Um certo lamento feminino

O Hermenauta me manda um texto da Ruth Manus, publicado há algum tempo no Estadão, em que ela lamenta a triste sorte das mulheres hoje em dia, sonhando com um homem inexistente que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

A colunista olha em volta e não encontra esse homem. A culpa é, em última análise, da sociedade, esse ente indefinível que cria homens que fogem de mulheres independentes. Reclama que não ouviu esse discurso de nenhum homem. “Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.”

(Vamos desconsiderar o primeiro parágrafo que só serve para ambientar a situação, a besteira que é alguém sonhar com uma mulher assim. Como seria uma besteira uma mulher sonhar com um homem que trabalhe 16 horas por dia, que viva respondendo a emails ou telefonemas de trabalho extemporâneos e que tenha que fazer serão  — com ou sem a secretária  — dia sim, dia não. Se é para sonhar, vamos sonhar direito.)

Vamos desconsiderar também o fato de que a última sentença parece indicar que tudo isso é apenas um grande e elaborado lamento por não ter um homem para chamar de seu. O fato é que eu poderia fazer esse discurso, se isso a confortasse. Casado algumas vezes, olho para trás e vejo que nenhuma de minhas mulheres se encaixa no perfil que ela acha que os homens querem. Cozinho melhor que elas; todas tiveram trajetória acadêmica melhor que a minha; a maior parte teve, sim, subordinados em algum momento da vida. Mas isso não é sobre elas, é sobre a inexistência de homens que admitam mulheres que não dependam deles. Talvez por isso, por comparar a minha própria trajetória com a da moça descrita no texto, fiquei me perguntando de que mundo fala a colunista.

Pistas vêm mais adiante. Ela fala da educação que recebeu, dos cursos, do incentivo entusiasmado dos pais para que ela desenvolvesse seu potencial e garantisse independência. Indica também uma mulher bem-sucedida. A combinação específica de salto alto e overload de e-mails (mais adiante ela menciona subordinados) indica uma mulher que certamente não é nem vendedora nem operadora de telemarketing.

O primeiro problema do texto está aí. Ela descreve o mundo quase idílico da classe média — a velha, não a nova. É o mundo daqueles cujos pais lhes possibilitaram (geralmente com pai e mãe trabalhando em tempo integral) acesso a oportunidades variadas em sua formação. Fala daquela parte abençoada da sociedade cujas necessidades básicas, e boa parte de suas aspirações, já são atendidas — justamente porque uma geração anterior de mulheres se sacrificou para garanti-las. O mundo sofisticado daqueles que, em vez de um feriadão na Praia do Forte ou até mesmo quatro noites em Paris pela CVC, almeja uma viagem para o Leste Europeu.

Talvez se ela olhasse para o mundo das comerciárias, das funcionárias públicas, das professoras, visse um mundo levemente diferente. E talvez ela aventasse a possibilidade que esse mundo de homens querendo dondocas dependentes e ignorantes aconteça apenas nas vidas dos super-ricos; nas dos mortais reles, coitados, isso é impossível.

Nesse mundo, as pessoas não apenas precisam trabalhar: elas esperam que as outras trabalhem, também. E nesse mundo, ao que parece a maior parte das mulheres não está preocupada com os problemas que parecem afligir a personagem do texto da Ruth Manus; ou porque já têm o seu merecido quinhão ou porque simplesmente têm mais o que fazer.

Claro que há homens como os que povoam os pesadelos da Ruth Manus. Há piores, na verdade. Esses bichos costumam vir em todos os tipos e cores. Há moços antigos assim e moços modernos, rapazes que querem filhos e rapazes que não os querem, senhores que se pudessem prenderiam a mulher em casa e senhores que dividem a mulher graciosamente com outros, cavalheiros que ajudam em casa e cavalheiros que se especializam na doce arte da gigolagem.

Mas há muito tempo o homem que se vê como provedor único da casa, senhor absoluto da família e da mulher mantida em rédeas curtas, deixou de ser a norma, ou mesmo parte significativa. Não porque eles quisessem ou deixassem de querer, que isso é irrelevante: mas porque a necessidade os obrigou.

A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho a partir da II Guerra alterou, aos poucos mas para sempre, as configurações familiares no mundo inteiro. E assim como a classe média passou a se condoer da situação das empregadas domésticas a partir do momento em que não precisou mais delas — ou, mais acuradamente, não pôde mais mantê-las —, a grande maioria das famílias passou a tomar como garantido o fato de que todos precisam trabalhar para garantir padrões de vida mais ou menos adequados às suas aspirações.

A colunista parece ver seus problemas como resultado do machismo inculcado nos homens desde sempre. Mas certamente não é nessa esfera que está o grande problema causado pelo machismo, pela maneira como a sociedade educou seus varões, e nem vamos falar aqui de outros ainda mais graves, como agressões, disparidades salariais, essas coisas. Aquele tipo de problema é mais facilmente visto nas famílias com filhos, em que normalmente a mulher acaba sobrecarregada. Mas não é disso que o artigo trata.

De vez em quando se vê por aí textos em que mulheres tentam fazer passar suas carências e preocupações idiossincráticas por feminismo, ou ao menos pelo diagnóstico de um problema universal feminino. Esse é um deles. Tenho a impressão de que se essa moça fizesse uma pesquisa rápida e procurasse ver com quem os homens que poderiam interessá-la estão (aqueles comprometidos e satisfeitos com isso, claro), teria uma surpresa desagradável. O mais provável é que os encontrasse com mulheres que incorporassem, ao menos em parte, os predicados descritos no início do texto.

Relações interpessoais são sempre complicadas. E os anos que passam me fazem desconfiar cada vez mais que grande parte desses problemas se devem a desencontros. Mas nesse caso específico, a Manus personifica as reclamações não de homens, mas das mulheres que acham que a vida lhes passou uma rasteira e não lhes deu de presente um conto de fadas moderno. Não parece haver muitos homens por aí lamentando que as mulheres se emanciparam e por isso eles estão solteiros, apesar do MBA em Harvard que ostentam no currículo, apenas porque não encontram mais amélias submissas como antigamente. E é isso que faz desse texto pouco mais que o lamento de uma moça bem sucedida de classe média reclamando que a educação primorosa que teve não lhe serviu para o que era mais importante: arranjar um marido.

João Barreto Neto

Vi agora a notícia da morte de João Barreto Neto, nestes tempos em que essas notícias ruins vêm pelo Facebook. E então bateu uma tristeza imensa, tristeza e aquela culpa difusa causada pela sensação de que você poderia ter dado um pouco mais de atenção àqueles que se foram.

Fazia alguns anos que não via Joãozinho. Da penúltima vez ele gritou meu nome no Calçadão da João Pessoa como quem acabou de avistar um fantasma — e tinha avistado mesmo. Confundira este Rafael, vaso ruim que a terra há de ter muito trabalho para engolir, com o Rafael Rodrigues, filho do Rômulo que tinha morrido pouco tempo antes em um acidente estúpido. Na época, maravilhado por poder fazer a crônica da minha própria morte, privilégio de poucos, escrevi sobre isso aqui.

Da última, em frente a um restaurante na Praça da Imprensa onde ele ia pegar sopa para dar aos assistidos pela Ação Social Santo Antônio, a herança que Barrinhos lhe deixou, eu vi um homem velho e cansado. Nem parecia aquele que me acompanhava aos cabarés da cidade, como o de Ciganinha — puteiro admirável porque parecia um terreiro de candomblé escondido no Santos Dumont, ainda melhor porque pertencia a uma cafetina que tinha perdido tudo por amor a um homem.

Ainda lembro das noites na varanda da casa de João com Yara, conversando coisas sérias e coisas bobas. Ou ainda uma noite em que, passando em frente à sua casa na rua Maruim, parei para conversar e encontrar um ombro amigo para chorar o fim de um namoro, xingar aquela desgraçada que não queria mais saber de mim — ou eu não queria mais saber dela, não lembro bem. Na verdade eu chorava pelo fim do namoro e pelo show de McCartney no Maracanã a que não iria assistir por não ter dinheiro. O que sei é que naquela noite uma garrafa de Natu Nobilis encontrou seu fim — porra, Joãozinho, se fosse sua mãe teria me servido um uísque melhor.

Ela era uma daquelas mulheres fortes, que inspiram respeito à primeira vista. Fosse umas décadas mais nova e eu uns anos mais velho, teria inspirado também uma daquelas paixões avassaladoras, imorais. O meu respeito era ainda maior porque eu sabia de coisas que pouca gente parecia saber. Sabia que Joãozinho era filho do tio, fruto de uma daquelas tragédias rodrigueanas que abalam as famílias, causam infelicidade para todos e resultam em mortes tristes; tragédias que se tenta esconder a todo custo, tentativa infrutífera sempre. 30, 40 anos depois tio Joffre me contava a história, que só conto agora porque, exatamente hoje, todos morreram. Foi tio Joffre quem me disse também que o pai real de Joãozinho conhecia o meu — real e oficial, deixe-me antes de mais nada esclarecer porque eu tenho cá minhas frescuras também.

O que ninguém sabe é que o pai dele foi um dos últimos, se não o último, taxista a levar meu pai a algum lugar, e num certo dia em que eu ia com tio Joffre para o seu sítio em Socorro ele desandou a falar do meu, como era inteligente, como bebia, como conhecia os piores botecos da cidade.

Saí do jornal e perdi o contato com Joãozinho. Mais tarde, olhando para trás, teria a impressão de que ele, gay, estava esperando apenas uma chance para me pegar. Meninos novos costumam ser alvos fáceis. No entanto, quando lembro da amizade tranquila e das longas conversas sobre jornalismo e sobre a história de Aracaju, fico pensando que não, que isso é maldade minha. Melhor assim.

E então eu não vou ao seu velório, Joãozinho. A maior homenagem que podemos fazer a um amigo é a lembrança. E eu, assim como tanta gente, lembro de você.

Ladeira da Montanha

A demolição de antigos casarões na Ladeira da Montanha, em Salvador, abalados pelas chuvas fortes que caíram recentemente, gerou revolta em muita gente. Aqui e ali pulularam — pululam ainda — protestos revoltados com o fato de o IPHAN ter autorizado, com rapidez que julgaram suspeita, a demolição dos prédios.

Basta uma olhada rápida para as casas demolidas para entender que não havia outra solução. Na foto ao lado é possível ver exatamente o que se perdeu: meras fachadas degradadas ao ponto da impossibilidade de recuperação, mantidas em pé apenas pela mão benevolente do Senhor do Bonfim. Mais grave, entretanto, é que não parecia haver nada ali que caracterizasse algum conjunto arquitetônico importante e necessário, nem que justificasse a repentina indignação de uma sociedade que evitava passar por aquela rua, principalmente à noite. Durante décadas, os prédios da Ladeira da Montanha cumpriram apenas o papel de oferecer sexo a preços módicos para trabalhadores de baixa renda; há anos, nem isso. O IPHAN agiu corretamente.

Digo isso com certa dor no coração. Muitos anos atrás, quando eu chegava a Salvador pela rodoviária, podia pegar dois ônibus de lá para a casa de minha avó, em Nazaré. O R1 e o R2 faziam essencialmente o mesmo trajeto, mas em sentidos diferentes. O R1 era o mais rápido; mas eu preferia o R2, que primeiro passava pelo Comércio e pela Ladeira da Montanha. O caminho era mais longo, mas era mais bonito: eu, como qualquer baiano, sou cioso da parte que me cabe na herança dos lupanares da cidade. Era melhor se fosse no cair da tarde: o pôr do sol visto da Ladeira da Montanha, entre as torres da Conceição da Praia, é um dos mais belos em uma cidade que os tem em demasia.

Em vez de carpir o enterro tardio dos cadáveres putrefatos de antigos bregas abandonados há eras, deveríamos estar discutindo o destino que se vai dar àquela área. A Prefeitura ainda não se pronunciou sobre o futuro da Ladeira da Montanha, provavelmente porque foi pega de surpresa pela urgência de tomar uma atitude evitada por muitos anos. Acho que o lugar poderia se transformar num bom espaço de convivência, com apelo turístico e cultural. Daria um dos mais belos mirantes de Salvador, sem nenhuma dúvida. É um lugar adequado para uma grande praça com equipamentos de lazer, restaurantes e armadilhas para turistas. Podiam até fazer uns bares para que, com o passar do tempo, a Ladeira da Montanha voltasse a cumprir o papel social que cumpriu durante décadas: garantir um espaço razoavelmente seguro para o exercício da boa e mais antiga profissão do mundo. Turistas pagam em dólar.

Infelizmente o histórico da Prefeitura não é dos melhores e afeta as expectativas que possamos ter. Embora tenha realizado uma das mais importantes intervenções urbanas em Salvador dos últimos tempos, a transformação do trecho da avenida Sete de Setembro entre o Porto e o Farol da Barra em um grande calçadão de uso misto, o prefeito ACM Neto tem uma concepção de cidade ultrapassada e nociva: ele fala sem ruborizar em demolir casarões irrecuperáveis no Centro Histórico para transformá-los em estacionamentos, enquanto o mundo civilizado trabalha para banir automóveis dos centros das cidades. Não será ACM Neto o prefeito a transformar Salvador em uma cidade moderna, que tente harmonizar seu passado e seu futuro.

Isso é ainda mais triste porque Salvador tem uma cota alta demais de Alaricos urbanos. Mario Kertész, por exemplo, construiu no Paço Municipal aquela aberração estética que responde pelo nome de Palácio Tomé de Souza, ironicamente no local onde existiram a antiga Biblioteca e a Imprensa Oficial, demolidos por ACM (avô do atual prefeito) nos anos 70; os Magalhães gostam de derrubar coisas. Em defesa de Kertész apenas o fato de que aquele monstrengo deveria ser temporário; no entanto, aquela desgraça está lá há quase 30 anos.

Mas Salvador é uma cidade que pelas dimensões e variedade do seu patrimônio histórico ainda pode ter esperanças. E talvez a Paris do século XIX possa servir de exemplo para o que fazer.

Ao voltar do exílio em 1848, Napoleão III já trazia debaixo do braço o mapa dos futuros bulevares de Paris. Sua ideia era renovar completamente a cidade, construindo grandes bulevares que rasgassem a cidade de cima a baixo, recriando a estrutura urbana e adequando a capital aos novos tempos e tecnologias, expurgando os tantos e tantos cortiços que se espalhavam por uma cidade que tinha crescido assustadora e desordenadamente. Para isso ele nomeou o barão Haussmann chefe do departamento do Sena, uma espécie de super-prefeito de Paris.

A renovação de Paris no Segundo Império jamais seria igualada. A área da cidade subiu de 3500 para 8 mil hectares; mas acima de tudo, Haussmann transformou Paris numa cidade moderna, mais limpa, capaz de absorver o crescimento constante das décadas que se seguiriam.

É impossível saber o que se perdeu. Lugares históricos, lieus de mémoire, as provas materiais da Revolução de 1848; quase dois mil anos de camadas e camadas de evolução de uma cidade. A Paris que emergiu do Haussmanismo continha ainda muitos elementos da cidade antiga, mas era uma cidade diferente. É essa a Paris que conhecemos. Não parece ter se saído mal.

(A nota irônica em tudo isso é que os objetivos de Napoleão III não eram apenas modernizadores e sanitizadores. Com a nova ordenação urbana de Paris ele pretendia também facilitar a repressão às explosões sociais que aconteciam a três por quatro na cidade. Parisienses sempre tiveram uma queda por barricadas e paralelepípedos. Mas foram esses novos bulevares que cerca de 70 anos depois viram os panzers alemães deslizarem suavemente em sua tomada de Paris.)

Um dos problemas que o mimimi daqueles que protestam cegamente contra a demolição das ruínas da Ladeira Montanha é não entender que a cidade é um organismo vivo, que precisa evoluir. Não deve fazer isso às custas do seu passado e da sua história, e uma solução radical como a de Haussman não seria aplicável hoje. Mas não deve sobrevalorizar o que é só velho, e por isso um pouco desse espírito deveria ser levado em conta. A cidade às vezes tem que fazer escolhas. O grande problema é que simplesmente não é preciso fazer uma escolha difícil neste caso da Ladeira da Montanha.

Baianos têm orgulho do seu elevador Lacerda (enquanto, logo ali ao lado, deixam o belo Elevador do Taboão agonizar; só vão lembrar dele, pelo visto, quando finalmente desmoronar). Um anúncio antológico da Bahiatursa o descreve como parte da alma da cidade: “Cidade Baixa, Cidade Alta e um elevador no meio. Só podia ser coisa de baiano.” Vendo essa falsa polêmica sobre o “casario da Ladeira da Montanha”, fico pensando que, se esse pessoal que hoje se esvai em chororô ignorante e ludita estivesse vivo em 1930, Salvador não teria o elevador que conhecemos hoje; em vez disso teríamos o antigo, como projetado por Antonio de Lacerda no início dos anos 1870, porque a cidade não tem o direito de se erguer de suas próprias cinzas.

Lágrimas na chuva

Eu vi o CEP passar de 5 para 8 números.

Vi os telefones passarem de 7 para 8 números.

Vi câmeras de 35mm substituídas pelas digitais e então começarem a desaparecer.

Vi os cinemas de rua desaparecendo um a um.

Vi o videocassete nascer para ser morto pelo DVD, e este pela internet.

Eu vi os orelhões de ficha darem lugar aos de cartão, e estou vendo estes morrendo.

Vi os cursos de datilografia florescerem, mas agora eles não existem mais.

Vi os jornais ganharem cor, e agora eles encaram seu fim.

Vi o vinil desaparecer ante o CD, e este superado pelo mp3.

Vi surgir o PC, para dar lugar ao notebook e então ao smartphone.

Eu vi as lâmpadas incandescentes substituídas pelas fluorescentes e estou vendo-as dar lugar às de LED.

Vi o celular surgir e passar de 7 para 8 números, e estou vendo passar para 9.

Eu vi surgir a TV em cores, e a TV por assinatura, e o YouTube e o Netflix destruindo-as aos poucos.

V i o fax nascer e morrer.

Vi as rádios FM surgirem, e vi a Noruega anunciar a sua morte.

Vi o bip dar lugar ao pager, e este dar lugar ao WhatsApp.

Eu vi coisas em que você não acreditaria. E todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Roy Batty, você não sabe de nada, inocente.

Alsace-Lorraine

É uma de minhas imagens mentais favoritas, e torço para que tenha sido verdadeira: sempre imaginei Hitler subindo a Champs-Élysées com olhar impassível mas o coração acelerado, desdenhando das expressões de choro e medo dos franceses que o viam desfilar. Eu o imagino descendo do carro no fim do bulevar, atravessando a Étoile pela rua, por cima, mãos para trás como sempre andava, e parando diante dessa placa. Primeiro olhou em volta e viu os nomes dos soldados, imaginando se no meio daqueles tantos sobrenomes alemães não havia o antepassado de algum conhecido seu, de um marechal talvez. Pensou em como tinha sido fácil chegar ali e como nada mais poderia impedir a realização plena do seu destino. Deu mais uma olhada em direção à Concorde e se permitiu um sorriso discreto; seu coração se encheu de alegria e gratidão, e então olhou para essa placa por longos segundos, e murmurou baixinho, tão baixinho que Albert Speer não pôde ouvir: “Vielen Dank, Französisch.”

 

Pourquoi je suis Charlie

O que mais tem me impressionado nas reações de parte do pessoal que comenta nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre a chacina da redação da Charlie Hebdo por fanáticos fundamentalistas islâmicos não é a má fé e a ignorância visíveis em boa parte delas. É, principalmente, a prontidão com que esta sociedade está disposta a relativizar e mesmo abdicar de um direito básico da civilização ocidental: o direito de expressão.

A ignorância dessas reações pôde ser vista quando milhares de pessoas que jamais ouviram falar antes da Charlie Hebdo tomaram posições imediatamente. Sem conhecer sua história, definiram por ouvir dizer que a Charlie era racista, etc., etc. Em um exemplo de um traço curioso da humanidade, amplificado pelo imediatismo das redes sociais, as pessoas parecem sentir que precisam tomar posições radicais e se pronunciar sobre qualquer coisa, mesmo que não tenham base nenhuma para isso.

Para isso tentam buscar as ferramentas que validem suas crenças. E é aí que está a má-fé: está, por exemplo, no destaque exclusivo das capas ofensivas ao Islã publicadas pela revista para fazê-la parecer anti-islâmica – ou, quando muito, de capas que ofendam outros valores caros a você ou ao seu grupo. Descartam então as capas que satirizaram e muitas vezes ofenderam Sarkozy, Hollande, judeus e cristãos, e assim têm a prova cabal de que sim, aqueles racistas miseráveis mereceram – se não a chacina, ao menos a reação indignada dos assassinos que se dizem inspirados no Islã, mais ou menos como certo pessoal relativiza a culpa do estupro dizendo que a moça não deveria usar aquele decote tão perdulário. “Ah, ele não respeita o Profeta. Vamos matar os cães infiéis!” Pessoalmente, não vejo muita diferença disso para “Ah, ele não respeita Lula. Vamos matá-lo!”

Chegaram a divulgar uma charge retratando a ministra francesa Christiane Taubira como uma macaca como prova do racismo da Charlie. A charge, na verdade, foi feita pela Minute, publicação de extrema-direita francesa. As pessoas que falsificaram a informação ou divulgaram-na, no entanto, não estão preocupadas com isso: precisam apenas de evidências, verdadeiras ou não, que embasem suas posições equivocadas.

Frei Leonardo Boff publicou dois artigos sobre o assunto. O primeiro foi repleto de platitudes como “não apoio a chacina” e “não vamos culpar todos os muçulmanos”; platitudes porque nenhum ser humano decente apoiou a chacina, e porque a condenação dos assassinos e a separação entre muçulmanos e terroristas foi feita por todos os líderes mundiais, principalmente pelas lideranças islâmicas. Rupert Murdoch foi contra a corrente, é verdade; mas Murdoch não conta porque é escória.

O segundo, em que republicou um artigo primeiro atribuído ao padre Antonio Piber, e posteriormente ao jornalista Rafo Saldanha, é diferente.

Num texto canalha, que acusa a Charlie de perseguir muçulmanos sem explicar o contexto em que o confronto se acirrou (em 2006 a revista republicou as charges do jornal Jyllands-Posten ridicularizando Maomé [charges que este blog republicou na época mas que, descubro agora, desapareceram sem explicação], como uma atitude de solidariedade e defesa do direito de expressão diante das ameaças que o jornal dinamarquês sofreu por causa delas; por isso passou a também receber ameaças que chegaram a um atentado em 2011 e culminaram na chacina da semana passada), ele classifica as charges do Charlie como “criminosas”. O adjetivo não é inesperado de um representante da velha e boa Igreja Católica Apostólica Romana: a tradição nos lembra que qualquer coisa desabonadora que se diga sobre ela é considerada criminosa.

Ele diz ainda que a Charlie Hebdo é covarde; o atentado de 2011 e a chacina da semana passada deveriam servir para que ele entendesse que, certos ou não, o que não faltou aos cartunistas da revista foi coragem. Se não bastam, o ataque ao Hamburger Morgenpost e principalmente os massacres hediondos que o Boko Haram vem conduzindo na Nigéria, e que só este ano matou mais de 2 mil pessoas, deveriam ao menos explicar que muçulmanos são, sim, minoria na Europa, mas o alcance daquela minoria de fanáticos que se dizem inspirados por eles pode ser gigantesco. Enfrentá-los é indício de coragem, acima de tudo. Coragem que não tiveram, por exemplo, os meios de comunicação que borraram as capas da Charlie em suas reportagens sobre a chacina.

É triste que um homem que foi calado pela Igreja Católica hoje se resigne a amplificar seu ideário reacionário disfarçado de respeito ao diverso.

O trecho que mais incomoda, no entanto, e que é o que tem a ver com este post, é esse:

“O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?”

Essa eu posso responder, e nem preciso mencionar os problemas que, além da lógica e da decência, o sujeito tem com a ortografia: porque quando o cristianismo não era banalizado destruiu as culturas ocidentais. Porque perseguiu, calou e assassinou milhões de pessoas, de Justiniano massacrando 30 mil pessoas no Hipódromo e fechando a Academia de Platão, passando pelo massacre de Sabra e Chatila e chegando às explosões periódicas de clínicas de aborto nos EUA – sem esquecer, claro, de São Tomás de Torquemada e sua Santa Inquisição. É preciso porque, em nome de sua fé, o cristianismo extinguiu civilizações inteiras no Novo Mundo e persegue, até hoje, os adeptos das religiões africanas e brasileiras.

Charb disse, uma vez, que o Islã não era sagrado para ele, que ele não lhe devia respeito. Ele estava certo. Então vamos todos acabar com as nossas imagens de Deus barbudinho na nuvem porque o judaísmo não permite representações do Bambambam? Não podemos dizer que Jesus é filho do Boto porque os cristãos se ofenderão? Se Maomé, Jesus ou Jeová são sagrados para eles, ótimo, eles que respeitem e estabeleçam as regras rígidas que quiserem para os seus fiéis. Mas não se pode exigir que os outros sigam os mesmos padrões.

Paradoxalmente, em um mundo cada vez mais multicultural, é apenas o direito à irreverência em relação às outras religiões que garante o direito ao exercício da sua. O contrário é o totalitarismo que vimos durante o auge do domínio católico e vemos hoje no mundo islâmico.

Por isso, uma das maiores conquistas das sociedades ocidentais foi garantir o direito de expressão. O direito a falar o que você pensa, sem medo de ser morto por isso. Esse direito dá a você a responsabilidade pelo que fala, e só a você. À sociedade, reserva os mecanismos sociais para tornar o seu discurso irrelevante. (O Sergio Leo deu o link para um artigo instigante de David Brooks no New York Times sobre o tema: “I am not Charlie Hebdo”.)

É o exercício desse direito que possibilita, por exemplo, que neo-nazistas saiam hoje em passeatas pelas ruas. Sempre conhecemos a ideologia nazista, e pelo menos há 70 anos já sabemos do que são capazes. Cabe à sociedade combater suas ideias: mas não é calando-os que vamos conseguir isso. É justamente permitir que eles marchem com suas suásticas ridículas e suas ideias canalhas que nos faz melhores que eles.

Acima de tudo, e essa é a verdadeira questão, é muito fácil defender o direito de expressão daqueles que não incomodam, daqueles que só expressam aquilo que já ouvi chamar de “as ideias certas”. Isso não é defesa de um direito, é a defesa pura e simples de um interesse individual: é aquilo que você mesmo defenderia. Não há nenhum mérito nisso. Você defende a si mesmo.

É muito fácil, por exemplo, defender a liberdade de expressão usando uma tirinha mediocremente chata como aquela do Armandinho. Bons sentimentos não são alvo de pressão, não são vítimas de censura. Todo mundo gosta do bonitinho ou do conformista. Ninguém censurou, por exemplo, os elogios à ditadura militar brasileira ou ao regime de Pinochet. No mundo desses fundamentalistas fanáticos, ninguém mata alguém por dizer Allāhu Akbar.

Difícil é defender o direito do outro falar aquilo que nos desagrada. Como disse um biógrafo de Voltaire, numa frase erroneamente atribuída ao seu biografado, “estou em desacordo com cada uma de suas palavras, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. Esse é o verdadeiro desafio.

É bizarra a ideia de que alguém admita viver em um mundo em que há temas em que não pode falar — não porque não ache que deva, mas porque não permitem. É por isso que o verdadeiro desafio sempre esteve em garantir à Charlie o direito de fazer humor como quer. Agressivo, sim. Ofensivo, se necessário. É nisso que consiste o direito de expressão, e em mais nada. E é triste ver que parte da sociedade brasileira falhou diante desse desafio.

Normalmente eu não diria que sou Charlie. Porque não vejo graça em muitas de suas piadas – para mim pecado maior que a eventual ofensa — e, sim, considero algumas delas ofensivas e desnecessárias para o meu gosto. Mas hoje ser Charlie quer dizer, acima de tudo, respeitar e defender o seu direito de publicá-las. Diz respeito a tomar uma posição clara em relação ao direito de expressão, reafirmá-lo como um direito universal inalienável. Hoje, relativizar a morte dos cartunistas da Charlie, culpá-los pelo seu destino, é dar alguma razão àqueles que os mataram, é dizer sim a esse tipo de violência.

E por isso eu sou, sim, Charlie.

Sobre as eleições de 2014

Agora que acabaram-se as eleições, e Dilma continua presidente, o que mais me impressiona é lembrar que durante quase um ano vi aqui e em outros lugares uma série de análises políticas que, no fim das contas, leram mal a sociedade brasileira.

Vi, e vejo ainda, o pessoal reclamando dos retrocessos do governo Dilma, o mimimi de classe média dando lugar a um niilismo pretensamente esclarecido e com um discurso erroneamente politizado, e que não passa muito de uma certa negação elitista da política que se alastra entre a classe média e a elite cultural deste país.

Vi o pessoal repetindo as diversas variações do discurso da mudança, da demonização absoluta do governo Dilma. Aparentemente, parte da elite intelectual que me cerca via Dilma Rousseff como uma ditadora de extrema direita, capacho de Silas Malafaia. Se um inca venusiano desavisado caísse na minha timeline, acharia que Dilma era a sucessora dileta de Médici. Mais que isso, viria os ecos dos delírios que acompanharam as manifestações de junho de 2013: a de que “o gigante acordou”, a de que o Brasil queria uma mudança urgente, de que havia uma nova geração que pedia avanços mais radicais que Dilma com sua obediência cega à realpolitik era incapaz de realizar.

Mas agora que as eleições acabaram uma coisa ficou bem clara, e me impressiona que as pessoas não falem nisso: no fim das contas a tão antecipada mudança, se viesse, viria pela direita. Não seria Luciana Genro a próxima presidente: seria Aécio Neves. Aécio, do PSDB. É, aquele partido que, deslocado do centro pelo PT, se assemelha cada vez mais à UDN. Essa foi a mudança que mais de 48% da população brasileira quis.

Eu não tenho a mínima pretensão de entender o que foram as manifestações de junho e como está se processando a evolução política do país. Nada do que li me pareceu explicar direito o que foi aquilo — e a votação assustadora do Aécio me parece contradizer a maior parte do que foi escrito, porque o povo brasileiro afinal de contas não achava que mudar e avançar eram sinônimos. Mas desse processo de pouco mais de um ano, o que ficou foi a certeza de que o pessoal que comenta no FB se descolou completamente da realidade. De que eles não conseguem reconhecer a diversidade das forças sociais e de como se dá a disputa por espaço dentro do Estado em um regime democrático. E aderindo em massa ao voto nulo, parecem brincar na base do “se não é como eu quero, então não quero mais brincar”, e o que é pior: do “é melhor sofrer um governo do PSDB do que garantir conquistas importantes, ainda que isso signifique compactuar com esses criminosos nazistas petistas e peemedebistas e pepistas e pessedistas.”

Por isso tenho orgulho de ter votado em Dilma Rousseff, no primeiro e no segundo turnos. Porque desde o início me recusei a colocar em risco algo que me parecia importante: a continuidade de um projeto que, se imperfeito, ainda assim é melhor do que as alternativas concretas postas na mesa.

Até entendo e poderia justificar os votos na Luciana Genro, por exemplo, no primeiro turno. Não votaria nela, por mais agradável aos meus ouvidos que seja o seu discurso e sua firmeza inquestionável de propósitos. Não votaria porque eleição para mim não é brincadeira; mas também porque no fim das contas sua posição é a mais confortável possível. Ela pode ter o discurso que quiser (assim como aquele valentão de subúrbio que atende pelo vulgo de Levy Fidelix) porque sabe que não será obrigada a negociar com as diversas forças da sociedade — forças que fazem de Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano representantes do povo tão legítimos quanto Jean Wyllys (ou mais: Bolsonaro teve cerca de três vezes mais votos que Wyllys. E se em 2014 Jean decuplicou sua votação em relação a 2010, Marco Feliciano dobrou a sua, e ainda teve mais do dobro dos votos do seu nêmesis. Ou seja: por menos que a gente goste, o povo brasileiro gosta mais de Marco Feliciano do que de Jean Wyllys, e sua voz também precisa ser ouvida. Se você não gosta disso, vamos falar sobre armas e células e guerrilha. Eu topo).

Por menos que gostemos, qualquer governo vai fatalmente ter que negociar. É claro que é possível avançar mais — e eu me juntaria ao coro daqueles que dizem que o Governo Dilma foi tímido, que poderia ter avançado mais, até que deu uma guinada para a direita. Acontece que hoje a disputa não era entre esse projeto e um mais progressista, como o de Luciana Genro: era entre esse, que bem ou mal ainda representa avanços e realizou, sim, a maior revolução social da história deste país, e um que significaria um dos maiores retrocessos que esse país poderia atravessar.

Numa disputa acirrada como foi essa, na minha humílima opinião a abstenção significa tão somente um ato de covardia e colocar o país em um risco imensurável. E talvez por isso, uma das coisas que mais me impressionaram positivamente foi perceber que, entre a classe média que não se rendeu ao canto alcaloide dos tucanos, a maior parte dos votos em Dilma não era de pessoas com interesses diretos no governo — com benesses, cargos ou quetais que queriam preservar. Além do voto legítimo do pobre ou nova classe média que hoje come e compra calça jeans, muitos dos que votaram em Dilma fizeram isso para preservar benefícios que melhoraram as vidas dos outros, como o Bolsa Família.

O mais engraçado é que algumas vezes tive um tiquinho de vontade que Aécio se elegesse. Primeiro porque seria justamente essa classe média que votou nele, e que se beneficiou imensamente com os governos Lula e Dilma, a sua primeira vítima – conquistas como o Bolsa Família, por serem lei, seriam mais difíceis de derrubar. E depois porque aí eu retomaria este blog apenas para poder escrever posts de oposição.

É sempre fácil ser oposição. É a posição mais cômoda, porque você precisa apenas apontar o que está errado — e em um regime democrático nada está totalmente certo. Você pode ter os mais puros ideais, não precisará firmar compromissos nem entender que política é sempre negociação, mesmo na Coréia do Norte. É muito bom ser vestal, porque seu discurso será sempre correto, porque ninguém poderá lhe questionar. É a satisfação ilusória da pureza inexistente.

Infelizmente, avanços como os dos últimos 12 anos não foram feitos com esse tipo de postura. Foram feitos colocando a mão na massa, com compromissos, negociações, negaceios e guinadas. Com idas e vindas — muitos dos quais pouco recomendáveis, mas necessários. Isso é política. Só para lembrar, Luciana Genro, Eymael, Eduardo Jorge e Rui Costa Pimenta teriam que fazer isso, se eleitos.

Por isso essa decepção com a minha timeline. Por ver que tanta gente foi incapaz de entender — ou, se entendeu, dar as costas assim mesmo — que no segundo turno o que estava em jogo não eram os ideais mais altos da política como se entende nos bares em torno das universidades, mas a possibilidade concreta de uma série de avanços sociais e econômicos sofrerem um retrocesso importante. Essa é a grande característica de eleições revogatórias como essa pela qual passamos.

Política é isso. Alguém disse que era a arte do possível, e estava muito próximo da verdade. Essa parte da esquerda que vejo cá no Facebook parece ter esquecido isso, entrado num loop infinito das opiniões dos pequenos guetos que se retroalimentam e validam suas escolhas. É uma pena.

Mas que se dane. São oito da noite, eu já bebi quase duas garrafas de vinho e Dilma ganhou. Acho que tive um papel pequenininho nessa vitória. E isso para mim é o bastante.

Eu tenho as piores amigas do mundo

Rafael:
O que foi?

Amiga:
Vou fazer os exames primeiro

Rafael:
Ixe. É sério?

Amiga:
Eu acho

Rafael:
??

Amiga:
Mas n quero me preocupar antes, vou fazer os exames

Amiga:
Depois penso….n quero ficar paranoica mais do q já sou

Rafael:
Ei, tu vai morrer?

Amiga:
Todo mundo vai um dia, e c certeza eu TB um dia

Rafael:
Porque se você for, lembre de pagar a porra do meu jantar antes.

Amiga:
.l.

Amiga:
>:

Amiga:
N vou mais pagar

Amiga:
Ta desfeito

Rafael:
Caloteira!

Rafael:
Tava aí procurando desculpa!

Rafael:
É capaz de morrer pra não pagar a porra do jantar!

Amiga:
Morro feliz se n pagar

Rafael:
Você devia ter vergonha.

João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro era proibido de entrar lá em casa.

Não seus livros, que esses sempre tiveram trânsito livre; até livros ruins podiam entrar lá, e entravam de vez em quando, um livro do João Ubaldo seria recebido com festas, até. Proibido de entrar era ele, mesmo.

João Ubaldo era uma dessas coincidências curiosas que nos cercam de vez em quando: alguém que tinha algum tipo de ligação com dois ramos completamente independentes da família.

Não é todo mundo que sabe, mas ele morou um bom tempo em Aracaju. Morou ali, na rua Cedro, entre a Campo do Brito e a praça Tobias Barreto.

Minha avó era madrinha de seu irmão, Manoel. Os Galvão gostavam muito deles, e a recíproca era verdadeira.

Seu Manoel Ribeiro, seu pai, era ligado ao PSD. Acabou tendo que sair às pressas de Sergipe aso ser ameaçado de morte por membros da UDN — e minha avó até o fim da vida nominava os “canalhas” que fizeram isso. Seu Manoel morreu de forma boba anos depois, escorregando e batendo a cabeça num meio-fio; mas nunca mais voltaria a Sergipe. Acho que boa parte da  raiva de minha avó em relação a tudo o que cheirasse a UDN vinha daí.

Anos mais tarde João Ubaldo conheceu meu pai no Jornal da Bahia. Depois, quando soube que ele era casado com a neta de dona Sinhá, que ele tinha conhecido na adolescência, passou a lhe dizer que tinha trocado as fraldas de minha mãe.

Dizia isso numa mesa de bar, porque nelas ele era rei. Era dessas pessoas que, nessas mesas — e há outro lugar no mundo? —, monopolizava as atenções, é o que me dizem. Quando começava a falar, com seu vozeirão e uma inteligência rara, todos paravam para escutar. (Enquanto escrevo isso lembro de outro sujeito que também era assim e que se foi recentemente: seu nome era Marcelo Déda.)

Mas João Ubaldo não era meu escritor preferido. É óbvio que é difícil não reconhecer a genialidade de um livro como “Viva o Povo Brasileiro”, e o “Diário do Farol” ajuda a fazer dele talvez o mais legítimo sucessor — sem ser imitador — de Jorge Amado, mas minhas preferências andaram por outros becos. Olhando para trás, vejo que li tão pouca coisa dele. Acho que o que mais gosto de João Ubaldo é uma carta aberta que ele destinou a Fernando Henrique Cardoso, então recém-reeleito à presidência da República. Merece o meu respeito e veneração qualquer pessoa que escreva a um presidente em seu momento mais glorioso e lhe diga isso:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Só por isso, por essa desfaçatez, por esse esnobismo, João Ubaldo Ribeiro é também meu herói. Mas não foi por isso que ele inspirou um dos melhores personagens de Henfil — Ubaldo, o Neurótico. Na verdade, foi pela mesma razão pela qual o meu pai o proibiu de entrar lá em casa:

“Você foi passar um fim de semana na casa de Henfil e quando foi embora levou junto a Berê. Pois na minha casa você não coloca os pés.”

E só por isso, tanto quanto seus livros, tanto quando as crônicas, João Ubaldo Ribeiro vai fazer muita falta.

Nomes

Nadia Lippi, Carlos Zara, Ney Sant’Anna, Laerte Morrone, Claudio Corrêa e Castro, Gilberto Martinho, Yara Côrtes, Paulo Figueiredo, Armando Bogus, Sura Berditchevsky, Lady Francisco, Zilka Salaberry, Jacira Sampaio, Julio César, Rosana Garcia, Nestor de Montemar, Rosita Thomaz Lopes, Denise Dumont, Roberto Faissal, Chica Xavier, Maria Claudia, Claudio Marzo, Eloiza Mafalda, Neuza Amaral, Lucia Alves, Silvia Salgado, Rosamaria Murtinho, Felipe Carone, Renata Fronzi, Reinaldo Gonzaga, Cleyde Blota, Myrian Pires, Miriam Persia, Solange Theodoro, Suzana Faini, Monah Delacy, Angelina Muniz, Paulo Guarnieri, Heraldo Galvão, Nivea Maria, Thais de Andrade, João Paulo Adour, Sonia Regina, Ruth de Souza, Mario Cardoso, Lauro Corona, Norma Blum, Glauce Graieb, Oswaldo Loureiro, Isis Koschdoski, Élida L’Astorina, Heloísa Millet, Fabio Massimo, Celia Biar, Castro Gonzaga, Milton Moraes, Suely Franco, Adriano Reys, Roberto Pirilo, Priscila Camargo, Djenane Machado, Marcelo Picchi, Arthur Costa Filho, Elza Gomes, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Fátima Freire, Ana Ariel, Mauricio do Valle, Eduardo Tornaghi, Karin Rodrigues, José Augusto Branco, Luiz Armando Queiroz, Eva Todor, Maria Fernanda, Beatriz Segall, Dionísio Azevedo, Carlos Kroeber, Ivan Candido, Dina Sfat, Lidia Brondi, Jonas Mello, Joana Fonn, Perry Salles, Lucia Alves, Átila Iório, Tereza Raquel, Fernando Torres, Claudio Cavalcanti, Alcione Mazzeo, Sueli Franco, Tereza Sodré, Lucélia Santos, Reginaldo Faria, Mauro Mendonça, Angela Leal, José Lewgoy, Tonia Carrero, Raul Cortez, Carlos Eduardo Dolabella, Tamara Taxman.