O 18 de Brumário de Luke Skywalker

Fui assistir ontem a “Star Wars – O Despertar da Força”.

Primeiro, uma sensação estranha: a projeção digital deixa a imagem absolutamente limpa. Vão longe os tempos em que arranhões e sujeira davam uma personalidade gauche a um filme, especialmente às cópias mais antigas e surradas. Isso é certamente o sonho realizado de qualquer cineasta ao longo dos últimos cem anos, mas ao mesmo tempo torna a experiência de ir ao cinema, que há tempos vem se tornando uma estranha para mim, mais asséptica. Cada vez mais, ver filmes na minha TV se torna não apenas desejável, mas equivalente.

Por ser uma sessão tardia num domingo, e um tempo razoável depois da estreia, o cinema não estava cheio. Havia fileiras inteiras vazias. E isso me privou — ou poupou — dos gritos aos primeiros acordes do tema de John Williams, daquelas manifestações de emoção coletiva que ajudam a definir e distorcer nos espectadores a percepção de um filme.

Star Wars é um fenômeno muito curioso. Como filme, o primeiro era simplesmente ruim. Trama medíocre, atores fracos (com exceção de Alec Guinness se perguntando em cada cena o que fazia ali, enquanto tentava dar dignidade a diálogos que jamais se elevam acima do clichê), Star Wars nunca foi mais que um pastiche óbvio de 50 anos de filmes de aventura. Não tem sequer a dignidade do arquétipo bem consolidado.

Mas um filme não se resume ao que está no celuloide. Mesmo ruim, Star Wars consolidou o processo de renovação do cinema como indústria e comércio, revigorando um setor que até então vinha lidando muito mal com a concorrência da televisão.

Acima de tudo, ele tinha algo único e novo. Deu início a uma nova era, a dos efeitos especiais e da estética como principais elementos do filme: a primazia absoluta da forma sobre o conteúdo. Sua importância jamais poderá ser superestimada.

Star Wars é ainda mais curioso por ser um fenômeno de construção a posteriori. Com o seu sucesso estrondoso e a possibilidade de extensão em novos filmes, novos elementos foram introduzidos com o carro andando; em “O Império Contra-Ataca”, Darth Vader se tornou pai de Luke Skywalker; em “O Retorno de Jedi”, Leia se tornou sua irmã. Mais tarde, quando Lucas percebeu que o filão era maior do que ele pensava, virou uma trilogia desde criancinha e logo depois criou-se a ideia de que deveriam ser nove filmes. Apareceu também um verniz de Joseph Campbell para dar algum pedigree intelectual a uma mera cópia de filmes B. Tudo isso foi possível porque, como história, Star Wars era tão rarefeito que admitia camadas e camadas de novo reboco teórico. É admirável: Star Wars é uma obra em andamento.

(É talvez o mais espantoso na legião de fãs de Star Wars: a maneira como acreditam no grande caô inventado aos poucos por George Lucas, ou como se referem à inspiração em Kurosawa como algo único, como se o japa não estivesse presente em tantos filmes, principalmente de estudantes de cinema como Lucas. Mas nestes tempos a cópia se tornou valor digno e mesmo louvável.)

Então chegamos a “O Despertar da Força”, caminhando célere para se tornar a maior bilheteria da história. Vai conquistar esse marco mesmo sendo um filme ruim.

A história é conhecida, porque é a mesma. Começam da mesma forma: uma mensagem secreta dentro de um robô que não fala. O resto é basicamente adaptação de um velho roteiro aos novos tempos. A atriz principal agora é uma mulher — ou melhor, pelo menos dos próximos filmes, porque este é um filme de transição e por enquanto Harrison Ford ainda é o astro — e o outro é negro. Há mais diversidade no elenco. Há mais cuidado com as piadas e com a representação das minorias. A Disney, louca para recuperar logo o investimento na Lucasfilm, coloca o velho para introduzir o novo: Han Solo ainda pilota sua nave e Luke Skywalker virou Yoda. E no que é talvez o único personagem minimamente decente do filme, Darth Vader Kylo Ren é um millennial torturado e mimado que, quando contrariado, prefere dar chiliquinhos e quebrar tudo a estrangular pessoas. Mesmo vilões de alma negra têm sentimentos hoje em dia.

A maneira como o filme representa o contexto político é vergonhosa, ainda mais medíocre do que o primeiro. Toda e qualquer esperança de coerência e verossimilhança política foi abandonada. A tal Resistência, numa excrescência única, parece ser uma espécie de poder paralelo com vida própria, que não faz nenhum sentido num tempo de República restaurada — República que por sua vez parece só existir em um planeta e se acaba quando ele é destruído, coisa que até agora não consegui entender. Nesse aspecto, os filmes feitos entre 1999 e 2005 são melhores. Por precisarem explicar em três episódios um final já conhecido, deram uma certa densidade narrativa ao processo que resultou em Darth Vader. Neles a instalação do Império, inspirado na Roma Antiga, faz mais sentido que a ascensão da tal Primeira Ordem. Uma República tão incompetente merece mesmo ser varrida do mapa, junto com esses Jedis que não fazem nada direito — se alguma lição pode ser tirada de um filme tão acéfalo, é a de que a Força só se realiza mesmo no seu lado negro.

Enquanto o primeiro Star Wars, em toda a sua mediocridade, trazia uma série de novidades, “O Despertar da Força” é uma Hollywood esgotada, em sua pior forma. Representa o abandono total do esforço por novas ideias e faz do que deveria ser um filme de verdade uma tentativa canhestra de apenas reembalar um produto antigo para um novo público.

Seu problema não está apenas na falta absoluta de alguma criatividade. Está principalmente no fato de que a adaptação aos novos tempos é medíocre, inferior ao que se faz hoje em dia.

Em 1977 não havia nada como Star Wars. Mas o passar do tempo trouxe inovações no modelo instituído por ele, e pode-se ver o clímax atual desse processo no último Mad Max: argumento parco, exuberância visual, ritmo incessável. “O Despertar da Força” sequer consegue se alçar a esse patamar. É mais um entre tantos filmes de ação de praxe, e seu sucesso baseia-se apenas na vontade dos fãs de serem enganados a qualquer custo.

Claro que cinema é isso, é escapismo, é indústria. É manipulação de emoções. Mas deve ser também arte, ou pelo menos ter alguma ambição além de vender; este filme não é nada disso. Não há nenhum valor artístico em “O Despertar da Força”. Há o clichê elevado ao décimo grau, há a cópia ruim, uma peça que parece ter saído de uma linha de produção de segunda e concebida por um comitê pouco brilhante em sua crença de que tecnologia substitui ideias. A única coisa realmente boa é que, pelo menos, aqui não há mais os bonecos de Jim Henson que ajudaram a fazer de “O Retorno de Jedi” uma espécie de Muppet Show espacial.

“O Despertar da Força” recebeu elogios de uma crítica que se diferencia cada vez menos de meros reprodutores de press-releases. Ainda assim, as coisas parecem passar dos limites quando as pessoas se emocionam com um esquema tão rasteiro, tão pasteurizado.

Dizia o barbudo que a história se repete como farsa. Mas não sei se ele, algum dia, imaginou quão felizes e anestesiadas, embrutecidas, as pessoas viriam um dia a embarcar nessas farsas.