Hitler no Brasil

Uma senhora de grande imaginação chamada Simoni Renée Guerreiro Dias revelou — certamente com grande perigo para sua própria integridade física — um segredo que forças ocultas tentam esconder de nós reles há mais de 70 anos, junto com a existência de ETs congelados nos porões de Washington. Vi agora no National Enquirer History.com que a dita senhora lançou no início do ano um livro em que afirma que Adolf Hitler morreu no Brasil, aos 95 anos.

O History, citando um autor russo chamado Dimitri Boryslev, diz que Stálin estava “convencido de que Hitler havia escapado. Ele suspeitava de um pacto entre o tirano alemão e as potências ocidentais, que teriam poupado sua vida em troca de conhecimentos de tecnologia bélica.” O que é tão óbvio que chega a ser vergonhoso duvidar: todos sabemos que, perto de Hitler, Von Braun era um estudante de terceiro ano primário.

Segundo a tese, foi assim: um submarino veio para a América do Sul deixando os refugiados — como Mengele e Eichmann — em vários países, mais ou menos como uma van parando de ponto em ponto com o sujeito pendurado na porta gritando; “Rio de Janeiro! Puerto Stroessner! Buenos Aires! Aceitamos vale-transporte e tique-refeição!” “Comboio do Holocausto” seria um bom nome para esse submarino da esperança. Ou, se alguém me perdoa a ironia, “Exodus”.

Sem ler o livro, o que posso intuir é que deve ser especificamente aí que entra a tese da senhora Dias. Segundo ela, assim que deu com os costados no Brasil, Hitler se transformou em um tal de Adolf Leipzig e foi morar em Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso, como prova a foto ao lado.

Eventuais discrepâncias devem ser relevadas. Leve em consideração a passagem do tempo, a diferença de clima: há um mundo de diferença entre a temperatura amena de Obersalzberg e o inferno mato-grossense, e deve ter sido isso que fez o Führer repensar sua vida, colocar em xeque seus valores e emergir como uma pessoa melhor, provando que nem todo pau que nasce torto morre torto, que todo mundo no fundo é bom, e que a gente deve continuar a acreditar na humanidade.

Porque vir ao Brasil fez bem a Hitler, e a foto prova isso. Antes racista convicto, aqui se atracou a uma negona de responsa que deve ter ensinado a ele coisas que aquela lambisgoia da Eva Braun, com sua rigidez alemã, jamais poderia; e dizia em seu ouvido “ai, Dodô… ai, Dodô…” Seu nome, segundo o Daily Express, era Cutinga; ninguém pode ser amargo se se deita com uma Cutinga.

Antes antitabagista fanático, aqui se rendeu ao cigarrinho — como não sei de quando é a foto, não posso dizer se é Clássicos, Belmont ou Derby; mas o fato de estar na mão esquerda significa que, além de tudo, Hitler se tornou canhoto, o que prova a sua capacidade inacreditável de mistificação. Os trópicos aumentaram suas orelhas e ele provavelmente terminava a noite com uma cachacinha na bodega, não sem antes derramar o pouquinho do santo para abrir os caminhos.

E aí a gente não pode deixar de admitir que Araripe Júnior tinha razão quando falava na tal “obnubilação tropical”:

Agora, responda-se francamente: nessa constante surmenage, quando os corpos, atrelados a uma imaginação superexcitada, a todo o instante gravitam para o leito, há estilo que resista, há correção que se mantenha?

Mas por mais que eu goste da tese da senhora Dias, por mais que a admire pela coragem quase insana, a verdade é que tenho outra teoria. Está mais para “Meninos do Brasil” que para desesperos de fuga num pinga-pinga submarino. Além disso, estou plenamente convencido de que minha tese faz mais sentido na atualidade, e ajuda a explicar o mundo em que vivo.

Todos sabemos que a ciência alemã era uma das mais avançadas do mundo aquele momento. Todos sabemos também que Hitler era chegado numas macumbagens, numas coisas de ocultismo.

Graças a uma farta documentação fotográfica, hoje posso afirmar que, com a ajuda de seus cientistas e de seus magos, descobridores da conexão graálica entre ciência e sobrenatural, Hitler digitalizou completamente a sua mente, tornando-a imortal. Mandou queimarem seu corpo para todos acharem que ele estava morto: aquele churrasquinho de chucrute que os soviéticos encontraram era mesmo de Adolf. Mas a sua essência estava lá, mais viva do que nunca, certamente mais viva que os judeus torrados em Auschwitz.

Hitler não fez isso à toa. Antes de todo mundo, ele percebeu para onde o mundo seguia. Anteviu o mundo hiperconectado do século XXI. Hoje, Hitler está completamente interligado à rede elétrica mundial e à internet, se multiplicando a cada clique numa página do MBL e a cada acendimento de uma lâmpada; e basta olhar em volta de você, basta ver o que as pessoas andam dizendo e pensando para entender que a minha tese este correta: só isso pode explicar o mundo em que vivemos.

Hitler é uma tomada, é milhares de tomadas, talvez milhões, e está mais ativo do que nunca.

Hemingway

Minha primeira experiência com Hemingway foi — vamos usar um eufemismo — inauspiciosa.

Aí pelo meio da adolescência, veio parar nas minhas mãos um livro de capa rosa chamado “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”, obra de 1950 que li diligentemente, porque na época eu me impunha terminar tudo o que tinha começado a ler e porque já sabia que Hemingway era um bambambam e eu precisava conhecer o sujeito.

Conforme se viu mais tarde, perdi um tempo que, se não era exatamente precioso, poderia ter sido aproveitado com coisas um pouco melhores — o que não era difícil porque até caminhar a esmo pela cidade seria melhor do que ler aquele livro horrível. “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores” era tão ruim que me deixou pensando como alguém capaz de escrever aquilo era tão glorificado. A única resposta possível era a de que os outros livros deviam ser tão bons que levava as pessoas a fazerem um esforço sincero, ainda que enorme, para esquecer que Hemingway tinha sido capaz de perpetrar essa bisonhice.

Mas daí talvez tenha vindo, também, uma eterna má vontade em relação ao escritor e aos seus personagens. Ou não, não era bem isso: talvez fosse mais adequado afirmar que eu encontrava mais facilmente uma característica peculiar aos seus protagonistas, um certo modo de ver a vida e o mundo que fazia de seus personagens uns grandes chorões, beirando a chatice. Um a um, pobre ou rico, jovem ou velho, choram todos os personagens de Hemingway: lamentam a inocência perdida, o amor perdido, a juventude perdida, o ideal perdido — ou, no caso de Jake Barnes, algo ainda pior, que ele deixou nos campos da Bélgica.

Alguns anos depois de ter conseguido terminar aquilo que fez John dos Passos se perguntar como um homem em sã consciência conseguia colocar tanto lixo no papel, comprei “O Sol Também Se Levanta”, em busca daquela resposta que eu tinha adivinhado uns tantos anos atrás. Não era possível que Hemingway fosse tão ruim como eu achava; ele tinha que ter algo bom, e “O Sol Também Se Levanta”, afinal, era o grande livro da tal geração perdida.

Talvez fosse a tradução. Talvez fossem os dias. Mas aquele livro não me empolgava. Ainda assim, li até a cena de uma viagem de trem que empacava na descrição de uma barata no chão. Só isso, mais nada. Uma barata. Não havia razão para a barata no piso do trem, mas ela estava ali, alheia a Jack Barnes, alheia a Hemingway e, principalmente, alheia a mim.

Era um detalhe bobo, curto, mas que me parecia tão sem sentido que me fez sentir enganado. Algo ali não combinava: de um lado um estilo seco, conciso e contido; do outro, um elemento absolutamente supérfluo que não acrescentava nada à narrativa. A barata me fez imaginar se Hemingway não estava sendo pago por número de toques.

Mais uma vez deixei o coitado do Hem de lado. E por mais alguns anos o velho cachaceiro fanfarrão continuou ali, me incomodando, me chamando silenciosamente de idiota, de fracote.

Até que li, finalmente, “O Velho e o Mar”, livro que nego lê na adolescência mas que só encarei depois de bem avançados os meus anos. E o que li ali me fez finalmente admitir que Hemingway era — ou melhor, podia ser — um grande escritor.

Já vi muita gente esculhambar a história do velho Santiago. Coitados. Devem ser os mesmos que têm certeza de que o velho pescador azarado morre no final, porque não entenderam nada. Não podem compreender que não há símbolo algum, nenhuma intenção oculta, que Santiago apenas dorme, porque amanhã vai voltar ao mar e não vai trazer nada, e é esse estoicismo que lhe dá grandeza. Santiago é o único protagonista de Hemingway que não chora pelo que perdeu, porque sabe que não adianta.

Para mim, “O Velho e o Mar” é uma novela que beira a perfeição, como o Quincas de Jorge Amado. Tudo de bom que a crítica dizia de Hemingway estava contido ali, naquele livrinho curto, tão menor que “Por Quem os Sinos Dobram”.

Mas “O Sol Também se Levanta” continuava ali, me incomodando. Eu devia ter deixado passar alguma coisa. Então, com a esperança renovada pelo velho Santiago, resolvi comprar a versão original em inglês. Para não ter mais a desculpa da tradução, e por desconfiar que se o estilo era fundamental, o ritmo dado pela língua do bardo poderia fazer alguma diferença.

Pensando bem, mais que desconfiança, o sentimento em questão era esperança. E esperança é bicho frágil sempre pronto a ser despedaçado pela realidade dura e crua, é bicho que morre cedo.

E aí admiti finalmente que estava certo desde o início: Hemingway era um mau romancista e tinha problemas com textos longos. O problema é que The Sun Also Rises poderia perder um terço de seu tamanho em descrições desnecessárias. Hemingway tinha tudo resolvido de maneira perfeita, mas precisava alongar as coisas para, em vez de uma novela, escrever um romance para o qual ele simplesmente não tinha fôlego. Não é um julgamento ofensivo, pelo contrário: sua capacidade de síntese o levava, instintivamente, a criar narrativas fortes e enxutas que ele, mais tarde, julgava ser necessário preencher com superfluidades.

É a razão pela qual “O Velho e o Mar” é um livro perfeito. Tem o tempo certo, as palavras necessárias; acima de tudo, tem o personagem masculino que Hemingway tentou criar toda a vida, e que só conseguiria ali.

Descobri agora que Harold Bloom o vê exatamente como eu: um romancista menor com um grande estilo. Mas acho que posso ser um pouco mais generoso do que Bloom, porque não conheço literatura tão bem quanto ele e porque nosso Senhor Jesus Cristo encheu meu coração de amor e doçura quando me fez.

Porque o gênio de Hemingway não é o romance, nunca foi. Foi apenas quando comecei a ler seus contos que pude entender completamente o seu brilho. Contos como The Killers, ou Up in Michigan, ou The Short Happy Life of Francis Macomber ou Hills Like White Elephants, são pequenas obras primas. Ao contrário do romancista enchedor de linguiça, Hemingway-o-contista entrega peças fortes, vívidas, cheias de significado em sua economia. Aquelas emoções básicas, que ele tenta enfeitar e alongar em seus romances, aqui são apresentadas em seu estado natural. Hemingway parece ter tentado, durante toda a sua vida, ter feito essas pobres emoções durarem mais do que aguentariam. O resultado são romances sempre defeituosos que, com uma dose da humildade que ele nunca teve, poderiam ser contos ou novelas brilhantes. O problema do velho Hem é que ele nunca conseguiu entender isso.

Os melhores álbuns dos Beatles, pela ordem

Parei para pensar que nunca fiz uma lista ordenando os discos dos Beatles por ordem de preferência. Talvez porque isso não signifique muito para mim; ouvi esses discos por tanto tempo que é quase impossível fazer um ranking. Mas eu gosto de listas.

Em primeiro lugar é bom lembrar que mesmo o pior álbum dos Beatles é melhor que 80% dos discos já lançados neste vale de lágrimas e de música ruim. Nenhuma outra banda conseguiu lançar tantos discos seguidos com tamanha qualidade, de maneira tão consistente.

Mais que isso, nenhuma outra banda conseguiu fazer tantas gravações que, mesmo com o passar dos anos, não perdem sua atualidade. É talvez a sua principal qualidade, e o que reafirma a cada dia sua genialidade. Num livro meio estranho lançado recentemente, Their Lives: Great Writers on Great Beatles Songs, Chuck Klosterman definiu com perfeição o que os faz grandes:

The Beatles’ songbook is a neutral charge. It’s a self-reflexive reality. Every other guitar band of the past sixty years has made a kind of rock: blues-rock or prog rock or folk rock or acid rock or punk rock or grunge rock or art rock or [pick a modifier] rock. But not the Beatles. The Beatles made “Beatles Music,” which became the working definition of “rock music,” which became the working definition of “popular music.” Black Sabbath worked within a genre; Blue Cheer worked within a subgenre. The Beatles had no such parameters. They could do whatever they wanted, and whatever they did became normative. If the Beatles had prominently employed the accordion on Revolver, we’d all be able to walk into any local Guitar Center and stare at a wall display of accordions, most of which could be plugged into Marshall amplifiers. Anything the Beatles did immediately became something that could be plausibly attempted by other artists. The Beatles “invented” heavy metal to the same degree they “invented” the notion of a pop band breaking up in public: they weren’t the first people to have the idea, but they were the first materialization of that idea in a context that collectively mattered. “Helter Skelter” ratified metal. Had Mötley Crüe covered “Smoke on the Water” or “Children of the Grave,” the unspoken message would have been “We like metal, so we play metal music.” By covering the Beatles, the unspoken message was “We like music. Metal is just the way we play it.”

Foi dentro desse contexto que fiz essa listinha boba. Ela não inclui alguns dos maiores clássicos da banda, já que os Beatles costumavam reservar suas melhores canções para os compactos, posteriormente reunidos no Past Masters. Se ele pudesse ser incluído seria um dos melhores, sem dúvida. Mas coletânea e disco póstumo não valem.


Yellow Submarine
Talvez seja injustiça colocar este disco aqui, porque na prática ele não é um álbum, é um EP. É praticamente uma obra de George Martin, que assina todo o lado B com a trilha orquestral do desenho animado; das seis músicas dos Beatles que compõem o lado A, apenas quatro são inéditas — duas delas escritas por George Harrison, e não particularmente inspiradas. Mas a verdade é que gosto de todas essas canções, especialmente Hey Bulldog, e até já ouvi o lado B algumas vezes.


Beatles For Sale
Final de 1964. A banda está exausta devido a uma rotina absolutamente estafante, e a obrigação de lançar um novo disco antes do Natal aqui se revela um fardo quase grande demais, fazendo-a começar a se repetir. Até Beatles For Sale, cada álbum representou um passo adiante em relação ao anterior, retratando uma evolução constante e sem paralelos — ainda mais diante da pressão mercadológica para que eles fizessem mais do mesmo (pressão a que os Beach Boys, por exemplo, não sobreviveram). Mas aparentemente tudo tem limite, e Beatles For Sale é uma interrupção abrupta nesse processo, ou ao menos uma pausa para descanso; não é à toa que este é o disco mais “acústico” dos Beatles. O resultado é uma volta a covers tocadas nas longas noites em Hamburgo, a canções velhas que sempre tinham sido preteridas, como I’ll Follow The Sun, e algumas canções novas que dificilmente poderiam ser qualificadas como obras-primas. Este é o disco de uma banda competente, talentosa, mas aparentemente estagnada. Relativamente pouca coisa se destaca aqui.


Let it Be
O amontoado de clássicos nesse álbum não obscurece o fato de que todo ele soa estranho, como algo destinado a ser grandioso mas que ficou no meio do caminho: não é nem o projeto original, interessante em princípio, nem um disco tradicional de estúdio. Para piorar, o som é estranho, abafado, resultado dos estúdios vagabundos onde foi gravado. Em qualquer outro momento, um disco que enfileirasse Let it Be, Get Back, Across the Universe e The Long and Winding Road seria uma obra-prima, e é só por isso que ele não está em posição mais baixa. Mas o que os Beatles entregaram depois de passar a régua na banda é um disco decepcionante, se analisado no conjunto. Se eles tivessem se reunido para refazer esse álbum com seriedade, o resultado seria um clássico absoluto. Mas em vez disso a banda acabou, e Let it Be é apenas Terry Malloy dizendo para você: “I coulda’ been someone! I coulda’ been a contender!” Mais sobre ele aqui.


Please Please Me
Fosse outra a banda e talvez esse disco fosse considerado um clássico absoluto. Basta olhar em volta e ver quantas lançaram um disco de estreia excelente e nunca mais conseguiram repetir o feito, sofrendo para lançar os seguintes. A partir da contagem de abertura, Please Please Me é um disco forte, personalíssimo, executado por uma banda absolutamente coesa que consegue capturar a energia dos pós-adolescentes que seus integrantes ainda eram e, se se contar a canção título (que já tinha sido lançada antes), revolucionário. De uma força impressionante, e com um som muito próprio, Please Please Me é excelente para o seu tempo e seu lugar, sendo fundamental para definir a música que viria a seguir. Mas aí você olha o que os Beatles fizeram depois.


With The Beatles
Fizeram este, por exemplo. Para muita gente pode soar uma escolha estranha, colocar este álbum acima dos anteriores. Mas With the Beatles é um disco excelente de rock, coeso, de uma banda mais à vontade no estúdio e buscando horizontes novos enquanto mostram tudo o que aprenderam até ali. É fácil desconsiderar este álbum por ser relativamente fraco em grandes canções, embora tenha All My Loving, mas a verdade é que o conjunto, mais que as canções individuais, faz deste um grande disco de rock and roll, executado por “a great little rock band”, como se orgulhava John Lennon.


A Hard Day’s Night
A consolidação absoluta da beatlemania e do “beatle sound”, é o único disco composto apenas por canções de Lennon & McCartney. Aqui está cristalizado o som dos Beatles, de maneira definitiva — até o álbum seguinte, pelo menos. Em que pesem uma ou outra canção mais fraca, aqui e ali, sua essência é de uma consistência e qualidade impressionantes. A Hard Day’s Night representa também a ascensão definitiva de Paul McCartney à linha de frente como compositor. A partir daqui, ele oferece regularmente composições solo de qualidade absoluta, o que consolidaria definitivamente sua posição de poder dentro da banda e possibilitaria os avanços que se veriam nos anos seguintes. Alguém já disse que os Beatles não chegariam ao topo se não fosse por John Lennon, mas não se manteriam nem avançariam se não fosse por McCartney. É uma avaliação correta.


Help!
Um álbum que em alguns momentos é brilhante, com alguns clássicos eternos (Yesterday, que seria naturalmente um single, foi lançada apenas aqui porque McCartney não queria algo que parecesse um compacto solo) mas com uma quantidade alta, para os padrões da banda, de canções medianas — fillers, como eles as chamavam). Musicalmente, e se avaliado no conjunto, Help! não oferece os avanços musicais a que os Beatles acostumaram o mundo em cada um de seus três primeiros discos; em vez disso, aqui eles aparecem como uma banda satisfeita em apresentar suas canções, algumas extremamente inovadoras, dentro de uma fórmula já consagrada.


Magical Mystery Tour
Se fossem apenas os EPs originais talvez ele ficasse numa posição mais baixa. Mas a versão americana (em que a Capitol colocou os EPs originais no lado A e os compactos lançados mais recentemente no lado B, como Penny Lane, All You Need is Love e Strawberry Fields Forever) era mais sólida, e a partir de 1976 foi institucionalizado mundialmente como o disco oficial. Não foi à toa. Normalmente os americanos destroçavam os discos dos Beatles, tirando deles significado e mesmo sua unidade. Mas até um relógio quebrado está certo duas vezes ao dia, e aqui a Capitol conseguiu fazer um álbum maravilhoso, superior ao original inglês. Pode não ser o disco original, mas o que Harrison disse sobre Ringo (algo como “Ringo sempre foi o quarto beatle, ele só não tinha entrado no filme ainda”) vale para este disco.


Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
“O melhor disco de todos os tempos”, de importância inquestionável. É um disco absoluto. E mesmo 50 anos depois, mesmo depois de tanta água sob a ponte, defende confortavelmente e com brio sua posição. Mas como disse Ringo Starr, outros discos tinham canções melhores, o que cria um paradoxo curioso: o melhor disco pop da história não é necessariamente o melhor disco dos Beatles. De qualquer forma, o Sgt. Pepper’s mostra a importância do substituto do finado Paul McCartney (dead, man, miss him, miss him) no salto quântico dado pela banda.


Revolver
Para muita gente é o melhor disco dos Beatles. É um álbum revolucionário, sim. Mas na minha lista ele não fica lá na frente por algumas razões. O engenheiro de som dos primeiros discos dos Beatles tinha ido embora, e um garoto novinho tinha assumido os botões na sala de controle: Geoff Emerick, na minha opinião, ainda não tinha o domínio técnico necessário para dar a essas gravações a qualidade que elas precisavam, e algumas canções soam como se pudessem ter sido mais bem mixadas, melhor produzidas. Ou talvez tudo aquilo fosse novo demais para que se soubesse como lidar adequadamente com aquilo, o que, definitivamente, aprenderam no álbum seguinte. Fico imaginando o velho Norman Smith diante desse material. Finalmente, um dos títulos que foram considerados para o álbum me parece mais adequado, resumindo o que estava sendo revelado ao mundo: Abracadabra.


The Beatles
Muita gente não gosta desse álbum. Em parte porque é um disco extremamente variado, em parte porque Lennon, como faria várias vezes, convenceu o mundo de que este disco era “John e banda, Paul e banda” (o que é uma bobagem infelizmente repetida ad nauseam: este disco é claramente dos Beatles, por mais que os estilos individuais de John e Paul venham se afirmando cada vez mais claramente). George Martin, que não produziu o álbum inteiro, morreria dizendo que teria sido melhor se eles tivessem feito um álbum simples. E é aqui que eu discordo dele. É justamente por isso que este é um dos melhores discos de todos os tempos. É vibrante, multifacetado, forte, uma cornucópia de estilos, de vitalidade, de brilhantismo e de maturidade. Você pode achar Wild Honey Pie e Can You Take Me Back? fracas — mas dentro do álbum elas adquirem um novo contexto, reforçam a sensação de uma surpresa depois da outra. Até Revolution #9 faz algum sentido.


Rubber Soul
Esqueçam o Revolver: para mim é aqui que está a verdadeira revolução. Antes de mais nada, esta é a prova definitiva da fertilidade absurda da banda: o Help! tinha sido lançado em 6 de agosto, Rubber Soul foi lançado em 3 de dezembro, menos de quatro meses depois. Havia um abismo entre eles: em Rubber Soul, a banda praticamente realiza uma revolução: melódica e harmônica, claro, mas mais notavelmente ainda em termos líricos. Os Beatles de Rubber Soul já não são os mop tops do ié ié ié, suas letras vão além de She Loves You. Ao mesmo tempo, eles conservam muito daquela banda forjada nas horas infindáveis de Hamburgo, um certo frescor que a sofisticação e ambição dos discos posteriores enterraria. Talvez seja o melhor disco pop da história. É magnífico, com uma sonoridade redonda, canções brilhantes e uma alegria que raramente se veria depois, em qualquer banda. Muita gente diz que é um disco de transição; imagino quantas bandas não gostariam de poder ficar trancadas nessa transição para sempre.


Abbey Road
Essa é uma das tantas razões pelas quais os Beatles já em sua época eram saudados como algo sobrenatural. Qual outra banda se despediu do mundo com a sua obra-prima? Porque este disco é perfeito. É a síntese da trajetória de uma banda que sintetizou a música de um tempo e apontou os caminhos que ela seguiria. Um diamante perfeitamente lapidado. De certa forma, ele tem algo em comum com o Kind of Blue de Miles Davis: a compressão em algumas dezenas de minutos de toda a história da música pop.

I hope we passed the audition.

Os 10 melhores seriados de todos os tempos

E daí que resolvi fazer uma lista de melhores seriados da história. É que eu não pareço ter o que fazer, e à medida que vou ficando velho as lembranças de tempos há muito idos parecem mais sólidas do que as de uma ou duas semanas atrás. Além disso, há algum tempo a Rolling Stone publicou uma lista que, calhordamente, desprezou alguns dos seriados mais caros para mim. Isso não se faz e merece uma resposta.

O meu critério não é exatamente técnico, nem totalmente pessoal. Se fosse técnico, não poderia deixar de incluir, por exemplo, I Love Lucy, que inventou o sitcom com três câmeras — e que, 60 anos depois, ainda é um grande seriado. Além disso, um seriado como Law & Order SVU, que anda por aí há quase duas décadas, tem que ter alguma qualidade. Se fosse só pessoal, como deixar de incluir “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, “O Homem do Fundo do Mar”, “Viagem ao Fundo do Mar” ou “Perdidos no Espaço”?

Mas é uma lista pessoal quando seriados aclamados como Seinfeld, que nunca me disseram absolutamente nada, ficam de fora, enquanto entram outros pelos quais ninguém dá nada, como “Daniel Boone”; e técnica quando reconhece a importância de Twin Peaks, embora os 26 anos passados me tenham feito esquecer quase tudo. A ignorância crassa também desempenha cá seu papel: entre tantos outros, eu não vi os dois responsáveis pelo que andam chamando de segunda era de ouro da TV, The Sopranos e The Wire.

Como sempre, a lista está em ordem cronológica.

Além da Imaginação
Hoje ele pode ser visto num site chamado Oldflix. Vale a pena. Porque a obra de Rod Serling é uma daquelas grandes maravilhas que a TV já produziu, e mais de meio século depois, sua qualidade continua inegável. Um seriado que apresentava ficção científica, fantasia, terror, The Twilight Zone (e que título lindo, o original) foi das coisas mais inteligentes que já se fez na TV, e uma das mais instigantes. É daquele material atemporal, atual em qualquer momento que você assista a ele.

Daniel Boone
Preferido meu desde a infância, andei revendo alguns episódios há algum tempo. Do ponto de vista da verossimilhança histórica, “Daniel Boone” é uma tragédia: para aproveitar o sucesso de David Crockett nos anos 50, com o mesmo Fess Parker, vestiram Daniel Boone com um chapéu de guaxinim que o original não usaria nem bêbado. E juntam episódios da história americana distantes entre si para efeito dramático. Mas é o tipo de programa que não é mais feito: simples, direto, repleto de bons e tradicionais valores americanos — contra os quais eu, pessoalmente, não tenho nada.

Jornada nas Estrelas
O mais curioso é que, quando era criança, eu não gostava desse seriado. Anos mais tarde, vendo os episódios com calma e atenção, finalmente entendi. Quero escrever mais sobre isso, então fico por aqui, por enquanto.

O Túnel do Tempo
Durou apenas uma temporada. Mas quem assistiu às aventuras de Tony e Doug na Ilha do Diabo, em Cracatoa, no Titanic ou na França revolucionária, jamais esqueceu. E, ainda que de maneira torta e às vezes equivocada, aprendeu um bocadinho sobre história. O TCM exibiu o seriado há algum tempo, com a dublagem original da AIC, e uma boa alma disponibilizou o danado na internet. É a que eu tenho em casa.

A Gata e o Rato
Bruce Willis (ainda com cabelo) e Cybill Shepherd (ainda bela): acho difícil que tenha havido em algum tempo um casal com mais química na tela. Aos 15 anos eu queria ser David Addison e namorar a Maddy Hayes — obviamente, não consegui nem um, nem outra; e hoje eu não queria nenhum dos dois. Moonlighting foi um seriado inovador: com diálogos fantásticos e quebrando a quarta parede regularmente, com inteligência, manteve durante duas temporadas um equilíbrio admirável entre comédia e romance nunca concretizado. Até que Cybill Shepherd engravidou e tudo foi por água abaixo.

Married… With Children
Nunca, jamais, em tempo algum alguém foi capaz de conceber um seriado mais canalha que esse. Já escrevi sobre ele aqui, então não vale a pena me alongar. Mas, quase 30 anos depois, ele continua tão engraçado quanto da primeira vez que vi Al Bundy enfiar as mãos nas calças para assistir a mais um episódio de Psycho Dad.

Anos Incríveis
Quase a antítese de Married… With Children, “Anos Incríveis” é uma das coisas mais doces que a TV já fez, e provavelmente a melhor recapitulação da infância e pré-adolescência que já apareceu na TV. Situando no final dos anos 60, e acompanhando a formação de Kevin Arnold, um eterno otário como todos nós, “Anos Incríveis” estava perfeitamente adequado a seu tempo: embora pareça ser destinado a crianças e adolescentes, é um seriado cujo público óbvio era aquele que, na virada dos anos 90, chegava aos 30 anos.

Twin Peaks
Twin Peaks não era a série policial comum, não era o drama comum, não era nada comum. É provavelmente um dos seriados mais revolucionários de todos os tempos. “Quem matou Laura Palmer” não era a pergunta real a ser feita: era “como é que se pode subverter algumas regras da televisão dessa forma?”

Mad Men
O mais interessante é que essa novela — porque Mad Men é basicamente uma novela das oito — não tem quase nada sobre propaganda: é um seriado de escritório com uma abordagem extremamente dos personagens principais. O final do seriado, em que a canalhice de um dos melhores anti-heróis da história da TV americana, Don Draper, é finalmente recompensada e ele reencontra o seu lugar no mundo, é fascinante — e, finalmente, uma ode à publicidade.

Game of Thrones
Mesmo que a atual temporada, a penúltima, esteja recebendo uma série de críticas, o fato é que esse é uma dos seriados mais empolgantes de todos os tempos. Eu, pelo menos, não tenho notícia de outro seriado que, em sua sexta temporada, conseguisse mobilizar o mundo inteiro, coisa que GoT consegue facilmente. O sucesso dele faz com que esqueçamos que este foi um dos melhores seriados políticos de todos os tempos, ao mesmo tempo em que se recusou a se manter em um só gênero.

Niemölleriana

Primeiro vieram buscar os negros, mas como eu não estava no meu lugar de fala, eu tive que me calar.

Depois vieram buscar as mulheres, mas como eu era homem cis hétero estuprador opressor, eu não pude protestar.

Então vieram buscar os trans, e como eu não era gay, fiquei calado para não entrar em treta.

Depois vieram buscar os comunistas, mas como eu insistia que não era golpe, eu achei foi pouco.

Então vieram buscar os sindicalistas, mas como eram todos pelegos, eu fiquei calado.

Depois vieram buscar as moças com turbante, e achei bom porque aquilo era apropriação cultural.

Então, quando vieram me buscar, eu fiz um post lacrador no Facebook.

Duas palavrinhas para o Serge

O Serge postou um comentário sobre o lamentável histórico deste blog, e em vez de comentar o comentário achei que ele merecia uma resposta mais elaborada. Obviamente, como qualquer post neste blog de um preguiçoso, isso fez com que ela demorasse muito mais para ser escrita do que devia. São os percalços da vida.

O comentário do Serge me lembrou de outros tempos, um período que era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os diarinhos, mais ou menos nos moldes de boa parte do Facebook de hoje, estavam dando lugar a abordagens mais complexas. Aos blogs do Hermenauta, do Alex, do Marcus, do Doni, do Idelber, do Milton, do Bia, do Ina, condomínios como o Verbeat, o Interney e O Pensador Solitário — um bocado de gente que tinha o que dizer e tentava fazê-lo de forma razoavelmente elaborada. Acho que ali se criou ao menos o embrião de uma comunidade heterogênea e eventualmente conflituosa, mas empolgante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, engraçada e séria. Fiz alguns amigos para sempre. Mas, principalmente, ri muito.

Com o tempo, a maioria de nós cansou de escrever potoca e foi arranjar coisa melhor para fazer na vida. Virtualmente todos os blogs que compartilhavam o mesmo ecossistema deste desapareceram. A profissionalização da plataforma também fez com que a maior parte dos blogs se tornasse cada vez mais redundante. O fato é que há um bocado de gente falando de coisas com mais propriedade do que eu — menos Beatles, claro, mas tem gente boa o suficiente para me fazer pensar duas vezes antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto (o melhor blog do mundo sobre os Fab Four, a propósito, é este aqui: A Moral to This Song). Mas acho que esses tempos passaram, mesmo, porque as tecnologias mudaram. Twitter e Facebook suplantaram os blogs.

Isso não é uma confissão de ludismo; porque reclamar disso é como o dono de cinema que reclama da Netflix, e porque embora use hoje muito pouco, já houve um tempo em que eu estava quase viciado naquela miséria. Mas não dá para negar que o Facebook tornou os blogs obsoletos. Blogs como este aqui — essencialmente ensaísticos, sem escopo definido, basicamente conversa jogada fora, uma espécie de bar virtual — foram perdendo o sentido, até porque Facebook e Twitter são muito mais eficientes nesse aspecto.

É por isso que a maior parte daquelas pessoas que escreviam blogs pode ser encontrada hoje no Facebook; mas num fenômeno curioso, poucas, pouquíssimas escrevendo algo remotamente bom quanto seus blogs d’antanho.

Acho que funciona assim: o sujeito pensa em algo sobre o que gostaria de escrever. Nos tempos do blog ele escreveria um texto mais longo e mais pensado. Hoje ele simplesmente joga imediatamente no Facebook ou no Twitter uma ideia concisa, excessivamente simplificada do que gostaria de dizer. E daí não há mais motivo para escrever.

A impressão que tenho é que o que se escreve no Facebook são essencialmente comentários que buscam o simplismo, links para alguma coisa, autopromoção descarada, essas coisas. Parece haver uma busca pela frase definitiva, o aforismo “lacrador” que vai ser compartilhado mais vezes, o que por si só condiciona qualquer debate a pouco mais que uma batalha de slogans. Posts — hoje chamados “textões”, o que já indica a má vontade com que são vistos — nem são raros, mas sofrem de um mal inevitável: estão soterrados em uma imensidão de outros textões e textinhos. Não têm a dignidade que sua posição de destaque em um blog lhe dava. Mais que isso, o grande problema é que ao mesmo tempo outras 10, 20 pessoas estão escrevendo essencialmente a mesma coisa, com maior ou menor grau de raiva.

Eu não tenho muitas dúvidas de que o Facebook é um dos responsáveis pelo estado psicológico atual do mundo, pelo aumento da ansiedade, da irritação, da intolerância: para o bem ou para o mal, uma certa hierarquia de vozes se perdeu, e o resultado, ao menos por enquanto, é um mal-estar generalizado, um recrudescimento de confrontos que eram apenas latentes ou estavam disfarçados.

Mas o pior, mesmo, é que ele acabou com os blogs.

Este blog mesmo “acabou” em 2010, e não pode culpar as redes sociais; tinha virado uma obrigação que passava a me incomodar, porque já não fazia tanto sentido. O fato de saber que há leitores exerce uma influência que pode ser positiva ou deletéria, porque por mais que a gente negue isso lhe obriga a escrever, de certa forma, e é positiva quando você está com vontade e deletéria quando o saco está cheio. Além disso, depois de quase dois mil posts é meio difícil achar algo que lhe interesse e que você não tenha escrito. Os comentários razoavelmente despretensiosos sobre quaisquer bobagens que eu fazia aqui no começo começaram a parecer insuficientes, à medida que gente que se levava mais a sério, com mais gana, começou a escrever o que eu teria escrito.

Finalmente, a “facebookização” do debate, o crescimento do processo de “guetização” impulsionado pela ascensão desses movimentos identitários de todos os tipos, quase invariavelmente infantilizados, ajuda. Dia desses teve uma passeata da mulher negra. Uma moça disse que, se você não fosse negra, que ficasse em casa. Tem discussão possível nesse caso? Eu não tenho tempo nem estômago para esse tipo de debate. Na verdade, não tenho mais para quase nenhum, nem os bons. Os tempos em que eu me divertia com as pseudo-feministas passaram.

Mas a verdade é que, depois de tantos anos, ele tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho (ou pelo menos até eu morrer, se é que vou morrer um dia, e deixar de reservar o domínio); às vezes com um texto, às vezes não. Não acho que precise de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom; a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de minha história.

De volta aos manuais Disney

Eu sabia que não ia resistir quando vi o anúncio do relançamento do Manual do Escoteiro Mirim pela Abril, no ano passado. Sabia que ia comprar, porque esse foi um daqueles livros inesquecíveis da infância.

Em primeiro lugar um choque: descobri que minha vida era uma fraude, sempre foi uma fraude, eu vivi os últimos 40 anos numa grande ilusão. O Manual do Escoteiro Mirim que tive era a terceira edição, disso eu sempre soube; o que não sabia é que, para a Abril, uma nova edição significa relançar coisa velha mas mutilada, com várias páginas a menos. O manual relançado agora, em capa dura e papel reciclado (o meu era uma brochura com capa em couchê casca de ovo), tinha mais matérias que o que li e reli até que suas páginas se desfizessem. Ainda pior que algumas das matérias omitidas dissessem respeito ao mar, à navegação e a piratas.

Aquela foi a primeira vez que a editora Abril, aquela que mais tarde ajudaria a destruir o jornalismo brasileiro com uma certa revista semanal de informação que ela alega ser a quarta maior do mundo, passou a perna em mim. Passaria mais vezes depois, mas eu sou mulher de malandro, não tenho vergonha na cara. E como toda mulher de malandro, esperando Madalena voltar do mar, nem espero ela chorar o meu perdão, vou esquentar seu prato e abro meus braços para ela.

Por isso eu rezo em segredo para que, quando relançarem o Manual do Zé Carioca, que seja a 2ª edição, editada em 1978 para aproveitar a Copa da Argentina. Foi essa a que tive. E, sinceramente, não preciso descobrir agora, depois de velho e com o fígado bambeando, que o manual original de 74 tinha mais matérias do que as que li.

Além disso, são fac-símiles ma non troppo. As lombadas, que eram abauladas, agora são retas, e o papel (com exceção do papel agora reciclado do Manual do Escoteiro Mirim, um desdobramento quase lógico) é de melhor qualidade. A capa do Magirama, antes texturizada e fosca, agora é lisa e brilhante. Atividades que foram descritas normalmente agora trazem notas de rodapé informando aos retardadinhos que eles precisam da supervisão de um adulto — é nisso que deu a evolução? Vocês se tornaram incapazes de fazer coisas que seus pais e avós faziam tranquilamente? —, e uma receita que levava álcool foi modificada. Os manuais precisaram ser adaptados a um mundo mais complexo.

À parte minha revolta com as práticas da editora, a verdade é que continuo achando que aqueles manuais eram pequenas enciclopédias fantásticas. Ainda lembro do impacto que o Manual do Escoteiro Mirim — mesmo com tantas páginas omitidas canalhamente pela editora — causou em mim, menino de cidade que, de repente, aprendia como andar no mato, identificar pegadas, escalar árvores e ler mapas.

Por isso eu sabia que ia comprar o danado do manual.

O que eu não sabia é que iria comprar cada um dos que seriam relançados em sua esteira; mas devia saber, porque meu respeito profundo a esses manuais está documentado neste post; e isso vale mesmo para aqueles que não me dizem nada porque não os tive, como o Manual do Tio Patinhas, do Professor Pardal ou do Mickey. Além desses, três manuais que tive e que foram importantes, o do Peninha sobre jornalismo, o Magirama sobre mágicas e truques de salão e o da Vovó Donalda sobre culinária (isso antes dessas coisas gourmet tão na moda, quando cozinhar era basicamente garantir comida decente na mesa, e não sobrevalorizar o medíocre como parece ser a norma hoje), mereciam um olhar saudoso. Agora, para mim, só falta relançarem três outros manuais: o do Zé Carioca sobre futebol, o dos Jogos Olímpicos sobre Olimpíadas com o Pateta, e o da Televisão, sobre, bem, televisão. O Autorama eu tenho, comprei num sebo uns 10 anos atrás para repor aquele que havia comprado em 1978 mas que me roubaram logo depois — fui passar férias em Aracaju e quando voltei o danado não estava lá. Vai ver é por isso que nunca liguei muito para carros: não deu tempo de reler o manual várias vezes.

De qualquer forma, até agora esse era um respeito, digamos, retrospectivo, quase um passar de mão condescendente na cabeça da criança que fui tantas décadas atrás. Porque o ponto de partida de qualquer julgamento que eu pudesse fazer era o quanto foram importantes para mim, e só por isso podia haver certa dúvida. Talvez eles não fossem tão bons assim, talvez fosse a minha memória cumprindo o seu papel de edulcorar o passado, o único papel decente que a memória pode ter.

Por isso, em primeiro lugar reler esses manuais é um reencontro com deslumbramentos antigos. O mais agradável não é tanto ler aquilo de que eu lembrava: a verdade é que nada supera a sensação de rever um texto ou uma ilustração de que eu já tinha esquecido, porque isso revive, ainda que por um átimo, o que senti naquele momento.

Mas é lendo os manuais que não tive, como o do Mickey e o do Pardal, que minha admiração por eles cresce. Os manuais mostravam de maneira simples, fácil, como era o mundo que me aguardava. Ofereciam um mundo diverso de informações, selecionadas com critério e uma seriedade que, vendo com a distância de mais de quatro décadas, me impressionam. Por exemplo, essa previsão no Manual do Pardal, de 1973:

Em futuro próximo, o aparelho de TV poderá estar ligado uma grande loja de cassetes. A pessoa então escolherá, entre milhares de títulos, simplesmente discando um determinado num teledial. A videofita escolhida aparecerá na tela, dentro de casa, e a conta virá no fim do mês, junto com a do gás ou da luz

35 anos antes, o Manual do Pardal descreveu a Netflix.

Claro, nada disso era exatamente algo do outro mundo. Não passava muito da simplificação de ideias até velhas entre estudiosos e futurólogos, nada que uma revista tipo a Popular Mechanics não previsse uns 20 anos antes. Mas só o fato de transmitir essa informação para crianças, de maneira perfeitamente compreensível, era algo fantástico. Milhares de bacuris brasileiros passaram a entender melhor o mundo em que viviam, as coisas que nos rodeavam, e acima de tudo as possibilidades que nos eram oferecidas.

Os manuais significam também uma consciência melancólica de que o seu tempo passou. Alguém poderia se perguntar por que, em vez de editar material novo para as crianças de hoje, a Abril prefere reimprimir material de quase meio século atrás, mirando no público de anciães como eu, que buscam um passado que já se foi há mais tempo do que gostariam de admitir. Deve haver uma razão para isso. E eu acho que ela é simples: porque as crianças deste século — que um dia achei que usariam roupas prateadas enquanto veraneavam em Marte — provavelmente não se interessariam por isso, porque não há mais necessidade desses “digests” da informação que encontram com abundância na internet.

Isso não é ruim. Mas tampouco é bom. Mais do que ninguém, eu sei que brigar com a evolução é perda de tempo. O que não me impede de sentir uma certa melancolia por isso.

Atavismo

Acabei de achar uma tese de doutorado que cita uma carta, de 1879, em que a Condessa de Barral conta os progressos do meu trisavô ao avô dele. “A carta é destinada a um amigo da Província de Sergipe, no norte do Brasil, e trata do ‘jovem V. Galvão’, que, sob os cuidados da escrevente, estuda em um internato francês”

Considerando que a Condessa de Barral era amante de D. Pedro II, e levando-se em consideração a proximidade dela com o jovem Valois Galvão, a conclusão é lógica e esperada, quase óbvia para quem conhece a história passada, e graças a Deus superada e esquecida, dessa família: esses Galvão sempre foram chegados numa quenga.

Joffre

E daí que hoje eu lembrei do velho Joffre Galvão, que há muito, muito tempo, dois anos antes de morrer, me disse: “Rafa, se eu não foder, vou fazer o quê da vida?”

E eu bebo uma garrafa de vinho em homenagem ao velho Joffre, que não bebia.