Do obscurantismo

Um padre de uma paróquia importante de Aracaju foi afastado por esses dias.

Motivo simples, embora não oficial: sua namorada estava em estado adiantado de gravidez.

Triste Igreja, essa, que não dá sequer uma simples licença-paternidade para seus padres.

Cemitérios

Quase todo dia eu passo em frente a um cemitério.

O cemitério se chama São João Batista — toda cidade que conheço tem um cemitério chamado São João Batista, e até hoje eu não soube a razão. Talvez porque São João batizasse gente, desse um recomeço à vida em Cristo, como se morte fosse recomeço de alguma coisa. É um cemitério da Prefeitura e a grande maioria de seus inquilinos é de ex-gente pobre cujas famílias não têm jazigos perpétuos no Cemitério Santa Isabel ou não podem comprar um pedacinho de chão no Colina da Saudade, cemitério particular nos moldes anglo-saxões que não enfeia a vista com os pequenos edifícios mortuários e suas imagens de santos, anjos e cruzes.

Parece ser voz corrente, entre gente que se preocupa com os tempos em que não existirá mais, uma preferência cada vez mais clara por covas em cemitérios desse tipo, com plaquinhas discretas no chão em vez de tumbas pretensamente imponentes e mausoléus; mais elegantes, dizem eles. Eu, que tenho dúvidas de que vou morrer algum dia mas que, se esse dia improvável vier, já adianto que podem fazer o que quiserem do que sobrar deste portento da raça humana, peço vênia para discordar.

Dos mortos em cemitérios tipo Colina da Saudade não ficam os testemunhos da sua importância em seu tempo, importância que algumas décadas ou mesmo uns poucos anos se encarregam de apagar. Ali não há mausoléus ou imagens de santos e da Virgem Maria; desses mortos mais ricos fica apenas uma plaquinha no chão, que custou tanto mais caro quanto mais alto foi o lugar do seu último descanso. Os cemitérios católicos, ao contrário, são monumentos duradouros à estupidez e à vaidade humanas, e é isso que faz a sua graça e o seu interesse.

Mães tresloucadas de dor que deixam testemunhos psicóticos nos túmulos de suas filhas; herdeiros orgulhosos e felizes com o dinheiro que lhes coube mantendo as aparências de amor e devoção ao finado; nulidades em vida que apenas ocupam o lugar reservado no mausoléu familiar; esse é o condomínio diverso oferecido pelos cemitérios católicos tradicionais, em que cada requietório pode acender o interesse por uma história já perdida.

E há ainda a sub-arte mortuária esquisita, estátuas de mármore e bronze de anjos e santas, detalhes arquitetônicos delirantes em granito, fotos de moças feias que morreram cedo demais impressas em louça e já se apagando.

Cemitério por cemitério eu prefiro os católicos, em seu mau gosto mórbido.

Mas o cemitério em frente ao qual passo quase todo dia não tem isso, ou melhor, tem muito pouco. O São João Batista é cemitério de pobre e ali as gavetas e carneiras se espalham por onde podem. Depois de alguns anos as gavetas serão limpas e os ossos que não forem reclamados irão para uma cova comum. Mas agora, enquanto o tempo não passa e o defunto ainda não começou a feder nem a se decompor fazendo a alegria de um Augusto dos Anjos, um enterro é o retrato da dor de uns poucos, da solidariedade de alguns e do respeito às convenções pela maioria.

Hoje em dia enterros são cerimônias para relativamente poucas pessoas. O mundo já descobriu que é mais simples, mais rápido e menos angustiante passar pelo velório, ver alguns conhecidos, dar um abraço no parente do morto que chora ao pé de seu caixão e então ir embora, cuidar da vida, que o finado agora não tem mais que se preocupar com isso e vai lhe perdoar se você não lhe dá mais atenção do que é necessário. Ao enterro acabam indo apenas as pessoas mais próximas, se não é defunto famoso ou de morte trágica demais.

A essa altura, tendo passado diante deles por tantas vezes, já dá para ter uma idéia aproximada dos defuntos trancados no caixão. Basta olhar para as pessoas que esperam que ele seja tirado do carro fúnebre.

Diante do São João Batista a maior parte das pessoas usa roupas simples e às vezes gastas. Uns poucos apenas trazem a elegância convencional dos óculos escuros, que deveriam servir para esconder as lágrimas mas normalmente apenas disfarçam o incômodo que é estar ali, àquela hora.

Hoje mesmo, agora há pouco, o carro funerário estava na porta. Manhã de sol, ponto final adequado para um velório que deve ter varado à noite, e eu imagino pessoas sentadas diante do caixão, outras conversando em grupos espalhados pela capela — já não se vela mortos em casa, não depois que a morte passou a ser um serviço a ser vendido como outro qualquer –, alguns rindo de uma piada contada por alguém, outros rindo de nervoso, a maioria contando as horas para poder retomar os afazeres de cada dia, o rapaz percebendo que a prima em segundo grau que ele não via há alguns anos cresceu e desabrochou e se tornou uma moça de peitos protuberantes, é bom aproveitar a hora para retomar o contato. Pode ter sido assim o velório; mas agora, debaixo do sol quente, o caixão estava sozinho na mala aberta do carro da funerária, enquanto as pessoas por perto pareciam ocupadas com outros afazeres.

Uma vez, muito tempo atrás, alguém me disse que a morte é triste não para quem vai, mas para quem fica. A visão do caixão solitário sob o sol, enquanto as pessoas se escondiam embaixo da sombra dos oitizeiros, me deixa com a impressão de que não, de que ruim mesmo é para quem perde a brincadeira aqui, que as pessoas retomam suas vidas e seguem adiante.

Talvez um indício dessa opinião que vai se formando em mim seja a impressão de que o progresso e o aumento do recato fizeram com que não se veja mais tantos vexames em enterros. Não é mais tão comum mulheres se desmanchando em choro e se jogando no caixão do marido ou do pai, gritando que querem ir junto com ele, que agora suas vidas não têm mais sentido, mulheres salvas por amigos mais conscienciosos do grande vexame que seria ter que sair correndo da cova assim que o primeiro punhado de terra caísse sobre suas cabeças. E assim se torna menos dolorosa a sua passagem para o período posterior ao luto conveniente, aquele em que a dureza da vida a obriga a voltar a olhar em frente, e outro senhor bem-apessoado surja diante dela e a faça lembrar que ela ainda continua viva, e bem viva, e a carne queima sob o preto do luto.

A maior parte dos espectadores vem nos ônibus fornecidos pelas funerárias; e o enterro se transforma em uma espécie de excursão da CVC. Mas pode ser mais curioso ainda, e dia desses o carro funerário era seguido por uma pequena multidão a pé, o falecido devia morar ali perto e a família achou que não valia a pena pagar pelo ônibus. Triste procissão aquela, quase beatos seguindo atrás de um Zenone dentro do caixão, tudo tão triste e melancólico que dava vontade de rir.

Mas há outras tristezas, também. Foi diante do São João Batista que vi o enterro mais pungente em toda a minha vida. Não havia multidão, grande ou pequena, porque o morto não tinha ainda muitos amigos. Havia apenas um pai e um amigo, talvez um irmão, descendo de um táxi carregando um pequeno caixão branco nos braços. Só eles, mais ninguém. E sozinhos entraram pelo portão do São João Batista.

Pautas um pouquinho diferentes

Acabei de descobrir que existe uma revista chamada “O Empreiteiro”. Mais impressionante que a sua existência, até agora ignorada por mim — como de resto tantas coisas entre o céu e a terra, muito mais do que supõe a minha vã filosofia — é o fato de ela já ter 46 anos. Não é uma marca que qualquer revista consiga atingir.

Na verdade eu não devia ficar surpreso. Há um mundo de revistas de circulação dirigida, que são veículos publicitários mais eficientes que boa parte da mídia de massa, pelo menos para alguns nichos. Sempre existiram, e eu lembro de algumas em agências de propaganda. Além disso costumam ser a garantia de uns trocados a mais no bolso de jornalistas. Mais de um jornalista famoso tirou — e tira — um bom dinheiro editando revistas do tipo.

E eu fiquei imaginando a pauta da revista. Não a pauta real, porque essa é claramente uma revista séria e competente, abordando assuntos sérios e que realmente interessam à área, e isso pode ser visto apenas com um passar de olhos pelas suas matérias. Mas aquela que a gente gostaria de ver em qualquer revista:

“A luta pelos 10%”

“O limite de responsabilidade no corte do custo de fundações e estrutura”

“Por que vale a pena o asfalto mais fino que as especificações”

“Putas: saiba quando e como oferecer”

“A delicada questão de como agradar técnicos e engenheiros”

“Deu nos jornais. E agora? — Um manual de sobrevivência a denúncias”

“O lobista, esse desconhecido”

“Deputados: guia de compras e manutenção”

Sabe, eu acho que não daria um bom jornalista.

D. João VI e a desinvenção do Brasil

O menino cabeçudo está quietinho no banco da praça em frente à sua casa, roendo uma asa de galinha enquanto balança as perninhas cheias de feridas. De repente o valentão da rua se aproxima e tenta tomar as suas asinhas. O menino corre e se abriga dentro da casa da mãe. Da janela, seguro, fica dando língua para o valentão.

Se esse menino se chamasse D. João VI, o Alex diria que ao correr para casa ele foi um estrategista brilhante.

Em defesa do Alex pode-se dizer que essa é uma imagem um pouco menos injusta que a demolição sistemática empreendida por alguns historiadores e que, mais recentemente, filmes como “Carlota Joaquina” solidificaram. A imagem de D. João como um verdadeiro líder não é uma idéia mais deletéria que a do bufão cheio de cracas na perna se empanturrando de asas de galinha, certamente. Mas também não é verdadeira.

D. João VI não era um líder, nunca foi. Se não era o incompetente absoluto pintado pelas caricaturas, era indeciso, relutante, conservador e covarde. Parte até razoável da elite intelectual e política de Portugal advogava a transferência do centro do império para o Brasil, reconhecido desde havia muito como o sustentáculo de Portugal em praticamente todos os sentidos, mas D. João não era muito simpático à idéia. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, por exemplo, enchia o saco de D. João com a defesa dessa transferência desde pelo menos 1791.

O que o Alex chama de estratégia brilhante e ousada foi, na verdade, o último recurso de um governante fraco e indeciso, metido involuntariamente em uma sinuca de bico. De um lado a França no seu quintal, já pulando a cerca. Do outro a Inglaterra, com a mais poderosa Marinha de sua época incomodamente localizada entre ele e seu cofre, que costumamos chamar de Brasil. Seu cálculo foi simples e lógico: entre perder Portugal para os franceses e perder o Brasil para os ingleses, Portugal que se danasse. O Brasil sem Portugal poderia ser alguma coisa; Portugal sem o Brasil estaria condenado a ser um refém pobre de Napoleão, um peão útil apenas no seu jogo geopolítico de dominação continental. Portugal era o Piauí da Europa, pouco mais que um entreposto comercial, um atravessador dos produtos gerados no que tinha restado do seu império.

Vir para o Brasil, algo que teria sido uma estratégia brilhante e revolucionária até uns poucos anos antes se parte de um projeto maior e consequente, a mais perfeita subversão da ordem política mundial, naquela hora era apenas desespero, a última alternativa factível para uma dinastia fraca e desmoralizada; e é bom lembrar que D. João demorou em excesso até escolher entre duas soluções que lhe eram apresentadas. O amor devotado ao Brasil é uma construção histórica posterior. Seu cálculo era político, não emocional. A única coisa emocional aí deve ter sido a reação do povo português, que acordou num dia frio de novembro e viu que na calada da noite seu rei tinha catado a prataria de Queluz, embarcado seus amigos ricos e deixado o povaréu nas mãos de Junot.

Mas o maior exagero do Alex sobre esse momento histórico, na verdade, está num post anterior sobre o ano de 1815 como a “criação do Brasil”. Ali o Alex chega a dizer que, depois da instalação da família real, o Brasil provavelmente tinha mais regalias que Portugal — mas esquece de lembrar das remessas de ouro e açúcar, etc., e que fora a presença da família real na Quinta da Boa Vista o Brasil se mantinha como colônia, no esquema descentralizado construído meio século antes pelo Marquês de Pombal.

Apesar do que o Alex sugere, o alçamento do Brasil à condição de “par de Portugal” em 1815 não é propriamente a sua invenção; não passa de mais uma iniciativa de manutenção do status quo da colônia. O que ele chama de “construção de uma nação moderna” é na verdade a realização do projeto de manutenção de uma estrutura antiga e arcaica. Portugal não poderia transformar o Brasil em um país moderno — em um momento em que os Estados Unidos, por exemplo, já realizavam uma das mais fantásticas experiências de governo na história — porque ele mesmo era um exemplo de atraso e incompetência. 300 anos depois de protagonizar uma das maiores aventuras da humanidade, a exploração atlântica, Portugal era pouco mais que um país arcaico e decadente. A vinda de D. João reforçou essas características portuguesas no Brasil. Um trechinho de “História do Brasil com Empreendedores”, de Jorge Caldeira:

Na virada do século XIX, a economia brasileira era, possivelmente, a maior das Américas — de qualquer forma, de tamanho comparável àquela dos Estados Unidos. Na virada do século XX, tratava-se de uma economia 15 vezes menor que do país do norte.

O mito da importância do Reino Unido deveria cair quando lembramos que o tal Algarve não é mais que o sul do Portugal continental. O que D. João estava fazendo ali era angariar para si capital político diante da ascensão — tardia, por sinal — da burguesia portuguesa. Estava fazendo como o dono de uma holding que divide suas empresas em unidades autônomas para ter mais controle e flexibibilidade diante dos cobradores. Em outras palavras, tentava garantir diante das cortes um certo grau de liberdade e mobilidade, mais um elemento no jogo de poder que a família real portuguesa, uma das mais arcaicas da Europa em seu tempo, estava perdendo em ritmo avançado.

No fim das contas, a invenção do Brasil, se é que se pode utilizar um termo desse tipo para definir um processo histórico, foi sendo feita aos poucos e aos trancos, em movimentos como a Guerra dos Mascates, a Revolta dos Alfaiates ou a Inconfidência Mineira. Evaldo Cabral de Mello, por exemplo, sugere como marco fundamental da nação brasileira a Batalha dos Guararapes, quase 200 anos antes, e ele não deixa de ter um ponto interessante aí — o negro Henrique Dias, o índio Felipe Camarão e o branco Vidal de Negreiros juntos combatendo, em nome de uma mesma identidade e já uma noção de pátria, o invasor holandês. O mesmo Evaldo Cabral discordaria completamente quando visse o Alex falar do “crescimento exponencial do Brasil” durante o período 1808-1821, e lembraria que esse crescimento se deu apenas no Rio de Janeiro; ele apontaria que faltava a D. João um projeto nacional.

Claro que, com boa vontade, pode-se até forçar a barra e dizer que D. João inventou mesmo um Brasil — mas ainda assim seria um Brasil muito pior do que as aspirações do povo que àquela altura se considerava, definitivamente, brasileiro. D. João apenas atropelou um longo processo de formação nacional. Mais que isso, condenou o país ao atraso: D. Pedro I representava o conservadorismo diante das cortes portuguesas.

Foi esse modelo que a vinda de D. João, se não implantou, consolidou no Brasil. A chegada da família real ao Brasil tem consequências nefastas e extremamente duradouras, e não é à toa que o Rio de Janeiro é, até hoje, uma cidade extremamente corrupta, em que as idéias do jeitinho, da proximidade do poder subvertem e minam como em talvez nenhuma outra cidade brasileira as noções de democracia e de republicanismo. E isso não é modernidade.

Livros, novamente

Sinceramente, não sei onde o André Kenji viu “viés elitista” no clube de “amantes do livro de papel”, aquele de que, para fazer parte, você só precisa comprar um livro num sebo por quaisquer um ou dois reais. Superioridade, ele que me desculpe, tem é quem pode dar não sei quantas centenas de dólares num simples intermediário.

É o seguinte: você compra um negocinho de 259 dólares, lá nos EUA. Não são os livros ainda — esses você vai comprar depois. Isso é só para que você possa se habilitar a comprá-los. É mais ou menos como se, para comprar um livro, eu tivesse antes que comprar o papel, a tinta e a cola.

Com esse dinheiro, na mesma Amazon, eu posso comprar cerca de 30 livros ultrapassados de papel. E nós é que somos “a elite esnobe”? Então tá.

O Kenji poderia ter pelo menos feito as contas antes de dizer que a preferência por livros de papel é preconceito de elite. Na verdade, mania de elite é pular dentro do mais novo gizmo, por caro que seja, e tentar alinhavar argumentos favoráveis à toa, dizendo que é isso o futuro; elite é quem gosta de ser a primeira em tudo. E de ser diferente das gentes comuns. É o senso de pertencer a uma noção de elite que faz as pessoas comprarem os primeiros celulares, os primeiros notebooks, os primeiros blu-ray players, e sair do Orkut quando a favela coloca sua cadeirinha de praia por lá. Foi essa elite que comprou laser discs, e foi enterrada junto com eles. Nada contra: sào elas que ajudam a baratear os custos para quem vem depois.

No seu comentário aqui no blog, ele disse que “bibliotecas são um pesadelo para bibliófilos”. É uma pequena contradição em termos, e acredito que ele tenha querido dizer “bibliotecários”, porque falar isso dos pobres bibliófilos é como dizer que descer corredeiras perigosas são um pesadelo para rafters, ou que escalar o Everest é um pesadelo para alpinistas. O Kenji não sabe, mas aqueles a que ele se refere como “bibliófilos de verdade”, como o José Mindlin, são capazes de dar milhares de reais em um livros que, em outra edição, não custam mais de 15, e de alugar apartamentos exclusivamente para isso. Definitivamente, esse não é um mundo que o Kenji entenda. Como eu não entendo aquele em que as pessoas correm feito mariposas em direção à luz normalmente efêmera da mais nova novidade.

Eu, que estou longe do nível de obsessão de um Mindlin mas que gosto de livros e de um certo acúmulo deles, não entendo quando o Kenji diz que “manter uma biblioteca minimamente organizada costuma ser uma tarefa de leão (logo, todo bom leitor vê um livro eletrônico com bons olhos por motivos puramente práticos). Organizar uma biblioteca com cerca de 1.500 volumes, que é a capacidade do Kindle, pode até tomar algum tempo, que não passa de um dia; mantê-la organizada, não.

Mais que isso, é um prazer: pergunte à minha mulher como fiquei ao receber em casa uma edição especial de crônicas do Rubem Braga ilustradas pelo Millôr, dia desses. O problema de bibliotecas é o espaço que ocupam. Só esse.

No fim das contas, a falha do argumento do Kenji é que ele transporta a discussão para a comparação entre os suportes e faz excessivos juízos de valor sobre isso. E nisso, o Sergio Leo e o Millôr, no link do Marcus, já me parecem ter dado a palavra final.

O fm disse que jogou um livro na piscina e ele se desintegrou, empatando o jogo. Mas ele poderia ter feito diferente: jogado um balde d’água no livro e um no Kindle, e visto qual se recuperava melhor. 3×2. Ou melhor, 4×2, se ele resolver jogá-los do sétimo andar, como lembrou o Joãogi. Eu já tive computador e vários livros molhados. Os livros ainda estão aqui. (A propósito, também tive muitos discos molhados, uma vez. Perdi as capas, que grudaram umas nas outras, e isso me dói até hoje; mas o vinil continua. Se fosse o HD onde guardo minhas MP3, eu perderia absolutamente tudo.)

Dentro dos argumentos pró-livro, tem um que as pessoas esqueceram. Em casa eu tenho disquetes de 5 1/4″, mini-discs, Zip Disks, fitas VHS, Betacam e MiniDV. São todas mídias com menos de 15 anos. Dessas, só consigo abrir com facilidade as fitas MiniDV — mas está cada vez mais difícil achar onde tocá-las: elas estão caminhando para a extinção, o mesmo caminho que será trilhado por aqueles discos das XDCam que as estão substituindo.

Mas esses argumentos falam do suporte. O problema na verdade é mais grave. Tente abrir um arquivo do Word de 1992 — isso se você tinha a sorte de usar o Word naquela época, e não outro programa como o Carta Certa ou o Write do Windows. Meu computador está cheio de formatos superados, e o ritmo de obsolescência de formatos às vezes até dominantes chega a parecer absurdo. Formatos de vídeo, de áudio, tudo isso aparece e some com rapidez excessiva.

Um livro publicado em 1789 é lido da mesma forma hoje.

A principal vantagem do Kindle é a portabilidade, mas mesmo isso é razoavelmente ilusório. A idéia de que com um negocinho que pesa umas poucas centenas de gramas você pode levar milhares de livros para cima e para baixo é uma bobagem, pouco mais que argumento básico de equipe de vendas. Por ninguém sai carregando 20 livros para cima e para baixo, pela simples razão de que não vai ler tudo isso. Quando carregam, levam apenas o que estão lendo. É como o sujeito que compra um iPhone porque ele manda e-mail, tem GPS, câmera e filmadora, acessa internet e tem joguinho de cerveja, e termina usando só para falar, mesmo. (Alguns casos são piores: meu Blackberry não tem e-mail habilitado porque tenho medo de terminar como um amigo, de férias em Natal e respondendo e-mail de trabalho.)

E portabilidade para quê, mesmo? No dia a dia, você carrega um livro, e olhe lá (e alguém aí pretende abrir o seu Kindle brilhando de novo no metrô enquanto vai de casa para o trabalho? Pretende mesmo? Tem medo não?). Se você está viajando, a última coisa que pretende levar são livros; no máximo alguns guias de viagem. Ainda estou esperando conhecer quem vá para Paris levando as edições completas da “Comédia Humana” na mala — sei lá por que razão, talvez para descobrir onde fica a pensão de Mamãe Vauquer. Se você conhece alguém que tenha feito algo parecido, eu posso indicar alguns endereços de Centros de Assistência Psico-Social. São do SUS, são gratuitos e funcionam bem.

Em outras situações a portabilidade é uma vantagem real do Kindle, mas apenas em condições específicas. Se você está acampando, por exemplo, seu Kindle durará umas poucas horas até a bateria acabar. Provavelmente não vai dar para ler “O Homem Sem Qualidades”. Já a edição de papel dura enquanto houver luz e você tiver paciência.

No fim das contas, o Kindle será útil mesmo para quem lê o seu livro em casa, como qualquer pessoa, e não quer gastar espaço com estantes. É um argumento válido, mas que está bem longe dessas maravilhas apregoadas, e acaba reduzindo bastante a aplicação real dessa pequena maravilha.

Eu, como sou um velhinho com cabelos mais brancos a cada dia, ainda prefiro meus livrinhos: velhos, baratos, ultrapassados — mas confiáveis, resistentes e, além de tudo, uma delícia para os olhos.

Elvis, 75 anos

Tantas homenagens a Elvis no dia do seu aniversário, tantas informações verdadeiras ou exageradas, e uma informaçãozinha básica ficou faltando.

Elvis Presley morreu cagando.

De livros novos e livros velhos

Li com atenção o post do Alex sobre o Kindle. Cheguei à conclusão de que até que poderia me adaptar àquele trequinho com cara de lousa mágica sem problemas. Me orgulho de mim mesmo por estar tão moderno, por conseguir ver nele todas as vantagens que apregoam, como a portabilidade, a praticidade, isso e aquilo. Cáspite. Quem diria.

Mas eu gosto mesmo é de livro, essa coisa anacrônica e superada de papel e tinta e papelão.

É talvez um problema de geração; eu faço parte da última que cresceu sem alternativas consistentes ao livro. Esses eram os objetos em que se adquiria conhecimento sólido, de verdade, uma coisa superior à informação efêmera e circunstancial de revistas, TV ou rádio; talvez essa veneração do livro se devesse em pequena parte ao fato de eu viver em um país de analfabetos, não sei. O que eu sei é que mesmo algumas décadas antes, quando os grandes romances eram publicados primeiro como folhetins em jornais — por gente boa como Machado de Assis e Balzac –, era no livro que a obra alcançava sua realização plena. O objeto tem um simbolismo muito maior que o conhecimento que ele encerra.

A aquisição de informação não é o único prazer que um livro oferece. Há um completamente diferente e independente: o prazer de tocar, de sentir e de ter.

Como eu já disse aqui antes, gosto de saber que tenho uma primeira edição disso e daquilo. Valor objetivo? Quase nenhum. Na verdade, absolutamente nenhum: não é algo que esteja à venda. É algo meio intangível, na verdade, porque são coisas que compro barato e que são retiradas de mercado. A graça nesses livros é justamente o fato eu tê-los; isso não é exatamente bom capitalismo. Gosto também de ter uma edição bem cuidada de algum livro; e para quem quer entender um pouco dessa relação que se cria com um amontoado de folhas de papel eu recomendaria um livrinho bobo, um policial de John Dunning chamado “Impressões e Provas” que explica direito a loucura a que se pode chegar por causa desses gostos estranhos. Meu caso, felizmente, é muito menos grave.

Mas ainda assim é um caso razoavelmente sério. Dia desses, depois de ler o último livro de Rubem Fonseca, “O Seminarista” — um dos pontos baixos em sua carreira, ruim como poucos outros, pior até que “O Doente Molière” e sobre o qual me abstenho de fazer comentário, em nome de um certo pudor e uma gratidão e admiração profundas aos bons livros de Rubem Fonseca –, parei para olhar a capa e a tipologia usada. Ele mudou de editora, foi para a Agir depois de mais de 20 anos na Companhia das Letras. Pelo que pude ver, está reeditando todos os seus livros, como fez na editora antiga.

As novas capas são feias, são medíocres e uniformes. Me fizeram ter saudade das capas de Helio de Almeida na editora anterior, um artista brilhante capaz de belezuras como as de “Lucia McCartney”, “A Coleira do Cão” e “Romance Negro”.

E tem a tipologia. Se a Garamond Light dos livros de Fonseca na Companhia das Letras já estava cansando, e os tempos e o computador estão dando oportunidade a uma espécie de renascimento tipográfico, ainda é um tipo de elegância suprema e imbatível. O novo tipo usado em “O Seminarista”, Minion Pro, é adequado e eficiente, mas é apenas mais um, como as Fairfield e Electra que estão na moda; não tem a graça leve da antiga.

É esse tipo de coisa isso que e-books e e-readers como o Kindle não me oferecem, essas dimensões a mais, ainda que supérfluas. Não é nada fundamental ou imprescindível. Mas eu sempre acreditei que a medida do humano é o supérfluo, que é o desnecessário que faz a cereja no bolo da vida.

Um bom livro lhe dá o prazer da leitura, e satisfaz o seu tato, o seu olfato — e-books não envelhecem, não é? Você não vai sentindo o cheiro mudar com o tempo, não sente o e-book adquirindo aos poucos o cheiro do resto de seus livros. E é uma maravilha, uma dessas dignas de aparecer nos programas da Discovery ou da National Geographic, que eles ainda por cima sirvam para transmitir conhecimento.

O Doido e o blog

Umas semanas atrás eu subi o rio que passa aqui em frente, passei pela boca do Pomonga, do Rio do Sal, do Parnamarim, e depois de atravessar um lugar onde o Cotinguiba e e o Sergipe se encontram e se espalham — um lugar que chamam de Doido e que não costuma ser frequentado por velejadores apesar da beleza absurda do lugar — entrei pelo Cotinguiba até uma prainha no meio do mangue que é um pequeno paraíso.

Chamam o lugar de Doido porque os ventos enlouquecem ali, ventos rondados e em rajadas, e as correntes ficam loucas também, e como se não bastasse quando a maré enche a loucura aumenta ainda mais, dizem que ali já virou até lancha. Normalmente dá para ver uma rajada de vento chegando por causa das ondulações da água, mas no Doido isso é impossível, porque o vento vem de todas as direções, todo o tempo, e se não chega a ser impossível não é muito agradável velejar ali.

Mas no verão ruim mesmo é a volta, no contravento, uma sucessão de bordos curtos com ventos imprevisíveis, uma briga constante para equilibrar o barco e um leme pesado, quase revoltado.

Foi durante a volta, uma proximidade excessiva da margem, um gybe dado sem a devida atenção, uma rajada de vento imprevista, e o barco virou. Pior, o mastro atolou na lama, e não conseguimos desatolá-lo. Uns pescadores que passaram e arrastaram o barco nos pouparam do vexame de ligar para a Capitania dos Portos para nos ajudar. O resultado foi um boné de que Oxum deve ter gostado e decidiu levar, uma bolina empenada pelo esforço infrutífero de desvirar o danado, uma buja rasgada e um mastro e uma grande que pingavam lama por todo o barco — triste figura aquela, uma bagaceira emporcalhada descendo o rio Sergipe, balançando por causa da bolina empenada e adernando aqui e ali quando não deveria adernar.

E assim que guardamos o barco e tiramos o mastro e gastamos metade da água de Aracaju para tirar a lama, a única coisa em que pensávamos era que não víamos a hora de voltar para o Doido. Porque como dizem aqui remédio para doido é outro na porta, e os Galvão nunca foram mesmo muito certos da cabeça, e não é um lugarzinho vagabundo de meio de rio que vai me virar de novo. E se virar eu vou continuar voltando, até a hora em que vento e rio desistam e admitam que a única solução é conviver comigo como conviveriam com um maluco inofensivo criado na casa vizinha.

Isso foi há quase um mês. E de lá para cá eu ainda não tive tempo de voltar para o rio, as semanas se sucedem sem intervalo e sem tempo disponível, e se eu não faço aquilo que eu queria fazer imagine o que acontece com o blog.

Eu tenho a impressão de que um dia Deus e o Diabo se encontraram, e Deus entendiado e coçando o saco divino não tinha o que falar para o Coisa Ruim e disse observaste tu a meu servo Rafael? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, vagabundo íntegro e reto, temente a Deus na sua rede, e que se desvia do mal desde que isso não lhe dê muito trabalho, e o Diabo disse estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face, que esse Diabo é um danado que sabe mesmo das coisas, e Deus deixou o Diabo fazer o que quisesse comigo, e o Diabo disse vou fazer esse baiano preguiçoso arrenegar o dia em que nasceu, e me pôs a trabalhar como se eu merecesse tamanha sina tão triste, e eu que queria ir ao cinema não vou, e eu que devo umas cervejas ao Ricardo não vou, e eu que queria tanto vir a este blog não venho, e tudo fica por isso mesmo, mais ou menos como os livros que se empilham na estante e eu ainda não tive tempo de ler, mas que eu insisto em comprar assim mesmo porque no fundo eu devo ser um masoquisa que gosta de ser assombrado por fantasmas de lombadas virgens, e um dia eu sei que vou acordar no meio da noite ainda sonhando que estou diante de um coelho branco e gritando oh dear, oh dear, I shall be late.

Tudo isso é para dizer que falta tempo, falta tempo e falta saco, e o blog tem ficado abandonado mas é assim mesmo, e a gente aprende a conviver com a culpa do trabalho não feito até o dia em que mete uma bala no ouvido e desiste de vez desse negócio, como acabou de fazer o Nelson, mas ele prometeu ressuscitar ao fim do terceiro dia. A gente fica esperando que as coisas um dia melhorem, e enquanto isso eu desejo um feliz Natal e um próspero Ano Novo para todo mundo.

As alegrias que o Google me dá (XL)

porque michael jackson não conseguia dormir?
Consciência pesada. Aqueles garotinhos insistiam em voltar aos seus sonhos.

que caminhos a religiao no aponta
Depende da religião. A católica aponta o caminho do inferno. A evangélica, o caminho do caixa rápido e do governo do Distrito Federal. O candomblé, o caminho do terreiro. O budismo, o caminho da vida fácil e desculpada.

como os homens enxergam a bundas flacidas
Com um esgar e um movimento involuntário de contração do estômago?

caderno dda mulher que fala sobre sexo
Ontem eu encontrei o João e a gente começou a se pegar no carro, aí eu vi uma moça passando com uma sacola de supermercado e lembrei que hoje é dia de promoção no Extra, a alface está a cinqüenta centavos, e o João começou a pegar nos meus peitos e, quando um gemido escapou de meus lábios, pensei que ontem eu tinha feito as unhas, que bom que eu tinha feito as unhas, do que eu estava falando mesmo?, ah, do João, você viu o capítulo da novela ontem?, que coisa, e aí o João levantou minha blusa, onde foi que eu deixei as chaves do carro, você viu?

quantos anos demora para garrafa de frido se decompor
Mais anos do que você passou na escola, pelo menos.

buceta inome
Tão lindinho, meu Deus. O menino de dois anos e meio, mas já intuindo as coisas boas e belas da vida, em sua caixa de areia no parquinho em frente à sua casa, arregala os olhos e fala para o amiguinho, com aquela expressão meiga que só as crianças podem ter: “Guileme, a Malia tinha uma boceta inome!”

meu marido bravo quero uma sempatia deixar ele bobo
Não precisa. Ele já é. Afinal ele casou com você, não casou?

o que é buceta
É uma coisa que você nunca viu e, se continuar assim, nunca vai ver.

movimentos com a mão que cresce o penis de graça
Existe uma que talvez ainda te dê uma chance. Mas é preciso um pouco de concentração e de prática. Espalme sua mão direita. Espalme sua mão esquerda. Agora junte as duas. Abaixe a cabeça e reze. Dizem que com fé a gente consegue o impossível.

nao tolero falta de atençao
Desculpe, o que você disse mesmo?

mim mostra o que é monografia ja acabada?
Mostro, mas você não prefere que antes eu indique um bom livro de gramática, não? Porque rezam os bons costumes que antes de concluir a faculdade a gente tem que passar pelo primário primeiro.

simpatia para o menino corre atras da garota
Ah, por favor. Eu já disse tantas vezes isso por aqui. Precisa de simpatia não, sua burra. Basta abrir as pernas. É por isso que as coisas não estão dando certo para você. Você insiste em não enxergar o óbvio.

opinião sobre o defunto eça de queiroz
A minha é a de que ele era um defunto bem bonitinho, com um cheiro agradável mas meio enjoativo de incenso e de cravo-de-defunto. Acho também que o fato com que o gajo foi enterrado era de muito bom gosto.

jose quero que saiba que nao sou uma mulher quer faz sexo virtual com qualquer
…com qualquer um. Eu me respeito, José. Eu só faço sexo virtual com um homem que conheci na net: ele é bonito, solteiro, 40 anos, é empresário e alto executivo de uma multinacional. Ele vive viajando, por isso tem épocas em que some. Mas ele é um homem com H maiúsculo, até me mandou uma foto em que parece um modelo internacional, ele é lindo de morrer.

eu quero ver meninas de rua sendo sacaneadas
Porque isso lhe lembra a sua mãe.

fotos de homens famosos extremamente nús gratís
Mas que diabo é um homem extremamente nu? Eu sei o que é um homem nu e um homem vestido, mas não sabia que existe um meio termo para isso, muito menos um superlativo. Um homem extremamente nu deve ser um homem escalpelado.

como se tornar corno
Talvez eu esteja errado e sendo muito injusto, mas algo me diz que basta continuar sendo você mesmo.

em se tratando de bunda qual é a maior e melhor?
É a que você come. Porque a gente deve amar o que tem.

Para o mano Caetano

Tem coisas que a gente não espera ver nunca na vida, Caetano.

Não me refiro à sua agressão gratuita ao presidente Lula, porque já cheguei à conclusão de que quando você não tem o que dizer, diz alguma coisa assim mesmo, uma besteira qualquer, para ver se as pessoas não esquecem de você.

Mas eu não esperava que a própria dona Canô viesse lhe dar um esporro público. E não esperava ver a elegância com que o homem que você chamou de grosseiro e cafona reagiu diante disso, e com um gesto simples, um telefonema de nada, colocou as coisas em seu devido lugar e mostrou quem é grosseiro e quem é realmente elegante.

Eu não consigo lembrar de alguma ocasião na política brasileira em que um presidente tão atacado do ponto de vista pessoal — não por você, que cá entre nós suas opiniões políticas não são lá muito dignas de crédito ou atenção, mas por uma imprensa especializada em mentira e em se aproveitar de declarações infelizes de bobos alegres — tenha sido capaz de um gesto de tanta classe, e ao mesmo tempo tão simples.

É isso que você chama de cafonice, Caetano? Um homem que, mesmo agredido, consola a mãe do agressor? É isso que você chama de cafonice e grosseria?

O mais engraçado em tudo isso é que para você o Lula é analfabeto, mas o casca-grossa, o grosseiro e ignorante em toda essa história foi você. Agrediu um homem desnecessariamente, e em vez de conseguir a polêmica que queria apenas deu a ele a oportunidade de ser magnânimo e generoso. Você disse que o Lula não sabe falar; mas me parece que enquanto da boca do presidente saíram palavras de conforto e acima de tudo elegantes, da sua — um intelectual reconhecido por muita gente, um senhor artista e cantor autor de livros publicados e filmes exibidos — saíram apenas bobagens repetidas, ditas com ódio injustificado: grosseiro, cafona, não sabe falar.

Onde você é grosseria e agressividade, o Lula foi elegância e delicadeza; e considerando que você perdeu uma grande oportunidade de ficar calado, ou de apenas declinar sua intenção de voto em Marina Silva, eu chego à conclusão de que você não é proveito, é pura fama. Sinto lhe informar algo que você já deve saber: nessa, Lula comeu o seu coração. Trincou, mordeu, mastigou, engoliu, mascou, moeu, triurou, deglutiu, comeu seu coraçãozinho de galinha num xinxim.

Eu não estou dizendo que seja muito fácil para você estar na posição em que está. Um de seus amigos, Gilberto Gil, foi ministro do presidente que você chama de analfabeto, e realizou um grande trabalho à frente da cultura brasileira. Sua mãe, uma tradição baiana de 102 anos, diz que gosta do presidente Lula e se sentiu incomodada com as suas palavras; e como coração de mãe é infinito tentou desculpar você chegando à essência da verdade: “Caetano é só um cantor”. Você ganha muito dinheiro apelando para leis de incentivo fiscal, as mesmas que enriqueceram a produtora de cinema de sua mulher. Poucos, como você, conseguiram aproveitar tão bem a onda de crescimento do país e o impulso que o governo Lula deu à cultura nacional. Por isso sou o primeiro a admitir que, sim, para você deve ser difícil adotar uma posição extremamente preconceituosa e elitista enquanto a realidade que lhe cerca lhe desmente a cada dia.

Você, eu sei, é fã de Fernando Henrique Cardoso. Quando o excelentíssimo senhor acadêmico era presidente, ele respondia às críticas de Chico Buarque ao modelo de país que implantava dizendo preferir você; e talvez seja esse incômodo diante da democracia e da convivência com um ponto de vista diferente que acabam aproximando vocês dois. Como duas comadres de maus bofes e mal amadas, vocês parecem fofocar entre si, conversinhas miúdas que não levam a nada

Fernando Henrique é aquele político brasileiro que faz filhos nas empregadas de casa e não os assume. O homem que o senhor venera e considera modelo para o país é o sujeito que esperava dona Ruth dormir para se esgueirar até o quarto da empregada, velho sátiro babão que se aproveitava de sua condição social; já o cafona grosseiro é aquele que ligou para sua mãe e disse umas duas palavrinhas de conforto, sabendo que ela ficou incomodada com as suas declarações bobas — bobas até para o padrão baixo que você tem seguido nos últimos anos; esse papo seu tá qualquer coisa, você já tá pra lá de Marrakesh.

Falei em dona Ruth e me lembrei que ela era uma muher admirável; talvez seja coincidência, mas as últimas notícias que vêm do excelentíssimo senhor sociólogo me dão a impressão de que com a morte de dona Ruth aquele senhor idoso perdeu o seu referencial moral; e não me refiro apenas às notícias de escapadelas senhoriais (que apenas me sugerem que ele sempre foi assim, escondido debaixo da capa da hipocrisia), mas ao teor de suas declarações, à sua disposição de se expor ao ridículo.

Caetano, acho que o seu problema é muito simples: você não consegue entender o novo. De certa maneira é triste ver que um sujeito a quem a cultura brasileira deve tanto, a quem a música pode olhar e dizer “eu sou filha ou neta dele”, tenha escolhido passar sua velhice dando sinais prematuros de caduquice. O tempo passou na janela e só Caetano não viu. Alguma coisa está fora da ordem, Caetano. E essa coisa é você.