João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro era proibido de entrar lá em casa.

Não seus livros, que esses sempre tiveram trânsito livre; até livros ruins podiam entrar lá, e entravam de vez em quando, um livro do João Ubaldo seria recebido com festas, até. Proibido de entrar era ele, mesmo.

João Ubaldo era uma dessas coincidências curiosas que nos cercam de vez em quando: alguém que tinha algum tipo de ligação com dois ramos completamente independentes da família.

Não é todo mundo que sabe, mas ele morou um bom tempo em Aracaju. Morou ali, na rua Cedro, entre a Campo do Brito e a praça Tobias Barreto.

Minha avó era madrinha de seu irmão, Manoel. Os Galvão gostavam muito deles, e a recíproca era verdadeira.

Seu Manoel Ribeiro, seu pai, era ligado ao PSD. Acabou tendo que sair às pressas de Sergipe aso ser ameaçado de morte por membros da UDN — e minha avó até o fim da vida nominava os “canalhas” que fizeram isso. Seu Manoel morreu de forma boba anos depois, escorregando e batendo a cabeça num meio-fio; mas nunca mais voltaria a Sergipe. Acho que boa parte da  raiva de minha avó em relação a tudo o que cheirasse a UDN vinha daí.

Anos mais tarde João Ubaldo conheceu meu pai no Jornal da Bahia. Depois, quando soube que ele era casado com a neta de dona Sinhá, que ele tinha conhecido na adolescência, passou a lhe dizer que tinha trocado as fraldas de minha mãe.

Dizia isso numa mesa de bar, porque nelas ele era rei. Era dessas pessoas que, nessas mesas — e há outro lugar no mundo? —, monopolizava as atenções, é o que me dizem. Quando começava a falar, com seu vozeirão e uma inteligência rara, todos paravam para escutar. (Enquanto escrevo isso lembro de outro sujeito que também era assim e que se foi recentemente: seu nome era Marcelo Déda.)

Mas João Ubaldo não era meu escritor preferido. É óbvio que é difícil não reconhecer a genialidade de um livro como “Viva o Povo Brasileiro”, e o “Diário do Farol” ajuda a fazer dele talvez o mais legítimo sucessor — sem ser imitador — de Jorge Amado, mas minhas preferências andaram por outros becos. Olhando para trás, vejo que li tão pouca coisa dele. Acho que o que mais gosto de João Ubaldo é uma carta aberta que ele destinou a Fernando Henrique Cardoso, então recém-reeleito à presidência da República. Merece o meu respeito e veneração qualquer pessoa que escreva a um presidente em seu momento mais glorioso e lhe diga isso:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Só por isso, por essa desfaçatez, por esse esnobismo, João Ubaldo Ribeiro é também meu herói. Mas não foi por isso que ele inspirou um dos melhores personagens de Henfil — Ubaldo, o Neurótico. Na verdade, foi pela mesma razão pela qual o meu pai o proibiu de entrar lá em casa:

“Você foi passar um fim de semana na casa de Henfil e quando foi embora levou junto a Berê. Pois na minha casa você não coloca os pés.”

E só por isso, tanto quanto seus livros, tanto quando as crônicas, João Ubaldo Ribeiro vai fazer muita falta.

Nomes

Nadia Lippi, Carlos Zara, Ney Sant’Anna, Laerte Morrone, Claudio Corrêa e Castro, Gilberto Martinho, Yara Côrtes, Paulo Figueiredo, Armando Bogus, Sura Berditchevsky, Lady Francisco, Zilka Salaberry, Jacira Sampaio, Julio César, Rosana Garcia, Nestor de Montemar, Rosita Thomaz Lopes, Denise Dumont, Roberto Faissal, Chica Xavier, Maria Claudia, Claudio Marzo, Eloiza Mafalda, Neuza Amaral, Lucia Alves, Silvia Salgado, Rosamaria Murtinho, Felipe Carone, Renata Fronzi, Reinaldo Gonzaga, Cleyde Blota, Myrian Pires, Miriam Persia, Solange Theodoro, Suzana Faini, Monah Delacy, Angelina Muniz, Paulo Guarnieri, Heraldo Galvão, Nivea Maria, Thais de Andrade, João Paulo Adour, Sonia Regina, Ruth de Souza, Mario Cardoso, Lauro Corona, Norma Blum, Glauce Graieb, Oswaldo Loureiro, Isis Koschdoski, Élida L’Astorina, Heloísa Millet, Fabio Massimo, Celia Biar, Castro Gonzaga, Milton Moraes, Suely Franco, Adriano Reys, Roberto Pirilo, Priscila Camargo, Djenane Machado, Marcelo Picchi, Arthur Costa Filho, Elza Gomes, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Fátima Freire, Ana Ariel, Mauricio do Valle, Eduardo Tornaghi, Karin Rodrigues, José Augusto Branco, Luiz Armando Queiroz, Eva Todor, Maria Fernanda, Beatriz Segall, Dionísio Azevedo, Carlos Kroeber, Ivan Candido, Dina Sfat, Lidia Brondi, Jonas Mello, Joana Fonn, Perry Salles, Lucia Alves, Átila Iório, Tereza Raquel, Fernando Torres, Claudio Cavalcanti, Alcione Mazzeo, Sueli Franco, Tereza Sodré, Lucélia Santos, Reginaldo Faria, Mauro Mendonça, Angela Leal, José Lewgoy, Tonia Carrero, Raul Cortez, Carlos Eduardo Dolabella, Tamara Taxman.

Acqua Fresca

Voltando a pé do colégio para comprar o Sgt. Pepper’s, Jack Kerouac, break on through to the other side, Corujão, Nunca Fui Santa, sala do padre Carvalho, sala de Inara, cerveja com tripinha de porco no Crase, Zico perde o pênalti, Álbum Branco, Out of Our Heads, A Gata e o Rato, With The Beatles, expulso da sala na aula de inglês, it’s alright, ma, I’m only bleeding, Ad Libitum no Rio Vermelho, Let it Bleed, caipirosca no Crase, expulso da sala na aula de matemática, “Deus” de Woody Allen, expulso da sala na aula de história, excuse me while I kiss the sky, expulso da sala na aula de geografia, Mini-Fiesta dentro do livro de matemática, expulso da sala na aula de português, livros sobre gangsters na biblioteca da escola, cartilhas do PCdoB na sala de leitura, a mão no peito e um tapa na cara, e tudo isso rescendendo a Acqua Fresca.

Yoko Ono and her Beatles

No dia 10 de janeiro de 1969, diante das câmeras que filmavam o que viria ser o filme Let it Be, Paul McCartney e George Harrison discutiram. George, cansado de ser guiado por Paul em I’ve Got a Feeling, mas apenas deixando transbordar anos de ressentimento, disse que tocaria como Paul quisesse, ou simplesmente não tocaria, era só McCartney dizer.

A discussão continuou no horário de almoço, na cantina do estúdio, e se agravou ainda mais. Finalmente George empacotou sua guitarra. “Vejo vocês nas boates”, disse ele, e foi embora decidido a nunca mais voltar.

Sozinhos, os Beatles restantes iniciaram a tarde com uma jam session. Era apenas barulho, os três maltratando seus instrumentos e descontando neles a frustração que vinha se acumulando desde as gravações do Álbum Branco, e que agora chegava ao ápice com o aparente fim da banda como ela era. Curiosamente era talvez a coisa mais heavy que os Beatles já tinham feito.

E então Yoko Ono se sentou no lugar de George e pegou seu microfone, certamente atenta a tudo o que isso simbolizava. O que se seguiu foram alguns minutos de loucura sonora. Enquanto Yoko grita histericamente, realizando o seu conceito de arte e de música tendo como banda de apoio nada menos que o maior grupo do mundo, Ringo bate alucinadamente em sua bateria, John tenta manter uma base mínima, McCartney tenta arrancar o máximo de microfonia possível do seu Hofner. Yoko é a única que sorri no que para os outros é apenas uma catarse, feliz por ter uma chance secretamente acalentada e sempre negada.

Mais tarde, já sem McCartney, a jam degringola ainda mais, restrita a um Lennon aparentemente chapado de heroína brincando de fazer microfonia e Ringo Starr tocando uma bateria deslocada no tempo e no espaço.

Senhoras e senhores, eis um momento antológico dos Beatles, e o que é talvez seu ponto mais baixo.

Contradições

Lembrança 1 de adolescência: a música de Summmer of ’42 indicando o início do Supercine nos sábados dos anos 80.

Lembrança 2 de adolescência: farras e putarias e corridas e farras e conversas e putarias e o corujão e será que vamos fazer a revolução este ano e o China e farras e vamos fundar um grêmio no Santos Dumont e putarias nos sábados dos anos 80.

Alguém está lembrando errado.

Antes de tudo

Quando vi “Antes do Amanhecer” pela primeira vez, ele não me disse muito. Um filme dos anos 90 (visto no início dos anos 2000), uma história de amor entre jovens bonitos, um final convenientemente aberto que é construído pelas experiências de cada espectador. Talvez aqueles dias não fossem os melhores para assisti-lo, não sei; o fato é que o filme me pareceu outro road movie romântico pós-adolescente como tantos outros — “Garota Sinal Verde” com mais estofo, quem sabe?

Assisti à sua sequência, “Antes do Entardecer”, alguns anos depois. Fora a beleza ensolarada de Paris, que sempre vejo como quem olha foto da amada distante, o que vi a princípio me pareceu apenas uma sequência feita para aproveitar a posição cult do filme original e resolver o que tinha sido deixado em aberto. O filme passou batido, como mais uns tantos em 2004.

Confessar isso agora talvez seja a pior confissão que se pode fazer, a confissão inequívoca de incompetência e insensibilidade absolutas, a confissão de que não, você não sabe nada, não consegue ver nada, ver de verdade. Ou talvez filmes assim precisem ser vistos em épocas específicas de sua vida, porque nas outras você é apenas o mesmo velho cínico de sempre. Não sei. Sei apenas que mais uma vez gostei do filme como gostaria de uns tantos por aí. Bons filmes; mas apenas bons.

No final do ano passado, com o lançamento do terceiro filme dessa trilogia, “Antes da Meia-Noite”, resolvi rever antes os dois primeiros filmes, já esquecidos.

Não sei se é triste, ou um alento, perceber finalmente que estive diante de uma obra prima, do que é provavelmente a mais consistente trilogia de todos os tempos, e do que certamente é a série cinematográfica mais significativa da minha época.

Before Sunrise: VienaAntes do Amanhecer” é uma daquelas pequenas joias que o cinema solta de vez em quando. Um daqueles filmes de simplicidade estonteante e enganadora, que escondem uma qualidade rara: a de conseguir encapsular em celuloide a experiência e os anseios de uma época. Nesse sentido, ele talvez seja o “grande romance americano” dos anos 90. Em sua delicadeza, em sua leveza ao tratar do momento exato do nascimento do amor, “Antes do Amanhecer” é daquelas obras que conseguem dissecar com lirismo e poesia a emoção de ser muito jovem e estar vivo.

“Antes do Amanhecer” fala ao espectador de uma forma que poucos outros filmes românticos podem falar. O final em aberto pode dizer muito sobre quem você é: um romântico, se acha que seis meses depois eles se reencontraram na estação de trem em Viena; ou um cínico, se acredita que em 60 dias Jesse e Celine se tornaram lembranças agradáveis em uma vida agitada e ocupada por novos amores, fugazes ou não. Mas não é isso que faz o filme. É a capacidade de, num cenário improvável, capturar em algumas horas de caminhada a essência de estar vivo e de ser jovem em 1994. É nos diálogos entre Jesse e Celine que uma geração inteira pode se encontrar no que tem de mais precioso: seus sonhos, seus anseios. E, principalmente, é na maneira como compartilham tudo isso que o fime atinge o status de crônica de seu tempo.

Fico pensando que, se tivesse visto esse filme em 1985, talvez ele fosse o meu guia para o resto da vida; talvez fizesse dele o modelo pelo qual mediria todos os relacionamentos futuros, e as moças que eu viesse a querer tivessem que ser como a Julie Delpy, moças de beleza simples mas inequívoca lendo um livro mais highbrow que o meu, talvez neuróticas e complexas demais; e talvez bundas e peitos e pelos e remelexos fossem menos importantes do que foram. (Não, isso é demais, a quem eu quero enganar, e pensando direitinho que bom que a vida me deu meu justo quinhão, que ela sabe o que dar e a quem dar.)

Já em “Amanhecer” fica claro de qual geração estamos falando: os filhos dos anos 60, uma geração que, nas palavras de Celine, já não se sentia no direito de reclamar de um mundo condescendente e de fartura, e sente o vazio resultante disso. Por essa razão, além da sua própria história de amor, do encontro entre Jesse e Celine, esse é também um filme que tenta definir a tal geração Y. E é também o início de uma série sobre o que nos define como seres humanos, seres sociais: relacionamentos. “Você conhece alguém que esteja em um relacionamento feliz?”, pergunta Celine no primeiro filme. Esse é o Graal procurado pela série: a felicidade específica que só se pode alcançar com outra pessoa. E assim “Amanhecer” delineia as perguntas que os filmes seguintes tentarão responder.

Antes do Entardecer“, realizado 9 anos depois, pode ser visto apenas como o elo necessário e fundamental para a resolução do primeiro filme, e foi assim que o vi por anos. Mas ele é mais que isso, muito mais. São os personagens de Delpy e Hawke, 9 anos mais velhos, com as cicatrizes que a vida lhes deu — a ele um filho querido e um casamento sem amor, a ela uma sucessão indistinta de relacionamentos insuficientes –, que conseguem retratar com fidelidade assustadora os dilemas e, novamente, os anseios dessa geração, agora mais velha, agora na casa dos 30, com pelo menos 10 anos de consciência de que as desculpas morreram de cansaço, anos em que a realidade se instalou com rudeza e sem-cerimônia na vida de cada um, colocando suas personas de 9 anos atrás em perspectiva nem sempre galante.

“Antes do Entardecer” é o filme que dá significado e grandeza à série, e desse ponto de vista é talvez o mais importante dos três. Ele coloca as coisas em outro patamar. É o filme que explica o que estávamos vendo e descortina diante de nós um panorama talvez inimaginado.

Aos 23 anos, em “Amanhecer”, Celine e Jesse ainda são meninos ingênuos, que acreditam num paradoxo interessante, mas que nunca mais se repetirá. Naquele momento eles acreditam que o amor será forte o bastante para fazê-los reencontrar-se seis meses depois; mas se não for, tudo bem: eles têm todo o tempo do mundo pela frente, e a vida é boa e embora eles até admitam que ela não será sempre como naquela noite de verão em Viena, têm a certeza de que jamais será um inverno sombrio e sem fim.

Mas agora, já na casa dos 30, eles compreendem melhor isso a que chamam vida. Agora sabem o que perderam quando não se reencontraram em Viena. E por isso, por essa consciência, seus personagens conseguem alcançar uma universalidade rara no cinema. Eles conseguem dar voz real — sem afetações e sem simplismos — a toda uma geração. O que parecia ser uma sequência é mais que isso: é o reinício de algo muito maior.

Uma fala de Julie Delpy, num passeio de bateau mouche, talvez resuma a razão de ser dessa sequência e da trilogia, e acaba fazendo do segundo filme muito mais do que um simples elo de ligação: “Acho que, quando você é jovem, simplesmente acredita que vai encontrar muitas pessoas com as quais se conectará; e mais tarde na vida você percebe que isso só acontece umas poucas vezes.” Essa é a razão de ser desses filmes; e o mais importante, essa é a percepção a que as pessoas chegam aí pelos 30 e poucos anos.

As conclusões a que “Antes do Entardecer” chega — especificamente essa conclusão a que Celine chegou — seriam impossíveis em “Antes do Amanhecer”. Ao mesmo tempo, é ela que explica a grandeza do primeiro. Porque essa é a verdade que jaz subjacente ali. Foi essa conexão, que agora Celine descobre tão rara, que vimos no primeiro filme; foi ela que fez dele uma pequena obra-prima; foi por causa dela que nos apaixonamos pela fita e por aqueles personagens.

É “Antes da Meia-Noite“, no entanto, que oferece as maiores surpresas, e que reafirma a trilogia como uma das grandes da história.

Trilogias parecem ter se tornado o eixo do cinema americano. Qualquer pretenso blockbuster é feito tendo em vista a possibilidade de, no mínimo, uma sequência. Terceiros filmes no entanto costumam ser uma decepção. Apenas citando alguns exemplos recentes, “Homem Aranha 3″ e The Dark Knight Rises destruíram séries bem sucedidas.

Mas talvez por ter sido concebida de maneira extremamente orgânica, talvez por ser o resultado de uma evolução natural e não o produto de uma reunião de diretoria, talvez porque seus idealizadores ambicionaram fazer mais do que um mero filme, talvez porque tem em si qualidades que se veem mais facilmente na literatura, esta trilogia muda esse padrão.

Até agora, o que vínhamos vendo era um bom filme e uma sequência que o explica e o engrandece. “Antes da Meia-Noite”, no entanto, muda o jogo. Até agora, o amor se comportava dentro das regras do cinema tradicional. “Antes da Meia Noite” subverte tudo isso e mostra uma faceta menos bela: o amor como parte da experiência humana muito mais rica e complexa do que se costuma ver no cinema (e, para todos os efeitos, nas redes sociais). Mesquinho, pequeno, rancoroso, baixo. “Antes da Meia Noite” leva o amor à vida real, e ele parece talvez um pouco menos belo do que pode parecer, menos belo do que parecia em “Antes do Amanhecer”.

É a cena da discussão no quarto de hotel — um presente de mau gosto e intrusivo dado por seus amigos gregos, mas curiosamente comum no cotidiano dos casais — que faz de “Antes da Meia-Noite” um dos melhores filmes de 2013, e coroa a série como talvez a melhor trilogia de todos os tempos. Da esperança e liberdade de dois pós-adolescentes ingênuos e crédulos de 1994 aos adultos cansados, falhos, às voltas com uma série de compromissos existenciais e frustrações 18 anos depois, a série de Linklater, Delpy e Hawke se consolida, aqui, como a grande crônica da sua geração — que calha de ser a minha.

Talvez o personagem de Hawke seja bonzinho demais, conciliador demais, sensato demais, apaixonado demais. O fato é que o que se vê ali é, com infelizmente poucas variações, o que milhões de casais vivem no seu cotidiano: as dificuldades do casamento, o conflito doloroso entre o sonho e a realidade. A luta diária para fazer um casamento dar certo apesar de tudo — da rotina, do outro, dos outros, dos milhões de pequenas coisas que fazem as pessoas quererem se afastar daquelas a quem amaram ou amam, das pequenices que fazem a maior parte das vidas de todos.

Não há outro filme, ou série de filmes, que aborde o amor da forma como a série “Antes” aborda. Do romance idealizado do primeiro filme à mesquinhez e às mágoas acumuladas do terceiro, o que vemos é a crônica crescentemente desiludida do amor.

Mas não descrente.

E essa é a grande diferença, é o que talvez dê a “Antes” sua grandeza única. Da esperança juvenil do primeiro, passando pela alegria agridoce do reencontro — de Jesse e Celine , sim, mas também deles consigo mesmos — no segundo, e chegando à raiva mal contida e à melancolia frustrada do terceiro filme, cada um deles é uma reafirmação da validade do amor, das razões pelas quais se deve seguir em frente, os motivos pelos quais devemos nos entregar, uma reafirmação da ideia de que as pessoas se realizam ao se dar ao outro. Talvez a grande beleza de “Antes”, na maneira como se construiu ao longo dos últimos quase 20 anos, seja a percepção de que o amor, como a vida, é paradoxal e contraditório — ou, mais que isso, que é só assim, no paradoxo e na contradição, que ambos podem se realizar completamente.

Talvez o mais doloroso seja perceber que Julie Delpy, em “Antes do Amanhecer”, é a mulher com que eu sonhava aos 17 anos. Em “Antes da Meia Noite”, é as mulheres que tive — e isso é assustador, porque quando você percebe que sempre teve o que quis a vida toma novos sentidos. Mas ao mesmo tempo indica a verdade que jaz no cerne desses filmes, aquela verdade universal, que se aplica a tantas pessoas e suas historias únicas e particulares.

Sim, é possível que  “Antes da Meia-Noite” não seja o melhor filme de 2013. Mas ele faz dessa trilogia que encerra — pelo menos durante os próximos 8 anos — a melhor de todos os tempos, a mais significativa. “Antes do Amanhecer”, “Antes do Entardecer” e “Antes da Meia-Noite” legam à humanidade um retrato acurado e sensível do amor neste fin-de-siècle, um retrato fiel e pungente, e é isso que faz deles bom cinema e, acima de tudo, filmes necessários.

Beatles 65

Alguns anos atrás, o apartamento onde eu morava pegou fogo. História resumida, ele ficou desabitado por alguns meses, até que questões de seguro fossem resolvidas, reformas fossem feitas e ele se tornasse habitável de novo. Nesse meio tempo um vazamento inundou o quarto onde ficavam livros e discos. Estragou alguns livros, muito poucos, mas os discos ficavam no chão e pegaram o pior de tudo aquilo. Quando vi o estrago, e peguei nos discos, as suas capas grudadas se soltavam como peles de leprosos. Desisti de separá-los e limpá-los e os guardei assim mesmo.

Demorou anos até que eu tivesse coragem de olhar os discos novamente. Olhei apenas uns meses atrás porque um amigo queria ouvir os vinis dos Anthologies e do Live at BBC dos Beatles. Eu não tenho tara por vinil, nunca tive. Melhor invenção do mundo foi o .mp3. Mas eu gostava do que tinha, principalmente porque faziam parte de uma época em que eu queria ter tudo dos Beatles.

Como eu imaginava, muita coisa se perdeu. E algumas perdas doem muito. Uma caixa com as gravações completas de Sinatra e Dorsey. Um LP raríssimo de Louis Armstrong. Uma caixa de Hoagy Carmichael. E as capas de tantos discos: do Live at the Hollywood Bowl, dos Anthologies e do Live at BBC. Mas nada doeu tanto, naquele momento, quanto perder as capas dos Anthologies. Três álbuns triplos, acho que lançados só na Inglaterra, e que eu tinha comprado por acaso em Roma, muitos anos atrás. O resto do mundo, na época, viu apenas os CDs, mas eu tinha orgulho dos meus LPs. Dois deles jamais tinham sido tocados; a eles, bastava existirem — perfeitos, belos, assim como o duplo Live at BBC.

Algumas boas notícias: discos que eu imaginava perdidos ficaram inteiros: o Decca Tapes, meu primeiro pirata dos Beatles. O Beatles Story, disco curioso que, na verdade, acho que nunca escutei inteiro. Um exemplar da primeira tiragem americana do Let it Be, com capa dupla e selo com maçã vermelha. A discografia brasileira original. Meus Magical Mystery Tour, ainda com os livretos — tanto os compactos originais quanto o LP pós-1976. Muita coisa manchada, com as marcas da água, mas acima de tudo muita coisa em estado aceitável, pelo menos.

E então bateu outro arrependimento.

Durante quase 15 anos, a discografia brasileira foi diferente da inglesa. Até o Help!, os discos brasileiros eram diferentes dos originais ingleses, tanto em capas quanto em ordem e número de faixas. Apenas a partir do Rubber Soul os lançamentos foram unificados.

E eu tinha todos eles. Todos menos um.

O “Beatles 65″ era a versão brasileira do Beatles For Sale. Procurei por ele durante muitos anos, mas só fui achá-lo em 2005, na Baratos da Ribeiro. 20 real, se lembro bem. Comprei e fui dar uma volta em Copacabana com a Carol. Esqueci o disco num caixa eletrônico ao lado do Copacabana Palace, e quando voltei ele obviamente não estava mais lá. Esses cariocas são uns loucos, porque é preciso ser louco para roubar um disco vagabundo de uma banda que funkeiro carioca que se respeite jamais ouviria. E, claro, uns ladrões safados sem vergonha, uma ruma de filhos da puta que jamais mereceriam sequer o purgatório.

Em 2010, de volta ao Rio, achei novamente o disco, em outro sebo. Já não custava 20 real, custava 50. E como eu tinha perdido tudo nem me dei ao trabalho de pensar em comprá-lo — mas bem ali do lado tinha um “Canções Praieiras” do Caymmi, e eu acho esse um dos maiores discos da história da MPB.

Agora vejo que nem tudo estava perdido, que eu ainda tinha aqueles discos, e que naquele dia eu finalmente poderia completar a minha coleção.

Idiota, mil vezes idiota.

O tempo passou, eu não ligo mais para isso, os .mp3 e .flac no meu computador e no celular quebram meu galho — na verdade os .mp3 são o bastante, mas algumas coisas eu realmente só consigo baixar em .flac — e eu não tenho mais tempo para ficar admirando capas de disco. O último disco de McCartney que comprei foi o Run Devil Run, o último de Lennon foi a caixa Anthology, e lá se vão uns 15 anos, acho. Eu não compro mais discos. Cá entre nós, sequer ouço tanta música assim.

Mas lá no fundo fica a sensação de que está faltando alguma coisa, uma única coisa. E essa coisa é o “Beatles 65″.

A seguir, cenas do próximo capítulo

Para falar a verdade, faz quase 20 anos que não assisto a novelas. Normalmente não sei sequer o que está passando na TV aberta, porque a Sky em Sergipe não traz a Globo e eu tenho preguiça de comprar uma antena para assistir a canais que não me fazem falta; mas mesmo antes disso eu já não via novelas, não via desde que surgiu a internet.

Telenovelas, portanto, não fazem parte da minha vida. Mas de certa forma, já fizeram.

Durante muito tempo, eu as odiei de coração. Mas eu tinha irmãs, e assim os “folhetins eletrônicos”, como já foram chamados, faziam parte do cotidiano lá de casa. Quando éramos crianças o conflito entre gostos diferentes — eu gostava de filmes e seriados, elas gostavam de novelas e de alguns programas de auditório, como o “Recreio” da Tia Arilma, em Salvador — fez com que tivéssemos “dias de TV”. Os delas eram segunda, quarta, sexta e sábado — esses dois últimos, afinal, eram os dias dos capítulos mais importantes das novelas. O resto ficava comigo.

Por isso, mesmo detestando aquelas coisas, houve um tempo em que eu podia recontar a passagem do tempo através da seqüência das novelas das 6, das 7 e das 8. Sabia a sua ordem de exibição, e acabava sabendo também uma sinopse básica da maioria delas. Funcionavam como um referencial cronológico. (O site Teledramaturgia traz excelentes cronogramas e informações sobre novelas ao longo dos últimos 60 anos. É uma enciclopédia brilhante e a melhor fonte de informações sobre telenovelas e séries.)

Passei a assistir novela mesmo em 1983, com “Guerra dos Sexos”, uma novela na época considerada revolucionária para o padrão. Deixei de ver em 1986, depois de “Roque Santeiro”, embora de vez em quando assistisse a alguma coisa aqui e ali — normalmente porque simplesmente estava passando, de vez em quando porque havia algo realmente bom, como “Bebê a Bordo”.

Olhando para trás, vejo que esse período coincidiu com uma certa legitimação intelectual das novelas, quando o preconceito dos anos 70 foi definitivamente superado e as pessoas passaram a assumir que assistiam a elas e gostavam. Mas eu via novelas apenas por ver, de certa forma: gostava mesmo era de algumas minisséries, como “Anos Dourados” (que revi há alguns anos), “Grande Sertão: Veredas” e “Memórias de um Gigolô”. E desde 1995 (quando assisti a muitos capítulos de “Quatro por Quatro”, uma das novelas mais engraçadas que já vi) eu simplesmente não sei o que está sendo exibido — quer dizer, lembro de assistir a uns capítulos do remake de “Cabocla”, em 2004, assim que voltei a morar em Aracaju.

O fato de não gostar de novelas não quer dizer que eu não reconheça a sua importância. Durante algum tempo, principalmente entre os anos 70 e o começo dos 90, elas foram a verdadeira expressão dramatúrgica do país, muito mais do que um cinema divorciado da vida real e da qualidade técnica, ou um teatro feito e pensado para a elite sociocultural. Assim como americanos faziam cinema, nós fazíamos novelas. Nosso problema, durante muito tempo, foi não entender nem admitir isso.

Mas isso foi há muito tempo.

Durante a campanha eleitoral de 2010, saí mais cedo que de costume num sábado, e fui para a casa de minha mãe. Assisti a três novelas seguidas, a das 6, 7 e 8 (eu sei que os horários mudaram e a novela das oito agora é a novela das nove, mas não é agora, depois de velho, que vou mudar o padrão a que me acostumaram).

Eu saí chocado.

Não lembro da novela das seis. Mas a das sete falava de dois “irmãos” que iam para a cama e a das oito tinha Tony Ramos falando com um sotaque italiano pior que o nordestino que a Globo faz. Não lembro seus nomes e, cá entre nós, não quero lembrar. Fiquei impressionado com o nível exacerbado de sexualização de novelas exibidas às sete da noite, porque depois de anos vendo apenas TV por assinatura me acostumei ao padrão americano. Também me chamou a atenção a mera passagem do tempo: os atores que eu conhecia estavam velhos, e os novos eu não sabia quem eram; percebi apenas que quase todos eram muito ruins. Muito.

Mas o que me chocou, mesmo, foi o baixíssimo nível das novelas, dos diálogos, de tudo. É terrível. Pobre de uma forma impressionante. Ainda lembro da época em que debochávamos das novelas mexicanas. Duvido que hoje estejamos em nível melhor. Idéias recicladas à exaustão, diálogos de pobreza imensurável, desempenhos abaixo do medíocre. Telenovela é uma das coisas mais medíocres, mais ruins que alguém pode conceber. Nem sempre foi assim, claro: em 2011 vi um pedaço de “Vale Tudo”, reprisado pelo Viva. Fiquei impressionado com a qualidade dos diálogos, com a ligação natural com a realidade.

Eu sinceramente acho que o cinema se esgotou. Que nos últimos 15 anos tentou compensar em avanços tecnológicos o que lhe falta em novas idéias — não apenas de roteiro, mas de técnica cinematográfica, até mesmo de simples movimentos de câmera. É tudo mais do mesmo, e até entendo quando um Martin Scorsese diz uma sandice como “o 3D é redentor e revolucionário”, ou algo assim. Acho que o momento que vivemos é, com sorte, de transição; sem sorte, é o esgotamento total da capacidade de reinvenção das grandes formas de arte de massas do século XX.

Mas nem o pior de Hollywood se compara hoje às novelas. Pode ser que aqui e ali apareça alguma coisa que chame a atenção — me falaram tanto de Félix Bicha Má, vi tanto sobre ele no Facebook — mas não é a mesma coisa. O nível caiu. Imagino que coloquem a culpa na fragmentação da audiência, numa mal compreendida popularização do público. Tudo isso são desculpas. Novelas hoje são ruins. E me parece impossível que alguma geração volte a fazer delas o referencial que a minha, por exemplo, fez.

Beatlemania em 2014

Durante oito anos, esperei pelo lançamento do livro que Mark Lewisohn estava escrevendo.

Lewisohn é o maior especialista em Beatles do mundo. É autor de dois livros fundamentais sobre a banda: The Complete Beatles Recording Sessions, recentemente relançado depois de uns 20 anos fora de catálogo, e The Complete Beatles Chronicle. Nos últimos 25, 30 anos, teve excelente acesso aos ex-beatles, a Yoko Ono e aos principais satélites da banda, como Neil Aspinall, George Martin, Derek Taylor e Tony Barrow.

Tudo indicava — e eu, pelo menos, tinha certeza — que a biografia anunciada no começo da década passada seria uma obra fundamental, provavelmente definitiva. Demorou mais de oito anos até que ela ficasse pronta. Quando finalmente foi anunciada uma data de lançamento, o tamanho de All These Years: Tune In impressionava: mais de 800 páginas — e isso apenas cobria o período até 31 de dezembro de 1962, antes mesmo do início da beatlemania. Não havia mais dúvidas de que essa seria não apenas a mais abalizada, mas também a mais detalhada biografia da banda.

A pergunta que me faço agora é se o livro corresponde a expectativa tão grande, e fatalmente injusta. E a resposta é sim e não.

De longe, All These Years: Tune In é a melhor biografia dos Beatles já escrita, e merece todos os elogios possíveis. É abrangente e rigorosa. Lewisohn não parece sentir muito prazer com o texto em si, não se aventura em maiores aventuras estilísticas e parece deixar escapar chances demais de deixar seu texto mais atraente. Mas é um historiador competente e desce a detalhes inesperados. Tem a vantagem da absoluta isenção. É mais que óbvio que Lewisohn ama seus personagens e não os aborda com a iconoclastia de um Albert Goldman, por exemplo, mas não se abstém de relatar os fatos, mesmo quando pouco lisonjeiros, e claramente se esforça para manter um mínimo distanciamento como historiador. Evita explorar em excesso o lado negativo de seus biografados — o preconceito e a crueldade do Lennon adolescente, marcas que perdurariam por toda a sua vida, são mencionados várias algumas vezes, por exemplo, mas ele não faz disso. E curiosamente não fez nenhuma nova entrevista com os ex-beatles — provavelmente por reconhecer que nem McCartney nem Ringo têm algo novo a dizer, e a essa altura já acreditam piamente nas versões que foram burilando ao longo de 50 anos.

O livro traz algumas revelações, como uma nova versão sobre o abandono de Lennon pelo pai, finalmente contada por alguém que também estava lá. Mas a mais curiosa diz respeito a uma das principais peças do folclore beatle: a de que o produtor George Martin tinha ficado impressionado com a banda durante uma audição e convencido a EMI contratá-los.

Em The Complete Beatles Recording Sessions, Lewinsohn já tinha notado que o contrato dos Beatles datava de dois dias antes do teste da banda: era de 4 de junho de 1962. Creditava essa discrepância a um erro de datilografia. Agora ficamos sabendo a verdade, e ela é surpreendente: Martin só ouviu os Beatles depois de contratados e não teve papel nenhum em sua contratação. Martin na época estava às voltas com um caso extraconjugal com sua secretária (que viria a ser sua segunda esposa), com problemas financeiros decorrentes disso e não tinha condições de escolher muito. Ou seja: embora ele mesmo tenha recontado a história e se dado importância no processo de reconhecimento do talento dos Beatles, os Beatles llhe foram impostos goela abaixo.

De qualquer forma, não são revelações bombásticas que fazem as grandes qualidades de Tune In. A essa altura, há pouca coisa importante que se possa desenterrar sobre a banda — é até impressionante que uma informação dessas tenha conseguido escapar às centenas de livros escritos até agora. O fato é que isso não diminui a importância de Martin na realização da visão dos Beatles ao longo dos anos 60; apenas arranha um pouco a sua própria pompa.

A grande surpresa do livro é que, contrário do que eu e milhares de outros fãs esperavam, Tune In não esgota o assunto. Sim, ela é a biografia mais completa já escrita, e certamente a mais rigorosa em termos de checagem de fatos; no entanto, tem-se a impressão de que Lewisohn poderia ter tentado elaborar melhor algumas análises, e ter uma visão mais abrangente sobre a banda. Em “The Beatles”, de Bob Spitz, a vida familiar de McCartney, principalmente após a morte de sua mãe, é melhor delineada, e você entende melhor não apenas a dinâmica famíliar dos Mohin/McCartney, mas também a leve superioridade com que McCartney olhava a vida familiar de Lennon. A reação de John morte de sua mãe — Julia tinha ido “devolver” John a sua irmã Mimi, porque seu marido tinha perdido o emprego por dirigir bêbado e John não poderia mais ficar tanto tempo lá — é apresentada aqui de maneira quase lacônica e não acrescenta nada ao que já se sabia.

Durante oito anos, achei que essa seria a mãe de todas as biografias. De certa forma ela é. É indispensável para fãs, repleta de pequenos detalhes e da mais assombrosa avalanche de dados que já se publicou sobre os Beatles. Quer saber quando Ringo Starr perdeu a virgindade? Está lá (nesse dia, George Harrison voltou da mesma festa com as mãos abanando; talvez se já conhecesse Ringo tivesse melhor sorte). É, com toda a certeza, a melhor biografia já escrita sobre a melhor banda da história — e até agora, a única que não tem contém erros factuais. É bem mais que o suficiente para o fã comum. Mas para naquele tipo especial de beatlemaníaco, aquele que sabe muito mas acha é tem que haver mais e que a verdade está lá fora, All These Years: Tune In não elimina a necessidade de leitura de outras biografias.

O segundo volume está prometido para 2020. É tempo demais para esperar. Mas pelo menos a espera não vai ser tão angustiante quanto foi até agora.

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On Air – Live at the BBC Volume 2, o novo álbum dos Beatles lançado em 11 de novembro, traz mais faixas retiradas das apresentações que os Beatles fizeram na rádio BBC entre 1962 e 1965. Junto com ele uma nova edição do Live at the BBC original, de 1994, remasterizado — seja lá o que isso representar — e com pequenas mudanças internas.

Em 1994, o lançamento do Live at the BBC foi a melhor notícia que fãs dos Beatles receberam em quase um quarto de século. Aquele não apenas era o primeiro disco com gravações inéditas dos Beatles em quase 20 anos (o último tinha sido o disco ao vivo Live at the Hollywood Bowl, hoje fora de catálogo porque odiado pela banda); era também o primeiro com canções inéditas. Além disso, deu início a um novo período na vida da Apple Corps., que passou a lançar material inédito de maneira razoavelmente regular. Com a maior parte das pendengas judiciais resolvidas a partir de 1995, os ex-beatles e seus herdeiros descobriram que poderiam voltar a faturar muito com gravações que, até então, vinham fazendo exclusivamente a alegria dos piratas. Seguiram-se, então, o projeto Anthology, o Let it Be… Naked, o Rock Band e finalmente a nova remasterização dos álbuns originais em 2009.

O primeiro Live at the BBC é um excelente disco. Embora tenha deixado gravações importantes de lado, finalmente trazia ao grande público parte significativa daquilo que John Lennon considerava as melhores performances dos Beatles. O novo disco segue a mesma fórmula: traz dezenas de canções às vezes intercaladas com blá blá blá de estúdio, muitas vezes bastante interessante — e termina cada disco com entrevistas curiosas com cada um dos beatles, individualmente.

Mas não há muitas canções inéditas, além de Beautiful Dreamer, Talking ‘Bout You e Happy Birthday Dear Saturday Club. O resto são versões de canções já conhecidas, às vezes até mesmo do Live at the BBC original. Muitas são interessantes: a gravação de Words of Love parece estar no meio do caminho entre a versão de Buddy Holly e a definitiva do Beatles For Sale. A maior parte, no entanto, são francamente inferiores, como I Got a Woman (apesar do belo baixo de McCartney). Pelo visto, deram preferência às versões com melhor qualidade sonora, antes de mais nada.

Mas qualidade certamente não é o motivo pelo qual, ao que tudo indica, deixaram de fora as gravações feitas com Pete Best, que têm maior valor histórico. Os Beatles se apresentaram duas vezes na BBC ainda com Best na bateria, em 25 de março e 11 de junho de 1962. Na primeira sessão gravaram Memphis Tennessee, Dream Baby e Please Mr. Postman. Na segunda, Ask Me Why, Besame Mucho e A Picture of You. Nenhuma delas foi incluída no novo disco.

Essas são as canções inéditas deixadas de lado no novo disco: Dream Baby e A Picture of You são canções que jamais viram a luz do sol em qualquer outra ocasião; Side By Side e Pop Go The Beatles são temas de abertura de programas; Tie Me Kangaroo Down, Whit Monday To You… e All I Want For Christmas is a Bottle são gravações curiosas, que ficam entre o blá blá blá e paródias ou gracinhas, como a versão de Moonlight Bay incluída no Anthology). Tie Me Kangaroo Down tem, provavelmente, outra razão para ser excluída: nessa canção os Beatles acompanham Rolf Harris, recentemente envolvido em acusações graves de pedofilia. Obviamente, ninguém consegue excluir nada definitivamente hoje em dia, e a canção pode ser facilmente encontrada no YouTube.

Há ainda outra categoria em que o novo disco falha: a ausência de gravações originais das quais não há nenhuma versão oficial ao vivo. O disco poderia ter incluído, então, I’m Happy Just To Dance With You, I Should Have Known Better, The Night Before, A Taste of Honey e I Call Your Name, em vez de trazer novas versões de canções já apresentadas no disco de 1994.

Durante muitos anos, The Complete BBC Sessions foi a melhor compilação das apresentações na rádio inglesa — a ponto de a Apple não poder negar que muitas das gravações de seus dois álbuns oficiais foram tiradas dali. Isso mudou em 2010, quando a série Unsurpassed Broadcasts foi lançada; ela está disponível gratuitamente na internet e pode ser encontrada aqui. E é ela que faz de On Air um lançamento redundante, desnecessário, perdido em meio a produtos superiores. De um lado, para o ouvinte comum, o primeiro BBC é mais que suficiente, e muito mais significativo. Do outro, para o fã e completista, é muito melhor dirigir-se diretamente aos bootlegs originais.

É claro que On Air vale a pena. É boa música, antes de tudo, tocada por uma grande banda de rock and roll. Mas não justifica a compra.

60 Contos Eróticos

Quando eu tinha uns poucos anos caiu nas minhas mãos um livro grande, com capa vermelho-alaranjada, chamado “60 Contos Eróticos”. Eram as estórias classificadas em dois concursos da revista Status — não essa revista amorfa de hoje, mas a revista de mulher nua dos anos 70/80.

Foi um livro que li bastante. Li, reli, reli mais uma vez, mais duas, tantas. Alguns desses contos nunca saíram de minha memória. “Tia Bela”; o seminarista que passeia pela zona; o sobrinho que vai fazer uma visita à amante do tio morto; a moça que pede “dicumforça, dicumforça”; a mãe do amigo que ajeita o narrador entre as suas pernas enquanto o chama de bobo.

O tempo passou e muitas das memórias desapareceram, soterradas por outras tantas, mais novas, e novas maneiras de ver o mundo. O livro se perdeu na vida, acho que já há uns 30 anos. Já há muito tempo não gosto de contos eróticos, estão sempre aquém do erotismo quando sutis, estão sempre brigando com as palavras quando explícitos.

Mas semana retrasada lembrei desse livro e procurei por ele na internet (o Mercado Livre é sempre um bom lugar para achar essas coisas, as pessoas gostam de vender velharias que tentam fazer passar por antiguidades). Achei, lembrei imediatamente da capa vermelho-alaranjada. Fui na Estante Virtual e vi que o livro estava barato. Comprei. Comprei também um exemplar de “Grease — Nos Tempos da Brilhantina”, mas isso é outra história.

Ontem cheguei em casa e o livro estava lá, me esperando.

O que mais me impressionou foi o reconhecimento imediato de tanta coisa. Dos contos dos quais eu lembrava, claro, mas também dos que já não lembrava. Das ilustrações. Os cartuns — reconheci todos, embora nem lembrasse que o livro tinha cartuns; mesmo assim reconheci-os todos, imediatamente, cartuns franceses inteligentes e engraçados, curiosamente sem nada a ver com a temática sexual do livro. Tudo aquilo evocava tanta coisa, evocava eu mesmo aos 10 anos.

E enquanto relia alguns contos, fiquei pensando em como esse livro definiu minha vida.

O meu conto preferido, por exemplo (“Tia Bela”: um rapaz vai morar com os tios e obviamente se apaixona pela bela tia novinha, bonita e mal amada, com quem vive uma história de amor condenada desde o início), era tão feminino.

Há uma diferença marcante entre contos eróticos escritos por homens e por mulheres — desconto aqui os contos escritos por garotos espinhentos porque esses são pouco mais que delírios lascivos causados por overdose de hormônios. Contos femininos, pelo menos esses da coletânea, parecem ser de costume mais românticos, mais suaves, costumam ter sentimentos além do sexo, uma eterna busca de um senso de pertencimento.

Fiquei pensando no quanto “Tia Bela” me influenciou. A moça que deitada de bruços na cama enquanto folheia um álbum de fotografias. A ilustração, por exemplo, mostrava uma moça nua, de costas — moça magra, de torso bonito mas com pouca bunda. Será que esse modo feminino de ver as coisas não vem daí? Não sei. Só sei que ver isso me dá uma resposta afinal às bobas que passaram décadas negando um fato básico da vida, dizendo que não tenho alma feminina. Eu tenho sim, gostar de um conto desses é indício de alma feminina, sim, e a imagem de tia Bela com a fotografia amassada nas mãos não me deixa mentir.

Mas não só “Tia Bela”. Os contos que citei lá em cima. “A Deusa de Ébano”, uma neguinha de 13 anos que come um menino de 8; era um dos meus preferidos na época, talvez pela idade, talvez pelo seio negro oferecido à boca do menino que era ainda mais novo do que eu, menino de sorte, tanta sorte que eu não tinha; mas esqueci totalmente dele. “Weekend com Liv Ullman” é um título que reconheci imediatamente, era daí que eu sabia quem era Liv Ullman (e, en passant, também a palavra “weekend“); eu não sabia quem era Ingmar Bergman, demoraria anos até saber e mais anos ainda até ver algum filme dele; mas Liv Ullman eu sabia, sabia desde que era menininho e alguém queria fazer safadeza com ela.

Agora estou imaginando o quanto não devo a esse livro que não reli inteiro, mas que vou ter que reler, para saber se isso aqui não veio de um conto, se aquilo não veio de outro, se o meu desinteresse por isso não veio da delicadeza de “Tia Bela”, se aquilo não veio daquele conto, se o seio em minha boca não evoca aquele outro.

A criança é o pai do homem, dizem, e talvez isso afinal seja verdade.