The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years

Estou impressionado com o fato de The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years, de Ron Howard, estar sendo considerado por jornais no mundo inteiro — inclusive jornais que respeito como o Guardian — como um dos bons filmes do ano. Devem ter visto um filme que eu não vi.

Para quem acompanha a história dos últimos 25 anos de lançamentos em vídeo da Apple Corps., Eight Days a Week não traz novidades além de algumas imagens inéditas, incluindo uma versão porcamente colorizada do primeiro show nos EUA, em Washington. É a versão sanitizada e embelezada que os Beatles decidiram deixar para a posteridade, um filme superficial que apenas reconta pela milésima vez a versão oficial.

É uma oportunidade desperdiçada. Com um pouco mais de rigor Eight Days a Week poderia fazer uma análise da evolução — ou retrocesso — da banda na estrada. Poderia lembrar, por exemplo, que em 1966 as pessoas já não lotavam completamente os grandes estádios que uma banda que já não fazia sequer questão de tocar certo encarava com enfado e às vezes medo.

Em vez disso Eight Days a Week tenta cumprir o seu papel na mitificação absoluta banda, enfatizando, por exemplo, a sua recusa em tocar para audiências racialmente segregadas. É talvez o único ponto positivo do filme, ao lembrar que ao contrário do silêncio de praxe que eram obrigados a fazer sobre questões polêmicas, como a guerra do Vietnã, os Beatles se pronunciaram ativamente contra a segregação nos EUA. Obviamente, tudo é tão inflado que às vezes passa a impressão de que a segregação só acabou porque os Beatles queriam.

Um documentário decente sobre esse período jamais poderia deixar de dar ao menos um vislumbre do lado negro, pouco recomendável das turnês. Das autoridades locais que eram obrigados a bajular, as pequenas humilhações a que precisavam se submeter. Ou, principalmente, das orgias de sexo e drogas que tinham lugar nas excursões e a que Lennon se referiu em sua fase iconoclasta, e que ele definiu como uma cena de “Satyricon”. Dos “pedágios sexuais” que tietes pagavam a roadies e managers para terem uma chance de dormir com os seus ídolos — naquele momento, para aquelas pessoas, eles eram os reis do mundo, mais famosos que Jesus Cristo, e a fé requer sacrifícios. Faltam até mesmo anedotas clássicas, como George Harrison na Mansão Playboy levando duas coelhinhas para o quarto — o rapaz tinha bom apetite.

O filme sequer menciona Jimmy Nichol, o baterista que substituiu Ringo, doente, em alguns shows na Austrália. A essa altura, acreditando piamente na versão que vieram construindo ao longo dos últimos 45 anos, Ringo sequer deve se lembrar do medo que sentiu ante a possibilidade de ser substituído, como Pete Best. A julgar pelo filme, esse medo nunca existiu porque ninguém jamais ouviu falar de Pete Best.

Esse é o problema mais grave desse conto de fadas póstumo: a tentativa de obliteração total da presença de Pete Best, seu primeiro baterista, da história da banda.

We love Preludin!Pete Best foi defenestrado em agosto de 1962, quando George Martin, depois do primeiro teste na Parlophone, avisou que iria usar um baterista de estúdio nas gravações. A história diria que a banda tomou essa decisão porque Best não combinava com aquele monstro de três cabeças que, naquele momento, eram John, Paul e George; porque Ringo era melhor baterista; e porque havia algum tempo que eles queriam tê-lo na banda.

Tudo isso é verdade; mas não foi o fator determinante. Os Beatles chutaram Pete — sem sequer terem a decência de falar isso a ele: confiaram a tarefa a Brian Epstein — porque entenderam que naquele momento ele estava atrapalhando o seu caminho para gravar um disco. Botaram o coitado para fora para poder entrar no mercado fonográfica, e dificilmente o teriam expulso se não houvesse aparecido a oportunidade. Lennon e McCartney não podiam vender a mãe porque elas já tinham morrido; venderam Pete Best.

Mean and moody.Ao negar a Pete Best seu papel na história dos Beatles e ignorar a sua existência, ou admitir esse ponto ético tão baixo, Eight Days a Week falseia a história dos Beatles. Porque Best era quem estava nas baquetas quando os Beatles definiram sua formação definitiva (bateria, um baixista canhoto e dois guitarristas) e desenvolveram o seu estilo, tocando oito horas por dia em Hamburgo. Foi ele quem passou por todo o processo de aprendizado ao lado de John, Paul e George (e de Stu Sutcliffe, também deixado de lado pelo filme). Não interessa o que digam agora: Best era tão beatle como Lennon ou McCartney, para todos os efeitos. Foi em protesto contra a sua saída que os fãs no Caverno deram a George o olho roxo que ele ostentou envergonhadamente na gravação de Love Me Do.

As pessoas vivem perguntando quem é o quinto beatle. A resposta é simples: Ringo. O quarto foi Best.

Pete Best foi um dos primeiros cadáveres que os Beatles deixaram ao longo da estrada em sua caminhada muitas vezes implacável em busca do sucesso; depois viria Mal Evans, e Brian Epstein morreu pressentindo que seria mais um deles.

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Agora eu sou assim...Acompanha o filme uma nova edição do Live at the Hollywood Bowl. O disco lançado à revelia da banda em 1977 (para enfrentar o lançamento, pela Lingasong, do The Bealtes Live! at the Star-Club in Hamburg, Germany; 1962), tinha 13 faixas com canções gravadas em três shows diferentes, em 1964 e 1965, e uma capa elegante e simples. A reedição, naturalmente remasterizada, traz quatro faixas bônus, é apresentada mais ou menos como a trilha do novo filme e traz uma nova capa, a mais medíocre de toda a história da banda.

Apesar da remasterização ser excelente e o disco soar muito melhor agora, é um lançamento insuficiente em 2016. Dá para entender a escolha feita por George Martin em 1977, diante das limitações técnicas. Mas um relançamento do Hollywood Bowl, para fazer sentido hoje, poderia incluir os três shows na íntegra; até mesmo o de 29 de agosto, em que houve graves problemas com os microfones. Se você quiser ouvi-los, procure por The Beatles – The Complete Hollywood Bowl Concerts nas redes da vida.

Se preferir ver os meninos em ação, no YouTube alguém fez o impossível: juntou fontes diversas e criou um filme do show inteiro.

...Mas eu era assim.Mas uma solução ainda melhor seria fazer um novo disco, uma trilha real e adequada para acompanhar o filme. Algo mais abrangente, que cobrisse toda a trajetória dos Beatles em shows ao vivo.

O disco que eu faria seria simples. Começaria com uma gravação de Baby Let’s Play House, feita no dia em que Lennon conheceu McCartney. Algumas gravações feitas em 1960 na casa de McCartney, como Hello Little Girl e I’ll Follow the Sun. Passaria para uma seleção de canções gravadas no Cavern em 1962: Kansas City, Catswalk, One After 909 e uma preferida minha, um ensaio de I Saw Her Standing There com John na gaita. Algumas faixas do Star Club, cujas gravações agora pertencem a eles. Depois, o show no London Palladium que marcou o início da Beatlemania. Daí para gravações do primeiro show nos EUA, e uma série de canções das tantas e tantas turnês de 1964 e 1965 — de preferência aquelas que nunca tenham aparecido em disco oficial, como If I Fell; incluiria, claro, Lennon insultando a audiência, como em Atlanta. Em seguida, algumas gravações dos shows no Budokan, no Japão, e canções do Candlestick Park, o último show da última turnê dos Beatles. Incluiria então as versões de Revolution e Hey Jude apresentadas na TV inglesa, e terminaria com os takes não usados do show no telhado.

Na verdade qualquer um pode montar esse disco, ou um mais adequado às suas próprias preferências. Todo esse material está disponível na internet. É o que faz esses lançamentos da Apple menos frustrantes. Por mais inepta que seja a maneira como estão lidando com o material disponível — por exemplo, adiando ao máximo o lançamento do Let it Be, ou deixando de seguir a minha sugestão e dar o material bruto para o Scorsese fazer outro filme —, a internet nos redime.

Uma pequena bibliografia dos Beatles – edição definitiva

Ao longo dos anos publiquei neste blog algumas versões de uma pequena lista de livros fundamentais para entender os Beatles. Com o lançamento de All Those Years: Tune In, a lista mudou mais uma vez. Esta deve ser a última.

All Those Years: Tune In
Mark Lewisohn
A mais aguardada na história das biografias dos Beatles é também a melhor e mais completa, talvez definitiva. Um trabalho hercúleo de pesquisa e de checagem de fatos, é infelizmente uma obra ainda em andamento: este é apenas o primeiro volume (com mais de 800 páginas, além de uma versão especial estendida, imensa, para colecionadores) de uma trilogia — os próximos volumes, imagino, se chamarão Turn On e Drop Out. Uma análise um pouco mais aprofundada do livro está aqui.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações pelo seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, o livro mais acurado que já se escreveu sobre elas. Imediatamente se tornou uma bíblia para os beatlemaníacos, o livro a que se recorria para dirimir dúvidas. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações que mostrou lacunas e erros no livro. Ainda assim ele continua sendo imprescindível para a compreensão rápida do dia-a-dia dos Beatles, e importante para que se entenda o processo que fez da banda a maior de todos os tempos.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado pouco depois do Complete Beatles Recordings, é basicamente um diário das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida do que no livro anterior, e também um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, canções tocadas ao longo dos anos, etc. Traz também bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) —, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, e certamente uma fonte inestimável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua própria história, a sua versão edulcorada e consolidada para a posteridade. Além disso é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso? Está disponível em português.

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko), e este é um relato de insider. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor: as chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas e ciumeira internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ler um só, é um daqueles necessários para que se tenha uma visão mais completa, menos romantizada da história da banda.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do “Notícias Populares”, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por virtualmente todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido — Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados, inclusive pela própria Yoko. É também um bom mergulho na personalidade complexa de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que o ídolo que ele tenta destruir aqui era uma mistura única e fascinante de carisma e talento gigantescos e uma personalidade singular e muitas vezes detestável. Se lido com atenção e cautela, é um livro importante. Um pouco mais sobre ele pode ser lido aqui.

Here, There and Everywhere
Geoff Emerick
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de Revolver, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu bem, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está nesta lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor que Martin o seu papel real na história, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir desnecessária e injustamente o ex-patrão.

Beatles Gear
Andy Babiuk
Uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação — indo do Zenith de McCartney e o violão “garantido contra rachaduras” de Lennon ao Moog usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender como se materializava a música dos Beatles, e principalmente a relação deles com seus instrumentos. Incidentalmente, é um dos livros que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente é um livro de Barry Miles, mas isso é apenas disfarce para uma autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. Mas é uma fonte primária, assim como o Anthology, de modo geral bem honesto, e apesar de tudo abrangente e bem detalhado, fundamental para a compreensão da história dos Fab Four.

You Never Give Me Your Money
Pete Doggett
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contra-processos posteriores. Cobre uma grande lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro compreende muito bem a evolução histórica dos Beatles, tem um excelente nível de imparcialidade e boa apreciação musical. Sua única grande falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livro importante para entender o processo de separação da banda. Foi lançado recentemente no Brasil.

Revolution In The Head
Ian McDonald
Deixei esse livro de lado nas versões anteriores desta lista porque, embora universalmente incensado, sempre me pareceu tendencioso e incompleto, com algumas teorias meio estranhas; o próprio McCartney esculhambou recentemente McDonald, basicamente dizendo que ele não sabia do que falava. Mudei de ideia porque percebi que essa era uma visão elitista: para a maior parte das pessoas, Revolution in the Head é fundamental para conhecer as canções, sua história e seus significados, além de quem toca o quê em cada canção.

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Além dos livros acima, há uma série de livros importantes que não foram incluídos por interessarem mais a beatlemaníacos exagerados. Enquanto os volumes restantes do All These Years não chegam, Shout!, de Philip Norman, e The Beatles de Bob Spitz ainda são necessários (falei sobre eles nas versões anteriores desta lista). The Beatles, de Hunter Davies, foi a primeira biografia de verdade da banda, definiu a sua história oficial e foi a mais completa até o lançamento de Shout!. Mas não apenas é extremamente sanitizada como chega a insistir em mentiras deslavadas, como as verdadeiras razões pelas quais Lennon espancou Bob Wooler na festa de 21 anos de McCartney; seu valor é meramente histórico. Get Back: The Unauthorized Chronicle of the Beatles “Let It Be” Disaster, de Doug Sulpy, é bem interessante e vale a pena ser lido. A Cellarful of Noise, de Brian Epstein, é uma fonte primária, mas tão ou mais mentirosa quanto o livro de Davies; em termos de relatos em primeira pessoa, John, Paul, George, Ringo and Me: The Real Beatles Story, de Tony Barrow; With The Beatles, de Alistair Taylor; e até mesmo As Time Goes By, de Derek Taylor, são melhores. Lennon é objeto de uma série de biografias que dão um bom perfil do artista. John Lennon: The Life, também de Norman, é uma boa biografia, ainda que sem nada de realmente importante; The Last Days of John Lennon: A Personal Memoir, de Fred Seaman, baseado nos diários que o autor roubou de Lennon, é limitado no tempo, cobrindo apenas seu último ano e meio, mas muito bom e equilibrado; A Twist of Lennon e John, de Cynthia Lennon, são importantes, e John Lennon: In My Life, de Pete Shotton, é excelente. All You Need is Ears, de George Martin, merece ser lido, claro, mas é bem inferior ao que poderia ser. Há hoje em dia uma série de biografias de McCartney, como McCartney de Chris Salewickz, McCartney: A Life, de Peter Carlin Ames e Fab: An Intimate Life of Paul McCartney, de Howard Sounes mas todas soam incompletas; delas, a melhor é a de Sounes. Está prevista para este ano uma nova biografia escrita por Philip Norman; como ele detesta seu biografado talvez traga algo realmente novo, mas é difícil. O mais provável é que, até que McCartney morra, dificilmente veremos uma biografia de qualidade, profunda e equilibrada como a de Peter Guralnick sobre Elvis Presley. Além disso, faltam boas biografias sobre George Harrison e Ringo Starr — no caso de Harrison, não custa ler sua autobiografia, I Me Mine. Finalmente, Recording the Beatles: The Studio Equipment and Techniques Used to Create Their Classic Albums, de Kevin Ryan e Brian Kehew, é um livro fascinante que, infelizmente, ainda não li: custa 450 dólares. Mas parece ser inestimável, e mesmo sem ler eu teria colocado na lista acima se não fosse excessivamente técnico.

 

Sir George Martin

O que mais chama a atenção nos obituários de George Martin publicados hoje são uma omissão insignificante e a maneira como insistem em uma mentira que, de tão repetida, foi verdade durante muito tempo.

A mentira está até mesmo na matéria do New York Times, assinada por um sujeito que realmente entende do assunto, Allan Kozinn. Ele começa repetindo essa história falsa, chamando o recém-finado de “the urbane English record producer who signed the Beatles to a recording contract on the small Parlophone label after every other British record company had turned them down”. É uma narrativa que vem dos tempos em que a máquina promocional de Brian Epstein e Derek Taylor consolidava a história oficial da banda.

A verdade é que Martin não contratou ninguém: os Beatles lhe foram impostos pela Parlophone. Felizmente Kozinn corrige o erro do parágrafo inicial mais adiante, narrando corretamente os fatos e esquecendo apenas de mencionar a verdadeira razão da contratação. Mas os outros jornais e sites continuam repetindo o mito do George Martin que apostou nos Beatles quando todo mundo lhes voltava as costas.

Em 1962 Martin estava com sérios problemas pessoais. Seu casamento estava naufragando e ele mantinha um caso com sua secretária, Judy, com quem ficaria casado até ontem. Embora responsável pelo A&R da Parlophone, as complicações decorrentes dessa situação familiar não lhe permitiam elevar muito a voz em questões do tipo.

Em The Complete Beatles Recording Sessions, de 1988, Mark Lewinsohn já tinha apontado a discrepância entre os documentos existentes e a versão oficial: o contrato dos Beatles fora assinado no dia 4 de junho de 1962, dois dias antes da famosa primeira audição. Na época ele imaginou que fosse um erro de datilografia. Mas há alguns anos, no primeiro volume de All Those Years, sua biografia definitiva da banda, Lewisohn juntou os dados que faltavam e mostrou que não foi erro: apesar do que Martin repetiria até a morte, ele não desempenhou absolutamente nenhum papel na contratação da banda.

A contratação teve relativamente pouco a ver com as qualidades musicais dos Beatles: Brian Epstein era um dos principais revendedores de discos do norte da Inglaterra, e jogou seu peso comercial para conseguir o contrato. Martin sequer julgou necessário estar presente à tal primeira audição, no dia 6 de junho, mandando seu assistente em seu lugar. O assistente gostou do que ouviu e insistiu para que ele fosse até lá; incidentalmente, isso selou o destino do baterista Pete Best, pobre Pete Best.

Ao longo dos anos, o papel de George Martin na trajetória da banda foi inflado injustamente; ele jamais seria o “quinto beatle”, como querem agora os obituários, porque não existe essa figura. Os Beatles sempre se viram como uma unidade monolítica diante do resto do mundo, o “monstro de quatro cabeças” como dizia Mick Jagger; e quando Lennon mudou de ideia e quis empurrar um certo niguiri goelas dos outros abaixo, a casa caiu.

Além disso, às vezes se tem a impressão de que os Beatles eram apenas a mão de obra que realizava as ideias de Martin; sobre isso eu já escrevi há muito tempo, aqui.

Nada disso tira os méritos e a importância de George Martin na história dos Beatles.

Ele foi o homem ideal para uma banda excepcional. Compreendeu como poucos o verdadeiro papel de um produtor: tirar o melhor possível de um artista, valorizando sem modificar a sua música. Um sujeito mais autocrático e com ideias próprias de como os outros devem soar, como Phil Spector, poderia ter destruído aqueles Beatles ainda verdes no estúdio. Ao contrario, respeitando a banda Martin possibilitou que ela florescesse. Soube sair do seu caminho, e estar presente quando a banda precisava. Também conseguiu adaptar seu papel de acordo com a evolução dos Beatles: serviu como guia nos primeiros tempos, e mais tarde, diante de um grupo cada vez mais ambicioso e inovador, consciente de suas possibilidades, deu materialidade a suas ideias. Talvez isso se deva mais ao talento absurdo e à força comercial dos Beatles do que às qualidades de Martin; o que importa, mesmo, é que a foto que ilustra este post (tirada em 1969, nas sessões do Abbey Road) mostra uma cena impensável antes de 1965.

O lugar de George Martin na história da música pop está assegurado há muito tempo. Talvez por isso tenha passado batido uma omissão curiosa nesses obituários: foi Martin quem definiu o som definitivo das canções de abertura dos filmes de James Bond, ao realizar a gravação magistral de Goldfinger com Shirley Bassey para “007 Contra Goldfinger”. É um detalhe bobo, uma nota de rodapé sem importância de que ninguém parece lembrar.

E enquanto ouço pelo milionésima vez A Day in the Life, acho que sei por quê.

Get Back, again

Então você acorda e dá de cara com esse novo clip dos Beatles.

Ele apenas parece a sequência original do filme Let it Be. Mas é a versão do Let it Be… Naked, que mistura os dois takes gravados no concerto do telhado. Embora eu prefira a versão original do filme, com Lennon naturalmente esquecendo a letra, este vídeo é fantástico — a dancinha de McCartney, por exemplo, é imperdível. Acima de tudo, tem um número enorme de cenas inéditas. E a qualidade da imagem é insuperável.

Mais que isso, ele faz pensar.

Descontando o disco Live at the Hollywood Bowl, que os Beatles tiraram de catálogo, o filme Let it Be é o último grande relançamento restante para a banda. Todos os outros já foram lançados em DVD ou BluRay; seus discos foram remasterizados; novas gravações vieram à luz do dia nos últimos 21 anos. Por isso, durante muito tempo acreditei que deveriam relançar o filme no formato 4:3 como foi gravado, acompanhado de um disco com extras, cenas que ficaram de fora, etc.

Eu estava errado. Ou melhor, não percebia que algo muito melhor era possível.

O fato é que Let it Be é horroroso. No fim das contas, em nenhum momento o diretor Michael Lindsay-Hogg consegue construir uma narrativa coerente: o que temos é basicamente um amontoado de cenas, praticamente sem nexo narrativo, seguindo de maneira frouxa e inconsequente uma certa ordem cronológica. É quase como se ele tivesse abdicado do papel de diretor.

Não foi culpa exclusiva dele. O clima caótico entre os Beatles não colaborava; e para piorar, a banda praticamente abandonou o projeto. Mesmo McCartney, que se envolveu um pouco mais, esteve distante. O primeiro copião tinha uma hora a mais e continha um bocado das discussões internas entre eles (você pode encontrar muitas delas aqui, um dos sites mais pungentes sobre a banda). Mais tarde o filme foi reeditado para tirar a lavagem de roupa suja. Como se não fosse o bastante o filme, que tinha sido filmado em 16mm para a TV, foi expandido para 35mm e teve que ser cortado para se adaptar ao formato final, 1.66:1. Não deve ter sido fácil. Mesmo assim, diante de tanto material, pode-se especular que um diretor um pouco mais experiente, por medíocre que fosse, poderia ter feito um trabalho minimamente coerente.

Esse clip de Don’t Let Me Down me mostrou o óbvio: em vez de perder tempo tentando a salvatagem dessa tragédia, há material suficiente para que se faça um novo filme. Um que estabeleça melhor as três fases da história e conecte-as de forma mais orgânica: ensaios no estúdio Twickenham, gravações no estúdio da Apple, show no telhado. Bem dirigida, essa progressão poderia mostrar a evolução do clima entre eles (que odiaram gravar em Twickenham, gelado em todos os sentidos, e uma das condições estabelecidas por Harrison para voltar à banda foi a mudança para os estúdios da Apple; junto com a chegada de Billy Preston, isso contribuiu para que o astral geral melhorasse, levando à apoteose de entrosamento e bom humor que se vê no telhado).

Os lançamentos da Apple Corps. nas últimas décadas são um indício forte de que há muito material de qualidade nas suas estantes. O farto material disponível em bootlegs é a prova definitiva. O novo filme poderia incluir as tantas e tantas gravações de clássicos do rock, de velhas canções (esse take de Love Me Do, que eu utilizaria para fechar o filme, é ótimo).

Eu chamaria esse filme de Get Back. E pediria a Martin Scorsese que o dirigisse. Tenho a impressão de que Scorsese faria até de graça.

Mas é improvável que esse material seja lançado algum dia, ou pelo menos enquanto os Beatles restantes estiverem vivos. O filme original já foi restaurado há mais de 20 anos, e mesmo assim jamais foi lançado. Dificilmente será, enquanto McCartney, Starr e Ono estiverem vivos. Para os sobreviventes desse naufrágio, 45 anos depois Let it Be ainda é incômodo, talvez dolorido.

É uma pena. A trajetória dos Beatles já entrou para o domínio público da cultura pop. Uma versão estendida e melhorada apenas acrescentaria grandeza a uma história mítica, e encerraria uma saga que, quase meio século depois, ainda continua. Paul, Ringo e Yoko apenas deviam deixar estar.

O sonho acabou

E daí que eu parei e me veio uma imagem na cabeça: Paul McCartney, Bob Dylan, Keith Richards e Mick Jagger. Os últimos. Um olhando para o outro, todos pensando: “E aí? Quem vai ser o próximo?”

De como Heather McCartney destruiu os Beatles em apenas 9 minutos

E você aí falando besteira, dizendo que foi Yoko Ono quem acabou os Beatles.

Mentira, mentira canalha. Quem acabou a banda foi Heather McCartney, no dia em que algum insano deu um microfone para ela durante as gravações do Let it Be.

Um bebê que assim daria à sua mãe motivo real para infanticídio com requintes de crueldade, e seria absolvida por qualquer juiz do mundo, absolvida até pelo Papa Francisco. Ainda hoje não sei como George Harrison não se levantou e bateu em Heather com o seu guitarra até que restasse apenas uma papa ensanguentada no chão, gritando palavras incompreensíveis em chinês, babando com olhos vítreos.

Enquanto isso Lennon, que queria ver o circo pegar fogo, encorajava Heather: “Come on, Heather! Come on, Heather!” Ou talvez ele estivesse apenas chapado, ou então tenha visto na menina uma digna seguidora de Yoko. “Essa menina vai longe…”

Eu não sei. Mas tenho certeza de que foi ali, nesse dia, que os Beatles acabaram. E então a pobre Yoko, vítima de uma campanha canalha levou a pecha que deveria recair sobre aquela menina lourinha de 6 anos.

Yoko Ono and her Beatles

No dia 10 de janeiro de 1969, diante das câmeras que filmavam o que viria ser o filme Let it Be, Paul McCartney e George Harrison discutiram. George, cansado de ser guiado por Paul em I’ve Got a Feeling, mas apenas deixando transbordar anos de ressentimento, disse que tocaria como Paul quisesse, ou simplesmente não tocaria, era só McCartney dizer.

A discussão continuou no horário de almoço, na cantina do estúdio, e se agravou ainda mais. Finalmente George empacotou sua guitarra. “Vejo vocês nas boates”, disse ele, e foi embora decidido a nunca mais voltar.

Sozinhos, os Beatles restantes iniciaram a tarde com uma jam session. Era apenas barulho, os três maltratando seus instrumentos e descontando neles a frustração que vinha se acumulando desde as gravações do Álbum Branco, e que agora chegava ao ápice com o aparente fim da banda como ela era. Curiosamente era talvez a coisa mais heavy que os Beatles já tinham feito.

E então Yoko Ono se sentou no lugar de George e pegou seu microfone, certamente atenta a tudo o que isso simbolizava. O que se seguiu foram alguns minutos de loucura sonora. Enquanto Yoko grita histericamente, realizando o seu conceito de arte e de música tendo como banda de apoio nada menos que o maior grupo do mundo, Ringo bate alucinadamente em sua bateria, John tenta manter uma base mínima, McCartney arranca o máximo de microfonia possível do seu Hofner. Yoko é a única que sorri no que para os outros é apenas uma catarse, feliz por ter uma chance secretamente acalentada e sempre negada.

Mais tarde, já sem McCartney, a jam degringola ainda mais, restrita a um Lennon aparentemente chapado de heroína brincando de fazer microfonia e Ringo Starr tocando uma bateria deslocada no tempo e no espaço.

Senhoras e senhores, eis um momento antológico dos Beatles, e o que é talvez seu ponto mais baixo.

Beatles 65

Alguns anos atrás, o apartamento onde eu morava pegou fogo. História resumida, ele ficou desabitado por alguns meses, até que questões de seguro fossem resolvidas, reformas fossem feitas e ele se tornasse habitável de novo. Nesse meio tempo um vazamento inundou o quarto onde ficavam livros e discos. Estragou alguns livros, muito poucos, mas os discos ficavam no chão e pegaram o pior de tudo aquilo. Quando vi o estrago, e peguei nos discos, as suas capas grudadas se soltavam como peles de leprosos. Desisti de separá-los e limpá-los e os guardei assim mesmo.

Demorou anos até que eu tivesse coragem de olhar os discos novamente. Olhei apenas uns meses atrás porque um amigo queria ouvir os vinis dos Anthologies e do Live at BBC dos Beatles. Eu não tenho tara por vinil, nunca tive. Melhor invenção do mundo foi o .mp3. Mas eu gostava do que tinha, principalmente porque faziam parte de uma época em que eu queria ter tudo dos Beatles.

Como eu imaginava, muita coisa se perdeu. E algumas perdas doem muito. Uma caixa com as gravações completas de Sinatra e Dorsey. Um LP raríssimo de Louis Armstrong. Uma caixa de Hoagy Carmichael. E as capas de tantos discos: do Live at the Hollywood Bowl, dos Anthologies e do Live at BBC. Mas nada doeu tanto, naquele momento, quanto perder as capas dos Anthologies. Três álbuns triplos, acho que lançados só na Inglaterra, e que eu tinha comprado por acaso em Roma, muitos anos atrás. O resto do mundo, na época, viu apenas os CDs, mas eu tinha orgulho dos meus LPs. Dois deles jamais tinham sido tocados; a eles, bastava existirem — perfeitos, belos, assim como o duplo Live at BBC.

Algumas boas notícias: discos que eu imaginava perdidos ficaram inteiros: o Decca Tapes, meu primeiro pirata dos Beatles. O Beatles Story, disco curioso que, na verdade, acho que nunca escutei inteiro. Um exemplar da primeira tiragem americana do Let it Be, com capa dupla e selo com maçã vermelha. A discografia brasileira original. Meus Magical Mystery Tour, ainda com os livretos — tanto os compactos originais quanto o LP pós-1976. Muita coisa manchada, com as marcas da água, mas acima de tudo muita coisa em estado aceitável, pelo menos.

E então bateu outro arrependimento.

Durante quase 15 anos, a discografia brasileira foi diferente da inglesa. Até o Help!, os discos brasileiros eram diferentes dos originais ingleses, tanto em capas quanto em ordem e número de faixas. Apenas a partir do Rubber Soul os lançamentos foram unificados.

E eu tinha todos eles. Todos menos um.

O “Beatles 65” era a versão brasileira do Beatles For Sale. Procurei por ele durante muitos anos, mas só fui achá-lo em 2005, na Baratos da Ribeiro. 20 real, se lembro bem. Comprei e fui dar uma volta em Copacabana com a Carol. Esqueci o disco num caixa eletrônico ao lado do Copacabana Palace, e quando voltei ele obviamente não estava mais lá. Esses cariocas são uns loucos, porque é preciso ser louco para roubar um disco vagabundo de uma banda que funkeiro carioca que se respeite jamais ouviria. E, claro, uns ladrões safados sem vergonha, uma ruma de filhos da puta que jamais mereceriam sequer o purgatório.

Em 2010, de volta ao Rio, achei novamente o disco, em outro sebo. Já não custava 20 real, custava 50. E como eu tinha perdido tudo nem me dei ao trabalho de pensar em comprá-lo — mas bem ali do lado tinha um “Canções Praieiras” do Caymmi, e eu acho esse um dos maiores discos da história da MPB.

Agora vejo que nem tudo estava perdido, que eu ainda tinha aqueles discos, e que naquele dia eu finalmente poderia completar a minha coleção.

Idiota, mil vezes idiota.

O tempo passou, eu não ligo mais para isso, os .mp3 e .flac no meu computador e no celular quebram meu galho — na verdade os .mp3 são o bastante, mas algumas coisas eu realmente só consigo baixar em .flac — e eu não tenho mais tempo para ficar admirando capas de disco. O último disco de McCartney que comprei foi o Run Devil Run, o último de Lennon foi a caixa Anthology, e lá se vão uns 15 anos, acho. Eu não compro mais discos. Cá entre nós, sequer ouço tanta música assim.

Mas lá no fundo fica a sensação de que está faltando alguma coisa, uma única coisa. E essa coisa é o “Beatles 65”.

Beatlemania em 2014

Durante oito anos, esperei pelo lançamento do livro que Mark Lewisohn estava escrevendo.

Lewisohn é o maior especialista em Beatles do mundo. É autor de dois livros fundamentais sobre a banda: The Complete Beatles Recording Sessions, recentemente relançado depois de uns 20 anos fora de catálogo, e The Complete Beatles Chronicle. Nos últimos 25, 30 anos, teve excelente acesso aos ex-beatles, a Yoko Ono e aos principais satélites da banda, como Neil Aspinall, George Martin, Derek Taylor e Tony Barrow.

Tudo indicava — eu, pelo menos, tinha certeza — que a biografia anunciada no começo da década passada seria uma obra fundamental, provavelmente definitiva. Demorou mais de oito anos até que ela ficasse pronta. Quando finalmente foi definida uma data de lançamento, o tamanho de All These Years: Tune In impressionava: mais de 800 páginas — e isso apenas cobria o período até 31 de dezembro de 1962, antes mesmo do início da beatlemania. Não havia mais dúvidas de que essa seria não apenas a mais abalizada, mas também a mais detalhada biografia da banda.

A pergunta que me faço agora é se o livro corresponde a expectativa tão grande e fatalmente injusta. A resposta é sim e não.

De longe, All These Years: Tune In é a melhor biografia dos Beatles já escrita, e merece todos os elogios possíveis. É abrangente e rigorosa. Lewisohn não parece sentir muito prazer com o texto em si, não se abandona em maiores aventuras estilísticas e parece deixar escapar chances demais de fazer seu texto mais atraente. Mas é um historiador competente e desce a detalhes inesperados. Tem a vantagem da absoluta isenção. É mais que óbvio que ele ama seus personagens e não os aborda com a iconoclastia regicida de um Albert Goldman, por exemplo; mas tampouco se abstém de relatar os fatos, mesmo quando pouco lisonjeiros, e claramente se esforça para manter um mínimo distanciamento como historiador. Evita explorar em excesso o lado negativo de seus biografados — o preconceito e a crueldade do Lennon adolescente, marcas que perdurariam por toda a sua vida, são mencionados algumas vezes, por exemplo, mas ele não faz disso um cavalo de batalha. Curiosamente não fez nenhuma nova entrevista com os ex-beatles — provavelmente por reconhecer que nem McCartney nem Ringo têm algo novo a dizer, e a esta altura já acreditam piamente nas versões que foram burilando ao longo de 50 anos.

O livro traz algumas revelações, como uma nova versão sobre o abandono de Lennon pelo pai, finalmente contada por alguém que também estava lá, e o uso de maconha por parte da banda anos antes do que se imaginava (dizia-se que foi Dylan quem os apresentou à marijuana). A mais curiosa diz respeito a uma das principais peças do folclore beatle: a de que o produtor George Martin tinha ficado impressionado com a banda durante uma audição e convencido a EMI contratá-los.

Em The Complete Beatles Recording Sessions, Lewinsohn já tinha notado que o contrato dos Beatles datava de dois dias antes do teste da banda: era de 4 de junho de 1962. Creditava essa discrepância a um erro de datilografia. Agora ficamos sabendo a verdade, e ela é surpreendente: Martin só ouviu os Beatles depois de contratados, e não teve papel nenhum nessa transação. Na época, estava às voltas com um caso extraconjugal com sua secretária (que viria a ser sua segunda esposa), com problemas financeiros decorrentes disso e não tinha condições de escolher muito. Ou seja: embora ele mesmo tenha recontado a história e se dado importância fundamental no processo de reconhecimento do talento dos Beatles, os Beatles lhe foram impostos goela abaixo.

De qualquer forma, não são revelações bombásticas que fazem as grandes qualidades de Tune In. A essa altura, há pouca coisa importante que se possa desenterrar sobre a banda — é até impressionante que uma informação dessas tenha conseguido escapar às centenas de livros escritos até agora, por mais de meio século. O que realmente importa é que isso não diminui a importância de Martin na realização da visão dos Beatles ao longo dos anos 60; apenas arranha um pouco a sua própria pompa.

A grande surpresa do livro é que, contrário do que eu e milhares de outros fãs esperavam, Tune In não esgota o assunto. Sim, ela é a biografia mais completa já escrita, e certamente a mais rigorosa em termos de checagem de fatos; no entanto, tem-se a impressão de que Lewisohn poderia ter tentado elaborar melhor algumas análises, e apresnetar uma visão mais abrangente sobre elementos menos factuais da banda. Em “The Beatles”, de Bob Spitz, aspectos mais intangíveis da vida familiar de McCartney, principalmente após a morte de sua mãe, são mais bem delineados, e você entende melhor não apenas a dinâmica íntima dos Mohin/McCartney, mas também a leve superioridade com que McCartney olhava a vida familiar de Lennon. A reação de John à morte de sua mãe — Julia tinha ido “devolver” John a sua irmã Mimi, porque seu marido tinha perdido o emprego por dirigir bêbado e John não poderia mais ficar tanto tempo lá — é apresentada aqui de maneira quase lacônica e não acrescenta nada ao que já se sabia. Ao contrário, pode-se encontrar melhores descrições em outros livros.

Durante oito anos, achei que essa seria a mãe de todas as biografias. De certa forma ela é. É indispensável para fãs, repleta de pequenos detalhes e da mais assombrosa avalanche de dados que já se publicou sobre os Beatles. Quer saber quando Ringo Starr perdeu a virgindade? Está lá (George Harrison voltou da mesma festa com as mãos abanando; talvez se já conhecesse Ringo tivesse melhor sorte). É, com toda a certeza, a melhor biografia já escrita sobre a melhor banda da história — e até agora, a única que parece não conter erros factuais, e certamente nenhum grave. É bem mais que o suficiente para o fã comum, e o bastante para estudiosos. Mas para naquele tipo especial de beatlemaníaco, aquele que sabe muito mas acha que tem que haver mais e que a verdade está lá fora, All These Years: Tune In não elimina a necessidade de leitura de outras biografias.

O segundo volume está prometido para 2020. É tempo demais para esperar. Mas pelo menos a espera não vai ser tão angustiante quanto foi até agora.

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On Air – Live at the BBC Volume 2, o novo álbum dos Beatles lançado em 11 de novembro, traz mais faixas retiradas das apresentações que os Beatles fizeram na rádio BBC entre 1962 e 1965. Junto com ele uma nova edição do Live at the BBC original, de 1994, remasterizado — seja lá o que isso queira dizer a essa altura — e com pequenas mudanças internas.

Em 1994, o lançamento do Live at the BBC foi a melhor notícia que fãs dos Beatles receberam em quase um quarto de século. Aquele não apenas era o primeiro disco com gravações inéditas dos Beatles em quase 20 anos (o último tinha sido o disco ao vivo Live at the Hollywood Bowl, hoje fora de catálogo porque odiado pela banda); era também o primeiro com canções oficialmente inéditas. Além disso, deu início a um novo período na vida da Apple Corps., que passou a lançar material novo de maneira razoavelmente regular. Com a maior parte das pendengas judiciais resolvidas a partir de 1995, os ex-beatles e seus herdeiros descobriram que poderiam voltar a faturar muito com gravações que, até então, vinham fazendo exclusivamente a alegria dos piratas. Seguiram-se, então, o projeto Anthology, o Let it Be… Naked, o Rock Band e finalmente a nova remasterização dos álbuns originais em 2009.

O primeiro Live at the BBC é um excelente disco. Embora tenha deixado gravações importantes de lado, finalmente trazia ao grande público parte significativa daquilo que John Lennon considerou um dia as melhores performances dos Beatles. O novo disco segue a mesma fórmula: traz dezenas de canções às vezes intercaladas com blá blá blá de programa de rádio, muitas vezes bastante interessante, e termina cada disco com entrevistas curiosas de cada um dos beatles, individualmente.

Mas não há muitas canções inéditas, além de Beautiful Dreamer, Talking ‘Bout You e Happy Birthday Dear Saturday Club. O resto são versões de canções já conhecidas, às vezes até mesmo do Live at the BBC original. Algumas são interessantes: a gravação de Words of Love parece estar no meio do caminho entre a versão original de Buddy Holly e a definitiva do Beatles For Sale. A maior parte, no entanto, é francamente inferior, como I Got a Woman (apesar do belo baixo de McCartney). Pelo visto, deram preferência às versões com melhor qualidade sonora, antes de mais nada.

Mas qualidade certamente não é o motivo pelo qual, ao que tudo indica, deixaram de fora as gravações feitas com Pete Best, que têm maior valor histórico. Os Beatles se apresentaram duas vezes na BBC ainda com Best na bateria, em 25 de março e 11 de junho de 1962. Na primeira sessão gravaram Memphis Tennessee, Dream Baby e Please Mr. Postman. Na segunda, Ask Me Why, Besame Mucho e A Picture of You. Nenhuma delas foi incluída no novo disco. Devem ter decidido que o pobre Pete não merece faturar um pouquinho.

Essas são as canções inéditas deixadas de lado no novo disco: Dream Baby e A Picture of You são canções que jamais viram a luz do sol em qualquer outra ocasião; Side By Side e Pop Go The Beatles são temas de abertura de programas; Tie Me Kangaroo Down, Whit Monday To You… e All I Want For Christmas is a Bottle são gravações curiosas, que ficam entre o blá blá blá e paródias ou gracinhas (como a versão de Moonlight Bay incluída no Anthology). Tie Me Kangaroo Down tem, provavelmente, outra razão para ser excluída: nessa canção os Beatles acompanham Rolf Harris, recentemente envolvido em acusações graves de pedofilia. Obviamente ninguém consegue excluir nada definitivamente hoje em dia, e a canção pode ser facilmente encontrada no YouTube.

Há ainda outra categoria em que o novo disco falha: a ausência de gravações originais das quais não há nenhuma versão oficial ao vivo. O disco poderia ter incluído, então, I’m Happy Just To Dance With You, I Should Have Known Better, The Night Before, A Taste of Honey e I Call Your Name, em vez de trazer novas versões de canções já apresentadas no disco de 1994.

Durante muitos anos, The Complete BBC Sessions foi a melhor compilação das apresentações na rádio inglesa — a ponto de a Apple não negar que muitas das gravações de seus dois álbuns oficiais foram tiradas dali. Isso mudou em 2010, quando a série Unsurpassed Broadcasts foi lançada; ela está disponível gratuitamente na internet e pode ser encontrada aqui. E é ela que faz de On Air um lançamento redundante, desnecessário, perdido em meio a produtos superiores. De um lado, para o ouvinte comum, o primeiro BBC é mais que suficiente, e muito mais significativo. Do outro, para o fã e completista, é muito melhor dirigir-se diretamente aos bootlegs originais.

É claro que On Air vale a pena. É boa música, antes de tudo, tocada por uma grande banda de rock and roll. Mas não justifica a compra.

9 de dezembro de 1980

O dia seguinte ao assassinato de Lennon foi diferente dos tantos outros domingos do verão de 1980/1981. 32 anos depois e ainda lembro dele como um dia escuro, o que quer dizer que deve ter chovido em Salvador; ao menos nublado. A TV exibiu o Let it Be — acho que a única vez em que esse filme chatíssimo foi exibido na TV brasileira. Alguém foi lá para casa, e lembro de entreouvir sem nenhum interesse conversas estupefatas e tristes sobre Lennon. É essa a sensação que ficou desse dia: não era a morte de um parente, de um amigo próximo, mas era a morte de alguém que de alguma forma tinha sido importante e querido. Era tudo tão inesperado, todo mundo estava realmente chocado com aquilo.

Menos eu. Eu estava de saco cheio. Eu queria era ver desenho.