Buddy Guy

Buddy Guy é o último bluesman. O último grande contemporâneo vivo de Muddy Waters, Howlin’ Wolf, John Lee Hooker, Willie Dixon, entre tantos outros artistas que fizeram parte do plantel da Chess Records, a gravadora que está para o blues de Chicago como a Verve e a Blue Note estão para o jazz e a Motown e a Stax para o soul.

Buddy Guy é também o meu primeiro bluesman; não o primeiro a ser ouvido, mas o primeiro de que lembro ter notícia ao ler sobre um show que ele veio fazer com Junior Wells no Brasil, no Maksoud Plaza, acho que em 1985.

Foi sobre ele um perfil que li há alguns dias, publicado pela New Yorker há alguns anos. A matéria se pergunta por que ele não teve a mesma reconhecimento que seus colegas tiveram,  sempre visto como menor que os outros. E faz a conclusão óbvia, quase ditada pelo zeitgeist: o racismo atrapalhou a carreira de Buddy Guy.

Pronto. Temos aí a panaceia universal para todos os problemas enfrentados por qualquer artista que não tenha o tido que alguém acha que ele deveria ter.

Acontece que Buddy Guy é o último bluesman, mas há um detalhe importante: ele era grande em um tempo em que gigantes caminhavam na Terra.

A mim Guy sempre soou, isoladamente, como um artista forte, porque era um músico excepcional em um gênero pelo qual sou apaixonado. Dentro do contexto em que estava inserido, no entanto, ele se torna menor. É um grande cantor e excelente guitarrista. O blues dele é correto. Está completamente dentro dos padrões da média, instalado com conforto em sua parte superior.

Mas se me perdoam a heresia, Buddy Guy quase soa branco para mim. Talvez seja o seu timbre de voz mais agudo, talvez sejam os arranjos; talvez seja a adequação a um modelo já estabelecido de sonoridade (rapaz, como ele gostava de metais…). O fato é que o blues que ele fazia nos anos 70 poderia muito bem ser feito pelo Led Zeppelin ou pelos Stones. E há uma convenção básica, criada e reforçada pela legião de artistas e fãs de blues, que há de ser respeitada ainda que aquele imbecil da Fundação Palmares murche as orelhas e zurre que é “racismo reverso”: branco não consegue cantar isso comme il faut.

Em nenhum momento Buddy Guy consegue transmitir a sensação de invenção que nos alumbra em Muddy Waters, ou o perigo inerente à voz de Howlin’ Wolf, ou a sensualidade das composições de Dixon, ou a verdade primitiva e quase animal de Hooker. É isso que falta a ele: aquela grandeza singular sentida imediatamente quando ouvimos algo realmente novo e genuinamente grande.

No entanto, para algumas pessoas é mais fácil apelar para o racismo, por mais absurdo e sem sentido que isso possa parecer.

Falta explicar por que só Buddy Guy foi vítima desse aspecto do racismo, escolhido a dedo entre tantos outros. Por que não Dixon, cujo baixo parecia o vaivém de quadris e de cujas composições escorria uma safadeza lúbrica como o suor oleoso nas ruas da Bahia, atemorizando os moços brancos diante dos negros e suas “picas enormes e sacos que são granadas”, como cantaria depois o bardo brasileiro? Por que não Howlin’ Wolf, com aquela voz, aquele jeito de andar, aquele tamanho, negão imponente e ameaçador que qualquer um teria medo de encontrar em uma viela escura numa noite de lua minguante?

Guy deu a sorte de sobreviver a todos eles. Sempre esteve em seu lugar justo. Era grande e ocupou um lugar ao sol enquanto milhares de músicos aspirantes tiveram que se contentar em tocar em bares, às vezes um ou outro compacto gravado para fazer valer o seu sonho. Todos os dias, milhares de garotos pegam suas guitarras e tentam aprender algum riff seu, eventualmente tentam até cantar como ele. Buddy Guy conquistou isso porque alcançou o que a maior parte dos seus companheiros maiores não tiveram: longevidade. Foi vivendo mais que ele pôde se tornar um gigante de verdade, o último deles.

E os últimos gigantes são sempre criaturas solitárias, e se tornam maiores que a vida, e por estarem sozinhos o seu fim se torna ainda mais épico. E o tempo o tornou maior ainda, porque quem fica é quem conta a história, e essa história a gente muda de acordo com os ventos de cada tempo.

A fome

Gilson arregala os olhos:

— Mas até cachorro?

— Ué, eu não teria problema nenhum. Eu não como porco?

— Mas, poxa, você não tem a ligação emocional que se tem com um cachorro. Você comeria o Fidel?

E eu lanço um olhar extremamente triste para o meu cachorro, ao meu lado.

— Depende da fome, Preto… Depende da fome…

Errata: Get Back

De vez em quando a gente escreve umas besteiras sem tamanho. No meu caso, só fui prestar atenção ao responder um comentário do Edkallen ao último post.

No post eu tinha escrito o seguinte:

George reclamava muito da vida, mas observando bem, sua contribuição autoral naquelas sessões foi pequena, maior apenas que a de John — sendo que este tinha a desculpa de estar atoleimado pela heroína.

É uma das maiores injustiças que escrevi a respeito do finado John Lennon, que Deus o tenha em bom lugar.

Naquelas sessões, mesmo “atoleimado pela heroína”, Lennon emplacou duas das maiores canções dos Beatles. Across the Universe é talvez a letra mais bela de toda a banda. Don’t Let Me Down, em toda a sua simplicidade, é desde sempre uma de minhas canções preferidas. Além das músicas fracas ou velhas que foram para o álbum, Dig a Pony e One After 909, ele apresentou um bocadinho de outas coisas. Ao longo daqueles dias gélidos de janeiro  Lennon trouxe grande parte do que gravaria no Abbey Road ou até no Imagine, mesmo coisas que nunca completou como Mean Mr. Mustard ou Polythene Pam. E um bocado de canções que jamais seriam gravadas também viu a luz naqueles dias. Por eemplo, gosto muito de uma canção que todos parecem detestar, Watching Rainbows.

Nada vai justificar a bobagem que escrevi no último post. O finado George Harrison, que Deus também o tenha em bom lugar, continua o terceirão.

The Beatles: Get Back

Get Back é a melhor coisa que os Beatles lançaram nos últimos 25 anos, a única realmente fundamental e necessária.

Depois do projeto Anthology a Apple Corps vem lançando uma série de caça-níqueis indignos da estatura da banda: raspas de tacho gourmetizados pela remasterização ou filmes canalhas como Eight Days a Week, em que obliteram de sua história Pete Best, o 4º beatle, e se dão ares de grandes responsáveis pelo fim da segregação racial nos EUA.

Uma esfinge significativa, no entanto, ainda restava: as filmagens de janeiro de 1969 que resultaram no filme Let it Be.

Sempre houve algo de realmente especial, ainda que por incômodo, no Let it Be. Mesmo restaurado há décadas, seu relançamento era constantemente adiado. Para os beatles restantes o principal motivo era óbvio: o desconforto diante do registro do que agora sabiam ser o fim do ápice de suas vidas. Mas sempre se soube também que mais cedo ou mais tarde ao menos um Let it Be restaurado, e talvez ampliado, viria à tona, ainda que só depois que os remanescentes envergassem seus terninhos eduardianos de madeira.

O que Peter Jackson entrega agora é muito superior a todas essas expectativas.

O áudio desse material bruto está disponível na internet há muito tempo. O blog A Moral To This Song vem transcrevendo há anos vários trechos dessas fitas, e especialmente o primeiro episódio de Get Back chega a parecer estruturado a partir das seleções feitas pelo blog. Para o fã mais acirrado, não há propriamente muita novidade na informação bruta; e ao mesmo é tudo novo, agora, porque as imagens dão materialidade ao que se ouvia, possibilitam interpretações mais acuradas, e a excelente editoria desse material fornece um guia competente para o espectador. Jackson fez um trabalho excelente de curadoria, agindo com um método simples: contar a história da maneira mais completa possível, sem tentar adicionar o seu “toque pessoal”.

Eu esperava que ele ampliasse o Let it Be original, acrescentando material inédito e corrigindo a narrativa estranha legada pelo diretor Michael Lindsay-Hogg, o 29º beatle. Mas Jackson, que já pode ser considerado o 14º beatle, foi mais sábio do que isso. Partiu do zero, adotando uma narrativa linear e deixando que o desenrolar dos fatos criasse a tensão narrativa necessária, o que faltava no Let it Be que, afinal de contas, deixava a impressão de não ser mais que um amontado desconjuntado de momentos ruins. Claro, Get Back é informado pelo filme original, embora Jackson tente ao máximo evitar cenas já usadas, a não ser quando é realmente impossível.

Mas sua grande conquista, mesmo, foi escapar de duas armadilhas — reprisar o baixo astral enganador do filme original ou transformá-lo em outro conto de fadas chapa-branca, adequado ao esforço de edulcoração de sua biografia empreeendido pelos ex-beatles. Hoje é possível afirmar que Scorsese, há décadas o meu indicado para o serviço, não faria trabalho melhor.

Para quem tem interesse apenas superficial nos Fab Four, o documentário provavelmente é cansativo. São quase oito horas de imagens e músicas incompletas de uma banda que tem um prazo final a cumprir mas não consegue descobrir, em nenhum momento, o que fazer. Cinquenta anos atrás, um filme como esse seria impossível. Mas o tempo não parou, como aliás costuma fazer, e nesse intervalo um novo gênero se afirmou no imaginário das pessoas: o reality show. Décadas de exposição da patuleia a espiadas na intimidade alheia pelo buraco da fechadura possibilitaram que aquilo que era apenas um documentário reencarnasse em algo totalmente imprevisto, uma espécie de Big Beatles Brother. E o triste estado da música mundial permite que esse material tão velho adquira um frescor impensável até mesmo em seu tempo.

Para fãs de longa data, no entanto, o filme não é apenas uma delícia visual, musical e histórica: ele traz algumas surpresas.

O primeiro vai além de comprovar o que sempre foi óbvio: que Michael Lindsay-Hogg não tinha a experiência e o talento necessários para fazer aquele filme. Mas o que Get Back mostra é que sua participação foi ainda pior: foi nociva e deletéria.

Em defesa de Lindsay-Hogg pode-se dizer que o projeto original era irrealizável. Os Beatles estavam esgotados depois da maratona de gravações do “Álbum Branco”. Sair do zero e em dezoito dias aparecer com catorze novas canções, e azeitada o suficiente para dois concertos, era virtualmente impossível até mesmo para uma banda como aquela, e disso ele não tem culpa. Assim como eu, o 37º beatle, Lindsay-Hogg (que alega ser filho bastardo de ninguém menos que Orson Welles) sempre viu o Let it Be como uma história de superação, com um final feliz. Mas isso se dá não por seus esforços e habilidades como diretor, e sim porque nem ele conseguiu subverter totalmente a cronologia dos fatos. Nada disso, no entanto, o redime da culpa por editar um filme cuja mediocridade Peter Jackson agora esfrega em sua cara: quer dizer que ele tinha todo esse material à disposição e só conseguiu fazer aquele filme horroroso? Vergonha, vergonha, vergonha eterna.

Mas foi ao aceitar algo que estava obviamente além de sua capacidade, ao botar constantemente lenha na fervura da panela de pressão em que aquilo se tornou, ao esquecer o seu papel de diretor e tentar se imiscuir na relação já complicada de Lennon e McCartney, ao aparecer com ideias mirabolantes e impraticáveis para complicar ainda mais a situação, Michael Lindsay-Hogg em sua tentativa de ser o 9º beatle foi parte ativa no processo de desintegração da banda. Ele vai entrar na história como o sujeito que disse a Linda McCartney, a 29ª beatle: “Eu sou mais fã que você”. Tenho certeza de que Lennon, se estivesse ali, teria perguntado na hora: “Mas Paul também come você, fio?” (E fã mesmo era Maureen Starkey, roqueira raiz e proto-headbanger, como se vê mais adiante.)

Jackson também corrige uma grande injustiça histórica ao dar o destaque merecido a Mal Evans, o 7º beatle. A história de Mal é talvez a mais triste de todas as que cercaram essa aventura. Absolutamente dedicado à banda, depois do seu fim Mal zanzou pela vida até ser morto pela polícia num quarto de hotel em Los Angeles, seis anos depois. O “brother Malcolm” aparece proeminentemente aqui, inclusive dando uma de suas legendárias contribuições às letras de McCartney. Seu papel na história finalmente é devidamente registrado, e esse é um reconhecimento devido há muito tempo.

Uma das melhores coisas do filme é que agora é possível avaliar com clareza o papel real de George na dinâmica da banda. Para desgosto dos millenials que acham que George Harrison era quase um Paul McCartney, Get Back deixa claro que embora importante para a banda, George sempre foi uma figura secundária no que diz respeito à sua direção musical. Ele sempre foi o terceiro, muito longe da simbiose conhecida como Lennon/McCartney. O que o filme mostra é que agora ele está cansado disso, adotando uma postura passiva-agressiva de rebeldia. Ele simplesmente não quer mais ser tratado como PCD.

George reclamava muito da vida, mas observando bem, sua contribuição autoral naquelas sessões foi pequena, maior apenas que a de John — sendo que este tinha a desculpa de estar atoleimado pela heroína. Harrison apresentou apenas quatro músicas completas: I Me Mine (que John, ao ser apresentado a ela, disse ser apenas um bom jingle, o que infelizmente não aparece no filme), For You Blue, Old Brown Shoe e All Things Must Pass. E aí a gente se pergunta: ele reclamava de quê, afinal? I Me Mine e For You Blue, duas canções medíocres, foram para o álbum. Old Brown Shoe virou lado B de compacto. E foi ele quem retirou All Things Must Pass da fila, talvez já pensando em seu disco solo.

Sua saída da banda é mais bem explicada, finalmente. Durante meio século se achou que isso tinha acontecido no dia da discussão entre Paul e George sobre a guitarra de I’ve Got a Feeling; só se discutia se tinha sido por causa daquilo ou por uma discussão feia com Lennon na hora do almoço. As datas agora estão corrigidas.

(O filme corrige também um erro deste blog: eu tinha postado um vídeo de uma jam tenebrosa com Yoko — mostrada em Get Back de maneira ainda mais resumida — como se fosse da tarde daquele dia; na verdade ele é posterior, já no estúdio da Apple. Mas infelizmente deixou de fora algumas coisas importantes. Por exemplo, Lennon se perguntando diante de McCartney se, afinal, queria mesmo que George voltasse. Ou o processo de criação de Dig It.)

Por outro lado, é assustador ver a genialidade de McCartney em ação. Dia após dia, diante da pressão e do prazo exíguo, McCartney trazia um novo clássico. Essa capacidade de criação, com tamanha qualidade, é absolutamente sobrenatural. É inexplicável. McCartney acaba emergindo de Get Back como o grande gênio da banda e talvez o maior gênio musical da segunda metade do século XX. Se essa impressão é tendenciosa, já que naquele momento Lennon estava ainda mais ausente de alma que de corpo e isso naturalmente muda a natureza de sua relação, não deixa de ser verdadeira. Paul McCartney é um gênio, e não se fala mais nisso.

Mas um gênio que enfrenta problemas bem comezinhos. Em 1981, depois de ler uma declaração de Yoko dizendo que ninguém magoou tanto Lennon quanto ele, McCartney ligou para Hunter Davies, o 25º beatle, para desabafar: e as vezes em que Lennon o tinha magoado? Lennon, segundo Macca, podia ser “um escroto manipulador”. O filme traz exemplos magníficos de ambas as acusações. Lennon espera McCartney sair para contar aos outros colegas que tinha ido encontrar com o empresário Allen Klein, angariando poder político suficiente para enfrentar McCartney posteriormente. Ali se vê o nascer da última crise que levaria a banda ao fim.

E é em uma gravação de Oh! Darling que o drama daqueles dias está mais claro. Paul no baixo, John no piano. Um olha para o outro, felizes com o que adivinham estarem fazendo. Mas então Yoko Ono, a 23ª beatle, se senta ao lado de John, e então a expressão de McCartney muda completamente. Diferente de George, que nunca escondeu sua irritação d, McCartney era o maior defensor de Yoko na banda, menos por convicção do que por uma tentativa de acomodar o que percebia ser inevitável; mas se sabia o maior perdedor.

Em outro momento, no dia seguinte à saída de George da banda e temendo que Lennon tivesse seguido seu exemplo, não dá para ver McCartney tentando conter o pranto diante da possibilidade que a banda tenha acabado — nem tanto por George, mas por Lennon — sem entender claramente o que ele sentiu. Esse é, talvez, o momento mais pungente de todo o filme: “And then there were two”.

Esse é o outro lado do que mais impressiona no filme: a história de amor entre John Lennon e Paul McCartney. Ali é possível ver, como nunca antes o nível de sincronia em que os dois estavam. A maneira como um entende o outro, como operam quase sempre na mesma frequência, como embarcam facilmente nos esboços de ideias do outro e os levam adiante, é impressionante. É justo imaginar que seria ainda mais, estivesse Lennon em melhores condições.

Get Back é isso: um ajuste de contas dos Beatles com o seu capítulo final, feito de maneira digna e à altura da maior pequena banda da história do mundo. Um fim digno para a maior epopeia musical do século XX. Não se pode querer mais que isso.

A estupidez dos justiceiros sociais

Até umas semanas atrás eu não fazia ideia de que compartilhava o mesmo ar poluído e os mesmos tempos estranhos com um jogador de vôlei chamado Maurício Souza. Agora não paro de pensar nele e na estupidez política que vem cercando uma frase sua.

Maurício Souza era um bolsominion insignificante e de intelecto limitado, me perdoem a redundância. Viu a notícia de que um Superman iria ser apresentado como bissexual e se manifestou nas redes sociais, lamentando o fato e torcendo o nariz para os rumos que a sociedade vem tomando. Na melhor reação a essa bobagem, ele foi chamado de “fiscal de cu de desenho”.

Até aí nada demais. Independente da definição e interpretação do crime de homofobia, Maurício não ofendeu diretamente ninguém. Apenas expressou uma visão de mundo preconceituosa e burra. Posso estar errado por não entender de leis, mas acredito que a ideia de liberdade de expressão, que vem sendo torcida à direita e à esquerda, se aplica a isso.

Mas Maurício caiu na mira dos justiceiros sociais, esse pessoal cheio de adjetivos fortes que parece passar os dias diante de uma tela procurando um alvo fácil na internet para linchar — ou “ressignificar”, não sei bem.

O que se viu depois parecia um retorno aos bons tempos do senador Joseph McCarthy e seus interrogatórios no Congresso americano, no fim dos anos 40. O jogador Fred, do Fluminense, curtiu o post — talvez por solidariedade de classe, talvez por comungar dos mesmos valores, não pretendo saber — e uma colunista do UOL pediu imediatamente o boicote dos patrocinadores do seu time, a demissão, o diabo. Pouco depois o filho de Tite se meteu no imbróglio e, imediatamente, ela fez a mesma coisa.

A moça parecia a Salomé, toda hora pedia uma cabeça.

Maurício perdeu o emprego e foi desligado da seleção brasileira de vôlei. Imagino que ela e os outros justiceiros tenham ido dormir felizes, limpando o sangue de suas cimitarras virtuais. O problema é que o mundo gira e eles não conseguem ver.

Agora Maurício, que tinha 200 mil seguidores no Instagram, tem quase 3 milhões. É procurado por partidos para se candidatar a um cargo político. Hoje, Bolsonaro o levou ao cercadinho onde o seu gado se espoja na baba da estultície.

A extrema direita ganhou um mártir da livre expressão, e ainda melhor, sem ter precisado fazer nada por isso. É essa miopia estúpida desses justiceiros que impressiona e preocupa.

Maurício é um idiota, mas não se deve esquecer que ele expressou o descontentamento de uma parcela significativa, se não majoritária, da população brasileira. Gente conservadora, incomodada com a conquista de direitos por minorias porque isso altera o status quo ou, mais importante, valores atávicos que acalentam desde sempre, passados de pai para filho ou adquiridos nos bancos duros das igrejas.

O busílis do bagulho é que essa gente é conservadora, mas não necessariamente se mobiliza contra o avanço social. É aquela grande massa informe que vê o progresso passar enquanto resmunga, desconfortável. Gente que oferece resistência mínima, nunca organizada, e que no fim do dia acaba aceitando de cara feia o mundo que a cerca.

Mas no caso do Maurício, 2,5 milhões de pessoas pelo visto acreditaram que ele simboliza não um direito dado a outros, mas um direito tomado deles, o de manifestarem sua opinião desde que não ofenda diretamente ninguém, e resolveram tomar uma atitude simbólica, dando apoio tácito a alguém que julgam perseguido.

O problema é que isso não vai ficar no simbolismo tão caro a esses justiceiros.

Maurício Souza não era nada em política. Se tudo correr como a direita espera, vai ser um deputado federal a partir de 2023. Um legislador. Um sujeito que propõe e vota leis. Se até semanas atrás era um cretino inofensivo que resmungava seus preconceitos no Instagram, no Congresso Maurício vai ser uma autoridade que votará contra leis que promovam direitos dos gays, contra o aborto, contra minorias de modo geral.

Ele foi “cancelado” porque não gostou do Superman gay. Agora, Maurício vai poder dizer que leis que protegem gays ameaçam a família brasileira, e ninguém poderá fazer nada porque ele terá imunidade para isso. Mais que isso não consigo desenhar.

Mas os justiceiros do alto do seu pedestal moral, a versão 2020 do “Deus está do nosso lado”, vão continuar acreditando e agindo como se duas linhas idiotas no Instagram e um voto efetivo contra direitos no Congresso fossem a mesma coisa. Dificilmente vão reconhecer que foi o seu totalitarismo, seu descolamento da realidade e sua total imbecilidade política que criaram um novo monstrinho. Para esse pessoal, o que importa é estarem certos e lutar o bom combate; para gente inteligente, o que importa é assegurar direitos de fato. O caso Maurício Souza é importante porque mostra que, mais que garantir avanços, a atuação desses parvos começa a gerar uma reação desnecessária e desproporcional. E também mostra que os tais justiceiros são o outro lado da estupidez generalizada que costumamos ver apenas nos outros.

Bang

Quem lê este blog há mais tempo do que é saudável talvez lembre que eu votei contra a proibição da comercialização de armas de fogo no referendo de 2005, porque antecipei o meu voto aqui.

Relendo esse post, percebi que continuo subscrevendo a maioria dos argumentos expostos ali. De lá para cá, no entanto, algumas coisas mudaram. A legislação foi modificada, calibres antes restritos ou proibidos foram liberados, o movimento armamentista ganhou corpo e até fundou recentemente a versão brasileira da NRA, o ProArmas. Bolsonaro foi eleito prometendo colocar uma arma na cintura de todo brasileiro, e seu convite foi ouvido por 57 milhões de idiotas.

De modo geral a agenda armamentista não apenas ganhou importância no debate público, mas avançou de maneira inédita. E o mais triste é que boa parte da culpa pertence à esquerda.

Há alguns meses, Lula fez uma declaração expondo o que, até onde vi, é a sua única proposta no campo da segurança pública: vai “tirar as armas que Bolsonaro colocou nas mãos das pessoas”. Não custa lembrar que durante o governo Lula, em que pesem os tantos avanços, a população carcerária no país disparou, e que o que há de relevante nos decretos de Bolsonaro diz respeito apenas aos CACs.

A verdade é que infelizmente, se de um lado a direita tem um projeto claro de segurança, que essencialmente consiste em enxugar gelo reprimindo o varejo do tráfico de drogas e matar preto pobre, noves fora a esquerda não tem nenhum além de um amontoado de generalizações e defesa de princípios gerais cada vez mais distanciado da realidade. As armas de fogo, então, são fetichizadas e usadas como o inimigo eleito, porque é mais fácil fazer isso.

Até os anos 90 esse não era grande motivo de debate nacional. A posse de armas de fogo, algo normal e necessário no interior do país, não era um aspecto central das vidas das pessoas. As regras eram simples: quem achava que precisava e preenchia os requisitos básicos comprava seus revólveres na Mesbla e depois os deixava enferrujar em cima de um armário.

Mas o crescimento da violência urbana, aliado a uma falta geral de ideias que não o recrudescimento do aparelho repressivo do Estado, fez com que algumas pessoas achassem que se tirassem as armas das pessoas comuns a coisa ia melhorar. O problema era o tresoitão; não dá para tirar dos bandidos, então vamos tirar dos outros.

Teve início então uma cruzada proibicionista que mudou as coisas. O então deputado pelo PT Eduardo Jorge apresentou um projeto de lei (o PL 2246/1991) que proibia o porte de armas a praticamente todas as pessoas, inclusive policiais fora de serviço. Mas era o segundo artigo que mais incomodava: na prática, proibia totalmente a posse de armas no país. Quem tinha seu .22 em casa seria obrigado a entregá-lo  ao Estado.

O projeto de lei foi arquivado, mas foi o ponto de partida para uma reação que, de lá para cá, vem fazendo a alegria da extrema-direita.

Porque agora ela tinha uma causa: a garantia de um direito que parecia prestes a lhe ser tomado, o direito à defesa em um momento em que o crime saía de controle. É uma causa incontestável, fortalecida porque o Estado não sabe o que fazer com criminosos armados além de amontoá-los indiscriminadamente nas cadeias. Em grande parte isso se deve ao fato de que a esquerda tem dificuldades em pensar a questão da segurança pública, espremida entre a consciência da necessidade inegociável de princípios básicos de civilização — aquilo que as “antas de bem” chamam pejorativamente de “direitos humanos”, e os querem exclusivamente para “humanos direitos” — e a pressão de tempos em que a violência adquire contornos que extrapolam os livros de sociologia, e em vez de raciocinar prefere reagir de maneira emocional, dogmática e covarde a essa questão.

É essa histeria que os armamentistas utilizam como justificativa para o que chamam de resistência, e que a esquerda só consegue combater com uma visão limitada e muitas vezes ignorante do que é segurança pública. O resultado é um debate desonesto de ambos os lados.

Basta olhar a maneira como ambos os lados exploram informações parciais ou falsas. Desarmamentistas, por exemplo, alegam que as armas legalizadas vão parar nas mãos dos bandidos, o que é menos comum do que parece (e parecem achar que eles realmente se armam roubando armas legais, como se há dez anos civis pudessem comprar fuzis AR-15), ou que todo mundo vai se matar em brigas de trânsito. Armamentistas exploram o pânico em relação à violência e escondem os números que não lhes interessam (por exemplo, em um universo de 170 mortes diárias com armas de fogo no país, latrocínios são apenas 7, e esse é o crime que interessa ao cidadão).

Sempre que há um massacre numa escola americana, por exemplo, o pessoal fala do controle de armas, faz comparações descabidas com o Brasil. Armamentistas dizem que se todos estivessem armados os malucos não matavam tanta gente; desarmamentistas retrucam que se ninguém estivesse armado, ninguém morria. Além do fato de se tratar de uma disputa entre o lógico e a utopia, espantoso é que, num país onde o porte é direito garantido na constituição e em boa parte dos estados as pessoas não precisam nem comunicar ao Estado que compraram uma arma, não haja ainda mais massacres. O verdadeiro problema é a sociedade doente que os americanos criaram, e se não têm armas de fogos eles recorrem a facas. Nos EUA morreram quase 15 mil pessoas por arma de fogo (sem contar suicídios) em 2019. No Brasil, onde o porte de arma é muito restrito e mesmo a posse ainda é bastante controlada, entre 2017 e 2019 morreu uma média de 50 mil pessoas por ano em crimes violentos. A conta não bate, porque são realidades diferentes.

A direita trabalha melhor esses dados. É impressionante como a esquerda evita utilizar números reais para o debate, porque é movida antes por princípios do que pela observação da realidade. E é essa pobreza de dados que mais chama a atenção nesse debate. São informações simples: quantas pessoas com posse legal de armas matam outras, quantas com porte de arma fazem o mesmo, quantas são as armas legais roubadas e desviadas para o crime organizado. Devia ser fácil achar esses números. Não é. Porque no fundo não interessa a ninguém. Suas agendas estão acima disso.

Ao demonizar as armas de maneira absolutamente maniqueísta, ao propor ao cidadão comum que se desarme em toda e qualquer circunstância enquanto o Estado se mostra incapaz de garantir sua integridade, a esquerda abandonou o jogo e deixou o campo livre para os malucos e os bandidos. Não se pode dizer que jogou a maior parte desse pessoal nos braços da direita, porque o fato é que esse tipo parece ter uma tendência inata ao autoritarismo e ao fascismo; mas fortaleceu o apelo da direita entre quem vive em locais complicados, alienou uma pequena massa que não oferecia grandes resistências, queimou pontes e cortou canais de diálogo que poderiam ser úteis, e fez gente que normalmente queria apenas ter uma espingardinha de um tiro para caçar mocós se alinhar àquele pessoal que deseja um .50 nas mãos de cada cidadão — menos em grupos como os Sem-Terra, claro.

O debate sobre a liberação de calibres, por exemplo, é exemplo dessa miopia.

A lista de calibres liberados recentemente por Bolsonaro, que capitalizou essa insatisfação, é imensa. Mas por não conhecer o assunto a esquerda gritou o fim do mundo, sem entender que os que importam mesmo não chegam a meia dúzia: 9mm, .40, .45, .357, que costumam ser liberados no resto do mundo. O resto são calibres que as pessoas não compram porque são caros e sequer fabricados no Brasil. Na prática, são irrelevantes.

Mais grave são os novos calibres restritos. O 5.56×45 e o 7.62×51 foram liberados para CACs — ou seja, liberaram o AR-15. Não há justificativa real além da piada do “direito à liberdade” para isso. Um 5.56 sequer dá grandes alegrias a um atirador desportivo porque quase não tem recuo, nem é arma para tiro de precisão. De modo geral, esses calibres só interessam mesmo a quem precisa andar por aí com uma arma potente, confiável e leve. Geralmente esse pessoal está nos morros cariocas e entradas de favelas Brasil afora.

Mas enquanto se discutia isso, Bolsonaro tornou mais difícil o rastreamento de armas de fogo, uma medida indefensável que só se explica pelas suas ligações com as milícias cariocas, porque o genocida é tão pequeno que só consegue pensar na sua aldeia.

Com seu negacionismo, a esquerda perde a chance de estabelecer um diálogo que tenha como base a realidade do uso de armas no país. Perde a chance de, ao pesar necessidades e realidades diversas, e admitir que um lavrador tenha uma espingarda na zona rural para se proteger de um eventual crime ou que alguém mantenha um revólver em casa para se sentir mais seguro, mostrar que não há razão nenhuma para que um sujeito que mora num apartamento sequer tenha uma arma em casa, muito menos o porte.

É uma tragédia na qual ela a sociedade é a grande perdedora.

Pequena, bem pequena discografia de Ringo Starr

Sentimental Journey (1970)
Primeiro disco solo de Ringo, e elemento involuntário no rompimento dos Beatles, Sentimental Journey foi feito para uma audiência especial: a mãe de Ringo. São as músicas de que ela gostava e com as quais ele cresceu. Foi gravado no período em que a banda achava que estava acabando mas ainda não tinha certeza; Ringo, então, mandou a família escolher seu repertório. Ringo sabe quem é, sabe de suas limitações. O disco inteiro tem um ar de paródia, não se leva a sério demais, e é isso que faz dele uma boa curiosidade. Alguns dos arranjos são bem interessantes, mas pertencem ao seu tempo e não saem de lá nem debaixo de porrada.

Beaucoups of Blues (1971)
Uma joia obscura, Beaucoups of Blues é um disco de country music. É nesse gênero que Ringo claramente se sente mais à vontade como cantor, e para acompanhá-lo chamou um elenco estupendo: D. J. Fontana, The Jordanaires, Jerry Reed — e Scotty Moore foi o engenheiro de som. O resultado é um disco redondo, sincero, de uma qualidade absolutamente surpreendente. Ringo poderia ter se reinventado aqui como cantor country num ambiente de rock and roll, mas aparentemente jamais se levou tão a sério assim. Talvez seja o disco mais subestimado entre as tantas dezenas de discos de ex-beatles.

Ringo (1973)
Até aqui, pode-se dizer que Ringo continuava um beatle ensaiando escapadas solo, mais ou menos como Lennon gravando com Yoko em 1968. É como se seus discos solo corressem em uma raia que não a da sua ex-banda, discos que os Beatles jamais gravariam. Um de standards, outro de country. Em Ringo, no entanto, ele parece admitir que o sonho acabou, e adentra de vez o mainstream. Conta com um auxílio realmente luxuoso: todos os ex-colegas de banda contribuíram com canções e participações no disco. Ringo é considerado universalmente o melhor disco de Starr, mas desconfio que isso só acontece porque este é um disco de rock tradicional — e provavelmente porque tem John, Paul e George dando uma ajudinha. Por isso costumam desprezar o excelente Beaucoups of Blues.

Ringo Rama (2003)
Quando ninguém mais esperava nada de Ringo eis que ele se sai com um disco surpreendente. Ringo Rama é decente, dentro das limitações de Ringo, com algumas boas canções, uma atmosfera geral moderna e forte. Não é uma obra prima, obviamente, mas se sobressai de forma muito evidente na discografia de Ringo. Aqui se encontra, também alguns exemplos tardios do grande baterista que é Ringo, em faixas como Instant Amnesia. É um excelente disco tardio, de um artista que não costuma fazer excelentes discos.

O resto
Ringo tem mais um bocado de álbuns. São uns 20 ao todo, sem contar coletâneas e álbuns ao vivo. Nos últimos tempos ele se acomodou em um estilo bem característico: rock simplório, sempre derivado, que estaria à vontade em uma FM tipo easy listening dos anos 80, com letras que muitas vezes mencionam o seu passado beatle. Obviamente uns são melhores que outros, como o bom Goodnight Vienna, de 1974, que poderia muito bem estar nesta lista; e alguns são vergonhosos, como Ringo the Fourth, de 1977, ou Bad Boy, de 1978. Eventualmente uma ou outra coisa pode ser pinçada, como You Can’t Fight Lightning, faixa-bônus no relançamento do Stop and Smell the Roses (1982), que poderia ter sido gravada por Lou Reed. A maioria dos álbuns tem composições de seus ex-colegas de banda, e eles muitas vezes participam generosamente de várias faixas, mas nem isso os salva. Ouça por sua conta e risco.

A vida dura de quem lê portais de notícias

Argumentos identitários me cansam profundamente há muito tempo, pela miopia, pela estreiteza, pela degeneração no que Mark Lilla chama de “pseudopolítica de autoestima e de autodefinição” e pelo que Antônio Risério chama de colonialismo cultural. Ainda mais porque são eles que dão cada vez mais o tom do que passa por debate político nos portais de notícias, tornando a discussão rasa e sempre em busca de notoriedade rápida.

Mas uma dessas tais polêmicas me chamou a atenção dia desses. Leandro Narloch, citando um artigo do Risério, convocava o movimento negro a se inspirar nas sinhás negras que existiram ao longo da história, deixar de se ver como vítimas e acreditar no seu potencial, confiar no capitalismo e na sandice de que cor de pele não faz diferença neste país, o que importa é o mérito. Só és pobre porque queres, como diria qualquer coach ou pastor enquanto embolsa o dinheiro da sempre renovada legião de otários.

Um texto do Narloch não traz, nunca, nada de novo, e muito pouco que se aproveite. Ele basicamente retira de textos mais consequentes algum elemento que possa causar polêmica e indignação e o torce o bastante para que se adeque à sua visão de mundo, Não passa de opinião de terceira, tendenciosa, e só reflete a pobreza do debate público. Basicamente, é isca para atrair a atenção de gente que pensa diferente dele e justificar o seu salário.

Mas ele alcança alguma notoriedade por uma razão simples: porque em vários aspectos seus contestadores não são muito melhores que ele, e para eles compensa engolir essa isca.

O moralismo puritano que parece definir boa parte desse identitarismo exige que o debate histórico seja definido, antes de mais nada, pelos valores éticos que se defende. Por isso, para alguns desses debatedores, é mais fácil fazer polêmica com o Narloch porque, no fundo, ele existe para isso. É raso como cacimba em quinto ano de seca, de uma mediocridade profunda porque sempre reduz um elemento complexo a uma ou duas palavras de ordem. Para esses debatedores de portal e de posts de Facebook e até de blogs mixurucas como este, é um inimigo adequado e fácil. Mas raramente o resultado da contra-argumentação é ao menos razoável, porque costumeiramente apela para a defesa dos seus valores e um senso de indignação moral que o valida e que deveria ter pouco lugar nesse tipo de conversa.

O artigo do Narloch comenta um livro do Antônio Risério que fala das “sinhás pretas”, mulheres negras que enriqueceram no período da escravidão e, em maior ou menor medida, dentro das brechas e oportunidades que o sistema oferecia, se adequaram a ele em posição privilegiada.

Até aí nada demais, porque isso é história e serve como contribuição à compreensão do nosso processo evolutivo e da complexidade na formação das relações de classe e etnias no país; não é problema dele se os movimentos identitários enxergam essas evidências como heresia agressiva ao seu discurso. Seu problema é outro: Narloch usa esse exemplo para dizer que o movimento negro deve mudar seus pontos de vista, coisa que o conceito deturpado de lugar de fala não permitiria nem a gente mais bem-intencionada. Ele pinça os dados que lhe interessam para promover um negacionismo militante, que repercute facilmente entre a militância e desperta ódios imediatos.

Mas há um ponto curioso, que merece um parêntese:

Como observou certa vez o historiador Manolo Florentino (que assina a apresentação do livro de Risério), é muito mais estimulante, para negros de hoje, imaginar que seus antepassados foram em alguma medida protagonistas de seu destino. Protagonizaram ações — ações dentro dos costumes da época, como a de comprar e alugar escravos.

Desconte a última frase, que é apenas a canalhice intelectual do Narloch e o arremesso da isca. Isso me lembrou a confusão em torno daquele tal musical da Beyoncé que a Lilia Schwarcz elogiou com ressalvas, e que lhe custou uma série de ataques hidrófobos de militantes e um pedido de desculpas na minha opinião indevido e humilhante. A obra da Beyoncé, pelo que posso julgar a partir unicamente das descrições que li, era uma fantasia hollywoodiana, tão falsa quanto uma nota de 2,5 kwanzas, que parecia pregar justamente algo parecido. Poderia ser considerado nocivo, não fosse a autoria. Entretanto, tudo é relativo nesse mundo novo.

Mas não é disso que este post trata. O artigo do Narloch foi contestado por Itamar Vieira Junior, que o acusa de “relativizar o horror da escravidão”.

É muito ruim quando um dado histórico é apontado como uma tentativa de minimizar a tragédia da escravidão. Porque isso acaba sendo um esforço para construir uma narrativa falseada que atende apenas a determinados interesses, coisa de um Narloch invertido. O pior é que a argumentação do Vieira Junior é ruim demais, e deliberadamente falsa, repleta de inverdades.

“Havia escravidão na África antes da chegada dos colonizadores, como houve em Roma e na Grécia Antiga”, diz Vieira Junior. Isso é só meia verdade. O que havia na África não tinha paralelo em Roma ou na Grécia. Na África havia um mercado secular, consolidado e de grande escala de escravos, que não existia no mundo greco-romano.

Pode ser impressão minha ou mesmo má vontade, mas isso parece uma tentativa de dar status melhor e mais “humano” à escravidão intra-africana. Não que para o escravo fizesse diferença entre ser escravizado por perder uma guerra ou porque há um mercado enorme destinado apenas a isso, mas negar a dimensão do havia na África é negar a história.

Mas não é isso o mais grave.

Mais adiante ele afirma que o tráfico só foi possível graças ao “Estado capitalista colonial”. Isso é mentira. E não apenas porque no século XV, quando o tráfico ultramarino dava seus primeiros passos, não existia “Estado capitalista colonial”. Na prática o desenvolvimento colonial no Brasil, baseado na agricultura extensiva e uso intensivo de mão de obra barata, só foi possível porque havia a oferta regular e abundante de escravos africanos. O Estado colonial europeu foi fundamental para consolidar ainda mais esse mercado, possibilitando uma demanda sem precedentes por escravos que destruiu estruturais sociais, dizimou a população masculina da África e da qual o continente jamais se recuperaria. Mas não foi ele quem criou esse mercado.

Escravidão é negócio, sempre foi negócio, e por mais aterrorizante que seja ver seres humanos descritos como “peças”, era algo que se sobrepunha a valores morais mesmo na época. O capital é como o Jarbas Passarinho diante do AI-5: se a coisa aperta, “às favas com os escrúpulos de consciência”. Para os portugueses no Brasil seria mais barato e desejável escravizar índios, como foi tentado com sucesso insuficiente para atender às necessidades da lavoura. O tráfico atlântico era plano B. Trazer escravos da África requeria alto investimento inicial, tinha alta taxa de depreciação, perdas de material que poderiam pôr a perder todo o dinheiro gasto. Mas entre os índios brasileiros não havia estrutura de compra e venda de pessoas semelhante ao que existia na África, além de uma série de desvantagens óbvias. Assim, escravos africanos no Brasil eram mais viáveis, sujeitos a menos perdas e fugas. O investimento era mais alto, mas a relação custo/benefício era tão infinitamente melhor que a escravidão no Brasil se espalhou como um câncer por todas as camadas da sociedade, dando lugar a uma rede tão complexa de relações econômicas e pessoais que, embora obviamente incapaz de minimizar o horror da escravidão, inviabiliza as visões moralistas e simplistas dos identitários de hoje.

O mais curioso é que o Vieira Junior usa essas distorções para embasar um argumento realmente válido:

A consciência histórica sobre os processos que nos trouxeram até aqui não é apenas uma retórica vitimista dos “escravizados, humilhados, exterminados”. É um passo para superação das estruturas que nos foram legadas por esse passado aviltante. Esse caminho só será possível promovendo uma discussão honesta e comprometida com os valores que elegemos como fundamentais para superar a chaga da escravidão e do racismo.

Eu gostaria de assinar embaixo. Mas também gostaria de lembrar que a chave aqui, que não foi usada, é a expressão “discussão honesta”. Não teremos uma discussão honesta se acusarmos informações que iluminam falhas em nossa argumentação de “ultraje, quiçá um crime”.

O mais grave, no entanto, é que a partir daí o texto do Vieira Junior degringola para o que há de pior nessas discussões. Ele não quer mais ver opiniões ofensivas como a do Narloch e pede que o conselho editorial da Folha de S. Paulo seja “uma ‘grade de proteção’ a favor dos valores humanos fundamentais” — ou seja, que calem as canalhices do Narloch, porque liberdade de expressão só deve existir para nós. “Como disse Thiago Amparo ‘a corda do pluralismo esticou a tal ponto que’, se não fizermos nada, ela ‘nos enforcará’”, ele continua, antes de terminar com uma pergunta tão ou mais canalha que as iscas do Narloch: “Será que ele sugeriu que nos reconciliemos com a escravidão?”, o que ele sabe que não é verdade.

Eu vou parar de ler esses portais, juro que vou. Alguém tem um portal de fofocas de TV para me indicar?

And, in the end

Eu preciso confessar que os lançamentos recentes da empresa que se chama Beatles me enchem de tédio. Longe da empolgação inicial trazida pelo Live at the BBC e os discos do Anthology, o que se vê nos últimos 20 anos é indigno do legado da banda. Do engodo que foi o Let it Be… Naked, passando pelos cafés requentados da remasterização de 2009, o segundo Live at the BBC e o razoável Hollywood Bowl à raspagem de tacho que são as edições comemorativas, cada lançamento merece basicamente um bocejo e um tsc, tsc.

Quando o Álbum Branco foi remixado, em 2018, fiz um comentário aqui. Mas a verdade é que esses discos me interessam muito pouco. A essa altura da vida, a perspectiva de ouvir versões sempre inferiores de canções que já conheço de cor há décadas — isso quando não conheço as próprias versões, circulando há décadas no mercado pirata — não abre meu apetite.

Por isso, ouvi os discos de maneira muito superficial — confesso inclusive que na época não cheguei a ouvir muitas das faixas inteiras. Para que eu iria ouvir de novo as demos de Esher? Nessa brincadeira, acabei deixando passar alguns detalhes importantes.

Duas das faixas são realmente boas. Los Paranoias, que já tinha sido incluída em parte no Anthology III, aqui está em sua forma completa. É uma bela jam, talvez o mais próximo que McCartney chegou do jazz enquanto era um beatle. Mas é importante não tanto pelo seu valor intrínseco, mas porque acaba mostrando que talvez George Martin não fosse a pessoa indicada para fazer a curadoria do projeto Anthology, nos anos 90. Martin raciocinava como “o produtor dos Beatles”. Estava mais que disposto a jogar fora o que não se encaixava em um padrão de qualidade bastante alto e muito claro para ele. E nesse tipo de caça-níquel, às vezes o que se ouvir é justamente o contrário.

A outra é a faixa que abre o quarto disco, o take 18 de Revolution 1. É uma gravação maravilhosa. Ela consegue encapsular tudo o que Lennon queria dizer em Revolution e em Revolution #9, com a genialidade, coragem, experimentação, capacidade de síntese de uma época e senso comercial que tornaram os Beatles a maior banda da história. Se em vez de incluir essas duas faixas no disco ele tivesse finalizado e colocado só esse take 18, tinha passado o recado e feito um álbum muito melhor. Revolution #9 é uma maluquice de Yoko Ono contrabandeada num disco dos Beatles. Essa nova versão é Beatles puro, ao menos em um determinado contexto histórico.

Mas o principal aspecto que deixei passar é que Giles Martin, ao remixar o álbum, cometeu um crime de lesa-majestade.

A produção do Álbum Branco foi caótica. Geoff Emerick cansou e deu no pé, e isso alterou significativamente o padrão de gravação das músicas. Depois George Martin, de saco cheio, tirou férias e parte do disco foi efetivamente produzida por Chris Thomas.

O resultado é que o Álbum Branco sempre soou diferente. Mais agudo, mais metálico, mais agressivo. É uma prova da diferença que faz um engenheiro de som.

Giles Martin, no entanto, suavizou esse som. Tornou-o mais grave, mais de acordo com o padrão George Martin que voltaríamos a ver, em toda a sua glória, no Abbey Road. O resultado é uma fraude histórica. É desonesto.

Mas independente desses detalhes, minha opinião sobre esses lançamentos continua a mesma. São redundantes. Não comprei nenhum, nem pretendo comprar. Eles já são ricos demais para se importar se apenas baixo os discos.

Isso muda com a nova edição do Let it Be. Essa eu quero.

A caixa que anunciam agora é, em parte, o que se esperava, para o bem e para o mal. Traz o disco original remixado (o que deve ser algo bom, porque ele sempre soou mal, abafado, embora eu não saiba se é possível melhorar muito); um EP redundante; o Get Back com a capa original; e uns disquinhos com jams, outtakes e ensaios.

Os discos de adicionais são o mais decepcionante, porque o material disponível é tão absurdamente grande e variado que qualquer um poderia fazer algo melhor do que a sequência medíocre de outtakes que decidiram incluir. Com uma capa ainda mais apalermada que a do Let it Be original, traz uma seleção inexplicável em sua falta de imaginação ou mesmo alegria.

Pelo que vejo, o melhor da caixa é o Get Back. Não pelo disco em si, que não era melhor que o Let it Be final. Mas por finalmente trazer à luz o LP que chegou a ser distribuído para algumas rádios, com a capa em que eles recriavam o Please Please Me sete anos depois. Eu sempre achei que essa deveria ter sido a capa do Let it Be. Pelo significado, pela sensação de que ali se encerrava aquela história, e porque é uma ideia fantástica, mais típica dos anos 60 que minissaia e LSD.

É ele, só ele, a razão eu querer esse lançamento, depois de anos pouco me lixando. Eu faria diferente, claro. Minha caixa traria o Let it Be com a capa dupla da edição americana original e o livro que acompanhava a primeira tiragem, retirado logo em seguida porque aumentava muito o preço. Traria dois Get Back, com os dois mixes de Johns e as capas diferentes, para evitar a confusão que fizeram. E um álbum triplo com o que houvesse de melhor nos outtakes e jams da gravação do filme.

E é aqui que está a grande diferença. O álbum que está chegando às lojas traz basicamente outtakes do que já conhecemos. Sem ouvi-las não dá para saber quais são, mas aparentemente traz, de realmente interessante, apenas um ensaio de Gimme Some Truth, provavelmente uma das versões do dia 3 de janeiro, que mostra McCartney ajudando Lennon a compor a letra da canção. (E espero que a versão de Oh! Darling, que estaria mais à vontade no Abbey Road, seja uma do dia 31, que eu chamo de “bossa nova”).

E no entanto, os 30 dias de sessões têm tantas pequenas maravilhas que é quase impossível entender por que são ignoradas. Eu já falei aqui quais incluiria. Mas há muito mais que isso. Quem quiser conhecer, e tiver paciência, é só procurar nas redes P2P da vida por uma série de discos chamada A/B Road.

Ela só não tem o Get Back com aquela capa.

Mas há um outro motivo para eu achar que essa caixa tem algo diferente dos outros lançamentos.

Ringo Starr e Paul McCartney têm, respectivamente, 81 e 79 anos. Não seria agourar dizer que têm muito mais tempo para trás do que para a frente. A aventura dos Beatles representou um pedaço pequeno de suas vidas, mas foi decididamente o mais importante e o que deixou, durante 25 anos, uma série de problemas com que tiveram que lidar. Ao longo das últimas décadas, eles conseguiram resolver tudo isso: supervisionaram a transição para o digital, fizeram dinheiro como nunca tinham feito antes, e se empenharam em contar a sua versão da história. Faltava apenas o fechamento.

O Let it Be, junto com o filme Get Back, é o ponto final de todo esse esforço. É o último capítulo, a resolução afinal do seu momento mais conturbado, o mais contencioso, e certamente o mais doloroso. É como se Paul e Ringo pudessem dizer, finalmente, que o ciclo se fechou. A partir de agora, tudo o que a Apple Corps soltar é apenas para ganhar dinheiro, como foram as remasterizações dos últimos anos; decisões empresariais, basicamente, que não têm ligação orgânica ou emocional com a maior banda da história. O Let it Be/Get Back é certamente o último trabalho real dos Beatles. Agora eles podem descansar em paz.

Chico ou Caetano

Dia desses o Hermenauta me fez a pergunta que separa os homens dos meninos, os bons dos maus, os “raiz” dos nutella.

Chico ou Caetano?

No melhor estilo Caetano, respondi “Chico, ou não”. Porque essa é uma pergunta que pode ser respondida, sim, mas também precisa ser explicada; ela só aparenta ser fácil, e coisa séria assim não pode ser abordada de maneira leviana, um mero sim ou não.

Se em vez de perguntar quem eu prefiro você me perguntar qual é o mais importante, eu vou responder que Caetano é o músico vivo mais importante deste país; mais que isso, o músico mais importante do último meio século, o mais importante a surgir depois de João Gilberto.

Não ligo para as lives que ele andou perpetrando nesta pandemia, açoitado pela mulher-dragão, porque ele não tem mais nada de novo a me dizer; nestes tempos loucos tudo, ou quase tudo, pode ser perdoado. Mas eu sou baiano. Todo baiano nasce fã de Caetano, tem nele o porta-voz de pelo menos uma parte de si, e essa declaração deve estar em alguma parte da minha certidão de nascimento. Caetano é um dos artífices do que resolveram chamar de baianidade, assim como Jorge Amado ou Dorival Caymmi ou Ary Barroso. Deve ser por causa de Caetano que dizem que baiano não nasce, estreia.

Sendo um pouco mais racional, o fato é que desconheço músico, neste último meio século, que tenha tido tamanha importância na evolução da música brasileira, que tenha dado uma contribuição tão grande. Todo mundo que faz música no Brasil deve algo a ele.

Eu admiro Caetano pela sua capacidade de invenção e reinvenção, o seu esforço em levar a música brasileira sempre um passo adiante. Pela sua inquietação permanente, pela busca de novos horizontes, sempre. Pelo seu lirismo, também, principalmente nos aspectos formais, mas principalmente por ele ter sido, individualmente, um dos principais motores da música brasileira nos últimos 60 anos. Caetano é mais que um dos tantos gigantes que pisaram a Terra: é um deus, e é um privilégio ter vivido no mesmo tempo que ele.

Mas paixão, mesmo, eu tenho é pelo velho Chico.

Uns anos atrás ouvi cada um de seus álbuns com uma atenção que já não é mais comum em mim, cansado de um fin de siècle que parece nunca terminar. Na verdade, Chico Buarque foi um entre vários músicos que reavaliei. Na época, fiz uma revisão geral do conheço da música brasileira, e não é muito pouco. A partir daí refinei alguns conceitos, mudei outros, reforcei uns tantos. Entendi que o samba-canção é um dos momentos mais altos da música brasileira, lírica e musicalmente, insuperado ainda hoje, e foi injustamente relegado a um segundo plano pelo quase antagonismo da bossa nova. Descobri Carmen Miranda, uma das grandes sambistas da história e uma das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos. Compreendi Gilberto Gil, cujo talento absurdo passei a finalmente reconhecer e admirar. Reencontrei o “Cinema Transcendental”, disco daqueles que tocavam direto no rádio em uma parte da minha infância, e entendi que ele sempre tinha sido o meu disco preferido de Caetano, eu é que não percebia e fingia preferir “Transa”.

Mas não há nada como ouvir Chico Buarque novamente, ou pela primeira vez.

Já escrevi aqui sobre a minha devoção por “João e Maria”. Mas não escrevi sobre o êxtase ao ouvir “joga bosta” — bosta! — “na Geni” quando era criança e entender que as coisas e as palavras podiam e deviam ser dessacralizadas — joga bosta em tudo, joga, joga bosta, joga bosta! Ou ver as manifestações pelas Diretas Já ao som de “Pelas Tabelas”.

Não escrevi sobre o arrepio que sinto cada vez que ouço “Cálice”. Em primeiro lugar pela familiaridade absoluta e, ao longo das últimas décadas, quase esquecida. Umas vidas atrás, quando ela finalmente foi liberada pela Censura, as rádios de Salvador pareciam não tocar outra coisa, e “Cálice” era a música que estava no ar, quase como orvalho ou o cheiro do óleo diesel nas avenidas ou do dendê na Praça da Sé esperando o ônibus ou o cheiro de mofo e de mijo que emanava dos casarões e dos becos do Pelourinho. E por isso ouvir aquele arranjo, depois de décadas sem a escutar ou ao menos ouvir com atenção, adquire uma importância que pouca coisa hoje é capaz de ter, à medida que as músicas se repetem e repetem e repetem sob um disfarce cada vez mais esgarçado de novidade.

Porque uma coisa não se esgarça, nunca: o lirismo de Chico Buarque traz sempre uma verdade absoluta e simples de que poucos letristas brasileiros conseguiram se aproximar. É o sujeito que revelou que saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu, mas se essa é talvez uma das imagens mais pungentes da música brasileira — enquanto tu pisavas nos astros distraída, hein, minha filha? — não é suficiente para explicá-lo, porque boa parte da sua graça está nas frases simples, na descrição de sentimentos menores, a poesia gigantesca que se tira do comum que é dito. Chico conseguiu isso como nenhum outro letrista jamais fez, e é isso que me liga a ele de maneira que eu sequer percebia.

Eu sempre soube que, se fosse músico e poeta e tivesse um talento pantagruélico assim, eu não seria Caetano. Minha admiração por Caetano é, antes de tudo, racional, é quase uma constatação. Penso em Caetano com a mão nos quartos diante do microfone e balanço a cabeça, é verdade, mas a verdadeira razão é outra: não consigo me imaginar escrevendo as letras que ele escreveu, não me vejo dominando aquele idioma, eu não consigo me ver sempre nessa busca por algo novo. E mais que isso, essa ligação emocional, que pode ter nascido da mãe que viu Chico surgir em shows no Rio, ou das músicas, ou do entendimento de que alguns dos versos mais belos da música brasileira dispensam de maneira tão natural quaisquer níveis de engenharia (como, se na desordem do armário embutido meu paletó enlaça o teu vestido, e o meu sapato inda pisa no teu?), eu não tenho com Caetano.

Chico, não. Sempre olhei para ele e achei que num boteco a gente ia se dar bem. Desconfio, por exemplo, que no fundo Chico Buarque é um conservador. Praticamente toda a música brasileira deve algo à bossa nova; ele não, é como se a música que ele sempre fez, aquilo que ele queria dizer só pudesse ser dito num idioma inventado pelas baianas expatriadas no Rio no início do século passado, e se sabe tão verdadeiro que não precisa de artifícios nem grandes invenções. E é por isso que eu sei que, fosse eu um gênio, seria um gênio assim.

Caetano pode ser a Ana Hickman, a mulher mais bela, perfeita quase. Mas a minha mulher é mais bonita que a Ana Hickman, sempre foi. É mais bonita porque é dela que eu gosto. E eu gosto é de Chico Buarque.