém tenta vender a coleção de revistinhas que você leu aos sete anos, a edição exata do livro que lhe deu uma nova visão de mundo. E tudo isso adquire uma grandiosidade ainda maior porque esteve ausente da sua vida durante tantas décadas, que é como as coisas devem ser. O passado deveria ficar lá, no passado, recriado apenas no momento em que você quer recriá-lo, da maneira como você quer recriá-lo; e não jogado na sua cara, com a objetividade estúpida da gravação magnética, agora digital.

Rever agora um dos primeiros episódios do Sítio do Picapau Amarelo, que você viu há exatos 41 anos, quando você ainda nem era você, é uma experiência perturbadora. Porque a cena que você lembrava de um jeito na verdade ocorreu de outro, a câmera estava à direita, não à esquerda de Pedrinho. Tudo isso lhe tira o conforto de ter o seu passado do seu jeito; agora, nem o seu passado você pode ter. E do futuro, se o presente lhe foi generoso e lhe ensinou alguma coisa, você nunca foi dono.

Mas ao mesmo tempo o resto está lá, imutável; a mesma música, os mesmos rostos, as mesmas vozes. Há uma familiaridade inevitável e irrecuperável nesse reencontro, e ele transforma o não em sim, o sim em não, e ambos são reais e não deveria ser assim.

Porque tudo isso ajuda a romper o fluxo normal do tempo, a maneira como ele seguiu durante tantos anos, anos que você viu passar. Mas o tempo não é o verdadeiro criminoso: esse é você, a maneira como você o enfrentou ou se abandonou a ele, a maneira como os significados mudaram quando você se tornou menos do que sonhava em ser.

Por isso olhar para Bruna Lombardi me acalenta e me dá a sensação ilusória de que não, o tempo não está passando, é tudo a mesma coisa. Olhar para uma mulher que é bela em 2017 como era em 1977 dá uma sensação de permanência que poucas outras coisas em todo mundo podem dar. E sua visão oferece um aconchego que o mundo tende a lhe negar, às vezes com violência, às vezes com a delicadeza cínica e hipócrita devida aos velhos e anciães.

É quase como se 40 anos não se tivessem passado para Bruna Lombardi. Ela é a casa antiga da sua rua que ainda não foi demolida. Os mesmos 40 anos que passaram para você, e deixaram cicatrizes, quando maus; aprendizados, quando justos; saudades, quando bons.

E isso lhe dá a impressão falsa, que você traduz em esperança, de que o mundo ainda é o mesmo. Que essencialmente a beleza do mundo é a mesma beleza, e você é a mesma pessoa, ou pelo menos pensa que é, e isso é suficiente, tem que ser suficiente, precisa ser suficiente.

Duas palavrinhas para o Serge

O Serge postou um comentário sobre o lamentável histórico deste blog, e em vez de comentar o comentário achei que ele merecia uma resposta mais elaborada. Obviamente, como qualquer post neste blog de um preguiçoso, isso fez com que ela demorasse muito mais para ser escrita do que devia. São os percalços da vida.

O comentário do Serge me lembrou de outros tempos, um período que era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os diarinhos, mais ou menos nos moldes de boa parte do Facebook de hoje, estavam dando lugar a abordagens mais complexas. Aos blogs do Hermenauta, do Alex, do Marcus, do Doni, do Idelber, do Milton, do Bia, do Ina, condomínios como o Verbeat, o Interney e O Pensador Solitário — um bocado de gente que tinha o que dizer e tentava fazê-lo de forma razoavelmente elaborada. Acho que ali se criou ao menos o embrião de uma comunidade heterogênea e eventualmente conflituosa, mas empolgante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, engraçada e séria. Fiz alguns amigos para sempre. Mas, principalmente, ri muito.

Com o tempo, a maioria de nós cansou de escrever potoca e foi arranjar coisa melhor para fazer na vida. Virtualmente todos os blogs que compartilhavam o mesmo ecossistema deste desapareceram. A profissionalização da plataforma também fez com que a maior parte dos blogs se tornasse cada vez mais redundante. O fato é que há um bocado de gente falando de coisas com mais propriedade do que eu — menos Beatles, claro, mas tem gente boa o suficiente para me fazer pensar duas vezes antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto (o melhor blog do mundo sobre os Fab Four, a propósito, é este aqui: A Moral to This Song). Mas acho que esses tempos passaram, mesmo, porque as tecnologias mudaram. Twitter e Facebook suplantaram os blogs.

Isso não é uma confissão de ludismo; porque reclamar disso é como o dono de cinema que reclama da Netflix, e porque embora use hoje muito pouco, já houve um tempo em que eu estava quase viciado naquela miséria. Mas não dá para negar que o Facebook tornou os blogs obsoletos. Blogs como este aqui — essencialmente ensaísticos, sem escopo definido, basicamente conversa jogada fora, uma espécie de bar virtual — foram perdendo o sentido, até porque Facebook e Twitter são muito mais eficientes nesse aspecto.

É por isso que a maior parte daquelas pessoas que escreviam blogs pode ser encontrada hoje no Facebook; mas num fenômeno curioso, poucas, pouquíssimas escrevendo algo remotamente bom quanto seus blogs d’antanho.

Acho que funciona assim: o sujeito pensa em algo sobre o que gostaria de escrever. Nos tempos do blog ele escreveria um texto mais longo e mais pensado. Hoje ele simplesmente joga imediatamente no Facebook ou no Twitter uma ideia concisa, excessivamente simplificada do que gostaria de dizer. E daí não há mais motivo para escrever.

A impressão que tenho é que o que se escreve no Facebook são essencialmente comentários que buscam o simplismo, links para alguma coisa, autopromoção descarada, essas coisas. Parece haver uma busca pela frase definitiva, o aforismo “lacrador” que vai ser compartilhado mais vezes, o que por si só condiciona qualquer debate a pouco mais que uma batalha de slogans. Posts — hoje chamados “textões”, o que já indica a má vontade com que são vistos — nem são raros, mas sofrem de um mal inevitável: estão soterrados em uma imensidão de outros textões e textinhos. Não têm a dignidade que sua posição de destaque em um blog lhe dava. Mais que isso, o grande problema é que ao mesmo tempo outras 10, 20 pessoas estão escrevendo essencialmente a mesma coisa, com maior ou menor grau de raiva.

Eu não tenho muitas dúvidas de que o Facebook é um dos responsáveis pelo estado psicológico atual do mundo, pelo aumento da ansiedade, da irritação, da intolerância: para o bem ou para o mal, uma certa hierarquia de vozes se perdeu, e o resultado, ao menos por enquanto, é um mal-estar generalizado, um recrudescimento de confrontos que eram apenas latentes ou estavam disfarçados.

Mas o pior, mesmo, é que ele acabou com os blogs.

Este blog mesmo “acabou” em 2010, e não pode culpar as redes sociais; tinha virado uma obrigação que passava a me incomodar, porque já não fazia tanto sentido. O fato de saber que há leitores exerce uma influência que pode ser positiva ou deletéria, porque por mais que a gente negue isso lhe obriga a escrever, de certa forma, e é positiva quando você está com vontade e deletéria quando o saco está cheio. Além disso, depois de quase dois mil posts é meio difícil achar algo que lhe interesse e que você não tenha escrito. Os comentários razoavelmente despretensiosos sobre quaisquer bobagens que eu fazia aqui no começo começaram a parecer insuficientes, à medida que gente que se levava mais a sério, com mais gana, começou a escrever o que eu teria escrito.

Finalmente, a “facebookização” do debate, o crescimento do processo de “guetização” impulsionado pela ascensão desses movimentos identitários de todos os tipos, quase invariavelmente infantilizados, ajuda. Dia desses teve uma passeata da mulher negra. Uma moça disse que, se você não fosse negra, que ficasse em casa. Tem discussão possível nesse caso? Eu não tenho tempo nem estômago para esse tipo de debate. Na verdade, não tenho mais para quase nenhum, nem os bons. Os tempos em que eu me divertia com as pseudo-feministas passaram.

Mas a verdade é que, depois de tantos anos, ele tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho (ou pelo menos até eu morrer, se é que vou morrer um dia, e deixar de reservar o domínio); às vezes com um texto, às vezes não. Não acho que precise de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom; a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de minha história.

De volta aos manuais Disney

Eu sabia que não ia resistir quando vi o anúncio do relançamento do Manual do Escoteiro Mirim pela Abril, no ano passado. Sabia que ia comprar, porque esse foi um daqueles livros inesquecíveis da infância.

Em primeiro lugar um choque: descobri que minha vida era uma fraude, sempre foi uma fraude, eu vivi os últimos 40 anos numa grande ilusão. O Manual do Escoteiro Mirim que tive era a terceira edição, disso eu sempre soube; o que não sabia é que, para a Abril, uma nova edição significa relançar coisa velha mas mutilada, com várias páginas a menos. O manual relançado agora, em capa dura e papel reciclado (o meu era uma brochura com capa em couchê casca de ovo), tinha mais matérias que o que li e reli até que suas páginas se desfizessem. Ainda pior que algumas das matérias omitidas dissessem respeito ao mar, à navegação e a piratas.

Aquela foi a primeira vez que a editora Abril, aquela que mais tarde ajudaria a destruir o jornalismo brasileiro com uma certa revista semanal de informação que ela alega ser a quarta maior do mundo, passou a perna em mim. Passaria mais vezes depois, mas eu sou mulher de malandro, não tenho vergonha na cara. E como toda mulher de malandro, esperando Madalena voltar do mar, nem espero ela chorar o meu perdão, vou esquentar seu prato e abro meus braços para ela.

Por isso eu rezo em segredo para que, quando relançarem o Manual do Zé Carioca, que seja a 2ª edição, editada em 1978 para aproveitar a Copa da Argentina. Foi essa a que tive. E, sinceramente, não preciso descobrir agora, depois de velho e com o fígado bambeando, que o manual original de 74 tinha mais matérias do que as que li.

Além disso, são fac-símiles ma non troppo. As lombadas, que eram abauladas, agora são retas, e o papel (com exceção do papel agora reciclado do Manual do Escoteiro Mirim, um desdobramento quase lógico) é de melhor qualidade. A capa do Magirama, antes texturizada e fosca, agora é lisa e brilhante. Atividades que foram descritas normalmente agora trazem notas de rodapé informando aos retardadinhos que eles precisam da supervisão de um adulto — foi nisso que deu a evolução? Vocês se tornaram incapazes de fazer coisas que seus pais e avós faziam tranquilamente? —, e uma receita que levava álcool foi modificada. Os manuais precisaram ser adaptados a um mundo mais complexo.

À parte minha revolta com as práticas da editora, a verdade é que continuo achando que aqueles manuais eram pequenas enciclopédias fantásticas. Ainda lembro do impacto que o Manual do Escoteiro Mirim — mesmo com tantas páginas omitidas canalhamente pela editora — causou em mim, menino de cidade que, de repente, aprendia como andar no mato, identificar pegadas, escalar árvores e ler mapas.

Por isso eu sabia que ia comprar o danado do manual.

O que eu não sabia é que iria comprar cada um dos que seriam relançados em sua esteira; mas devia saber, porque meu respeito profundo a esses manuais está documentado neste post; e isso vale mesmo para aqueles que não me dizem nada porque não os tive, como o Manual do Tio Patinhas, do Professor Pardal ou do Mickey. Além desses, três manuais que tive e que foram importantes, o do Peninha sobre jornalismo, o Magirama sobre mágicas e truques de salão e o da Vovó Donalda sobre culinária (isso antes dessas coisas gourmet tão na moda, quando cozinhar era basicamente garantir comida decente na mesa, e não sobrevalorizar o medíocre como parece ser a norma hoje), mereciam um olhar saudoso. Agora, para mim, só falta relançarem três outros manuais: o do Zé Carioca sobre futebol, o dos Jogos Olímpicos sobre Olimpíadas com o Pateta, e o da Televisão, sobre, bem, televisão. O Autorama eu tenho, comprei num sebo uns 10 anos atrás para repor aquele que havia comprado em 1978 mas que me roubaram logo depois — fui passar férias em Aracaju e quando voltei o danado não estava lá. Vai ver é por isso que nunca liguei muito para carros: não deu tempo de reler o manual várias vezes.

De qualquer forma, até agora esse era um respeito, digamos, retrospectivo, quase um passar de mão condescendente na cabeça da criança que fui tantas décadas atrás. Porque o ponto de partida de qualquer julgamento que eu pudesse fazer era o quanto foram importantes para mim, e só por isso podia haver certa dúvida. Talvez eles não fossem tão bons assim, talvez fosse a minha memória cumprindo o seu papel de edulcorar o passado, o único papel decente que a memória pode ter.

Por isso, em primeiro lugar reler esses manuais é um reencontro com deslumbramentos antigos. O mais agradável não é tanto ler aquilo de que eu lembrava: a verdade é que nada supera a sensação de rever um texto ou uma ilustração de que eu já tinha esquecido, porque isso revive, ainda que por um átimo, o que senti naquele momento.

Mas é lendo os manuais que não tive, como o do Mickey e o do Pardal, que minha admiração por eles cresce. Os manuais mostravam de maneira simples, fácil, como era o mundo que me aguardava. Ofereciam um mundo diverso de informações, selecionadas com critério e uma seriedade que, vendo com a distância de mais de quatro décadas, me impressionam. Por exemplo, essa previsão no Manual do Pardal, de 1973:

Em futuro próximo, o aparelho de TV poderá estar ligado uma grande loja de cassetes. A pessoa então escolherá, entre milhares de títulos, simplesmente discando um determinado num teledial. A videofita escolhida aparecerá na tela, dentro de casa, e a conta virá no fim do mês, junto com a do gás ou da luz

35 anos antes, o Manual do Pardal descreveu a Netflix.

Claro, nada disso era exatamente algo do outro mundo. Não passava muito da simplificação de ideias até velhas entre estudiosos e futurólogos, nada que uma revista tipo a Popular Mechanics não previsse uns 20 anos antes. Mas só o fato de transmitir essa informação para crianças, de maneira perfeitamente compreensível, era algo fantástico. Milhares de bacuris brasileiros passaram a entender melhor o mundo em que viviam, as coisas que nos rodeavam, e acima de tudo as possibilidades que nos eram oferecidas.

Os manuais significam também uma consciência melancólica de que o seu tempo passou. Alguém poderia se perguntar por que, em vez de editar material novo para as crianças de hoje, a Abril prefere reimprimir material de quase meio século atrás, mirando no público de anciães como eu, que buscam um passado que já se foi há mais tempo do que gostariam de admitir. Deve haver uma razão para isso. E eu acho que ela é simples: porque as crianças deste século — que um dia achei que usariam roupas prateadas enquanto veraneavam em Marte — provavelmente não se interessariam por isso, porque não há mais necessidade desses “digests” da informação que encontram com abundância na internet.

Isso não é ruim. Mas tampouco é bom. Mais do que ninguém, eu sei que brigar com a evolução é perda de tempo. O que não me impede de sentir uma certa melancolia por isso.

Atavismo

Acabei de achar uma tese de doutorado que cita uma carta, de 1879, em que a Condessa de Barral conta os progressos do meu trisavô ao avô dele. “A carta é destinada a um amigo da Província de Sergipe, no norte do Brasil, e trata do ‘jovem V. Galvão’, que, sob os cuidados da escrevente, estuda em um internato francês”

Considerando que a Condessa de Barral era amante de D. Pedro II, e levando-se em consideração a proximidade dela com o jovem Valois Galvão, a conclusão é lógica e esperada, quase óbvia para quem conhece a história passada, e graças a Deus superada e esquecida, dessa família: esses Galvão sempre foram chegados numa quenga.