Lágrimas na chuva

Eu vi o CEP passar de 5 para 8 números.

Vi os telefones passarem de 7 para 8 números.

Vi câmeras de 35mm substituídas pelas digitais e então começarem a desaparecer.

Vi os cinemas de rua desaparecendo um a um.

Vi o videocassete nascer para ser morto pelo DVD, e este pela internet.

Eu vi os orelhões de ficha darem lugar aos de cartão, e estou vendo estes morrendo.

Vi os cursos de datilografia florescerem, mas agora eles não existem mais.

Vi os jornais ganharem cor, e agora eles encaram seu fim.

Vi o vinil desaparecer ante o CD, e este superado pelo mp3.

Vi surgir o PC, para dar lugar ao notebook e então ao smartphone.

Eu vi as lâmpadas incandescentes substituídas pelas fluorescentes e estou vendo-as dar lugar às de LED.

Vi o celular surgir e passar de 7 para 8 números, e estou vendo passar para 9.

Eu vi surgir a TV em cores, e a TV por assinatura, e o YouTube e o Netflix destruindo-as aos poucos.

V i o fax nascer e morrer.

Vi as rádios FM surgirem, e vi a Noruega anunciar a sua morte.

Vi o bip dar lugar ao pager, e este dar lugar ao WhatsApp.

Eu vi coisas em que você não acreditaria. E todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Roy Batty, você não sabe de nada, inocente.

Alsace-Lorraine

É uma de minhas imagens mentais favoritas, e torço para que tenha sido verdadeira: sempre imaginei Hitler subindo a Champs-Élysées com olhar impassível mas o coração acelerado, desdenhando das expressões de choro e medo dos franceses que o viam desfilar. Eu o imagino descendo do carro no fim do bulevar, atravessando a Étoile pela rua, por cima, mãos para trás como sempre andava, e parando diante dessa placa. Primeiro olhou em volta e viu os nomes dos soldados, imaginando se no meio daqueles tantos sobrenomes alemães não havia o antepassado de algum conhecido seu, de um marechal talvez. Pensou em como tinha sido fácil chegar ali e como nada mais poderia impedir a realização plena do seu destino. Deu mais uma olhada em direção à Concorde e se permitiu um sorriso discreto; seu coração se encheu de alegria e gratidão, e então olhou para essa placa por longos segundos, e murmurou baixinho, tão baixinho que Albert Speer não pôde ouvir: “Vielen Dank, Französisch.”