O 18 de Brumário de Luke Skywalker

Fui assistir ontem a “Star Wars – O Despertar da Força”.

Primeiro, uma sensação estranha: a projeção digital deixa a imagem absolutamente limpa. Vão longe os tempos em que arranhões e sujeira davam uma personalidade gauche a um filme, especialmente às cópias mais antigas e surradas. Isso é certamente o sonho realizado de qualquer cineasta ao longo dos últimos cem anos, mas ao mesmo tempo torna a experiência de ir ao cinema, que há tempos vem se tornando uma estranha para mim, mais asséptica. Cada vez mais, ver filmes na minha TV se torna não apenas desejável, mas equivalente.

Por ser uma sessão tardia num domingo, e um tempo razoável depois da estreia, o cinema não estava cheio. Havia fileiras inteiras vazias. E isso me privou — ou poupou — dos gritos aos primeiros acordes do tema de John Williams, daquelas manifestações de emoção coletiva que ajudam a definir e distorcer nos espectadores a percepção de um filme.

Star Wars é um fenômeno muito curioso. Como filme, o primeiro era simplesmente ruim. Trama medíocre, atores fracos (com exceção de Alec Guinness se perguntando em cada cena o que fazia ali, enquanto tentava dar dignidade a diálogos que jamais se elevam acima do clichê), Star Wars nunca foi mais que um pastiche óbvio de 50 anos de filmes de aventura. Não tem sequer a dignidade do arquétipo bem consolidado.

Mas um filme não se resume ao que está no celuloide. Mesmo ruim, Star Wars consolidou o processo de renovação do cinema como indústria e comércio, revigorando um setor que até então vinha lidando muito mal com a concorrência da televisão.

Acima de tudo, ele tinha algo único e novo. Deu início a uma nova era, a dos efeitos especiais e da estética como principais elementos do filme: a primazia absoluta da forma sobre o conteúdo. Sua importância jamais poderá ser superestimada.

Star Wars é ainda mais curioso por ser um fenômeno de construção a posteriori. Com o seu sucesso estrondoso e a possibilidade de extensão em novos filmes, novos elementos foram introduzidos com o carro andando; em “O Império Contra-Ataca”, Darth Vader se tornou pai de Luke Skywalker; em “O Retorno de Jedi”, Leia se tornou sua irmã. Mais tarde, quando Lucas percebeu que o filão era maior do que ele pensava, virou uma trilogia desde criancinha e logo depois criou-se a ideia de que deveriam ser nove filmes. Apareceu também um verniz de Joseph Campbell para dar algum pedigree intelectual a uma mera cópia de filmes B. Tudo isso foi possível porque, como história, Star Wars era tão rarefeito que admitia camadas e camadas de novo reboco teórico. É admirável: Star Wars é uma obra em andamento.

(É talvez o mais espantoso na legião de fãs de Star Wars: a maneira como acreditam no grande caô inventado aos poucos por George Lucas, ou como se referem à inspiração em Kurosawa como algo único, como se o japa não estivesse presente em tantos filmes, principalmente de estudantes de cinema como Lucas. Mas nestes tempos a cópia se tornou valor digno e mesmo louvável.)

Então chegamos a “O Despertar da Força”, caminhando célere para se tornar a maior bilheteria da história. Vai conquistar esse marco mesmo sendo um filme ruim.

A história é conhecida, porque é a mesma. Começam da mesma forma: uma mensagem secreta dentro de um robô que não fala. O resto é basicamente adaptação de um velho roteiro aos novos tempos. A atriz principal agora é uma mulher — ou melhor, pelo menos dos próximos filmes, porque este é um filme de transição e por enquanto Harrison Ford ainda é o astro — e o outro é negro. Há mais diversidade no elenco. Há mais cuidado com as piadas e com a representação das minorias. A Disney, louca para recuperar logo o investimento na Lucasfilm, coloca o velho para introduzir o novo: Han Solo ainda pilota sua nave e Luke Skywalker virou Yoda. E no que é talvez o único personagem minimamente decente do filme, Darth Vader Kylo Ren é um millennial torturado e mimado que, quando contrariado, prefere dar chiliquinhos e quebrar tudo a estrangular pessoas. Mesmo vilões de alma negra têm sentimentos hoje em dia.

A maneira como o filme representa o contexto político é vergonhosa, ainda mais medíocre do que o primeiro. Toda e qualquer esperança de coerência e verossimilhança política foi abandonada. A tal Resistência, numa excrescência única, parece ser uma espécie de poder paralelo com vida própria, que não faz nenhum sentido num tempo de República restaurada — República que por sua vez parece só existir em um planeta e se acaba quando ele é destruído, coisa que até agora não consegui entender. Nesse aspecto, os filmes feitos entre 1999 e 2005 são melhores. Por precisarem explicar em três episódios um final já conhecido, deram uma certa densidade narrativa ao processo que resultou em Darth Vader. Neles a instalação do Império, inspirado na Roma Antiga, faz mais sentido que a ascensão da tal Primeira Ordem. Uma República tão incompetente merece mesmo ser varrida do mapa, junto com esses Jedis que não fazem nada direito — se alguma lição pode ser tirada de um filme tão acéfalo, é a de que a Força só se realiza mesmo no seu lado negro.

Enquanto o primeiro Star Wars, em toda a sua mediocridade, trazia uma série de novidades, “O Despertar da Força” é uma Hollywood esgotada, em sua pior forma. Representa o abandono total do esforço por novas ideias e faz do que deveria ser um filme de verdade uma tentativa canhestra de apenas reembalar um produto antigo para um novo público.

Seu problema não está apenas na falta absoluta de alguma criatividade. Está principalmente no fato de que a adaptação aos novos tempos é medíocre, inferior ao que se faz hoje em dia.

Em 1977 não havia nada como Star Wars. Mas o passar do tempo trouxe inovações no modelo instituído por ele, e pode-se ver o clímax atual desse processo no último Mad Max: argumento parco, exuberância visual, ritmo incessável. “O Despertar da Força” sequer consegue se alçar a esse patamar. É mais um entre tantos filmes de ação de praxe, e seu sucesso baseia-se apenas na vontade dos fãs de serem enganados a qualquer custo.

Claro que cinema é isso, é escapismo, é indústria. É manipulação de emoções. Mas deve ser também arte, ou pelo menos ter alguma ambição além de vender; este filme não é nada disso. Não há nenhum valor artístico em “O Despertar da Força”. Há o clichê elevado ao décimo grau, há a cópia ruim, uma peça que parece ter saído de uma linha de produção de segunda e concebida por um comitê pouco brilhante em sua crença de que tecnologia substitui ideias. A única coisa realmente boa é que, pelo menos, aqui não há mais os bonecos de Jim Henson que ajudaram a fazer de “O Retorno de Jedi” uma espécie de Muppet Show espacial.

“O Despertar da Força” recebeu elogios de uma crítica que se diferencia cada vez menos de meros reprodutores de press-releases. Ainda assim, as coisas parecem passar dos limites quando as pessoas se emocionam com um esquema tão rasteiro, tão pasteurizado.

Dizia o barbudo que a história se repete como farsa. Mas não sei se ele, algum dia, imaginou quão felizes e anestesiadas, embrutecidas, as pessoas viriam um dia a embarcar nessas farsas.

Get Back, again

Então você acorda e dá de cara com esse novo clip dos Beatles.

Ele apenas parece a sequência original do filme Let it Be. Mas é a versão do Let it Be… Naked, que mistura os dois takes gravados no concerto do telhado. Embora eu prefira a versão original do filme, com Lennon naturalmente esquecendo a letra, este vídeo é fantástico — a dancinha de McCartney, por exemplo, é imperdível. Acima de tudo, tem um número enorme de cenas inéditas. E a qualidade da imagem é insuperável.

Mais que isso, ele faz pensar.

Descontando o disco Live at the Hollywood Bowl, que os Beatles tiraram de catálogo, o filme Let it Be é o último grande relançamento restante para a banda. Todos os outros já foram lançados em DVD ou BluRay; seus discos foram remasterizados; novas gravações vieram à luz do dia nos últimos 21 anos. Por isso, durante muito tempo acreditei que deveriam relançar o filme no formato 4:3 como foi gravado, acompanhado de um disco com extras, cenas que ficaram de fora, etc.

Eu estava errado. Ou melhor, não percebia que algo muito melhor era possível.

O fato é que Let it Be é horroroso. No fim das contas, em nenhum momento o diretor Michael Lindsay-Hogg consegue construir uma narrativa coerente: o que temos é basicamente um amontoado de cenas, praticamente sem nexo narrativo, seguindo de maneira frouxa e inconsequente uma certa ordem cronológica. É quase como se ele tivesse abdicado do papel de diretor.

Não foi culpa exclusiva dele. O clima caótico entre os Beatles não colaborava; e para piorar, a banda praticamente abandonou o projeto. Mesmo McCartney, que se envolveu um pouco mais, esteve distante. O primeiro copião tinha uma hora a mais e continha um bocado das discussões internas entre eles (você pode encontrar muitas delas aqui, um dos sites mais pungentes sobre a banda). Mais tarde o filme foi reeditado para tirar a lavagem de roupa suja. Como se não fosse o bastante o filme, que tinha sido filmado em 16mm para a TV, foi expandido para 35mm e teve que ser cortado para se adaptar ao formato final, 1.66:1. Não deve ter sido fácil. Mesmo assim, diante de tanto material, pode-se especular que um diretor um pouco mais experiente, por medíocre que fosse, poderia ter feito um trabalho minimamente coerente.

Esse clip de Don’t Let Me Down me mostrou o óbvio: em vez de perder tempo tentando a salvatagem dessa tragédia, há material suficiente para que se faça um novo filme. Um que estabeleça melhor as três fases da história e conecte-as de forma mais orgânica: ensaios no estúdio Twickenham, gravações no estúdio da Apple, show no telhado. Bem dirigida, essa progressão poderia mostrar a evolução do clima entre eles (que odiaram gravar em Twickenham, gelado em todos os sentidos, e uma das condições estabelecidas por Harrison para voltar à banda foi a mudança para os estúdios da Apple; junto com a chegada de Billy Preston, isso contribuiu para que o astral geral melhorasse, levando à apoteose de entrosamento e bom humor que se vê no telhado).

Os lançamentos da Apple Corps. nas últimas décadas são um indício forte de que há muito material de qualidade nas suas estantes. O farto material disponível em bootlegs é a prova definitiva. O novo filme poderia incluir as tantas e tantas gravações de clássicos do rock, de velhas canções (esse take de Love Me Do, que eu utilizaria para fechar o filme, é ótimo).

Eu chamaria esse filme de Get Back. E pediria a Martin Scorsese que o dirigisse. Tenho a impressão de que Scorsese faria até de graça.

Mas é improvável que esse material seja lançado algum dia, ou pelo menos enquanto os Beatles restantes estiverem vivos. O filme original já foi restaurado há mais de 20 anos, e mesmo assim jamais foi lançado. Dificilmente será, enquanto McCartney, Starr e Ono estiverem vivos. Para os sobreviventes desse naufrágio, 45 anos depois Let it Be ainda é incômodo, talvez dolorido.

É uma pena. A trajetória dos Beatles já entrou para o domínio público da cultura pop. Uma versão estendida e melhorada apenas acrescentaria grandeza a uma história mítica, e encerraria uma saga que, quase meio século depois, ainda continua. Paul, Ringo e Yoko apenas deviam deixar estar.

A vida dos santos

E daí que hoje, às vésperas do All Hallows’ Eve, descubro que tenho um homônimo padre.

Padre. De todos os misteres humanos, padre.

Assim se confirma o que venho dizendo a ouvidos moucos há tanto e tanto tempo. São Frei Galvão, padre Rafael Galvão Barbosa e esta pobre alma contrita: somos mesmo uma família de homens santos.

O sonho acabou

E daí que eu parei e me veio uma imagem na cabeça: Paul McCartney, Bob Dylan, Keith Richards e Mick Jagger. Os últimos. Um olhando para o outro, todos pensando: “E aí? Quem vai ser o próximo?”

De como Heather McCartney destruiu os Beatles em apenas 9 minutos

E você aí falando besteira, dizendo que foi Yoko Ono quem acabou os Beatles.

Mentira, mentira canalha. Quem acabou a banda foi Heather McCartney, no dia em que algum insano deu um microfone para ela durante as gravações do Let it Be.

Um bebê que assim daria à sua mãe motivo real para infanticídio com requintes de crueldade, e seria absolvida por qualquer juiz do mundo, absolvida até pelo Papa Francisco. Ainda hoje não sei como George Harrison não se levantou e bateu em Heather com o seu guitarra até que restasse apenas uma papa ensanguentada no chão, gritando palavras incompreensíveis em chinês, babando com olhos vítreos.

Enquanto isso Lennon, que queria ver o circo pegar fogo, encorajava Heather: “Come on, Heather! Come on, Heather!” Ou talvez ele estivesse apenas chapado, ou então tenha visto na menina uma digna seguidora de Yoko. “Essa menina vai longe…”

Eu não sei. Mas tenho certeza de que foi ali, nesse dia, que os Beatles acabaram. E então a pobre Yoko, vítima de uma campanha canalha levou a pecha que deveria recair sobre aquela menina lourinha de 6 anos.

Armandinho, ou onde o humor vai para morrer

Tá, eu confesso: acho a tira do Armandinho, que tem feito certo sucesso recentemente, tão chata que de vez em quando me pego pensando que ela sintetiza tudo o que há de errado com uma certa maneira de ver o mundo atualmente, mesmo sabendo que essa ideia é talvez ambiciosa demais para quadrinho tão medíocre.

Armandinho tenta fazer passar por humor o que o mundo tem de pretensos bons sentimentos.

É uma espécie de sub-Mafalda, e essa parece ser sua inspiração óbvia, quase plagiária. Mas entre eles há um abismo de diferença não apenas de profundidade — é genuinamente assombrosa a capacidade do Armandinho de destilar platitude atrás de platitude —, mas de tempo e coragem: é fácil fazer Armandinho hoje, difícil era empurrar uma Mafalda nos tempos que precederam a ditadura militar argentina.

Mas não se trata apenas dos tempos. É a própria natureza da besta: comparado com a criação de Quino, Armandinho é raso e sacarino como um pires de água com açúcar. Enquanto Mafalda fazia perguntas, Armandinho apenas nos oferece respostas que parecem tiradas do Minuto de Sabedoria. Pior, diz isso sem sutileza alguma.

Não há inteligência em Armandinho. Há apenas o óbvio. Talvez seja isso o que irrita nele, a maneira quase redundante como diz as coisas, medíocre porque é a mediocridade que atinge o maior público. Como disse alguém, o Armandinho parece uma aula de Educação Moral e Cívica, aberração educacional que a redemocratização felizmente enterrou.

Basta perceber isso para lembrar também que não há uma gota sequer de coragem em Armandinho. É muito fácil fazer humor a favor, afetando uma superioridade moral imaginária sobre os demasiado humanos. Ninguém em sã consciência consegue ir de encontro ao que Armandinho diz: ninguém é, ao menos filosoficamente e em discurso, contra o amor, contra a tolerância, contra o respeito, contra a bondade.

Quando Edvaldo Nogueira, então presidente do PCdoB em Sergipe, me chamou oficialmente para entrar no partido num dia qualquer dos meus verdes e longínquos anos, o partido estava saindo da ilegalidade. Era muito diferente do que é hoje. Ainda eram muito presentes a cultura da clandestinidade, o respeito (ao menos teórico, no meu caso) aos mandamentos draconianos de Diógenes Arruda em “A Educação Revolucionária do Comunista”. Enquanto isso, ao meu redor, poucos, pouquíssimos eram socialistas, muito menos comunistas. Eu era o radical, na contramão.

Mesma época, eu era um beatlemaníaco fanático em uma cidade pequena com pouco acesso a informação e num tempo em que os Beatles estavam fora de moda. Se hoje você ouve uma banda pela primeira vez e duas horas depois já tem toda a discografia dela, eu demorei mais de dois anos para conseguir ouvir tudo o que os Beatles tinham lançado oficialmente, ainda que praticamente só pensasse nisso. Ao meu redor, ninguém ouvia os Fab Four. Eu era o velho, na contramão.

Se as duas coisas não parecem ter a ver uma com a outra, e menos ainda com Armandinho, elas têm. Me acostumei a achar que não existem “ideias certas” como as que o Armandinho defende. Que é necessário sempre o contraditório, que verdades não são absolutas (diacho, nem a Albânia era absoluta). E criei a convicção de que é muito fácil seguir adiante com as ideias da maioria. Não deveria ser essa a função do humor, se é que humor tem alguma função. Humor tem que provocar, mostrar o outro lado, expor o ridículo da vida e das coisas, principalmente do que é aceito como verdade sedimentada. Humor de qualidade instiga a pensar, lança uma luz nova sobre o mundo, não se esgota em um sorriso de auto-satisfação bovina.

Armandinho não faz nada disso. Anestesia, no máximo. Está para o humor como a literatura de autoajuda está para Dostoiévski. Apenas nos reconforta com a sensação de que, nos nossos melhores momentos, somos boas pessoas porque tentamos nos reconhecer nele. Nos faz esquecer que no resto do tempo somos mesquinhos, vis, egoístas. E por isso ele não provoca, não faz pensar, não faz nem mesmo rir. Uma tira engraçadinha que nos faz sentir melhor por sermos quem somos: o humor não podia pedir atestado de óbito mais claro. E triste.

Sem cenas do próximo capítulo

A essa altura, não tenho dúvidas de que a Rede Globo está morrendo. É uma agonia lenta, mas constante.

Em outro mundo, suas novelas chegavam a gerar quase 100% de audiência em seus últimos capítulos. O Jornal Nacional era a baliza da opinião brasileira. Hoje, a Globo briga com telespectadores que, se ainda expressivos, diminuem a cada ano; seu jornalismo é provavelmente menos respeitado que a vizinha fofoqueira do 701; e, pior, ela parece não saber para onde ir.

Olhando em retrospectiva, o início dessa decadência pode ter como marco inicial um momento qualquer em 1997, quando os sucessores de Roberto Marinho decidiram afastar o homem forte da TV por 20 anos, Boni, para consolidar o seu poder dentro da emissora. Defenestraram um homem de criação, responsável com Walter Clark pela consolidação da TV como a maior do país nos anos 70, e colocaram uma administradora. Foi um equívoco, e talvez se arrependam disso até hoje.

Mesmo que essa não seja a razão, o fato é que a Globo não soube lidar com um mundo em que novas tecnologias corroeram as bases sobre as quais o seu modelo de negócios se estruturou. Não foram apenas erros no processo de popularização de sua programação para se adequar a esses novos tempos. O problema é o seu apego a um modelo que o tempo superou.

É incrível, mas a Globo se sustenta sobre uma estrutura de grade criada há quase 50 anos. Programas infantis e femininos pela manhã, jornais e esporte ao meio dia, novela e filme à tarde. É um modelo criado para um país que já não existe, em que homens trabalhavam, mulheres cuidavam da casa e as crianças não tinham o que fazer à tarde, e à noite todos viam TV juntos enquanto jantavam e esperavam a hora de ir dormir.

É nesse horário, a faixa nobre, que o problema é mais grave. A grade é velha conhecida nossa: novela leve que crianças podem ver, jornal local, novela engraçada que todos podem ver, Jornal Nacional para estabelecer a pauta do país, novela para adultos; é aqui que a Globo ganha de verdade o leitinho das crianças.

A novela das oito é tão brasileira quanto o brigadeiro e a jabuticaba. Já foi referencial de tempo e condicionante social. Mas o século XXI não tem sido generoso com ela: ano após ano, sua audiência vem caindo. É um processo irreversível, e tem se acelerado em progressão geométrica nos últimos cinco anos. E a culpa não é apenas da qualidade cada vez mais baixa de suas tramas.

Quanto a esse aspecto, talvez secundário, a consolidação da TV por assinatura e a enchente de produções gringas disponíveis serviram para colocar algumas coisas em perspectiva. A revolução pela qual passou a TV americana nos últimos 20 anos, e que a faz gerar produtos de qualidade inquestionável como The Sopranos, Mad Men, Breaking Bad, Game of Thrones e muitos outros, põe em questão o tão decantado Padrão Globo de Qualidade.

Esse foi um dos mitos que sustentaram a hegemonia absoluta da Globo a partir do fim da TV Tupi, e dentro daquele ambiente insular era verdadeiro. É como aquela mulher que, em Marajá do Sena, achamos a mais linda do mundo, mas cuja beleza desaparece quando finalmente a TV chega e a gente vê que o mundo é um pouco variado. Hoje basta comparar as novelas da Globo com os seriados americanos para ver o abismo de qualidade que existe entre eles.

Claro que a insistência da Globo em suas novelas não é vaidade, nem apego de decadente quatrocentão a vestígios da glória passada. Elas são um produto incomparável. Uma novela custa em torno de 100 milhões de reais, mas tem potencial para faturar mais de 3 bilhões. Nem o tráfico de drogas é tão lucrativo.

Há apenas um detalhe: para dar esse lucro elas precisam dar audiência. Por enquanto, mesmo atraindo percentualmente muito menos telespectadores, elas ainda são uma aposta garantida para os anunciantes. O problema é que isso vai acabar mais cedo do que mesmo seus maiores críticos imaginavam. Hoje Malhação, num horário ingrato, gera quase tanta audiência quanto a novela das oito.

Para se adequar a um mundo novo, a Globo precisa primeiro entender que os tempos áureos passaram. É cada vez mais difícil conseguir o retorno financeiro que as novelas sempre deram. Por isso talvez seja a hora de repensar todo o horário nobre.

Seria preciso reimaginar o formato do jornalismo, adequar a um mundo em que a internet sempre chega primeiro. É preciso redefinir o que se diz, como se diz e quando se diz. Futebol é sempre uma aposta, e não custaria jogar o seu peso para pressionar a CBF para a definição de um calendário que lhe garantisse audiência regular. Shows também — por exemplo, um programa da Xuxa no estilo da Hebe nas noites de segunda-feira certamente garantiria mais audiência que a expectativa por um eventual beijo gay. Seria recomendável também tentar contemplar ao menos parte da diversidade cultural brasileira. E abrir um pouco mais de espaço à produção local, desde que com qualidade real.

Mas o mais importante seria repensar a sua dramaturgia.

Eu extinguiria a novela das 8 (ou das 9, como é chamada agora). As telenovelas fizeram muito sentido quando as pessoas só tinham uns poucos canais de TV como lazer doméstico, e a Globo não enfrentava concorrência real. A consolidação da TV por assinatura, o crescimento das outras redes e principalmente a chegada da internet tornaram o produto ultrapassado.

Seu modelo, com 150, 180 capítulos, funcionou graças à familiaridade do brasileiro com radionovelas e folhetins em revistas como a Cruzeiro, e ao fato de que a baixa oferta de entretenimento doméstico — fora as brigas dos vizinhos e a vida sexual da moça da casa em frente — oferecia as condições necessárias para que as pessoas acompanhassem seis, oito meses de uma série de tramas interligadas.

Isso cobrou um preço à qualidade, agora evidente. Tramas que duram 150 capítulos poderiam ser resolvidas em 20. Uma novela é uma coisa arrastada demais, com personagens demais, prolixa demais. Hoje é um mau produto.

Em vez de novelas, apostaria em um formato mais moderno: seriados e minisséries. Apenas como exemplo, poderia reviver seriados antigos que, modernizados, poderiam ter apelo popular: “Plantão de Polícia”, “Obrigado, Doutor”, até mesmo um novo “Carga Pesada”. Poderiam representar o tom certo de popularização, sem se tornar popularesco, algo que a Globo ainda não conseguiu.

Por mais que odeie a Globo — e não assista a ela há muitos, muitos anos, — ela faz parte da história do país. Tem um pedacinho lá no fundo que fica triste ao ver um referencial de vida ir desaparecendo assim, aos pouquinhos.

Um certo lamento feminino

O Hermenauta me manda um texto da Ruth Manus, publicado há algum tempo no Estadão, em que ela lamenta a triste sorte das mulheres hoje em dia, sonhando com um homem inexistente que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

A colunista olha em volta e não encontra esse homem. A culpa é, em última análise, da sociedade, esse ente indefinível que cria homens que fogem de mulheres independentes. Reclama que não ouviu esse discurso de nenhum homem. “Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.”

(Vamos desconsiderar o primeiro parágrafo que só serve para ambientar a situação, a besteira que é alguém sonhar com uma mulher assim. Como seria uma besteira uma mulher sonhar com um homem que trabalhe 16 horas por dia, que viva respondendo a emails ou telefonemas de trabalho extemporâneos e que tenha que fazer serão  — com ou sem a secretária  — dia sim, dia não. Se é para sonhar, vamos sonhar direito.)

Vamos desconsiderar também o fato de que a última sentença parece indicar que tudo isso é apenas um grande e elaborado lamento por não ter um homem para chamar de seu. O fato é que eu poderia fazer esse discurso, se isso a confortasse. Casado algumas vezes, olho para trás e vejo que nenhuma de minhas mulheres se encaixa no perfil que ela acha que os homens querem. Cozinho melhor que elas; todas tiveram trajetória acadêmica melhor que a minha; a maior parte teve, sim, subordinados em algum momento da vida. Mas isso não é sobre elas, é sobre a inexistência de homens que admitam mulheres que não dependam deles. Talvez por isso, por comparar a minha própria trajetória com a da moça descrita no texto, fiquei me perguntando de que mundo fala a colunista.

Pistas vêm mais adiante. Ela fala da educação que recebeu, dos cursos, do incentivo entusiasmado dos pais para que ela desenvolvesse seu potencial e garantisse independência. Indica também uma mulher bem-sucedida. A combinação específica de salto alto e overload de e-mails (mais adiante ela menciona subordinados) indica uma mulher que certamente não é nem vendedora nem operadora de telemarketing.

O primeiro problema do texto está aí. Ela descreve o mundo quase idílico da classe média — a velha, não a nova. É o mundo daqueles cujos pais lhes possibilitaram (geralmente com pai e mãe trabalhando em tempo integral) acesso a oportunidades variadas em sua formação. Fala daquela parte abençoada da sociedade cujas necessidades básicas, e boa parte de suas aspirações, já são atendidas — justamente porque uma geração anterior de mulheres se sacrificou para garanti-las. O mundo sofisticado daqueles que, em vez de um feriadão na Praia do Forte ou até mesmo quatro noites em Paris pela CVC, almeja uma viagem para o Leste Europeu.

Talvez se ela olhasse para o mundo das comerciárias, das funcionárias públicas, das professoras, visse um mundo levemente diferente. E talvez ela aventasse a possibilidade que esse mundo de homens querendo dondocas dependentes e ignorantes aconteça apenas nas vidas dos super-ricos; nas dos mortais reles, coitados, isso é impossível.

Nesse mundo, as pessoas não apenas precisam trabalhar: elas esperam que as outras trabalhem, também. E nesse mundo, ao que parece a maior parte das mulheres não está preocupada com os problemas que parecem afligir a personagem do texto da Ruth Manus; ou porque já têm o seu merecido quinhão ou porque simplesmente têm mais o que fazer.

Claro que há homens como os que povoam os pesadelos da Ruth Manus. Há piores, na verdade. Esses bichos costumam vir em todos os tipos e cores. Há moços antigos assim e moços modernos, rapazes que querem filhos e rapazes que não os querem, senhores que se pudessem prenderiam a mulher em casa e senhores que dividem a mulher graciosamente com outros, cavalheiros que ajudam em casa e cavalheiros que se especializam na doce arte da gigolagem.

Mas há muito tempo o homem que se vê como provedor único da casa, senhor absoluto da família e da mulher mantida em rédeas curtas, deixou de ser a norma, ou mesmo parte significativa. Não porque eles quisessem ou deixassem de querer, que isso é irrelevante: mas porque a necessidade os obrigou.

A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho a partir da II Guerra alterou, aos poucos mas para sempre, as configurações familiares no mundo inteiro. E assim como a classe média passou a se condoer da situação das empregadas domésticas a partir do momento em que não precisou mais delas — ou, mais acuradamente, não pôde mais mantê-las —, a grande maioria das famílias passou a tomar como garantido o fato de que todos precisam trabalhar para garantir padrões de vida mais ou menos adequados às suas aspirações.

A colunista parece ver seus problemas como resultado do machismo inculcado nos homens desde sempre. Mas certamente não é nessa esfera que está o grande problema causado pelo machismo, pela maneira como a sociedade educou seus varões, e nem vamos falar aqui de outros ainda mais graves, como agressões, disparidades salariais, essas coisas. Aquele tipo de problema é mais facilmente visto nas famílias com filhos, em que normalmente a mulher acaba sobrecarregada. Mas não é disso que o artigo trata.

De vez em quando se vê por aí textos em que mulheres tentam fazer passar suas carências e preocupações idiossincráticas por feminismo, ou ao menos pelo diagnóstico de um problema universal feminino. Esse é um deles. Tenho a impressão de que se essa moça fizesse uma pesquisa rápida e procurasse ver com quem os homens que poderiam interessá-la estão (aqueles comprometidos e satisfeitos com isso, claro), teria uma surpresa desagradável. O mais provável é que os encontrasse com mulheres que incorporassem, ao menos em parte, os predicados descritos no início do texto.

Relações interpessoais são sempre complicadas. E os anos que passam me fazem desconfiar cada vez mais que grande parte desses problemas se devem a desencontros. Mas nesse caso específico, a Manus personifica as reclamações não de homens, mas das mulheres que acham que a vida lhes passou uma rasteira e não lhes deu de presente um conto de fadas moderno. Não parece haver muitos homens por aí lamentando que as mulheres se emanciparam e por isso eles estão solteiros, apesar do MBA em Harvard que ostentam no currículo, apenas porque não encontram mais amélias submissas como antigamente. E é isso que faz desse texto pouco mais que o lamento de uma moça bem sucedida de classe média reclamando que a educação primorosa que teve não lhe serviu para o que era mais importante: arranjar um marido.

João Barreto Neto

Vi agora a notícia da morte de João Barreto Neto, nestes tempos em que essas notícias ruins vêm pelo Facebook. E então bateu uma tristeza imensa, tristeza e aquela culpa difusa causada pela sensação de que você poderia ter dado um pouco mais de atenção àqueles que se foram.

Fazia alguns anos que não via Joãozinho. Da penúltima vez ele gritou meu nome no Calçadão da João Pessoa como quem acabou de avistar um fantasma — e tinha avistado mesmo. Confundira este Rafael, vaso ruim que a terra há de ter muito trabalho para engolir, com o Rafael Rodrigues, filho do Rômulo que tinha morrido pouco tempo antes em um acidente estúpido. Na época, maravilhado por poder fazer a crônica da minha própria morte, privilégio de poucos, escrevi sobre isso aqui.

Da última, em frente a um restaurante na Praça da Imprensa onde ele ia pegar sopa para dar aos assistidos pela Ação Social Santo Antônio, a herança que Barrinhos lhe deixou, eu vi um homem velho e cansado. Nem parecia aquele que me acompanhava aos cabarés da cidade, como o de Ciganinha — puteiro admirável porque parecia um terreiro de candomblé escondido no Santos Dumont, ainda melhor porque pertencia a uma cafetina que tinha perdido tudo por amor a um homem.

Ainda lembro das noites na varanda da casa de João com Yara, conversando coisas sérias e coisas bobas. Ou ainda uma noite em que, passando em frente à sua casa na rua Maruim, parei para conversar e encontrar um ombro amigo para chorar o fim de um namoro, xingar aquela desgraçada que não queria mais saber de mim — ou eu não queria mais saber dela, não lembro bem. Na verdade eu chorava pelo fim do namoro e pelo show de McCartney no Maracanã a que não iria assistir por não ter dinheiro. O que sei é que naquela noite uma garrafa de Natu Nobilis encontrou seu fim — porra, Joãozinho, se fosse sua mãe teria me servido um uísque melhor.

Ela era uma daquelas mulheres fortes, que inspiram respeito à primeira vista. Fosse umas décadas mais nova e eu uns anos mais velho, teria inspirado também uma daquelas paixões avassaladoras, imorais. O meu respeito era ainda maior porque eu sabia de coisas que pouca gente parecia saber. Sabia que Joãozinho era filho do tio, fruto de uma daquelas tragédias rodrigueanas que abalam as famílias, causam infelicidade para todos e resultam em mortes tristes; tragédias que se tenta esconder a todo custo, tentativa infrutífera sempre. 30, 40 anos depois tio Joffre me contava a história, que só conto agora porque, exatamente hoje, todos morreram. Foi tio Joffre quem me disse também que o pai real de Joãozinho conhecia o meu — real e oficial, deixe-me antes de mais nada esclarecer porque eu tenho cá minhas frescuras também.

O que ninguém sabe é que o pai dele foi um dos últimos, se não o último, taxista a levar meu pai a algum lugar, e num certo dia em que eu ia com tio Joffre para o seu sítio em Socorro ele desandou a falar do meu, como era inteligente, como bebia, como conhecia os piores botecos da cidade.

Saí do jornal e perdi o contato com Joãozinho. Mais tarde, olhando para trás, teria a impressão de que ele, gay, estava esperando apenas uma chance para me pegar. Meninos novos costumam ser alvos fáceis. No entanto, quando lembro da amizade tranquila e das longas conversas sobre jornalismo e sobre a história de Aracaju, fico pensando que não, que isso é maldade minha. Melhor assim.

E então eu não vou ao seu velório, Joãozinho. A maior homenagem que podemos fazer a um amigo é a lembrança. E eu, assim como tanta gente, lembro de você.