Sobre as eleições de 2014

Agora que acabaram-se as eleições, e Dilma continua presidente, o que mais me impressiona é lembrar que durante quase um ano vi aqui e em outros lugares uma série de análises políticas que, no fim das contas, leram mal a sociedade brasileira.

Vi, e vejo ainda, o pessoal reclamando dos retrocessos do governo Dilma, o mimimi de classe média dando lugar a um niilismo pretensamente esclarecido e com um discurso erroneamente politizado, e que não passa muito de uma certa negação elitista da política que se alastra entre a classe média e a elite cultural deste país.

Vi o pessoal repetindo as diversas variações do discurso da mudança, da demonização absoluta do governo Dilma. Aparentemente, parte da elite intelectual que me cerca via Dilma Rousseff como uma ditadora de extrema direita, capacho de Silas Malafaia. Se um inca venusiano desavisado caísse na minha timeline, acharia que Dilma era a sucessora dileta de Médici. Mais que isso, viria os ecos dos delírios que acompanharam as manifestações de junho de 2013: a de que “o gigante acordou”, a de que o Brasil queria uma mudança urgente, de que havia uma nova geração que pedia avanços mais radicais que Dilma com sua obediência cega à realpolitik era incapaz de realizar.

Mas agora que as eleições acabaram uma coisa ficou bem clara, e me impressiona que as pessoas não falem nisso: no fim das contas a tão antecipada mudança, se viesse, viria pela direita. Não seria Luciana Genro a próxima presidente: seria Aécio Neves. Aécio, do PSDB. É, aquele partido que, deslocado do centro pelo PT, se assemelha cada vez mais à UDN. Essa foi a mudança que mais de 48% da população brasileira quis.

Eu não tenho a mínima pretensão de entender o que foram as manifestações de junho e como está se processando a evolução política do país. Nada do que li me pareceu explicar direito o que foi aquilo — e a votação assustadora do Aécio me parece contradizer a maior parte do que foi escrito, porque o povo brasileiro afinal de contas não achava que mudar e avançar eram sinônimos. Mas desse processo de pouco mais de um ano, o que ficou foi a certeza de que o pessoal que comenta no FB se descolou completamente da realidade. De que eles não conseguem reconhecer a diversidade das forças sociais e de como se dá a disputa por espaço dentro do Estado em um regime democrático. E aderindo em massa ao voto nulo, parecem brincar na base do “se não é como eu quero, então não quero mais brincar”, e o que é pior: do “é melhor sofrer um governo do PSDB do que garantir conquistas importantes, ainda que isso signifique compactuar com esses criminosos nazistas petistas e peemedebistas e pepistas e pessedistas.”

Por isso tenho orgulho de ter votado em Dilma Rousseff, no primeiro e no segundo turnos. Porque desde o início me recusei a colocar em risco algo que me parecia importante: a continuidade de um projeto que, se imperfeito, ainda assim é melhor do que as alternativas concretas postas na mesa.

Até entendo e poderia justificar os votos na Luciana Genro, por exemplo, no primeiro turno. Não votaria nela, por mais agradável aos meus ouvidos que seja o seu discurso e sua firmeza inquestionável de propósitos. Não votaria porque eleição para mim não é brincadeira; mas também porque no fim das contas sua posição é a mais confortável possível. Ela pode ter o discurso que quiser (assim como aquele valentão de subúrbio que atende pelo vulgo de Levy Fidelix) porque sabe que não será obrigada a negociar com as diversas forças da sociedade — forças que fazem de Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano representantes do povo tão legítimos quanto Jean Wyllys (ou mais: Bolsonaro teve cerca de três vezes mais votos que Wyllys. E se em 2014 Jean decuplicou sua votação em relação a 2010, Marco Feliciano dobrou a sua, e ainda teve mais do dobro dos votos do seu nêmesis. Ou seja: por menos que a gente goste, o povo brasileiro gosta mais de Marco Feliciano do que de Jean Wyllys, e sua voz também precisa ser ouvida. Se você não gosta disso, vamos falar sobre armas e células e guerrilha. Eu topo).

Por menos que gostemos, qualquer governo vai fatalmente ter que negociar. É claro que é possível avançar mais — e eu me juntaria ao coro daqueles que dizem que o Governo Dilma foi tímido, que poderia ter avançado mais, até que deu uma guinada para a direita. Acontece que hoje a disputa não era entre esse projeto e um mais progressista, como o de Luciana Genro: era entre esse, que bem ou mal ainda representa avanços e realizou, sim, a maior revolução social da história deste país, e um que significaria um dos maiores retrocessos que esse país poderia atravessar.

Numa disputa acirrada como foi essa, na minha humílima opinião a abstenção significa tão somente um ato de covardia e colocar o país em um risco imensurável. E talvez por isso, uma das coisas que mais me impressionaram positivamente foi perceber que, entre a classe média que não se rendeu ao canto alcaloide dos tucanos, a maior parte dos votos em Dilma não era de pessoas com interesses diretos no governo — com benesses, cargos ou quetais que queriam preservar. Além do voto legítimo do pobre ou nova classe média que hoje come e compra calça jeans, muitos dos que votaram em Dilma fizeram isso para preservar benefícios que melhoraram as vidas dos outros, como o Bolsa Família.

O mais engraçado é que algumas vezes tive um tiquinho de vontade que Aécio se elegesse. Primeiro porque seria justamente essa classe média que votou nele, e que se beneficiou imensamente com os governos Lula e Dilma, a sua primeira vítima – conquistas como o Bolsa Família, por serem lei, seriam mais difíceis de derrubar. E depois porque aí eu retomaria este blog apenas para poder escrever posts de oposição.

É sempre fácil ser oposição. É a posição mais cômoda, porque você precisa apenas apontar o que está errado — e em um regime democrático nada está totalmente certo. Você pode ter os mais puros ideais, não precisará firmar compromissos nem entender que política é sempre negociação, mesmo na Coréia do Norte. É muito bom ser vestal, porque seu discurso será sempre correto, porque ninguém poderá lhe questionar. É a satisfação ilusória da pureza inexistente.

Infelizmente, avanços como os dos últimos 12 anos não foram feitos com esse tipo de postura. Foram feitos colocando a mão na massa, com compromissos, negociações, negaceios e guinadas. Com idas e vindas — muitos dos quais pouco recomendáveis, mas necessários. Isso é política. Só para lembrar, Luciana Genro, Eymael, Eduardo Jorge e Rui Costa Pimenta teriam que fazer isso, se eleitos.

Por isso essa decepção com a minha timeline. Por ver que tanta gente foi incapaz de entender — ou, se entendeu, dar as costas assim mesmo — que no segundo turno o que estava em jogo não eram os ideais mais altos da política como se entende nos bares em torno das universidades, mas a possibilidade concreta de uma série de avanços sociais e econômicos sofrerem um retrocesso importante. Essa é a grande característica de eleições revogatórias como essa pela qual passamos.

Política é isso. Alguém disse que era a arte do possível, e estava muito próximo da verdade. Essa parte da esquerda que vejo cá no Facebook parece ter esquecido isso, entrado num loop infinito das opiniões dos pequenos guetos que se retroalimentam e validam suas escolhas. É uma pena.

Mas que se dane. São oito da noite, eu já bebi quase duas garrafas de vinho e Dilma ganhou. Acho que tive um papel pequenininho nessa vitória. E isso para mim é o bastante.

Eu tenho as piores amigas do mundo

Rafael:
O que foi?

Amiga:
Vou fazer os exames primeiro

Rafael:
Ixe. É sério?

Amiga:
Eu acho

Rafael:
??

Amiga:
Mas n quero me preocupar antes, vou fazer os exames

Amiga:
Depois penso….n quero ficar paranoica mais do q já sou

Rafael:
Ei, tu vai morrer?

Amiga:
Todo mundo vai um dia, e c certeza eu TB um dia

Rafael:
Porque se você for, lembre de pagar a porra do meu jantar antes.

Amiga:
.l.

Amiga:
>:

Amiga:
N vou mais pagar

Amiga:
Ta desfeito

Rafael:
Caloteira!

Rafael:
Tava aí procurando desculpa!

Rafael:
É capaz de morrer pra não pagar a porra do jantar!

Amiga:
Morro feliz se n pagar

Rafael:
Você devia ter vergonha.

João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro era proibido de entrar lá em casa.

Não seus livros, que esses sempre tiveram trânsito livre; até livros ruins podiam entrar lá, e entravam de vez em quando, um livro do João Ubaldo seria recebido com festas, até. Proibido de entrar era ele, mesmo.

João Ubaldo era uma dessas coincidências curiosas que nos cercam de vez em quando: alguém que tinha algum tipo de ligação com dois ramos completamente independentes da família.

Não é todo mundo que sabe, mas ele morou um bom tempo em Aracaju. Morou ali, na rua Cedro, entre a Campo do Brito e a praça Tobias Barreto.

Minha avó era madrinha de seu irmão, Manoel. Os Galvão gostavam muito deles, e a recíproca era verdadeira.

Seu Manoel Ribeiro, seu pai, era ligado ao PSD. Acabou tendo que sair às pressas de Sergipe aso ser ameaçado de morte por membros da UDN — e minha avó até o fim da vida nominava os “canalhas” que fizeram isso. Seu Manoel morreu de forma boba anos depois, escorregando e batendo a cabeça num meio-fio; mas nunca mais voltaria a Sergipe. Acho que boa parte da  raiva de minha avó em relação a tudo o que cheirasse a UDN vinha daí.

Anos mais tarde João Ubaldo conheceu meu pai no Jornal da Bahia. Depois, quando soube que ele era casado com a neta de dona Sinhá, que ele tinha conhecido na adolescência, passou a lhe dizer que tinha trocado as fraldas de minha mãe.

Dizia isso numa mesa de bar, porque nelas ele era rei. Era dessas pessoas que, nessas mesas — e há outro lugar no mundo? —, monopolizava as atenções, é o que me dizem. Quando começava a falar, com seu vozeirão e uma inteligência rara, todos paravam para escutar. (Enquanto escrevo isso lembro de outro sujeito que também era assim e que se foi recentemente: seu nome era Marcelo Déda.)

Mas João Ubaldo não era meu escritor preferido. É óbvio que é difícil não reconhecer a genialidade de um livro como “Viva o Povo Brasileiro”, e o “Diário do Farol” ajuda a fazer dele talvez o mais legítimo sucessor — sem ser imitador — de Jorge Amado, mas minhas preferências andaram por outros becos. Olhando para trás, vejo que li tão pouca coisa dele. Acho que o que mais gosto de João Ubaldo é uma carta aberta que ele destinou a Fernando Henrique Cardoso, então recém-reeleito à presidência da República. Merece o meu respeito e veneração qualquer pessoa que escreva a um presidente em seu momento mais glorioso e lhe diga isso:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Só por isso, por essa desfaçatez, por esse esnobismo, João Ubaldo Ribeiro é também meu herói. Mas não foi por isso que ele inspirou um dos melhores personagens de Henfil — Ubaldo, o Neurótico. Na verdade, foi pela mesma razão pela qual o meu pai o proibiu de entrar lá em casa:

“Você foi passar um fim de semana na casa de Henfil e quando foi embora levou junto a Berê. Pois na minha casa você não coloca os pés.”

E só por isso, tanto quanto seus livros, tanto quando as crônicas, João Ubaldo Ribeiro vai fazer muita falta.

Nomes

Nadia Lippi, Carlos Zara, Ney Sant’Anna, Laerte Morrone, Claudio Corrêa e Castro, Gilberto Martinho, Yara Côrtes, Paulo Figueiredo, Armando Bogus, Sura Berditchevsky, Lady Francisco, Zilka Salaberry, Jacira Sampaio, Julio César, Rosana Garcia, Nestor de Montemar, Rosita Thomaz Lopes, Denise Dumont, Roberto Faissal, Chica Xavier, Maria Claudia, Claudio Marzo, Eloiza Mafalda, Neuza Amaral, Lucia Alves, Silvia Salgado, Rosamaria Murtinho, Felipe Carone, Renata Fronzi, Reinaldo Gonzaga, Cleyde Blota, Myrian Pires, Miriam Persia, Solange Theodoro, Suzana Faini, Monah Delacy, Angelina Muniz, Paulo Guarnieri, Heraldo Galvão, Nivea Maria, Thais de Andrade, João Paulo Adour, Sonia Regina, Ruth de Souza, Mario Cardoso, Lauro Corona, Norma Blum, Glauce Graieb, Oswaldo Loureiro, Isis Koschdoski, Élida L’Astorina, Heloísa Millet, Fabio Massimo, Celia Biar, Castro Gonzaga, Milton Moraes, Suely Franco, Adriano Reys, Roberto Pirilo, Priscila Camargo, Djenane Machado, Marcelo Picchi, Arthur Costa Filho, Elza Gomes, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Fátima Freire, Ana Ariel, Mauricio do Valle, Eduardo Tornaghi, Karin Rodrigues, José Augusto Branco, Luiz Armando Queiroz, Eva Todor, Maria Fernanda, Beatriz Segall, Dionísio Azevedo, Carlos Kroeber, Ivan Candido, Dina Sfat, Lidia Brondi, Jonas Mello, Joana Fonn, Perry Salles, Lucia Alves, Átila Iório, Tereza Raquel, Fernando Torres, Claudio Cavalcanti, Alcione Mazzeo, Sueli Franco, Tereza Sodré, Lucélia Santos, Reginaldo Faria, Mauro Mendonça, Angela Leal, José Lewgoy, Tonia Carrero, Raul Cortez, Carlos Eduardo Dolabella, Tamara Taxman.

Acqua Fresca

Voltando a pé do colégio para comprar o Sgt. Pepper’s, Jack Kerouac, break on through to the other side, Corujão, Nunca Fui Santa, sala do padre Carvalho, sala de Inara, cerveja com tripinha de porco no Crase, Zico perde o pênalti, Álbum Branco, Out of Our Heads, A Gata e o Rato, With The Beatles, expulso da sala na aula de inglês, it’s alright, ma, I’m only bleeding, Ad Libitum no Rio Vermelho, Let it Bleed, caipirosca no Crase, expulso da sala na aula de matemática, “Deus” de Woody Allen, expulso da sala na aula de história, excuse me while I kiss the sky, expulso da sala na aula de geografia, Mini-Fiesta dentro do livro de matemática, expulso da sala na aula de português, livros sobre gangsters na biblioteca da escola, cartilhas do PCdoB na sala de leitura, a mão no peito e um tapa na cara, e tudo isso rescendendo a Acqua Fresca.

Yoko Ono and her Beatles

No dia 10 de janeiro de 1969, diante das câmeras que filmavam o que viria ser o filme Let it Be, Paul McCartney e George Harrison discutiram. George, cansado de ser guiado por Paul em I’ve Got a Feeling, mas apenas deixando transbordar anos de ressentimento, disse que tocaria como Paul quisesse, ou simplesmente não tocaria, era só McCartney dizer.

A discussão continuou no horário de almoço, na cantina do estúdio, e se agravou ainda mais. Finalmente George empacotou sua guitarra. “Vejo vocês nas boates”, disse ele, e foi embora decidido a nunca mais voltar.

Sozinhos, os Beatles restantes iniciaram a tarde com uma jam session. Era apenas barulho, os três maltratando seus instrumentos e descontando neles a frustração que vinha se acumulando desde as gravações do Álbum Branco, e que agora chegava ao ápice com o aparente fim da banda como ela era. Curiosamente era talvez a coisa mais heavy que os Beatles já tinham feito.

E então Yoko Ono se sentou no lugar de George e pegou seu microfone, certamente atenta a tudo o que isso simbolizava. O que se seguiu foram alguns minutos de loucura sonora. Enquanto Yoko grita histericamente, realizando o seu conceito de arte e de música tendo como banda de apoio nada menos que o maior grupo do mundo, Ringo bate alucinadamente em sua bateria, John tenta manter uma base mínima, McCartney tenta arrancar o máximo de microfonia possível do seu Hofner. Yoko é a única que sorri no que para os outros é apenas uma catarse, feliz por ter uma chance secretamente acalentada e sempre negada.

Mais tarde, já sem McCartney, a jam degringola ainda mais, restrita a um Lennon aparentemente chapado de heroína brincando de fazer microfonia e Ringo Starr tocando uma bateria deslocada no tempo e no espaço.

Senhoras e senhores, eis um momento antológico dos Beatles, e o que é talvez seu ponto mais baixo.

Contradições

Lembrança 1 de adolescência: a música de Summmer of ’42 indicando o início do Supercine nos sábados dos anos 80.

Lembrança 2 de adolescência: farras e putarias e corridas e farras e conversas e putarias e o corujão e será que vamos fazer a revolução este ano e o China e farras e vamos fundar um grêmio no Santos Dumont e putarias nos sábados dos anos 80.

Alguém está lembrando errado.

Antes de tudo

Quando vi “Antes do Amanhecer” pela primeira vez, ele não me disse muito. Um filme dos anos 90 (visto no início dos anos 2000), uma história de amor entre jovens bonitos, um final convenientemente aberto que é construído pelas experiências de cada espectador. Talvez aqueles dias não fossem os melhores para assisti-lo, não sei; o fato é que o filme me pareceu outro road movie romântico pós-adolescente como tantos outros — “Garota Sinal Verde” com mais estofo, quem sabe?

Assisti à sua sequência, “Antes do Entardecer”, alguns anos depois. Fora a beleza ensolarada de Paris, que sempre vejo como quem olha foto da amada distante, o que vi a princípio me pareceu apenas uma sequência feita para aproveitar a posição cult do filme original e resolver o que tinha sido deixado em aberto. O filme passou batido, como mais uns tantos em 2004.

Confessar isso agora talvez seja a pior confissão que se pode fazer, a confissão inequívoca de incompetência e insensibilidade absolutas, a confissão de que não, você não sabe nada, não consegue ver nada, ver de verdade. Ou talvez filmes assim precisem ser vistos em épocas específicas de sua vida, porque nas outras você é apenas o mesmo velho cínico de sempre. Não sei. Sei apenas que mais uma vez gostei do filme como gostaria de uns tantos por aí. Bons filmes; mas apenas bons.

No final do ano passado, com o lançamento do terceiro filme dessa trilogia, “Antes da Meia-Noite”, resolvi rever antes os dois primeiros filmes, já esquecidos.

Não sei se é triste, ou um alento, perceber finalmente que estive diante de uma obra prima, do que é provavelmente a mais consistente trilogia de todos os tempos, e do que certamente é a série cinematográfica mais significativa da minha época.

Before Sunrise: VienaAntes do Amanhecer” é uma daquelas pequenas joias que o cinema solta de vez em quando. Um daqueles filmes de simplicidade estonteante e enganadora, que escondem uma qualidade rara: a de conseguir encapsular em celuloide a experiência e os anseios de uma época. Nesse sentido, ele talvez seja o “grande romance americano” dos anos 90. Em sua delicadeza, em sua leveza ao tratar do momento exato do nascimento do amor, “Antes do Amanhecer” é daquelas obras que conseguem dissecar com lirismo e poesia a emoção de ser muito jovem e estar vivo.

“Antes do Amanhecer” fala ao espectador de uma forma que poucos outros filmes românticos podem falar. O final em aberto pode dizer muito sobre quem você é: um romântico, se acha que seis meses depois eles se reencontraram na estação de trem em Viena; ou um cínico, se acredita que em 60 dias Jesse e Celine se tornaram lembranças agradáveis em uma vida agitada e ocupada por novos amores, fugazes ou não. Mas não é isso que faz o filme. É a capacidade de, num cenário improvável, capturar em algumas horas de caminhada a essência de estar vivo e de ser jovem em 1994. É nos diálogos entre Jesse e Celine que uma geração inteira pode se encontrar no que tem de mais precioso: seus sonhos, seus anseios. E, principalmente, é na maneira como compartilham tudo isso que o fime atinge o status de crônica de seu tempo.

Fico pensando que, se tivesse visto esse filme em 1985, talvez ele fosse o meu guia para o resto da vida; talvez fizesse dele o modelo pelo qual mediria todos os relacionamentos futuros, e as moças que eu viesse a querer tivessem que ser como a Julie Delpy, moças de beleza simples mas inequívoca lendo um livro mais highbrow que o meu, talvez neuróticas e complexas demais; e talvez bundas e peitos e pelos e remelexos fossem menos importantes do que foram. (Não, isso é demais, a quem eu quero enganar, e pensando direitinho que bom que a vida me deu meu justo quinhão, que ela sabe o que dar e a quem dar.)

Já em “Amanhecer” fica claro de qual geração estamos falando: os filhos dos anos 60, uma geração que, nas palavras de Celine, já não se sentia no direito de reclamar de um mundo condescendente e de fartura, e sente o vazio resultante disso. Por essa razão, além da sua própria história de amor, do encontro entre Jesse e Celine, esse é também um filme que tenta definir a tal geração Y. E é também o início de uma série sobre o que nos define como seres humanos, seres sociais: relacionamentos. “Você conhece alguém que esteja em um relacionamento feliz?”, pergunta Celine no primeiro filme. Esse é o Graal procurado pela série: a felicidade específica que só se pode alcançar com outra pessoa. E assim “Amanhecer” delineia as perguntas que os filmes seguintes tentarão responder.

Antes do Entardecer“, realizado 9 anos depois, pode ser visto apenas como o elo necessário e fundamental para a resolução do primeiro filme, e foi assim que o vi por anos. Mas ele é mais que isso, muito mais. São os personagens de Delpy e Hawke, 9 anos mais velhos, com as cicatrizes que a vida lhes deu — a ele um filho querido e um casamento sem amor, a ela uma sucessão indistinta de relacionamentos insuficientes –, que conseguem retratar com fidelidade assustadora os dilemas e, novamente, os anseios dessa geração, agora mais velha, agora na casa dos 30, com pelo menos 10 anos de consciência de que as desculpas morreram de cansaço, anos em que a realidade se instalou com rudeza e sem-cerimônia na vida de cada um, colocando suas personas de 9 anos atrás em perspectiva nem sempre galante.

“Antes do Entardecer” é o filme que dá significado e grandeza à série, e desse ponto de vista é talvez o mais importante dos três. Ele coloca as coisas em outro patamar. É o filme que explica o que estávamos vendo e descortina diante de nós um panorama talvez inimaginado.

Aos 23 anos, em “Amanhecer”, Celine e Jesse ainda são meninos ingênuos, que acreditam num paradoxo interessante, mas que nunca mais se repetirá. Naquele momento eles acreditam que o amor será forte o bastante para fazê-los reencontrar-se seis meses depois; mas se não for, tudo bem: eles têm todo o tempo do mundo pela frente, e a vida é boa e embora eles até admitam que ela não será sempre como naquela noite de verão em Viena, têm a certeza de que jamais será um inverno sombrio e sem fim.

Mas agora, já na casa dos 30, eles compreendem melhor isso a que chamam vida. Agora sabem o que perderam quando não se reencontraram em Viena. E por isso, por essa consciência, seus personagens conseguem alcançar uma universalidade rara no cinema. Eles conseguem dar voz real — sem afetações e sem simplismos — a toda uma geração. O que parecia ser uma sequência é mais que isso: é o reinício de algo muito maior.

Uma fala de Julie Delpy, num passeio de bateau mouche, talvez resuma a razão de ser dessa sequência e da trilogia, e acaba fazendo do segundo filme muito mais do que um simples elo de ligação: “Acho que, quando você é jovem, simplesmente acredita que vai encontrar muitas pessoas com as quais se conectará; e mais tarde na vida você percebe que isso só acontece umas poucas vezes.” Essa é a razão de ser desses filmes; e o mais importante, essa é a percepção a que as pessoas chegam aí pelos 30 e poucos anos.

As conclusões a que “Antes do Entardecer” chega — especificamente essa conclusão a que Celine chegou — seriam impossíveis em “Antes do Amanhecer”. Ao mesmo tempo, é ela que explica a grandeza do primeiro. Porque essa é a verdade que jaz subjacente ali. Foi essa conexão, que agora Celine descobre tão rara, que vimos no primeiro filme; foi ela que fez dele uma pequena obra-prima; foi por causa dela que nos apaixonamos pela fita e por aqueles personagens.

É “Antes da Meia-Noite“, no entanto, que oferece as maiores surpresas, e que reafirma a trilogia como uma das grandes da história.

Trilogias parecem ter se tornado o eixo do cinema americano. Qualquer pretenso blockbuster é feito tendo em vista a possibilidade de, no mínimo, uma sequência. Terceiros filmes no entanto costumam ser uma decepção. Apenas citando alguns exemplos recentes, “Homem Aranha 3″ e The Dark Knight Rises destruíram séries bem sucedidas.

Mas talvez por ter sido concebida de maneira extremamente orgânica, talvez por ser o resultado de uma evolução natural e não o produto de uma reunião de diretoria, talvez porque seus idealizadores ambicionaram fazer mais do que um mero filme, talvez porque tem em si qualidades que se veem mais facilmente na literatura, esta trilogia muda esse padrão.

Até agora, o que vínhamos vendo era um bom filme e uma sequência que o explica e o engrandece. “Antes da Meia-Noite”, no entanto, muda o jogo. Até agora, o amor se comportava dentro das regras do cinema tradicional. “Antes da Meia Noite” subverte tudo isso e mostra uma faceta menos bela: o amor como parte da experiência humana muito mais rica e complexa do que se costuma ver no cinema (e, para todos os efeitos, nas redes sociais). Mesquinho, pequeno, rancoroso, baixo. “Antes da Meia Noite” leva o amor à vida real, e ele parece talvez um pouco menos belo do que pode parecer, menos belo do que parecia em “Antes do Amanhecer”.

É a cena da discussão no quarto de hotel — um presente de mau gosto e intrusivo dado por seus amigos gregos, mas curiosamente comum no cotidiano dos casais — que faz de “Antes da Meia-Noite” um dos melhores filmes de 2013, e coroa a série como talvez a melhor trilogia de todos os tempos. Da esperança e liberdade de dois pós-adolescentes ingênuos e crédulos de 1994 aos adultos cansados, falhos, às voltas com uma série de compromissos existenciais e frustrações 18 anos depois, a série de Linklater, Delpy e Hawke se consolida, aqui, como a grande crônica da sua geração — que calha de ser a minha.

Talvez o personagem de Hawke seja bonzinho demais, conciliador demais, sensato demais, apaixonado demais. O fato é que o que se vê ali é, com infelizmente poucas variações, o que milhões de casais vivem no seu cotidiano: as dificuldades do casamento, o conflito doloroso entre o sonho e a realidade. A luta diária para fazer um casamento dar certo apesar de tudo — da rotina, do outro, dos outros, dos milhões de pequenas coisas que fazem as pessoas quererem se afastar daquelas a quem amaram ou amam, das pequenices que fazem a maior parte das vidas de todos.

Não há outro filme, ou série de filmes, que aborde o amor da forma como a série “Antes” aborda. Do romance idealizado do primeiro filme à mesquinhez e às mágoas acumuladas do terceiro, o que vemos é a crônica crescentemente desiludida do amor.

Mas não descrente.

E essa é a grande diferença, é o que talvez dê a “Antes” sua grandeza única. Da esperança juvenil do primeiro, passando pela alegria agridoce do reencontro — de Jesse e Celine , sim, mas também deles consigo mesmos — no segundo, e chegando à raiva mal contida e à melancolia frustrada do terceiro filme, cada um deles é uma reafirmação da validade do amor, das razões pelas quais se deve seguir em frente, os motivos pelos quais devemos nos entregar, uma reafirmação da ideia de que as pessoas se realizam ao se dar ao outro. Talvez a grande beleza de “Antes”, na maneira como se construiu ao longo dos últimos quase 20 anos, seja a percepção de que o amor, como a vida, é paradoxal e contraditório — ou, mais que isso, que é só assim, no paradoxo e na contradição, que ambos podem se realizar completamente.

Talvez o mais doloroso seja perceber que Julie Delpy, em “Antes do Amanhecer”, é a mulher com que eu sonhava aos 17 anos. Em “Antes da Meia Noite”, é as mulheres que tive — e isso é assustador, porque quando você percebe que sempre teve o que quis a vida toma novos sentidos. Mas ao mesmo tempo indica a verdade que jaz no cerne desses filmes, aquela verdade universal, que se aplica a tantas pessoas e suas historias únicas e particulares.

Sim, é possível que  “Antes da Meia-Noite” não seja o melhor filme de 2013. Mas ele faz dessa trilogia que encerra — pelo menos durante os próximos 8 anos — a melhor de todos os tempos, a mais significativa. “Antes do Amanhecer”, “Antes do Entardecer” e “Antes da Meia-Noite” legam à humanidade um retrato acurado e sensível do amor neste fin-de-siècle, um retrato fiel e pungente, e é isso que faz deles bom cinema e, acima de tudo, filmes necessários.

Beatles 65

Alguns anos atrás, o apartamento onde eu morava pegou fogo. História resumida, ele ficou desabitado por alguns meses, até que questões de seguro fossem resolvidas, reformas fossem feitas e ele se tornasse habitável de novo. Nesse meio tempo um vazamento inundou o quarto onde ficavam livros e discos. Estragou alguns livros, muito poucos, mas os discos ficavam no chão e pegaram o pior de tudo aquilo. Quando vi o estrago, e peguei nos discos, as suas capas grudadas se soltavam como peles de leprosos. Desisti de separá-los e limpá-los e os guardei assim mesmo.

Demorou anos até que eu tivesse coragem de olhar os discos novamente. Olhei apenas uns meses atrás porque um amigo queria ouvir os vinis dos Anthologies e do Live at BBC dos Beatles. Eu não tenho tara por vinil, nunca tive. Melhor invenção do mundo foi o .mp3. Mas eu gostava do que tinha, principalmente porque faziam parte de uma época em que eu queria ter tudo dos Beatles.

Como eu imaginava, muita coisa se perdeu. E algumas perdas doem muito. Uma caixa com as gravações completas de Sinatra e Dorsey. Um LP raríssimo de Louis Armstrong. Uma caixa de Hoagy Carmichael. E as capas de tantos discos: do Live at the Hollywood Bowl, dos Anthologies e do Live at BBC. Mas nada doeu tanto, naquele momento, quanto perder as capas dos Anthologies. Três álbuns triplos, acho que lançados só na Inglaterra, e que eu tinha comprado por acaso em Roma, muitos anos atrás. O resto do mundo, na época, viu apenas os CDs, mas eu tinha orgulho dos meus LPs. Dois deles jamais tinham sido tocados; a eles, bastava existirem — perfeitos, belos, assim como o duplo Live at BBC.

Algumas boas notícias: discos que eu imaginava perdidos ficaram inteiros: o Decca Tapes, meu primeiro pirata dos Beatles. O Beatles Story, disco curioso que, na verdade, acho que nunca escutei inteiro. Um exemplar da primeira tiragem americana do Let it Be, com capa dupla e selo com maçã vermelha. A discografia brasileira original. Meus Magical Mystery Tour, ainda com os livretos — tanto os compactos originais quanto o LP pós-1976. Muita coisa manchada, com as marcas da água, mas acima de tudo muita coisa em estado aceitável, pelo menos.

E então bateu outro arrependimento.

Durante quase 15 anos, a discografia brasileira foi diferente da inglesa. Até o Help!, os discos brasileiros eram diferentes dos originais ingleses, tanto em capas quanto em ordem e número de faixas. Apenas a partir do Rubber Soul os lançamentos foram unificados.

E eu tinha todos eles. Todos menos um.

O “Beatles 65″ era a versão brasileira do Beatles For Sale. Procurei por ele durante muitos anos, mas só fui achá-lo em 2005, na Baratos da Ribeiro. 20 real, se lembro bem. Comprei e fui dar uma volta em Copacabana com a Carol. Esqueci o disco num caixa eletrônico ao lado do Copacabana Palace, e quando voltei ele obviamente não estava mais lá. Esses cariocas são uns loucos, porque é preciso ser louco para roubar um disco vagabundo de uma banda que funkeiro carioca que se respeite jamais ouviria. E, claro, uns ladrões safados sem vergonha, uma ruma de filhos da puta que jamais mereceriam sequer o purgatório.

Em 2010, de volta ao Rio, achei novamente o disco, em outro sebo. Já não custava 20 real, custava 50. E como eu tinha perdido tudo nem me dei ao trabalho de pensar em comprá-lo — mas bem ali do lado tinha um “Canções Praieiras” do Caymmi, e eu acho esse um dos maiores discos da história da MPB.

Agora vejo que nem tudo estava perdido, que eu ainda tinha aqueles discos, e que naquele dia eu finalmente poderia completar a minha coleção.

Idiota, mil vezes idiota.

O tempo passou, eu não ligo mais para isso, os .mp3 e .flac no meu computador e no celular quebram meu galho — na verdade os .mp3 são o bastante, mas algumas coisas eu realmente só consigo baixar em .flac — e eu não tenho mais tempo para ficar admirando capas de disco. O último disco de McCartney que comprei foi o Run Devil Run, o último de Lennon foi a caixa Anthology, e lá se vão uns 15 anos, acho. Eu não compro mais discos. Cá entre nós, sequer ouço tanta música assim.

Mas lá no fundo fica a sensação de que está faltando alguma coisa, uma única coisa. E essa coisa é o “Beatles 65″.

A seguir, cenas do próximo capítulo

Para falar a verdade, faz quase 20 anos que não assisto a novelas. Normalmente não sei sequer o que está passando na TV aberta, porque a Sky em Sergipe não traz a Globo e eu tenho preguiça de comprar uma antena para assistir a canais que não me fazem falta; mas mesmo antes disso eu já não via novelas, não via desde que surgiu a internet.

Telenovelas, portanto, não fazem parte da minha vida. Mas de certa forma, já fizeram.

Durante muito tempo, eu as odiei de coração. Mas eu tinha irmãs, e assim os “folhetins eletrônicos”, como já foram chamados, faziam parte do cotidiano lá de casa. Quando éramos crianças o conflito entre gostos diferentes — eu gostava de filmes e seriados, elas gostavam de novelas e de alguns programas de auditório, como o “Recreio” da Tia Arilma, em Salvador — fez com que tivéssemos “dias de TV”. Os delas eram segunda, quarta, sexta e sábado — esses dois últimos, afinal, eram os dias dos capítulos mais importantes das novelas. O resto ficava comigo.

Por isso, mesmo detestando aquelas coisas, houve um tempo em que eu podia recontar a passagem do tempo através da seqüência das novelas das 6, das 7 e das 8. Sabia a sua ordem de exibição, e acabava sabendo também uma sinopse básica da maioria delas. Funcionavam como um referencial cronológico. (O site Teledramaturgia traz excelentes cronogramas e informações sobre novelas ao longo dos últimos 60 anos. É uma enciclopédia brilhante e a melhor fonte de informações sobre telenovelas e séries.)

Passei a assistir novela mesmo em 1983, com “Guerra dos Sexos”, uma novela na época considerada revolucionária para o padrão. Deixei de ver em 1986, depois de “Roque Santeiro”, embora de vez em quando assistisse a alguma coisa aqui e ali — normalmente porque simplesmente estava passando, de vez em quando porque havia algo realmente bom, como “Bebê a Bordo”.

Olhando para trás, vejo que esse período coincidiu com uma certa legitimação intelectual das novelas, quando o preconceito dos anos 70 foi definitivamente superado e as pessoas passaram a assumir que assistiam a elas e gostavam. Mas eu via novelas apenas por ver, de certa forma: gostava mesmo era de algumas minisséries, como “Anos Dourados” (que revi há alguns anos), “Grande Sertão: Veredas” e “Memórias de um Gigolô”. E desde 1995 (quando assisti a muitos capítulos de “Quatro por Quatro”, uma das novelas mais engraçadas que já vi) eu simplesmente não sei o que está sendo exibido — quer dizer, lembro de assistir a uns capítulos do remake de “Cabocla”, em 2004, assim que voltei a morar em Aracaju.

O fato de não gostar de novelas não quer dizer que eu não reconheça a sua importância. Durante algum tempo, principalmente entre os anos 70 e o começo dos 90, elas foram a verdadeira expressão dramatúrgica do país, muito mais do que um cinema divorciado da vida real e da qualidade técnica, ou um teatro feito e pensado para a elite sociocultural. Assim como americanos faziam cinema, nós fazíamos novelas. Nosso problema, durante muito tempo, foi não entender nem admitir isso.

Mas isso foi há muito tempo.

Durante a campanha eleitoral de 2010, saí mais cedo que de costume num sábado, e fui para a casa de minha mãe. Assisti a três novelas seguidas, a das 6, 7 e 8 (eu sei que os horários mudaram e a novela das oito agora é a novela das nove, mas não é agora, depois de velho, que vou mudar o padrão a que me acostumaram).

Eu saí chocado.

Não lembro da novela das seis. Mas a das sete falava de dois “irmãos” que iam para a cama e a das oito tinha Tony Ramos falando com um sotaque italiano pior que o nordestino que a Globo faz. Não lembro seus nomes e, cá entre nós, não quero lembrar. Fiquei impressionado com o nível exacerbado de sexualização de novelas exibidas às sete da noite, porque depois de anos vendo apenas TV por assinatura me acostumei ao padrão americano. Também me chamou a atenção a mera passagem do tempo: os atores que eu conhecia estavam velhos, e os novos eu não sabia quem eram; percebi apenas que quase todos eram muito ruins. Muito.

Mas o que me chocou, mesmo, foi o baixíssimo nível das novelas, dos diálogos, de tudo. É terrível. Pobre de uma forma impressionante. Ainda lembro da época em que debochávamos das novelas mexicanas. Duvido que hoje estejamos em nível melhor. Idéias recicladas à exaustão, diálogos de pobreza imensurável, desempenhos abaixo do medíocre. Telenovela é uma das coisas mais medíocres, mais ruins que alguém pode conceber. Nem sempre foi assim, claro: em 2011 vi um pedaço de “Vale Tudo”, reprisado pelo Viva. Fiquei impressionado com a qualidade dos diálogos, com a ligação natural com a realidade.

Eu sinceramente acho que o cinema se esgotou. Que nos últimos 15 anos tentou compensar em avanços tecnológicos o que lhe falta em novas idéias — não apenas de roteiro, mas de técnica cinematográfica, até mesmo de simples movimentos de câmera. É tudo mais do mesmo, e até entendo quando um Martin Scorsese diz uma sandice como “o 3D é redentor e revolucionário”, ou algo assim. Acho que o momento que vivemos é, com sorte, de transição; sem sorte, é o esgotamento total da capacidade de reinvenção das grandes formas de arte de massas do século XX.

Mas nem o pior de Hollywood se compara hoje às novelas. Pode ser que aqui e ali apareça alguma coisa que chame a atenção — me falaram tanto de Félix Bicha Má, vi tanto sobre ele no Facebook — mas não é a mesma coisa. O nível caiu. Imagino que coloquem a culpa na fragmentação da audiência, numa mal compreendida popularização do público. Tudo isso são desculpas. Novelas hoje são ruins. E me parece impossível que alguma geração volte a fazer delas o referencial que a minha, por exemplo, fez.