Da tolerância

Queria saber quem foi o desgraçado que apareceu com essa ideia cretina de que temos que respeitar a crença dos outros.

Porque eu não tenho que respeitar a crença de ninguém. Tenho que respeitar o crente — ou nem isso, tenho que respeitar incondicionalmente o seu direito de acreditar no que quiser. E nada mais.

Você quer acreditar que é essa mixaria aí porque quando nasceu Júpiter estava em conjunção com Vênus, acredite. Júpiter era mesmo batuta e entrava em conjunção com Io, com Alcmena, com Ganimedes, com Antíope, com a mulher do padeiro e com uma cabrita do Quirinal desde o tempo em que ainda se raptava sabinas.

Quer acreditar em um Deus que é um e é três enquanto o padre passa o rodo nos coroinhas e mostra com quantos paus se faz uma hóstia, acredite.

Quer acreditar que o Deus que você inventou para criar um universo incompreensível em sua infinitude fica com raivinha de você se você não o adorar acima de todas as coisas, acredite.

Quer acreditar que, se você der o dízimo para o pastor, Jeová Deus vai lhe dar um Voyage 2018 e deixar as 60 prestações para você pagar, acredite

Quer acreditar que setenta virgens estarão lhe esperando depois que você se explodir num ônibus escolar, acredite.

Quer acreditar que Deus vai lhe jogar no pior círculo do inferno se você comer carne de porco, acredite.

Quer acreditar que Exu vai lhe ajudar a trazer a pessoa amada em sete dias se deixar um ebó na porta daquela vagabunda que o roubou de você, acredite.

Quer acreditar que a terra é plana — ou ainda melhor, oca com um sol interior no meio — acredite.

Quer acreditar que Jesus morreu na cruz por você, acredite.

Quer acreditar que ETs visitam este malfadado planeta para abduzir justamente os espécimes mais estúpidos ou picaretas da humanidade, acredite

Quer acreditar que oxiúros são os novos deuses, acredite, até porque ao menos oxiúros existem de verdade.

Acredite, e regale-se em sua crença. Junte-se aos seus pares e acreditem juntos. Porque você pode, e acredita no que quiser, é direito seu com ampla jurisprudência por aí, e essa é a grande maravilha do mundo, e ninguém pode tirar isso de você. Acredite. Essa é a nossa grande conquista como sociedade: acreditar na bobagem em que se quer.

Porque enquanto isso eu continuo acreditando que, se você acredita nessas coisas, você é um estúpido, meu filho.

Mais um original de Dylan e McCartney

Eu tenho um sonho.

Perguntaram a Paul McCartney quem era o único artista que o faria ficar inseguro, gaguejante, num encontro. A resposta foi simples.

“Dylan”.

Bob Dylan foi mais prolixo:

Eu sou deslumbrado por McCartney. Acho que ele é o único que me deixa pasmo. Ele é completo. E nunca deixa a bola cair. Ele tem o dom da melodia, tem o dom do ritmo, ele pode tocar qualquer instrumento. Ele pode gritar e berrar tão bem quanto qualquer um, e canta uma balada tão bem quanto qualquer outro. E suas melodias são tão naturais, é isso que impressiona… Ele é tão natural. Eu queria que ele parasse. Tudo o que sai de sua boca parece envolto em melodia.

Os dois maiores artistas da música pop ainda vivos são apenas elogios um para o outro — mais que isso, reconhecem nele alguém maior que eles mesmos. É isso. O meu sonho de consumo é um disco de Bob Dylan e Paul McCartney.

Ora, direis, grandes merdas. Todo mundo gostaria de um disco com as músicas de McCartney e as letras de Dylan.

Mas não, não. Não é isso. Bob Dylan e Paul McCartney têm mais em comum além do fato de terem perdido a voz anos atrás. No meu sonho, não é o Dylan letrista e o McCartney compositor que eu queria juntos. É o contrário.

As pessoas têm dificuldade em reconhecer em McCartney um grande letrista. Não no sentido mais óbvio, do sujeito que passa uma mensagem importante e significativa e quem sabe revolucionária em suas músicas, como Lennon sempre tentou e Dylan fez tanto e tanto. Mas uma canção não é um poema. A letra de uma canção precisa soar bem, precisa combinar e acompanhar a música, engrandecer a harmonia, e McCartney sempre teve uma capacidade sobrenatural de encaixar a letra na melodia, de dar uma musicalidade rara às palavras. Infelizmente, ele condescende excessivamente em fazer isso em detrimento do conteúdo, o que é uma pena. Mas se a música de McCartney sempre teve uma qualidade superior, quase sobrenatural em sua naturalidade que Dylan tanto admira, é também porque os sons vocais estão no lugar certo.

Depois de um período tenebroso nos anos 70 e 80 — o mundo deveria ter sido poupado de barbaridades como Saved, Shot of Love e Knocked Out Loaded, e mesmo Blood on the Tracks, me perdoem, não é tudo isso que dizem dele — Bob Dylan conseguiu se reequilibrar nos anos 90, para então se acomodar contente em álbuns musicalmente corretos mas nada ambiciosos. Ele não quer fazer um Sgt. Pepper’s, ou um OK Computer. Aparentemente, quer fazer a música de que gosta, sem grandes arroubos de invenção, e com uma elegância madura que não havia nos seus primeiros discos. Dylan se permitiu envelhecer sem traumas, fazendo o que gosta. Seus últimos álbuns têm sempre uma característica simples: a classe conservadora de quem sabe que é impossível errar com os blues ou standards que o fizeram querer sem músico em vez de um novo Holden Caulfield.

Por sua vez, depois de passar pelo mesmo período tenebroso que Dylan — devia ser algo na água dos anos 80 — McCartney continua até hoje buscando relevância e atualidade no mundo; o que mais faria alguém gravar um tecno-sei-lá-o-quê como Back in Brazil no Egypt Station de 2018? Neste momento, ele está escrevendo um musical, e sabe-se lá quando ou se lançará um novo álbum pop. Essa angústia criativa é admirável, mas muitas vezes o coloca em becos sem saída, e o que deveria soar moderno soa modernoso — vide o New, de 2013 —, exagerado, excessivo

É a combinação disso, a busca por relevância e invenção, mas também um senso de raiz, que seria possível em um encontro entre os dois. É perfeitamente possível imaginar McCartney e Dylan combinando duas personalidades musicais tão diferentes: o conservadorismo musical de Dylan e a eterna busca pela contemporaneidade de McCartney, um aparando os excessos do outro, enriquecendo o que o outro oferece: a tradição musical sólida que Dylan tanto valoriza equilibrando a necessidade do novo que McCartney busca, e vice-versa. Assim como seria fantástico ver letras que combinassem a musicalidade de McCartney e a profundidade lírica de que Dylan é capaz.

O rock — aquela música que meninos educados brancos tomaram dos negros e fizeram sua, e que ajudou a definir os caminhos do mundo por uns trinta anos, ou pouco mais — morreu há um bom tempo. É uma linguagem esgotada, e o seu sucessor mais próximo é o que hoje chamam calhordamente de R&B, música feita por computadores numa eterna e cada vez mais esmaecida reciclagem do que já foi feito mil vezes antes

Mas antes de falecer numa prateleira de saldos de CDs ele mudou o mundo como nenhuma música antes dele, e merecia um epitáfio à altura, e ninguém melhor para escrevê-lo dos que seus dois principais artífices, seus últimos gênios vivos.

Infelizmente, este é um sonho que nunca será realizado — esse e o de passar a Ava Gardner nos peitos. Porque são dois egos gigantescos, dois artistas perfeitamente cônscios de seu papel na história e, principalmente, do legado monumental que deixaram na cultura popular. Tenho a impressão de que ambos têm medo um do outro, por reconhecerem nele um artista superior, e têm a consciência do quão difícil seria o processo criativo entre eles. Do seu ponto de vista, provavelmente têm mais a perder do que ganhar com isso.

Mas não custa sonhar. Porque, sem sonhos, como envelhecer como Dylan e McCartney?

O ano em que morreu todo mundo

Todo mundo parece estar com a impressão de que 2022 foi um ano esquisito, em que morreu mais gente do que o costumeiro, descontando-se o ano da desgraça de 2020, aquele que conseguimos sobreviver a penas duríssimas.

Pois eu tenho uma boa e uma má notícia.

A boa é que não é impressão, não, você não está deprimido, mais mórbido, mais pessimista depois de passar por quatro anos de Bolsonaro com uma pandemia aterrorizante e interminável no meio: morreu mesmo mais gente em 2022.

Deixa eu explicar. Em 1987, li um artigo interessante no Meio & Mensagem — assinado pelo Walter Longo, acho. Era o tempo em que traduzir o que a mídia gringa escrevia era missão chique, porque não havia internet, nada dessas coisas, a informação demorava mais circular.

O artigo era sobre os baby boomers. Eles estavam chegando ao poder: chegavam aos 40, ocupavam posições de decisão nas empresas. Nos anos 60 eles tinham sido os protagonistas de um novo tempo, com protagonismo da juventude e uma mudança profunda nos costumes. Não lembro bem do artigo, mas não é insensato imaginar que se indagasse sobre as mudanças que essa geração iria trazer para o mundo dos negócios.

(Não trouxe nenhuma, claro. O capitalismo continuou avançando, os pobres continuaram pobres e os ricos continuaram enchendo o rabo de dinheiro.)

Não esqueço desse artigo porque eu sequer sabia o que eram baby boomers até aquele momento. Isso foi antes dessa fixação em definir gerações de consumo, X, Y, Z, Flicts: os baby boomers eram um fenômeno de base real, a explosão de nascimentos com que a natureza costuma repor os cadáveres acumulados durante as guerras e um momento singular na história humana.

Mas esse pessoal mandou em um mundo bem diferente daquele que o precedeu. As telecomunicações, e principalmente a internet, aproximaram as pessoas e fizeram com que mais gente se tornasse conhecido de todos, ao menos durante aqueles quinze minutos warholianos. A informação nunca tinha fluído de maneira tão intensa, e fomos mais próximos, de certa forma, de todas essas pessoas. Vivemos a maior parte de nossas vidas sabendo que elas existiam.

Por isso, quando uma Gal Costa morre, morre alguém que fez parte de nossas vidas durante tempo demais, mais tempo do que você tem pela frente. Eu não lembro de um mundo em que Jô Soares, rainha Elizabeth, Pelé, Erasmo Carlos, Godard, não existiam; era gente que já estava no horizonte antes mesmo de eu ser um brilho no olhar de alguém. Outros, como Gorbachev, exerceram um impacto no mundo grande demais para passar em branco.

São eles que estão morrendo agora, e é por isso que você notou. É a troca de guarda do mundo. É uma geração inteira chegando aos 80 anos, idade mais que justa para se bater as botas.

Essa é a boa notícia. Agora a má: é disso para pior.

A partir de agora, toda semana vai ser um tal de gente conhecida morrer. É ordem natural das coisas, simples assim. Os dias que acumulamos, ano após ano, vão cobrar sua conta. Além disso, há a dose normal de extemporâneos: aqueles que morrem cedo demais, como Michael Jackson, ou que extrapolam seu prazo de validade, como Olivia de Havilland.

Envelhecer é, também, ver a morte dos outros. Mas olhe o lado bom: houve um tempo em que você achou que o ano 2000 era algo muito distante e que estaríamos vestindo roupas prateadas e veraneando em Marte. E já passamos por um quinto dele.

Somtrês

O site Audiorama tem uma seção com quase todas as capas da revista Somtrês.

Gente com menos de 40 anos talvez nem saiba que revista foi essa, que circulou entre 1979 e 1989 — tanto tempo atrás, tão distante quanto os primórdios do século passado. Mas no começo dos anos 80 a informação era escassa, a diversidade de equipamentos era tão menor mas mais significativa do que hoje e formatos e mídias estavam em franca evolução, depois de alguns anos de estabilidade. Era nesse contexto que a Somtrês oferecia uma janela para um mundo diferente.

Passear pelas capas traz à memória um tempo em que as pessoas se preocupavam com equipamentos de som como hoje se preocupam com vinis empoeirados — embora com mais pertinência e utilidade real. Marcas como Cygnus, ou equipamentos como o Esotech, da Gradiente, aparentemente o mais perfeito à disposição do mercado brasileiro naqueles dias, são daquelas coisas que a memória enterrou, mas que se erguem do túmulo  à primeira menção. É o que basta para colocar essa coleção de capas em boa posição no campo gigantesco das curiosidades nostálgicas, mas ela é mais que isso.

Em 87 a Somtrês previa o “som futuro”, num momento em que o CD (que ela já anunciava em 1979) começava a se popularizar no Brasil: morte do LP, queda dos preços, fim do contrabando, AM estéreo, VHS x 8mm; agora que o futuro se tornou passado, tudo parece tão distante, tão fora deste mundo. Tanta coisa não se concretizou, tanta coisa já é passado, tanta coisa não parece mais fazer sentido.

Também fica claro que a bobagem sempre grassou impune entre o pessoal que gostava de música. Lembro de ler nela que os LPs brasileiros tinham péssima prensagem, que bons mesmos eram os japoneses e, acho, os americanos ou ingleses. Podia ser. Mas lembro também de ler, sei não onde, e dito por gente que se apresentava como séria, que os CDs brasileiros eram piores que os japoneses — absurdo anti-binário que precedeu em alguns anos o terraplanismo que hoje achata o nível geral da inteligência da humanidade. Mas no fundo talvez nada tenha mudado. Talvez esse seja o mesmo pessoal que hoje deifica discos de vinil, inventando desculpas para o seu elitismo, já que ter discos importados em tempos de globalização e MP3 e Spotify ou tape decks de rolo quando o som é digital não importa mais.

O que se revelou mais permanente na Somtrês, ao contrário do que seus editores originalmente pareciam acreditar, foi a música. O Jornal do Disco era, de longe, a sua melhor seção, e com o tempo assuntos musicais se tornaram o verdadeiro cerne da revista, já que gente que simplesmente gosta de ouvir música está por aí em maior número que audiófilos, vendedores e técnicos em eletrônica. Rapidamente, uma série de produtos derivou da revista, sendo ainda melhores: a Enciclopédia do Rock, revistas sobre Elvis, Beatles, Stones, posters para cada gosto — ainda tenho uma coleção de posters dos Beatles com resenhas sobre cada faixa de cada disco escritas pela Maria Emília Kubrusly, no verso. Logo no começo, havia até uma página dedicada aos Beatles, escrita pelo Marco Antônio Mallagoli.

Lembro de praticamente todas as capas entre 1984 e 1986. Mais que isso, lembro também de algumas de seus primeiros anos, porque a Editora Três costumava reembalar seu encalhe e o colocar novamente à venda periodicamente, e eu comprei várias delas. Olhando para elas agora, me chama a atenção a mistura de serviço e música que ela tentava oferecer, e fico com a impressão de que ela era talvez meio confusa, tentando atingir públicos muito diferentes entre si.

A Somtrês foi morta pelo futuro que anunciava. Não conseguiu embarcar na onda que o Rock in Rio deflagrou no país, popularizando o rock além do eixo Rio-São Paulo. Contou também com um auxílio da Bizz, revista da editora Abril mais adequada ao público jovem — mais moderna, menos honesta, mais provinciana em seu pretenso internacionalismo, em uma editora maior — que arrebanhou boa parte da sua equipe. Seu surgimento em julho de 1985 significou a sentença de morte da revista da Editora Três, que se tornou automaticamente velha. A Bizz, em sua grandeza e canalhice, merece um post só para ela. Mas olhando agora as capas da Somtrês, congeladas em tinta e papel, tudo nela recendendo a um passado cada vez mais distante, inclusive o que para ela ainda era futuro, é impossível deixar de lembrar a sua importância.

O próximo presidente não pode ser do PT

Quatro anos de escuridão, de um mal-estar sem precedentes na história política brasileira; um presidente que envergonhou o país como nenhum antes dele, seguido por hordas de bandidos e de imbecilizados agressivos e cheios de ódio: dia 30 de outubro o Brasil pulou uma fogueira.

A eleição de Lula devolveu ao país a perspectiva de normalidade e de sensatez. Lula se prepara para realizar um governo de transição e reconstrução, e seus movimentos até agora têm sido, de modo geral, de acerto. Longe das frentes de quartéis, onde pequenos grupos de zumbis apatetados repetem há semanas a liturgia de uma seita dedicada ao Grande Pneu  Patriota do Caminhão Sagrado e esperam o arrebatamento pelo Imbroxável da Facada Mágica, o país respira aliviado.

Mas o resultado das eleições é menos róseo do que parece.

Cientistas políticos em pânico fizeram uma avaliação estranha e apocalíptica do cenário, logo que saiu o resultado do primeiro turno. Denunciaram o fascismo como se fosse novidade, como se o autoritarismo não tivesse sido sempre uma franja às vezes mais, às vezes menos visível da sociedade brasileira, como se não tivéssemos passado pelo integralismo, pela TFP, por uma sequência de golpes de estado bem ou malsucedidos. Diante do aumento da bancada do PL no Congresso, falaram em crescimento do bolsonarismo e do fascismo. Bobagem até compreensível em quem passou quatro anos alternando-se entre a estupefação e o pânico. O que se viu não foi um crescimento ideológico: foi simplesmente a ação do dinheiro. O PL cresceu no parlamento não porque a sociedade brasileira se identificou ainda mais com um autoritarismo amalucado de verniz evangélica, mas porque comprou mais votos.

O bolsonarismo vai desaparecer tão rápido quanto surgiu, e isso podia ser dito antes mesmo das eleições. As últimas semanas apenas comprovam o que já se sabia: Bolsonaro não tem capacidade intelectual ou política para liderar os símios que marcham-soldado na frente de quartéis e pedem socorro a ETs. Seu lugar vai ser ocupado por gente mais pragmática, como o Tarcísio de Freitas e o Romeu Zema, dentro da normalidade democrática e sujeita às circunstâncias do jogo político.

O que não vai desaparecer é a extrema-direita que vem se consolidando a partir da reação aos governos do PT, um nível variável de polarização nacional e, principalmente, aquilo que levou a esse crescimento do centrão: a total degradação do sistema eleitoral brasileiro.

Esse é o verdadeiro problema que emerge destas eleições. O nosso é um sistema completamente falido, e não vai melhorar. O debate político brasileiro se restringe cada vez mais a umas poucas camadas da população e se dá quase exclusivamente nas redes sociais, mas principalmente sobre os cargos majoritários. Eleições proporcionais estão sempre em segundo plano. Pergunte às pessoas em quem votaram para vereador ou deputados em eleições passadas e a maior parte não se lembrará. E não é só o comum das gentes, os mais despolitizados: a maior parte votou em um amigo, no candidato de um amigo, em um número entregue na boca de urna. É um fenômeno que se espalha em todas as classes e em todos os espectros políticos.

Enquanto isso, os movimentos sociais perdem força e a descrença na possibilidade de transformação da sociedade pela política se espalha como metástase. O resultado é a ascensão do que antigamente chamavam baixo clero e que, como uma gosma alienígena de filme B dos anos 50, engole a política brasileira, reforçando o conservadorismo popular e surfando na onda evangélica — evangélicos que a tolerância, o respeito à diversidade, o medo e a pura e simples conveniência não deixam denunciar como o que são: a maior ameaça ao progresso do país.

Lula vai aprender a negociar com essa escumalha em termos, se não mais éticos, ao menos mais legais do que fez com o Mensalão, para evitar os erros dos governos anteriores. Mas a própria história do PT ajuda a levantar hipóteses sobre o que vai acontecer nos próximos anos.

Quando surgiu, em 1980, o PT representou um passo à frente na luta popular. Num cenário que tinha sido dominado nos 60 anos anteriores pelos partidos comunistas, ele colocava na mesa um projeto mais pragmático, menos radical, mais plural. Sua bandeira ainda era vermelha, mas em vez da foice e do martelo, trazia uma estrela. Não era comunista, não queria ver a jurupoca piar: era dos trabalhadores — e todo mundo é trabalhador, independente do sistema econômico. Para alguns ainda podia parecer radical, mas era um partido mais palatável do que os velhos dinossauros comunistas, porque nunca colocou em questão a troca do sistema político: era um partido reformista, no máximo, em que pesassem as correntes trotskistas que também se abrigaram sob o guarda-chuva estrelado.

Nos dez anos seguintes ele estabeleceu uma estratégia radical de crescimento, se recusando a fazer as alianças que os partidos marxistas-leninistas faziam a torto e a direito, construindo uma base ampla nos movimentos populares, como a CUT e mais tarde o MST. Construía sua identidade a cada greve, a cada eleição. Não demorou muito para conseguir eleger seus primeiros prefeitos — algumas terríveis, como Luiza Fontenele em Fortaleza, e outras muito boas, como Luiza Erundina em São Paulo.

Em novembro de 1989 Lula destronou Leonel Brizola como principal liderança nacional de esquerda, mas perdeu a eleição para Collor e o Muro de Berlim caiu, levando em efeito dominó as repúblicas populares do Leste Europeu e finalmente a própria União Soviética.

Diante de um quadro totalmente novo — um, maior e mais abrangente, era o fim da perspectiva do socialismo como sistema viável e desejável; o outro, a clara opção do eleitor brasileiro por uma proposta menos radical (e mais bonita e mais chique, também) — o PT fez o necessário para chegar à presidência. Expurgou seus trotskistas, abriu mão de grande parte do radicalismo em seu discurso, votou contra o parlamentarismo no referendo de 1993. Só não esperava a avalanche do Plano Real e teve que esperar até 2002.

Durante todo esse tempo, apostou no “nós contra eles”, na radicalização do embate e na delimitação de campos bem definidos.

Mas esse discurso de radicalização só é real, ou só faz sentido, quando há uma radicalização ideológica, o que nunca foi o caso do PT. E aí está um dos elementos mais importantes para que se entenda o país de hoje. O “nós contra eles” nunca foi estrutural, socialistas versus capitalistas: em vez disso, o PT sequestrou essa polarização para o campo moral. Ao longo de sua história, o PT se apresentou como o guardião ético de um capitalismo um pouco mais humano, levando inclusive à progressiva udenização de seus rivais, como o PSDB.

Essa imagem cobrou sua conta a partir do Mensalão, quando boa parte da classe média decretou independência do voto no PT, decepcionada ao ver que, naquilo em que o próprio partido tinha apregoado sua superioridade durante anos, ele parecia ser igual aos outros. O PT foi forçado a jogar no campo que escolheu e levou uma goleada injusta. Mais tarde, a aberração jurídica e política chamada de Lava Jato capitaneou uma das piores perseguições a um partido já vistas na história do país, mas encontrou nas práticas do PT terreno fértil e devidamente amplificado.

O resultado de tudo isso foi Bolsonaro. Que caia o pano da decência sobre esses últimos quatro anos sofridos pelo país. Chega. Já passou.

O que interessa é que o PT é hoje um partido de centro-esquerda, que perdeu ao menos parte do diferencial ético no qual apostou por décadas, com dificuldade para afirmar pautas reformistas e tendo que enfrentar a fragmentação de uma esquerda que não tem mais o referencial claro que o socialismo oferecia, e se dissolve cada vez mais em discussões identitárias, como baratas voando numa sala pequena demais. Há tempos, por diversas razões (como a evolução do capitalismo globalizado e a cooptação dos movimentos sociais, natural quando um partido de esquerda chega ao poder), vem perdendo a ligação orgânica com os movimentos sociais que tinha 30 anos atrás — há quanto tempo ninguém ouve falar na CUT, por exemplo? Onde anda o Sindipetro?—, e corre o risco de perder todo o capital de organização popular que acumulou em seus primeiros 20 anos. Sua militância ascendeu econômica e socialmente, a partir da ocupação necessária e legítima de espaços no Estado. Por mais que petistas ainda se vejam como superiores, o PT hoje é um partido como qualquer outro.

Com a colaboração inquestionável dos anos de obscurantismo e destruição do Leprechaun do Cercadinho, Lula foi eleito em 2022 sem um projeto de país, sem um plano de governo, sem ideias além da repetição daquilo que deu certo duas décadas atrás e a reconstrução de um país dividido e destroçado pela incompetência de Jair Bolsonaro. Nesse contexto, suas contradições passaram batido, ou quase, e o PT se elegeu sem apresentar propostas concretas. Mas não dá para disfarçar o fato de que, hoje, ele não oferece nada realmente novo — necessário, sim, mas nada que represente um passo à frente. Lula, um gênio político e um dos maiores presidentes que este país já teve, pouco abaixo de Vargas e Juscelino, não precisou apresentar ideias: bastou prometer consertos.

Vai ser muito difícil para o PT governar nos próximos quatro anos. Não pelos terroristas que ateiam fogo a carros em Brasília. Mas pelas imposições do próprio sistema político brasileiro corrompido e degenerado de maneira inédita, e pela necessidade imperativa de fazer um governo de transição, de reacomodação e recuperação do que o país perdeu nos últimos anos.

Por um lado, é uma tarefa relativamente fácil, porque uma árvore plantada em terra arrasado é um aumento de 100%; por outro, na prática pode impedir um avanço real em relação ao país que Lula deixou em 2010.

Problema maior, no entanto, é o Brasil que vai chegar a 2026.

Se tiver um pingo de responsabilidade, Lula não se candidatará à reeleição. E aí a cobra vai precisar fumar. O PT, sendo PT, provavelmente vai tentar arranjar em suas hostes o novo candidato. Porque não interessa o Mensalão, não interessa a Lava Jato, não interessam os governos de centro-esquerda que fizeram: petistas continuam se achanod os únicos depositários da verdade de esquerda. Essa postura hegemônica vem isolando progressivamente o PT ao longo dos anos, com defecções como as de Eduardo Campos e o próprio Ciro Gomes. Até agora, a liderança absoluta de Lula conseguiu minimizar isso; não deve ser o caso em 2026.

Mas há algo ainda mais grave. É a ideia do PT em si, o partido comunista bolivariano que vai enfiar uma mamadeira de piroca satânica e abortista goela abaixo dos filhos dos evangélicos deste país, que ajuda a unificar e engajar a multidão de imbecis do WhatsApp, a galvanizar uma oposição que pode não saber a que está se opondo, mas se opõe. A paranoia se espoja na ignorância: esse pessoal não consegue raciocinar, mas assim como acreditam no Deus que paga juros a quem dá o dízimo, têm a convicção de que o PT vai fazer o que nunca fez.

Em 2026, o PT precisará ter a grandeza histórica de entender exatamente onde está e dar o passo necessário para a consolidação da democracia brasileira. Se ao longo dos próximos quatro anos não conseguir criar uma liderança nacional realmente forte e absolutamente inquestionável, precisa deixar de ser a pedra de toque dos alucinados de extrema-direita, precisa entender que a democracia precisa de mais lideranças. E isso significa abrir espaço para outras forças. Em poucas palavras, ser democrático de verdade.

Como diziam os colunistas sociais nos tempos em que colunas sociais faziam sentido, a conferir.

Jô Soares

A reação nacional à morte de Jô Soares não podia ser diferente. Capa dos maiores jornais, elogios fartos à sua genialidade e à sua erudição. É assim mesmo, e é justo que seja; eu, que provavelmente serei lembrado com um suspiro de alívio, gostaria muito de ser lembrado assim.

Sempre tive dificuldade para julgar Jô Soares como humorista, porque ele foi contemporâneo de Chico Anysio, um gênio absoluto não apenas do humor, mas da própria televisão. É verdade que seus personagens e tipos eram extremamente populares, em muitos aspectos até mais que os de Chico Anysio. Captavam e traduziam bem o humor e o preconceito brasileiros, o gosto popular, e alguns de seus tipos, como o Capitão Gay, Rochinha, Padilha, o Exilado, o Reizinho, Bô Francineide e o “Muy Amigo”, são antológicos. Seus bordões ganhavam as ruas com facilidade invejável.

Mas em comparação, seu tipo de humor sempre me pareceu mais rasteiro, mais óbvio, mais pobre, mais efêmero. E o que talvez seja o problema mais grave, a persona de Jô Soares, quase sempre, se sobrepunha às de seus personagens, ao contrário dos de Chico Anysio, que desaparecia debaixo dos seus.

Jô Soares também teve a sensibilidade de ver o esgotamento daquele formato de humor oriundo do rádio e do teatro de revista, antes que qualquer outro — e por isso foi para o SBT, porque sabia que um tipo diferente era possível e valia a pena tentar. Novamente é tentadora a comparação com Chico Anysio, que continuou fazendo, com cada vez menos brilhantismo, o que sabia fazer como ninguém e terminou sua carreira fazendo ponta em um programa ruim como o Zorra Total.

Ao estrear, o programa de entrevistas do Jô Soares podia ser descrito como revolucionário para os padrões brasileiros, que não conhecia o Johnny Carson. No final dos anos 80, o Jô Soares Onze e Meia (ao menos em algum lugar do mundo, porque nunca era exibido no horário) foi uma febre e um sopro de inteligênciana TV brasileira. Seria imitado ad nauseam depois, mas ainda hoje é imbatível.

Não é à toa que um homem de tantos talentos — dramaturgo, escritor, compositor, diretor, roteirista, ator, sei lá mais o quê — parece ser lembrado principalmente por esse programa.

Jô Soares nunca foi “o melhor entrevistador brasileiro”, como andam dizendo porque na morte todos crescem uns dez centímetros. Longe disso. Muitas vezes falava tanto ou mais quanto seus convidados, e seu narcisismo e vaidade às vezes atrapalhavam. Alguns entrevistados eram chamados para serem humilhados, pelo pitoresco ou alguma excentricidade; outros, dependendo do seu grau de intimidade ou poder, eram injustamente louvados. Imagino que fosse essa a proposta do show: entreter, menos que informar. Antes de tudo, ele era um showman, e esse era o verdadeiro espírito do seu programa.

Mas mesmo antes de completar dez anos o Jô Soares Onze e Meia já estava se esgotando. Os melhores entrevistados já tinham passado por ali. O impacto que as suas entrevistas tinham na sociedade diminuiu. A coisa degringolou de vez, mesmo, quando Jô se transferiu para a Globo. Esgotado, em um horário ingrato, o programa praticamente se reduziu a um portfólio de releases dos artistas da Globo, entrevistados repetidas vezes mesmo quando não tinham nada a dizer. Nos seus últimos 15 anos, o Programa do Jô parecia um posfácio redundante a uma obra que, em seu contexto, tinha sido brilhante.

E com tudo isso, eu fiquei triste com a sua morte. Passei horas assistindo ao seu programa e dei gargalhadas sinceras, às vezes incontroláveis, até aprendi algumas coisas. Ele já tinha morrido antes, quando seu programa acabou, depois de claudicar por anos e anos; morreu antes mesmo que a TV aberta, que também vive uma longa agonia. Mas agora é definitivo. É uma era da TV brasileira que acaba definitivamente, um modo de fazer humor que se foi porque seu tempo passou. Não haverá mais artistas como ele, com a sua dimensão, com o seu impacto na sociedade. O século XX morre aos poucos, mas algumas dessas mortes são mais tristes, como a do Jô.

O que aconteceria se…

Oscars 2023.

Na plateia, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro.

Do palco, Danilo Gentili se dirige a eles.

“Dudu Bananinha, te vejo ano que vem em ‘Querida, Encolhi as Crianças’. E Carluxo, é verdade que tem o dedo e outras coisas do Léo Índio no fato de sua noiva lhe largar quase no altar?”

Revoltado com a piada com seus filhos, o ex-presidente Jair Bolsonaro se levanta, vai até Danilo e lhe dá um tapa na cara.

A internet quebra mais uma vez, em razão unânime a Bolsonaro.

Oscars 2022

King Richard eu ainda não vi.

West Side Story é, em absolutamente todos os aspectos, inferior ao original de Wise e Robbins. Talvez possa apreciar o filme quem não conhece ou não lembra do original de 1961, mas acho muito improvável. O que aquele tinha de moderno, inventivo, de grandioso e de arrebatador, este tem de medíocre e covarde, pasteurizado até mesmo em seu discurso. Os números de dança são poucos e pobres, preguiçosos, a música se atola em um limbo temporal que a impede de ser relevante. Aposto que até Baz Luhrman faria melhor. Só não é o pior entre os concorrentes do ano porque nem mesmo Spielberg conseguiria estragar totalmente material tão bom. (Mentira: é o pior, sim, e por isso abre a lista.)

Deve haver alguma razão para Licorice Pizza estar concorrendo ao Oscar, mas eu ainda não consegui descobrir qual é. Talvez apele para o corporativismo da Academia por ser inspirado nas memórias de um produtor, talvez o pedigree do diretor lhe possibilite dar uma carteirada digna de promotor de justiça. Não dá realmente para saber. Fora isso, é só um filminho que em seus melhores momentos apenas consegue parecer remotamente com os mais chinfrins de Cameron Crowe. Curiosamente, me lembrou um israelense antigo, cujo nome esqueço e não faço questão de lembrar, mas que tem Lollipop ou Popsicle no título, e o indefectível “O Último Americano Virgem”. Só não sei por quê.

Se não sei como Licorice Pizza está nessa disputa, sei como CODA entrou: pelas cotas, como Sound of Metal ano passado. É o maior amontoado de clichês que alguém vai ver nesta fornada, e mesmo que se tente, é impossível não saber o que vai acontecer na cena seguinte. Para agravar ainda mais as coisas, essa é uma refilmagem. Mas a verdade é que o filme tem qualidades: as atuações são muito boas, a direção é eficiente embora sem imaginação, arranca gargalhadas sinceras em um ou dois momentos e consegue engajar o espectador, que pode se identificar facilmente com a protagonista. Sian Heder tem o mérito de fazer um filme simples e extremamente agradável. E fez a opção sagaz de não legendar ou traduzir os diálogos em linguagem americana de sinais. Ou seja, tudo o que um bom filme de Sessão da Tarde faz.

Dune, de certa forma, é quase Star Wars feito da maneira certa, com roteiro escrito por um cidadão minimamente letrado e um leve molho de Game of Thrones. É um bom filme para o gênero, claramente pensado para ser trilogia (ou enealogia, se Deus der bom tempo), formalmente correto como os filmes de Villeneuve normalmente são. Filme bem razoável, não faz vergonha, mas nada de outro mundo.

Nightmare Alley é o filme em que eu votaria se fosse da Academia, mesmo sendo uma refilmagem, que num mundo ideal jamais deveria sequer concorrer. Não porque é o melhor, porque não é. Mas noirs e westerns ainda são meus gêneros preferidos, e este não nega a raça: um belo filme noir que consegue evocar toda a atmosfera de uma era sem parecer um pastiche, e ainda é melhor que o original por evitar o final conciliador.

Uma boa linhagem inglesa precede Belfast, que às vezes passa a impressão de ser o mesmo filme inglês de memórias que a gente vê de vez em quando sob nomes diferentes: Hope and Glory ou Still Lives, Distant Voices. Parecem todos saídos do mesmo útero. Mas que isso não pareça um demérito: é um filme excelente, forte, coeso, humano, e acerta ao narrar o mundo pelos olhos do menino Buddy, dando a tudo um tom onírico, irreal, a memória recriada. A fotografia é excelente, um filme com Judi Dench e Ciarán Hinds em bons papéis não pode ser ruim, e o uso da cor para indicar a importância do cinema e do teatro em um mundo que insistia em tentar ser preto e branco pode não ser o beta de Rumble Fish, mas funciona.

The Power of the Dog é um belíssimo filme. Denso, conduzido de maneira soberba, com atuações memoráveis, especialmente de Benedict Cumberbatch. E no entanto tem um final que diminui o filme, quase óbvio, absolutamente anticlimático. Toda a narrativa que se construía até ali prometia, quase implorava por uma complexidade que o final simplório não consegue entregar. E o filme desperdiça as chances de explorar a relação entre os dos protagonistas. Triste, isso.

Don’t Look Up é uma sátira deliciosa ao mundo americano em que vivemos, perceptiva, inteligente, sem deixar de ter no seu miolo o que move um filme desde quase sempre: a decadência e redenção do personagem de Leonardo DiCaprio (em atuação excelente, no ponto certo). É quase o Dr. Strangelove dos anos 2020. O mais curioso é que a trajetória do filme seguiu o mesmo roteiro que ironiza: gerou um burburinho imenso nos dias posteriores ao seu lançamento e agora ninguém mais fala nele, porque temos que seguir em frente, sempre, tem sempre um filme novo a ver, alguma besteira nova a falar. A única coisa realmente fraca no filme é a coda, mesmo engraçadinha — codas são, em 99,99% das vezes, desnecessárias.

Doraibu Mai Kā é surpreendente e de uma beleza estonteante, e supera todos os outros por mundos de distância. Uma teia intrincada de sentimentos admiravelmente bem tecida em sua relação com o tempo, dirigido de maneira singular e idiossincrática, é o melhor filme entre os concorrentes. E embora eu entenda que essa leva de filmes orientais se devem à busca de Hollywood por mercado, desta vez o filme selecionado realmente merece o Oscar que “Parasita” ganhou indevidamente. Devem fazer com ele o que fizeram com “Roma”, mas além de ganhar o Oscar de melhor estrangeiro ele ainda pode entrar para o Guiness como prólogo mais longo da história. E eu realmente não entendo por que traduziram por estas plagas botocudas o título japonês pelo inglês.

Quatro refilmagens concorrendo ao Oscar. Quatro. Isso deve significar alguma coisa, mas tenho medo de saber o que é.

Buddy Guy

Buddy Guy é o último bluesman. O último grande contemporâneo vivo de Muddy Waters, Howlin’ Wolf, John Lee Hooker, Willie Dixon, entre tantos outros artistas que fizeram parte do plantel da Chess Records, a gravadora que está para o blues de Chicago como a Verve e a Blue Note estão para o jazz e a Motown e a Stax para o soul.

Buddy Guy é também o meu primeiro bluesman; não o primeiro a ser ouvido, mas o primeiro de que lembro ter notícia ao ler sobre um show que ele veio fazer com Junior Wells no Brasil, no Maksoud Plaza, acho que em 1985.

Foi sobre ele um perfil que li há alguns dias, publicado pela New Yorker há alguns anos. A matéria se pergunta por que ele não teve o mesmo nível de reconhecimento que seus colegas tiveram, por que sempre foi visto como menor que os outros. E faz a conclusão óbvia, quase ditada pelo zeitgeist: o racismo atrapalhou a carreira de Buddy Guy.

Pronto. Temos aí a panaceia universal para todos os problemas enfrentados por qualquer artista que não tenha tido o que alguém acha que ele deveria ter.

Acontece que Buddy Guy é o último bluesman, mas há um detalhe importante que precisa ser levado em conta: ele era grande em um tempo em que gigantes caminhavam na Terra.

A mim Guy sempre soou, isoladamente, como um artista forte, porque era um músico excepcional em um gênero pelo qual sou apaixonado. Dentro do contexto em que estava inserido, no entanto, ele se torna menor. É um grande cantor e excelente guitarrista. O blues dele é correto. Está completamente dentro dos padrões da média, instalado com conforto em sua parte superior.

Mas se me perdoam a heresia, Buddy Guy quase soa branco para mim. Talvez seja o seu timbre de voz mais agudo, talvez sejam os arranjos; talvez seja a adequação a um modelo já estabelecido de sonoridade (rapaz, como ele gostava de metais…). O fato é que o blues que ele fazia nos anos 70 poderia muito bem ser feito pelo Led Zeppelin ou pelos Stones. E há uma convenção básica, criada e reforçada pela legião de artistas e fãs de blues, que há de ser respeitada ainda que aquele imbecil da Fundação Palmares murche as orelhas e zurre que é “racismo reverso”: branco não consegue cantar isso comme il faut.

Em nenhum momento Buddy Guy consegue transmitir a sensação de invenção que nos alumbra em Muddy Waters, ou o perigo inerente à voz de Howlin’ Wolf, ou a sensualidade das composições de Dixon, ou a verdade primitiva e quase animal de Hooker. É isso que falta a ele: aquela grandeza singular sentida imediatamente quando ouvimos algo realmente novo e genuinamente grande.

No entanto, para algumas pessoas é mais fácil apelar para o racismo, por mais absurdo e sem sentido que isso possa parecer.

Falta explicar por que só Buddy Guy foi vítima desse aspecto do racismo, escolhido a dedo entre tantos outros, e dentro de um ambiente exclusivamente negro. Por que não Dixon, cujo baixo parecia o vaivém de quadris e de cujas composições escorria uma safadeza lúbrica como o suor oleoso nas ruas da Bahia, atemorizando os moços brancos diante dos negros e suas “picas enormes e sacos que são granadas”, como cantaria depois o bardo brasileiro? Por que não Howlin’ Wolf, com aquela voz, aquele jeito de andar, aquele tamanho, negão imponente e ameaçador que qualquer um teria medo de encontrar em uma viela escura numa noite de lua minguante?

Guy deu a sorte de sobreviver a todos eles. Sempre esteve em seu lugar justo. Era grande e ocupou um lugar ao sol enquanto milhares de músicos aspirantes tiveram que se contentar em tocar em bares, às vezes um ou outro compacto gravado para fazer valer o seu sonho. Todos os dias, milhares de garotos pegam suas guitarras e tentam aprender algum riff seu, eventualmente tentam até cantar como ele. Buddy Guy conquistou isso porque alcançou o que a maior parte dos seus companheiros maiores não tiveram: longevidade. Foi vivendo mais que ele pôde se tornar um gigante de verdade, o último deles — porque agora a média de estatura é maixa, muito mais baixa, e Guy conquistou o direito de parecer maior do que realmente é.

E os últimos gigantes são sempre criaturas solitárias, e se tornam maiores que a vida, e por estarem sozinhos o seu fim se torna ainda mais épico. E o tempo o tornou maior ainda, porque quem fica é quem conta a história, e essa história a gente muda de acordo com os ventos de cada tempo.

A fome

Gilson arregala os olhos:

— Mas até cachorro?

— Ué, eu não teria problema nenhum. Eu não como porco?

— Mas, poxa, você não tem a ligação emocional que se tem com um cachorro. Você comeria o Fidel?

E eu lanço um olhar extremamente triste para o meu cachorro, ao meu lado.

— Depende da fome, Preto… Depende da fome…