Quando a CosacNaify fechou

Deve estar fazendo por esses dias dois anos que a CosacNaify fechou.

Na época, achei engraçadas as reações desoladas das pessoas, lamentando o final da editora e até fazendo parecer que ali terminava, também, a grande aventura editorial brasileira. Me lembraram imediatamente as pessoas que volta e meia lamentam o fechamento de um ou outro cinema de rua.

Acontece sempre, seguindo invariavelmente o mesmo roteiro: ninguém ia mais àquela joça, porque uns preferem os cinemas de shopping e outros, como eu, descobriram os prazeres torpes e baratos da pirataria numa TV de tamanho suficiente. Mas todos parecem querer que o cinema vazio continue ali enfeitando a cidade, como se por um passe de mágica e ainda que caindo aos pedaços, e agora choram como se perdessem um grande amigo; no caso, um amigo pobrinho que não viam há décadas e do qual mal lembravam o nome.

Se uma editora fecha não é apenas porque as contas não batem, porque normalmente já passaram desse estágio há tempos: mas porque a situação se tornou insustentável. Editoras — todas elas, sem exceção — são antes de tudo o resultado do trabalho de abnegados. De gente que ama livros, que se realiza na aventura editorial e quer compartilhar esse amor com outros. Gente esperta que quer dinheiro vai para o mercado de ações, vai vender tomate na feira; o mercado editorial é o reduto de dons Quixotes que têm uma visão própria, necessariamente elitista do mundo — mesmo quando esse elitismo se traduz virtuosamente na oferta de bens culturais melhores para as massas.

Nisso o papel do Charles Cosac, como o de qualquer outro editor, é invejável e necessário. Mas é preciso também lembrar que ele está longe de ser o único, ou mesmo tão importante assim.

Contei agora os livros da CosacNaify que tenho. Não chegam a dez, sem contar alguns que comprei para dar de presente e dos quais ainda lembro. A maior parte é Faulkner; a Cosac foi a sua melhor editora no Brasil, sem nenhuma sombra de dúvida, soltando edições impecáveis dos livros mais importantes do cachaceiro sulista. Eram bons a ponto de me fazer substituir algumas das antigas edições da Nova Fronteira que eu tinha.

Porque o cuidado da CosacNaify com o produto final era impressionante. Não apenas com a apresentação material, com o visual, as capas e contracapas, o papel e a tipologia — qualidades estéticas que, desconfio, era o principal atrativo para as carpideiras de agora: um livro da Cosac na mesinha de centro chama mais a atenção dos visitantes incautos. Mas um livro de Faulkner editado por ela não contém erros, traz a melhor tradução possível e uma revisão rigorosa. Não se pode pedir nada mais de uma editora.

Mas havia uma diferença gritante e fundamental entre a CosacNaify lançando uma nova edição de “Este Lado do Paraíso” com um cuidado editorial invejável, papel tão legal, capa dura com um projeto gráfico moderno e elegante, e Monteiro Lobato inventando o mercado editorial brasileiro, ou Ênio Silveira ousando publicar Ulysses em português. Assim como há uma diferença entre Martin Claret possibilitando o acesso a obras clássicas, ou mesmo Alfredo Machado investindo no mercado de massa. Nomes como José Olympio, Ênio Silveira têm uma importância infinitamente superior na formação de um mercado editorial brasileiro, pelo pioneirismo e, sim, pela ideologia que os motivava. Por legal que a CosacNaify fosse, seu legado não é realmente tão importante quanto a coleção “Cantadas Literárias” da Brasiliense nos anos 80.

E então lembrei dos anos 80, os bons anos 80 — na verdade anos de merda, mas o tempo passa e doira o passado, então a partir de hoje essa década miserável passa a ser “os bons anos 80”.

Naqueles bons anos 80, a editora que me apaixonava era a Companhia das Letras — pelo menos até o início dos 90, e certamente eu não estava sozinho nessa admiração. Sinceramente, acho que o impacto produzido por ela em seu tempo foi muito maior do que o da Cosac. O volume de boa literatura que a Companhia das Letras trouxe a partir do seu lançamento é impressionante. Não há nenhuma dúvida de que foi a editora mais importante desse tempo— mesmo lembrando que a Brasiliense oferecia à juventude da época um material inestimável, e em muitos aspectos mais ousado. Depois a Companhia das Letras se tornaria uma editora grande, e isso acarretaria as escolhas comerciais necessárias que a colocam em outro patamar. Mas naquele momento, editando Edmund Wilson, John Cheever, Dorothy Parker, Georges Perec, uns tantos por aí, a editora do Luiz Schwarcz era invejável e fundamental para o cenário cultural do país.

Basta compará-la à CosacNaify para entender o óbvio: a Cosac era uma editora elitista demais. E não pretendia ser outra coisa. Isso nem longe a desmerece; ao contrário, se se deixar de lado o tanto que há de demagogia populista naquela tal de literatura para as massas, há que se reconhecer que uma editora como ela é necessária.

Havia algo de imensamente lúdico nos livros dela. Comprei “Zazie no Metrô” numa das tantas promoções porque gosto do filme do Malle mas nunca tinha lido o livro. Depois de ler, acho um livro superestimado; mas o conceito gráfico desenvolvido pela Cosac, com a estética dos cartazes de rua da época intercalando as páginas (que me forçaram a malabarismos razoáveis, já que eu jamais cortaria o papel para ver o material gráfico — que energúmeno seria capaz de algo tão monstruoso?) dão um valor ao livro que, cá entre nós, o enriquece e o valoriza. Não é fundamental; mas acrescenta algo ao mundo.

Havia rigor técnico, uma vontade de fazer o melhor produto possível, algo que deve ser sempre aplaudido. E digo isso mesmo admitindo que, por ver livros de outra forma, seu material não me fazia ter vontade de gastar dinheiro demais. Lançaram uma bela edição de “Bartleby, o Escrivão”, com uma abordagem que extrapola o “mero” ato da leitura? OK, mas isso não me faria comprar um livro que já li e que poderia ser comprado por uma fração do preço cobrado pela nova edição. Era simples assim.

Por causa de coisas assim, durante anos não me importei muito com a CosacNaify. Para piorar, o primeiro contato que tive com ela foi através de uma entrevista numa dessas revistas semanais, provavelmente a Época, aí pelo final dos anos 2000. Um perfil do Charles Cosac mostrava um sujeito elitista além do socialmente aceitável, com uma visão de cultura que, digamos assim, extrapolava a minha. A partir daquele momento, vi no sujeito um esteta rico, meio delirante que podia se abandonar aos seus devaneios; e ele me parecia um daqueles playboys cariocas dos anos 50, que passavam as noites na Vogue gastando um dinheiro que não ganharam e se tornavam a matéria da lenda do Rio de Janeiro. Ou melhor, uma visão extemporânea e deslocada de Des Esseintes, ou um Jacinto de Tormes.

(Charles Cosac me lembrava um artista plástico que conheci algumas décadas atrás. Pintava quadros de nítida inspiração clássica, o tal pintor. Ticiano antes de Modigliani, Rafael antes de Bacon. Parecia viver no século XVIII. E em seu primeiro vernissage lá estava ele, envergando um trench coat e uma echarpe em pleno calor aracajuano — senhora, senhor, o calor de Aracaju sabe ser parecido com o calor carioca quando quer, acredite no que vos digo —, empunhando uma bengala desnecessária e tendo ao lado um menino, vestido como pajem renascentista, que oferecia ao transeunte incauto os seus cartões de visita, tirados de uma caixa de madeira.)

Brincadeira de rico para deleite de rico, era o que eu achava. Mas recentemente, essa entrevista do Charles Cosac me impressionou. Mais que isso, me fez mudar de opinião, e de maneira radical. Vi no Cosac um sujeito necessário, consciente do seu papel. Mais recentemente, depois de ver outra entrevista sua, desta vez à Folha de S. Paulo depois de assumir a direção da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo, vi nele um sujeito que o capitalismo moderno tornou redundante e arcaico, infelizmente: o esteta elitista que, paradoxalmente, tem algo a contribuir para a sociedade. E é esse arcaísmo que o torna mais necessário.

(Vi também um sujeito que, depois de esculhambar o Dória e a mulher e aceitar um convite para trabalhar em sua gestão, se saiu de uma pergunta capciosa com classe e educação, sem perder o respeito próprio.)

Não é o bastante para me fazer comprar seus livros. Uma edição barata mas correta de Moby Dick, para mim, ainda tem o mesmo valor real que a bela edição da CosacNaify. Eu envelheço e tento me atualizar, talvez um dia até compre um Kindle, mas não preciso e não quero mudar tanto assim. No entanto, é o suficiente para que eu veja a pequena multidão carpindo o fim do seu período como livreiro com um pouco mais de respeito do que eu tinha até então.

Ben-Hur

Eu realmente não sei por que insisto em cometer os mesmos erros, vez após vez.

Ben-Hur”, filme lançado em 2016 e devidamente esperado mim com, digamos, cautela, dava todos os sinais de ser uma pequena tragédia. E mesmo assim, mesmo intuindo o que me aguardava, eu assisti a ele.

Refilmagens são problemáticas quase por definição. O primeiro problema está no seu tempo. O significado e a importância histórica que um filme como, por exemplo, “Psicose” teve em 1960 jamais poderiam ser repetidos em 1999, quando o insano Gus Van Sant cometeu a imprudência de refilmar a obra de Hitchcock. Além disso, contar novamente uma história impõe riscos quase imponderáveis.

A coisa é mais grave quando se trata de um clássico absoluto. Como “Os Dez Mandamentos” e “El Cid”, “Ben-Hur” está naquele panteão de épicos que definiram o gênero. Curiosamente, o próprio filme de Wyler é uma refilmagem. A primeira versão, de 1925, foi o filme mais caro feito até então e um sucesso absoluto. Mas tratava-se de um filme mudo e, considerando-se que ainda não havia DVD ou video on demand, provavelmente largamente esquecido trinta e poucos anos depois; no máximo visto apenas por cinéfilos em cineclubes obscuros e esfumaçados. Nessas condições, uma refilmagem podia fazer algum sentido. Você provavelmente não lembra de Ramon Novarro, o ator que fez Judá Ben-Hur naquela primeira versão (bem, talvez conheça a história do seu assassinato). Mas certamente sabe quem é Charlton Heston.

Deve haver algo de muito grave com as novas plateias, uma corrosão do quociente de inteligência e de discernimento crítico. É só assim que consigo explicar as decisões tomadas pelos produtores e roteiristas dessa refilmagem. Quando vi o trailer do filme, adivinhei pelo que ele deixava antever que seria mais uma idiotice do novo cinema de entretenimento. Eu achava que a única maneira de fazer uma refilmagem fazer sentido seria explorar a natureza homossexual possível na relação entre Judá ben Hur e Messala — ah, a cena do duelo das lanças túrgidas e latejantes…—, um favor que Gore Vidal fez questão de deixar nas lembranças de todo cinéfilo. Poderia, por exemplo, dar outra dimensão à relação de Judá com Quintus Arrius, por exemplo, mais ou menos como Antonino e Graco num filme melhor de um diretor de verdade.

Em parte eu estava errado. Havia outras possibilidades: aprofundar mais a questão da resistência à ocupação romana que serve de base para o filme, ou ainda investigar e dar mais nuances ao tratamento do cristianismo nascente.

De qualquer forma, eu podia ter seguido a minha intuição e evitado assistir a um filme que eu sabia que não poderia estar à altura do recordista de Oscars durante quase 40 anos.

Talvez o primeiro comentário a ser feito seja a mediocridade de todos os atores. Jack Huston e Toby Kebbel, até há pouco ilustres desconhecidos para mim e a partir de agora nomes a serem inscritos num caco de telha e jogados numa urna, interpretam sem nenhum brilho os personagens principais — uma tarefa especialmente inglória, talvez até injusta, para Huston, condenado a reprisar o papel que um dia coube a Charlton “Cold, Dead Hands” Heston. Rodrigo Santoro faz um Jesus insípido, menos por sua culpa do que pelo papel insignificante que lhe deram, e Morgan Freeman faz o seu arroz com feijão.

Desta vez, “Ben-Hur” começa antes do reencontro do protagonista adulto com Messala. Agora eles são irmãos adotivos, e Messala é apaixonado por Tirzah. Mas ele não é um rebotalho plebeu qualquer; seu avô foi um dos assassinos de Júlio César, porque no mundo cinematográfico de hoje todo mundo tem que ter algum pedigree (num filme quase tão repulsivo, o “Robin Hood” de Ridley Scott, transformaram o velho ladrão em filho do autor da Carta Magna e leal ajudante de ordens dos barões). No entanto Messala é rejeitado pela mãe de Judá, e assim, qual um Julien Sorel de saiote, vai para a campanha da Germânia fazer sua fama e fortuna.

Em Jerusalém, Simonide (que no filme de 1961 só aparece bem depois) trabalha na casa dos Ben Hur e sua filha Ester se casa rapidinho com Judá. É estranho: todo mundo mora em Jerusalém, inclusive um certo marceneiro mais tarde dado a pregações, que você deve conhecer pelo nome de Jesus de Jerusalém (aquele, daquela música de Antônio Marcos: “Vem, irmão / Vamos seguir com fé / Tudo o que ensinou / O homem de Jerusalém”).

O filme até se esforça para dar um pouco mais de profundidade política ao contexto histórico e político da Judéia da época, e esse é o seu único ponto positivo. Mas sem muito sucesso: fica a impressão de que isso serve apenas para explicar de maneira nova o acontecimento que muda os rumos do filme. Originalmente, o atentado ao governador romano foi um acidente; agora é uma tentativa de assassinato por parte de um zelote protegido pelos Ben-Hur.

No filme original, ao salvar do afogamento um tribuno romano que o adota em retribuição, Judá ganha seu salvo-conduto para a vida, o que lhe possibilita empreender sua vingança contra Messala. Agora ele vai direto para Ilderim, que de maneira mais rocambolesca e implausível o deixa na boca da corrida de bigas que é o clímax do filme. Para isso Judá volta para Jerusalém e vê que na sua ausência as tragédias não pararam de se suceder: sua mãe e irmã pegaram lepra; e como desgraça nunca vem sozinha, a pior de todas: sua mulher virou cristã.

(Rides, hypocrite lecteur? Não, não riais: imaginai a senhora vossa patroa dando a louca e entrando para a Universal e dando todo o vosso dinheiro ao pastor Genoíldes e para desgraçar tudo vos chamando de “abençoado”. Não, não riais, que de certas coisas não se deve fazer troça.)

Em 1961, a cena da corrida era incomparável. Dirigida magistralmente, editada com brilhantismo, significava um passo adiante na estética dos filmes de ação. Ainda hoje é impressionante; mas neste filme ignóbil é apenas mais do mesmo que se vê em qualquer filme com orçamento mediano. Nitidamente inferior a qualquer filme dos Vingadores, por exemplo, é talvez o melhor indicativo da mediocridade rampante de uma obra que deveria ser evitada como se evitava um leproso.

E a partir daí a coisa desce à sarjeta mais baixa. Tirzah e Míriam (que aqui tem seu nome modernizado para Naomi, sabe Jeová a razão), antes curadas da lepra pessoalmente por Nosso Senhor Jesus de Jerusalém, agora são curadas pela chuva de água benta que cai quando Jesus dá seu último suspiro, como um batismo coletivo desses que a igreja faz por aí.

Mas nada, nada, absolutamente nada pode lhe preparar para a cena final. Judá e Messala fazem as pazes, porque eles sempre se amaram, aquilo era só briguinha de irmão, e agora que o romano está perneta e seu orgulho foi para as galés, toda a raiva e ódio podem ser esquecidos: Ben Hur venceu e Messala só precisava ser humilhado e aleijado para virar gente. E o filme termina com aquela que é talvez a cena final mais abjeta de toda a história do cinema: Judá e Messala cavalgando juntos rumo ao futuro, dois garotos que deixaram o passado para lá e para os quais o futuro é belo e risonho.

Pela primeira vez em uma longa história de salas escuras e TVs de todo o tipo, um filme me deu vontade de chorar de raiva. Porque raras vezes vi tamanho desrespeito a uma obra como essa miséria que merece o opróbrio de toda e qualquer pessoa que goste de cinema ou de literatura, mesmo uma de segunda como a do governador Lewis Wallace. E à medida que os créditos subiam, minha mente se perdeu em vinganças imaginárias. Imaginei uma sequência em que aquela corja inteira morria no Coliseu, na boca dos leões ou no gládio de seguidores de Espártaco. É o único fim merecido para esses novos personagens.

Mas tenho que admitir: eu também mereci. Que isso me sirva de lição e de castigo eterno. Infelizmente não poderei desver, jamais, essa cena final. Mas eu sabia que nada de bom me esperava ali, e por meu próprio erro, pela minha própria inconsequência, pela minha recusa em ouvir o que Jesus de Jerusalém me dizia, decidi ver esse filme, como aquele garoto decide experimentar crack. A culpa é minha, só minha, e vou ter que conviver com ela até o final dos meus dias.

NCC-1701

Quem diz que cachorro velho não aprende truque novo não sabe o que está falando. Eu aprendi, por exemplo.

Parece estranho, mas depois de velho virei trekkie — quer dizer, mais ou menos, porque os últimos adjetivos que aceitei de bom grado foram beatlemaníaco e comunista. Mais impressionante ainda é virar trekkie depois de uma vida em que o Capitão Kirk e uma pedra perdida no Raso da Catarina tinham exatamente o mesmo significado para mim.

O fato é que nunca liguei para “Jornada nas Estrelas”, mesmo levando em conta o fato de que o seriado tem estado presente na minha vida desde os anos 70. Lembro de vê-lo passando na TV nessa época, e aquilo não me dizia nada. Mais tarde, a Bandeirantes o exibiu no início dos anos 80, e como ele já era legendário parei para ver um ou outro episódio, mas foi só. As coisas me pareciam velhas, toscas, os efeitos especiais pareciam rivalizar com os tokusatsus (tokusatsu não é uma palavra linda, linda?) que eu via quando criança; e àquela altura eu estava mais interessado nos filmes do Faixa Preta ou da Sessão Western. Para não dizer que Star Trek passou completamente em branco, nós aprendemos a fazer a saudação de Spock, “live long and prosper” — mas gostávamos mesmo era de imitar o vulcano e apertar o trapézio de quem fosse pego desprevenido até ele gritar de dor, porque machucar os amigos era das coisas mais agradáveis que podíamos fazer.

Não é tão fácil explicar por que, entre tantos seriados, eu me importava particularmente pouco com as aventuras da Federação Interestelar. Talvez o meu desprezo profundo por Star Wars e seu universo infantilóide se juntasse à estranheza que sempre senti diante daquele pessoal que se veste de Darth Vader e de Spock e sai por aí achando que é bonito — mais que isso, achando que é normal —, e ao fato de sempre ter preferido westerns a ficção científica; mas acho que a principal razão para essa antipatia, mesmo, era o fato que o programa era mais adulto que a média, ao menos para mim. Ir aonde ninguém fora levantava questões mais complexas do que as que os membros biônicos de Steve Austin resolviam. Eu não sabia na época, claro. Entendo agora.

Mas uns meses atrás, ao ver que a Netflix exibe o seriado, parei para assistir pelo menos a um episódio. E então veio a surpresa: eu, que ando entediado dessas coisas todas, dessas séries que se repetem indistintas, me apaixonei tardiamente por Star Trek, mais ou menos como David Copperfield, depois de muitos anos, finalmente enxergando em Agnes a mulher de sua vida.

Ao contrário dos roteiros rarefeitos e esquemáticos de Star Wars, em que ritmo e efeitos tentam ocupar sem sucesso o vazio de ideias, foi quase uma revelação descobrir o que milhares de pessoas sempre souberam: que “Jornada das Estrelas” vale não pelos efeitos toscos, mas pelas ideias que traz. Que o mais importante no seriado é a história que ele conta, as reflexões que ele suscita sobre a humanidade, e principalmente os ideais sobre os quais ele está baseado.

O humanismo universal inerente a Star Trek, a ideia de um futuro de igualdade e respeito (dizem que foi o primeiro seriado a dar um papel de frente a uma mulher negra, antes de Julia, e além disso tinha um personagem soviético no comando da nave em plena Guerra Fria, apenas alguns anos depois da crise dos mísseis em Cuba) eram atuais em seu tempo, e continuam válidos hoje. Mais que isso: meio século depois, são ainda mais necessários.

A mensagem de “Jornada nas Estrelas” era boa; aqueles eram anos em que, apesar de tudo, a humanidade ainda tinha fé no seu futuro. Mas de lá para cá muita água passou sob a ponte de comando da Enterprise. Essa meta démodé de igualdade, compreensão e multiculturalismo parece estar sendo hoje suplantada pelo discurso identitário, cada vez mais sectário e hermético. A crescente afirmação de conceitos delirantes como apropriação cultural e quetais dá a impressão de que o ideal do mundo hoje é uma espécie de “separados, mas iguais” redivivo. Os tempos estão difíceis. Talvez por isso tenha sido em plenos anos 2010, mais de 50 anos depois de sua estreia, que o seriado passou a me interessar.

Mas não tanto assim. Trekkie ma non troppo, a verdade é que se estou fascinado agora com um seriado que sempre esteve por aí, meu nível de conversão não é tão grande assim, e não tenho nenhum interesse nos zilhões de spinoffs que ele gerou. Uma única exceção à regra: talvez por ser algo atual, assisti aos episódios disponíveis de Star Trek: Discovery.

Fico imaginando o que a série original faria com as novas técnicas de filmagem e efeitos especiais. Mas fico imaginando também o que a nova versão faria com os argumentos originais. Porque ela é tão inferior, tadinha. Toda a profundidade do seriado parece ter sumido no ralo: do congraçamento universal que parecia ser o seu Graal, agora devemos acompanhar a saga individual dos tripulantes perfeitamente adequados aos padrões narrativos de Hollywood hoje em dia. Mais que isso, parece responder bem a tempos cada vez mais individualistas.

Junte a isso um fato meio engraçado — ou revelador: eu assisto a Star Trek dublado. É engraçado porque, embora seja fã absoluto da ideia da dublagem, filmes e seriados dublados me afligem. É quase intolerável. O que vejo, especialmente no YouTube, são basicamente viagens nostálgicas, para reencontrar vozes familiares como a de Carlos Vaccari, sons de uma infância que se foi há tempo demais. Mas “Jornada nas Estrelas” para mim só faz sentido dublada.

Essa é a segunda dublagem, a da VTI feita no início dos anos 90. Eu a considero melhor que original, da AIC, embora prefira, de longe, a abertura da AIC com a locução empostada de Antonio Celso à vozinha safada e canastrona do Capitão Kirk. Para começar, a voz de Spock é do Márcio Seixas.

***

A despeito de tudo isso, dessa conversão tardia, minha desconfiança em relação aos outros trekkies, à sua incapacidade de entender o mundo e a inconciliável diferença entre os seus valores e os meus, não estava de todo errada.

Ontem assisti ao 11º episódio da segunda temporada de Star Trek, Friday’s Child. A sinopse você encontra por aí, o que eu quero falar é de uma cena específica.

McCoy está tentando ajudar uma moça, de outra espécie, a parir. (A propósito, a moça é interpretada pela Julie Newmar.) Pelos costumes do seu povo, ela resiste a ser tocada por um homem. Depois que McCoy conquista o seu respeito lhe descendo uma chapuletada na cara — lembre-se, a série é dos anos 60 e tinha elevados ideais, mas a roteirista que escreveu esse episódio nasceu no finalzinho dos anos 30 —, a moça vê o doutor com outros olhos. Encanta-se com sua mão macia em um homem viril.

E então chegamos à tal cena, esta de que quero falar. A moça está sentada numa pedra, entrando em trabalho de parto. Ajoelhado ao seu lado, McCoy apalpa sua barriga, em busca do bebê. A câmera se aproxima e tira a mão de McCoy de foco. McCoy pergunta onde dói. Depois de dirigir um olhar de soslaio que só uma Mulher-Gato pode dar, a moça responde: “Dói… Aqui.” E a cena se encerra com McCoy arregalando os olhos. No áudio original ela ainda dá uma risadinha, o que sumiu na dublagem.

O detalhe assustador é que procurei por aí comentários sobre essa cena, mas sem nenhum sucesso. Nenhum dos fãs, que dissecam cada detalhe de cada episódio do seriado, que buscam o significado de cada frase boba dita, ninguém parece ter comentado isso — e eu sou de um tempo em que a internet parecia ser dominada por nerds que conheciam cada palavra do seriado. A cena é tão insignificante que sequer existe na internet, e por isso me vi obrigado a publicá-la no YouTube.

Milhões e milhões de palavras foram escritas sobre “Jornada nas Estrelas”. Há milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que se dedicaram a comentar cada episódio, elucubrar teorias sobre quase qualquer insignificância, desde que seja algo óbvio, desenhado. É coisa que os nerds entendem. Mas as sutilezas da sacanagem não parecem ser seu forte, e sem ninguém para explicá-la, aparentemente foram incapazes de perceber o conteúdo sexual dessa cena. Em um seriado que dá aos fãs horas e horas de comentários sobre os affairs do Capitão Kirk, isso é no mínimo digno de nota. No fim das contas, acho que eu tinha razão.

A Menina do Lado

Nos primeiros cinco minutos de filme, incluindo os créditos de abertura, o que chama a atenção são os vestígios de um mundo que não existe mais. Orelhões, fitas cassete, máquina de escrever, um Passat. Ao longo do filme, outras antiguidades vão aparecendo: Malt 90 em latas de folha de flandres, sacos de compras em papel pardo, resquícios de um mundo que existiu logo ali, mas já foi embora.

Esses artefatos arqueológicos de uma era que passou marcam a idade de “A Menina do Lado”. O filme é de 1987. Assisti a ele mais ou menos nessa época — não no cinema, mas em videocassete, outra relíquia que o tempo enterrou. Quase tanto quanto a história, me impressionou na época (e a muitos outros) a qualidade técnica do filme, superior à média do kinemanacional de então, a naturalidade de diálogos, a trilha sonora de Tom Jobim dando o clima mais que adequado ao filme.

“A Menina do Lado” conta a história de Mauro e Alice. Mauro é um jornalista enfurnado numa casa à beira da praia em Búzios para escrever um livro; Alice é uma garota que passa férias na casa da família, vizinha à alugada por Mauro. Mauro está beirando os 50 anos; Alice tem 14. Naquele ambiente isolado, livre das condicionantes do mundo cotidiano, longe das tantas coisas que nos ajudam a perceber a nós mesmos mais velhos ou mais jovens, nasce entre os dois uma paixão que se desenrola com a leveza de uma tarde sob o pôr do sol de Búzios. O espectador até esquece que, além de velho, Mauro é casado e seus filhos são mais velhos que Alice.

Então eu tinha aproximadamente a idade de Alice; revê-lo agora, quando estou mais perto da idade do Mauro do que daquela garota, deveria ter uma visão diferente do filme, uma percepção recondicionada de “A Menina do Lado” como obra cinematográfica, claro, mas também da história que ele conta.

Mas o tempo não faz isso. Continuo achando o que achei então: o filme de Alberto Salvá é de uma delicadeza e de uma beleza enormes, algo incomum naqueles tempos em que a intelectualidade sudestina parecia ter uma fascinação com o marginal e com a transgressão que a brutalidade do mundo atual parece ter diminuído muito (apenas para efeito de comparação, vale a pena dar uma olhada em “Fulaninha”, de Davi Neves, filme da mesma época e com alguns traços em comum, mas mais preocupado em fazer um retrato pitoresco da Copacabana mítica da Prado Júnior). Mas talvez por entender melhor o que Alice significa para Mauro, hoje se torna impossível não achar que essa beleza e delicadeza eram ainda maiores em seu tempo.

O filme toma o cuidado de mostrar o nascimento da paixão em Mauro com delicadeza, evitando quaisquer paralelos possíveis com “Lolita”, a referência mais óbvia em se tratando de uma diferença tão grande de idade. Ao contrário de Humbert Humbert, em nenhum momento Mauro é apresentado como um predador obcecado, e aceita passivamente a evolução do relacionamento com Alice; diferente de Lolita, Alice não joga com o desejo de Mauro, e não está condenada a perder esse jogo como a jovem Dolores. O relacionamento entre Mauro e Alice não apresenta nada de doentio. Não que seja infenso aos problemas que a diferença de idade causa, ou que a própria situação não seja vista por ambos como complexa, mas as diferenças e a paixão são encaradas, acima de tudo, com naturalidade.

De certa forma, “A Menina do Lado” era um tanto anacrônico em seu tempo, e estava uns 15 anos atrasado. Na virada dos anos 60 para os 70 uma série de filmes abordou o mesmo tema, a paixão complicada entre gerações diferentes, como There’s a Girl in My Soup, com Peter Sellers e Goldie Hawn, Breeze, filme de estreia de Clint Eastwood, ou “Ensina-me a Querer”, que se não é clássico é pelo menos um filme cult há quatro décadas.

Ainda assim o filme despertou certa polêmica. Afinal, mesmo que se adote a postura de que tudo é normal, um namoro entre um homem de 45 anos e uma garota de 14 é, no mínimo, incomum. Havia um nível diferente de tolerância, desde que respeitados alguns preceitos, mas os anos 80 não foram uma época de permissividade total. Isso fica claro na cena em que Adriano Reis, no papel de Lourenço — que aparece em cena logo depois de Mauro contar a história de Romeu e Julieta a Alice, história que tem com oum dos principais personagens um padre cujo nome não consigo lembrar agora — se apavora com a notícia. No entanto, tenho a sensação de que, comparada às polêmicas de hoje, mais intensas, grosseiras e cada vez mais curtas, tudo foi bastante leve. Talvez porque naquele tempo a paixão de uma adolescente por um homem casado de meia-idade fosse insólita, até assustadora, mas não criminosa.

Mas o que me chamou a atenção agora não foi isso. É o fato de que essa polêmica hoje não existiria. Porque “A Menina do Lado” jamais seria feito em 2017.

Para ser válido e aceito hoje, “A Menina do Lado” teria que ser “Lolita”, talvez ainda mais condenatório, mais óbvio, mais categórico. Antes de uma crônica de um amor, deveria ser a denúncia de uma violência. Deveria ficar claro que aquela menina foi abusada, que não importa o seu consentimento ou sua iniciativa, não importa sequer a sua eventual maturidade.

Parece estar se consolidando uma noção geral de que a obra de arte em si não pode valer se não se adequa perfeitamente ao codex moral vigente. O mundus novus não aceitaria isso; o coroa necessariamente é malvado, deve saber o seu papel. Por outro lado a visão sobre a sexualidade de adolescentes é complicada e contraditória, defendendo uma liberdade cada vez maior dentro de um espectro de possibilidades cada vez menor. Diante de tudo isso, a nova ortodoxia não pode admitir que algo que é pré-definido como absolutamente monstruoso possa ser apresentado com um grau quase ofensivo de doçura e delicadeza.

Talvez o mundo esteja mais desiludido hoje, menos ingênuo. Talvez imagine, de saída, o que seriam Alice aos 40, Mauro aos 71. Talvez saiba que um amor assim jamais poderia dar certo, se por certo entende-se “duradouro”. Talvez tanta coisa, mas o que importa é que o calar de vozes e de experiências no campo artístico nos torna mais pobres. Não se trata da evolução dos costumes, de uma noção mais abrangente de tolerância e respeito: trata-se, ao contrário, do exagero normativista cada vez maior, do calar de vozes dissonantes e de um constante recurso à histeria como política.

Decididamente 2017 é um mundo diferente daquele de 1987. Um sinal disso é o fato de que há duas versões do filme no YouTube. Uma delas, a que tem mais republicações e visualização, é uma versão completamente mutilada: cortou as cenas de sexo e, o que é muito pior, a cena em que, num acesso de ciúmes, Mauro agride violentamente Alice. Como se o mundo, 30 anos mais velho, não fosse mais capaz de assistir àquelas cenas sem se escandalizar. Talvez não seja, mesmo.

De qualquer forma, é difícil condenar peremptoriamente esse mundo (desde que se releve aberrações como a recente onda de moralismo hipócrita, histérico e autoritário patrocinado por entidades como o MBL, que infelizmente pode ser explicada dentro de um contexto criado pelos exageros do politicamente correto, ele também hipócrita, histérico e autoritário). É, afinal, um mundo com novos códigos — não melhores ou piores, mas diferentes, e sempre uma resposta ao seu próprio tempo. Ao mesmo tempo, é incômoda a sensação de que se está perdendo também a capacidade de enxergar o mundo fora do espelho — o que é estranho justamente numa sociedade que, mais rica do que nunca na história, acha que tem o direito absoluto a qualquer tipo de prazer, desde que em um mundo cada vez mais asséptico.

Rubem Fonseca, 8 anos depois

Eu não vou esquecer de quando li “O Cobrador” pela primeira vez. Tinha 19 anos e tinha dormido na casa de uma amiga. Acordei sem ninguém em casa, porque ao contrário de mim as pessoas tinham vergonha na cara e trabalhavam, e sem ter o que fazer abri o livro que tinha comprado no dia anterior.

Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita.

Aquilo era diferente de tudo o que eu conhecia. É como se eu finalmente tivesse entendido Manoel Bandeira farto do lirismo comedido do lirismo bem comportado do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Sabia dele, claro, porque quando “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” fora lançado a máquina de divulgação da Companhia das Letras, à época uma editora fascinante, fez com que a notícia extrapolasse o meio literário, virando quase um evento social. Mas não o conhecia. E então, de repente, dou de cara com aquele sujeito bruto, seco, visceral.

Faulkner jamais me daria novamente o choque que me deu em “O Som e a Fúria”, Dostoiévsky jamais repetiria a cena do assassinato das velhas usurárias por Raskólnikhov, ninguém pode imaginar a minha decepção ao ler “Dublinenses” depois de “Ulysses”, ou “Laranja da China” depois de “Brás, Bexiga e Barra Funda”.

Mas depois de “O Cobrador”, de “Feliz Ano Novo”, depois de conhecer boa parte dos livros dele publicados até então, li “Lúcia McCartney”, e de novo fiquei boquiaberto, sem reação que não fosse o deslumbre total. Ainda hoje “Lúcia McCartney” é, para mim, o melhor livro (não coletânea) de contos escrito em língua portuguesa. A diversidade de temáticas e de abordagens, a verdade contida em cada um dos contos, a ambição literária que se podia ver nas palavras de um sujeito que sabia de onde sua prosa vinha, tudo aquilo me deixava embasbacado e impressionado.

Infelizmente foi mais ou menos nessa época, no começo dos anos 90, que essa magia devocional se acabou. Na verdade, um pouco depois de “Lúcia McCartney”: eu tinha esperado ansiosamente o lançamento de “Romance Negro”, mas já nas primeiras páginas uma frase me incomodou: “Seu corpo nu está me dizendo que é tudo verdade”. Corpos nus não dizem muito, dizem se têm frio ou calor ou vergonha ou medo, se estão excitados, e essa frase me soou tão falsa, tão artificial — especialmente nele, que escrevia brilhantemente a partir das verdades mais básicas, sem floreios, um Hemingway que deu certo — que foi como se, de repente, o meu deus infalível se mostrasse bêbado num fim de noite, olhado com desprezo pela moça que iria com ele para casa, um deus não tão infalível assim.

Mas aquele era um bom livro e isso era apenas uma bobagem mínima que podia ser deixada para lá. Depois a coisa piorou, porque “O Selvagem da Ópera” era um livro tão destoante, e uma sequência de livros medianos (“Histórias de Amor” ou “O Buraco na Parede”) ou medíocres (“O Doente Molière” é vergonhoso, “Diário de um Fescenino” não é muito melhor) transformou minha devoção em agnosticismo.

Curiosamente, à medida que sua obra ia decrescendo em qualidade, um fenômeno não tão curioso parecia ir se consolidando: Rubem Fonseca parece ser protegido por uma certa camaradagem literária carioca, como se seus pares tentassem protegê-lo do mundo mau lá fora em respeito à sua obra pregressa, monumental. Basta olhar os jornais: não importa quão ruim seja um livro seu, sempre vai haver uma crítica favorável, no mínimo condescendente, em algum grande veículo de comunicação. Exemplos e exemplos de uma boa vontade generalizada, uma prontidão em inserir o livro no “estilo”, no “universo” de Rubem Fonseca. Vai ser fácil encontrar neles aquela vontade de ser amigo, de chamá-lo de Zé Rubem, identificar aquela admiração necessariamente condescendente que devia ser proibida numa reportagem sobre qualquer pessoa.

Daí se pode imaginar o prazer com que li “Secreções, Excreções e Desatinos”, um livro “conceitual” como o Sgt. Pepper’s. Mas foi alegria efêmera, porque a ele se seguiram livros menores — eventualmente interessantes, como “Pequenas Criaturas”, mas nunca grandes. Ele mudou de editora (perdendo as capas lindas, tão lindas de Hélio de Almeida) e lançou “O Seminarista” um livro tão tosco que chegava a ter erros de continuidade.

Eu não tinha mais interesse em Rubem Fonseca. Em 2011 vi que ele tinha lançado dois novos livros, “José” e “Axilas e Outras Histórias Indecorosas”. Deixei para comprar depois. O tempo passou, e de tanto deixar eu esqueci. De lá para cá, durante muitos anos ele não me mandou mais notícias, não falou mais comigo.

***

E daí que depois de alguns anos sem saber de Rubem Fonseca, sem sequer reler seus livros, fui procurar sua biografia e descobri que desde “O Seminarista” ele tinha lançado mais cinco livros. Deus habitava meu coração esse dia, segunda-feira passada e comprei os cinco de uma vez. Chegaram mais rápido que de costume. Li-os todos em umas seis, sete horas.

Comecei pelo último livro de que me lembrava, “José”. Tive uma surpresa agradável: em vez de uma novela, tratava-se de um pequeno livro de memórias que, apesar do tom meio desconjuntado, do apego excessivo ao seu próprio estilo pouco adequado a reminiscências, acaba apresentando uma doçura da velhice, quase intimidade, ainda mais insuspeita em um sujeito cujo mundo literário é no mínimo singular.

“Axilas e Outras Histórias Indecorosas” é mais um livro de contos. O primeiro, “Sapatos”, é muito bom, evocando os bons tempos dos anos 60 e 70. O resto é uma sucessão de às vezes pouco, às vezes nada bem-sucedidos contos que, no fim das contas, parecem apenas variações da mesma história. É como se Rubem Fonseca escrevesse com má vontade, com pressa, até impaciência. Parte de situações bobas que ele não consegue resolver adequadamente, apelando sempre para uma solução que agora deixa de ser necessária para ser apenas fácil.

A antiga mania de fazer pequenas explanações enciclopédicas sobre um tema qualquer, cultura de Google que hoje faz ainda menos sentido do que na época em que fornecia esteio para romances inteiros, como as facas de “A Grande Arte” ou os sapos de “Bufo & Spallanzani” ou ainda Bábel em “Vastas Emoções”, hoje não são mais que caricaturas, um cacoete literário que soa constrangedor à medida que se empilha em cada conto — às vezes, isso é a própria essência do conto.

Mais impressionante ainda, por alguma razão “Axilas” mereceu uma tese acadêmica, de Alana Vizentin. Não li, não posso falar nada — mas não li porque não acho que esse livro mereça qualquer coisa além de um contraponto numa mesa de bar, e porque acho que já faz algum tempo que a academia brasileira, por razões internas de sobrevivência e auto-justificação, enveredou por descaminhos bizarros. O que importa é que o fato de alguém se dignar a escrever uma dissertação sobre livro tão medíocre apenas confirma a antiga impressão de que, mais do que qualquer outro escritor brasileiro em qualquer tempo, mais até que Guimarães Rosa ou Dalton Trevisan, Rubem Fonseca é o alvo carinhoso de uma camaradagem quase suspeita da crítica, que transforma a sua auto-repetição recorrente cada vez mais piorada em estilo, unidade, densidade.

Mas o livro traz, para um velho leitor de Rubem Fonseca como eu, o reencontro com um estilo. Em si, isso é agradável. Um ou outro conto parece quase alçar voo, quase chegar ao padrão a que o escritor acostumou seus leitores. Mas o resto é uma sucessão de peças escritas com displicência que, mais e mais, se assemelham a cópias malfeitas de algo que já foi bom.

“Amálgama”, o livro seguinte, vem com pedigree. Diz um adesivo canalhamente colado à capa que o livro ganhou o Prêmio Jabuti. Alguém deve ter ganho um bom dinheiro para dar esse prêmio, porque “Amálgama” é um livro pior que “Axilas”, por sua vez um livro medíocre. A orelha do livro tenta dar à obra um significado maior do que aquela a que ela pode almejar. O que eu não sabia, quando li “Secreções, Excreções e Desatinos”, é que ali Rubem Fonseca tinha descoberto uma fórmula para salvar os contos cada vez mais fracos, mais descuidados: aglutine-os sobre um tema geral e o conjunto talvez esconda o fato de que os contos são ruins. Funcionou em “Pequenas Criaturas”, um pouco menos em “Ela e Outras Histórias”, mas não pode salvar “Amálgama”.

A angústia existencial dos personagens de Fonseca se resolve, quase invariavelmente, com o assassinato. Essa sempre foi uma constante na sua obra, mas agora, de tão repetido, e de situações tão simplórias, o recurso perde significado. Personagens cada vez mais mal resolvidos, mais implausíveis, delineados de maneira tão simplória, parecem matar apenas porque matar é fácil, ou porque esse é o final que se espera de uma história de Rubem Fonseca. Não há mais criatividade, ou pujança: a literatura de Rubem Fonseca hoje se resume apenas à aplicação quase mecânica de seus trejeitos e fórmulas sobre uma situação qualquer, sempre fácil.

Esta resenha de Luís Augusto Fischer me parece adequada. “38 contos, todos fracos, vários muito ruins, um ou outro de dar dó” é algo que define, e com uma grande dose de compaixão, “Histórias Curtas”.

E então vem “Calibre 22”, o mais recente livro. O primeiro conto traz uma ironia verdadeira e uma atualidade temática que parece indicar que o velho Rubem, apoiador do golpe de 64 e roteirista do IPES, pelo menos transformou sua visão de mundo em literatura de verdade, sintonizada com seu tempo. É só ilusão, no entanto: a ele se seguem contos e mais contos que repetem as mesmas piadas mal estruturadas, mal escritas. Até mesmo Mandrake (que já tinha sido muito maltratado em “Mandrake: A Bíblia e a Bengala”), um personagem recorrente desde os anos 60, se torna apenas mais um nome, alguém sem história, sem razão de ser. O conto que ele protagoniza, e que dá título ao livro, é tão vazio que faz pensar por que Rubem Fonseca colocou o que é seu personagem mais conhecido para protagoniza-lo, porque podia ser qualquer um.

Definitivamente, Rubem Fonseca se transformou em um pastiche de si mesmo, e talvez a melhor imagem para ilustrar essa transformação seja o fato de que, neste livro, “O Cobrador” se transformou em “O Matador de Corretores”, quase uma paródia de sua obra. A coisa se torna tão séria que embora as críticas favoráveis continuem pululando como sapinhos numa lagoa, apreciações corretas do verdadeiro valor de cada livro se tornam mais frequentes. Como esta, de Sergio Rodrigues, que beira o desrespeito — ainda que justo.

São quatro livros de contos publicados em seis anos. É impossível deixar de desejar que Rubem Fonseca tivesse evitado publicar tudo aquilo que escreve, que tivesse elaborado melhor seus contos, separado o joio abundante do trigo, porque o resultado seria melhor. Ao longo desses quatro livros, alguns contos apresentados como medíocres ou francamente ruins poderiam ter dado origem a algo realmente bom. Mas a pressa que se depreende de sua escrita parece ser existencial. Não interessa mais a qualidade. O que Rubem Fonseca quer é continuar publicando, porque apesar do que ele diz, a literatura ainda faz sentido, e é isso que nos mantém vivos. Mesmo que nos mate aos poucos.

Sebos e livrarias

Uma livreira da 7 de Setembro, há uns bons anos, reclamou comigo que a internet estava matando os sebos do Rio. Eram os livros didáticos, paradidáticos e de referência que os sustentavam, desde sempre, mas o Google e quetais estavam acabando com a utilidade dessas publicações. Ela via seus livros empoeirarem ainda mais nas prateleiras sem que ninguém mexesse neles, e antevia o dia em que, como outros antes dela naquela mesma rua, teria que fechar as portas.

Não percebi na hora, mas devia haver ali um recado disfarçado para mim, de que não seriam pessoas como eu, que fuçavam suas lojas atrás de algum livro valioso vendido a preço de banana, ou buscavam os saldões em busca de algo que prestasse, que os salvaria.

De lá para cá, pelo que ando vendo, as coisas pioraram muito. Um a um, os sebos que eu conhecia vão fechando. Seu mercado encolhe a cada dia. Quando fecha um sebo famoso, como o São José da Primeiro de Março, o mundo vem abaixo; mas a verdade é que os primeiros a fechar foram aqueles com menor conhecimento dos objetos que vendiam, justamente os que me permitiam encontrar aquelas pequenas pérolas por preços risíveis, aqueles que mal sabiam a diferença entre velho e clássico, e que achavam que capa dura era sinal de qualidade. Os poucos que resistem parecem se especializar cada vez mais em nichos mais restritos e com maior margem de lucro, como edições raras. Mas mesmos esses sofrem a concorrência avassaladora da internet. Uns anos atrás, atrás de um livro autografado por Jorge Amado para dar de presente, sequer procurei nos poucos sebos daqui; sabia que não o encontraria. Em vez disso, corri para o Mercado Livre.

A Estante Virtual e a própria Amazon são pequenos paliativos para os sebos e, se salvarão alguns, não poderão salvar o mercado que paradoxalmente ajudam a destruir. Mas a internet fez mais mal às livrarias. Hoje em dia, como lembrou um artigo publicado no New York Times, livrarias estão se tornando pouco mais que showrooms onde você vai olhar os livros que pretende comprar mais barato online. O fenômeno é mais claro nos Estados Unidos; aqui, como a diferença de preços é relativamente pequena, o estrago é um pouco menor — mas é inexorável, ninguém se iluda.

Minha infância foi marcada pelas livrarias Civilização Brasileira, em Salvador. Minha adolescência foi marcada pelas livrarias Civilização Brasileira, em Salvador, e pela Didática de Aracaju — onde eu tinha eternas coleções, sempre renovadas, de promissórias algumas vezes vencidas (o que, curiosamente, nunca os impediu de continuar a me vender fiado). Foi na Didática que li, em pé, todo o “Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” — um bom livro para se ler aos 12 anos. Foi lá que encomendei, um a um, os volumes da “Comédia Humana”. Foi ela que teve a coragem de vender a edição portuguesa de “Os Versículos Satânicos” pouco depois da fatwa de Khomeini. Era lá que, vez em quando, Marivaldo me avisava que um livro que poderia me interessar havia chegado.

A Civilização Brasileira tem outra história. Ela é uma das principais lembranças de infância; cresci com livros que traziam nas guardas o seu selo. Foi numa das Civilizações Brasileiras da Avenida Sete, por exemplo, que meu pai me mostrou que, sabendo procurar, era possível achar livros mais baratos — no caso, os cinco volumes da “História da Literatura Brasileira” de Sylvio Romero, diante de mim enquanto escrevo isto porque eu adoro a maneira como ele esculhamba Machado de Assis.

Mais tarde, na adolescência, era lá que eu via livros mais refinados e caros que jamais encontraria em Aracaju — livros de fotografias da Bahia antiga, uns tantos livros importados; foi lá que descobri Pierre Verger. Até hoje, a Civilização Brasileira me lembra essa sofisticação e variedade que me encantavam sempre que eu voltava a Salvador. Foram as Civilizações Brasileiras do centro da cidade que, ao longo dos anos 80, percorri em busca de livros sobre os Beatles — foi na rua da Ajuda que comprei meu primeiro livro da banda, o de Geoffrey Stokes, e lembro de ansiedade em carregar aquele volume enorme, embalado em papel celofane vermelho, até a casa de minha avó na Saúde.

Mas então vieram as grandes redes para engolir as pequenas livrarias, aquelas que floresceram quando as cidades ainda pertenciam às pessoas. Conglomerados como a Saraiva fizeram com que as livrarias locais perdessem condições de competir. Agregaram outros serviços, ampliaram o escopo de produtos à venda. Numa Saraiva você compra o livro da moda enquanto toma um café superfaturado, e se for um completo idiota — o que pode lhe poupar muitos dissabores na vida, é preciso reconhecer —pode até se imaginar no Café de Flore; mas não acho que nesse caso você vá estar interessado nisso.

A Didática não existe mais. A Civilização Brasileira, por sua vez, morreu de maneira mais lenta e mais degradante.

Foi um choque quando, há alguns anos, vi que ao menos a loja da Civilização Brasileira do shopping Iguatemi tinha sido remodelada para ficar igual às Sicilianos da vida. Era óbvio que se tratava de uma tentativa de mimetizar-se no inimigo. Mas para mim aquilo era apenas uma mostra de desespero e de maus augúrios para um futuro cada vez mais duvidoso.

Acima de tudo, ela tinha encerrado seus últimos vestígios de identidade própria. Porque o que faz mais falta nas livrarias antigas é isso: sua personalidade. Uma livraria era diferente da outra, e não apenas pela escolha dos livros que oferecia em suas estantes. A partir daquele momento, a Civilização Brasileira era apenas uma Siciliano com estoque mais pobre. E um pedaço da minha infância morria ali.

Claro, nem tudo na vida é preto e branco. Filmes como “Mens@gem Pra Você” encamparam a luta romântica e quixotesca das pequenas livrarias, carpindo a pequena e charmosa livrariazinha do bairro que é engolida pelas grandes redes. Acontece que a resistência de um modo de vida suplantado pelo novo devorador de inocências é agradável aos olhos, mas inegavelmente também tem muito de pieguice boba. Assim como os cinemas de rua, as pequenas livrarias acabam porque as pessoas encontram melhor relação custo/benefício em outros lugares. Por mais agradáveis que sejam, por mais simbólicas e mais importantes em termos urbanos que sejam as lojinhas da esquina, a verdade é que elas desaparecem porque alguém faz o que ela faz de maneira mais eficiente.

Esses conglomerados se adaptaram ao novo mundo, e não sei se se pode realmente lamentar esse fato. Mas isso não me tira o direito de chorar as minhas livrarias. Raramente compro alguma obra nos mercados de livro que frequento. Saraivas são lugares de passeio para mim, um olhar as novidades, um café de vez em quando — mas livros, mesmo, só de vez em quando, e só por impulso. E faço isso, em parte, por desagravo ao mundo que elas tiraram de mim.

Resta um consolo, apenas. As redes não estavam sozinhas na cadeia alimentar e a história ainda não havia terminado. A internet viria vindicar as pequenas livrarias, porque Deus é cruel e canalha, mas é justo. E enquanto tomo um café na Kopenhagen quase em frente à Saraiva do shopping, olho para ela com a paciência dos sabem o que é o verdadeiro ódio, e um só pensamento na cabeça: “Sua hora há de chegar.”

Os burgueses do porto de Calais

Lendo aqui que na Coreia do Norte fotos de soldados são proibidas.

Ditadura, gritam. Opressão. Queremos liberdade para eles. Como é ruim viver num país assim, onde não se pode tirar uma simples foto. Morte ao gordinho maluco.

E aí lembrei de um pequeno episódio no porto de Calais.

Naquele tempo ainda se usavam máquinas fotográficas. Puxei a minha para tirar umas fotos do lugar; era uma área comum, ao ar livre, eu sequer estava no centro de operações do porto. Então uma lourinha de uniforme vistoso veio correndo até mim.

Eu certamente não percebia que portos são, ao menos em tese, unidades militares. Muito menos que um paraíba com uma câmera na mão pode ser na verdade um espião perigoso a soldo dos soviéticos, homem de artes e talentos saídos diretamente de um livro de John Le Carré. Perigosíssimo, eu. Um paraíba tão insidioso que, em vez de usar câmeras em canetas ou em botões de camisa ou implantadas na íris, tentava dar uma de turista desavisado com uma câmera furreca. Afinal de contas, quem seria tão idiota para tirar fotos de um lugar feio como aquele? Pensando nisso agora, com a serenidade e a clareza que o passar dos anos às vezes nos dão, eu devia me sentir lisonjeado: na verdade, eles me tomaram por muito, muito mais do que eu poderia ser.

Porque o que eu sabia era outra coisa: que fora ali que D’Artagnan embarcara em direção a Londres para encontrar o Duque de Buckingham e frustrar um plano de Richelieu. Fora ali em que ele tinha mostrado com quantos ferros se faz um buraco no bucho de uns pobres guardas e embarcara com destino à grande inimiga de sua pátria. Tudo bem, o lugar onde D’Artagnan mostrou que era o guarda real mais batuta da Lutécia não devia parecer muito com aquilo que eu via; mais de 350 anos haviam se passado. Mas para mim Calais é e sempre será, antes de qualquer coisa, um cenário para D’Artagnan mostrar sua bravura e lealdade à rainha.

Mas a guarda lourinha estava se lixando para o mosqueteiro, Darta quem?

Ela era bonitinha, britanicamente bonitinha. Com aquela simpatia inglesa, me disse que era proibido tirar fotos ali. Bem simpática, a moça, tentando fazer o seu trabalho com o máximo de civilidade possível, acostumada provavelmente a reprimir, todos os dias, centenas de turistas desavisados como eu, tarefa ainda mais doce porque feita na terra dos outros. Simpática, de fato.

Mas eu sou baiano e para mim simpatia é quase amor. Ainda tentei jogar uma conversa qualquer, Hello, my name is John Holmes; mas ali não havia conversa possível. Sorrindo ainda, um sorriso que deve ter se desvanecido em tédio assim que me virou as costas, ela se afastou como quem não entende a cordialidade brasileira. Deve ser o clima, tadinha, o frio e a falta de sol fazem isso com as pessoas.

Tomara que o Google Earth tenha tirado o emprego daquela moça.

***

Foi naquele ano que vi pela primeira vez os “Burgueses de Calais”, de Rodin, nos jardins de Victoria Tower, ali pelos fundos do parlamento londrino. Eu não sou daqueles fãs alucinados de Rodin, mas aquela escultura que evocava justamente um lugar que eu tinha acabado de conhecer ficou na minha cabeça. Imaginei a guardinha inglesa enchendo o saco daqueles pobres burgueses, Sorry, no pictures, sires.

Uns anos depois voltei ao mesmo local, procurando meus companheiros de infortúnio, e os burgueses tinham desaparecido.

Eram os tempos posteriores à crise de 2008, aquela que diziam ser a mais grave de todos os tempos, tempos de desespero e medo do futuro. A ausência dos burgueses foi, para mim, a maior prova de que a crise era mesmo grave, marolinha coisa nenhuma. A crise tinha destruído os burgueses de Calais, eles deviam ter se mudado para Dagenham, deviam estar sobrevivendo do que ainda restava do welfare state inglês, tentando trocar cupons por um pint de Guinness num pub qualquer.

Mas tudo isso eram apenas suposições. Eu tinha uma única certeza: em nenhum momento duvidei que foi aquela guardinha inglesa que tirou os coitados dali.

De lá para cá os burgueses voltaram. Da última vez que andei por lá, os danados estavam no mesmo lugar de antes, com as mesmas cordas no pescoço, em sacrifício não mais a Eduardo III, mas ao deus Mercado. Eu devia saber que nessas crises do capitalismo quem sempre se ferra de verdade são os pobres. E que nesses momentos sempre aparece uma guardinha inglesa para dizer: Sorry, no pictures.

Hitler no Brasil

Uma senhora de grande imaginação chamada Simoni Renée Guerreiro Dias revelou — certamente com grande perigo para sua própria integridade física — um segredo que forças ocultas tentam esconder de nós reles há mais de 70 anos, junto com a existência de ETs congelados nos porões de Washington. Vi agora no National Enquirer History.com que a dita senhora lançou no início do ano um livro em que afirma que Adolf Hitler morreu no Brasil, aos 95 anos.

O History, citando um autor russo chamado Dimitri Boryslev, diz que Stálin estava “convencido de que Hitler havia escapado. Ele suspeitava de um pacto entre o tirano alemão e as potências ocidentais, que teriam poupado sua vida em troca de conhecimentos de tecnologia bélica.” O que é tão óbvio que chega a ser vergonhoso duvidar: todos sabemos que, perto de Hitler, Von Braun era um estudante de terceiro ano primário.

Segundo a tese, foi assim: um submarino veio para a América do Sul deixando os refugiados — como Mengele e Eichmann — em vários países, mais ou menos como uma van parando de ponto em ponto com o sujeito pendurado na porta gritando; “Rio de Janeiro! Puerto Stroessner! Buenos Aires! Aceitamos vale-transporte e tique-refeição!” “Comboio do Holocausto” seria um bom nome para esse submarino da esperança. Ou, se alguém me perdoa a ironia, “Exodus”.

Sem ler o livro, o que posso intuir é que deve ser especificamente aí que entra a tese da senhora Dias. Segundo ela, assim que deu com os costados no Brasil, Hitler se transformou em um tal de Adolf Leipzig e foi morar em Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso, como prova a foto ao lado.

Eventuais discrepâncias devem ser relevadas. Leve em consideração a passagem do tempo, a diferença de clima: há um mundo de diferença entre a temperatura amena de Obersalzberg e o inferno mato-grossense, e deve ter sido isso que fez o Führer repensar sua vida, colocar em xeque seus valores e emergir como uma pessoa melhor, provando que nem todo pau que nasce torto morre torto, que todo mundo no fundo é bom, e que a gente deve continuar a acreditar na humanidade.

Porque vir ao Brasil fez bem a Hitler, e a foto prova isso. Antes racista convicto, aqui se atracou a uma negona de responsa que deve ter ensinado a ele coisas que aquela lambisgoia da Eva Braun, com sua rigidez alemã, jamais poderia; e dizia em seu ouvido “ai, Dodô… ai, Dodô…” Seu nome, segundo o Daily Express, era Cutinga; ninguém pode ser amargo se se deita com uma Cutinga.

Antes antitabagista fanático, aqui se rendeu ao cigarrinho — como não sei de quando é a foto, não posso dizer se é Clássicos, Belmont ou Derby; mas o fato de estar na mão esquerda significa que, além de tudo, Hitler se tornou canhoto, o que prova a sua capacidade inacreditável de mistificação. Os trópicos aumentaram suas orelhas e ele provavelmente terminava a noite com uma cachacinha na bodega, não sem antes derramar o pouquinho do santo para abrir os caminhos.

E aí a gente não pode deixar de admitir que Araripe Júnior tinha razão quando falava na tal “obnubilação tropical”:

Agora, responda-se francamente: nessa constante surmenage, quando os corpos, atrelados a uma imaginação superexcitada, a todo o instante gravitam para o leito, há estilo que resista, há correção que se mantenha?

Mas por mais que eu goste da tese da senhora Dias, por mais que a admire pela coragem quase insana, a verdade é que tenho outra teoria. Está mais para “Meninos do Brasil” que para desesperos de fuga num pinga-pinga submarino. Além disso, estou plenamente convencido de que minha tese faz mais sentido na atualidade, e ajuda a explicar o mundo em que vivo.

Todos sabemos que a ciência alemã era uma das mais avançadas do mundo aquele momento. Todos sabemos também que Hitler era chegado numas macumbagens, numas coisas de ocultismo.

Graças a uma farta documentação fotográfica, hoje posso afirmar que, com a ajuda de seus cientistas e de seus magos, descobridores da conexão graálica entre ciência e sobrenatural, Hitler digitalizou completamente a sua mente, tornando-a imortal. Mandou queimarem seu corpo para todos acharem que ele estava morto: aquele churrasquinho de chucrute que os soviéticos encontraram era mesmo de Adolf. Mas a sua essência estava lá, mais viva do que nunca, certamente mais viva que os judeus torrados em Auschwitz.

Hitler não fez isso à toa. Antes de todo mundo, ele percebeu para onde o mundo seguia. Anteviu o mundo hiperconectado do século XXI. Hoje, Hitler está completamente interligado à rede elétrica mundial e à internet, se multiplicando a cada clique numa página do MBL e a cada acendimento de uma lâmpada; e basta olhar em volta de você, basta ver o que as pessoas andam dizendo e pensando para entender que a minha tese este correta: só isso pode explicar o mundo em que vivemos.

Hitler é uma tomada, é milhares de tomadas, talvez milhões, e está mais ativo do que nunca.

Hemingway

Minha primeira experiência com Hemingway foi — vamos usar um eufemismo — inauspiciosa.

Aí pelo meio da adolescência, veio parar nas minhas mãos um livro de capa rosa chamado “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”, obra de 1950 que li diligentemente, porque na época eu me impunha terminar tudo o que tinha começado a ler e porque já sabia que Hemingway era um bambambam e eu precisava conhecer o sujeito.

Conforme se viu mais tarde, perdi um tempo que, se não era exatamente precioso, poderia ter sido aproveitado com coisas um pouco melhores — o que não era difícil porque até caminhar a esmo pela cidade seria melhor do que ler aquele livro horrível. “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores” era tão ruim que me deixou pensando como alguém capaz de escrever aquilo era tão glorificado. A única resposta possível era a de que os outros livros deviam ser tão bons que levava as pessoas a fazerem um esforço sincero, ainda que enorme, para esquecer que Hemingway tinha sido capaz de perpetrar essa bisonhice.

Mas daí talvez tenha vindo, também, uma eterna má vontade em relação ao escritor e aos seus personagens. Ou não, não era bem isso: talvez fosse mais adequado afirmar que eu encontrava mais facilmente uma característica peculiar aos seus protagonistas, um certo modo de ver a vida e o mundo que fazia de seus personagens uns grandes chorões, beirando a chatice. Um a um, pobre ou rico, jovem ou velho, choram todos os personagens de Hemingway: lamentam a inocência perdida, o amor perdido, a juventude perdida, o ideal perdido — ou, no caso de Jake Barnes, algo ainda pior, que ele deixou nos campos da Bélgica.

Alguns anos depois de ter conseguido terminar aquilo que fez John dos Passos se perguntar como um homem em sã consciência conseguia colocar tanto lixo no papel, comprei “O Sol Também Se Levanta”, em busca daquela resposta que eu tinha adivinhado uns tantos anos atrás. Não era possível que Hemingway fosse tão ruim como eu achava; ele tinha que ter algo bom, e “O Sol Também Se Levanta”, afinal, era o grande livro da tal geração perdida.

Talvez fosse a tradução. Talvez fossem os dias. Mas aquele livro não me empolgava. Ainda assim, li até a cena de uma viagem de trem que empacava na descrição de uma barata no chão. Só isso, mais nada. Uma barata. Não havia razão para a barata no piso do trem, mas ela estava ali, alheia a Jack Barnes, alheia a Hemingway e, principalmente, alheia a mim.

Era um detalhe bobo, curto, mas que me parecia tão sem sentido que me fez sentir enganado. Algo ali não combinava: de um lado um estilo seco, conciso e contido; do outro, um elemento absolutamente supérfluo que não acrescentava nada à narrativa. A barata me fez imaginar se Hemingway não estava sendo pago por número de toques.

Mais uma vez deixei o coitado do Hem de lado. E por mais alguns anos o velho cachaceiro fanfarrão continuou ali, me incomodando, me chamando silenciosamente de idiota, de fracote.

Até que li, finalmente, “O Velho e o Mar”, livro que nego lê na adolescência mas que só encarei depois de bem avançados os meus anos. E o que li ali me fez finalmente admitir que Hemingway era — ou melhor, podia ser — um grande escritor.

Já vi muita gente esculhambar a história do velho Santiago. Coitados. Devem ser os mesmos que têm certeza de que o velho pescador azarado morre no final, porque não entenderam nada. Não podem compreender que não há símbolo algum, nenhuma intenção oculta, que Santiago apenas dorme, porque amanhã vai voltar ao mar e não vai trazer nada, e é esse estoicismo que lhe dá grandeza. Santiago é o único protagonista de Hemingway que não chora pelo que perdeu, porque sabe que não adianta.

Para mim, “O Velho e o Mar” é uma novela que beira a perfeição, como o Quincas de Jorge Amado. Tudo de bom que a crítica dizia de Hemingway estava contido ali, naquele livrinho curto, tão menor que “Por Quem os Sinos Dobram”.

Mas “O Sol Também se Levanta” continuava ali, me incomodando. Eu devia ter deixado passar alguma coisa. Então, com a esperança renovada pelo velho Santiago, resolvi comprar a versão original em inglês. Para não ter mais a desculpa da tradução, e por desconfiar que se o estilo era fundamental, o ritmo dado pela língua do bardo poderia fazer alguma diferença.

Pensando bem, mais que desconfiança, o sentimento em questão era esperança. E esperança é bicho frágil sempre pronto a ser despedaçado pela realidade dura e crua, é bicho que morre cedo.

E aí admiti finalmente que estava certo desde o início: Hemingway era um mau romancista e tinha problemas com textos longos. O problema é que The Sun Also Rises poderia perder um terço de seu tamanho em descrições desnecessárias. Hemingway tinha tudo resolvido de maneira perfeita, mas precisava alongar as coisas para, em vez de uma novela, escrever um romance para o qual ele simplesmente não tinha fôlego. Não é um julgamento ofensivo, pelo contrário: sua capacidade de síntese o levava, instintivamente, a criar narrativas fortes e enxutas que ele, mais tarde, julgava ser necessário preencher com superfluidades.

É a razão pela qual “O Velho e o Mar” é um livro perfeito. Tem o tempo certo, as palavras necessárias; acima de tudo, tem o personagem masculino que Hemingway tentou criar toda a vida, e que só conseguiria ali.

Descobri agora que Harold Bloom o vê exatamente como eu: um romancista menor com um grande estilo. Mas acho que posso ser um pouco mais generoso do que Bloom, porque não conheço literatura tão bem quanto ele e porque nosso Senhor Jesus Cristo encheu meu coração de amor e doçura quando me fez.

Porque o gênio de Hemingway não é o romance, nunca foi. Foi apenas quando comecei a ler seus contos que pude entender completamente o seu brilho. Contos como The Killers, ou Up in Michigan, ou The Short Happy Life of Francis Macomber ou Hills Like White Elephants, são pequenas obras primas. Ao contrário do romancista enchedor de linguiça, Hemingway-o-contista entrega peças fortes, vívidas, cheias de significado em sua economia. Aquelas emoções básicas, que ele tenta enfeitar e alongar em seus romances, aqui são apresentadas em seu estado natural. Hemingway parece ter tentado, durante toda a sua vida, ter feito essas pobres emoções durarem mais do que aguentariam. O resultado são romances sempre defeituosos que, com uma dose da humildade que ele nunca teve, poderiam ser contos ou novelas brilhantes. O problema do velho Hem é que ele nunca conseguiu entender isso.

Os melhores álbuns dos Beatles, pela ordem

Parei para pensar que nunca fiz uma lista ordenando os discos dos Beatles por ordem de preferência. Talvez porque isso não signifique muito para mim; ouvi esses discos por tanto tempo que é quase impossível fazer um ranking. Mas eu gosto de listas.

Em primeiro lugar é bom lembrar que mesmo o pior álbum dos Beatles é melhor que 99,7% dos discos já lançados neste vale de lágrimas e de música ruim. Nenhuma outra banda conseguiu lançar tantos discos seguidos com tamanha qualidade, de maneira tão consistente.

Mais que isso, ninguém mais conseguiu fazer tantas gravações que, mesmo com o passar dos anos, não perdem sua atualidade. É talvez a sua principal qualidade, e o que reafirma a cada dia sua genialidade. Num livro meio estranho lançado recentemente, Their Lives: Great Writers on Great Beatles Songs, Chuck Klosterman definiu com perfeição o que os faz grandes:

The Beatles’ songbook is a neutral charge. It’s a self-reflexive reality. Every other guitar band of the past sixty years has made a kind of rock: blues-rock or prog rock or folk rock or acid rock or punk rock or grunge rock or art rock or [pick a modifier] rock. But not the Beatles. The Beatles made “Beatles Music,” which became the working definition of “rock music,” which became the working definition of “popular music.” Black Sabbath worked within a genre; Blue Cheer worked within a subgenre. The Beatles had no such parameters. They could do whatever they wanted, and whatever they did became normative. If the Beatles had prominently employed the accordion on Revolver, we’d all be able to walk into any local Guitar Center and stare at a wall display of accordions, most of which could be plugged into Marshall amplifiers. Anything the Beatles did immediately became something that could be plausibly attempted by other artists. The Beatles “invented” heavy metal to the same degree they “invented” the notion of a pop band breaking up in public: they weren’t the first people to have the idea, but they were the first materialization of that idea in a context that collectively mattered. “Helter Skelter” ratified metal. Had Mötley Crüe covered “Smoke on the Water” or “Children of the Grave,” the unspoken message would have been “We like metal, so we play metal music.” By covering the Beatles, the unspoken message was “We like music. Metal is just the way we play it.”

Foi dentro desse contexto que fiz essa listinha boba. Ela não inclui alguns dos maiores clássicos da banda, já que os Beatles costumavam reservar suas melhores canções para os compactos, posteriormente reunidos no Past Masters. Se ele pudesse ser incluído seria um dos melhores, sem dúvida. Mas coletânea e disco póstumo não valem.


Yellow Submarine
Talvez seja injustiça colocar este disco aqui, porque na prática ele não é um álbum, é um EP. É praticamente uma obra de George Martin, que assina todo o lado B com a trilha orquestral do desenho animado; das seis músicas dos Beatles que compõem o lado A, apenas quatro são inéditas — duas delas escritas por George Harrison, e não particularmente inspiradas. Mas a verdade é que gosto de todas essas canções, especialmente Hey Bulldog, e até já ouvi o lado B algumas vezes.


Beatles For Sale
Final de 1964. A banda está exausta devido a uma rotina absolutamente estafante, e a obrigação de lançar um novo disco antes do Natal aqui se revela um fardo quase grande demais, fazendo-a começar a se repetir. Até Beatles For Sale, cada álbum representou um passo adiante em relação ao anterior, retratando uma evolução constante e sem paralelos — ainda mais diante da pressão mercadológica para que eles fizessem mais do mesmo (pressão a que os Beach Boys, por exemplo, não sobreviveram). Mas aparentemente tudo tem limite, e Beatles For Sale é uma interrupção abrupta nesse processo, ou ao menos uma pausa para descanso; não é à toa que este é o disco mais “acústico” dos Beatles. O resultado é uma volta a covers tocadas nas longas noites em Hamburgo, a canções velhas que sempre tinham sido preteridas, como I’ll Follow The Sun, e algumas canções novas que dificilmente poderiam ser qualificadas como obras-primas. Este é o disco de uma banda competente, talentosa, mas aparentemente estagnada. Relativamente pouca coisa se destaca aqui.


Let it Be
O amontoado de jóias nesse álbum não obscurece o fato de que todo ele soa estranho, como algo destinado a ser grandioso mas que ficou no meio do caminho: não é nem o projeto original, interessante em princípio, nem um disco tradicional de estúdio. Para piorar, o som é estranho, abafado, resultado dos estúdios vagabundos onde foi gravado. Em qualquer outro momento, um disco que enfileirasse Let it Be, Get Back, Across the Universe e The Long and Winding Road seria uma obra-prima, e é só por isso que ele não está em posição mais baixa. Mas o que os Beatles entregaram depois de passar a régua na banda é um disco decepcionante, se analisado no conjunto. Se eles tivessem se reunido para refazer esse álbum com seriedade, o resultado seria um disco perfeito. Mas em vez disso a banda acabou, e Let it Be é apenas Terry Malloy dizendo a você: “I coulda’ been someone! I coulda’ been a contender!” Mais sobre ele aqui.


Please Please Me
Fosse outra a banda e talvez esse disco fosse considerado um clássico absoluto. Basta olhar em volta e ver quantas lançaram um disco de estreia excelente e nunca mais conseguiram repetir o feito, sofrendo para lançar os seguintes. A partir da contagem de abertura, Please Please Me é um disco forte, personalíssimo, executado por uma banda absolutamente coesa que consegue capturar a energia dos pós-adolescentes que seus integrantes ainda eram e, se se contar a canção título (que já tinha sido lançada antes), revolucionário. De uma força impressionante, e com um som muito próprio, Please Please Me é excelente para o seu tempo e seu lugar, sendo fundamental para definir a música que viria a seguir. Mas aí você olha o que os Beatles fizeram depois, pede desculpas e manda o disco achar seu lugar na ordem cósmica das coisas.


With The Beatles
Fizeram este, por exemplo. Para muita gente pode soar uma escolha estranha, colocar este álbum acima dos anteriores. Mas With the Beatles é um disco excelente de rock, coeso, de uma banda mais à vontade no estúdio e buscando horizontes novos enquanto mostram tudo o que aprenderam até ali. É fácil desconsiderar este álbum por ser relativamente fraco em grandes canções originais, embora tenha All My Loving, mas a verdade é que o conjunto, mais que as canções individuais, faz deste um grande disco de rock and roll, executado por “a great little rock band”, como se orgulhava John Lennon.


A Hard Day’s Night
A consolidação absoluta da beatlemania e do “beatle sound”, é o único disco composto apenas por canções de Lennon & McCartney. Aqui está cristalizado o som dos Beatles, de maneira definitiva — até o álbum seguinte, pelo menos. Em que pesem uma ou outra canção mais fraca, aqui e ali, sua essência é de uma consistência e qualidade impressionantes. A Hard Day’s Night representa também a ascensão definitiva de Paul McCartney à linha de frente como compositor. A partir daqui, ele oferece regularmente composições solo de qualidade absoluta, o que consolidaria definitivamente sua posição de poder dentro da banda e possibilitaria os avanços que se veriam nos anos seguintes. Alguém já disse que os Beatles não chegariam ao topo se não fosse por John Lennon, mas não se manteriam nem avançariam se não fosse por McCartney. É uma avaliação correta.


Help!
Um álbum que em alguns momentos é brilhante, com alguns clássicos eternos (Yesterday, que seria naturalmente um single, foi lançada apenas aqui porque McCartney não queria algo que parecesse um compacto solo) mas com uma quantidade alta, para os padrões da banda, de canções medianas — fillers, como eles as chamavam). Musicalmente, e se avaliado no conjunto, Help! não oferece em número suficiente os avanços musicais a que os Beatles acostumaram o mundo em cada um de seus três primeiros discos; em vez disso, aqui eles aparecem como uma banda satisfeita em apresentar suas canções, algumas extremamente inovadoras, como Ticket to Ride, dentro de uma fórmula já consagrada.


Magical Mystery Tour
Se fossem apenas os EPs originais talvez ele ficasse numa posição mais baixa. Mas a versão americana (em que a Capitol colocou os EPs originais no lado A e os compactos lançados mais recentemente no lado B, como Penny Lane, All You Need is Love e Strawberry Fields Forever) era mais sólida, e a partir de 1976 foi institucionalizado mundialmente como o disco oficial. Não foi à toa. Normalmente os americanos destroçavam os discos dos Beatles, tirando deles significado e mesmo sua unidade. Mas até um relógio quebrado está certo duas vezes ao dia, e aqui a Capitol conseguiu fazer um álbum maravilhoso, superior ao original inglês. Pode não ser o disco original, mas o que Harrison disse sobre Ringo (algo como “Ringo sempre foi o quarto beatle, ele só não tinha entrado no filme ainda”) vale para este disco.


Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
“O melhor disco de todos os tempos”, de importância inquestionável. É um disco absoluto. E mesmo 50 anos depois, mesmo depois de tanta água sob a ponte, defende confortavelmente e com brio sua posição. Mas como disse Ringo Starr, outros discos tinham canções melhores, o que cria um paradoxo curioso: o melhor disco pop da história não é necessariamente o melhor disco dos Beatles. De qualquer forma, o Sgt. Pepper’s mostra a importância do substituto do finado Paul McCartney (dead, man, miss him, miss him) no salto quântico dado pela banda.


Revolver
Para muita gente é o melhor disco dos Beatles. É um álbum revolucionário, sim. Mas na minha lista ele não fica lá na frente por algumas razões. O engenheiro de som dos primeiros discos dos Beatles tinha ido embora, e um garoto novinho tinha assumido os botões na sala de controle: Geoff Emerick, na minha opinião, ainda não tinha o domínio técnico necessário para dar a essas gravações a qualidade que elas precisavam, e algumas canções soam como se pudessem ter sido mais bem mixadas, melhor produzidas. Ou talvez tudo aquilo fosse novo demais para que se soubesse como lidar adequadamente com aquilo, o que, definitivamente, aprenderam no álbum seguinte. Fico imaginando o velho Norman Smith diante desse material. Finalmente, um dos títulos que foram considerados para o álbum me parece mais adequado, resumindo o que estava sendo revelado ao mundo: Abracadabra.


The Beatles
Muita gente não gosta desse álbum. Em parte porque é um disco extremamente variado, em parte porque Lennon, como faria várias vezes, convenceu o mundo de que este disco era “John e banda, Paul e banda” (o que é uma bobagem infelizmente repetida ad nauseam: este disco é claramente dos Beatles, por mais que os estilos individuais de John e Paul venham se afirmando cada vez mais claramente). George Martin, que não produziu o álbum inteiro, morreria dizendo que teria sido melhor se eles tivessem feito um álbum simples. E é aqui que eu discordo dele. É justamente por isso que este é um dos melhores discos de todos os tempos. É vibrante, multifacetado, forte; uma cornucópia de estilos, de vitalidade, de brilhantismo e de maturidade. Você pode achar Wild Honey Pie e Can You Take Me Back? fracas — mas dentro do álbum elas adquirem um novo contexto, reforçam a sensação de uma surpresa depois da outra. Até Revolution #9 faz algum sentido.


Rubber Soul
Esqueçam o Revolver: para mim é aqui que está a verdadeira revolução. Antes de mais nada, esta é a prova definitiva da fertilidade absurda da banda: o Help! tinha sido lançado em 6 de agosto, Rubber Soul foi lançado em 3 de dezembro, menos de quatro meses depois. Havia um abismo entre eles; em Rubber Soul, a banda praticamente realiza uma revolução — melódica e harmônica, claro, mas mais notavelmente ainda em termos líricos. Os Beatles de Rubber Soul já não são os mop tops do ié ié ié, suas letras vão além de She Loves You. Ao mesmo tempo, eles conservam muito daquela banda forjada nas horas infindáveis de Hamburgo, um certo frescor que a sofisticação e ambição dos discos posteriores enterraria. Talvez seja o melhor disco pop da história. É magnífico, com uma sonoridade redonda, canções brilhantes e uma alegria que raramente se veria depois, em qualquer banda. Muita gente diz que é um disco de transição; imagino quantas bandas não gostariam de poder ficar trancadas nessa transição para sempre.


Abbey Road
Essa é uma das tantas razões pelas quais os Beatles já em sua época eram saudados como algo sobrenatural. Qual outra banda se despediu do mundo com a sua obra-prima? Porque este disco é perfeito. É a síntese da trajetória de uma banda que sintetizou a música de um tempo e apontou os caminhos que ela seguiria. Um diamante perfeitamente lapidado. De certa forma, ele tem algo em comum com o Kind of Blue de Miles Davis: a compressão em algumas dezenas de minutos de toda a história da música pop.

I hope we passed the audition.