Zumbi dos Palmares

Sempre achei essa história de “pobre do país que precisa de heróis” uma estupidez. Um país sem heróis é um país sem referência e sem identidade, porque são eles que encarnam, de maneira simples e intuitiva, os melhores valores de uma sociedade. A França tem Carlos Martel, Carlos Magno e Joana d’Arc, os ingleses inventaram o rei Arthur e Robin Hood, Portugal tem seu dom Sebastião já há muito atrasado em sua volta.

O Brasil tem uma característica curiosa — não exclusiva, mas bem forte nestas plagas: temos o dom da iconoclastia absoluta, a necessidade atávica de destruir heróis e ídolos, de apontar seus defeitos antes de qualquer coisa, de desmerecer o que fizeram e dizer que olha, as coisas não são bem assim. Mas os tempos de redes sociais e neo-colonialismo cultural criaram também outro fenômeno, a defesa histérica e algumas vezes totalitária dos valores de grupos inconciliáveis, a seleção de umas lendas em detrimento absoluto de outras.

Quem reclama que o 7 de Setembro ou Tiradentes são figuras de importância histórica criada a posteriori pode dizer o mesmo de Zumbi dos Palmares, fenômeno burilado a partir dos anos 70 para atender à necessidade, então nascente, de um herói negro.

Por isso, o que se sabe de Palmares é muito pouco. Era uma confederação de quilombos espalhados por uma área bem razoável em Alagoas, liderada por Zumbi e destruída por Domingos Jorge Velho depois de anos de confrontos — e isso é quase tudo o que se pode dizer com absoluta certeza.

Aparentemente, seu primeiro grande líder foi Ganga Zumba que, já velho, entendeu o óbvio — eles não poderiam ganhar aquela guerra — e tomou uma decisão que acabaria se revelando fatal: negociou um acordo com Portugal, em que devolvia os escravos fugidos mas garantia a liberdade daqueles nascidos no quilombo, que viveriam em terra própria.

O que ele não entendeu é que o sistema econômico da colônia, baseado na monocultura da cana e na mão de obra escrava, jamais poderia tolerar voluntariamente a existência de um quilombo tão grande (embora fosse obrigada a conviver com quilombos em vários níveis diferentes quando não havia jeito): os senhores de engenho sabiam que Palmares se tornaria uma Xangri-lá, um foco de resistência negra e uma ameaça constante e cada vez mais forte à estabilidade da economia colonial. Além disso, é possível imaginar a resistência a um acordo desses dentro do próprio quilombo; os que seriam devolvidos não estavam muito felizes — e por isso há uma versão de que Ganga Zumba foi envenenado pelo próprio quilombo.

O trato foi feito para ser descumprido, e o quilombola pagou a sua ingenuidade com a vida ao ser atraiçoado pelos portugueses. Zumbi teria se oposto ao acordo e, legitimado pela morte de Ganga Zumba, passou a liderar a resistência.

Mas Ganga Zumba tinha razão: era impossível manter Palmares. O quilombo tinha se tornado grande demais para continuar existindo. O acordo de Ganga Zumba não era desprovido de sentido, mas lutar contra a história é sempre tarefa inglória e com fim trágico para o lado mais fraco.

Depois da destruição de Palmares, Zumbi conseguiu se esconder por dois anos, até que foi finalmente capturado. Sua cabeça foi cortada, salgada e exposta em Recife, para tranquilizar a população e servir como recado aos escravos que caíssem na besteira de sonhar com a liberdade.

***

Eu tinha 11 anos quando ouvi falar de Zumbi dos Palmares pela primeira vez. Uma prima, Celina, me emprestou um livro de história — dele só lembro que era volumoso, em A4, e que o texto vinha em duas colunas. Ele trazia a história do líder quilombola que, depois de resistir por anos às incursões dos portugueses, se jogou de um precipício para não ser capturado com vida, fazendo da Serra da Barriga uma espécie de Masada do novo mundo. Um herói maior que a vida, que demoraria três séculos para ser resgatado do oblívio.

O que eu ainda não sabia é que naquele mesmo ano um jornalista chamado Décio Freitas publicava um livro com a história inédita de Zumbi. Ele dizia ter tido acesso a cartas de um tal padre Antonio Melo, que traziam detalhes que ninguém conhecia até então: sobrinho de Ganga Zumba, Zumbi fora capturado aos 7 anos e criado como Francisco pelo padre Mello, que o ensinou a ler e escrever. Aos 15, fugiu e voltou para Palmares, onde se tornou seu último líder.

É uma história bela e romanesca, diriam alguns. Nesse caso, romanesco deve ter virado sinônimo de mentira, porque essa história era só isso: mentira cabeluda e desavergonhada, daquelas criadas com má fé e canalhice em nome de um ideal nobre.

Ninguém jamais viu essa carta. Ela é, até prova em contrário (e prova simples, um simples mostrar de um documento), uma invenção de Freitas. O fato é que os únicos registros contemporâneos sobre Palmares foram escritos por aqueles que o combateram, e isso quer dizer que mesmo os mais fiéis aos fatos refletem necessariamente a visão, os preconceitos e os interesses daqueles que tentavam destruir o quilombo.

Curiosamente, o próprio Décio, pouco antes de morrer, dizia que Zumbi era radical demais e que a solução de Ganga Zumba era a mais indicada.

Tudo isso, essas idas e vindas, essas versões e contra-versões, reflete muito mais que a rarefação de fontes históricas. Diz respeito à necessidade de fazer de Palmares e de Zumbi um símbolo perfeito para a luta negra, e é essa perfeição almejada o seu grande problema.

Historiadores e militantes de todo tipo tentam fazer de Palmares a concretização de seus sonhos. “Marxistas” se tornam socráticos e fingem desconhecer qualquer ideia de dialética, atropelando quaisquer indícios históricos e senso comum para apontar Palmares como um regime proto-socialista, como se os quilombolas fossem criar ali, do nada, um sistema social que não o que conheciam, na África ou no Brasil. Adeptos das religiões de matriz africana o pintam como um bastião da liberdade religiosa, o que é possivelmente verdade: havia igrejas no quilombo, e é lógico imaginar que não era muito diferente das senzalas; difícil é saber se e como um eventual conflito entre macumbeiros e cristãos se dava. Até o indefectível Luiz Mott resolveu levar Zumbi para “a irmandade”, dizendo ser óbvio que ele era gay, boy magia do tal padre Antônio Melo.

Eu sempre respeitei o Mott, mesmo no tempo em que ele batia boca com o Berbert de Castro nas páginas d’A Tarde. Seu “Sergipe Colonial e Imperial” é um bom livro, dentro do seu escopo; seu trabalho de pesquisa sobre família e sexualidade é elogiado; e sua militância pela causa gay é admirável. Mas o “Zumbicha” é apenas um delírio tropical, como uma fantasia de Clóvis Bornay. Não apenas porque é baseado na fábula de Décio Freitas, mas porque é essencialmente uma grande torção de fatos para que se adeque à agenda do Mott. Ladino, Mott percebe a necessidade de heróis ou, ao menos, de anti-heróis, e Zumbi é dos mais adequados ao atual zeitgeist. Ele o usa para chamar atenção à sua causa, e paradoxalmente acaba catalisando o preconceito de outras minorias, talvez um dos grandes problemas dessas militâncias identitárias.

A questão que incomoda é: o pouco que se sabe de Zumbi já é mais que suficiente para garantir o seu papel na história. Não precisa de invenções nem de falseamentos. Zumbi é um herói, um dos grandes deste país. Mas isso não parece suficiente para aqueles que tentam recriá-lo dentro dos parâmetros éticos e morais de hoje, e então ele precisa se tornar um super-herói moderno, um socialista que abominava a escravidão, livre de preconceitos e muito à frente do seu tempo. Do jeito que andam as coisas, não vai demorar para que se descubra que ele tinha um “pet” que alimentava com ração vegana super-premium.

A anormalidade social da escravidão é um fenômeno histórico recente na história humana, não tem quatrocentos anos. Ela não apenas fez parte de virtualmente todas as sociedades antigas, mas continuava legal em partes do mundo até este milênio. A escravidão no Brasil só foi possível porque primeiro os portugueses, depois os brasileiros encontraram na África um mercado secular de escravos que jamais houve em terras tupiniquins — mercado que negacionistas usam para desculpar a escravidão no Brasil, mais ou menos como um sujeito se desculparia por estuprar uma mulher alegando que ela já tinha sido estuprada antes.

Além disso, a escravidão no país seguiu caminhos que hoje parecem tortuosos, mas que na época eram perfeitamente normais. Quem se espanta por negros forros terem escravos, até mesmo escravos terem escravos, simplesmente não entende o mecanismo econômico que possibilita a escravidão nem as sutilezas sociais deste país e deste povo (embora isso tampouco fosse exclusividade nossa). Nós somos estranhos, e damos um boi para não entrar numa briga e uma boiada para ver como é que a gente ajeita as coisas depois.

Apesar do que os teóricos liberais apregoam, a escravidão não é incompatível com o capitalismo, nem com nenhum outro sistema econômico, e chega a ser quase uma exigência econômica nos setores primário e secundário da economia: lavouras extensivas como a cana ainda exigem mão de obra farta e muito barata para compensar o volume de produção necessário e o baixo preço das commodities — e basta pensar um pouquinho nos robôs que ocuparam as fábricas de automóveis para entender que a escravidão só foi superada porque a tecnologia permitiu a substituição desse tipo de trabalho por outro mais barato e mais eficiente. Os luditas perceberam isso imediatamente. Robôs são os novos escravos, e quando chegar a Inteligência Artificial Geral, se prepare que o pau vai comer.

Tudo isso é para dizer que talvez o maior crime que se comete contra a história deste e de qualquer país é tentar julgar o passado exclusivamente com os olhos do presente. É aplicar um determinado padrão moral ou ético anacrônico a situações que não podiam obedecer a ele. Para piorar, o crescente puritanismo que orienta a discussão social torna cada vez mais difícil falar da escravidão sem afetar, antes, um horror que se quer genuíno, um reboco emocional que é dispensável e até prejudicial. É o que faz gente “estudada” dizer que africanos foram escravizados porque eram negros, implicando um racismo que na verdade é consequência da escravidão.

Quando matilhas de militantes identitários atacam qualquer um que fale disso, elevando, por exemplo, gente como o jornalista Leandro Narloch a um patamar que eles não merecem, fazem um desserviço à história de Zumbi. Seria injusto exigir de um homem do século XVII a compreensão de mundo própria do século XXI. Fazer isso é tirar dele seu valor, é desconsiderar o seu papel histórico e sua grandeza em seu tempo, é quase como achar que, sendo o que foi, ele não podia ser um herói.

Mas o debate sobre racismo, cada vez mais tisnado por nuances identitárias nascidas num regime acadêmico cada vez mais insular e estrito, que distorcem (ou, se preferirem a nova queridinha linguística, “ressignificam”) os objetivos finais da luta negra, e por uma progressiva infantilização potencializada pelas redes sociais, tem feito com que isso se torne cada vez mais um debate obscurantista para surdos.

Às vezes desconfio que isso acontece também porque, de outra forma, ficaria difícil acomodar tantas vozes. Todo mundo tem que ser ouvido, a opinião de todos — inclusive a deste velho blogueiro comunista que só entende mesmo de balançar na rede — vale alguma coisa. Ficou feio dizer que alguém não sabe o que está falando, ou que está falando besteira. E mais importante do que debater passou a ser a conquista da aceitação do maior número de pessoas possível dentro de sua bolha. Porque embora digam que a grande obra do Diabo foi fazer as pessoas acreditarem que ele não existe, a verdade é que seu pulo do gato foi fazer as pessoas acharem que sua opinião, qualquer que seja, importa.

O capitalismo brasileiro

Meninos, eu juro que vi.

Ontem, quarta-feira, 14 de julho, dia da grande revolução burguesa francesa, a revolução que os liberais elogiam mas que Napoleão botou em seu lugar em uns poucos anos, a revolução cujo aniversário de 200 anos marca, para mim, o ressurgimento do liberalismo — nesta quarta eu vi um episódio de um documentário na TV Cultura, salvo engano chamado de “Os Empreendedores”.

Nele, Fernando Henrique Cardoso faz um auto-de-fé liberal. A partir da história de quatro empreendedores brasileiros, Barão de Mauá, Conde Francisco Matarazzo, Hermann Hering e Antônio Ermírio de Moraes, ele enceta uma diatribe contra a presença do Estado na economia. Segundo FH, nenhum desses empreendedores, todos eles bilionários, jamais utilizou o Estado para enriquecer.

Eu confesso que sempre que olho para a cara mole de Fernando Henrique lembro de João Ubaldo Ribeiro. João Ubaldo, grande baiano, foi o homem que escreveu do então presidente:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Todo — absolutamente todo — o texto do programa é de uma canalhice, de uma parcialidade e seletividade impressionantes. Fernando Henrique não diz, por exemplo, que teve a iniciativa e a honra de colocar a Hering em maus lençóis ao proceder à destruição da indústria têxtil brasileira, importando malhas chinesas a preços inalcançáveis. Não fala que exemplos como o de Mauá são a exceção, que em virtualmente todos os setores a iniciativa estatal foi imposta pelo absoluto desinteresse do tal empreendedorismo privado. E quando menciona a indústria naval brasileira, diz algo como “o primeiro programa de incentivo à indústria naval foi de Juscelino Kubitschek. O segundo foi de Geisel. O terceiro agoniza.”

Adivinhe quem bancou o programa que salvou a indústria naval brasileira nos anos 2000 e cujo nome não pode ser mencionado.

É estranho ver um sociólogo que já foi respeitado se deixando rebaixar a um papel desses. Eu, que brinco diuturnamente com a possibilidade de me filiar ao PCO porque a um cavalheiro só interessam as causas impossíveis (©Jorge Luís Borges), fico triste ao ver isso. Eu lembro de FH na campanha das Diretas, idolatrado pelos peitos tão fartos da Christiane Torloni. Só por isso ele merecia um fim mais digno.

Mas ele não degenerou totalmente, e faz um único elogio à Embrapa. Claro, não menciona as dezenas de Ematers, Epagris que se dedicam a ajudar pequenos agricultores Brasil afora. Não faz isso porque o FH do século XXI é daqueles que jogaram às favas os escrúpulos de consciência e fecharam os olhos ao embarcar numa nave estranha.

Tudo bem, direito dele. Pelo menos é o que você pensa até ver que esse documentário foi financiado pela Lei de Incentivo Cultural e pela Ancine. Dinheiro de impostos.

Pois é.

Você provavelmente tem raiva do Bolsonaro, aquele verme com retenção anal. Eu tenho raiva do Fernando Henrique. Agora você sabe por quê.

***

O programa é sucedido por um que pergunta se velhice é doença.

Idiotas.

Todo mundo sabe que velhice é doença terminal. O problema é que a alternativa é muito pior.

Marighella

Fernando Meirelles me chamou de ladrão.

Não foi nada pessoal, até porque ele nem sabe que existo. Foi uma ofensa genérica: ele anda meio chateado porque o filme “Marighella”, dirigido por Wagner Moura, estrelado por seu Jorge e do qual ele é produtor associado vazou nas redes. “Por alguma razão as pessoas acham que roubar fruta na árvore ou assistir filme pirata não é roubo. A mente humana é pródiga em autoengano”, ele disse à Folha de S. Paulo ontem, sentado nos muitos dinheiros arrecadados através de leis de renúncia fiscal e financiamento direto das tetas da viúva. O discurso é assustadoramente próximo dos bolsonaros da vida, que também chamam o financiamento público de filmes de roubo, mas adoram se apropriar dos fundos públicos em rachadinhas e quetais. Muda só o ponto de vista.

A novela de “Marighella” acabou se tornando razoavelmente longa. Primeiro por causa do boicote anunciado pelos bolsominions, assustados com qualquer coisa que não seja fake news; depois por causa da pandemia. Lá fora o filme estreou em 2019, fazendo o circuito dos festivais que é a praxe em filmes fora do esquema hollywoodiano. No Brasil, estrearia em novembro daquele ano, mas o governo Bolsonaro fez o que pôde para evitar sua exibição. Eles têm muito medo de filmes, de comunistas mortos e de vacinas. Recentemente, “Marighella” estreou comercialmente nos EUA, de onde vazaram as cópias legendadas que circulam agora por aqui. Vai estrear no Brasil em novembro deste ano.

O povo brasileiro ajudou a financiar um filme que, durante dois anos, não pôde ver, enquanto seus produtores o rodavam mundo afora para viabilizar seu lucro ou sei-lá-o-quê. Quando finalmente tem a chance de assistir a ele, graças à desonestidade inata dos americanos, é chamado de ladrão.

Assim, enquanto murmurava “não esculacha, chefia!” e colocava as mãos atrás da cabeça, sabendo-me pego, lembrei do Cacá Diegues chiando quando cobraram a ele algo que, se não me engano, chamaram de “contrapartidas sociais”, uns 20 anos atrás — e que, acho, consistia em levar ao povo o filme feito com seu dinheiro. Diegues é o mesmo sujeito que criou a expressão “patrulha ideológica”, em meio à ditadura militar. Como Meirelles, é gente que gosta muito de dinheiro público, mas não tanto de devolvê-lo.

Para piorar ainda mais as coisas, essa postura hipócrita do Meirelles talvez não fosse tão irônica se o filme não contasse de um comunista que dedicou sua vida, quem diria, à abolição da propriedade privada. Se ladrão há nessa história, esse ladrão é o Marighella, e nesse caso tenho muito orgulho de ser chamado assim, ainda que por tabela.

Só então eu, ladrão contumaz e irrecuperável, percebi que nunca tinha roubado um filme do Fernando Meirelles, muito menos esse “Marighella” (que, não custa lembrar, não é dele).

Eu não lembrava do filme, nem mesmo da polêmica causada pela escolha de Seu Jorge para o papel do protagonista, o primeiro caso de “blackwashing” de que tenho notícia. Na época achei interessante, porque não apenas é mais válido que embranquecer um personagem, mas também porque levou a uma reavaliação iconográfica de Marighella que corrigiu um grande erro histórico e jogou nas fuças das pessoas a glória da sua mulatice. Só depois percebi que há um problema inerente a essa decisão. A escolha de Seu Jorge parece mais que aceitável diante do histórico de racismo e obliteração da imagem do negro nas artes, mas no fundo acaba sendo mais um evento de negação da miscigenação brasileira, a entronização de um binarismo racial americano que representa um retrocesso e que, infelizmente, é cada vez mais aceito. Um cabo de guerra em que o mulato, moreno, pardo, chamem do que quiserem, é negado em função de um discurso insuficiente.

Mas quem disse que o crime não compensa não viu ainda este filme. “Marighella” é excelente, uma grande obra. É ainda melhor no atual contexto político do país, em que qualquer pessoa que não seja totalmente imbecil ou canalha é chamada de comunista. Wagner Moura estreia como um diretor seguro, que tem perfeita noção da história que está contando. Para inseri-la melhor no contexto atual, reforça inclusive a questão racial, que não era exatamente prioridade naqueles tempos. Moura mostra-se também um excelente diretor de atores, como se pode ver nas atuações excelentes de Bruno Gagliasso, Adriana Esteves e Luiz Carlos Vasconcelos. Nenhum desses, entretanto, iguala o desempenho excepcional de Seu Jorge. Seu Jorge consegue passar, simultaneamente e com brilhantismo, a dureza e a humanidade de Marighella.

A direção de arte também é excelente, em que pesem anacronismos como a presença conspícua de pistolas PT 92 muitos anos antes de serem criadas, antes mesmo até das Beretta 92 que as originaram, ou a luz avermelhada das lâmpadas de vapor de sódio nas ruas.

Terminado o filme, satisfeito com meu butim, desliguei a televisão esquecido de Fernando Meirelles, até que fui ao IMDb e vi que a nota dada a “Marighella” é 3,2.

Cheguei à conclusão de que só gente como Meirelles avaliou este filme, pelo visto. E visualizei imediatamente aquela legião de toscos tangidos pelo Carluxo apertando freneticamente a menor estrelinha, ignorando quaisquer qualidades cinematográficas do filme — o que, aliás, ele tem em demasia. Por isso ele deve ser roubado e compartilhado por quem puder. Todos os brasileiros deveriam ver este filme; velhos comunistas como Marighella e o Comandante Toledo (e João Amazonas, e Elza Monnerat, ou os tantos outros que não conheci) podem estar fora de moda, mas é preciso que voltem a mostrar a um povo cada vez mais afundado numa lama antes inimaginável que um outro mundo é possível, e que para isso ele nem precisa existir de verdade.

“Marighella” deve ser roubado e roubado e roubado de novo porque ele quase nos devolve o orgulho de sermos brasileiros. Ainda que seja de uma forma perfeitamente exemplificada na cena final, que deveria ter sido incluída no meio do filme: angustiada, desesperançada, mas ainda assim com orgulho e, acima de tudo, fé.

Leonel Brizola e Ciro Gomes

Desde o início, as eleições presidenciais de 1989 giraram em torno de apenas três candidatos: Fernando Collor, Leonel Brizola e Lula. Sempre nessa ordem: até a última pesquisa do Datafolha, não houve alteração na ordem dos candidatos.

Ao longo da campanha houve momentos interessantes, como quando a elite paulista, já desenganada quanto a Ulysses Guimarães mas ainda desconfiada de Collor, tentou inflar a campanha de Guilherme Afif Domingos. Mas Collor era muito mais que o “caçador de marajás” da Globo: era jovem, bonito, viril, e tinha as condições necessárias para se apresentar como a verdadeira renovação em um momento de crise na política brasileira, diante da implosão do governo Sarney.

No campo da esquerda, o grande nome ainda era Brizola, do PDT. Ainda não havia urnas eletrônicas e a apuração dos votos era lenta. Nas primeiras horas da noite de 15 de novembro, parecia que Leonel Brizola seria o escolhido pelo povo brasileiro. Pela sua trajetória, pelo seu governo controvertido no Rio de Janeiro, pelo respeito que sua figura impunha, parecia uma escolha natural.

Mas foi Lula a ir para o segundo turno.

Brizola perdeu por várias razões. Porque foi à disputa completamente isolado, esperando que a sua história o elegesse — parece incrível, mas o PT foi menos sectário e engendrou uma coalizão com o PCdoB e o PSB que se manteve até 2010. Perdeu porque não compreendeu a nova linguagem televisiva e fazia campanha como se estivesse ainda nos tempos da Rede da Legalidade. Perdeu porque a militância da Frente Brasil Popular ganhou as ruas, fazendo um trabalho de formiguinha com altruísmo e convicção verdadeira, e porque a equipe liderada por Paulo de Tarso soube fazer programas muito mais competentes na TV e no rádio.

No fundo, Brizola perdeu porque seu tempo tinha passado e o novo sempre supera o velho.

Ao perder as eleições, Brizola não hesitou em declarar seu apoio a Lula. Reclamou de ter que engolir um “sapo barbudo”, é verdade; mas em nenhum momento reclamou que Lula deveria ter renunciado porque ele, Leonel Brizola, tinha mais chances de ganhar porque não tinha uma Miriam Cordeiro em seu passado nem aparelho de som na casa da namorada, e podia alegar que a campanha da Globo contra ele seria mitigada pela sua história de antagonismo; podia até mesmo alegar que, mais moderado, não seria vítima do anticomunismo utilizado como arma de campanha, num tempo em que o PT combatia a privatização da Mafersa e ainda abrigava a Convergência Socialista. No segundo turno, Brizola não viajou para lugar desconhecido para não ter que participar da campanha do ex-adversário.

Por mais divergências que se tivesse com Brizola — e era muito fácil tê-las, pelo menos antes de ele morrer e virar quase santo —, uma coisa é inegável: ele não era apenas um dos grandes nomes da política brasileira, era antes de tudo um político de verdade e um homem com vocação para estadista.

Conhecendo a história do PDT e de Brizola, é inevitável que pareça estranho e infantil ver Ciro e seus porta-vozes reclamarem que Fernando Haddad deveria ter renunciado no segundo turno em favor do ex-governador do Ceará, baseados na lógica meio confusa de que ele não tinha tido sequer metade dos votos do candidato do PT no primeiro turno, mas ganharia de Bolsonaro. Mais ainda, jogam toda a culpa no antipetismo óbvio, mas esquecem que a atitude adotada pelos irmãos Gomes (“Lula tá preso, babaca!”) não contribuiu em nada para diminui-lo ou diminuir a desconfiança em toda a esquerda.

O mais estranho, mesmo, é a tentativa de negar ao PT o direito de tentar manter sua hegemonia, como se em algum momento da história política mundial algum partido ou grupo sério tenha feito isso. Além da lambança ética em seus governos, o PT cometeu erros grosseiros em sua campanha. Mas foi uma escolha dele. É uma lógica estranha, essa, de uma esquerda infantil que não entende mais a política e acha que liderança, nessa área, pode ser concedida, e não apenas conquistada. Se a esquerda ainda não conseguiu superar o PT e Lula, não é pedindo para eles desocuparem a moita que vão conseguir ocupar o proscênio, e sim apresentando uma alternativa, algo de que até agora não temos sido capazes.

Em 1989, Lula conquistou um lugar que até então tinha sido de Brizola porque fez política melhor. Em 2018, Ciro apenas ocupou o lugar que sempre ocupou: um político voluntarista, irregular, em cuja história podem ser computados um ministério no governo Lula e o fato de ter quebrado a indústria nacional para eleger Fernando Henrique, quando foi ministro de Itamar Franco. E culpa o PT por não ter sido capaz de ir além disso.

Como diz o Mark Lilla, em política não existe antes, só existe o depois. Cabe ao PDT e ao resto da esquerda brasileira tomarem o lugar que hoje pertence a Lula e, em menor escala, ao PT. Mas para isso é preciso apresentar uma alternativa viável, um projeto de Estado que responda às necessidades da atualidade. Não é pedindo licença que vão conseguir.

50 anos depois

Essa é a capa da edição especial da revista Manchete publicada em abril de 1964, comemorativa ao golpe militar.

A capa serve para lembrar qual era, exatamente, o pensamento da elite brasileira em 1964, as razões pelas quais apoiou o golpe, as esperanças que tinha na obediência da caserna.

Ela embarcou alegre na aventura militar golpista porque acreditava que aquela era a maneira mais fácil, ou talvez a única, de tirar do poder um governo não apenas eleito democraticamente — mas, mais importante ainda, referendado no plebiscito de 1963. Acreditava também que os militares apenas fariam o seu papel abjeto de cães de guarda e, derrubado Goulart, lhe entregariam o poder.

A elite carioca, especificamente, depositava todas as suas esperanças em Carlos Lacerda. O tempo passou e as pessoas talvez esqueçam que esse homem, o responsável pela crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas dez anos antes e talvez a principal vivandeira do golpe de 64, foi uma das personalidades mais nocivas da história brasileira. O mal que ele fez ao país é imensurável.

Não satisfeito com o suicídio de Vargas, tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek como presidente em 1955. Depois do exílio na Cuba de Fulgêncio Batista, voltou para ser eleito governador da Guanabara. Foi um bom governador, de acordo com os registros. Melhor ainda para empreiteiras que realizaram obras importantes como os túneis Rebouças e Santa Bárbara. É tentador supor que os moradores da zona norte se encantaram com ele porque acharam que os túneis os tinham transformado em quase moradores da zona sul — mais ou menos como a classe média que hoje não gosta de ver pobres no avião porque eles acabam com a ilusão de que ela é quase rica.

Era esse homem que as elites brasileiras esperavam ver na presidência. Assim como Aécio Neves 50 anos depois, ele apostou na imposição do caos como maneira de chegar ao poder, não importando se, com isso, destruiria as instituições nacionais e criaria uma crise que dividiria e implodiria o país. Lacerda, brilhante como Aécio nunca foi, não teve trabalho para fazer as elites brasileiras, sempre canalhas, acreditarem que os militares entregariam a elas o poder assim que fizessem o trabalho sujo de depor Jango, devolvendo a aparência de normalidade democrática.

Pouco mais de quatro anos depois dessa capa, Lacerda estava na prisão, preso pelo regime que, como poucos, ajudou a instalar. Não viveu para ver o fim do regime militar. Assim como Aécio Neves 50 anos depois, foi engolido pelo monstro que alimentou.

Para as elites, o golpe compensou. Elas receberam seu investimento de volta; elas sempre recebem. Não consta que os ricos tenham deixado de ficar ricos, que as empreiteiras tenham deixado de pagar propinas para realizar obras públicas superfaturadas, que as mesmas estruturas de poder e clientelismo herdadas da nossa tradição ibérica tenham sido modificadas.

Mas as classes médias e os pobres, que apoiaram o golpe acreditando no discurso hipócrita e udenista de combate à corrupção, de medo do comunismo que iria lhes roubar as posses que nunca tiveram, que fizeram seu o discurso dos ricos, desses a história cuidou sem muita compaixão.

Foi essa gente cada vez mais iletrada e ignorante, que se recusa a aprender a lição de meio século de história porque agora tem a legitimação de seus iguais no WhatsApp, gente igualmente estúpida que compartilha suas ideias bovinas e destila a frustração, o despeito e os maus sentimentos de uma classe média ética e moralmente decadente, que ajudou a eleger Bolsonaro.

Mas a história é uma megera, e é também essa gente que agora vê calada o seu paladino Sergio Moro ter sua corrupção exposta enquanto é constantemente humilhado pelo ex-tenente terrorista. Que vê calada o ex-tenente atropelar as instituições para proteger seus filhos corruptos. Que vê calada os seus direitos desparecerem. Que vê calada o país que dizia defender em patacoadas verde-e-amarelas sendo desmontado e humilhado mundialmente — calada em um silêncio cúmplice porque, sempre obtusa, se recusa a admitir que sua estupidez atávica foi a principal causa dessa tragédia que o país vive hoje.

Infelizmente, repetindo a história, ela vai apenas seguir o destino de Carlos Lacerda.

Bolsonaro, o perdão ao Holocausto e o desvio da esquerda

A reação à declaração do tenente expulso do Exército, Jair Bolsonaro, de que podíamos perdoar o Holocausto, mas não esquecê-lo, é uma mostra do quão míope e desconectada da realidade está uma parte da esquerda, pelo menos essa que parece militar em posts de Facebook e respostas inteligentes no Twitter.

O Holocausto se transformou em um trunfo histórico e político para o movimento sionista. Golda Meir mostrou entender isso perfeitamente ao dizer que “depois do que fizeram conosco, podemos fazer tudo”. É o que justifica a atuação de grupos como o Yad Vashem, que se recusa a aceitar homossexuais, ciganos e comunistas como vítimas do Holocausto, e o que motivou o protesto preconceituoso de certos setores judeus nova-iorquinos quando, no início dos anos 1990, um museu tentou promover uma mostra sobre essas vítimas do Holocausto. Em grande parte, essa é a justificativa subjacente ao colonialismo agressivo e ao genocídio que Israel executa há décadas na Palestina.

Mesmo gente mais ilustrada tem dificuldade em compreender a dimensão tenebrosa da Solução Final. Certos setores do movimento negro, por exemplo, tentam (inadvertidamente ou não) relativizar o Holocausto comparando números com outro crime contra a humanidade, a escravidão africana nas Américas, sem entender sequer o mínimo: que para além da questão racial inerente e justificadora, a escravidão tinha motivação e racionalidade econômica, enquanto o antissemitismo não tem nenhuma — ao contrário, é absolutamente irracional, ódio puro que deve ser materializado não importa o custo econômico. Escravizar negros gerava lucro; matar judeus representava um prejuízo que valia a pena diante do ódio aos “assassinos de Cristo”.

E no fim das contas nada disso quer dizer alguma coisa para 95% dos eleitores de Bolsonaro.

Analfabetos políticos e simplórios, eles estão absolutamente alheios a questões históricas como essa. Para eles, o Holocausto representa pouco ou nada. É algo que, quando ouviram falar, sabem ser errado, mas que já passou e não afeta suas vidas. Não têm a dimensão do horror, e para eles Auschwitz é algo quase tão distante, e sem nenhuma conexão emocional, quanto a batalha de Hastings.

Para esses eleitores, quando Bolsonaro diz que “podemos perdoar o Holocausto, mas jamais esquecer”, ele não está subscrevendo o nazismo, não está justificando suas ações, não está se posicionando a favor desse crime. Fora do sectarismo militante, pelo contrário, para seus eleitores ele mostra uma faceta que seus opositores não conseguem ver nele: um governante tolerante, moderado. É o contrário do psicopata fascista que seus opositores enxergam, e do idiota funcional, reacionário, ignorante e despreparado que ele realmente é. E nesse caso, ele é transformado, para aqueles que o elegeram, em vítima.

Ainda mais triste — ou talvez mais uma prova desse entrincheiramento intelectual míope — é que eles não conseguem ver que algo semelhante aconteceu com Lula. Quando ele traduzia posicionamentos mais complexos em palavras simples, quando dizia que “a gente não vai pagar a conta dessa crise criada pelos louros de olhos azuis”, ele era rechaçado pela elite, que o acusava de analfabeto — enquanto se fazia entender pela patuleia, que era o que interessava a ele. Bolsonaro faz isso de maneira mais simplória, talvez até involuntária.

O resultado é que o eleitor médio de Bolsonaro continua se identificando com ele. Com as barbaridades que diz, com a incompetência verbal. Esses eleitores foram educados, ao longo de quase 40 anos de exercício da democracia em eleições, a descrer de promessas de campanha de candidatos e confiar no seu “bom senso” e na opinião majoritária de sua comunidade. Eles veem no idiota twitteiro o seu mesmo padrão de comportamento, de pensamento, o mesmo modo de ver o mundo e se posicionar diante dele.

Talvez o fenômeno mais curioso nessas eleições tenha sido o número de famílias de latrocidas, de gays e negros que votaram nele. Para eles, o discurso identitário nunca surtiu efeito. Eles focaram seletivamente naquilo que lhes: o discurso do combate à corrupção, da restauração da ordem, do fim de privilégios que só os outros têm, do conservadorismo de costumes que representa uma estabilidade existencial perdida há muito tempo (se é que alguma vez existiu). Anos de bombardeio da mídia contra a corrupção inventada pelos petistas o tornaram descrente e radical, infelizmente com a ajuda alegre de uma parte do PT. E o crescimento da penetração das redes, da possibilidade do compartilhamento em massa de ideias semelhantes e compreensíveis, ainda que estúpidas, lhes deu força e autoafirmação.

É isso que essa parte dos seus opositores não consegue enxergar. É um problema que aparentemente tem origem no momento em que o Muro de Berlim caiu e a esquerda perdeu o referencial ideológico e concreto do socialismo. Órfã, se tornou presa fácil para a dominação das pautas identitárias, que sobrepunha questões de gênero e étnicas à luta de classes.

Desde o início, quem conseguia ver um pouco além dos posts lacradores de uma esquerda que achava que todo mundo ia se afastar de Bolsonaro pela sua homofobia, pelo seu racismo, pelo seu machismo delirante, tinha muito mais medo da sua incompetência e do seu despreparo. Mas a guerra de informação que se travou nas redes, especialmente no WhatsApp, se deu a partir de uma militância que privilegiava esses argumentos — que, no fim das contas, apenas galvanizavam a certeza de cada lado de que ele é que estava certo, levando a um impasse infértil que ajudou, mesmo que pouco, a beneficiar o candidato de uma direita desesperada.

É uma esquerda que se recusa a compreender as consequências sociológicas do crescimento do neopentecostalismo e sua teologia da prosperidade; que denuncia acertadamente que negros são as principais vítimas da violência, mas convenientemente esquece o que essas vítimas sentem na pele: que negros são também os perpetradores imediatos dessa violência.

Mais importante, não consegue entender as mudanças profundas que o capitalismo vem atravessando, possibilitadas pela tecnologia, e que transformaram profundamente a natureza das relações de trabalho. O sujeito que trabalha no Uber, o motoboy, o ciclista do Uber Eats, o caminhoneiro que está pouco se lixando se os subsídios que Bolsonaro prometeu há pouco vão beneficiar principalmente os fabricantes de pneus, os milhares de MEIs que aos poucos se tornam a norma nas relações trabalhistas representam uma mudança profunda e irreversível, que afeta profundamente a maneira como essas pessoas enxergam as pautas da esquerda. Para elas, que se veem não como explorados, mas como agentes autônomos, e que acham que seu sucesso depende apenas do seu próprio esforço, questões como previdência e pisos salariais representam antes de tudo a defesa de privilégios que certamente não são seus.

É com essa realidade complexa, em que certo e errado são cada vez mais fluidos, verdadeiros ou falsos apenas para um fragmento da sociedade mas não para outros, e que são definidos por experiências muitas vezes conflitantes, que essa esquerda teria que lidar — mas suas pautas identitárias impedem isso. Em vez de tentar compreender e lidar com esses processos, essa esquerda se esbalda em estultícies como o conceito de apropriação cultural.

As classes dominantes deste país nunca tiveram medo de se jogar aos crocodilos, se isso impedisse a esquerda de assumir o poder e promover mudanças estruturais que temem quase irracionalmente, em parte pela ignorância atávica e provinciana que lhe é característica e que fez, por exemplo, os médicos cearenses que foram vaiar os cubanos do Mais Médicos se espantarem ao ver que em Cuba há médicos negros. Já tinham feito isso com Castello Branco, e mesmo com Fernando Collor. A diferença é que agora, com a internet dando voz a uma legião de imbecis que sequer sabe escrever — e que se recusa até mesmo a confiar no corretor ortográfico do Microsoft Word —, quanto mais pensar política, essa burguesia tem ao seu lado uma camada de gente ignorante, preconceituosa e burra que assume como seu esse discurso. Eles, a propósito, são um indício de que em algumas coisas Marx estava errado. O barbudo não conseguiu prever que poderíamos viver a ditadura do lumpemproletariado.

De qualquer forma, são essas pessoas que ajudarão a decidir o futuro do país, e é com elas que se precisa dialogar. Mas essa esquerda parece não entender que política não é uma disputa para ver quem está moralmente certo ou errado. Infelizmente, é essa a base dessa esquerda identitária, aparentemente mais interessada em se afirmar diante de seus pares do que em conseguir conquistas tangíveis, mais interessada em fazer valer sua visão sectária de mundo do que em efetivamente mudá-lo.

Niemölleriana

Primeiro vieram buscar os negros, mas como eu não estava no meu lugar de fala, eu tive que me calar.

Depois vieram buscar as mulheres, mas como eu era homem cis hétero estuprador opressor, eu não pude protestar.

Então vieram buscar os trans, e como eu não era gay, fiquei calado para não entrar em treta.

Depois vieram buscar os comunistas, mas como eu insistia que não era golpe, eu achei foi pouco.

Então vieram buscar os sindicalistas, mas como eram todos pelegos, eu fiquei calado.

Depois vieram buscar as moças com turbante, e achei bom porque aquilo era apropriação cultural.

Então, quando vieram me buscar, eu fiz um post lacrador no Facebook.

A nova esquerda brasileira

No país inteiro o PSOL optou por sair sozinho.

Em Aracaju ele continua sendo aquela coisa maluca que já deu Avilete Cruz ao mundo, e agora tem a velha e boa Meire repetindo bordões cansados, encarando uma eleição municipal como se fosse congresso de sociólogos e apresentando como vice algum estudante que parece pensar estar em um sarau universitário.

Em Salvador o PSOL prefere amargar o traço nas pesquisas em vez de apoiar a Alice Portugal — não que isso pudesse barrar o passeio absolutamente compreensível de ACM Neto. Em Recife a situação é parecida. A estratégia parece só estar dando certo em Belém e Porto Alegre.

No Rio, o Freixo recusou a união das forças de esquerda já no primeiro turno. Sua sorte é que Jandira e Pedro Paulo têm um número até significativo de votos para forçar um segundo turno; não fosse isso Freixo ia para o saco ainda mais rápido, numa eleição que é do Crivella — o que, por sua vez, é algo mais grave e com piores consequências do que as pessoas parecem se dar conta.

Mas em São Paulo a coisa é mais grave. O candidato natural era o Haddad. Ao dividir o campo, Erundina e o PSOL abriram caminho para o crescimento da Marta. Direito deles, claro, e é compreensível que vejam num momento surreal como o atual a chance de se afirmar como uma nova opção. Mas o resultado pode ser esse que está se desenhando: vai entregar Sumpaulo para o Dória. Ou para a Marta, na melhor das hipóteses.

O PSOL está reprisando, com 30 anos de atraso, a mesma estratégia que deu certo para o PT nos anos 80, se distanciando “do que está aí”. Mas eles são incapazes de uma leitura sensata da realidade. Os anos 10 não são os anos 80. A redemocratização é um momento diferente do pós-derrocada do PT. O PSOL, que em algum momento até guardou uma promessa de futuro, acaba sendo uma versão estereotipada e empobrecida do PT de outros tempos, sem a base sólida que os movimentos populares emprestavam ao PT.

E isso é o mais triste. De certa forma, e em alguns aspectos, o PT representou um avanço em relação aos partidos comunistas; o PSOL é apenas um retrocesso. (PSTU e PCO não devem ser levados em conta porque já completaram a transferência para uma dimensão alternativa, e a Rede — bem, a Rede tem Marina Silva; que o pano da decência caia sobre esse cenário.)

Numa das primeiras manifestações contra o impeachment em Aracaju, os batuqueiros do Levante da Juventude desfraldaram um imenso painel pedindo “assembleia constituinte já”. Parecem não ter ideia do descalabro que seria uma constituição produzida hoje. Deu vontade de dizer: “guardem essa miséria e vão pra casa estudar, meninos”.

E essa é a nova esquerda brasileira. Uma esquerda pueril, atrasada, desconectada da realidade e com problemas sérios de compreensão de conjunturas, que parece definir seus programas através de temas e likes de Facebook. Acima de tudo, profundamente ignorante e aferrada aos seus bordões fáceis. De vez em quando acho que eles poderiam ler o capítulo 9 de “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”. Mas nessa nova e natimorta esquerda, se ainda há uma sombra de debate acadêmico sobre Marx, falta uma releitura de Lênin — muito mais importante hoje, na minha opinião. Não por acaso o sujeito que disse que a prática sem a teoria é cega, e a teoria sem a prática é estéril.

André Singer e o marketing político

A cada dois anos a cena se repete. Basta que se aproximem as eleições para que o marketing político se torne assunto recorrente nos jornais, especialmente nas colunas de opinião. E então eles aparecem.

De um lado vem um bocado de gente falando com aparente propriedade sobre o tema, sempre dando a receita infalível para ganhar eleições e reforçando o mito deletério do marketing como panaceia universal para eleger até sabonete. São geralmente platitudes, as mais óbvias possíveis. “É preciso usar as redes sociais”, “é preciso cuidar da imagem”, “contrate um profissional”. São na verdade pedidos de emprego disfarçados, mas infelizmente bastante simplórios. Não entendem a natureza da besta nem o seu mecanismo.

Do outro vêm os jornalistas que não sabem do que estão falando.

André Singer é um sujeito normalmente ponderado e que sabe o que diz. Mas em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, no início desta semana, faz algumas considerações tão bobas sobre marketing político que impressionam pelo nível de desinformação e pela miopia nas avaliações e prognósticos apresentados.

Singer começa com o pé errado ao dizer que este é o momento em que os partidos definem os planos de campanha. Passa a impressão de estar vivendo em 2014 e de não ter entendido ainda que a campanha já começou. Não se trata de figura de linguagem: a campanha na mídia, como as pessoas a entendem, já começou.

O que mudou foi a mídia.

Na história do marketing político há algumas datas que representam marcos importantes. 1989, por exemplo, quando Lula e Collor demonstraram o poder da televisão. 1994, pelas circunstâncias atípicas (com medo de que Lula repetisse o sucesso de 1989, Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco limitaram as possibilidades de uso do horário eleitoral) mas que deixaram lições importantes. Ou 2002, quando a vitória do modelo mais sólido utilizado por Duda Mendonça (ali distante da sua fórmula frouxa do “Fulano fez, did it, lo hizo”) sobre a pirotecnia publicitária de Nizan Guanaes mostraram que o marketing político tinha alcançado a sua maturidade estrutural e formal.

2016 é outro desses anos fundamentais. Talvez o mais importante de todos, porque a mudança que está acontecendo neste exato momento vai muito além do uso da TV e de circunstâncias legais. É uma mudança estrutural, como poucas antes dela, e apresenta definitivamente um mundo que vinha se anunciando já há uns bons 15 anos. Talvez seja mais difícil percebê-la porque a conjuntura nacional — a Lava Jato, a crise econômica e, em menor medida, a proibição de contribuições empresariais, que se junta orgulhosamente ao panteão em que já estão a proibição do aborto e a criminalização do uso de drogas — deve fazer desta uma eleição singular. Mas o futuro está aqui, bem claro.

Esse é o principal problema do artigo do Singer: ele não entendeu o alcance da minirreforma eleitoral do ano passado e não consegue ver o que está se passando diante do seu nariz; compreende ainda menos o futuro que se apresenta. É impossível acertar dessa forma — assim como ao marketing é impossível eleger um candidato vazio.

A avaliação que ele faz é a de que, como o tempo de campanha na TV e no rádio diminuiu, diminuiu também a importância da comunicação. O problema é que está acontecendo justamente o contrário.

A correção menos relevante a ser feita a esse amontoado de equívocos é o de que essa diminuição tão apregoada é ilusória. Verdade que o tempo dos programas de TV e rádio diminuiu; mas se até 2014 os candidatos majoritários colocavam no ar três programas por semana, agora irão ao ar todos os dias. Além disso, o tempo dedicado às inserções de 30 e 60 segundos dentro da programação normal das emissoras aumentou consideravelmente. No fim das contas, se produziam 2 mil minutos de vídeo a cada campanha. Agora serão 3 mil. Sem falar nas centenas de municípios sem emissoras de rádio ou TV que poderão fazer suas campanhas na internet. Criatividade e planejamento estratégico vão ser mais importantes do que nunca.

Mas essa é só uma mudança como tantas que acontecem a cada ano eleitoral, e que são modificadas novamente nas eleições seguintes. Não é sequer mais importante que o fim da Lei Falcão, ou o tal cerceamento promovido há 22 anos. A verdadeira revolução, que terá consequências importantes e irreversíveis, está na criação da figura do pré-candidato.

Até 2014, candidatos só podiam botar seu bloco na rua após as convenções partidárias. Agora estão liberados para fazer campanha na internet desde muito antes: só não podem pedir voto explicitamente.

Isso abriu um mundo novo para o marketing político brasileiro, e indiretamente deve influenciar um pouco a maneira de fazer política no país. No fim das contas, as campanhas propriamente ditas durarão mais tempo, sobre uma variedade de novas plataformas audiovisuais. As eleições brasileiras ficaram mais parecidas com as americanas, onde a campanha na mídia começa dois anos antes, com a luta de pré-candidatos pela indicação partidária.

É uma guerra cujo principal teatro será a internet. 2016 deve entrar para a história como a primeira eleição em que a TV desempenhará um papel um pouco menor na disputa pelo voto. A consolidação das redes sociais, da internet móvel e da banda larga está dando ao tal mundo virtual — especialmente o Facebook, o Twitter e o mais imprevisível e incontrolável de todos, o WhatsApp — uma importância que era apenas antevista nas eleições passadas. Até agora, a internet era usada principalmente como suporte à campanha definida na TV e no rádio ou simplesmente para marcar “presença online”. Mas agora será ela a definir as campanhas, e isso quer dizer que as outras mídias fatalmente virão a reboque do que se construir nesses meses que precedem as convenções.

Obviamente, a legislação pode mudar nas eleições de 2018 e a figura do pré-candidato pode desaparecer mais uma vez. Mas o que ela trouxe em 2016 deve permanecer: o uso das redes sociais como instrumento de campanha real, explorada com ferramentas de marketing político, é algo inexorável, ainda que eventualmente precise se adaptar a novas normas sempre inconstantes.

Há outros aspectos estranhos no artigo do Singer. Como o recurso àquele velho lugar-comum que diz que “programas de TV são o maior escoadouro de dinheiro em eleições”, o que mostra que ele não entende como se processam as campanhas na vida real e a criação das estruturas eleitorais. O cenário que ele identifica pode até vir a se concretizar em breve, e se acontecer será bom para a sociedade; mas não é realidade ainda, e os milhões distribuídos por Eduardo Cunha deveriam ser evidência suficiente para que isso ficasse claro.

Além disso, em um ataque estranho de neo-ludismo, ele pede campanhas em que o candidato fale diretamente para o eleitor: o candidato e a câmera, olho no olho, “só propostas”. Esse é mais grave. Seu princípio é o da negação do marketing como ferramenta educacional, e a crença de que ele tem uma importância mistificadora maior do que a real.

O que o Singer não parece saber é que esse tipo de campanha que ele quer já existe. Quer entender a diferença que o marketing político faz? Olhe as câmaras municipais, estaduais e federal. Os excelentíssimos senhores que estão ali foram eleitos dessa forma, com pouquíssimos recursos de comunicação. O resultado é o império do clientelismo, da politicagem mais rasteira, da política como balcão de negócios, o império que se justifica na defesa de Deus, da família e “contra a corrupção”.

A comunicação política, ao expor à sociedade as propostas e realizações dos candidatos, fomenta o debate e aumenta as expectativas. Ao longo dos últimos 30 anos, serviu para fazer parte do sistema político brasileiro avançar; o que o está destruindo se consolidou justamente na área onde ela não tem tanta importância, as eleições proporcionais. Por mais que alguns setores odeiem, o fato é que o marketing político ajudou a consolidar a democracia.

Mais que isso, indica também uma recusa em compreender o mundo à sua volta. Como lembra este artigo de Steve Viva, política hoje é mais que teatro, é também showbiz. Goste ou não disso, essa foi a maneira como a sociedade evoluiu. Subir num pilar como um Simão do Deserto buñuelesco e clamar aos céus pela volta de uma variação da Lei Falcão não vai mudar isso, assim como amar televisões valvuladas não as trará de volta.

Claro, nem todo mundo compreendeu isso ainda. Singer é um deles. Mas a mudança está aí, e é irreversível.