O Jesus histórico

Sempre que vejo alguém falando do “Jesus Histórico”, tenho a certeza de estar diante de um quase picareta. Não existe Jesus histórico fora do Novo Testamento. As poucas menções contemporâneas, ou quase, feitas a Jesus que existem fora dos evangelhos, canônicos e apócrifos, e das tantas epístolas, atos e etc. são, no mínimo, questionáveis. No máximo fraudes, mesmo.

Talvez por isso tanta gente levante a possibilidade de que Jesus jamais existiu; que ele é uma espécie de Robin Hood, uma lenda formada a partir da combinação de várias pessoas diferentes, separadas no tempo e no espaço.

A Salon publicou uma pequena lista de razões pelas quais Jesus não deve ter existido. São válidas. Mas elas não provam que Jesus não existiu: apenas mostram que é impossível escrever algo honesto sobre o Jesus histórico.

A razão 1 — a inexistência de fontes seculares que comprovem a existência de Jesus — não quer dizer muita coisa. Não é porque não há citações das fontes oficiais que ele não existiu: a árvore cai na floresta mesmo que você não veja. Na verdade, seria até improvável haver tais citações naquele momento.

Pouca gente conhece o episódio de Zé Lourenço e o Caldeirão. Se mora fora do Nordeste, menos ainda. Ao contrário de eventos semelhantes como Canudos e o Contestado, o Caldeirão ficou pouco conhecido fora do Ceará. No entanto, foi a primeira vez em que o Estado brasileiro utilizou bombardeio aéreo contra sua própria  população civil.

Se esse nível de desconhecimento acontecia ainda em pleno século XX, não é difícil imaginar como os eventos trágicos, e relativamente comuns em uma província perdida num cudemundo do Império Romano, podiam não interessar aos historiadores romanos. A condenação de um pregador judeu qualquer simplesmente não era importante na época; como comparar às dezenas de seguidores de Spartacus crucificados ao longo da Via Ápia? Mesmo que a notícia chegasse aos centros de poder, seria vista como mais uma entre tantas crucificações de fanáticos religiosos. O estranhamento sobre a ausência de Jesus dos anais só é possível quando se dá a ele uma importância que só viria posteriormente. É mais ou menos como o Velvet Underground e sua influência bem tardia.

A segunda razão (os primeiros escritos do Novo Testamento desconhecem detalhes demais da vida de Jesus) é muito mais complexa, e contém a principal verdade desse texto: Jesus Cristo, mais que causa, é efeito do cristianismo.

Parece óbvio que a maior parte dos elementos que constituem a mitologia de Jesus — a imaculada conceição, a ressurreição, a fuga para o Egito, o hímen complacente de Maria — foram definidos aos poucos, com o passar do tempo, como forma de caracterizar o caráter divino de Jesus e adequar a narrativa ao zeitgeist místico de sua época. Ninguém mente mais, para si e para os outros, que religiosos.

Mas o principal argumento do artigo, a ausência dos aspectos biográficos de Jesus nas epístolas de Paulo como evidência de sua inexistência, é muito frágil. O problema é que o fato de os evangelhos sobreviventes só terem sido escritos algum tempo depois não impede que a história fosse contada desde antes de Jesus cair nas mãos de Pilatos. Além disso, é preciso lembrar que Paulo falava a comunidades cristãs, que presumivelmente já conheciam a história de Jesus. Paulo era um pregador e um doutrinador. Um livro de doutrina jurídica não costuma perder tempo explicando a canalhice de um Gilmar Mendes.

A terceira razão apresentada, a de que os livros do Novo Testamento não pretendem ser relatos em primeira mão, é mais um problema para os historiadores do que para a existência ou não do nazareno. Escritos décadas após a morte do sujeito e baseados na tradição oral de uma população majoritariamente analfabeta, ela acaba se misturando com a quarta, a de que os evangelhos se contradizem entre si, e que também é frágil. As diferenças entre eles, afinal, não são tão grandes assim, se devendo principalmente aos ruídos na transmissão oral. Se não fosse a existência de tantos evangelhos apócrifos seria até admirável que sejam tão semelhantes (não, é mentira: aparentemente uns basearam-se nos outros); mas o fato é que essa é a narrativa selecionada pela Igreja, em um tempo em que a própria ideia de historiografia era bem diferente.

E finalmente a quinta: o tal Jesus histórico. O fato é que quem escreve livros sobre isso poderia muito bem escrever sobre o Abominável Homem das Neves ou sobre o Eldorado ou sobre a Fonte da Juventude, daria no mesmo. Esses autores fazem, no mínimo, um grande exercício de imaginação e conjecturas para justificar o que certamente já é sua tese inicial, juntando fragmentos históricos reais para validar, de alguma forma, a sua própria ideia de Jesus. Por isso, de acordo com o livro que você ler, o Jesus resultante pode ser um rabino, um zelote, um fariseu, um pacifista — ele é essencialmente o Jesus que você constrói, seu alter ego.

Sempre tive a impressão de que Yeshua ben Yosef, se existiu, era pouco mais que um maluco pregando algum tipo de mensagem apocalíptica nas praças da Judeia. Tempos de ocupação política e militar como aqueles são extremamente propícios para isso, e ele não devia ser o único. Provavelmente não era o mais influente ou respeitado enquanto vivo: o fato de ele precisar da bênção de João Batista para se legitimar indica que aquele que transformaram em seu primo era a verdadeira grande liderança religiosa popular da época, naquele espaço específico. Além disso, Josefo fala muito mais de João do que de Jesus.

E em verdade, em verdade vos digo: por alguma razão o sujeito foi crucificado. E as pessoas acharam injusta a crucificação, e Jesus se tornou maior na morte do que tinha sido em vida, e o seu nome circulou de boa em boca, e catalisou um sentimento de mal-estar e de inquietação que as gentes viviam naqueles dias. E aos poucos a sua lenda foi se criando; e novos milagres foram inventados, e a sua mensagem foi se consolidando, adaptada aos tempos e aos públicos; e Saulo de Tarso entendeu que era preciso uma ruptura com a tradição judaica e pregou aos gentios, e elementos romanos foram agregados para que Ele se tornasse o Deus e o Filho de Deus. Amém.

O cachorro do Vinícius

Lembro bem de todos os cachorros que não tive. Primeiro foi um collie, como quase todo mundo que viu “Lassie” uma vez na vida. Depois, graças a “Joe, o Fugitivo”, um pastor alemão que só faltaria falar. Um brevíssimo idílio com os são bernardos durou os pouquíssimos meses até ver dois afghan hounds que moravam na Princesa Isabel, e desde então nunca mais quis saber de qualquer outro cachorro.

Mas antes eu vi um são bernardo de perto.

Era 1980, final do primeiro semestre. Eu morava em Itapuã, a uns 500 metros da casa de Vinícius de Moraes, que hoje é um hotel. Ia caminhando em direção ao centro do bairro, por uma das ruas de dentro. E então ali estava ele na varanda gradeada de outra casa, um pouco distante: deitado, indolente, muito maior do que eu imaginava. Ele nos viu e se levantou latindo, babando quinze litros de uma baba densa.

Nunca tinha visto um antes. Conhecia o cachorro, claro, não apenas porque tinha um livro com as raças de cães que eu jamais compraria, o “Livro de Ouro dos Cães”, mas porque mais ou menos naquela época tinha assistido a um episódio de Disneylândia que contava a história de Barry, o mais famoso de todos os são bernardos.

É uma lembrança desimportante, que ficou apenas pela coincidência de ter visto o primeiro exemplar da raça pouco depois de ver um filme sobre um deles. Até que neste feriado, lendo a biografia de Vinícius de Moraes por José Castelo, cheia de defeitos mas suficiente, descobri que quando foi morar em Itapuã ele comprou um são bernardo.

Vinícius tem uma certa história com minha família. Passou muito perto de levar um soco de meu pai, uns dez anos antes.

É uma história curta, simples. 1969: recém-casados, meus pais, Vinícius e alguns amigos estão num bar de uma Itapuã ainda meio selvagem. O poeta ainda não tinha se mudado definitivamente para lá nem casado com a Gesse Gessy.

Simpático, exuberante, galanteador e bêbado, embora já um tanto decrépito e prestes a dar início a uma fase estranha em sua vida, Vinícius resolve cantar “Minha Namorada” para minha mãe e lhe passa um bilhete.

Diante do constrangimento de minha mãe, meu pai começa a rir. E, rindo, fala para o poeta:

“Pare com isso, Vinícius. Porque se você continuar eu vou ter que lhe dar um murro, e vai ficar feio pra mim bater num velho como você.”

Tem coisas que a gente fala rindo mas o olhar da gente não sorri em dueto. A serenata parou, os bilhetes também. A noite seguiu tranquila e alegre, como eram as noites em que, dizem, Vinícius estava à mesa.

Agora fico sabendo que pouco tempo depois Vinícius se mudou para a Bahia, casou com Gesse — e, de certa forma, com Toquinho —, construiu aquela casa em frente à qual eu passava todos os dias no caminho para a praia ou para a escola e arranjou o tal são bernardo. Deu-lhe o nome de Meu, como o papagaio de Ungaretti; mas num dia em que Ricardo Ramos foi lhe fazer uma visita rebatizou o pobre cão como Graciliano — porque, você sabe, era um são bernardo. Imundo, cheio de pulgas, o coitado passava seus dias na piscina, correndo do calor que faz na terra de Oxalá até que Vinícius resolveu o problema instalando um condicionador de ar em sua casinhola.

Mas isso tinha sido uns 10 anos antes. Àquela altura ele sequer morava em Salvador. Agora tenho quase certeza de que aquele são bernardo que vi numa manhã em Itapuã, aquela visão rara, era o de Vinícius. Não era um cachorro comum em Salvador, e quais as chances de haver dois tão perto? Imaginei que quando se separou de Gesse ele deu o cão a algum amigo, talvez Calazans Neto, talvez Carlos Bastos, sei lá quem morava naquela casa.

***

Mas ler a biografia de Vinícius, principalmente os seus últimos dez anos, me deixou pensativo.

Como quase todo mundo, sempre achei sua última fase, marcada pela parceria com Toquinho, fraca. Na verdade o problema não era ele, porque ali estão algumas de suas melhores letras. Era Toquinho: a música inofensiva, leve, boba e derivada apesar de extremamente melódica que ele fazia parecia insuficiente, quase antitética, para o poeta que foi um dos vértices da bossa nova e fez os afro-sambas com Baden Powell, ainda mais em tempos de Tropicália. Seus amigos, por sua vez, olhavam com estranheza a escolha de vida que ele fez: a palavra decadência é usada não poucas vezes em sua biografia. De grande poeta e letrista, Vinícius virou um velho macumbeiro excessivamente hedonista que parecia se apegar à juventude do parceiro e dos estudantes que iam aos seus shows em diretórios acadêmicos como Dorian Gray se agarrava ao seu retrato.

Mas hoje, mais velho, mais cansado, olhando para trás cada vez mais amiúde, vejo as coisas de maneira um pouco diferente. E nessas horas tenho inveja de Vinícius. Porque entendi o que ele era então: um sujeito que simplesmente decidiu se abandonar à vida — nem que para isso tenha abandonado também uma mulher grávida, mas o que é um cafajeste a mais ou a menos no mundo? — como tão poucos de nós jamais tivemos coragem.

Há muito tempo acho que no fundo só não se pode morrer entre os 30 e os 50 anos, aí é como se algo então tenha dado profundamente errado, porque é quando as pessoas finalmente vivem a plenitude que nunca mais recuperarão. Morrer na adolescência é uma tragédia mas as pessoas morrem assim mesmo, às vezes vítimas da temeridade própria dos que ainda se acham imortais; depois dos 50, estamos todos na mesma roleta, e se é triste, é pelo menos aceitável. A própria tristeza vai diminuindo com o passar dos anos, e aos 90 o que o defunto ouviria, se ouvidos ainda tivesse, não seriam as expressões de dor e a mulher histérica se jogando ao seu caixão: seria um “descansou, coitado” melancólico e conformado.

Eu e quase todo mundo olhamos para trás e, mesmo quando temos a sorte de nos orgulhar do que fizemos, também sentimos aquela ponta de tristeza diante da miragem de tudo o que não fizemos, por impotência ou covardia. Agora tenho a impressão de que Vinícius sentia um pouco menos de tristeza que o resto de nós.

Vinícius morreu aos 66 anos. Tinha vivido mais que a maior parte das pessoas viveria em 150. Mais que isso, se deu o direito de viver como bem lhe aprazia, e o preço que pagou em seus últimos anos, doente, foi mais que uma pechincha; tanta gente paga o mesmo preço e recebe bem menos. O que dizem ser sua decadência hoje chamo de ápice. E se a poesia, essa que os bobos escrevem com P maiúsculo, perdeu alguma coisa, paciência. Vinícius entendeu: nenhum poema jamais valeria uma noite de uísque, música, amigos e mulheres.

Marcelo Déda

Quando Marcelo Déda morreu, eu não escrevi nada. Fui ao aeroporto recebê-lo, mas não subi para o seu velório no Museu Olímpio Campos — que ele tinha criado e que era um dos seus orgulhos. Fiquei do lado de fora, junto com o povo que, mesmo esperando aquele desfecho havia meses, não conseguia disfarçar a dor e a tristeza.

Meses depois achei um e-mail dele:

Li a resenha do Rafael, nosso Chatôzinho, sobre “Kind of Blue”, citada por um site especializado em jazz. Magnífica! O Rafa é daquelas inteligências que me encabulam pela amplitude de interesses, conhecimento do que fala e certa dose de juvenil arrogância que, aliás, lhe cai bem. Lê-lo em seu blog (que está carente de atualizações) devolve-me à tabaroíce simãodiense de onde, às vezes, Amaral tenta me resgatar. Ouço o velho Miles em sua homenagem.

Mais do que nunca eu devia um texto, quando menos pelos elogios inesperados. Mas só fui escrever quase um ano depois. Era o meu recado particular, disfarçado de peça de campanha dirigida pelo Tarcisio Duarte e narrada pelo Edgard Martins. Foi escrita numa mesinha do café da produtora, em uns dois minutos, enquanto conversávamos. Pelo visto o texto já estava pronto há muito tempo, eu só não tinha escrito. Hoje, procurando outra coisa, descobri que ela estava no YouTube.

Revendo agora, depois de quase dois anos, gosto de pensar que Déda, que sempre teve absoluta consciência do seu papel e da sua missão, talvez tivesse gostado: em nenhum momento a gente esqueceu que o que a gente faz é política com sentimento, e em nenhum momento esqueceu o recado e o exemplo que ele queria nos passar.

Valeu, Déda.

O triste fim do futebol brasileiro

A quase derrota do Brasil ante o Paraguai anteontem foi melancólica. Talvez mais melancólica para mim, que lembro de um Brasil e Paraguai em 1979 como um dos primeiros jogos da Seleção Brasileira a que assisti.

Mais melancólica, no entanto, foi a certeza de que o futebol brasileiro acabou.

Não é pelo 7 a 1, nem pelo futebol feio ao mesmo tempo que ineficaz que se tornou a marca de um time que um dia “jogou por música”. Esses são apenas sintomas tardios. O futebol brasileiro vive já há muito tempo uma lenta agonia, cujo fim parece ser a redundância irreversível do antes considerado o melhor futebol do mundo.

As pessoas buscam causas aqui e ali. Criticam a corrupção endêmica na CBF, a velhice tática dos técnicos, a mudança estrutural do próprio futebol. Claro que todas essas mazelas contribuem, e muito, para deteriorar essa situação. Mas nada disso é razão suficiente.

A CBF em 1982 não era mais honesta que em 2016 — a única diferença era de escala. As concepções táticas atuais dos técnicos não são tão diferentes das de suas contrapartes europeias. E embora tenhamos hoje a impressão desconfortável de que somos um cachorro velho que não aprende os novos truques que os outros cachorros aprenderam, quem acha que o futebol mudou a ponto de se tornar realmente diferente deveria assistir ao documentário “Isto é Pelé”. Nele o ex-namorado da Xuxa menciona, em 1974, como o futebol tinha mudado desde 1958: mais rápido, menos espaços, mais aplicação tática — exatamente o mesmo diagnóstico que se faz agora.

Se eu fosse procurar uma culpada para servir de bode expiatório seria a Lei Pelé. E é no mínimo irônico que uma lei que deu dignidade ao ofício de jogador, e que leva o nome do símbolo da melhor fase do ludopédio pátrio, esteja destruindo o futebol brasileiro.

Não é que ela seja intrinsecamente má. Quando se lembra que Garricha deixou de ganhar um aumento porque um dos cartolas do Botafogo não admitia que um jogador ganhasse mais que um engenheiro como ele, não há como se opor à lei. Mas seus efeitos colaterais foram perversos.

Ao tirar dos clubes o controle sobre os destinos dos jogadores, a Lei Pelé tornou inviável a criação de grandes times como os do passado. Não é apenas o fato de que clubes não investem mais em jogadores porque sabem que na temporada seguinte eles estarão em outro time; é porque não têm mais condições de garantir que um time permaneça o mesmo por mais de um ano, e se perdem no labirinto complexo de negociações e renegociações em que cada um leva uma fatia do dinheiro, às expensas do time. Um time como o Flamengo do início dos anos 80 não é mais possível.

E sem grandes times, estáveis, não há grande Seleção Brasileira.

Até os primeiros anos depois do início da debandada geral dos jogadores brasileiros para a Europa, cada escrete canarinho era baseada nos melhores times de sua época. Em 1982, por exemplo, eram o Flamengo e o São Paulo; em 1962 e 1970, o Botafogo e o Santos.

Eram jogadores acostumados a jogar juntos. Conheciam seus companheiros de time, sabiam o que podiam esperar de cada um deles. E também eram acostumados a jogar uns contra os outros, o que os faziam também conhecer seus estilos, suas características. Com bastante tempo de preparação e aclimatação na velha e boa Toca da Raposa, era relativamente fácil formar um time entrosado e eficiente.

Era isso que fazia o Brasil o dono do melhor futebol. Não era o número de Copas conquistadas: era a certeza de que se teria, mesmo na derrota, um futebol com personalidade e um mínimo de qualidade. Eram os tempos em que o pior Brasil era infinitamente superior ao melhor Paraguai.

Em 1990 a Seleção tinha se tornado uma versão esportiva da Legião Estrangeira; e apenas Careca e Alemão jogavam juntos, no Napoli. Já naquele ano dava para perceber a diferença de qualidade em relação às Copas anteriores. Mas ainda havia um tempo relativamente grande de concentração, e embora claramente decadente a coisa ainda se sustentava porque, bem ou mal, os jogadores eram formados no Brasil. Iam para a Europa tarde, normalmente depois de consagrados na Seleção.

A Lei Pelé, acompanhando a evolução do mercado, pegou esse estado de coisas e o tornou insustentável. Indo cada vez mais cedo para o exterior — há dezenas, centenas de jogadores brasileiros mundo afora que sequer chegaram a jogar profissionalmente no Brasil —, eles simplesmente não conhecem uns aos outros. Convocados, trazem estilos de jogo diferentes entre si, baseados no modelo europeu. Alie a isso o tempo cada vez mais exíguo de preparação, e então pode-se compreender o 7 a 1. É impossível montar um time realmente bom dessa forma. O resultado é a dependência enorme do talento individual de cada um — que, por sua vez, precisa do suporte do grupo para se realizar. Como esse tal de grupo mal existe, o resultado é um jogo como o de anteontem.

A tragédia estava anunciada há muito tempo.

Talvez haja uma possibilidade de recuperação. Se não pode nem deve revogar a Lei Pelé, a CBF poderia determinar que apenas jogadores que atuem no Brasil possam ser convocados. Talvez isso pudesse forçar ao menos um adiamento da emigração; na pior das hipóteses, pode-se perder em talento, mas ganha-se em entrosamento e na redefinição de um estilo próprio, adequado aos novos tempos

Pode até parecer uma solução radical, e talvez nem seja suficiente. Mas qualquer coisa é melhor que o modelo atual.

Infelizmente, essa solução não vai ser tomada. De qualquer forma, o problema real está nos mecanismos do mercado, e contra eles não há remédio. E por isso é possível sair pelo meio da rua bradando em desespero que o futebol brasileiro acabou, que o futuro lhe reserva apenas sua cada vez mais rápida decadência à irrelevância.

Quem nasceu entre o final dos anos 60 e início dos 70 cresceu sob a égide do tricampeonato, ainda ouvindo os ecos de um tempo em que Pelé e Garrincha assombravam o mundo. Mesmo passando 24 anos sem ganhar uma Copa, sabíamos que só nos revoltávamos com isso porque acreditávamos que estávamos muito acima do resto do futebol mundial; uma Copa era um direito natural do melhor futebol do mundo. Tínhamos consciência de quem éramos, e essa consciência nos definia.

Não nos define mais.

Oscars de Melhor Filme: quem ganhou, quem deveria ter ganhado e por quê

Um dia, 11 anos atrás, resolvi fazer uma lista boba de filmes que ganharam o Oscar, e quais deveriam ter vencido no seu lugar, se fosse o caso.

Resolvi atualizar a lista e acrescentar alguns comentários rápidos justificando as escolhas. Os critérios continuam os mesmos: eu estava limitado apenas aos indicados.

Nesses 11 anos, vi e revi vários filmes. E é engraçado perceber que minha opinião mudou bastante sobre alguns deles.

Acima de tudo, uma certeza se consolidou: o Oscar não quer dizer nada sobre o cinema, nem mesmo sobre o cinema americano. É apenas um barômetro da indústria cinematográfica americana, suas circunstâncias e idiossincrasias. Não tem nada a ver com arte. Olhando a lista, o que realmente impressiona é o tanto de filmes brilhantes, muitas vezes melhores que a esmagadora maioria dos indicados, que foram repetidamente esquecidos pela Academia: “Rastros de Ódio”, “Tempos Modernos”, “Cantando na Chuva”, “Um Corpo que Cai”, “2001”, “Rio Vermelho”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Luzes da Cidade”, “Psicose”, “Manhattan”, “Quanto Mais Quente Melhor”.

A lista segue abaixo.

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Uma pequena bibliografia dos Beatles – edição definitiva

Ao longo dos anos publiquei neste blog algumas versões de uma pequena lista de livros fundamentais para entender os Beatles. Com o lançamento de All Those Years: Tune In, a lista mudou mais uma vez. Esta deve ser a última.

All Those Years: Tune In
Mark Lewisohn
A mais aguardada na história das biografias dos Beatles é também a melhor e mais completa, talvez definitiva. Um trabalho hercúleo de pesquisa e de checagem de fatos, é infelizmente uma obra ainda em andamento: este é apenas o primeiro volume (com mais de 800 páginas, além de uma versão especial estendida, imensa, para colecionadores) de uma trilogia — os próximos volumes, imagino, se chamarão Turn On e Drop Out. Uma análise um pouco mais aprofundada do livro está aqui.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações pelo seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, o livro mais acurado que já se escreveu sobre elas. Imediatamente se tornou uma bíblia para os beatlemaníacos, o livro a que se recorria para dirimir dúvidas. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações que mostrou lacunas e erros no livro. Ainda assim ele continua sendo imprescindível para a compreensão rápida do dia-a-dia dos Beatles, e importante para que se entenda o processo que fez da banda a maior de todos os tempos.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado pouco depois do Complete Beatles Recordings, é basicamente um diário das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida do que no livro anterior, e também um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, canções tocadas ao longo dos anos, etc. Traz também bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) —, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, e certamente uma fonte inestimável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua própria história, a sua versão edulcorada e consolidada para a posteridade. Além disso é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso? Está disponível em português.

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko), e este é um relato de insider. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor: as chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas e ciumeira internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ler um só, é um daqueles necessários para que se tenha uma visão mais completa, menos romantizada da história da banda.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do “Notícias Populares”, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por virtualmente todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido — Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados, inclusive pela própria Yoko. É também um bom mergulho na personalidade complexa de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que o ídolo que ele tenta destruir aqui era uma mistura única e fascinante de carisma e talento gigantescos e uma personalidade singular e muitas vezes detestável. Se lido com atenção e cautela, é um livro importante. Um pouco mais sobre ele pode ser lido aqui.

Here, There and Everywhere
Geoff Emerick
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de Revolver, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu bem, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está nesta lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor que Martin o seu papel real na história, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir desnecessária e injustamente o ex-patrão.

Beatles Gear
Andy Babiuk
Uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação — indo do Zenith de McCartney e o violão “garantido contra rachaduras” de Lennon ao Moog usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender como se materializava a música dos Beatles, e principalmente a relação deles com seus instrumentos. Incidentalmente, é um dos livros que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente é um livro de Barry Miles, mas isso é apenas disfarce para uma autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. Mas é uma fonte primária, assim como o Anthology, de modo geral bem honesto, e apesar de tudo abrangente e bem detalhado, fundamental para a compreensão da história dos Fab Four.

You Never Give Me Your Money
Pete Doggett
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contra-processos posteriores. Cobre uma grande lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro compreende muito bem a evolução histórica dos Beatles, tem um excelente nível de imparcialidade e boa apreciação musical. Sua única grande falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livro importante para entender o processo de separação da banda. Foi lançado recentemente no Brasil.

Revolution In The Head
Ian McDonald
Deixei esse livro de lado nas versões anteriores desta lista porque, embora universalmente incensado, sempre me pareceu tendencioso e incompleto, com algumas teorias meio estranhas; o próprio McCartney esculhambou recentemente McDonald, basicamente dizendo que ele não sabia do que falava. Mudei de ideia porque percebi que essa era uma visão elitista: para a maior parte das pessoas, Revolution in the Head é fundamental para conhecer as canções, sua história e seus significados, além de quem toca o quê em cada canção.

***

Além dos livros acima, há uma série de livros importantes que não foram incluídos por interessarem mais a beatlemaníacos exagerados. Enquanto os volumes restantes do All These Years não chegam, Shout!, de Philip Norman, e The Beatles de Bob Spitz ainda são necessários (falei sobre eles nas versões anteriores desta lista). The Beatles, de Hunter Davies, foi a primeira biografia de verdade da banda, definiu a sua história oficial e foi a mais completa até o lançamento de Shout!. Mas não apenas é extremamente sanitizada como chega a insistir em mentiras deslavadas, como as verdadeiras razões pelas quais Lennon espancou Bob Wooler na festa de 21 anos de McCartney; seu valor é meramente histórico. Get Back: The Unauthorized Chronicle of the Beatles “Let It Be” Disaster, de Doug Sulpy, é bem interessante e vale a pena ser lido. A Cellarful of Noise, de Brian Epstein, é uma fonte primária, mas tão ou mais mentirosa quanto o livro de Davies; em termos de relatos em primeira pessoa, John, Paul, George, Ringo and Me: The Real Beatles Story, de Tony Barrow; With The Beatles, de Alistair Taylor; e até mesmo As Time Goes By, de Derek Taylor, são melhores. Lennon é objeto de uma série de biografias que dão um bom perfil do artista. John Lennon: The Life, também de Norman, é uma boa biografia, ainda que sem nada de realmente importante; The Last Days of John Lennon: A Personal Memoir, de Fred Seaman, baseado nos diários que o autor roubou de Lennon, é limitado no tempo, cobrindo apenas seu último ano e meio, mas muito bom e equilibrado; A Twist of Lennon e John, de Cynthia Lennon, são importantes, e John Lennon: In My Life, de Pete Shotton, é excelente. All You Need is Ears, de George Martin, merece ser lido, claro, mas é bem inferior ao que poderia ser. Há hoje em dia uma série de biografias de McCartney, como McCartney de Chris Salewickz, McCartney: A Life, de Peter Carlin Ames e Fab: An Intimate Life of Paul McCartney, de Howard Sounes mas todas soam incompletas; delas, a melhor é a de Sounes. Está prevista para este ano uma nova biografia escrita por Philip Norman; como ele detesta seu biografado talvez traga algo realmente novo, mas é difícil. O mais provável é que, até que McCartney morra, dificilmente veremos uma biografia de qualidade, profunda e equilibrada como a de Peter Guralnick sobre Elvis Presley. Além disso, faltam boas biografias sobre George Harrison e Ringo Starr — no caso de Harrison, não custa ler sua autobiografia, I Me Mine. Finalmente, Recording the Beatles: The Studio Equipment and Techniques Used to Create Their Classic Albums, de Kevin Ryan e Brian Kehew, é um livro fascinante que, infelizmente, ainda não li: custa 450 dólares. Mas parece ser inestimável, e mesmo sem ler eu teria colocado na lista acima se não fosse excessivamente técnico.

 

Chatô – O Rei do Brasil

Eu não tenho nenhuma dúvida de que a maior surpresa cinematográfica que poderia ter em 2016 foi “Chatô — o Rei do Brasil”, o filme-odisseia de Guilherme Fontes que demorou 20 anos para ficar pronto.

A trajetória peripatética de “Chatô” é tão longa que é fácil perder de vista a sequência dos acontecimentos, e fazê-la maior que o próprio filme. Para que se tenha uma ideia do que aconteceu, pode-se ler a entrevista que Guilherme Fontes deu à revista Trip ano passado, no início do processo de finalização e divulgação do filme, em que conta a sua versão dos fatos. Ali parece estar um bom resumo desses 20 anos.

Ao que tudo indica, a entrevista à Trip deveria servir para, além de preparar o terreno para o lançamento do filme, limpar a imagem de Fontes; a mim, pelo menos, o cineasta passou a impressão de um megalomaníaco inveterado e de um sujeito que torce a verdade de acordo com uma visão toda própria do mundo. A todos nós que já tínhamos esquecido dessa história, a entrevista serviu também para reacender os medos sobre a qualidade artística do filme.

Um trailer semi-acabado divulgado no início do ano passado aumentou o pessimismo. Era muito, muito ruim. “Chatô” parecia, ali, reeditar todos os defeitos e vícios do cinema nacional: a alegoria inconsequente, a chacota patropi, a caricatura do personagem principal. Eu estava entre os que tinham certeza de que o filme seria uma grande, monumental tragédia.

Por isso a surpresa ao assistir “Chatô”, que depois de um lançamento modesto em algumas praças foi vendido rapidamente para o Netflix, no que parece ter sido um movimento acertado. Porque o filme que eu esperava que fosse uma tragédia medíocre é decente, digno, quase bom.

Em um aspecto, ao menos, ele está um ponto acima da média do cinema nacional atual: tem uma ambição estética que falta a grande parte dos filmes que chegam ao circuito comercial. Está longe, felizmente, da estética de novela das 8 de parte significativa da produção atual; mas recorre a fórmulas antigas e batidas como o julgamento do moribundo, usa a chanchada como principal referencial estético, igual a algumas dezenas de filmes antes dele, e de certa forma está firmemente ancorado nos anos 70, com a qual parece compartilhar a mesma visão niilista e elitista de um Brasil simultaneamente incurável e exuberante.

Mas o recurso da alegoria, que no trailer me pareceu temerária, salvou “Chatô” do destino medíocre de “Mauá, o Imperador e o Rei”, de Sergio Rezende, que ao tentar contar uma biografia vasta de maneira linear acabou se resumindo a uma costura rasa e mal feita  de episódios esparsos. Ainda que não seja excelente, “Chatô” é cinema, e um filme digno. Tem uma unidade que seria difícil de conseguir de outra forma; e certamente é melhor que a maior parte das comédias de situação que a Globo Filmes emplaca nos Cinemarks da vida.

Infelizmente o filme tem defeitos demais para que seja aclamado como a obra-prima que seus autores apregoam. O principal deles está na abordagem do seu protagonista. O Assis Chateaubriand que resulta da alegoria é unidimensional, pouco mais que uma caricatura, ainda que macunaímica. É impossível compreender a grandeza não apenas do personagem, mas do seu papel histórico em um momento de consolidação de um projeto de nação. Não são apenas as relações entre imprensa e poder que nos são apresentadas de maneira rasteira. A TV Tupi acaba sendo introduzida como pouco mais que uma arapuca para tomar dinheiro de anunciantes; vemos a epopeia da fundação do MASP como basicamente um leilão para satisfazer o ego de Chatô.

Esse é o grande problema do filme: somos apresentados não a Assis Chateaubriand, mas a um reflexo insuficiente e distorcido dele. Este filme não lida com sutilezas; e alguém que não conheça a sua história talvez desligue a TV se perguntando como diabos aquele sujeito ficou tão famoso e poderoso. “Chatô” não oferece essas respostas.

Talvez isso se deva ao fato de que a visão da política brasileira apresentada ali é pueril, simplória, e acaba refletindo um pouco aquela coisa já cansada do país vira-lata. Ao filme falta a necessária densidade de pensamento para compreender o papel de Chateaubriand na história do país. Talvez seja também por isso o recurso à farsa, o equivalente cinematográfico à pizza política; se não dá para explicar, vamos fazer uma piada. O resultado não é exatamente ruim; mas define bem os limites a que o filme pode chegar.

Apesar do sotaque, Marco Ricca está excelente como Assis Chateaubriand — e um roteiro mais denso poderia extrair uma atuação excelente (o mesmo, curiosamente, não pode ser dito dos atores que falam um inglês tosco).

No fim das contas, “Chatô” cumpre duas grandes missões. A primeira é dar, com dignidade, um fim à maior novela de produção da história do cinema brasileiro; não é à toa que Fontes vem falando em fazer um novo filme, agora sobre as aventuras dessa produção. A segunda é deixar o espectador que se interessa pela história com um gostinho de quero mais. Mas não será o cinema a dar essa resposta.

No final dos anos 90, a TV ainda não havia passado pela revolução criativa que das séries dos canais por assinatura americanos. Um filme de cerca de duas horas talvez parecesse, portanto, a única forma de contar com alguma qualidade as aventuras e desventuras de Assis Chateaubriand contadas por Fernando Morais. Hoje, a TV é o meio mais adequado para narrar essa história.

Sir George Martin

O que mais chama a atenção nos obituários de George Martin publicados hoje são uma omissão insignificante e a maneira como insistem em uma mentira que, de tão repetida, foi verdade durante muito tempo.

A mentira está até mesmo na matéria do New York Times, assinada por um sujeito que realmente entende do assunto, Allan Kozinn. Ele começa repetindo essa história falsa, chamando o recém-finado de “the urbane English record producer who signed the Beatles to a recording contract on the small Parlophone label after every other British record company had turned them down”. É uma narrativa que vem dos tempos em que a máquina promocional de Brian Epstein e Derek Taylor consolidava a história oficial da banda.

A verdade é que Martin não contratou ninguém: os Beatles lhe foram impostos pela Parlophone. Felizmente Kozinn corrige o erro do parágrafo inicial mais adiante, narrando corretamente os fatos e esquecendo apenas de mencionar a verdadeira razão da contratação. Mas os outros jornais e sites continuam repetindo o mito do George Martin que apostou nos Beatles quando todo mundo lhes voltava as costas.

Em 1962 Martin estava com sérios problemas pessoais. Seu casamento estava naufragando e ele mantinha um caso com sua secretária, Judy, com quem ficaria casado até ontem. Embora responsável pelo A&R da Parlophone, as complicações decorrentes dessa situação familiar não lhe permitiam elevar muito a voz em questões do tipo.

Em The Complete Beatles Recording Sessions, de 1988, Mark Lewinsohn já tinha apontado a discrepância entre os documentos existentes e a versão oficial: o contrato dos Beatles fora assinado no dia 4 de junho de 1962, dois dias antes da famosa primeira audição. Na época ele imaginou que fosse um erro de datilografia. Mas há alguns anos, no primeiro volume de All Those Years, sua biografia definitiva da banda, Lewisohn juntou os dados que faltavam e mostrou que não foi erro: apesar do que Martin repetiria até a morte, ele não desempenhou absolutamente nenhum papel na contratação da banda.

A contratação teve relativamente pouco a ver com as qualidades musicais dos Beatles: Brian Epstein era um dos principais revendedores de discos do norte da Inglaterra, e jogou seu peso comercial para conseguir o contrato. Martin sequer julgou necessário estar presente à tal primeira audição, no dia 6 de junho, mandando seu assistente em seu lugar. O assistente gostou do que ouviu e insistiu para que ele fosse até lá; incidentalmente, isso selou o destino do baterista Pete Best, pobre Pete Best.

Ao longo dos anos, o papel de George Martin na trajetória da banda foi inflado injustamente; ele jamais seria o “quinto beatle”, como querem agora os obituários, porque não existe essa figura. Os Beatles sempre se viram como uma unidade monolítica diante do resto do mundo, o “monstro de quatro cabeças” como dizia Mick Jagger; e quando Lennon mudou de ideia e quis empurrar um certo niguiri goelas dos outros abaixo, a casa caiu.

Além disso, às vezes se tem a impressão de que os Beatles eram apenas a mão de obra que realizava as ideias de Martin; sobre isso eu já escrevi há muito tempo, aqui.

Nada disso tira os méritos e a importância de George Martin na história dos Beatles.

Ele foi o homem ideal para uma banda excepcional. Compreendeu como poucos o verdadeiro papel de um produtor: tirar o melhor possível de um artista, valorizando sem modificar a sua música. Um sujeito mais autocrático e com ideias próprias de como os outros devem soar, como Phil Spector, poderia ter destruído aqueles Beatles ainda verdes no estúdio. Ao contrario, respeitando a banda Martin possibilitou que ela florescesse. Soube sair do seu caminho, e estar presente quando a banda precisava. Também conseguiu adaptar seu papel de acordo com a evolução dos Beatles: serviu como guia nos primeiros tempos, e mais tarde, diante de um grupo cada vez mais ambicioso e inovador, consciente de suas possibilidades, deu materialidade a suas ideias. Talvez isso se deva mais ao talento absurdo e à força comercial dos Beatles do que às qualidades de Martin; o que importa, mesmo, é que a foto que ilustra este post (tirada em 1969, nas sessões do Abbey Road) mostra uma cena impensável antes de 1965.

O lugar de George Martin na história da música pop está assegurado há muito tempo. Talvez por isso tenha passado batido uma omissão curiosa nesses obituários: foi Martin quem definiu o som definitivo das canções de abertura dos filmes de James Bond, ao realizar a gravação magistral de Goldfinger com Shirley Bassey para “007 Contra Goldfinger”. É um detalhe bobo, uma nota de rodapé sem importância de que ninguém parece lembrar.

E enquanto ouço pelo milionésima vez A Day in the Life, acho que sei por quê.

O 18 de Brumário de Luke Skywalker

Fui assistir ontem a “Star Wars – O Despertar da Força”.

Primeiro, uma sensação estranha: a projeção digital deixa a imagem absolutamente limpa. Vão longe os tempos em que arranhões e sujeira davam uma personalidade gauche a um filme, especialmente às cópias mais antigas e surradas. Isso é certamente o sonho realizado de qualquer cineasta ao longo dos últimos cem anos, mas ao mesmo tempo torna a experiência de ir ao cinema, que há tempos vem se tornando uma estranha para mim, mais asséptica. Cada vez mais, ver filmes na minha TV se torna não apenas desejável, mas equivalente.

Por ser uma sessão tardia num domingo, e um tempo razoável depois da estreia, o cinema não estava cheio. Havia fileiras inteiras vazias. E isso me privou — ou poupou — dos gritos aos primeiros acordes do tema de John Williams, daquelas manifestações de emoção coletiva que ajudam a definir e distorcer nos espectadores a percepção de um filme.

Star Wars é um fenômeno muito curioso. Como filme, o primeiro era simplesmente ruim. Trama medíocre, atores fracos (com exceção de Alec Guinness se perguntando em cada cena o que fazia ali, enquanto tentava dar dignidade a diálogos que jamais se elevam acima do clichê), Star Wars nunca foi mais que um pastiche óbvio de 50 anos de filmes de aventura. Não tem sequer a dignidade do arquétipo bem consolidado.

Mas um filme não se resume ao que está no celuloide. Mesmo ruim, Star Wars consolidou o processo de renovação do cinema como indústria e comércio, revigorando um setor que até então vinha lidando muito mal com a concorrência da televisão.

Acima de tudo, ele tinha algo único e novo. Deu início a uma nova era, a dos efeitos especiais e da estética como principais elementos do filme: a primazia absoluta da forma sobre o conteúdo. Sua importância jamais poderá ser superestimada.

Star Wars é ainda mais curioso por ser um fenômeno de construção a posteriori. Com o seu sucesso estrondoso e a possibilidade de extensão em novos filmes, novos elementos foram introduzidos com o carro andando; em “O Império Contra-Ataca”, Darth Vader se tornou pai de Luke Skywalker; em “O Retorno de Jedi”, Leia se tornou sua irmã. Mais tarde, quando Lucas percebeu que o filão era maior do que ele pensava, virou uma trilogia desde criancinha e logo depois criou-se a ideia de que deveriam ser nove filmes. Apareceu também um verniz de Joseph Campbell para dar algum pedigree intelectual a uma mera cópia de filmes B. Tudo isso foi possível porque, como história, Star Wars era tão rarefeito que admitia camadas e camadas de novo reboco teórico. É admirável: Star Wars é uma obra em andamento.

(É talvez o mais espantoso na legião de fãs de Star Wars: a maneira como acreditam no grande caô inventado aos poucos por George Lucas, ou como se referem à inspiração em Kurosawa como algo único, como se o japa não estivesse presente em tantos filmes, principalmente de estudantes de cinema como Lucas. Mas nestes tempos a cópia se tornou valor digno e mesmo louvável.)

Então chegamos a “O Despertar da Força”, caminhando célere para se tornar a maior bilheteria da história. Vai conquistar esse marco mesmo sendo um filme ruim.

A história é conhecida, porque é a mesma. Começam da mesma forma: uma mensagem secreta dentro de um robô que não fala. O resto é basicamente adaptação de um velho roteiro aos novos tempos. A atriz principal agora é uma mulher — ou melhor, pelo menos dos próximos filmes, porque este é um filme de transição e por enquanto Harrison Ford ainda é o astro — e o outro é negro. Há mais diversidade no elenco. Há mais cuidado com as piadas e com a representação das minorias. A Disney, louca para recuperar logo o investimento na Lucasfilm, coloca o velho para introduzir o novo: Han Solo ainda pilota sua nave e Luke Skywalker virou Yoda. E no que é talvez o único personagem minimamente decente do filme, Darth Vader Kylo Ren é um millennial torturado e mimado que, quando contrariado, prefere dar chiliquinhos e quebrar tudo a estrangular pessoas. Mesmo vilões de alma negra têm sentimentos hoje em dia.

A maneira como o filme representa o contexto político é vergonhosa, ainda mais medíocre do que o primeiro. Toda e qualquer esperança de coerência e verossimilhança política foi abandonada. A tal Resistência, numa excrescência única, parece ser uma espécie de poder paralelo com vida própria, que não faz nenhum sentido num tempo de República restaurada — República que por sua vez parece só existir em um planeta e se acaba quando ele é destruído, coisa que até agora não consegui entender. Nesse aspecto, os filmes feitos entre 1999 e 2005 são melhores. Por precisarem explicar em três episódios um final já conhecido, deram uma certa densidade narrativa ao processo que resultou em Darth Vader. Neles a instalação do Império, inspirado na Roma Antiga, faz mais sentido que a ascensão da tal Primeira Ordem. Uma República tão incompetente merece mesmo ser varrida do mapa, junto com esses Jedis que não fazem nada direito — se alguma lição pode ser tirada de um filme tão acéfalo, é a de que a Força só se realiza mesmo no seu lado negro.

Enquanto o primeiro Star Wars, em toda a sua mediocridade, trazia uma série de novidades, “O Despertar da Força” é uma Hollywood esgotada, em sua pior forma. Representa o abandono total do esforço por novas ideias e faz do que deveria ser um filme de verdade uma tentativa canhestra de apenas reembalar um produto antigo para um novo público.

Seu problema não está apenas na falta absoluta de alguma criatividade. Está principalmente no fato de que a adaptação aos novos tempos é medíocre, inferior ao que se faz hoje em dia.

Em 1977 não havia nada como Star Wars. Mas o passar do tempo trouxe inovações no modelo instituído por ele, e pode-se ver o clímax atual desse processo no último Mad Max: argumento parco, exuberância visual, ritmo incessável. “O Despertar da Força” sequer consegue se alçar a esse patamar. É mais um entre tantos filmes de ação de praxe, e seu sucesso baseia-se apenas na vontade dos fãs de serem enganados a qualquer custo.

Claro que cinema é isso, é escapismo, é indústria. É manipulação de emoções. Mas deve ser também arte, ou pelo menos ter alguma ambição além de vender; este filme não é nada disso. Não há nenhum valor artístico em “O Despertar da Força”. Há o clichê elevado ao décimo grau, há a cópia ruim, uma peça que parece ter saído de uma linha de produção de segunda e concebida por um comitê pouco brilhante em sua crença de que tecnologia substitui ideias. A única coisa realmente boa é que, pelo menos, aqui não há mais os bonecos de Jim Henson que ajudaram a fazer de “O Retorno de Jedi” uma espécie de Muppet Show espacial.

“O Despertar da Força” recebeu elogios de uma crítica que se diferencia cada vez menos de meros reprodutores de press-releases. Ainda assim, as coisas parecem passar dos limites quando as pessoas se emocionam com um esquema tão rasteiro, tão pasteurizado.

Dizia o barbudo que a história se repete como farsa. Mas não sei se ele, algum dia, imaginou quão felizes e anestesiadas, embrutecidas, as pessoas viriam um dia a embarcar nessas farsas.

Get Back, again

Então você acorda e dá de cara com esse novo clip dos Beatles.

Ele apenas parece a sequência original do filme Let it Be. Mas é a versão do Let it Be… Naked, que mistura os dois takes gravados no concerto do telhado. Embora eu prefira a versão original do filme, com Lennon naturalmente esquecendo a letra, este vídeo é fantástico — a dancinha de McCartney, por exemplo, é imperdível. Acima de tudo, tem um número enorme de cenas inéditas. E a qualidade da imagem é insuperável.

Mais que isso, ele faz pensar.

Descontando o disco Live at the Hollywood Bowl, que os Beatles tiraram de catálogo, o filme Let it Be é o último grande relançamento restante para a banda. Todos os outros já foram lançados em DVD ou BluRay; seus discos foram remasterizados; novas gravações vieram à luz do dia nos últimos 21 anos. Por isso, durante muito tempo acreditei que deveriam relançar o filme no formato 4:3 como foi gravado, acompanhado de um disco com extras, cenas que ficaram de fora, etc.

Eu estava errado. Ou melhor, não percebia que algo muito melhor era possível.

O fato é que Let it Be é horroroso. No fim das contas, em nenhum momento o diretor Michael Lindsay-Hogg consegue construir uma narrativa coerente: o que temos é basicamente um amontoado de cenas, praticamente sem nexo narrativo, seguindo de maneira frouxa e inconsequente uma certa ordem cronológica. É quase como se ele tivesse abdicado do papel de diretor.

Não foi culpa exclusiva dele. O clima caótico entre os Beatles não colaborava; e para piorar, a banda praticamente abandonou o projeto. Mesmo McCartney, que se envolveu um pouco mais, esteve distante. O primeiro copião tinha uma hora a mais e continha um bocado das discussões internas entre eles (você pode encontrar muitas delas aqui, um dos sites mais pungentes sobre a banda). Mais tarde o filme foi reeditado para tirar a lavagem de roupa suja. Como se não fosse o bastante o filme, que tinha sido filmado em 16mm para a TV, foi expandido para 35mm e teve que ser cortado para se adaptar ao formato final, 1.66:1. Não deve ter sido fácil. Mesmo assim, diante de tanto material, pode-se especular que um diretor um pouco mais experiente, por medíocre que fosse, poderia ter feito um trabalho minimamente coerente.

Esse clip de Don’t Let Me Down me mostrou o óbvio: em vez de perder tempo tentando a salvatagem dessa tragédia, há material suficiente para que se faça um novo filme. Um que estabeleça melhor as três fases da história e conecte-as de forma mais orgânica: ensaios no estúdio Twickenham, gravações no estúdio da Apple, show no telhado. Bem dirigida, essa progressão poderia mostrar a evolução do clima entre eles (que odiaram gravar em Twickenham, gelado em todos os sentidos, e uma das condições estabelecidas por Harrison para voltar à banda foi a mudança para os estúdios da Apple; junto com a chegada de Billy Preston, isso contribuiu para que o astral geral melhorasse, levando à apoteose de entrosamento e bom humor que se vê no telhado).

Os lançamentos da Apple Corps. nas últimas décadas são um indício forte de que há muito material de qualidade nas suas estantes. O farto material disponível em bootlegs é a prova definitiva. O novo filme poderia incluir as tantas e tantas gravações de clássicos do rock, de velhas canções (esse take de Love Me Do, que eu utilizaria para fechar o filme, é ótimo).

Eu chamaria esse filme de Get Back. E pediria a Martin Scorsese que o dirigisse. Tenho a impressão de que Scorsese faria até de graça.

Mas é improvável que esse material seja lançado algum dia, ou pelo menos enquanto os Beatles restantes estiverem vivos. O filme original já foi restaurado há mais de 20 anos, e mesmo assim jamais foi lançado. Dificilmente será, enquanto McCartney, Starr e Ono estiverem vivos. Para os sobreviventes desse naufrágio, 45 anos depois Let it Be ainda é incômodo, talvez dolorido.

É uma pena. A trajetória dos Beatles já entrou para o domínio público da cultura pop. Uma versão estendida e melhorada apenas acrescentaria grandeza a uma história mítica, e encerraria uma saga que, quase meio século depois, ainda continua. Paul, Ringo e Yoko apenas deviam deixar estar.