A verdadeira razão da Revolução Russa

Durante quase 100 anos fomos torpemente enganados pela história oficial acerca da Revolução Russa.

Nos enrolaram com aquela história de povo faminto e oprimido, de desejo de mudanças sociais, de sonhos de igualdade. Luta de classes? Besteira. A verdadeira razão da revolução foi o pinto do Rasputin.

Um museu erótico que está sendo construído em São Petersburgo planeja expor o dito cujo, que nos anos que antecederam a Revolução fez a alegria da corte do czar. É uma forma de colocar a Rússia no mesmo nível dos americanos, que possuem (com um orgulho esquisito) o bráulio do Napoleão.

A diferença é que enquanto o pobre Napoleão tinha um pintinho pequenininho como ele, o museu russo vai exibir os gloriosos 30 cm de Rasputin.

Agora a gente entende por que a czarina Alexandra gostava tanto do barbudinho. E fica sabendo que a Revolução Russa se deu pelo que Freud chamava de inveja do pênis.

Mas isso nos faz refletir. Napoleão, de tão parcos recursos, conquistou um império. Rasputin, acomodado em sua enormidade, perdeu outro. A conclusão é aterradora: o mundo pertence aos mal-dotados.

Índio quer apito

Por favor, alguém demita Mércio Gomes. O governo Lula já tem problemas suficientes para se preocupar com um lunático que não pára de falar o maior amontoado de besteiras que um presidente da FUNAI (órgão não muito famoso por seu brilhantismo) já conseguiu na história da instituição.

O Gomes é o sujeito que justificou o massacre dos garimpeiros dizendo que os índios “estavam defendendo a sua terra”. Sinceramente, raramente vi argumentos mais imbecis do que esse. Por esse raciocínio, fazendeiros podem matar invasores sem-terra. Afinal, eles também vão estar defendendo sua propriedade. Aliás, cá para nós, é uma bobagem que ganha até mais legitimidade na boca da UDR.

Mércio Gomes representa, acima de tudo, uma visão equivocada e perigosa da questão indígena: a idéia de que índios são seres diferentes. O engraçado é que ao ver o cacique Cinta-larga, Pio Cinta-Larga, falando na televisão, não foi essa a impressão que tive. Deve ter sido por causa da camisa Lacoste (provavelmente falsificada) que o índio usava.

Pode ser bonitinho falar em cultura indígena, em modo de vida milenar — mas na prática índios cada vez mais se tornam apenas cidadãos de segunda categoria, que em contrapartida lutam por algumas pequenas regalias.

Logo depois das primeiras palavras bonitinhas do cacique Pio, ele finalmente revelou quais as intenções da tribo: eles querem que o governo legalize o garimpo para que os índios embolsem um trocado. Aquela conversa de valores culturais, de respeito à natureza, todo aquele blá-blá-blá de repente vira a mesma língua que eu e tantos outros “brancos” falamos.

Querer explorar o garimpo é direito deles, claro. Mas mostra que essa abordagem de diferenciação absoluta das tribos indígenas é um equívoco. Nisso, eles estão cada vez mais parecidos com o brasileiro comum. Às vezes, inclusive, mais parecidos com o brasileiro malandro comum: cada vez mais índios vêm se tornando parceiros de contrabandistas de pedras preciosas, de madeireiros — e no fim das contas ficam iguaizinhos àquele político corrupto que, em comícios pela honestidade, enche a boca para falar do dinheiro público.

Índio quer apito e é um direito dele. Mas se é para apitar, que apite igual a todo mundo.

Os expurgos de Bush

Este blog gostaria de dar os parabéns a Bush. Ele está conseguindo transformar os Estados Unidos em um lugar que, em termos de liberdade de expressão, não deixa nada a dever aos piores momentos do stalinismo durante os expurgos da década de 1930.

Um adolescente de quinze anos desenhou um cartaz pacifista com um árabe empunhando um rifle e um bastão com a cara de imbecil de Bush, com uma legenda pedindo o fim da invasão do Iraque.

Os professores se assustaram diante daquele grande discípulo de Bin Laden e avisaram a direção da escola. Aterrorizada, ela chamou o Serviço Secreto. Que eficientemente tratou de interrogar o menino.

Fica aqui a sugestão: para completar o serviço, Bush poderia mudar o nome do Serviço Secreto para NKVD.

Via Boing Boing.

Já o Hit and Run traz uma notícia ainda mais assustadora: a Flórida está para votar uma lei que permitirá aos governos locais tomar a terra de indivíduos para vender a empresas privadas. São os kolkhozes ao contrário.

Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz…

Durante a Semana Santa vi na televisão uma mulher dizendo, com orgulho, que paga uma penitência há 82 anos.

Que vida triste.

Vida não é para se penintenciar, é para viver — da melhor forma possível, de preferência, com a alegria desejável e a tristeza apenas inevitável. Não é para ser vivida como se fosse um longo enterro em vida.

Pequenos pensamentos malévolos

Em Aracaju não são permitidos motéis no perímetro urbano.

Mas como a necessidade de saliência não diminui de acordo com a vontade (correta, nesse caso) dos legisladores, o jeito são as pousadas mais permissivas. Muitas são iguaizinhas a qualquer motel, indevassáveis com portões de entrada e saída.

Uma dessas pousadas fica bem em frente a um terminal de integração de ônibus, na praia de Atalaia.

Os rostos cansados e expressões carregadas daqueles que esperam o ônibus que nunca chega na hora contrastam, ou devem contrastar, com o brilho no olhar dos casais que entram na pousada.

E de repente, enquanto olhava para eles, me senti solidário com sua dor. É um desrespeito que aquelas pessoas, tristes, cansadas, condenadas a um eterno esperar do qual a demora dos ônibus é só um pequeno exemplo, sejam obrigadas a conviver com a felicidade carnal de pessoas que se preparam para a troca de fluidos corporais, algumas vezes ilícita, com alegria e desejo.

Mas é fácil se solidarizar e virar o rosto. Difícil é fazer alguma coisa para mitigar essa dor. E eu decidi vingá-los.

Algum dia eu vou passar algumas horas ali, naquele terminal de ônibus, fotografando as placas de quem entra na pousada, e depois vou colocar na Internet.

Em “cidade de muro baixo”, como dizem ser Aracaju, onde dificilmente você anda incógnito na rua, isso talvez tenha resultados interessantes.

Buda vs. Jesus, round 1

O comentário do Bia ao post sobre “A Paixão de Cristo” me deixou pensando qual é, afinal, a força do cristianismo.

Um camarada saiu-se com essa: o Buda do Bertolucci nos causa uma sensação tão boa — e a história é tão onírica — que contrapor os dois filmes talvez aponte onde está o problema de toda civilização ocidental; a direção moral simbolizada em um homem incompreendido sangrando numa cruz.

A história ocidental não é, em hipótese alguma, a história de gente seguindo os ensinamentos de Cristo. Aliás, em nome deles a Igreja perpetrou alguns dos maiores crimes que a história já viu, das Cruzadas à Inquisição.

Ao mesmo tempo, os budistas quando no poder tampouco levaram adiante os ensinamentos de Sidarta. Um artigo do Pedro Dória em nomínimo conta o que era a vida no Tibet antes da invasão chinesa: escravidão, total desrespeito à liberdade e otras cositas más. Os primeiros hospitais e as primeiras escolas laicas foram implantadas pelos invasores.

Ou seja: fico com a impressão de que a religião não é forte o suficiente para mudar uma sociedade.

Mas acho que essa idéia define com exatidão a psique individual nessas sociedades. A idéia do Cristo crucificado dá aos cristãos uma noção de culpa irreparável e necessidade de arrependimento que não existe em outras sociedades. Foi talvez a principal razão de sua ascensão. Hoje, nessa mesma sociedade ocidental, em que a noção de vida eterna se universalizou e é tomada quase como certeza absoluta — e quando não é deixa de ter qualquer importância, contrária ou favorável — há um movimento em direção ao budismo, talvez em busca de justificativa e consolo para seu materialismo crescente.

Dizem que os japoneses vivem como budistas e se tornam xintoístas à medida que envelhecem e se aproximam da morte, porque cada uma dessas filosofias oferece respostas mais adequadas — ou justificativas — a cada idade. No fim das contas, as pessoas continuam as mesmas, e segundo Belchior vivem como seus pais.

***

Paulo, acho que o original está certo. Seriam duas opções possíveis, ambas corretas: “falharam ao não perceber” e “falharam em perceber”, com significados finais ligeiramente diferentes.

Quanto a se poder amar um homem, eu acho que sim. Também acho que um homem tem todo o direito de conhecer outro no sentido bíblico. Cá para nós, faria realmente diferença se Jesus se esbaldasse em brincadeiras lúdicas com João (ou com Maria Madalena, como querem alguns)? Seus ensinamentos perderiam sua força e sua verdade, se você vê alguma nelas?

Os e-mails que recebo

É grosseiro, eu sei, mas esse e-mail que recebi me fez rir mais que a minha cota diária:

Foram flagrados, em vários supermercados de Santa Catarina, gaúchos tentando se passar por peru de Natal, na intenção de serem comidos despercebidamente.

Veja a foto e tente descobrir o impostor.

Me leva eu...

Sangue de Cristo tem poder

Finalmente fui assistir a “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson.

Nas últimas semanas resisti à tentação de escrever qualquer coisa sobre ele. Pela polêmica que o filme causou, era difícil ter qualquer opinião que não fosse tendenciosa. A grande maioria das críticas era negativa. O aspecto mais debatido na internet era o anti-semitismo de Gibson. Depois vinha a violência extremamente gráfica e desnecessária.

Qualquer filme sobre Cristo (talvez com a exceção do belíssimo — e contido — “O Evangelho Segundo Mateus”, de Pasolini) cria polêmica. Até o filme do Zefirelli recebeu sua cota de protestos, ao mostrar Maria parindo com dor, o que cá para nós não é bem digno do Filho do Homem. O de Scorsese foi execrado por mostrar um Jesus pretensamente histórico diferente do retratado na Bíblia. E bobagens pretensiosas como Je Vous Salue Marie, de Gordard, porque zelotes de qualquer religião têm dificuldades com seus antolhos.

O tema é difícil, por tratar do que há de mais irracional em um homem: fé. Quando um filme coincide com o que nós pensamos é brilhante. Quando retrata uma outra visão, é ruim, canalha, o que for. Por exemplo, quando Gibson fez “Coração Valente”, não houve gritaria quanto às deturpações históricas absurdas do filme. Se bem que obviamente William Wallace não tem a importância de Jesus.

Anti-semitismo
Em toda a polêmica gerada pelo filme, as acusações de anti-semitismo foram as que mais chamaram a minha atenção.

Um maluco (Leon Wieseltier, na New Republic) chegou a ver anti-semitismo na barba grisalha e voz grave de Caifás. Cathy Young deplorou a forma como retratam Barrabás — um assassino sujo, asqueroso e de má aparência.

É sempre assim quando alguém retrata judeus como menos que santos: algum idiota radical, o equivalente judaico de Osama bin Laden, grita “Holocausto!”.

A histeria da extrema-direita judaica, de vez em quando, é impressionante. O filme pode ser tudo — mas não é anti-semita. Ou pelo menos, não mais anti-semita que os Evangelhos. Para o filme é necessário representar os fariseus daquela forma, porque a oposição a eles faz parte do arcabouço filosófico do cristianismo. Esse pessoal esquece que Jesus não tentou criar uma nova religião, mas renovar o judaísmo. O cristianismo foi criado por São Paulo.

Os histéricos falharam em perceber uma coisa: com exceção da mulher de Pilatos, todos os personagens de bom coração são judeus. O povo que chora ante a passagem de Cristo na via-crucis é judeu. O homem que o ajuda a carregar a cruz é judeu. Maria e Maria Madalena são judias. E, se alguém esqueceu isso, Jesus é judeu.

Um advogado brasileiro (se eu lembrar que ele também é judeu posso ser acusado de anti-semitismo por esses histéricos, portanto não vou fazer isso) pediu a censura do filme com base no desrespeito à verdade histórica. Embora eu ache injusto esperar inteligência de qualquer advogado, esse passou dos limites. Porque não é possível falar em verdade histórica em se tratando dos Evangelhos. E, se for, a verdade é que “A Paixão de Cristo” se ateve com razoável exatidão à única fonte conhecida: os Evangelhos.

Por exemplo tome-se Barrabás. Se hoje ele é considerado uma espécie de proto-revolucionário, talvez um terrorista, a forma como os evangelhos o retratam é basicamente a de Gibson. Fizeram isso para realçar a heresia dos judeus ao preferirem-no em detrimento de Jesus. “A Paixão de Cristo” não é sequer o primeiro filme a retratá-lo assim: se lembro bem, o Barrabás do filme de Zefirelli não é mais bonito nem mais nobre.

É fácil chamar o filme de Gibson de anti-semita e deixar de lado o principal: o argumento do filme não é dele. Acontece que os Evangelhos pintam os judeus negativamente, por uma exigência histórica e teológica da própria estrutura do cristianismo em seus primeiros séculos. De modo geral, o filme não me pareceu mais anti-semita que os Evangelhos, ou pelo menos que a leitura mais comum que se faz deles. É o que se espera de um católico reacionário como Gibson. Talvez esse seja seu problema. Ou não: Eisenstein tinha sua agenda ao fazer “O Encouraçado Potemkim”. É o que se espera de um comunista revolucionário como ele. O filme é menor por causa disso?

De qualquer forma, um ponto precisa ser ressaltado: os mais óbvios bandidos do filme são os carrascos sádicos que tiram, literalmente, o couro de Jesus. E eles são romanos.

Violência
O Cauê definiu o filme como uma carnificina. Outros críticos menosprezaram Gibson dizendo que não poderiam esperar outra coisa do ator de “Máquina Mortífera”, que ele transformou o filme em um espetáculo sado-masoquista dirigido a hemófilos (acho que essa palavra não existe com esse significado; pelo menos não no Aurélio ou no Houaiss. Se for esse o caso acabei de criar uma tara: pessoas que se excitam sexualmente com sangue. O Google ficaria orgulhoso de mim e diria “eu sempre soube que esse rapaz entendia do babado…”).

Mas é preciso lembrar qual a intenção de Gibson. Ele quer lembrar a humanidade e o sofrimento de Jesus, distanciando-o um pouco do Cristo asséptico pendurado nos altares, com apenas os joelhos lanhados, a lançada nas costelas, as chagas da crucifixão e um filete de sangue correndo da coroa de espinhos. Ele pretende ressaltar a dor de Jesus, tornando real a frase “Ele morreu por nós”. E em mundo cada vez mais cético morrer é fácil, difícil é levar porrada uma noite inteira. A longa seqüência de açoites, dentro desse ponto de vista, é admissível.

O filme só cai no exagero durante a via-crúcis. Ali, sim, há provavelmente uma inverdade histórica. A crueldade da crucificação estava em deixar o condenado agonizar lentamente até sua morte por asfixia; bater daquele jeito só apressava a morte do sujeito, e tirava a graça do espetáculo. A partir do momento em que Jesus inicia sua caminhada rumo ao Gólgota o filme passa a merecer todas as críticas que recebeu.

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No fim das contas, a polêmica sobre as questões ideológicas deixa de lado algo importante: o filme em si. Fala-se da polêmica, do efeito que o filme faz, mas é raro ver alguém falando do filme, mesmo.

Não é exatamente uma obra-prima. Tem uma boa fotografia, e um argumento que deve ser bom, porque faz sucesso há 2 mil anos. Mas como disse o Bia, um dos poucos a fazer alguma apreciação estética sobre o filme, é irregular. Alterna bons momentos com clichês bobos.

O Bia destacou a cena da deposição (que é nitidamente inspirada num quadro de Caravaggio); enquanto isso, eu só consegui me identificar emocionalmente com o filme na hora em que Maria acode Jesus e lembra de um pequeno episódio da infância. Foi a única cena em que eu, particularmente, consegui sentir a dor da mãe.

E quer saber de uma coisa? Para mim, o verdadeiro vilão do filme não é Pilatos, Caifás, o povo judeu ou os centuriões romanos. Não é sequer aquele diabo andrógino e de olhos caucasianamente azuis. O verdadeiro vilão é aquele João, que ao lado de Maria e de Maria Madalena assiste a tudo com uma cara de urubu, mesmo sendo “o discípulo que Jesus amava” (expressão recorrente nos Evangelhos que muita gente usa como evidência de que Jesus era gay).

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Pelo menos naquela sessão, ninguém chorou. Mas todo mundo saiu calado do cinema.