Joffre

E daí que hoje eu lembrei do velho Joffre Galvão, que há muito, muito tempo, dois anos antes de morrer, me disse: “Rafa, se eu não foder, vou fazer o quê da vida?”

E eu bebo uma garrafa de vinho em homenagem ao velho Joffre, que não bebia.

Triste fim de Tróia

Acabei de descobrir que Tróia não tem mais acento. Troia. Parece trolha. Os gregos de Agamenon, os atenienses, os persas, os espartanos, os macedônios de Alexandre, os romanos, todo mundo meteu a mão na desgraçada do Helesponto, todo mundo tirou sua lasquinha, como se a gloriosa Tróia de Páris fora uma prostituta bêbada em um fim de noite, pobre guardiã do Dardanelos — e agora ela é destruída mais uma vez pela reforma ortográfica do dr. Houaiss. Sina triste, a dessa cidade.

Super-Heróis

Acho que ainda não vi ninguém mencionando isso: mas entre as invenções do século XX, uma das mais importantes foram os super-heróis.

Na verdade, considerando que o automóvel, o telefone, a transmissão de energia elétrica e o cinema foram criados no século XIX, os super-heróis são uma das poucas grandes invenções do século passado, provavelmente tão importante quando o computador, a internet e as viagens espaciais. Depois que dois garotos americanos trivializaram um conceito nietzscheano e criaram o Super-Homem, as coisas mudaram definitivamente, e talvez não para melhor.

Até o início do século passado, os heróis eram humanos, sempre. D’Artagnan, o Corsário Negro, Allan Quatermain, Jim Hawkins. Mesmo o Tarzan, se não era comum, era gente como a gente, sem nenhum superpoder. Com a chegada dos quadrinhos, os primeiros heróis seguiam essa risca: o Fantasma, Flash Gordon e o Príncipe Valente eram pessoas normais, com as habilidades possíveis, mesmo que eventualmente exageradas ou em ambientes improváveis, como a selva africana ou o planeta Mongo.

Mas havia um aspecto ainda mais importante, quase antagônico ao panorama atual: o sobre-humano era sempre associado ao mal. Tinha sido assim durante séculos. Dr. Hyde, Drácula, o monstro de Frankenstein: a moral subjacente a todos eles era a de que a busca pelo além não podia terminar bem, como não terminou para Adão nem para Prometeu. O modelo ideal era o humano: imperfeito, fraco, mas familiar e acessível. Um herói era aquele que se superava e fazia, talvez melhor, tudo aquilo que qualquer um pode fazer, e não alguém que tinha grandes poderes e com eles grandes responsabilidades.

Por isso, até o início do século passado um garoto qualquer poderia ter como heróis e modelos alguém que, ao menos em teoria, ele podia ser. Bem ou mal, ele sabia que, com esforço e nas circunstâncias adequadas, poderia sobreviver na selva como um Tarzan, desvendar um crime impossível como Sherlock Holmes, domesticar um lobo como o Fantasma.

O Superman representou uma ruptura nesse modelo e deu início a uma nova era. Mas mesmo ele começou timidamente. O Superman de 1938 era mais forte, saltava mais alto, corria mais rápido, mas ainda era uma evolução apenas, não algo totalmente diferente, e só existia em comparação com o demasiado humano. Apenas com o passar do tempo ele adentraria o campo do improvável, voando, usando uma tal visão de raio X, essas coisinhas do Superman. E ainda assim, os outros heróis mais importantes desse início de era ainda eram “normais”, como o Batman ou mesmo o Capitão América.

Mas já não havia mais havia mais volta. O princípio básico do herói, a sua humanidade, tinha sido rompido ali. Aos poucos outros foram surgindo, como o Capitão Marvel e o Tocha Humana, ainda nos anos 40, e mais tarde o Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha: heróis que já não precisavam respeitar sequer a mínima fímbria de plausibilidade; e talvez como resposta a esse novo que ele tinha anunciado, em pouco mais de dois anos o próprio Superman passou a voar e fazer essas coisinhas do Superman.

Mais que isso, os super-heróis tomaram conta do imaginário como virtualmente nenhum personagem de ficção antes dele. Hoje o Homem-Aranha é mais famoso que Jesus Cristo, e está na psique coletiva de maneira muito mais constante e intensa do que, por exemplo, Aquiles ou o Rei Artur. Eu não perderia um tostão se apostasse que o Batman é muito mais conhecido do que o Barão de Charlus.

Mas acho que algo importante mudou quando os heróis passaram a ter essa dimensão sobre-humana. E não consigo deixar de imaginar que talvez isso tenha algo a ver com essa era estranha, ansiosa e frustrante em que as pessoas vivem. Talvez seja como se o impossível tivesse deixado de ser realmente impossível, e essa noção tenha contaminado, em algum nível muito profundo, a maneira como as pessoas enxergam o mundo. Super-heróis talvez sejam uma face do hedonismo quase mandatório que se tornou a regra das sociedades atuais. Talvez. Certo, mesmo, é que essa invenção do século XX encontrou no século XXI ninho farto para crescer e tomar conta da imaginação de todos.

***

No século XXI esse processo avançou ainda mais.

Demorou até os super-heróis chegarem adequadamente ao cinema — sem contar desenhos animados como os do Superman pelo Max Fleischer ou a fantasticamente tosca série da Marvel dos anos 60.

Mas em 1979, o primeiro grande filme de super-heróis, Superman, concorreu apenas a Oscars técnicos, como edição, música original, som. Agora, filmes de super-heróis concorrem ao Oscar de melhor filme. É uma mudança significativa não apenas de sua importância na indústria cinematográfica, mas da própria sensibilidade da plateia. O processo de transformação desses personagens feitos com a única intenção de vender revistas e garantir o leite das crianças em mitos se completou.

O século XXI tem sido a era dos filmes de super-heróis por uma única razão: porque agora é possível fazê-los. Não há mais limites. Em 1978 o Hulk de Lou Ferrigno precisava de uma boa dose de boa vontade para ser encarado como tal. Hoje isso não é mais problema, e o Hulk pode ser feito como seus autores o conceberam (por que, mesmo depois de três filmes diferentes, ainda não conseguiram é um mistério para mim).

Mais que isso, o cinema é a nova casa dos super-heróis. As vendas de revistas em quadrinhos caem a cada ano. Não é de admirar: nas bancas — eu sou um ser do século passado; ainda gosto de bancas de jornal —, de vez em quando folheio algumas revistas e vejo um tal de “Aranhaverso” com um bocado de Homens-Aranha, um Peter Parker que agora é o dono milionário de uma empresa de tecnologia, e o Bruce Wayne não é, de novo, o Batman. O mundo dos super-heróis alcançou um nível de pseudo-complexidade que as torna distantes do que eu, pelo menos, entendia como quadrinhos.

Isso me incomodava até que vi a notícia de que a Marvel tinha cancelado os títulos do Quarteto Fantástico, virtualmente apagando a presença da marca nas bancas, para esvaziar a força de mercado dos personagens e forçar a Fox a lhe devolver os direitos cinematográficos sobre o grupo.

Se a Marvel faz isso com um dos seus super-heróis mais queridos — foi o Quarteto que deu início à revolução dos quadrinhos que a ela empreendeu a partir do início dos anos 60 —, a razão é muito simples: hoje, as revistas não são realmente importantes. Os filmes são. Enquanto a venda de revistas lhe gera milhões de dólares por ano, os filmes geram bilhões a cada nova edição — e alimentam a venda de merchandising de todo tipo, que rendem ainda mais. Mais vale fazer um filme do que editar 300 revistas. Não importa que a fórmula pareça estar se esgotando: é para assistir a esses filmes que as pessoas continuam indo ao cinema.

A era das revistas em quadrinhos passou. Mas os super-heróis se tornaram maiores que elas. São novos deuses de uma sociedade cada vez mais descrente. Para o alto, avante e amém.

O tempo que passa

Da primeira vez que fui a Paris, décadas atrás, eu olhava para os velhinhos com quem cruzava na rua, alguns deles sobraçando baguetes, outros com aquele indefectível boné coroando um rosto curtido pelo tempo, e pensava: esse sujeito atravessou a II Guerra, aquele talvez tenha lutado na Resistência.

Depois os velhinhos começaram a rarear. Ou melhor, as suas histórias começaram a rarear.

Agora, eu olhava para os velhinhos e no máximo podia pensar: esse aí viu as barricadas de 68.

O passado não é mais como era antigamente.

Cinderela 77

Imagino que um bocado de gente já tenha visto isso, o último capítulo de “Cinderela 77”, uma novela da Tupi exibida em — surpresa! — 1977. Mas não custa postar aqui.

(É a maravilha da internet, especificamente do YouTube. A maior parte das gentes louva o link com o futuro que essas coisas de internet propiciam; eu sou grato pela chance de acertar as contas com o passado. De repente, um mundo de informações que pareciam perdidas para sempre no último grotão de minha memória reaparece aqui. Ninguém jamais vai saber o quanto sou grato ao YouTube por essas coisas. Eu vi capítulos dessa novela nessa época. Odiava novelas e desprezava quaisquer coisas associadas a elas — mal-estar que o tempo e a velhice destruíram, substituindo-as por uma condescendência extemporânea; mas lembro do robô que falava “PT saudações” [as gerações mais novas imaginarão que ele se referia ao Partido dos Trabalhadores e não a telegramas, pobres gerações ignorantes de um passado inútil] e de Sandoval. Eu sempre gostei dos vilões.)

Olhando agora, em retrospecto, fico impressionado com o uso da metalinguagem nessa novela.

Nos anos 70, a Tupi era uma empresa que respondia pelos erros de julgamento (e familiares) de Assis Chateaubriand e estava condenada ao fim. Reclamem o quanto quiserem, apontem as teorias conspiracionistas que desejarem: a verdade é que Figueiredo só apressou o desenlace inevitável. Ela mal pagava seus funcionários, se pagava. As condições técnicas eram terríveis. A sensação de fim cada vez mais próximo era inevitável, apenas contrabalançada pela fé na força de sua história.

Em diversos lugres vejo pessoas lembrando dos bons tempos da Tupi, muito parecidas com as que lamentam o fim da PanAir. A verdade é que tudo aquilo era heróico, sim, mas também era trágico. Conheço bem o espírito de improviso que fez parte do universo da TV durante muito tempo, e acho que ele só é bonito em retrospecto. Imagino quantos comerciais não foram editados clandestinamente na TV Tupi, quando o jabá era praticamente institucionalizado. Imagino o clima de “cada um por si e Deus que se foda” que a situação decadente da TV propiciava.

Mas quando vejo a liberdade criativa que era possível na Tupi, tudo isso acaba parecendo valer a pena.

A Tupi já tinha inventado a telenovela moderna com “Beto Rockefeller”, quase 10 anos antes. Há alguns capítulos disponíveis no YouTube, tirados do site da Cinemateca Brasileira, e eles são fascinantes. A linguagem se assemelha, em vários momentos, à do Cinema Novo, e imagino que se deva à mesma falta de dinheiro e de tecnologia. Os atores trazem muitas vezes os vícios do teatro, as marcações rígidas, o apego excessivo aos rr ditos corrrrretamente. Mas conseguem passar a emoção necessária, ao contrário dos atores despreparados que se vê nas novelas de hoje em dia.

É por tudo isso que fico impressionado com a liberdade criativa de que uma novela como “Cinderela 77” pôde desfrutar. Uma novela feita para o público do início da noite com resultado é fascinante, e quem tem alguma familiaridade com as tragédias gregas vai encontrar um bocado de pontos de convergência. E depois, se não for pedir demais, compare com as novelas pasteurizadas e engessadas da Globo hoje.

Isso não quer dizer que eu ache que a Globo destruiu a criatividade na TV. Pelo contrário. Ao contrário de outros comunistas velhos de guerra, tenho uma admiração sem tamanho pela tal Vênus Platinada. Mas para mim, pessoalmente, rever essa novela significa rever padrões estéticos que definiram a base do meu modo de ver TV, e que já foram superados há mais tempo do que ouso contar. Mas representa acima de tudo um deslumbramento com o talento, a ousadia e o amor que você vê em cada frame. Não se faz mais TV aberta como antigamente.

(Este post é um oferecimento da Associação dos Leitores Revoltados com a Cagada na Cabeça de Rafael Naqueles que Falam que “Minha Infância Foi Melhor Que a Sua”.)

Infância

Há uma série de coisas que me irritam no Facebook; mas tem uma, em particular, que me faz pensar em como as pessoas conseguem usar qualquer coisinha de nada para se autoconferir uma nesga de grandeza imaginária e ter o direito putativo de serem arrogantes no pouquíssimo que acham que podem ser.

São aqueles posts que falam que sua infância foi melhor que a atual. “Você viveu isso ou isso? Parabéns, sua infância foi a melhor”, e daí para baixo.

Eu gosto muito da minha infância. Nostálgico jamais arrependido, gosto de lembrar dela, dos elementos que a fizeram. Sigo grupos de outros saudosistas que viveram o mesmo que eu, como Imagens Antigas de Salvador, Aracaju Como Eu Via, Imagens Antigas do Rio de Janeiro. Gosto da minha infância, repito; mas não porque ela foi melhor que as outras, de outros tempos. Gosto porque foi a minha infância, a única que eu tive e da qual às vezes tenho dúvidas de que saí. Gosto como alguém gosta de jenipapo.

É por isso que quando vejo alguém se vangloriando por ter andado de carrinho de rolimã, por exemplo, tenho a certeza de que o nível de estupidez mundial não dá sinais de arrefecer.

Eu andei, também. Tenho uma cicatriz no pé para provar. E que merda, isso. Sinceramente, em vez de andar de carrinho de rolimã eu queria era ter dinheiro para comprar o CP-500 que era bonitão mas que nunca tive e por isso eu tinha que me contentar em ir para a rua brincar.

Joguei bola de gude joguei bafo quase aprendi a rodar pião joguei bola e fiz gols porque eu colocava a bola onde queria quebrei braço quebrei cabeça quebrei braço de novo vi todas as unhas dos pés irem embora nas topadas mas elas sempre voltavam e Maura a empregada fazia o melhor bolo de laranja fui ao circo ver o domador de leões brinquei todas aquelas brincadeiras violentas que os meninos de minha época brincavam sofri bullying na escola e fiz bullying também porque o mundo é um grande sistema de compensações e talvez eu seja um pouco menos estressado porque briguei muito na rua e levei murro e levei chute mas bati mais do que apanhei.

O que me consola bastante.

Mas grandes merdas, tudo isso. Para começar, essa meninada faz mais sexo e mais cedo do que a minha geração, criada numa pequena província de muro baixo. E só por isso ela já é melhor (em compensação não vai poder as históricas tragicômicas que eu posso contar). Mais que isso, faz sexo com menos preocupações, com menos culpa.

Eu posso até lamentar que não leiam mais as historinhas Disney que eu lia; eles certamente não sentem a mínima falta. E se estranho a maneira cada vez mais diferente com que se relacionam, utilizando a internet e estabelecendo novos padrões, o fato é que essa é uma geração que está avançando em uma nova fronteira, instaurando uma nova normalidade. Não é pior, nem melhor. É só diferente.

Há exceções, claro. A TV aberta era realmente melhor que a atual — a variedade de atrações numa mesma programação me impressiona até hoje —, e o fato de mesmo assim haver poucas opções fazia com que ela tivesse um papel importante e já desaparecido, de unificação da conversa (“Bestão, você não viu mesmo SWAT ontem?”, e droga, agora eu tinha que dar uma porrada no babaca que disse isso, porque eu caía no sono às 8 da noite e não tinha tempo de ver SWAT porra nenhuma). Para quem, como eu, gostava de filmes — ainda era cedo para gostar de cinema — a programação era infinitamente melhor. A programação era composta principalmente de alguns dos grandes clássicos do cinema anos 50. Chaplin era exibido na Sessão da Tarde.

Se alguém realmente acha que a sua infância foi melhor que porque assistiu a “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, que pena que se contente com tão pouco. A propósito, os meninos de hoje também podem ver o seriado, e na hora que quiserem, porque ele está no YouTube — enquanto na minha época a gente via quando a TVs deixavam. Eles só não veem graça nele, e eu entendo.

A meninada tem Netflix, tem torrents para assistirem o que quiserem quando quiserem, têm Spotify para ouvir a música ruim que se faz hoje — mas é a música deles, do seu tempo, como eu tinha que aturar a música ruim do meu tempo. Sua noção de tempo para esse tipo de relação com o mundo e com a informação e o entretenimento é provavelmente o sonho de todo menino de minha época, que não tendo nada disso se contentava em subir em árvores, como macacos vinham fazendo já havia milhões de anos.

Em virtualmente todo e qualquer aspecto, a infância de hoje é melhor que a de antigamente.

E sempre que vejo algum sujeito encher a boca para falar de como brincou de carrinho de rolimã, eu penso: besta, brincou porque não tinha internet.

“Dona Olga não tirou essa fotografia em vão.”

Eis uma confissão desnecessária: eu estou longe, muito longe de ser um sujeito modesto. Não tenho culpa, foi Deus que me fez assim.

Mas sempre que leio esses anúncios, tenho a certeza de que precisaria comer muito feijão até ser um redator tão bom.

(Outros três títulos dessa mesma campanha: “Não trabalha na Prefeitura, mas já tapou muito buraco por aí”; “Já passou dos 30. Mas podem vir quente que ela está fervendo.”; e “Roubaram a mulher do Romeu. Juro por Deus que não fui eu”.)

Essa campanha tem quase 40 anos, e foi veiculada em 1978 pela Publivendas, em Salvador. São os textos que me fascinam, que me impressionam além do normal.

São praticamente crônicas da vida comum. Contam detalhes da vida do ouvinte de rádio que mesmo hoje, quatro décadas depois, ainda são verdadeiros. É uma campanha absolutamentebrilhante.

E ela acabou participando de um episódio curioso na minha vida.

Olhando para trás, é assustador que esse episódio já tenha um quarto de século — fazendo aniversário por esses dias, se já não fez.

Eu trabalhava em uma agência de Aracaju e estava fazendo uma campanha para uma rádio local. A primeira campanha que fiz ficou legal, mas foi rejeitada pelo dono da agência.

Fiz uma segunda. E essa ficou muito boa. Leve, engraçada, abrangia os públicos-alvo da rádio. Brincava com nomes locais famosos e tentava se aproximar do universo dos ouvintes. Ela foi rejeitada também.

E aí eu cansei. Tá certo, vamos brincar.

Datilografei os títulos dessa campanha e levei para o sujeito que tomava as decisões. Joguei o melhor papo de vendedor que eu tinha — o que não devia ser grande coisa, porque se eu vendesse bem não seria redator. De novo: “Não tá bom.”

Era a minha deixa.

“Olha, essa campanha ganhou não apenas o Colunistas de melhor campanha de jornal, mas também o Melhores da Década. Mas se você não gostou, paciência. Eles não entendem nada mesmo.”

Pedi demissão uma semana depois.

(A propósito, o título deste post é a legenda do anúncio da dona Olga.)

Sítio do Picapau Amarelo

Uns anos atrás surgiu uma dessas polêmicas que adquirem mais importância graças à caixa de ressonância das redes sociais. Um professor tentou proibir a reedição de “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, por causa do conteúdo racista que ele colocava na boca da Emília; mais tarde, o Conselho Nacional de Educação desaconselhou o seu uso nas escolas, a não ser que fosse “acompanhado de explicações sobre o seu conteúdo” — o que, cá para nós, equivale a uma proibição de fato: é esperar muito da maioria dos professores deste país que eles discutam algo um pouco mais profundamente.

Na quiproquó que se seguiu, o mais chato foram os argumentos ad hominem. Cartas pessoais de Lobato, em que ele defendia a eugenia, apareceram na mídia. É um fenômeno antigo, mas que tem se agravado em tempos de redes sociais e de matérias como “Caetano estaciona no Leblon”: toda obra literária é necessariamente o retrato cuspido e escarrado do homem. Lobato era racista, o que ninguém jamais pensaria em negar; logo, sua obra deveria ser proibida. Infeliz ou felizmente, seus livros eram muito maiores que o racismo, e é justamente isso que faz dele um grande escritor. Da mesma forma, o conservadoríssimo Honoré de Balzac conseguiu gravar um retrato absoluto da França na primeira metade do século XIX, bom a ponto de um tal de Karl Marx (ou Engels? Eu não lembro) dizer que aprendeu mais sobre a França da primeira metade do século XIX que nos livros de história. Por isso, o mesmo sujeito que colocava nos lábios de Dona Benta afirmações justas sobre o respeito às pessoas e ao conhecimento passou a ser julgado unicamente pelas referências irritadas e canalhas da Emília aos “beiços da tia Nastácia”.

Não escrevi sobre isso na época; deveria ter escrito. Porque eu fui criado com Monteiro Lobato. Primeiro com o seriado da Globo e da TV Cultura, depois com os livros do Sítio do Picapau Amarelo, aquelas edições ainda com as ilustrações de André Le Blanc.

É possível que eu não tenha escrito sobre isso, numa época em que este blog ainda podia ser considerado ativo, porque não queria me ocupar com as discussões que se seguiriam, ou mesmo eventuais acusações de racismo que iriam aparecer. Então eu teria que responder que dificilmente sou racista — ultimamente é difícil dizer cabalmente que não se é racista a não ser que você se mostre disposto a se enquadrar num discurso específico, com termos ainda mais específicos, então eu acharia mais prudente deixar espaço para a dúvida e tascaria o “dificilmente” redentor, e se necessário faria um daqueles mea culpas hipócritas que nos dias de hoje fazem as vezes da autocrítica soviética da época do grande camarada.

Mas em minha defesa, caso se chegasse ao veredito de que eu sou racista-mas-racista-mesmo, eu poderia dizer que não foi o Sítio que me fez assim, não foi o Sítio que nunca me tratou com amor (eu e a Kátia Cega queríamos ser como uma criança, cheias de esperança e felizes). Ao contrário, com ele aprendi a respeitar os talentos da Tia Nastácia, e a sabedoria popular do tio Barnabé. Com Dona Benta, por sua vez, aprendi a importância da racionalidade e do bom senso. Com a própria Emília, mais do que os comentários disparatados de sempre, alguns dos quais nitidamente racistas, aprendi que era bom manter a minha curiosidade acerca do mundo que me rodeava, e que era bom questionar o estabelecido. Eu só não aprendi porra nenhuma com o Quindim. Mas acho que ninguém aprendeu.

O que me fez racista foi o rebolar da neguinha de carne dura andando por uma quebrada da Federação, ah, danada, ela deslizava pela rua, ereta, os seios apontando para a torre da TV Aratu, e ela caminhava orgulhosa, sem dar nem tchuns aos bestas que tentavam controlar a saliva que lhes escorria pela boca, pelo queixo, que molhava o seu olhar assombrado; foi aquele rebolar que me fez usar esses termos racistas-mas-racistas-mesmo. Peço perdão por isso.

Para mim, diante de uma escolha entre o valor cultural e didático dos livros do Sítio e as posturas racistas da Emília, que eu posso identificar (ao contrário dos pobres alunos que não parecem ter a quem recorrer), não há escolha possível. Sem falar, claro, na estupidez que é proibir qualquer livro — seja “Caçadas de Pedrinho”, Mein Kampf ou a Bíblia.

O problema é que acho muito improvável que um livro pudesse transformar uma pessoa em racista. Ainda menos os livros de Lobato, escritos nos anos 30. O conteúdo que hoje salta aos olhos como racista era moeda corrente em sua época; estava dentro da normalidade de seu tempo, e por essa razão tudo isso que hoje incomoda mesmo a quem, como eu, normalmente estranha os termos utilizados, simplesmente passava batido, assim como “preto de alma branca” parecia elogio 40 anos atrás.

Acima de tudo, a estupidez de sequer pensar em deixar de oferecer a crianças e adolescentes o universo de Monteiro Lobato porque simplesmente não se quer discutir em sala de aula a questão do racismo, ir além de um “racismo ruim, tolerância bom” orwelliano, nem colocar as declarações da Emília em perspectiva histórica — o que em si representa uma chance rara de mostrar a maneira muitas vezes imperceptível como o preconceito pode ser normal em um tempo e inaceitável em outro —, é mais uma prova não apenas do desprezo como se vê a capacidade de percepção e compreensão das crianças, mas principalmente da falência do sistema educacional brasileiro. (A outra sou eu, mas isso é assunto para outra hora.)

Muito mais que isso, mais do que essa discussão que apenas reflete um tempo em que o obscurantismo parece estar se tornando um valor universal, me dói saber que catorze contos ou novelas do Sítio só foram publicados na Argentina e permanecem inéditos no Brasil, dos quais um é um tal “Ciência do Visconde” — de três outros ninguém sabe sequer o nome. Em vez de polêmicas vazias, a academia bem que podia tentar encontrar essas histórias nas bibliotecas hermanas. Faria mais bem à cultura nacional do que com essas discussões estéreis. E os senhores acadêmicos dariam mais sentido ao tempo que gastam na universidade e aos salários que recebem.

Mas eu sou um otimista, e a cada dia tenho mais certeza dessa característica antes insuspeita em mim. Não gosto dos exageros dos tempos atuais, mas acredito que do choque de concepções que dão as tônicas destes tempos, que dou a sorte de presenciar, vai surgir uma síntese que expurgue esses exageros e absorva os novos valores sem precisar obliterar absolutamente o passado, nem abdicar completamente da inteligência.

Pensando melhor, não; “acreditar” é demais. Então me deixe substituir esse verbo por “esperar”. Confiar e esperar, pedia o Conde de Monte Cristo quando eu era pequeno.

***

Mas no fundo o problema talvez seja outro. Deixa eu admitir: o problema todo é que o Sítio é um assunto pessoal para mim.

A partir de 1977, e principalmente em 1978, o Sítio do Picapau Amarelo foi parte do cotidiano de todos nós — do meu, ao menos. Os fins de tarde, depois que tínhamos amealhado os cortes, hematomas e arranhões do dia, tinham que ser passados diante da TV, assistindo às aventuras do Pedrinho, Narizinho e Emília.

Há uns poucos anos encontrei no YouTube o primeiro capítulo do Sítio. Fiquei impressionado com a sua qualidade didática, com a modernidade (para sua época) de um produto que conseguia juntar muito bem educação e entretenimento. Mas para ser objetivo, seu maior mérito foi dirimir uma antiga dúvida minha: durante quase 40 anos achei que não tinha visto o primeiro capítulo. Na verdade, vi; mas em vez de assistir a ele no dia da estreia, à tarde, quando provavelmente estava na escola, vi a reprise na manhã seguinte. É graças a isso que sei exatamente onde eu estava na manhã do dia 8 de março de 1977: em casa, assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo.

Estranhei, em 1978, a mudança da Emília; Dirce Migliaccio saiu e foi substituída por Reny de Oliveira. Eu não gostava de mudanças assim. Hoje, olhando para trás, Reny era “a” Emília, ela só não tinha entrado ainda no Sítio. E foi justamente naquele ano que o Sítio deu um salto enorme de qualidade. Imagino que a experiência acumulada no ano anterior tenha possibilitado um avanço enorme. O resultado foram grandes episódios, como “O Minotauro”, hoje disponível no YouTube, e “Os Piratas do Capitão Gancho”.

Dando uma olhada na lista de episódios do Sítio do Picapau Amarelo, percebo que para mim ele vinha perdendo a graça já a partir de 1979. “Davi e Golias” foi uma das coisas mais chatas a que eu assisti, com Jonas Bloch fazendo um pobre Davi sofredor. Provavelmente não eram roteiros ruins; talvez fosse eu que estava crescendo.

Para mim o Sítio acabou quando Júlio César, que fazia o papel de Pedrinho, e Rosana Garcia, a Narizinho, foram substituídos porque haviam crescido demais, estavam velhos demais, no final de 1980. Acabava ali um pedaço importante da minha infância; outros iriam acabar nos poucos anos seguintes.

(É engraçado assistir aos episódios hoje. Rosana Garcia era uma atriz medíocre, mas Júlio César é impressionante em sua naturalidade. Era um ator nato que infelizmente desistiu da carreira.)

(N. do A.: Parei agora para tentar entender as minhas paixões. Eu era apaixonado simultaneamente pela Rosana Garcia, pela Lynda Carter [que fazia a Mulher Maravilha], pela Paula Saldanha e por uma menina que fazia um comercial dos biscoitos Tupy com uma versão de “Ciranda, Cirandinha”. Eu tinha 6, 8 anos. Rapaz, eu tinha problemas.)