Mundo estranho, esse
O terror de cada manhã
É assim mesmo.
Saio do trabalho às 3 da manhã e meu telefone começa a tocar às 8. Chego no trabalho, ligo meu computador e me deparo com este e-mail:
Negão do Pau Grande adicionou você à sua lista de amigos no Facebook.
Eu devo ter jogado pedra na cruz.
E de repente eu não gosto mais da internet.
De jornalistas e ascensoristas
Durante anos agências de notícias, mercado publicitário, propriedade dos meios de distribuição da notícia garantiram o florescimento de uma indústria jornalística inchada e redundante. A internet mudou tudo isso e está acabando com esse modelo. Essas mudanças não afetam apenas o ganha-pão de jornalistas. Afetam o meu, também. Como publicitário, minha formação profissional se deu em um mundo de mídia de massas em que uma campanha era normalmente bem resolvida com comerciais de TV, spots de rádio, anúncios de jornal e outdoors. Atualmente a publicidade vive uma crise de modelos importante, em que esse esquema de mídia começa a implodir; vive também a pior crise criativa de toda a sua história, e a internet tem um papel fundamental nisso. Espero que isso não me faça suspeito de dizer justamente o contrário do que vou dizer abaixo.
A repercussão da queda da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista tem me impressionado. Não por jornalistas com medo de que padeiros tomem o seu lugar, como disse o Leandro Demori. Mas porque eles vêm na decisão do Supremo o apocalipse para a sua profissão.
Eles estão enganados.
O apocalipse está vindo, sim. Mas não vem de Brasília (antes de mais nada: as pessoas, de maneira tendenciosa, tentam associar o nome funesto de Gilmar Mendes à decisão. E convenientemente esquecem que Joaquim Barbosa e Carlos Britto também votaram pela queda). É a falta de visão de vários jornalistas em analisar de maneira correta a realidade, a insistência em reclamar de uma garoa enquanto não vêm o furacão que se aproxima, que me impressiona
Explicando da maneira mais didática possível o que eu vejo como futuro provável:
1 – Jornais impressos caminham para a extinção porque não faz sentido comprar hoje a notícia lida ontem de graça na internet.
2 – Ao migrar em sua totalidade para a internet a notícia se transforma, definitivamente, em commodity. Nem todo mundo tem uma prensa; qualquer um pode ter um blog. Jornais vão concorrer com milhares, milhões de blogueiros que vão amplificar e depurar a notícia original.
3 – Por ser commodity, o seu “ecossistema de produção” forçosamente encolhe. Todos os dias passo os olhos em vários jornais e revistas impressos, locais e nacionais. Não ouso dizer que leio porque 80% das notícias não me interessam. Mas posso afirmar que as mesmas notícias estão em todos eles, com raríssimas — e normalmente pouco importantes — exceções.
4 – Menos leitores, menos anúncios, menos dinheiro. Essa redundância que se vê hoje na indústria jornalística perde o sentido, e a esmagadora maioria da indústria se torna dispensável.
5 – Sem dinheiro a grande maioria dos jornais, impressos ou eletrônicos, fecham.
6 – Em outros termos, isso significa o fim de uma indústria.
Não é mais uma questão de o que é desejável para uma categoria profissional. É sobre o que é possível, ou provável.
Mas o fim dos jornais não significa o fim do jornalismo — ou, num termo que talvez venha a se mostrar mais apropriado, da produção da notícia. TVs também fazem jornalismo. Rádios também. Levando-se em consideração a força das redes sociais, não é difícil em que a notícia crua seja dada pelas redes de TV — ou o que as suceda na internet, muito provavelmente uma salada multimídia em que os conceitos de rádio, TV e jornal perdem o sentido — e repercutida pelas redes na internet em análises, opiniões e links.
Do ponto de vista da notícia, aquela pequena quimera que se tornou a tábua de salvação putativa da indústria jornalística, não há necessidade de tantos meios de comunicação. Isso era necessário quando havia um público diverso e com poucas opções. Há muito pouca gente cobrindo os fatos, na verdade; o resto é interpretação e copidescagem — aquilo que blogs fazem de graça e em profusão.
O que faz a indústria jornalística é, na verdade, centenas ou milhares de pessoas dizendo a mesma coisa como se fosse novidade. A diferença é que tudo indica que, cada vez mais, isso vai ser feito pela própria sociedade, dona de seus próprios meios de produção e distribuição da informação. Na ausência da grande indústria jornalística, a notícia procurará outros canais de distribuição. Podem ser blogs de jornalistas independentes. Podem ser sites de organizações não governamentais dedicadas a um ou outro assunto. Podem ser sites de jornalistas que, com estrutura reduzida, farão exatamente o mesmo papel que um grande jornal hoje faz.
Mas esses produtores primários de notícias — que já não serão únicos e talvez sequer os mais importantes — existirão, muito provavelmente, em uma escala infinitamente menor do que a existente hoje. É isso que significa “o fim da indústria jornalística”. Não é o fim da produção e distribuição de notícias. É apenas o fim de um grande ecossistema empresarial de distribuição de um produto.
É por isso que é improvável que a figura do repórter profissional, do sujeito que é pago para buscar a notícia, desapareça. O que está sendo superado neste momento não é um valor universal — a necessidade humana de informação — mas um valor histórico: a formação de uma estrutura para o suprimento dessa necessidade. Durante muitas décadas, os jornais foram o veículo ideal para realizar essa função. Não serão mais.
Pode-se citar como exemplo a figura do correspondente estrangeiro. Pode-se perguntar: e para que correspondentes estrangeiros, mesmo? Eles fizeram sentido (e ainda fazem, embora bem menos) em um tempo em que a distribuição da notícia era cara e complexa. Isso acabou. A formação de redes sociais cada vez mais intrincadas e consistentes elimina essa necessidade. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do mundo, alguma técnica de investigação de fatos e acesso a outros blogueiros ou pessoas no Facebook ou no Twitter pode narrar com precisão e talento determinado fato acontecido no Azerbaidjão ou no Sri Lanka ou em Cabrobó. O Pedro Dória está fazendo justamente isso na cobertura do resultado das eleições no Irã; o Idelber fez durante os ataques israelenses à Palestina.
Mas, aparentemente, a grande maioria dos jornalistas não consegue se enxergar fora de uma estrutura que se consolidou ao longo dos últimos 150 anos. Cada vez mais, lembram ascensoristas desconsolados diante do surgimento de elevadores automáticos, em pânico diante da superação dos elevadores com alavancas e portas pantográficas.
O que eles não parecem perceber é que a palavra-chave dessa nova configuração de mundo não é a notícia. De certa forma, nunca foi — porque ao contrário do que alguns jornalistas parecem acreditar, a notícia e a sua propagação não dependem exclusivamente deles. O que realmente vai definir o futuro da informação são as redes sociais que a internet possibilitou. E se eu fosse jornalista, estaria mais preocupado em entendê-las e me localizar dentro delas do que em reclamar de uma decisão do Supremo que, afinal, não vai mudar muita coisa.
Um adeus à exigência de diploma de jornalista
Pois é, acabou.
Um anacronismo inútil foi eliminado.
O Pedro Dória resumiu com clareza e concisão o pensamento que este blog sempre defendeu:
Jornalismo, perdoem os companheiros de profissão que discordam, é uma forma de exercício da liberdade de expressão. É um direito de todo cidadão, não pode ser restrito. E, em tempos de novas mídias que põem nas mãos de qualquer um os meios de publicar e distribuir informação e opinião, a lei era impossível de funcionar.
E o Leandro Demori respondeu, de maneira muito simples, às principais perguntas de ordem prática feitas pelos novos órfãos da lei:
Agora que caiu exigência do diploma, todo mundo vai querer ser jornalista pra ganhar milhões.
As empresas, claro, irão contratar semi-analfabetos para escrever nos jornais (ops, isso algumas já fazem).
“Agora um padeiro pode roubar o meu emprego?” Se depois de 4 anos na faculdade tu escreve pior do que o padeiro, sim.
“Mas o padeiro VAI querer roubar o meu emprego?” Não.
“Sem diploma nossos salários serão horríveis!”. Claro! O diploma é que garantia o teu salário de marajá, agora fodel!
Fim da vida mágica nas redações, dos altos salários, da baixa carga horária e da proteção da classe.
“E agora, a faculdade de jornalismo não serve pra nada?”. Minha filha, é AGORA que serve (ou não, depende dela).
“E o sindicato dos jornalistas, se tornou obsoleto?”. Pergunta com 30 anos de atraso (mas talvez agora se torne útil).
Já o Razbliuto lembra que o Brasil deixa o seleto time de países que exigem diploma para o exercício do jornalismo, e que inclui África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia, esses bastiões da imprensa forte e independente, e junta-se a países como Alemanha, Espanha, EUA, França, Inglaterra, Irlanda, Itália, Japão e Suiça.
Um blog absolutamente brilhante
Esprit d’escalier
Sem modéstia, eu sou dono de um dos maiores esprits d’escalier que conheço.
Esprit d’escalier é aquela resposta adequada na qual você só pensa muito tempo depois de levar um belo desaforo nas fuças. Por isso o nome, espírito de escada: a frase perfeita que só lhe vem quando você já está descendo a escada, batendo em retirada, humilhado. É o consolo dos idiotas.
Depois da hora certa, eu posso ser genial. Sem ninguém na minha frente, eu sou brilhante.
Mas de vez em quando eu penso na coisa certa na hora certa, e esses momentos me enchem de orgulho, e meus netos me ouvirão repetir essas mesmas histórias vezes e vezes a fio, daqui a muitos anos — tanto mais porque são muito poucas as vezes em que consegui esse feito.
Aconteceu isso em Londres, uns meses atrás, ali perto do Ritz. Eu estava com fome. E já estava meio cansado de comprar aqueles takeaways nas Sainsbury’s da vida para comer sentado em algum parque ou praça.
Foi quando a gente viu uma Pizza Hut. Pizza Hut deve ser barato, foi o que a gente pensou. É a única vantagem dessa comida ruim que se espalha pelo mundo: o gosto pode ser uma droga, mas pelo menos os preços são acessíveis. É o que faz você tolerar um McDonald’s, uma Pizza Hut, uma Domino’s, um Burger King, essas coisas que se espalham como praga com seu paladar uniformizado e industrializado e que tornam o mundo um pouco mais pobre.
Quando a gente entrou, uma moça veio nos receber com o menu na mão e nos encaminhou para a nossa mesa.
Era um sinal, e mau. Obviamente, nós não fomos inteligentes o suficiente para perceber o óbvio: uma Pizza Hut nas imediações do Ritz poderia ser tudo, menos barata.
Sentamos à mesa que a moça indicou e abrimos o cardápio. E então os preços saltaram aos nossos olhos, e eram libras pesadas sobre nossos bolsos depauperados.
Eu não ia comer ali. Era caro demais. Eu podia dar à minha pobreza uma outra desculpa, a de que o preço não era apenas alto, era exorbitante diante de comida ruim, mas para ser honesto não era essa questão, não diante da minha fome: era só falta de dinheiro, mesmo.
O que me deixava com um novo problema, que se juntava à minha fome.
A gente tem vergonha de umas coisas bobas na vida, que à medida que o tempo passa vão ficando mais ridículas. Isso de sair de um restaurante porque não pode pagar, por exemplo. Se eu fosse rico, não ligaria de olhar os preços, torcer o lábio e me levantar fazendo cara de nojinho, e ainda dizer no mais esnobe sotaque inglês “Oh, dear, it’s improperly expensive, and it’s not worth it!”. Mas para mim, que aprendi com minha mãezinha que a gente era pobre mas era limpinho, é uma coisa meio vexatória esse negócio de levantar de uma mesa depois de ver os preços. É uma confissão meio humilhante. Dá vergonha. Se eu pelo menos tivesse saído antes de abrir o cardápio.
Mas não era só isso que me mortificava. Imagem de brasileiro lá fora já é tão ruim, meu Deus. Pior em Londres, lugar onde a polícia gosta de matar brasileiro no metrô. E lá ia eu avacalhar ainda mais a impressão que as pessoas têm do meu cantinho. A partir daquele dia, a moça que nos recebeu à porta, quando entrasse mais um brasileiro, diria baixinho para as suas colegas: “Olha, lá vem mais um brasileiro que não pode pagar uma pizza. Vai lá atender esse povo, Elizabeth”.
Mas Deus protege os tolos, é o que dizem, e enquanto me levantava e me encaminhava para a saída eu de repente percebi que havia, sim, uma frase que eu poderia dizer e que resgataria a minha honra e a minha decência, e defenderia a honra do meu país como um Duque de Caxias ou um Almirante Tamandaré, e falei bem alto, para que todos me ouvissem:
– Yo me voy, acá es muy caro! En Argentina no es asi!
E saí de lá com a impressão de que fiz mais pela imagem do meu país do que quinze Lulas e oito Celsos Amorim.
Meus amigos melhores que eu
Eu já devo ter dito aqui que tenho muito orgulho dos meus amigos.
Eles costumam ser melhores que eu. E por saber disso, eu que sou esperto viro amigo deles, na esperança de que alguém lembre daquele ditado antigo: “diga-me com quem andas e te direi quem és”.
Mas de vez em quando um desses amigos me surpreende ainda mais do que o normalmente esperado, e aparece com algo realmente genial, absolutamente genial, e eu fico meio bobo, com a boca aberta e a incapacidade de dizer algo que considere à altura.
Foi a Tata quem fez essa capa do Diário de São Paulo no dia seguinte ao acidente do vôo da Air France no Atlântico.

Eu tenho muito orgulho dos meus amigos (e, senhora Maneschy, eu queria uma chance de fazer um post falando de você. Fazia tanto tempo.)
Por que votar em Serra
Está na hora de prestar um serviço à oposição. De chamar-lhe à realidade. E isso pode ser feito com uma pergunta simples: por que votar em Serra?
É mais que hora da oposição tirar os olhos de Dilma, de sua saúde, do jeito como Lula se comporta. Chega de tentar criar factóides, como a CPI da Petrobras, que apenas tentam mascarar a sua inépcia — poucas coisas são mais impressionantes do que ver o PSDB, que sempre teve a Petrobras na mira da privatização e que a sucateou de todas as formas entre 1995 e 2002, hoje tentar aparecer como seu defensor, tentando jogar para baixo do tapete as melhoras significativas que a empresa alcançou durante a era Lula.
A oposição precisa de um banho de realidade. Não somente porque seria mais ético, mas porque, diante dos índices de popularidade de Lula, agir da forma que ela tem agido durante todos esses anos é o tipo de estratégia que não dá certo.
Alternância de poder é uma coisa maravilhosa. Permite que um projeto melhor, mais adequado, seja submetido ao país. Foi o que aconteceu em 2002. Ao projeto esgotado personificado por Fernando Henrique Cardoso, Lula apresentou uma concepção de país que, ao mesmo tempo em que mantinha o avanço e o respeito aos fundamentos econômicos registrados nos anos anteriores, levava o governo a uma nova atitude no que diz respeito à area social. Com o Bolsa Família, criou o maior programa de distribuição de renda do ocidente.
Aperfeiçoou a estrutura econômica brasileira e, se com Fernando Henrique o país quebrou três vezes, agora resistiu de maneira absoluta ao que chegaram a chamar de maior crise econômica da história. Levou o país a um novo patamar de respeito internacional. Mudou a atitude brasileira em relação ao comércio exterior, que antes, preocupada da tradicional maneira submissa com Naftas e quetais, deixava de lado mercados emergentes nos quais a nova diplomacia brasileira resolveu investir com resultados mais que satisfatórios.
Por tudo isso, não é com a saúde de Dilma que a oposição tem que se preocupar. É com esses fatos.
Em 2010, assim como em 2006, não vão adiantar factóides. Será preciso, ainda que isso a aterrorize, que a oposição apresente um programa de governo real e palpável. É algo que a sociedade vai cobrar dela. Ao contrário do que os saudosos do Plano Real possam imaginar, as eleições de 2010 não serão iguais às de 1994. O PSDB não vai estar na situação; e o povo não vai estar desesperado correndo de uma inflação de três dígitos. O país que a oposição vai enfrentar no ano que vem estará mais estruturado e mais bem encaminhado.
Resumindo: a oposição vai ter a inglória tarefa de apresentar conserto para um país que dá certo.
Há alguns anos, neste blog, eu lembrava a quem quisesse ler que era mais fácil para o governo achar um candidato à sucessão de Lula do que a oposição finalmente definir um programa. Dois anos se passaram e os fatos não parecem ter me desmentido. Aqueles que criticam o Bolsa Família, usando inclusive argumentos falsos e canalhas, até agora se mostraram incapazes de apresentar uma alternativa concreta ao programa. Estão correndo atrás do prejuízo.
Mas a essa altura, a oposição precisa ser objetiva. Precisa dizer claramente quais as razões pelas quais é melhor que José Serra — ou Aécio, ou qualquer um — seja eleito presidente do Brasil.
Não é, admito, uma tarefa fácil. Está claro que a missão de Dilma vai ser dar continuidade ao projeto de governo de Lula. O palanque de Dilma é sólido e de uma simplicidade espantosa: é continuar fazendo o que Lula fez. Ela não pretende reinventar a roda nem inventar a pólvora. Seu projeto é claro, definido, e de conhecimento público.
Qual é o projeto de Serra?
É preciso que a oposição faça a si mesma algumas perguntas. A primeira delas é: o que José Serra vai fazer de melhor como presidente? Sem cair na estupidez de dizer que este é um país que não funciona — porque, pela primeira vez em décadas, as pessoas finalmente sentem que ele melhora a cada dia –, o que Serra tem a apresentar que seja melhor do que Lula vem fazendo?
Quais as suas propostas para melhorar a distribuição de renda no país? Como ele fará com que o Brasil seja mais respeitado no exterior? O que ele pretende fazer para, sem passar por cima do jogo democrático e da separação de poderes, aumentar o nível de governabilidade do país?
Algumas armadilhas vão aparecer no seu caminho. Como justificar que, depois de oito anos dizendo que o Bolsa Família não presta, eles vão à TV e ao rádio dizer que não pretendem acabar com o programa? (Na verdade, eles já estão correndo atrás do prejuízo. Há cerca de duas semanas, o DEM e o PSDB de Sergipe realizaram um mini-seminário de um dia, com a presença do deputado federal carioca Rodrigo Maia, sobre Bolsa-Família. No que é um passo acertado, e uma correção de rumo há muito devida, a oposição resolveu deixar de lado a sua resistência irracional e aprender como é que se faz.)
Essas não são as únicas questões que vão aparecer diante da oposição. Eles vão precisar responder outras perguntas mais simples e que dão direito a menos tergiversações. Por exemplo: o que, no mandato de José Serra como governador de São Paulo, dá àqueles que o apóiam a convicção de que ele será melhor presidente do que Dilma? Com exceção de obras superfaturadas, crateras de metrô e livros didáticos heterodoxos, o que o governador de São Paulo vai poder apresentar como credenciais para que o povo brasileiro volte as costas ao projeto de Lula e vote nele?
Até agora, a neo-UDN tem apenas gritado e reclamado. Nesses oito anos, sua maneira de fazer oposição tem se mostrado aética e, definitivamente, nem um pouco republicana. Isso pode ser creditado ao seu desconforto nessa posição, em última análise. Mas isso são águas passadas. Do que se vai falar agora é de futuro. É de concepção de país. Pode ser uma perspectiva assustadora; mas é inevitável.
Está na hora de a oposição tirar a cabeça do buraco de onde grita “Está tudo errado!” e tentar mostrar às pessoas, afinal de contas, por que votar em Serra.
Jackson Barreto
Um bobo chamado Rafael Maynard tem tido seus comentários neste blog sistematicamente apagados aqui. Não por serem comentários idiotas, que não cabe a mim julgar isso; mas porque ele insiste em fazer propaganda anti-Lula em posts que não falam de política. Eu falo de peitos bonitos e o sujeito vem com raiva anti-Lula; disso eu não gosto. Este blog não tem problemas com opiniões divergentes, e às vezes até mesmo entra em discussões, principalmente nas caixas de comentários; mas tem um certo senso de pertinência, de que há lugar para todo e qualquer assunto ser discutido.
Mas o seu comentário ao post sobre Paris (que definitivamente não tem anda a ver com política), esculhambando o deputado federal Jackson Barreto por ter apresentado um projeto de emenda constitucional que possibilitaria uma segunda reeleição para Lula, me irritou:
tenho observado que ele em seu Quarto mandato(12 Anos) de Deputado Federal nunca apresentou e muito menos aprovou algum projeto de lei em beneficio do Brasil ou até mesmo da terra que o elegeu ( Sergipe). (…) Sugestão para os sergipanos: pesquisem quais foram os projetos relevantes para o Brasil e Sergipe de Jackson Barreto. Vocês vão se decepcionar: NENHUM !!!! Jackson Barreto é do tipo IMPRODUTIVO !!!
Ele assina “Rafael Maynard, 22 anos”, como se a pouca idade desculpasse sua ignorância e sua estupidez. Ele mesmo poeria seguir sua recomendação, e com mais propriedade. Antes de falar bobagens, devia pesquisar um pouco. Ele não sabe quem é Jackson Barreto.
Mas eu sei. Não somente porque vivo nesta terra, e já esqueci mais sobre política sergipana do que o Rafael Maynard possa vir a saber em toda a sua vida, mas porque Jackson é meu amigo.
Se o bobo do Rafael Maynard soubesse quem é Jackson Barreto, saberia também que foi o segundo deputado federal mais votado em Sergipe nas eleições de 2008 — inclusive com o meu voto. Que foi reeleito justamente por causa de sua atuação como deputado federal. Não acompanho a carreira parlamentar de Jackson, mas não custaria nada a pessoas como o Rafael Maynard dar uma olhada no site da Câmara dos Deputados para ver se, afinal de contas, Jackson tem ou não algum tipo de atuação parlamentar. Em vez disso, sua ignorância e sua burrice o fazem soltar ataques bobos
Se se informasse mais um pouquinho, esse bobo saberia que Aracaju tem uns poucos prefeitos inesquecíveis em sua história de pouco mais de 150 anos, e Jackson está entre os primeiros da lista.
Eleito duas vezes, em 1985 e 1992, Jackson foi o responsável por uma mudança significativa e fundamental par aa história de Aracaju. Foi Jackson quem, prefeito em uma cidade em que tradicionalmente se governava para uma pequena elite de comerciantes e agropecuaristas, levou pela primeira vez o poder público à periferia, invertendo pela primeira vez as prioridades em um Estado que tradicionalmente era dominado pela oligarquia da cana e que governava em função dos seus interesses. Se Aracaju é hoje considerada a capital brasileira com melhor qualidade de vida pelo Ministério da Saúde, isso deve em boa parte aos caminhos abertos por Jackson.
Por isso a minha irritação. Já há muito tempo cansei da ignorância dessa pequena racinha de direitistas que cospem estupidez e elitismo descontroladamente. Rafael Maynard faz parte daquela direita imbecil que não sabe do que fala, que só entende do ódio a Lula. Um ódio que diz respeito à concepção de país capitaneada pelo sujeito que, a despeito das pretensões elitistas de gente como o Rafael, está contruindo um país melhor.
O fato de ser amigo e eleitor de Jackson, e de reconhecer a sua importância histórica na evolução política do Estado em que moro, não impede que eu discorde de alguns de seus atos. Ao contrário dele, não acho que Lula deva procurar um terceiro mandato. Não por ser “inconstitucional”, algo que uma emenda à constituição não pode, por definição, ser. Mas porque acho que, mesmo com os riscos a que o projeto de país que defendemos ser posto por água abaixo numa eventual derrota, há certos valores cívicos e institucionais que devemos deixar de herança, para que este continue se tornando um país melhor. Mesmo sabendo que com uma eventual volta do PSDB/DEM para o governo muitas das conquistas que o Brasil teve nos últimos 6 anos iria por água abaixo, que o país que estamos construindo sofreria um retrocesso grave, que veríamos novamente aquele projeto entreguista voltar a prejudicar o país, eu ainda acredito que somos melhores do que eles.
Mas ao mesmo tempo me impressiona o pavor que essa pequena corja sente em relação ao povo.
Esses mesmos macacos de auditório que hoje gritam gritam contra um eventual terceiro mandato de Lula aplaudiram a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Só por isso eles, em momento algum, teriam o mínimo lastro moral para falar contra uma emenda constitucional. Aquilo — empurrar uma reeleição goela abaixo de todo um povo com movimentos de bastidores, compra de votos de uns tantos deputados e comprometimento de todo um governo, tudo isso ao largo da vontade popular — é que merece ser chamado de golpe.
Golpistas são eles.
A principal diferença entre o projeto de emenda de Jackson Barreto e o modo neo-udenista de fazer as coisas é que a reeleição de Fernando Henrique Cardoso foi comprada a um preço muito alto de corrupção, movimento típico de uma elite que sempre governou longe do povo. Enquanto isso, o que Jackson propõe é um plebiscito. Nada mais do que ouvir o povo brasileiro sobre a sua vontade: se eles querem permitir que Lula continue sendo presidente, porque entendem que este foi, apesar de tantos incidentes, apesar de tantas falhas, o melhor governo já realizado por um presidente brasileiro. É isso que assusta pessoas como o Rafael Maynard: a idéia de o povo sepulte de uma vez por todas a noção que eles porventura ainda possam ter a respeito da qualidade do projeto de país que eles patrocinaram.


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