Autopsicografia

Ninguém notou, mas aí em cima da foto do banner tem uma pequena aba chamada “Sobre o autor”. Ela leva a uma página que conta tudo o que você não queria saber sobre Rafael, e nunca teve vontade de perguntar.

Sobre o bis

A revista Men’s Health traz uma manchete chamativa na edição que está nas bancas:

Como fazer com que ela peça bis

Ou algo assim.

E eu imagino a legião de bobos correndo a comprar a revista, ansiosos pelo segredo que será revelado aos seus olhos inocentes.

Tolos: a questão não é fazer a moça pedir bis, ansiosa e insatisfeita. É fazê-la incapaz de articular uma palavra sequer, com um sorriso de orelha a orelha e um olhar esgazeado que vaga pelo vazio.

Mulheres quase perfeitas

Ninguém vai acreditar em mim, mas eu já fui o queridinho das mulheres por aqui.

Aconteceu há alguns anos. Eu fiz um post de uma linha, a Tata viu e me pediu para desenvolver o tema para que ela publicasse em seu blog.

O texto já estava nas suas mãos em menos de meia hora. Era só uma daquelas verdades que eu considero universais: mulheres perfeitas demais são pouco atraentes. Eu não gosto de mulheres de revista, aquelas mulheres que não parecem ter um só defeito ao qual você possa se apegar e reconhecer como a sua marca de singularidade neste mundo. Nunca gostei, nunca vou gostar.

Ele deve ter apelado às mulheres que têm celulite demais, estrias demais, peitos grandes, pequenos ou caídos demais, pernas grossas ou finas demais para os seus próprios padrões — algo em torno de 99,999% da parcela feminina da humanidade. Deve ser o texto deste blog mais republicado por aí.

Deve ter feito tanto sucesso porque podia ser lido como um elogio a elas, porque mulheres e homens gostam de ser elogiados pelos seus defeitos.

Foi um idílio bom que durou até o dia em que eu resolvi falar de adolescentes de 30 anos. Falava de uma amiga, que mesmo agora que se aproxima dos 40 como eu continua mais ou menos da mesma forma, ainda esperando o príncipe encantado e dispensando o que aparece porque além da esquina pode vir algo melhor.

Publiquei o post pela primeira vez quando ninguém lia este blog, e ele passou em branco, claro. Republiquei novamente quando o blog era razoavelmente lido — e o resultado foi uma avalanche de mulheres dizendo que não, que eu era um porco chauvinista e que elas não eram assim, que o meu problema era que eu não comia ninguém, e que isso era bem feito. (Que eu não comia era verdade, como continua sendo; mas precisava dizer que era bem feito?)

Carapuças são vestidas inadvertidamente por gente demais neste mundo; mas felizmente apenas uma parcela bem menor, a menos favorecida por Atena, se ergue nas patas traseiras e manifesta o seu desagrado com zurros altos demais.

A impressão que tenho às vezes é que mulheres demais acharam que o primeiro post era uma declaração de amor a elas, ou ao que julgam representar; mas isso não é verdade; assim como não é verdade que o post sobre adolescentes de 30 anos é uma declaração de guerra a mulheres que se julgam enquadrar na categoria.

Lembrei dos velhos tempos porque o blog Mulheres Impossíveis republicou o texto dia desses. É um bom texto. Continuo assinando embaixo. Continuo não gostando de mulheres perfeitas, ou aparentemente perfeitas. Gosto dos pequenos defeitos. Mas de lá para cá passei a ser mais cauteloso quando falo de mulheres.

Até porque há mais adolescentes de 30 do que mulheres perfeitas por aí.

A inexorável jornada

Quando eu nasci a capacidade do Maracanã era de 200 mil pessoas, e ele era o maior estádio de futebol do mundo.

Hoje a capacidade do Maracanã é de 92 mil pessoas, e ele já não é o maior estádio do mundo.

Na próxima reforma, para a Copa de 14, sua capacidade vai diminuir para 86.100 espectadores.

O Maracanã vai se apequenando à medida que o meu tempo neste vale vai se esgotando.

Quando eu morrer o Maracanã será menor que o Batistão de Aracaju.

A fuga das andorinhas

Uma manchete no Estadão semana passada me chamou a atenção e começou a despertar em mim algo que lembra o princípio do pânico, ou no mínimo a sensação de quase paralisia que se tem quando se percebe uma catástrofe inevitável.

75 mil prostitutas brasileiras trabalham na Europa.

Durante muitos anos, vi de longe o terror da sociedade brasileira diante do que chamavam de evasão de cérebros — hoje, cada vez mais anglicizados, acho que chamariam de brain drain. Se referiam ao êxodo de cientistas brasileiros para centros tecnológicos mais desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos, mas também vários países europeus. Então se queixavam que a sociedade brasileira não dava o devido valor aos seus cientistas, e que o Estado não cumpria sua obrigação de incentivar o desenvolvimento científico deste país.

Depois, principalmente a partir dos anos 80, foi a vez dos jogadores de futebol, atraídos pelo dinheiro do Oriente Médio, depois da Itália, então da Alemanha e finalmente de qualquer país de segunda que investisse uns tostões no futebol de seu país.

Agora é a vez das nossas alcouceiras abandonarem o Brasil. 75 mil putas brasileiras no além mar. Eu sequer sabia que existiam tantas lúmias neste país — embora esse não seja, em absoluto, um número inacreditável. Muito menos que havia tantas rascoas sobrando, um excedente considerável a ponto de abastecer os pobres europeus deficientes em bunda como somos deficientes em ferro.

Este blog horrorizado se pergunta, com aquela indignação de deputado oposicionista quando encontra o que imagina ser um filão de escândalos no governo: onde estão as autoridades brasileiras que não tomam providências diante de fato tão grave, que transcorre debaixo de nossos narizes sem que façamos alguma coisa?

Não é possível que até agora não se tenha percebido a tragédia que se anuncia. Um país sem putas é um país chato, e um país chato não recebe turistas. Veja só o exemplo da Holanda. Que país agradável, aquele — e ali estão as pituriscas nas vitrines, o mais legítimo produto nacional mostrado com orgulho para os olhos admirados e invejosos do mundo; e quando não dão conta importam messalinas do Leste, que agregam mais ao produto interno bruto do que os tradicionais bares de haxixe.

Sem as cortesãs, o que vai ser do turismo em Fortaleza, e em Natal, e no Rio de Janeiro? Alguém realmente acha que vem turista da Dinamarca ou da Itália só para ver pobre em favela? Que aqueles operários alemães bebedores de cerveja vêm para cá apenas para se esconder de tiroteio no morro, ou ainda contemplar a natureza bucólica da Chapada dos Guimarães em meio a arrotos de cevada e lúpulo?

Precisamos cuidar do que é nosso. Estão fazendo de nós a nova colônia européia. Antes tiravam nosso pau-brasil, nosso ouro, nosso açúcar; agora nos tiram nossas vulgívagas.

Talvez seja culpa do governo. Esse negócio de incentivar a exportação para trazer divisas, em vez de fortalecer o mercado interno e atrair turistas, não podia dar certo. Mas o impacto a ser causado caso nosso plantel de rameiras seja extinto pela migração é muito maior que isso.

Sem as putas, o que vai ser da nossa produção teledramatúrgica? Quem vai aparecer em reality shows dizendo que é modelo e que “tá com um projeto aí”? Quem vai ser assistente de palco de programa ao vivo?

O êxodo das palomas vai levar nossa economia ao colapso. E por isso, preservar nossas putas é dever de todos nós.

A mesma sociedade que se indignava diante da saída dos nossos cientistas agora precisa protestar contra a evasão das nossas zoinas. E aqui cabe a indignação perante uma sociedade hipócrita que finge pavor quando vê cientistas indo para o MIT, mas que não se importa quando galdranas goianas se mudam em massa para a Espanha, para pegar o touro à unha. A sociedade brasileira tem o dever de se manifestar veementemente contra esse crime de lesa-pátria. O Congresso Nacional, em vez de perder tempo com o cupuaçu, precisa regular urgentemente sobre o assunto — quem sabe até estabelecendo cotas, um limite de meretrizes que podem sair legalmente deste país a cada ano, preservando o mercado nacional.

Tudo isso é fundamental, porque por mais ufanistas que possamos ser, a verdade é que há poucas coisas em que somos realmente bons. Fazemos samba melhor que todo mundo. Nossos jogadores de futebol, grosso modo, são os melhores do mundo. Que agora reconhece o talento, disposição e seriedade com que nossas vadias se dedicam ao seu mister.

Que a sociedade brasileira cuide de nossas putas. Que o Estado garanta a todas elas o direito a uma vida sadia e digna e ao mais recompensador exercício de sua profissão. Que não caiam mais no canto da sereia do neo-liberalismo das Oropa ou dos States, porque tudo a que ele nos levou foi a isso, foi à debandada de nossas mulheres de amor.

São essas raparigas, padrão mundial em sua área, que devemos preservar. Herdamos uma longa e bela tradição de putas — e por que agora vamos esquecer tantos séculos de aprimoramento genético e tecnológico, as tantas polacas e madames francesas trazidas para racear nossas marafonas com requinte e elegância? Como brasileiros e, principalmente, como seres humanos temos a obrigação de deixar um país e um mundo melhores para nossos filhos e netos. E não um país que afunda em direção ao oblívio, em meio a uma revoada de periquitas, que avoam para a Europa em busca de ninhos melhores.

Republicado em 03 de outubro de 2010

Os gostos de Maomé

O meu problema, o que ainda vai me levar para a cova muito antes do meu tempo já exíguo é a facilidade com que eu aceito desafios. Me sinto o próprio Marty McFly. Ainda mais porque o Bia pede para fazerem um post sobre Maomé, mas ele mesmo não é macho o bastante para isso. O Bia é aquele moço que fica no canto da sala instigando os outros a brigarem, dando risadinhas abafadas.

A idéia de um Maomé engajado em atos sexuais heterodoxos é interessante. Mas também seria provocação demais. Sobre Jesus, que me perdoem os cristãos, a gente pode falar o que quiser — afinal, tudo o que se sabe dele é o que dizem os evangelhos e uma citaçãozinha de nada em Flávio Josefo. Sem bases concretas, é fácil fazer piadas bobas sobre um sujeito andando por aí acompanhado de doze homens.

Maomé, ao contrário, é um personagem histórico mais sólido. Provavelmente porque o seu impacto imediato foi muito maior e mais amplo que o de Jesus. Independente do seu papel histórico, Jesus foi uma criação dos seus apóstolos, principalmente de São Paulo. Com Maomé foi diferente. A começar pelo Alcorão, melhor fonte histórica do que os evangelhos. Além disso, sua atuação política foi mais clara e mais efetiva. Ou seja: o histórico heterossexual de Maomé torna qualquer elocubração acerca de suas preferências provocação pura e simples, o tipo de coisa que aquele jornal dinamarquês fez.

De qualquer forma, o preceito aplicado a Jesus se aplica igualmente a Maomé. Maomé podia ser a maior bichona deste mundo. Podia dar a bunda com a mão na cabeça para não perder o juízo. Podia ser hábil na arte de prestar favores orais aos peregrinos que vagavam entre Meca e Medina. Podia usar a pobre da Khadijah para arranjar homens (“Você pode comer a moça, mas antes tem que me comer”). Podia correr para o alto das mesquitas para viver com algum discípulo a mais bela história de amor e suor. Podia se ajoelhar em direção à Meca sabendo que atrás de si um mujahid olhava para seu traseiro com cobiça e desejo. É tão difícil assim imaginar Maomé apoiado sobre a Caaba enquanto um tuaregue daqueles bem brutos faz-lhe a festa?

Para Maomé, no mais verdadeiro espírito ecumênico, vale o mesmo que para Jesus. Maomé podia fazer qualquer coisa, e nada disso faria de sua mensagem algo menos verdadeiro, nem ele menos digno de respeito.

Adeus ao Movable Type

Durante quase cinco anos, este blog rodou sobre uma plataforma específica de blogagem, o Movable Type.

Foi o Movable Type, e sua simplicidade e variedade de recursos, que me fez sair do Blogger.

Dutrante muitos anos não tive nenhuma queixa. Nos entendíamos bem, eu e ele. Mas na semana passada, por algum motivo, ele deu um pau federal. O pessoal do suporte disse que era problema com um banco de dados corrompido, pode ser. Mas como fazia tempo que eu precisava atualizar a versão do MT, decidi que não iria reinstalar aquela versão do bicho.

A idéia lógica seria migrar para o MT 4, mas não consegui. Nem sequer a ajuda do Tiagón foi suficiente para me guiar na instalação de algo que era muito simples e que agora simplesmente não conseguia rodar.

O MT hoje tem duas versões, Movable Type Open Source e Movable Type Personal. Eu sequer conseguir rodar a versão Open Source — até porque o movimento do código livre está mais interessado no WordPress do que no MT. A versão Personal rodou — mas apenas se eu usasse HTML em vez de PHP, o que seria impensável.

Era trabalho demais para mim. Ainda mais porque, como uso o método Michael Corleone para lidar com coisas inanimadas — “tudo é pessoal” –, eu não perdoava o MT por ter dado um problema tão grave justamente numa semana difícil. E ter-me feito sacrificar meu domingo em busca de uma solução para o blog. Isso é imperdoável.

E assim, a partir do dia da graça de hoje, este blog passa a rodar o WordPress. Não porque tenho alguma admiração — ou deixo de ter — pelo movimento do código livre; não porque acho o WP melhor ou pior. Mas porque funciona, e essa é a única razão válida para qualquer coisa.

Fica aqui a tristeza por ver o que fizeram do Movable Type. Era um grande software. Lá pelos idos de 2003, 2004, todos gostavam dele. Quando lançaram a versão 3, e mudaram seu sistema de preços, a comunidade do código livre caiu de pau em cima deles, considerados traidores do movimento. Mesmo assim tinham um bom programa nas mãos. A versão 4 tentou remendar as coisas, criando essa tal versão Open Source e correndo atrás até mesmo do look and feel do WP, mas não acho que tenha mais jeito: eles perderam o bonde da história.

E no fim das contas sobrou para mim. Os danos são poucos, mas bem variados: vários links antigos para este blog foram quebrados. E quem lia este blog por rss terá que assinar tudo de novo; a seguir, os novos links:

Posts: http://rafael.galvao.org/feed/
Comentários: http://rafael.galvao.org/comments/feed/

Pois é.

Um meme achado por aí

Vi o meme na Luma e resolvi me meter na conversa mesmo sem ser convidado:

1 – Por que você resolveu criar o blogue?

Eu queria um lugar onde pudesse escrever as bobagens que mandava para amigos por e-mail, e um lugar onde pudesse escrever de maneira diferente do que costumava escrever, com textos mais longos, sem muita regra. Exercício.

Mas acho que a pergunta que importa não é essa. Começar um blog é muito fácil. A pergunta que realmente importa é: por que você mantém um blog?

E eu não tenho uma resposta a essa pergunta. Talvez porque eu goste de escrever, talvez porque eu goste de dar opinião sem base sobre qualquer coisa, talvez porque eu goste de irritar as pessoas.

2 – O que te dá mais prazer em blogar?

Elogios. Eu sou viciado em elogios, é uma doença que me acompanha desde a mais tenra idade. Eu comia elogios no café da manhã. E quando ninguém me elogia, o que aliás é excessivamente comum, eu me auto-elogio. Por falar nisso, eu já disse hoje que sou quase lindo?

3. Indique um blogue bom e um que você não gosta e porque.

Não posso indicar um blog de que não gosto porque não leio blogs de que não gosto. Ler blogs de que não se gosta é uma ocupação masoquista para quem tem tempo livre à disposição, e eu não tenho.

De resto, a verdade é que não sou grande leitor de blogs, por falta de tempo. Não tenho internet em casa. Isso me tira a chance de descobrir coisa boa e me faz ficar cada vez mais defasado tecnologicamente; fico mais conservador e não acompanho essas novidades de Facebook, Second Life, etc.

No fim das contas, eu recomendo os blogs que estão aqui ao lado, no meu blogroll.

4. Qual o tipo de música e quais suas bandas favoritas?

Rock and roll, blues, jazz e soul. Beatles.

5. Qual o assunto que você gosta mais de postar?

Pergunta difícil e que também não sei responder. Qualquer coisa. O que vier à minha mente angelical.

Mas acho que gostaria de escrever textos mais longos, analíticos e seriamente embasados, aquelas coisas que dão respeito, sabe? Mas me falta tempo. Eu queria fazer um post sobre cotas, sobre as razões pelas quais mudei minha opinião nos últimos anos (uma pista está aqui e aqui), mas me falta tempo objetivo e subjetivo; escrever por escrever não vale a pena. E como se isso não bastasse, problema maior seria acompanhar a discussão subseqüente.

Aí eu escrevo qualquer besteira e torço para não ser muito esculhambado.

6. Seaquinevasseceusavaesqui?

Eu não falo russo, camarada. É a sua.

7. Você é casado, solteiro, separado, enrolado, desquitado, chutado, viúvo ou outros?

Vivo levando tanto pé na bunda, coitado de mim, que nem sei mais. Ninguém me ama. Ninguém me quer.

8. Por que você deu este nome ao seu blogue?

Porque nome bonito estava em falta. Um muambeiro ficou de me arranjar um melhor, mas a Receita pegou o idiota no Galeão.

9. Qual o último blogue que visitou?

Acho que o Liberal Libertário Libertino, procurando um post sobre o qual eu queria falar.

10. Por que resolveu participar deste meme?

Porque eu não tinha assunto para hoje.

Era bonito ser histérica

A crônica de Nelson Rodrigues, escrita há mais de 40 anos, chegou ontem ao meu e-mail enviada pelo Bródi “Tom” Negão. Sem conhecer adjetivos suficientes para defini-la, ainda de boca aberta e fascinado, eu apenas a republico aqui.

Era bonito ser histérica

“Beijarei o punhal que matar Pinheiro Machado” — soluçou o orador. E, realmente, enfiou a mão no colete, ou cinto, e de lá arrancou, com ágil ferocidade, o punhal homicida. Logo, à vista de todos, beijou, chorando, o punhal. As lágrimas deslizavam pela face cava. E o orador, prolongando o efeito cênico, ainda ficou, por algum tempo, com o punhal erguido e profético. Um uivo unânime subiu das entranhas do silêncio. O comício veio abaixo. Sujeitos atiravam para o ar os chapéus de palha.

Mas resta de pé a pergunta: — Por que exatamente o punhal? Por que o ódio havia de ter a forma esguia e diáfana do punhal? 1915. Era o Brasil do fraque e do espartilho. Nas salas de visitas, havia sempre uma escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Eu tinha meus três anos e estava em Pernambuco. Três anos. Aos três anos, o sujeito começa a inventar o mundo. Minha família morava na praia. E eu começava a inventar o mundo. Primeiro, foi o mar. Não, não. Primeiro, inventei o caju selvagem e a pitanga brava.

Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo.

Eis o que eu queria dizer — o primeiro nome que ouvi foi o de Pinheiro Machado. Alguém se chamava Pinheiro Machado. A princípio, ele não foi um destino, um perfil, um fraque, mas tão-somente um nome. Um nome solto no ar, quase um brinquedo auditivo. Eu não inventara ainda a morte, não inventara ainda o punhal, nem a palavra “defunto”.

Escrevi, não sei onde, que foi um suicida que me revelara a morte e me ensinara a morrer. Engano, engano. Foi Pinheiro Machado. Sim, Pinheiro Machado. E, súbito, eu aprendia que o homem morre e que o homem mata. Ainda hoje, e até nas minhas crônicas esportivas, falo muito, com uma constância obsessiva, no assassinato de Pinheiro Machado. Uns acham graça e ninguém entende a insistência cruel. Ah, eu teria de explicar que há, em qualquer infância, uma antologia de mortos; e, para o menino que fui, Pinheiro Machado é um desses mortos fundamentais.

Mas repito a pergunta: — Por que havia de ser o punhal? Pinheiro Machado podia ser assassinado a tiro, a bala. Pouco antes, um jornalista fora assassinado em Pernambuco. Chamava-se Trajano Chacon. Três ou quatro se juntaram e o mataram, a cano de chumbo. Não faca, punhal ou revólver. No caso de Pinheiro Machado, quero crer que o punhal convinha mais à retórica. Na época do soneto, era mais parnasiano. O orador podia tirar o punhal, beijá-lo, quase lambê-lo.

Muitos e muitos anos depois, me vejo subindo a escadaria da Biblioteca Nacional. Estou crispado como o criminoso que vai reler a notícia do próprio crime. Lá dentro, peço a coleção do Correio da Manhã de 1915. Dou o mês do assassinato. Não me lembro se é permitido fumar na sala de leitura; em caso afirmativo, tiro um cigarro e o acendo (guardo o palito na própria caixa). Enquanto não vem a coleção, começo a tecer uma pequena fantasia homicida. Não é mais o Manso de Paiva, mas eu que me escondo atrás de uma coluna. Entra Pinheiro Machado, de fraque. Os rapapés o envolvem: — “Senador! Senador!”. É agora. Corro e mato Pinheiro Machado. Sou assassino. Em seguida, imagino a experiência inversa, de vítima. A dor fulminante da punhalada. Não tenho tempo nem para o espanto, nem para o grito.

O funcionário trouxe a coleção. Começo a ficar tenso. Encontro a edição do crime. Primeiro, passo os olhos no dia, mês e ano (sou um fascinado pelas datas dos velhos jornais e dos velhos túmulos). A manchete rasga as suas oito colunas: — ASSASSINADO o GENERAL PINHEIRO MACHADO! Ao bater estas notas, sinto o abismo entre as duas manchetes: — a de Pinheiro Machado era um berro gráfico, um uivo impresso; a de Kennedy, estupidamente impessoal, crassamente informativa. Ah, as manchetes de hoje não se espantam, nem se desgrenham, nem reconhecem a catástrofe.

O Correio da Manhã conta tudo. Estou vendo Pinheiro Machado, de fraque, chegando ao Hotel dos Estrangeiros. Lá está o seu lindo perfil de moeda. Vinha falar com dois políticos de São Paulo. Era um voluptuoso, um lúbrico do Poder. Sua conquista política era um jogo amoroso. O olho ficava mais doce, lascivo, translúcido. Amorosamente, Pinheiro Machado abriu os braços, enlaçando os dois políticos. E assim, entre um e outro, caminha o general, muito olhado. Claro que todos se voltavam para ver o homem que, segundo os comícios e os jornais, era o autor de todos os presidentes.

Pouco antes, chegava da Europa Irineu Machado, um dos grandes tribunos da época. Era homem de falar dez horas sem parar (antigamente, tínhamos mais oradores do que hoje camelôs de caneta-tinteiro). E Irineu Machado disse, em comício: — “Matar Pinheiro Machado não é ser assassino. É ser caçador”. Ele não estava improvisando nada. A frase fora criada, recriada, até chegar à sua forma exata, inapelável e assassina.

Era apenas uma frase. Mas aí é que está: — nada se fazia então sem frase. Para tudo era preciso uma frase. Repito: — uma frase tanto fazia uma adúltera como um ministro. E aquilo que Irineu Machado berrara foi de uma prodigiosa eficácia homicida. Caçar Pinheiro Machado, simplesmente caçar. Manso de Paiva estava ouvindo. E se não fosse Manso de Paiva seria outro Manso de Paiva. Até as senhoras eram Mansos de Paiva. A punhalada amadurecia no coração do povo. Mas volto ao Hotel dos Estrangeiros. Passa o caudilho com os outros dois. Ouvia-se o seu riso cálido, vital. Uma dama olha Pinheiro por detrás do leque como uma Butterfly.

Tudo teve a progressão fulminante da catástrofe. Manso de Paiva sai da coluna; corre, tira o punhal e o enterra até o fim nas costas do caudilho, pouco abaixo da nuca. Pinheiro soluça: — “Mataste-me, canalha!”. Mas Osvaldo Paixão, contemporâneo do episódio, orador de vários comícios ferocíssimos, retifica. Segundo ele, as últimas palavras de Pinheiro foram estas: — “Apunhalaste-me, canalha!”. Quero crer que ele tenha dito apenas: “Canalha”. Mas cabe perguntar: — que canalha? Ou, por outra: o caudilho estava com dois paulistas. Morreu certo de que um deles era o “canalha”.

(Preciso falar de Guimarães Rosa.) Ah, em 1915, as mulheres tinham um repertório de gritos que as novas gerações não usam, nem conhecem, Era bonito “ser histérica”. Muitas simulavam seus ataques, como o dostoievskiano Smerdiakov. Mas, quando Pinheiro caiu, as damas presentes não fingiam nada. Elas se esganiçavam, e rolavam pelas cadeiras, ou sapateavam como espanholas. Naquela época, uma notícia levava meia hora para ir de uma esquina à outra esquina. Mas toda a cidade ou, mais do que isso, o Brasil soube do assassinato, com uma instantaneidade brutalíssima.

E ninguém percebeu que, com Pinheiro Machado, morria também o fraque.

[4/12/1967]

Carta do Além

É isso, basta um sinal vermelho para que alguém lhe entregue um panfleto qualquer.

O panfleto era assinado por uma tal Sociedade Bíblica Ebenézer. Nome estranho, Ebenézer, parece personagem sovina de Dickens. Trazia umas silhuetas de saguaros ao entardecer — o que saguaros têm a ver com o tema eu não consigo perceber — e o texto que segue abaixo:

Carta do Além

Imagine se o diabo resolvesse escrever uma carta para alguém aqui da Terra.

Dessas pessoas folgadas, que não estão nem aí com Deus ou a igreja. Creio que ela seria mais ou menos assim:

“Caro amigo”:

Saudações infernais!

Estou tão ansioso por nosso encontro final que resolvi escrever-lhe afim (sic) de manifestar minha paixão por você. Você é tão perverso, orgulhoso, malvado e rancoroso!

A característica que mais admiro em você é esse seu desprezo por Deus. Noto que você transgride todos os mandamentos da Bíblia. Particularmente estou torcendo para que você adquira logo uma doença. Com sua vida promíscua, creio que isto não vai demorar.

Também torço para que você se arrebente quando dirigir bêbado. Isto o traria logo para os meus braços, numa união eterna.

Outro dia, quando se livrou daquele chato que, com a Bíblia na mão, insistia que você mudasse de vida, nós fizemos a maior festa.

Para encerrar, espero que você permaneça firme. Fuja da igreja. Nunca ouça ou veja aqueles programas que falam do meu maior inimigo — Jesus.

Atenciosamente,
Satanás.

Esta carta é uma peça de ficção. Mas o seu conteúdo é verdadeiro. Se você não gostou do que nela está escrito, vai gostar menos ainda de ir para o inferno. Ainda dá tempo de se arrepender de seus pecados e se entregar a Jesus.

Agora olha a sacanagem, a sinuca de bico em que me meteram. De um lado Satanás (Sassá para os íntimos) declarando sua paixão por mim, sem que algum dia eu tivesse lhe dado um vislumbre sequer de ousadia para tanto. Do outro Cristo — para não deixá-Lo por baixo, vamos chamá-Lo de Jejê — querendo que eu me entregue a Ele; justo o bonzão do Jejê, o grande moralista, o sujeito que sempre disse que antes do casamento a gente não deve fazer essas coisas de safadeza.

Ou seja, é todo mundo querendo me foder, que eu sei bem aonde essas coisas de paixão e entrega acabam levando.

É de bom alvitre lembrar a esses dois malandros que sou moço de boa família e de bons princípios. Não vou me entregando assim a qualquer uma, quanto mais a um barbudinho com cara de trotskista e a um corno vermelho que nem aqueles itabaianenses que trabalham de sol a sol roubando cargas de caminhão.

Em não tendo escolha, a princípio eu tenderia para Sassá, porque Jejê tem barba enquanto Sassá tem um rabo enorme, e rabos me são agradáveis.

Mas confesso que a sua cartinha me deixou um pouco chateado. Não por querer que eu me arrebente dirigindindo bêbado, porque isso é coisa de mulher rejeitada e, além do mais, não gosto e dirijo muito pouco, muito menos bêbado. Tampouco por me chamar de perverso, essa é a menor das sacanagens. Não. Posso ser orgulhoso, confesso, mas perverso, não. Todas as maldades que faço têm motivo de força maior, uma provocação. São reações, apenas. Eu gosto mesmo é do pecado da preguiça. Me deixe quieto no meu canto e não faço maldade a ninguém, porque antes de ser orgulhoso eu sou baiano. E não fui eu quem se livrou daquele chato. Foi ele que não quis me pagar o dízimo e foi embora, irritado. É impressionante como esse pessoal manda sua fé e sua atividade missionária para os quintos quando você pede um dinheirinho a eles.

O verdadeiro problema na cartinha do Sassá foi dizer que levo uma vida promíscua. Por que o deboche, assim tão desnecessário? Ele sabe que isso era tudo o que eu queria: uma vida promíscua e estróina, cheia de mulheres daquelas que inspiram um samba de Lupicínio Rodrigues. Por uma vida promíscua eu iria dez vezes para o inferno, feliz da vida, encangado no pescoço de uma negona do Cabula, deixando para trás uma vida de bandalheira. Era assim que eu queria viver: na orgia, na esbórnia, rodeado de mulheres, muitas mulheres, as mais vagabundas e cachorras e depravadas e ninfomaníacas que possa haver neste mundo. Daquelas que botam as mãos nos quartos, quebram assim para a esquerda e perguntam “Você tá pensando que eu sou o quê, hein?”, para que você entenda que são justamente o que você está pensando e siga o ritual comme il faut. Sassá sabe que sou um homem de desejos tão simples, não quero muito da vida em meu ascetismo.

Mas essa vida maravilhosa está além da minha capacidade, e esse Satanás filho da mãe sabe disso. Aí vem esse coisa ruim tripudiar, me humilhar porque afinal estou tão aquém dos meus sonhos. É essa a enorme sacanagem sutil no título da carta do Sassá: leia-se “Carta do além da sua capacidade, Rafael seu otário”.

Fiquei tão chateado com o deboche de Sassá que a despeito do seu rabo enorme talvez me entregue mesmo a Jejê, com um suspiro resignado. Sei a desgraça que me espera ali. Só peço que seja gentil. Eu não gosto dessas coisas, muito menos da posição a que Ele quer me submeter, estamos invertendo as coisas aqui. O caminho dos céus não vale tudo isso. A perdição antes da salvação, é assim que eu gostaria de viver se pudesse, mas o deboche do Sassá mostra que devo perder minhas esperanças, e sem esperanças uma eternidade de sofrimento é tudo o que me resta.