Coragem sob fogo

Em maio de 1988 eu era presidente do grêmio de uma escola pública. Fui obrigado a comandar uma greve de estudantes, e o resultado foi a saída da diretora do colégio.

Agora um amigo me traz um jornal atual do grêmio, que curiosamente tem as mesmas preocupações de 15 anos atrás, as mesmas características. É quase como uma viagem no tempo.

Em uma “Nota de Repúdio”, o grêmio faz uma ameaça à direção da escola:

Se a diretora pensa que é insubstituível no cargo, lembramos ou informamos que há quinze anos atrás (sic) os estudantes deste colégio “afastaram” uma diretora. O que nos impedirá de fazermos (sic) o mesmo?

A confiança e arrogância dos garotos me deixa meio perplexo. Talvez não valha a pena contar a eles a verdadeira história daquela confusão, cuja moral é que herói é aquele que não teve tempo de correr e que a história é melhor contada por aqueles que, pelo menos aparentemente, venceram.

A história de Marré

Depois de escrever o post sobre cantigas de ninar saí catando o significado de “marré”.

Achei uma explicação que reforça a minha teoria:

A maioria dessas canções e cantigas é um arranjo ou uma adaptação de canções francesas (a maioria), portuguesas e européias de modo geral, trazidas a nosso uso desde priscas eras, com maior afluxo no século XIX. As traduções são às vezes curiosíssimas, e um bom exemplo disso é a canção “Je suis pauvre pauvre pauvre du Marais Marais Marais, je suis riche riche riche d’la Mairie D’Issy”, que virou “Eu sou pobre pobre pobre demarré marré marré, eu sou rica rica rica de marré dessí”… ( Marais e Mairie d’Issy são dois bairros de Paris).

Muitas vezes as letras em português nem fazem sentido, pois se destinam mais a uma onomatopéia do que a ser uma tradução literal.

Fazem sim parte de nossa cultura, mas são quase todas de origem européia, popularizadas de cima para baixo, ou seja, primeiro as famílias dos nobres e de gente rica as importavam, as escravas e as crianças, não sabendo cantar em francês ou não entendendo a letra em português às vezes literário, estropiavam tudo, e o resultado é que muitas cantigas de roda etc. são de assunto ininteligível ou de sentido duvidoso, como a de “pega na criança e joga na bacia”, como a de ” Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão”, como a de “Pai Francisco entrou na roda” …

Elas nunca me interessaram justamente por essa falta de sentido de muitas delas.

Sds. do Linz.

Na verdade, como diz um sujeito que assina MarquisDAF nessa mesma seqüência,

(…) o bairro se chama Issy-les-Moulineaux e tem de fato uma estação de metrô Mairie d’Issy, que tem esse nome porque fica perto da prefeitura de Issy. Issy não é um bairro de Paris, é um de seus subúrbios. Fica no sudoeste de Paris, podendo ser acessado de carro pela Porte de Versailles. A estação Mairie d’Issy é a última da linha 12 que liga o sul ao norte parisiense, Marie d’Issy-Porte de la Chapelle.

Ha outras teorias, mas nenhuma delas me parece tão correta.

Pelo visto eu estava certo quanto ao Marais. E apesar de ter visto uma crônica do compadrio numa música parisiense, talvez não tenha errado nisso. Não é porque a música é francesa e reflete uma situação de lá que deixa de se aplicar ao Brasil.

Acho também que o mesmo vale para Terezinha de Jesus, que o Samurai mostrou ser sobre Teresa de Lisieux. No Brasil, ela assume cores que originalmente não tinha. Imagino a ama de leite cantando a música. Para ela, e para a criança que a ouvia, a música se completava dentro dessa noção de casamento. Era nessa realidade que elas encontravam os seus referenciais.

Portanto, mais uma teoria rafaeliana — no que se refere ao Marais –, baseada na ignorância e no bom senso, se prova verdadeira. Que viva o Marais.

Nana neném

O mundo das historinhas infantis e cantigas de ninar são de uma beleza impressionante.

A maioria são lições valiosíssimas de senso comum que crianças devem conhecer em sua preparação para enfrentar o mundo. E por serem tão básicas, as décadas passam e elas não precisam mudar. No máximo, podem mudar algumas interpretações delas. A “História da Baratinha”, por exemplo, originalmente era uma crítica a essas moças que escolhem muito (mais tarde, na versão de João de Barro, acabou virando uma crítica à gula do doutor João Ratão).

As cantigas de ninar e de roda, por outro lado, mostram um país antigo que persiste no subconsciente coletivo.

“Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão. Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão. O primeiro foi seu pai; o segundo, seu irmão; o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão”. Quer definição mais singela do patriarcalismo brasileiro do século XIX? A música prepara a moça para o seu destino não apenas inexorável, mas desejável: o casamento, estabelecendo uma hierarquia de obediência de acordo com a época e circunstâncias de sua vida.

“Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão. Vem de lá seu delegado e pai Francisco foi pra prisão”. Alguma dúvida de que pai Francisco é negro, velho e uma figura proeminente em seu nicho social — provavelmente um pai de santo –, em um tempo (que durou até o início do século XX) em que a polícia reprimia duramente aglomerações de negros?

“Eu sou pobre, pobre de marré de si…” Eu adoro essa música. Cheguei à conclusão de que “marré” se refere ao Marais, bairro parisiense paupérrimo nos séculos XVIII e XIX, embora nunca tenha visto ninguém aventar essa hipótese. Provavelmente estou errado. Mas o que interessa, mesmo, é o processo que ela conta, o costume de “dar” filhas para serem criadas (nos dois sentidos da palavra) por famílias mais abastadas, base do sistema de compadrio que suavizou, em grande parte, o sistema escravagista brasileiro — pelo menos o urbano. De acordo com mais essa teoria rafaeliana a música reflete a galicização cultural do país e um costume que perdura até hoje. A brincadeira mostra a negociação entre duas melhores, e uma situação triste que milhares de famílias pobres viveram ao longo da história. É fascinante.

“Fui no Tororó beber água, não achei…” Ah, essa é baiana, do tempo em que a cidade se abastecia com a água do dique do Tororó. E o verso “quem não dormir agora dormirá de madrugada” só podia ter sido cunhado lá.

São muitos exemplos. E em cada um deles há um aspecto histórico curioso, verdadeiro e popular.

Se alguém conhecer algum estudo sobre a origem e evolução dessas obras, por favor, não deixe de me avisar.

A escória da humanidade

Criadores de virii eletrônicos estão, certamente, entre os mais baixos tipos de seres humanos.

Um desses idiotas resolveu lançar o MyDoom para derrubar o site da SCO, empresa de software que resolveu processar a IBM pelo que chama de violação de direitos autorais relativos ao Linux.

Esse pessoal do Linux é engraçado. Engraçado e burro. Engraçado porque para atacar uma empresa que julgam ruim — eles, os grandes juízes do Bem e do Mal — resolvem causar problemas para todo mundo, justificando sua natureza ruim com um propósito que consideram louvável. E burro porque se suas sinapses fossem eficientes saberiam que a SCO vai se destruir sozinha, quando menos por não ter condições de enfrentar uma longa batalha judicial contra a IBM.

Nos últimos dias recebi dezenas de e-mails com o vírus, além de respostas de sistemas de anti-vírus dizendo que eu havia mandado virii para gente de quem nunca ouvi falar. A coisa ficou tão séria que precisei desabilitar o catch-all do meu domínio, porque as respostas vinham endereçadas para leo@xxx.xxx, mary@xxx.xxx, jim@xxx.xxx e por aí vai.

Duvido que algum dia entenda por que as pessoas insistem em clicar em arquivos enviados por gente que não conhecem ou com extensões como .pif, .exe, .cmd e .scr.

De qualquer forma, o MyDoom está me fazendo começar a achar que a SCO tem razão.

O passado que não passa

Sempre que venho a Aracaju é a mesma coisa: alguém conta uma história de adolescência que eu esqueci.

A maioria, claro, foi esquecida por conveniência. Coisas que se não obliteradas corroem a boa imagem que tenho de mim mesmo. Não entendo por que as pessoas insistem em lembrar certas coisas.

Aqui, agora

Programas tipo “mundo cão” existem desde sempre; Wilton Franco, por exemplo.

Mas houve um momento decisivo em que esse tipo de programa saiu da área de serviço da TV e se refestelou na sala de estar. A história da TV nos últimos 10 anos, com algum exagero, pode ser definida entre antes e depois do “Aqui, Agora”.

Eu adorava o programa, ainda que em pouco tempo ele tenha perdido o encanto para mim. Ele tinha conseguido transferir para a TV a linguagem do Notícias Populares, o jornal que tinha as melhores manchetes de todo o país. Era o pior de São Paulo disponível em cores e em movimento para todo o país.

Havia algo mais genial do que Gil Gomes? Ele parecia a coisa menos adequada à linguagem televisiva que poderiam escolher. Camisas tiradas do baú de algum surfista dos anos 60, um rosto parecendo areia mijada, uma voz mais adequada ao rádio AM que à TV — e no entanto ele era perfeito.

Cito até hoje uma frase de Gil Gomes: “um bom, dois bons, três bons — mas um morreu!”

Essa frase é a mais representativa do que é TV popular no Brasil. É quase o “Poema em Linha Reta” em edição abreviada. É como se Hamlet, em vez de perder tempo declamando “Ser ou não ser, eis a questão; acaso é mais nobre…”, simplesmente dissesse “Tá foda!”.

O “Aqui, Agora” virou a TV de cabeça para baixo, numa época em que a Globo se via acossada como nunca antes. “Pantanal” e “Carrossel” vinham tirando o sono de muitos executivos da Vênus Platinada porque pela primeira vez roubava share de maneira que parecia — e era — consistente.

A linguagem rápida, a urgência, a escolha adequada dos temas que combinavam baixaria e interesse humano — ainda que no que ele tivesse de mais perversamente voyeur e sádico –, a estereotipização do sujeito que fazia os comentários internacionais (qual era o nome dele?), tudo isso fazia do “Aqui, Agora” um programa inovador, por pior que parecesse. Não no conteúdo, mas na forma. Esse era o principal atrativo do programa.

Mas mesmo no conteúdo o “Aqui, Agora” tinha sua força. No fim das contas, o programa prestava serviços ao cidadão, tanto que Celso Russomano fez carreira política a partir daquele programa: “Se está bom para as partes…” O envolvimento com a comunidade era muito maior que o oferecido pela rigidez fria do Jornal Nacional. Dava ao povo a informação que ele queria.

O “Aqui, Agora” deixou algumas lições. Mas não parece que até agora tenham sido aproveitadas. A idéia é: certamente há espaço para TV popular com qualidade. Forma e conteúdo não são tão intrinsecamente ligadas assim. Talvez a receita da forma tenha sido dada ali; basta agora saber como adequar o conteúdo a ela. No dia que conseguirem isso, talvez a TV aberta tenha alguma chance de voltar a significar algo.

Post de índio

Devo estar escrevendo cada vez pior, porque depois de colocar no ar o post sobre os esquimós recebi e-mail de bela leitora deste blog dizendo que concordava e que, além de não gostar de índios, ela achava que não deveriam ser protegidos.

Epa. Eu não disse isso. O fato de achar que índios não são santos não quer dizer que eu ache que eles devam encontrar Tupã mais cedo. Acho que, sim, devem ser protegidos — desde que queiram –, que a Funai está certa em sua nova orientação de evitar contato com tribos isoladas. Outros aspectos (como algumas tribos agindo igual aos brancos em sociedade com madeireiras e mineradoras, por exemplo) não vêm ao caso, porque o que se discute aqui é o aspecto “deontológico”, digamos assim, da questão.

Do contrário eu também seria obrigado a achar, por um mínimo de coerência, que nós, que não nos notabilizamos por tratar bem este mundo, também deveríamos ir para o saco. E garanto que, pelo menos por enquanto, eu não tenho a mínima vontade de encontrar o Criador.

(Bia, eu já já tinha ouvido falar por alto dessa piromania deles, mas achava que era exagero. Já ouvi falar também na absoluta falta de senso de humor dos aborígines. Lulu, qual a sugestão: aculturar logo os infelizes?)

Hoje na história

Que mal pergunte, mas onde foram parar as flash mobs? As pessoas cansaram de bancar as idiotas cedo demais. Geralmente essas bobagens demoram um pouquinho mais de tempo.

Cai a máscara

Finalmente.

Uma das coisas que sempre me incomodaram é a crença generalizada de que índios são anjos por acaso morando na Terra.

Ecologistas reclamam que nós somos predadores e destruidores do meio ambiente, e que os índios viviam em perfeita integração com a natureza. Essa mitificação me chateava porque não me parecia verdadeira. A natureza humana não muda muito, no tempo e no espaço. Sempre achei que índios causavam menos danos ao meio-ambiente por duas razões bastante simples: eram relativamente poucos e eram tecnologicamente atrasados.

Os ianomâmi, por exemplo. Moram em grandes ocaras que, com o tempo, ficam infestadas de parasitas; eles não têm exatamente os hábitos de higiene que o brasileiro urbano conhece. Enquanto isso, exterminam a caça das redondezas. É então que precisam se mudar, e esperar que a natureza se recomponha e o tempo mate os bichos da ocara. É por isso que são nômades, e por isso precisam de grandes extensões de terra.

Isso não é viver em comunhão com a natureza: é simplesmente não ser capaz de destruir em grande escala.

Cientistas canadenses acabam de reforçar minha tese, mostrando que esquimós (os índios que vieram do frio) já alteravam dramaticamente ecossistemas lacustres no Ártico graças às suas práticas de caça, há 800 anos.

Não sei se isso limpa minha folha corrida, mas pelo menos suja a deles. Eu me sinto menos discriminado, agora.