Cinderela 77

Imagino que um bocado de gente já tenha visto isso, o último capítulo de “Cinderela 77”, uma novela da Tupi exibida em — surpresa! — 1977. Mas não custa postar aqui.

(É a maravilha da internet, especificamente do YouTube. A maior parte das gentes louva o link com o futuro que essas coisas de internet propiciam; eu sou grato pela chance de acertar as contas com o passado. De repente, um mundo de informações que pareciam perdidas para sempre no último grotão de minha memória reaparece aqui. Ninguém jamais vai saber o quanto sou grato ao YouTube por essas coisas. Eu vi capítulos dessa novela nessa época. Odiava novelas e desprezava quaisquer coisas associadas a elas — mal-estar que o tempo e a velhice destruíram, substituindo-as por uma condescendência extemporânea; mas lembro do robô que falava “PT saudações” [as gerações mais novas imaginarão que ele se referia ao Partido dos Trabalhadores e não a telegramas, pobres gerações ignorantes de um passado inútil] e de Sandoval. Eu sempre gostei dos vilões.)

Olhando agora, em retrospecto, fico impressionado com o uso da metalinguagem nessa novela.

Nos anos 70, a Tupi era uma empresa que respondia pelos erros de julgamento (e familiares) de Assis Chateaubriand e estava condenada ao fim. Reclamem o quanto quiserem, apontem as teorias conspiracionistas que desejarem: a verdade é que Figueiredo só apressou o desenlace inevitável. Ela mal pagava seus funcionários, se pagava. As condições técnicas eram terríveis. A sensação de fim cada vez mais próximo era inevitável, apenas contrabalançada pela fé na força de sua história.

Em diversos lugres vejo pessoas lembrando dos bons tempos da Tupi, muito parecidas com as que lamentam o fim da PanAir. A verdade é que tudo aquilo era heróico, sim, mas também era trágico. Conheço bem o espírito de improviso que fez parte do universo da TV durante muito tempo, e acho que ele só é bonito em retrospecto. Imagino quantos comerciais não foram editados clandestinamente na TV Tupi, quando o jabá era praticamente institucionalizado. Imagino o clima de “cada um por si e Deus que se foda” que a situação decadente da TV propiciava.

Mas quando vejo a liberdade criativa que era possível na Tupi, tudo isso acaba parecendo valer a pena.

A Tupi já tinha inventado a telenovela moderna com “Beto Rockefeller”, quase 10 anos antes. Há alguns capítulos disponíveis no YouTube, tirados do site da Cinemateca Brasileira, e eles são fascinantes. A linguagem se assemelha, em vários momentos, à do Cinema Novo, e imagino que se deva à mesma falta de dinheiro e de tecnologia. Os atores trazem muitas vezes os vícios do teatro, as marcações rígidas, o apego excessivo aos rr ditos corrrrretamente. Mas conseguem passar a emoção necessária, ao contrário dos atores despreparados que se vê nas novelas de hoje em dia.

É por tudo isso que fico impressionado com a liberdade criativa de que uma novela como “Cinderela 77” pôde desfrutar. Uma novela feita para o público do início da noite com resultado é fascinante, e quem tem alguma familiaridade com as tragédias gregas vai encontrar um bocado de pontos de convergência. E depois, se não for pedir demais, compare com as novelas pasteurizadas e engessadas da Globo hoje.

Isso não quer dizer que eu ache que a Globo destruiu a criatividade na TV. Pelo contrário. Ao contrário de outros comunistas velhos de guerra, tenho uma admiração sem tamanho pela tal Vênus Platinada. Mas para mim, pessoalmente, rever essa novela significa rever padrões estéticos que definiram a base do meu modo de ver TV, e que já foram superados há mais tempo do que ouso contar. Mas representa acima de tudo um deslumbramento com o talento, a ousadia e o amor que você vê em cada frame. Não se faz mais TV aberta como antigamente.

(Este post é um oferecimento da Associação dos Leitores Revoltados com a Cagada na Cabeça de Rafael Naqueles que Falam que “Minha Infância Foi Melhor Que a Sua”.)

Infância

Há uma série de coisas que me irritam no Facebook; mas tem uma, em particular, que me faz pensar em como as pessoas conseguem usar qualquer coisinha de nada para se autoconferir uma nesga de grandeza imaginária e ter o direito putativo de serem arrogantes no pouquíssimo que acham que podem ser.

São aqueles posts que falam que sua infância foi melhor que a atual. “Você viveu isso ou isso? Parabéns, sua infância foi a melhor”, e daí para baixo.

Eu gosto muito da minha infância. Nostálgico jamais arrependido, gosto de lembrar dela, dos elementos que a fizeram. Sigo grupos de outros saudosistas que viveram o mesmo que eu, como Imagens Antigas de Salvador, Aracaju Como Eu Via, Imagens Antigas do Rio de Janeiro. Gosto da minha infância, repito; mas não porque ela foi melhor que as outras, de outros tempos. Gosto porque foi a minha infância, a única que eu tive e da qual às vezes tenho dúvidas de que saí. Gosto como alguém gosta de jenipapo.

É por isso que quando vejo alguém se vangloriando por ter andado de carrinho de rolimã, por exemplo, tenho a certeza de que o nível de estupidez mundial não dá sinais de arrefecer.

Eu andei, também. Tenho uma cicatriz no pé para provar. E que merda, isso. Sinceramente, em vez de andar de carrinho de rolimã eu queria era ter dinheiro para comprar o CP-500 que era bonitão mas que nunca tive e por isso eu tinha que me contentar em ir para a rua brincar.

Joguei bola de gude joguei bafo quase aprendi a rodar pião joguei bola e fiz gols porque eu colocava a bola onde queria quebrei braço quebrei cabeça quebrei braço de novo vi todas as unhas dos pés irem embora nas topadas mas elas sempre voltavam e Maura a empregada fazia o melhor bolo de laranja fui ao circo ver o domador de leões brinquei todas aquelas brincadeiras violentas que os meninos de minha época brincavam sofri bullying na escola e fiz bullying também porque o mundo é um grande sistema de compensações e talvez eu seja um pouco menos estressado porque briguei muito na rua e levei murro e levei chute mas bati mais do que apanhei.

O que me consola bastante.

Mas grandes merdas, tudo isso. Para começar, essa meninada faz mais sexo e mais cedo do que a minha geração, criada numa pequena província de muro baixo. E só por isso ela já é melhor (em compensação não vai poder as históricas tragicômicas que eu posso contar). Mais que isso, faz sexo com menos preocupações, com menos culpa.

Eu posso até lamentar que não leiam mais as historinhas Disney que eu lia; eles certamente não sentem a mínima falta. E se estranho a maneira cada vez mais diferente com que se relacionam, utilizando a internet e estabelecendo novos padrões, o fato é que essa é uma geração que está avançando em uma nova fronteira, instaurando uma nova normalidade. Não é pior, nem melhor. É só diferente.

Há exceções, claro. A TV aberta era realmente melhor que a atual — a variedade de atrações numa mesma programação me impressiona até hoje —, e o fato de mesmo assim haver poucas opções fazia com que ela tivesse um papel importante e já desaparecido, de unificação da conversa (“Bestão, você não viu mesmo SWAT ontem?”, e droga, agora eu tinha que dar uma porrada no babaca que disse isso, porque eu caía no sono às 8 da noite e não tinha tempo de ver SWAT porra nenhuma). Para quem, como eu, gostava de filmes — ainda era cedo para gostar de cinema — a programação era infinitamente melhor. A programação era composta principalmente de alguns dos grandes clássicos do cinema anos 50. Chaplin era exibido na Sessão da Tarde.

Se alguém realmente acha que a sua infância foi melhor que porque assistiu a “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, que pena que se contente com tão pouco. A propósito, os meninos de hoje também podem ver o seriado, e na hora que quiserem, porque ele está no YouTube — enquanto na minha época a gente via quando a TVs deixavam. Eles só não veem graça nele, e eu entendo.

A meninada tem Netflix, tem torrents para assistirem o que quiserem quando quiserem, têm Spotify para ouvir a música ruim que se faz hoje — mas é a música deles, do seu tempo, como eu tinha que aturar a música ruim do meu tempo. Sua noção de tempo para esse tipo de relação com o mundo e com a informação e o entretenimento é provavelmente o sonho de todo menino de minha época, que não tendo nada disso se contentava em subir em árvores, como macacos vinham fazendo já havia milhões de anos.

Em virtualmente todo e qualquer aspecto, a infância de hoje é melhor que a de antigamente.

E sempre que vejo algum sujeito encher a boca para falar de como brincou de carrinho de rolimã, eu penso: besta, brincou porque não tinha internet.

“Dona Olga não tirou essa fotografia em vão.”

Eis uma confissão desnecessária: eu estou longe, muito longe de ser um sujeito modesto. Não tenho culpa, foi Deus que me fez assim.

Mas sempre que leio esses anúncios, tenho a certeza de que precisaria comer muito feijão até ser um redator tão bom.

(Outros três títulos dessa mesma campanha: “Não trabalha na Prefeitura, mas já tapou muito buraco por aí”; “Já passou dos 30. Mas podem vir quente que ela está fervendo.”; e “Roubaram a mulher do Romeu. Juro por Deus que não fui eu”.)

Essa campanha tem quase 40 anos, e foi veiculada em 1978 pela Publivendas, em Salvador. São os textos que me fascinam, que me impressionam além do normal.

São praticamente crônicas da vida comum. Contam detalhes da vida do ouvinte de rádio que mesmo hoje, quatro décadas depois, ainda são verdadeiros. É uma campanha absolutamentebrilhante.

E ela acabou participando de um episódio curioso na minha vida.

Olhando para trás, é assustador que esse episódio já tenha um quarto de século — fazendo aniversário por esses dias, se já não fez.

Eu trabalhava em uma agência de Aracaju e estava fazendo uma campanha para uma rádio local. A primeira campanha que fiz ficou legal, mas foi rejeitada pelo dono da agência.

Fiz uma segunda. E essa ficou muito boa. Leve, engraçada, abrangia os públicos-alvo da rádio. Brincava com nomes locais famosos e tentava se aproximar do universo dos ouvintes. Ela foi rejeitada também.

E aí eu cansei. Tá certo, vamos brincar.

Datilografei os títulos dessa campanha e levei para o sujeito que tomava as decisões. Joguei o melhor papo de vendedor que eu tinha — o que não devia ser grande coisa, porque se eu vendesse bem não seria redator. De novo: “Não tá bom.”

Era a minha deixa.

“Olha, essa campanha ganhou não apenas o Colunistas de melhor campanha de jornal, mas também o Melhores da Década. Mas se você não gostou, paciência. Eles não entendem nada mesmo.”

Pedi demissão uma semana depois.

(A propósito, o título deste post é a legenda do anúncio da dona Olga.)

Sítio do Picapau Amarelo

Uns anos atrás surgiu uma dessas polêmicas que adquirem mais importância graças à caixa de ressonância das redes sociais. Um professor tentou proibir a reedição de “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, por causa do conteúdo racista que ele colocava na boca da Emília; mais tarde, o Conselho Nacional de Educação desaconselhou o seu uso nas escolas, a não ser que fosse “acompanhado de explicações sobre o seu conteúdo” — o que, cá para nós, equivale a uma proibição de fato: é esperar muito da maioria dos professores deste país que eles discutam algo um pouco mais profundamente.

Na quiproquó que se seguiu, o mais chato foram os argumentos ad hominem. Cartas pessoais de Lobato, em que ele defendia a eugenia, apareceram na mídia. É um fenômeno antigo, mas que tem se agravado em tempos de redes sociais e de matérias como “Caetano estaciona no Leblon”: toda obra literária é necessariamente o retrato cuspido e escarrado do homem. Lobato era racista, o que ninguém jamais pensaria em negar; logo, sua obra deveria ser proibida. Infeliz ou felizmente, seus livros eram muito maiores que o racismo, e é justamente isso que faz dele um grande escritor. Da mesma forma, o conservadoríssimo Honoré de Balzac conseguiu gravar um retrato absoluto da França na primeira metade do século XIX, bom a ponto de um tal de Karl Marx (ou Engels? Eu não lembro) dizer que aprendeu mais sobre a França da primeira metade do século XIX que nos livros de história. Por isso, o mesmo sujeito que colocava nos lábios de Dona Benta afirmações justas sobre o respeito às pessoas e ao conhecimento passou a ser julgado unicamente pelas referências irritadas e canalhas da Emília aos “beiços da tia Nastácia”.

Não escrevi sobre isso na época; deveria ter escrito. Porque eu fui criado com Monteiro Lobato. Primeiro com o seriado da Globo e da TV Cultura, depois com os livros do Sítio do Picapau Amarelo, aquelas edições ainda com as ilustrações de André Le Blanc.

É possível que eu não tenha escrito sobre isso, numa época em que este blog ainda podia ser considerado ativo, porque não queria me ocupar com as discussões que se seguiriam, ou mesmo eventuais acusações de racismo que iriam aparecer. Então eu teria que responder que dificilmente sou racista — ultimamente é difícil dizer cabalmente que não se é racista a não ser que você se mostre disposto a se enquadrar num discurso específico, com termos ainda mais específicos, então eu acharia mais prudente deixar espaço para a dúvida e tascaria o “dificilmente” redentor, e se necessário faria um daqueles mea culpas hipócritas que nos dias de hoje fazem as vezes da autocrítica soviética da época do grande camarada.

Mas em minha defesa, caso se chegasse ao veredito de que eu sou racista-mas-racista-mesmo, eu poderia dizer que não foi o Sítio que me fez assim, não foi o Sítio que nunca me tratou com amor (eu e a Kátia Cega queríamos ser como uma criança, cheias de esperança e felizes). Ao contrário, com ele aprendi a respeitar os talentos da Tia Nastácia, e a sabedoria popular do tio Barnabé. Com Dona Benta, por sua vez, aprendi a importância da racionalidade e do bom senso. Com a própria Emília, mais do que os comentários disparatados de sempre, alguns dos quais nitidamente racistas, aprendi que era bom manter a minha curiosidade acerca do mundo que me rodeava, e que era bom questionar o estabelecido. Eu só não aprendi porra nenhuma com o Quindim. Mas acho que ninguém aprendeu.

O que me fez racista foi o rebolar da neguinha de carne dura andando por uma quebrada da Federação, ah, danada, ela deslizava pela rua, ereta, os seios apontando para a torre da TV Aratu, e ela caminhava orgulhosa, sem dar nem tchuns aos bestas que tentavam controlar a saliva que lhes escorria pela boca, pelo queixo, que molhava o seu olhar assombrado; foi aquele rebolar que me fez usar esses termos racistas-mas-racistas-mesmo. Peço perdão por isso.

Para mim, diante de uma escolha entre o valor cultural e didático dos livros do Sítio e as posturas racistas da Emília, que eu posso identificar (ao contrário dos pobres alunos que não parecem ter a quem recorrer), não há escolha possível. Sem falar, claro, na estupidez que é proibir qualquer livro — seja “Caçadas de Pedrinho”, Mein Kampf ou a Bíblia.

O problema é que acho muito improvável que um livro pudesse transformar uma pessoa em racista. Ainda menos os livros de Lobato, escritos nos anos 30. O conteúdo que hoje salta aos olhos como racista era moeda corrente em sua época; estava dentro da normalidade de seu tempo, e por essa razão tudo isso que hoje incomoda mesmo a quem, como eu, normalmente estranha os termos utilizados, simplesmente passava batido, assim como “preto de alma branca” parecia elogio 40 anos atrás.

Acima de tudo, a estupidez de sequer pensar em deixar de oferecer a crianças e adolescentes o universo de Monteiro Lobato porque simplesmente não se quer discutir em sala de aula a questão do racismo, ir além de um “racismo ruim, tolerância bom” orwelliano, nem colocar as declarações da Emília em perspectiva histórica — o que em si representa uma chance rara de mostrar a maneira muitas vezes imperceptível como o preconceito pode ser normal em um tempo e inaceitável em outro —, é mais uma prova não apenas do desprezo como se vê a capacidade de percepção e compreensão das crianças, mas principalmente da falência do sistema educacional brasileiro. (A outra sou eu, mas isso é assunto para outra hora.)

Muito mais que isso, mais do que essa discussão que apenas reflete um tempo em que o obscurantismo parece estar se tornando um valor universal, me dói saber que catorze contos ou novelas do Sítio só foram publicados na Argentina e permanecem inéditos no Brasil, dos quais um é um tal “Ciência do Visconde” — de três outros ninguém sabe sequer o nome. Em vez de polêmicas vazias, a academia bem que podia tentar encontrar essas histórias nas bibliotecas hermanas. Faria mais bem à cultura nacional do que com essas discussões estéreis. E os senhores acadêmicos dariam mais sentido ao tempo que gastam na universidade e aos salários que recebem.

Mas eu sou um otimista, e a cada dia tenho mais certeza dessa característica antes insuspeita em mim. Não gosto dos exageros dos tempos atuais, mas acredito que do choque de concepções que dão as tônicas destes tempos, que dou a sorte de presenciar, vai surgir uma síntese que expurgue esses exageros e absorva os novos valores sem precisar obliterar absolutamente o passado, nem abdicar completamente da inteligência.

Pensando melhor, não; “acreditar” é demais. Então me deixe substituir esse verbo por “esperar”. Confiar e esperar, pedia o Conde de Monte Cristo quando eu era pequeno.

***

Mas no fundo o problema talvez seja outro. Deixa eu admitir: o problema todo é que o Sítio é um assunto pessoal para mim.

A partir de 1977, e principalmente em 1978, o Sítio do Picapau Amarelo foi parte do cotidiano de todos nós — do meu, ao menos. Os fins de tarde, depois que tínhamos amealhado os cortes, hematomas e arranhões do dia, tinham que ser passados diante da TV, assistindo às aventuras do Pedrinho, Narizinho e Emília.

Há uns poucos anos encontrei no YouTube o primeiro capítulo do Sítio. Fiquei impressionado com a sua qualidade didática, com a modernidade (para sua época) de um produto que conseguia juntar muito bem educação e entretenimento. Mas para ser objetivo, seu maior mérito foi dirimir uma antiga dúvida minha: durante quase 40 anos achei que não tinha visto o primeiro capítulo. Na verdade, vi; mas em vez de assistir a ele no dia da estreia, à tarde, quando provavelmente estava na escola, vi a reprise na manhã seguinte. É graças a isso que sei exatamente onde eu estava na manhã do dia 8 de março de 1977: em casa, assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo.

Estranhei, em 1978, a mudança da Emília; Dirce Migliaccio saiu e foi substituída por Reny de Oliveira. Eu não gostava de mudanças assim. Hoje, olhando para trás, Reny era “a” Emília, ela só não tinha entrado ainda no Sítio. E foi justamente naquele ano que o Sítio deu um salto enorme de qualidade. Imagino que a experiência acumulada no ano anterior tenha possibilitado um avanço enorme. O resultado foram grandes episódios, como “O Minotauro”, hoje disponível no YouTube, e “Os Piratas do Capitão Gancho”.

Dando uma olhada na lista de episódios do Sítio do Picapau Amarelo, percebo que para mim ele vinha perdendo a graça já a partir de 1979. “Davi e Golias” foi uma das coisas mais chatas a que eu assisti, com Jonas Bloch fazendo um pobre Davi sofredor. Provavelmente não eram roteiros ruins; talvez fosse eu que estava crescendo.

Para mim o Sítio acabou quando Júlio César, que fazia o papel de Pedrinho, e Rosana Garcia, a Narizinho, foram substituídos porque haviam crescido demais, estavam velhos demais, no final de 1980. Acabava ali um pedaço importante da minha infância; outros iriam acabar nos poucos anos seguintes.

(É engraçado assistir aos episódios hoje. Rosana Garcia era uma atriz medíocre, mas Júlio César é impressionante em sua naturalidade. Era um ator nato que infelizmente desistiu da carreira.)

(N. do A.: Parei agora para tentar entender as minhas paixões. Eu era apaixonado simultaneamente pela Rosana Garcia, pela Lynda Carter [que fazia a Mulher Maravilha], pela Paula Saldanha e por uma menina que fazia um comercial dos biscoitos Tupy com uma versão de “Ciranda, Cirandinha”. Eu tinha 6, 8 anos. Rapaz, eu tinha problemas.)

Tokusatsus

E daí que eu passei a tarde assistindo a tokusatsus. Escrevo tokusatsu com gosto, porque tokusatsu é palavra que aprendi hoje: tokusatsu, tokusatsu, e me esforço em pronunciar a palavra estranha com aquele jeito gutural que não diferencia paroxítona de oxítona, um jeito agressivo de japonês rico que se quer descendente de samurai: tokusatsu. Vou repetir tokusatsu até cansar.

Tokusatsu.

Tokusatsus são aqueles filmes com monstros e efeitos especiais do tempo da TV a lenha — o meu tempo. Parecem toscos hoje. Mas esses meninos de hoje estão mal-acostumados com essas coisas de CGI barata que em todo canto se acha, que nem bolacha, mulher e patrão. Para quem foi menino quando eu fui, eles eram fascinantes.

Quase 40 anos atrás eu assistia a esses trecos todo o tempo. Obviamente não sabia que os tokusatsus tinham sido uma febre no Japão, como descobri hoje. Começaram com o Nacional Kid da Panasonic, que não fez muito sucesso naquele tempo e lugar. E então, de uma hora para outra, na metade dos anos 60 eles começaram a pipocar: Ultraman, Ultraseven, Robô Gigante, Vingadores do Espaço e o mais elusivo de todos, Ésper (criado pela concorrente da Panasonic, a Toshiba). Nos anos 70 eles eram parte da programação da TV Tupi — que, para crianças, era muito melhor que a Globo.

Mas só hoje, assistindo a episódios de Vingadores do Espaço, Ultraman, Ultraseven e Ésper, eu entendi por que esses filmes apareceram.

Pode-se datar a origem do tokusatsu no dia em que o almirante Matthew Perry usou seus canhões para obrigar o Japão a abrir seus portos aos Estados Unidos, pondo fim a séculos de isolacionismo e dando início a uma cadeia de acontecimentos e sangue ruim que desembocou no ataque japonês a Pearl Harbor, quase 90 anos depois. Mas eles só existem mesmo por causa da ocupação americana capitaneada pelo general MacArthur.

Na metade dos anos 60, fazia menos de 15 anos que os Estados Unidos Aliados tinham assinado o tratado de São Francisco, dando início ao fim da ocupação do Japão, um país naturalmente isolacionista, orgulhoso, e extremamente consciente de valores como honra — onde mais o seppuku poderia nascer? A humilhação de se ver, pela primeira vez em sua história milenar, um país ocupado ainda estava muito viva no subconsciente dos japoneses. Esse era o seu grande medo.

Os tokusatsus são a resposta perfeita ao orgulho japonês. Suas sinopses são sempre as mesmas: alienígenas malvados, como antes os americanos, tentam invadir o Japão; mas não vão conseguir, porque os japoneses são carne de pescoço. É sempre essa a briga: a defesa da Terra, e a Terra não pode ser mais que a terra japonesa. É verdade que esse tipo de resistência patriótica é um valor universal; mas para que ele se consolide na psique de um povo e encontre o seu caminho para o mainstream televisivo é preciso um trauma específico, e nesse caso foram os samangos americanos estuprando milhares de japonesas e fazendo o possível para destruir sua cultura e sua memória.

Se Mishima fosse um pouco mais novo teria assistido fascinado a esses filmes.

Mas entender a gênese dos tokusatsus é apenas parte da diversão, e uma parte pequena. Rever esses filmes depois de décadas é uma sensação muito boa, porque me ajuda a entender a criança que fui e, talvez, com boa vontade, talvez sentir de novo aquilo que senti quando assisti, pela primeira vez, ao Ultraman dando uns golpes safados de caratê num monstro que, com sorte, pareceria o Godzilla.

Enquanto somos crianças qualquer coisa serve, qualquer coisa fascina e nos coloca diante do novo. É essa a graça de ser criança. Mas aí você cresce e vira isso que é hoje. Agora é impressionante ver a mediocridade da produção dos Vingadores do Espaço, por exemplo. É muito ruim. Ultraman, por sua vez, impressiona pela qualidade, se nos lembrarmos que eram filmes feitos para a TV, em prazo apertado, e em 1966.

Em todos eles, no entanto, há roteiros com aquela qualidade básica de oferecer às crianças os arquétipos com que elas se identificam. Não são ruins. Além de colocar crianças como agentes heróicos do futuro, condição sine qua non para meninos se sentem no chão diante da TV em preto e branco com olhos atentos, equacionam tragédias e valores razoáveis. Simplórios, e mal escritos quase sempre; mas suficientes.

É engraçado descobrir agora que nunca vimos as versões japonesas. Não acho que houvesse muitos tradutores de japonês na TV Tupi. Em vez disso, nossas traduções eram feitas sempre a partir das versões americanas, e por isso “Vingadores do Espaço” não se chama “Embaixador Magma”, e Goa no Brasil virou Rodak, como na gringolândia.

Ésper, por sua vez, é uma das razões pelas quais sou grato à internet. Durante anos, não encontrei ninguém que tivesse visto o seriado, ninguém que sequer lembrasse que ele havia existido. Só com a internet pude ter a certeza de que não estava louco, inventando coisas. Que eu realmente tinha assistido a um seriado com um menino que trazia um jetpack nas costas e tinha um passarinho mecânico que às vezes aparecia em seu ombro — Oscar Wilde tem um conto que fala de um rouxinol mecânico, conto que li quando criança. Esse rouxinol, para mim, sempre igualzinho a Shikar, o tal passarinho.

Talvez seja por causa desse passarinho que, em vez de assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” pela enésima vez nesta tarde de domingo, fiquei assistindo a Ultraman. Não me arrependo nem um pouco.

Porto da Barra

Só agora, mais de quatro décadas depois, eu descubro que o meu amor único, ciumento, exclusivista, neurótico-psicótico, é praga de mãe.

Então eu digo que as velhinhas têm razão: praga de mãe pega, pega de verdade, e lhe condena aos seus desejos e lhe dá a régua e o compasso com o qual você vai medir o mundo nos dias bons e ruins que se seguirão depois.

Foi assim que saí do Espanhol, onde sofri a primeira das tantas derrotas na minha vida e me trouxeram a este mundo. Acho que àquela altura o Carnaval que a cidade tinha feito para me receber já tinha acabado, porque demorei para sair do hospital. No táxi que me levaria ao apartamento na 8 de Dezembro, minha mãe me ergueu e mostrou para mim aquela nesguinha de praia entre dois fortes portugueses: “Olha, Rafael, essa vai ser a sua praia”. Minha avó Celeste, assustada, mandou que ela tivesse cuidado comigo, mas minha mãe sabia com quem estava falando, e de quem estava falando, e do que estava falando. Naquele dia de fevereiro ela me deu a posse daquela praia. Ela ainda é minha.

Não importa quanto tempo eu fique longe. O Porto da Barra é um daqueles poucos lugares onde lembro quem é Rafael Galvão. É a praia que tive inteira: perto do forte de São Diogo quando eu ia com Romário — e Tony, e Mário, e Magno, e onde Romário me ensinou a nadar —, no meio quando ia com meu pai porque ali havia um bar, mas principalmente perto do forte de Santa Maria quando ia com minha mãe, e via os barcos chegando para me darem manjubinhas com as quais eu criaria brincadeiras dignas de “Tubarão” — e um dia até mesmo uma cabeça de tubarão. No quebra-mar de onde, quando a idade se fez adequada e um vislumbre de coragem apareceu, passei a mergulhar. Na areia onde catei vidros do mar e fiz os meus primeiros castelos e recebi as primeiras lições sobre a efemeridade da vida, numa das tantas ondas que me jogaram no fundo e de novo na superfície e de novo no fundo, num rocambolear que durante aquele átimo sempre parecia infinito.

O amor à praia do Porto da Barra me fez cego para as belezas eventuais de outras praias. O mar cristalino e morno de Maceió, as águas geladas de Ipanema, o azul único do Mediterrâneo e do Egeu? Tudo tão pequeno, meu Deus, tudo tão menor que aquela praia onde as ondas batem com a cadência de uma canção de Caymmi.

Talvez sejam elas, as ondas. Talvez mais que tudo, mais que a água verde e o cheiro de maresia: as ondas. O Porto tem a calma do espírito da Bahia, a certeza de que o tempo é seu, e de que ali você pode enganar a vida. A praia dos velhinhos que a amam quase tanto quanto eu, das crianças que aprendem ali a perder o medo das ondas, das moças que ali se fazem mais bonitas para os homens que amam, ou daqueles podem vir a amar. A praia daqueles que, ao contrário de mim, a têm como amante certa, que ainda têm a certeza de que amanhã ela ainda estará lá.

Nunca pude deixar de imaginar que deve ser por isso que, no dia dois de fevereiro, as pessoas vão para uma praia tão mais feia, coitada, dar presentes que Iemanjá quase sempre recusa; porque elas sabem que o Porto da Barra lhes é interditada, é a praia de Oxum. A Oxum que, como Iemanjá, oferece o seu regaço aos seus filhos, e isso é o máximo que o Rio Vermelho pode oferecer; mas que também oferece a beleza, a cadência das suas ondas como quadris que se movem apenas para você, com você, e junto ao espelho ela traz a sua espada.

Pode reparar. Na maior parte das praias do mundo o barulho das ondas é um rimbombar incessante, bruto, um big bang sem começo nem fim que nocauteia os sentidos e se perde na vulgaridade da oferta excessiva. Nas madrugadas caladas de Aracaju escuto da minha varando o troar constante das praias da capital e da Barra dos Coqueiros — diferentes apenas no nome, porque são a mesma praia, não há diferença.

Mas as ondas que batem na praia do Porto da Barra falam com a delicadeza da mulher que ama sem condições, sussurram no seu ouvido, e você já não as ouve 50, 100 metros depois. Elas dizem a você que tudo podem lhe dar, mas apenas se você não se afastar; o Porto da Barra é a praia de Oxum.

Por tudo isso olho para aquelas pessoas que usam a minha praia, sem a decência de pedir a minha permissão, com a condescendência de um senhor feudal magnânimo. Eles não sabem, mas a praia é minha. Podem se deitar em seu colo de areia, podem receber o abraço confortante de suas águas verdes. Eu não ligo. Você não sabe, mas a praia é minha. E, lá no fundo, eu sei que ela sabe disso.

Das cobranças indevidas a que a vida nos submete

Eu nem lembrava disso, mas fuçando e-mails antigos descobri que uns dois anos atrás um escritório de contabilidade me mandou um e-mail cobrando um serviço qualquer.

Subject: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Thu, 18 Dec 2014 16:33:25 -0200
From: XXX Contabilidade Empresarial
To: Rafael Galvão
CC: fulana.galvao@hotmail.com

Prezado Sr.,

Boa tarde!

Encontra-se em aberto o valor de $ 1.156,00 referente honorários contábeis junto ao escritório.

Por gentileza entrar em contato urgente para negociação pois estamos encaminhando todos os débitos do escritório para cobrança externa junto à escritório de advocacia.

No aguardo,

Depto. Financeiro

XXX Contabilidade Empresarial Telefone: (11) XXXX.XXXX
Telefax: (11) XXXX.XXXX e-mail: xxx@xxx.com.br

Cá entre nós, cobrança é uma coisa chata. Mas ainda pior é cobrança por algo que você não comprou. Você está em casa, quieto, e de repente lá vem um sujeito esfregando uma promissória nas suas fuças. Você tenta se lembrar de quem, entre as suas dezenas de credores, teria a pachorra de lhe cobrar assim, na lata, de forma tão grosseira. Até que você entende que é só mais um caso de erro de pessoa, de gente que tem a mania estranha de mandar e-mails para gente errada.

(Eu não duvido que seja o mesmo homônimo caloteiro que tirou a tranquilidade do senhor Gusmão, embora aquele fosse carioca e esse escritório seja de São Paulo.)

Também cá entre nós, eu sei ser valente quando o meu não está na reta. É quando aparece o melhor de mim. É quando se revela a minha altivez, a minha superioridade espiritual em relação a essas coisas comezinhas do dia a dia. Quando, qual rei absoluto diante da patuleia ignara, mostro todo o meu desprezo imperial à humanidade.

Acima de tudo, é uma questão de princípios. Porque se se deixa iniquidades como essa prosperarem, daí a pouco estão lhe cobrando a dívida de Creso, pedindo explicações sobre a decapitação de Maria Stuart, vem até um mais ousado insinuar que você estava mancomunado com Judas.

Além disso, eram tempos estranhos, aqueles; nessa época eu estava reformando meu cafofo e morando temporariamente numa casa no cu do mundo mas na beira da praia. E mamãe me ensinou a ser uma pessoa educada e nunca deixar alguém falando ao vento. Por isso dei uma resposta lacônica, mas sincera; nas minhas boas intenções, eu esperava estar traduzindo em poucas palavras os sentimentos mais autênticos do tal Rafael Galvão:

Subject: Re: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Thu, 18 Dec 2014 19:11:16 -0300
From: Rafael Galvão
To: XXXX Contabilidade Empresarial

Fodam-se.

E por aí deviam ficar. Era resposta suficiente, e deviam seguir o meu conselho. Mas não, eles não se conformaram, insistiram na baixaria, tem gente que, sei não, parece que gosta de ver o circo pegar fogo.

Subject: Re: Re: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Fri, 19 Dec 2014 11:53:52 -0200
From: XXX Contabilidade Empresarial
To: advogado@aasp.org.br
CC: Rafael Galvão

Dr. Ricardo,

Bom dia!

Encaminho resposta de e-mail recebido pelo escritório para vossa ciência.

Solicito as providências cabíveis ao caso uma vez que o serviço fora prestado e não devidamente pago e além disso fomos constrangidas perante os nossos funcionários.

Att.,

Fulana de Tal
Beltrana de Taltal
Sicrana de Taltaltal
Contadoras

E a essa altura eu já estava até simpatizando com o Rafael Galvão caloteiro, vítima de cobranças de gente que sequer sabe endereçar corretamente um e-mail, de gente que faz tempestade em copo d’água por qualquer coisa, que chama advogado e o diabo por causa de um simples “foda-se”. Fiquei imaginando a moça abrindo o e-mail, arregalando os olhos, “Fulana, olha o que esse safado disse!”, e Fulana indignada dizendo “Sicrana, vamos chamar o adevogado! Liga pro dotô Ricardo!”, e Beltrana a meio caminho do banheiro, sobraçando uma Sabrina ou Júlia ou Bianca, resmungando “Ah, mas isso não fica por isso mesmo…”, e o dia passa e o escritório de contabilidade só fala em um assunto, um escritório de contabilidade em polvorosa — visão rara, a não ser que o tal escritório tenha como cliente alguma empresa da Lava Jato.

Duvido que esse seja o único foda-se que essas moças receberam na vida, porque elas têm o mau hábito de cobrar quem não lhes deve nada e essas coisas deixam as pessoas tristes. E ainda que fosse, deveria ter servido de lição.

Infelizmente os e-mails terminaram por aí. Eu estava preparado para invocar novamente os mesmos argumentos que dei ao dotô Gusmão para a minha inadimplência. Mas não sei o que foi feito do caso. É possível que tenham mandado o email para o Ricardo errado. Caso não tenham repetido o erro, espero que ele, oxalá um advogado experiente, tenha mandado essas moças se aquietarem depois de descobrir que elas tinham começado tudo, mandando e-mail para quem não deviam. Porque essa é a ironia da coisa: a vida sempre cobra o seu troco.

Cena noturna

Segunda-feira. Quase meia-noite. Estou saindo do restaurante onde fui encontrar minha amiga mais antiga e o seu namorado.

Ele nos vê parado na frente do restaurante e se aproxima.

Tem seus cinquenta e tantos anos, ele. Magro, moreno, cabelos bem grisalhos, um rosto comprido com aquele perfil eslavo, quase equino, mas com os traços de gerações de mestiçagem. Seu rosto não me é estranho e eu acho que já o vi em algum lugar.

Ele se apresenta. “Meu nome é Fulano, sou radialista… Oi, dona Beltrana! Eu não reconheci a senhora, faz tanto tempo… A senhora tá bem?”

Ele conta a sua história, explica com detalhes. Ele agora está em Tal Lugar, está com Sicrano que ganhou a prefeitura, graças a Deus, mas nessa coisa de troca de governos o pessoal não o pegou para levar de volta — pirraça, só pirraça, vocês sabem como é, e agora ele estava incomodando as pessoas para voltar pelo menos para a rodoviária, onde pegaria uma das ambulâncias que vêm para Aracaju.

A camisa gasta é Tommy Hilfiger, a calça é indeterminada, o sapato é barato. No pé esquerdo, no lugar onde o dedo mindinho grita desesperadamente para sair, há um rasgo. Ele é um homem que mesmo na miséria ainda gasta alguns minutos de sua manhã para se arrumar com o melhor que tem, para colocar a camisa por dentro da calça, a roupa limpa, a aparência de normalidade, aquele querer ser sempre melhor.

E porque ele gosta da minha amiga, eu dou dez reais a ele. Ele vai embora, feliz.

Me despeço e vou para um posto no meio do caminho, comprar uma última cerveja e um maço de cigarros, que a noite a gente sempre termina sozinho, a gente e nossos demônios. E quando paro o carro ali está ele, indo para a loja de conveniência. Ele me vê, me reconhece, me cumprimenta surpreso.

Eu saio do carro e vou comprar meus trecos. Passo por ele e recebo um cumprimento: “Oi, mestre! Me perdoe!” Eu não sei por que ele perde perdão, se pelo pedido há poucos instantes, se por eu tê-lo visto agora. Eu não tenho por que perdoá-lo.

Quando saio ali está ele, sentado empertigado, altivo, e é sempre bonito ver alguém sentrado com a coluna ereta. Ele que estava entrando na loja não entrou, agora apenas espera. Olha para o nada à sua frente com altivez e orgulho, quase esnobe. Talvez o dinheiro em seu bolso esteja queimando, pedindo para ser gasto, mas agora ele não pode. Ele vai esperar que eu vá embora para que a sua estória não seja desmontada, para que eu, o amigo da moça que ele cumprimentou com respeito, não perceba que tudo aquilo era mentira.

Ou talvez nem isso, talvez ele saiba que eu já sei, se me conhecesse saberia que eu sei.

Mas ele não me conhece. Se me conhecesse saberia que eu entenderia. E entraria para comprar sua cachaça, feliz, talvez até piscasse e sorrisse para mim, e durante algumas horas ele seria, ele também, um homem feliz, esquecido de tudo, esquecido da vida, esquecido da morte.

Salvador, em algum lugar do passado

Não sei muito sobre o filme abaixo. Encontrei em um grupo do Facebook, que tampouco sabia alguma coisa sobre ele.

O que sei é que ele mostra uma Salvador ainda existe e que já não existe mais, mas da qual lembro perfeitamente: o Jardim de Alah com barracas de camping; a região do Iguatemi, ainda em sua primeira encarnação, ainda vazia; a Rodoviária então nova, e daqui a pouco substituída por outra em Águas Claras; o Dique, um parque que mais ou menos ainda existe às suas margens, camelôs no comércio vendendo antiguidades nas calçadas, o Plano Inclinado.

As baianas que ainda não tinham sido contaminadas pelo vírus evangélico e ainda não vendiam “bolinhos de Jesus”; o monstrengo que conhecem por Prefeitura de Salvador ainda não existia; e as putas ainda faziam ponto nos bregas da Ladeira da Montanha, embaixo do Elevador Lacerda

Estão ali a Ribeira, a feira de Água de Meninos, o Bonfim ainda sem o costume estranho de amarrar fitinhas em suas grades, o Humaitá e Mont Serrat.

O Parque da Cidade ainda tinha os tipis e os iglus estranhos em fibra de vidro que deveriam ser brinquedos infantis, mas eram utilizados basicamente como banheiro — assim como o labirinto e o castelo que não aparecem aí.

Estão ali também o Iate das gentes chiques, o Pelourinho de praxe antes da reforma de ACM, Santo Antônio, a Acalanto, a Arembepe longe dos meus domínios, Itapuã e Pedra do Sal, o Abaeté e a mais bela entrada de aeroporto do mundo. O Centro Administrativo, o Pestana que ainda se chamava Méridien visto ao longe, os hotéis de Ondina que ainda tinha as piscinas artificiais de água salgada — o Bahia Praia Hotel que nem sei se ainda está lá.

Ali também estão os sinais da destruição irreversível. Eis ali um casarão da Vitória funcionando como loja de material de demolição, abastecida pela destruição criminosa das mansões que ainda existiam em grande número, mas sumiam a cada dia. Essas lojas floresceriam ao longo dos anos 80, até que não houvessem mais casarões a serem destruídos.

Acima de tudo ali está o Porto da Barra ainda com saveiros. São dois momentos distintos, um fim de tarde com a maré alta e um doa normal de praia. E quero acreditar que, ali em meio àquelas pessoas, eu estou lá.