Sebos e livrarias

Uma livreira da 7 de Setembro, há uns bons anos, reclamou comigo que a internet estava matando os sebos do Rio. Eram os livros didáticos, paradidáticos e de referência que os sustentavam, desde sempre, mas o Google e quetais estavam acabando com a utilidade dessas publicações. Ela via seus livros empoeirarem ainda mais nas prateleiras sem que ninguém mexesse neles, e antevia o dia em que, como outros antes dela naquela mesma rua, teria que fechar as portas.

Não percebi na hora, mas devia haver ali um recado disfarçado para mim, de que não seriam pessoas como eu, que fuçavam suas lojas atrás de algum livro valioso vendido a preço de banana, ou buscavam os saldões em busca de algo que prestasse, que os salvaria.

De lá para cá, pelo que ando vendo, as coisas pioraram muito. Um a um, os sebos que eu conhecia vão fechando. Seu mercado encolhe a cada dia. Quando fecha um sebo famoso, como o São José da Primeiro de Março, o mundo vem abaixo; mas a verdade é que os primeiros a fechar foram aqueles com menor conhecimento dos objetos que vendiam, justamente os que me permitiam encontrar aquelas pequenas pérolas por preços risíveis, aqueles que mal sabiam a diferença entre velho e clássico, e que achavam que capa dura era sinal de qualidade. Os poucos que resistem parecem se especializar cada vez mais em nichos mais restritos e com maior margem de lucro, como edições raras. Mas mesmos esses sofrem a concorrência avassaladora da internet. Uns anos atrás, atrás de um livro autografado por Jorge Amado para dar de presente, sequer procurei nos poucos sebos daqui; sabia que não o encontraria. Em vez disso, corri para o Mercado Livre.

A Estante Virtual e a própria Amazon são pequenos paliativos para os sebos e, se salvarão alguns, não poderão salvar o mercado que paradoxalmente ajudam a destruir. Mas a internet fez mais mal às livrarias. Hoje em dia, como lembrou um artigo publicado no New York Times, livrarias estão se tornando pouco mais que showrooms onde você vai olhar os livros que pretende comprar mais barato online. O fenômeno é mais claro nos Estados Unidos; aqui, como a diferença de preços é relativamente pequena, o estrago é um pouco menor — mas é inexorável, ninguém se iluda.

Minha infância foi marcada pelas livrarias Civilização Brasileira, em Salvador. Minha adolescência foi marcada pelas livrarias Civilização Brasileira, em Salvador, e pela Didática de Aracaju — onde eu tinha eternas coleções, sempre renovadas, de promissórias algumas vezes vencidas (o que, curiosamente, nunca os impediu de continuar a me vender fiado). Foi na Didática que li, em pé, todo o “Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” — um bom livro para se ler aos 12 anos. Foi lá que encomendei, um a um, os volumes da “Comédia Humana”. Foi ela que teve a coragem de vender a edição portuguesa de “Os Versículos Satânicos” pouco depois da fatwa de Khomeini. Era lá que, vez em quando, Marivaldo me avisava que um livro que poderia me interessar havia chegado.

A Civilização Brasileira tem outra história. Ela é uma das principais lembranças de infância; cresci com livros que traziam nas guardas o seu selo. Foi numa das Civilizações Brasileiras da Avenida Sete, por exemplo, que meu pai me mostrou que, sabendo procurar, era possível achar livros mais baratos — no caso, os cinco volumes da “História da Literatura Brasileira” de Sylvio Romero, diante de mim enquanto escrevo isto porque eu adoro a maneira como ele esculhamba Machado de Assis.

Mais tarde, na adolescência, era lá que eu via livros mais refinados e caros que jamais encontraria em Aracaju — livros de fotografias da Bahia antiga, uns tantos livros importados; foi lá que descobri Pierre Verger. Até hoje, a Civilização Brasileira me lembra essa sofisticação e variedade que me encantavam sempre que eu voltava a Salvador. Foram as Civilizações Brasileiras do centro da cidade que, ao longo dos anos 80, percorri em busca de livros sobre os Beatles — foi na rua da Ajuda que comprei meu primeiro livro da banda, o de Geoffrey Stokes, e lembro de ansiedade em carregar aquele volume enorme, embalado em papel celofane vermelho, até a casa de minha avó na Saúde.

Mas então vieram as grandes redes para engolir as pequenas livrarias, aquelas que floresceram quando as cidades ainda pertenciam às pessoas. Conglomerados como a Saraiva fizeram com que as livrarias locais perdessem condições de competir. Agregaram outros serviços, ampliaram o escopo de produtos à venda. Numa Saraiva você compra o livro da moda enquanto toma um café superfaturado, e se for um completo idiota — o que pode lhe poupar muitos dissabores na vida, é preciso reconhecer —pode até se imaginar no Café de Flore; mas não acho que nesse caso você vá estar interessado nisso.

A Didática não existe mais. A Civilização Brasileira, por sua vez, morreu de maneira mais lenta e mais degradante.

Foi um choque quando, há alguns anos, vi que ao menos a loja da Civilização Brasileira do shopping Iguatemi tinha sido remodelada para ficar igual às Sicilianos da vida. Era óbvio que se tratava de uma tentativa de mimetizar-se no inimigo. Mas para mim aquilo era apenas uma mostra de desespero e de maus augúrios para um futuro cada vez mais duvidoso.

Acima de tudo, ela tinha encerrado seus últimos vestígios de identidade própria. Porque o que faz mais falta nas livrarias antigas é isso: sua personalidade. Uma livraria era diferente da outra, e não apenas pela escolha dos livros que oferecia em suas estantes. A partir daquele momento, a Civilização Brasileira era apenas uma Siciliano com estoque mais pobre. E um pedaço da minha infância morria ali.

Claro, nem tudo na vida é preto e branco. Filmes como “Mens@gem Pra Você” encamparam a luta romântica e quixotesca das pequenas livrarias, carpindo a pequena e charmosa livrariazinha do bairro que é engolida pelas grandes redes. Acontece que a resistência de um modo de vida suplantado pelo novo devorador de inocências é agradável aos olhos, mas inegavelmente também tem muito de pieguice boba. Assim como os cinemas de rua, as pequenas livrarias acabam porque as pessoas encontram melhor relação custo/benefício em outros lugares. Por mais agradáveis que sejam, por mais simbólicas e mais importantes em termos urbanos que sejam as lojinhas da esquina, a verdade é que elas desaparecem porque alguém faz o que ela faz de maneira mais eficiente.

Esses conglomerados se adaptaram ao novo mundo, e não sei se se pode realmente lamentar esse fato. Mas isso não me tira o direito de chorar as minhas livrarias. Raramente compro alguma obra nos mercados de livro que frequento. Saraivas são lugares de passeio para mim, um olhar as novidades, um café de vez em quando — mas livros, mesmo, só de vez em quando, e só por impulso. E faço isso, em parte, por desagravo ao mundo que elas tiraram de mim.

Resta um consolo, apenas. As redes não estavam sozinhas na cadeia alimentar e a história ainda não havia terminado. A internet viria vindicar as pequenas livrarias, porque Deus é cruel e canalha, mas é justo. E enquanto tomo um café na Kopenhagen quase em frente à Saraiva do shopping, olho para ela com a paciência dos sabem o que é o verdadeiro ódio, e um só pensamento na cabeça: “Sua hora há de chegar.”

Os burgueses do porto de Calais

Lendo aqui que na Coreia do Norte fotos de soldados são proibidas.

Ditadura, gritam. Opressão. Queremos liberdade para eles. Como é ruim viver num país assim, onde não se pode tirar uma simples foto. Morte ao gordinho maluco.

E aí lembrei de um pequeno episódio no porto de Calais.

Naquele tempo ainda se usavam máquinas fotográficas. Puxei a minha para tirar umas fotos do lugar; era uma área comum, ao ar livre, eu sequer estava no centro de operações do porto. Então uma lourinha de uniforme vistoso veio correndo até mim.

Eu certamente não percebia que portos são, ao menos em tese, unidades militares. Muito menos que um paraíba com uma câmera na mão pode ser na verdade um espião perigoso a soldo dos soviéticos, homem de artes e talentos saídos diretamente de um livro de John Le Carré. Perigosíssimo, eu. Um paraíba tão insidioso que, em vez de usar câmeras em canetas ou em botões de camisa ou implantadas na íris, tentava dar uma de turista desavisado com uma câmera furreca. Afinal de contas, quem seria tão idiota para tirar fotos de um lugar feio como aquele? Pensando nisso agora, com a serenidade e a clareza que o passar dos anos às vezes nos dão, eu devia me sentir lisonjeado: na verdade, eles me tomaram por muito, muito mais do que eu poderia ser.

Porque o que eu sabia era outra coisa: que fora ali que D’Artagnan embarcara em direção a Londres para encontrar o Duque de Buckingham e frustrar um plano de Richelieu. Fora ali em que ele tinha mostrado com quantos ferros se faz um buraco no bucho de uns pobres guardas e embarcara com destino à grande inimiga de sua pátria. Tudo bem, o lugar onde D’Artagnan mostrou que era o guarda real mais batuta da Lutécia não devia parecer muito com aquilo que eu via; mais de 350 anos haviam se passado. Mas para mim Calais é e sempre será, antes de qualquer coisa, um cenário para D’Artagnan mostrar sua bravura e lealdade à rainha.

Mas a guarda lourinha estava se lixando para o mosqueteiro, Darta quem?

Ela era bonitinha, britanicamente bonitinha. Com aquela simpatia inglesa, me disse que era proibido tirar fotos ali. Bem simpática, a moça, tentando fazer o seu trabalho com o máximo de civilidade possível, acostumada provavelmente a reprimir, todos os dias, centenas de turistas desavisados como eu, tarefa ainda mais doce porque feita na terra dos outros. Simpática, de fato.

Mas eu sou baiano e para mim simpatia é quase amor. Ainda tentei jogar uma conversa qualquer, Hello, my name is John Holmes; mas ali não havia conversa possível. Sorrindo ainda, um sorriso que deve ter se desvanecido em tédio assim que me virou as costas, ela se afastou como quem não entende a cordialidade brasileira. Deve ser o clima, tadinha, o frio e a falta de sol fazem isso com as pessoas.

Tomara que o Google Earth tenha tirado o emprego daquela moça.

***

Foi naquele ano que vi pela primeira vez os “Burgueses de Calais”, de Rodin, nos jardins de Victoria Tower, ali pelos fundos do parlamento londrino. Eu não sou daqueles fãs alucinados de Rodin, mas aquela escultura que evocava justamente um lugar que eu tinha acabado de conhecer ficou na minha cabeça. Imaginei a guardinha inglesa enchendo o saco daqueles pobres burgueses, Sorry, no pictures, sires.

Uns anos depois voltei ao mesmo local, procurando meus companheiros de infortúnio, e os burgueses tinham desaparecido.

Eram os tempos posteriores à crise de 2008, aquela que diziam ser a mais grave de todos os tempos, tempos de desespero e medo do futuro. A ausência dos burgueses foi, para mim, a maior prova de que a crise era mesmo grave, marolinha coisa nenhuma. A crise tinha destruído os burgueses de Calais, eles deviam ter se mudado para Dagenham, deviam estar sobrevivendo do que ainda restava do welfare state inglês, tentando trocar cupons por um pint de Guinness num pub qualquer.

Mas tudo isso eram apenas suposições. Eu tinha uma única certeza: em nenhum momento duvidei que foi aquela guardinha inglesa que tirou os coitados dali.

De lá para cá os burgueses voltaram. Da última vez que andei por lá, os danados estavam no mesmo lugar de antes, com as mesmas cordas no pescoço, em sacrifício não mais a Eduardo III, mas ao deus Mercado. Eu devia saber que nessas crises do capitalismo quem sempre se ferra de verdade são os pobres. E que nesses momentos sempre aparece uma guardinha inglesa para dizer: Sorry, no pictures.