1001 seriados para ver antes de morrer

Por dez reais eu compro até livro de autoajuda, tipo “Foco Quântico e Seja Grande” do coach Benjamin Arrola, autor célebre que na virada do ano fez muito sucesso nas frentes de quartéis e entre lutadores de MMA que levaram pancada demais na cabeça.

Em vez disso, comprei há algum tempo, num desses saldões da Amazon, “1001 Séries para Assistir Antes de Morrer”, editado pela Sextante e com o qual, imagino e espero, a editora teve prejuízo significativo. Anos atrás ganhei “501 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, que não é ruim, e achei que esse podia valer alguma coisa. Triste engano.

É um calhamaço de 960 páginas em couché fosco, com muitas fotos, muito pesado e difícil de manusear. O título é enganoso. Não são apenas o que entendemos por séries, ou seriados. Há programas de auditório, game shows, telenovelas, programas de esquetes humorísticos, reality shows. Título melhor seria “1001 TV Shows”, tradução adequada seria “programas de TV”. Foi um livro caro de fazer, mas pelo visto isso não sensibilizou ninguém e ele terminou na pilha de encalhes, de onde o resgatei como meninas bobinhas resgatam gatos.

O prejuízo é merecido porque, para começar, não existem 1001 séries de TV que merecem mesmo ser vistos. Seriados são longos demais. Assistir a “Bonanza” inteiro, por exemplo, demandaria mais de 400 horas da vida de uma criatura, que poderia fazer coisas melhores com esse tempo — uma trepanação, por exemplo, ou uma cirurgia de vesícula. É o tipo de livro que só pode existir nestes tempos de fartura excessiva: informação apenas curiosa, análise pífia e uma vocação contemporânea para criar um tipo estranho de ansiedade inútil: você precisa ver isso, você precisa fazer aquilo.

Sendo generoso de verdade, há uns 20 ou 30 seriados que fizeram a TV avançar, como I Love Lucy ou The Sopranos, e unss outras 50 que são tão bons que merecem ser realmente vistos mesmo agora. O resto é lixo para gastar tinta em gráfica.

Além disso, esse livro chinfrim não inclui “Daniel Boone”. Eu até entenderia se ele tratasse dos dez melhores seriados, até 100. Mas quebrar a cabeça para arranjar mil programas de TV que possam ser recomendados por alguma coisa e não incluir um seriado inesquecível, que durou seis temporadas, só pode ser pirraça. (Sim, é implicância pessoal. Ninguém mexe com meus amores. Danem-se, editores canalhas.)

Mas mesmo descontando tudo isso, até a minha ranhetice, este é um livro realmente ruim. É essencialmente um apanhado cronológico de programas de TV americanos e ingleses, com alguns franceses e um ou outro de outras nacionalidades para ajudar o livro a ser vendido nesses países. Parece não haver um critério mais rígido nem uma correta hierarquia de importância de séries, mas é só impressão: essa diferença existe, só que se dá no uso de fotos maiores. Os textos têm basicamente o mesmo tamanho. Um seriado de segunda ou um sucesso absoluto às vezes têm quase o mesmo peso.

O Brasil está presente com “Sua Vida Me Pertence”, a primeira telenovela brasileira. Esse é talvez o indício mais gritante da estupidez que envolve todo esse livro. Quem a incluiu não sabe do que está falando: procurou o nome numa enciclopédia qualquer e a colocou no livro porque, bem ou mal, é um marco histórico. Mas o fato é que ninguém viu essa novela de 1951 — no máximo uns poucos milhares de paulistas, que se ainda vivos já passaram dos 80 anos. Pior, ninguém pode assistir a ela porque a novela não existe. É do tempo da TV ao vivo.

Sinto ser eu a lhe dizer isso, mas você vai morrer sem ver “Sua Vida Me Pertence”, e sua vida terá sido incompleta e insatisfatória, e não valeu nada, que vida inútil você levou. Triste e ingrato fim, o seu e o meu e o de todo mundo.

Mas posso lhe oferecer um pequeno consolo.

Se escrevi acima que espero que a editora tenha tido um bom prejuízo com esse livro, é porque a preguiça merece ser recompensada com o opróbrio e o encalhe. Fossem menos preguiçosos e tirariam aquele amontoado de seriados ingleses de que jamais ouvimos falar e colocavam algumas das grandes produções brasileiras.

A TV nacional sempre foi melhor que o nosso cinema, e se me perdoam a pachequice, melhor que a maioria das TVs do mundo. Programas como “Chico City”, novelas como “Roque Santeiro”, seriados como “Carga Pesada” ou “Malu Mulher” ou “Sítio do Picapau Amarelo”, minisséries como “Anos Dourados”, “Hoje é Dia de Maria” poderiam substituir grande parte dos seriados obscuros, nunca exibidos no Brasil, que incluíram aqui. Fariam isso com honra e glória e, principalmente, maior apelo comercial.

Fizessem isso e eu não estaria aqui, esculhambando algo que nem vale a pena ser esculhambado.

Melhor do que colocar uma novela que ninguém pode ver, como “Sua Vida Me Pertence”, seria detalhar melhor os mais importantes seriados antigos e atuais: datas, episódios, equipe, trívia, essas coisas. É verdade que esses dados provavelmente já estão na Wikipedia ou em outros wikis internet afora, mas a organização dessas informações em um livro ainda é algo insuperável. Melhor, poderiam selecionar os melhores e investir em informações e avaliações críticas realmente interessantes. Desperdiçaram essa chance.

Mas o pior, mesmo, é a ideia de “ver antes de morrer”. Há algo de doente numa sociedade que vive em angústia permanente, sob pressão para fazer coisas que nem quer tanto fazer, tornando as pessoas devedoras eternas de algo que não receberam. Fazer isso antes de morrer, comer aquilo antes de bater as botas, contar as misérias de sua vida sexual porque todo mundo está fazendo isso antes que o tempo acabe. Precisamos vender, precisamos vender, e para isso precisamos criar ansiedades inúteis em uma humanidade que está perdendo a capacidade de exercer algum critério de sensatez.

Ainda tenho dúvidas de que vou morrer um dia. A única certeza, mesmo, é a de que vou morrer pouco me lixando para os tantos e tantos e tantos seriados que não vi. Nem para isso esse livro serviu.

Da arte de reescrever a história e enganar otários

Revisionismo é um troço que me incomoda desde os tempos do camarada Kruschev. Tanto pior para mim, porque estes tempos de esgotamento criativo se transformaram na era das releituras e “ressignificações” e outras bobagens do tipo.

Por esses dias andaram comemorando o sexagésimo aniversário de lançamento do Please Please Me, o LP de estreia dos Beatles. Semana passada o youtuber Régis Tadeu fez um vídeo louvando as maravilhas desse disco “revolucionário”. Pouco antes, apareceu para mim no Facebook o anúncio de um curso — isso mesmo, um curso — da CCE/PUC/Rio, seja lá o que isso for, para estudar “toda a repercussão de seu lançamento no cenário musical brasileiro e mundial”.

Quanta besteira e quanta picaretagem, meu santo Asmodeu.

Sabe qual foi a importância mundial do Please Please Me? Nenhuma.

Sabe qual foi a importância no Brasil? Menor ainda.

Vamos começar pelo Brasil, porque a explicação é mais simples. Esse disco só foi lançado aqui em 1976, seis anos depois do fim da banda. Até 1965, a discografia brasileira era totalmente diferente da inglesa. Parte das faixas do Please Please Me tinham sido espalhadas pelos dois primeiros álbuns brasileiros, uma no “Beatlemania” e outras seis no “Beatles Again”. Foi apenas em 1976 que a EMI tirou de catálogo os discos lançados até aquele ano, substituindo-os pelos originais ingleses. Fez isso no mundo inteiro.

Se no Brasil a sua inexistência — a não ser em uns poucos exemplares importados por uns poucos abençoados pela Fortuna e pela fortuna, o que é insignificante — levou à absoluta desimportância em seu tempo, na Inglaterra a história é diferente; e é por não conhecer a história dos Beatles e da indústria fonográfica que as pessoas repetem bobagens como essa.

Mas não é tão difícil de entender. Basta olhar para o próprio Please Please Me. O disco tem 14 faixas. Quatro delas são os compactos lançados anteriormente. Outras seis são covers. Restam quatro faixas originais da dupla de compositores que fez história ao bater pé e exigir que seus primeiros compactos tivessem apenas canções próprias.

(Descontando os lados A dos compactos incluídos, apenas duas das canções do álbum tiveram vida longa: Twist and Shout, depois de redescoberta no filme “Curtindo a Vida Adoidado”, de 1987, e I Saw Her Standing There, que ganhou vida nova quando Paul McCartney voltou aos palcos no final dos anos 80 e a incorporou ao seu setlist.)

A questão é que LPs não significavam nada naquele comecinho dos anos 60. Eram basicamente coletâneas de compactos e umas faixas de segunda para completar o espaço que faltava. Não é à toa que o título completo do disco é Please Please Me — with Love Me Do and 12 Other Songs. Comprava um LP quem gostava muito de um artista, mas não era para eles que as gravadoras trabalhavam.

O que importava naquele momento eram os compactos. Eram eles que norteavam o mercado e o público, mediados pelas rádios. Para os Beatles, importante mesmo foram o compacto Please Please Me, um disco — este, sim — revolucionário que mudou o cenário da música inglesa, e um pouco mais tarde She Loves You, que catalisou a beatlemania que vinha sendo gestada nos meses anteriores. Até o fim da banda, a grande luta de Lennon e McCartney era emplacar o lado A do próximo compacto, e era para eles que reservavam suas melhores canções — I Want to Hold Your Hand, I Feel Fine, Day Tripper, Strawberry Fields Forever, Penny Lane, Hey Jude nunca foram incluídas em um LP original. O resto, como McCartney sempre lembra, eram “fillers”, canções compostas para completar o álbum. Às vezes não conseguiam e eram obrigados a procurar material antigo e previamente descartado, como Wait no Rubber Soul.

Mas a história dos Beatles é uma história em construção permanente. Eles foram um dos responsáveis pela consolidação do LP como objeto cultural importante, mas isso só se daria alguns anos depois. Antes que eles atentassem para isso, outros faziam seu papel na valorização dessa mídia: Bob Dylan, por exemplo. Mas o tempo passou, os Beatles ocuparam de maneira incontestável o topo do Olimpo da música mundial. O Please Please Me passou a ter uma importância que nunca teve, o fato de ter boa parte de suas canções gravadas em 11 horas passou a ser motivo de admiração e as gentes esqueceram que isso era muito comum em seu tempo. E nestes tempos duros, afinal, as pessoas e as instituições precisam ter assunto para descolar um troco. Faz parte.

Mas eu ainda estou intrigado com esse curso. Fico realmente maravilhado e estupefato diante da possibilidade de que alguém realmente pague por isso. Penso nisso, na abundância de bestas neste mundo despirocado, e dou um esporro em mim mesmo: “É por isso que você é pobre, otário”. Felizmente caio em mim rapidinho: pobre, mas honesto. Só que nunca sei se isso é consolo suficiente.

IA

Primeiro testo o ChatGPT e me assusto, porque peço um roteiro de comercial passando um briefing mínimo e o que recebo é melhor que muita coisa que já recebi de agências, com briefings bem melhores.

Diabo, é melhor até que muita coisa que eu já fiz.

Agora Júnior me manda um vídeo do Gen-2, que cria e edita vídeos a partir de textos.

Eu mando para Peneluc, e aviso:

“Vamos nos acostumar a tomar no cu, porque é isso que vai sobrar pra gente.”

Peneluc, tão mais cético que eu, responde:

“E você acha que não vai ter uma porrada de robozinho tomando no cu no lugar da gente?”