Os complexos dos goianos

Comentário de um moço chamado Thiago a um post antigo:

Nossa, pelo que vejo o grau de informação e conteúdo que a maioria aqui tem é muito, mais muito baixa!!!!!!!!! Sou Goiano, com extremo orgulho e há uma série de fatos sobre o estado que VC´S ditos sabidões do sudeste ou do sul não sabem por mera ignorância!!!! E como já dizia: Ignorância é o esconderijo da burrice!!!! Esta matéria feita por um qualquer que gosta de curtir de coisas q não sabe muito é a prova cabal disso. PARABÉNS continue sempre escrevendo estas notícias que com certeza, como disse no início, pelo grau de conteúdo do criador e de alguns leitores vc será um expert em BURRICE!

O post que o dito goiano comentou fala de uma matéria da Veja sobre a grande cidade goiana de Uruaçu, que com 33 mil habitantes em 2005 fez da exportação de putas para a Espanha um negócio rentável e socialmente respeitável.

Na verdade, o post era elogioso. Ao contrário do mocetão goiano, o blogueiro aqui não tem nenhuma restrição moral — apenas estéticas, meu filho — à mais antiga profissão do mundo. Mais que isso, via com um certo deslumbramento o fato de que os Estados brasileiros, um a um, descobriam sua vocação econômica. Paulistas trabalham e reclamam, cariocas traficam e roubam, baianos fazem música ruim, cearenses embarcam em paus-de-arara, pernambucanos chamados Severino vão ser porteiros no Rio, goianas vão para puteiros.

Mas o rapaz Thiago, provavelmente morador de Goiânia — aquela cidade que só tem michê, agroboy e cantor de dupla sertaneja ruim –, desconhece a pujança de Uruaçu, cidade de poucos habitantes mas excelente rima. Uruaçu é uma das primeiras cidades verdadeiramente globalizadas do Brasil. É uma transnacional da putaria. Em vez de ficar revoltado e alegar que Goiás tem mais do que isso (talvez a cidade de Sertanejo-de-Trás-os-Montes, que faz o melhor doce de soja do Brasil, ou algo assim), ele devia ter orgulho das moças que Uruaçu exporta e que tanto contribuem para o crescimento do produto interno bruto da cidade.

Por exemplo, se não fossem as putas espanholas de Uruaçu, duvido que a cidade tivesse uma escola de inglês. Tem gente que é ingrata e não percebe o desenvolvimento chegando. É isso que o Thiago não percebe: a grandeza que há em uma cidade inteira se sustentando no meio das pernas de suas mulheres.

É tão lindo, isso.

Cá na minha ignorância e na minha burrice, fico imaginando os fatos sobre o glorioso Estado de Goiás que não conheço. Não que queira conhecer, que Goiânia não me interessa, mas eu sou um sujeito curioso.

Talvez ele se refira a uma nova dupla caipira. Talvez fale de uma nova caminhonete 4×4 com luz de laser e suspensão cibernética — e uma gigantesca caixa de som no porta-malas que toca Leandro e Leonardo a 759 decibéis. Talvez o Tiago esteja falando de novas técnicas de michetagem dos guapos rapazes goianos, moços lindos que descobrem a cada noite novas formas de agradar seus clientes.

Só não gostei de ser chamado de “sabidão do sudeste”, porque eu sou nordestino e moro no Nordeste, no menor Estado da Federação. Por isso, se alguém nesta bodega tem o direito de ter esse tipo de complexo de inferioridade sou eu. E eu sou extremamente cioso dos meus direitos, e não admito que um goiano — logo um goiano! — venha usurpá-lo de mim.

Vale-tudo nos comentários

Eu estou perdendo a mão neste negócio.

Antigamente eu armava pequenas aratacas no caminho deste blog e as pessoas caíam nelas como pequenos preás inocentes. Isso está ficando mais difícil. As pessoas estão percebendo.

Sobre os comentários ao último post, o Blito fez um dos melhores. Eu só discordo de uma coisa: quanto ao conteúdo homoerótico presente em todos os esportes. Porque no caso do vale-tudo ele é certamente muito mais óbvio, até estridente, do que em qualquer outro esporte. Mais até que no sumô, que também consiste em dois marmanjos se agarrando.

Sugiro que os defensores do vale-tudo façam a experiência: gravem uma luta, coloquem em câmera-lenta, tirem o áudio e coloquem, em BG, uma música de motel — pode até ser, como sugeriram, uma música tipo “É o Amor”. Se é preciso esforço para falar de aparência gay no futebol — ou mesmo em outros esportes de contato físico como o futebol americano e o hóquei –, no vale-tudo ele é tão óbvio que, na verdade, até dispensa esses pequenos artifícios.

Agora, Blito, faça isso com o futebol e veja se consegue o mesmo resultado. Então não tem validade nenhuma a alegação de que o conteúdo homoerótico pode ser visto em qualquer esporte. Talvez até possa, mas é preciso muita força de vontade para ver isso. Na verdade com esforço e vontade você consegue ver qualquer coisa.

Além disso, eu não poderia ter incluído esgrima porque, por favor, eu nunca vi um esgrimista com a cara enfiada na virilha mijada de outro sujeito.

Nos comentários, o que mais me impressionou foi a defesa dos lutadores, do esforço individual, da técnica; basicamente os valores intrínsecos do negócio, que não interessavam ao post e no qual eu simplesmente não toquei em nenhum momento. Porque até onde sei, qualquer esporte demanda técnica e esforço. Até futebol de botão. O texto não falava disso, falava em aspectos estéticos, apenas. Falou apenas que é um esporte feio, grosseiro, esteticamente bizarro e que tem uma cara danada de gay.

A única coisa que me incomodou — porque no dia em que eu me incomodar com alguém me chamando de “bixona” com X eu vou estar pronto para o Phillipe, aquele lugar aprazível em Botafogo — foi a acusação de homofobia. Curiosamente, foram justamente os defensores do vale-tudo que partiram para o contra-ataque, dizendo “viado é você”.

(Eu, que segundo a moçada sou homofóbico, não teria problemas com isso. Cada é um aquilo para o que nasce, dizem umas senhoras ceguinhas cá por estas bandas. Se como disse o Tarilonte houvesse mesmo um esqueleto nesse armário, eu o decoraria com umas plumas, uns paetês e sairia por aí — de preferência, “fechando”. Mas acho que os moços aí se incomodariam com essa perspectiva. É provável até que, para resolver seus próprios conflitos, fossem lutar vale-tudo. É por isso que, para eles, dizer que vale-tudo é uma demonstração de feiura, uma luta tosca e uma regressão estética não ofende. Mas dizer o óbvio, que a luta lembra dois homens fazendo sexo, ah, isso são outros quinhentos.)

Eu sempre esperei que uma leitura um pouco mais atenta deste blog impedisse qualquer pessoa de chamá-lo de algumas coisas. Uma dela era de direitista. Outra era de homofóbico.

Sim, eu tenho que admitir com uma certa vergonha e inveja de outros blogs que este não é um blog politicamente correto, porque uma deficiência na minha educação (de resto esmerada, deixem-me dizer em defesa das minhas professoras) é a tendência a chamar as coisas pelos seus nomes reais. Certamente não é pseudo-feminista. Decididamente tem problemas com católicos, evangélicos, budistas, xintoístas, macumbeiros, gente que acredita em disco voador e gente que acha que o fato de ter nascido em tal dia faz de você isso e aquilo porque Plutão estava na casa do cacete. Basicamente, eu não tenho problemas em ser acusado de quase nada.

Mas homofóbico ele não é.

Tenho a impressão de que esse pessoal que se apressa em falar de homofobia é aquele mesmo que diz “respeitar os homossexuais, mas não tolerar as bichas assumidas”, que “bicha boa é bicha discreta, que não fica fazendo trejeitos”. É por isso que me impressiona um fato simples, que passou despercebido a quase todos os comentaristas que tocaram no assunto: eu falei que vale-tudo, além de uma luta feia, tem todas as características homossexuais, mas não falei absolutamente nada sobre esforço pessoal, ou que homossexuais não eram capazes de de se dedicar com afinco a um esporte. Foram eles que associaram uma coisa à outra, as duas como negativas. Segundo o seu raciocínio, o vale-tudo não pode ser gay porque demanda esforço. Na verdade, o preconceito contra homossexuais está neles.

Evitando personalizar — porque aí vem o Ricardo dizer que nunca fez isso, vem o tal professor Valdez dizer que seus alunos não fazem isso, talvez até, quem sabe, apareça um mais corajoso dizendo “ah, mas eu até dou a bunda!” –, não custa lembrar que o histórico de agressões contra homossexuais nesse universo no qual eles circulam ou simplesmente admiram é lamentavelmente alto.

Nada disso, no entanto, foi exatamente uma novidade. O que me impressionou foi uma certa louvação do masoquismo.

Eu não brigo. Na verdade, sou de uma covardia atroz e inamovível. A perspectiva de violência física me assusta. Mas por alguma razão pessoas como o Ricardo acham que eu deveria dar a carinha que mamãe beijou para um vagabundo bater. Infelizmente, eu sou covarde, não masoquista. É engraçado que as pessoas não entendam isso. Por exemplo, eu gosto de hipismo — mas não queria, nem por um momento, ser o cavalo ali. E por isso não entendo a lógica desse pessoal, acho meio precária e inexplicável: “você tem que apanhar para gostar de vale-tudo”. Eu pensava que só aqueles que apanhavam muito na cabeça eram capazes de um raciocínio tosco como esse.

E no fim das contas fica uma impressão engraçada: esse pessoal, com suas caras grosseiras, orelhas amassadas e narizes tortos é muito sensível.

Como sabem alguns leitores deste blog, eu sou beatlemaníaco. Mas certamente jamais ficaria ofendido se alguém disse que os Beatles são uma banda de merda, ou se fãs dos Beatles são uns bostas. Fazer o quê?

Sinceramente, isso é comportamento de mariquinhas.

Eu estou perdendo a mão nesse negócio. Acho que vou para o Twitter.

Sobre o boxe

Aí pela virada do ano assisti a Holyfield vs. Valuev, luta válida pelo título mundial de pesos pesados de uma dessas tantas federações mundiais do boxe.

De um lado um lutador de perfeita técnica, um boxeur velho embora ainda digno desse nome, mas sem a força que nunca teve, sem a capacidade de nocautear seu oponente. Do outro uma aberração tosca cujo único mérito é a sua estatura elevada, um sujeito que só é campeão porque é grande demais — Valuev me lembra uma antiga jogadora de basquete chinesa, lenta e com cara de retardada, que só estava no time porque era gigantesca. O resultado, vitória por pontos do ogro russo, para mim foi mais que isso: foi um — mais um — epitáfio.

É melancólica essa sensação de que o boxe morreu.

Até os meus 20 anos eu não gostava de pugilismo e subscrevia uma paródia do “If” de Kipling escrita por Stanislaw Ponte Preta, “se gostas de boxe és uma besta, meu filho”. Mas por causa do sucesso de Mike Tyson no final dos anos 80, quando o esporte se viu diante do seu primeiro fenômeno em 15 anos, para assistir a Twin Peaks nas noites de domingo da Globo eu tinha que passar por algumas lutas.

E então o caminho não tinha mais volta.

Assisti às últimas lutas de Sugar Ray Leonard, de Roberto “Mano de Piedra” Durán e de Julio César Chávez; vi Pernell Whitaker provocar seus adversários e vi George Foreman reconquistar um título aos 45 anos. Vi a ascensão de Oscar de La Hoya, de Lennox Lewis e do melhor boxeador dos anos 90, Roy Jones Jr. Era uma grande época para se gostar de pugilismo, essa é a verdade, e vi grandes lutas e aprendi o que é boxe.

Boxe é força e beleza. É a realização máxima das possibilidades do corpo humano em um campo específico. É a estilização de um dos mais básicos instintos humanos, o da agressão, da destruição do outro ainda sem a sofisticação social da guerra; e para dominá-lo é preciso técnica, é preciso a sistematização dos movimentos de ataque e de defesa. Boxe é a maneira como um corpo se move com graça e perfeição em busca do seu objetivo.

É por isso que quem escreve sobre pugilismo gosta de ressaltar questões técnicas e blá blá blá. Mas a verdade é que boxe é, acima de tudo, violência — e é a aceitação disso que torna possível a apreciação do esporte. Porque no fim do último round não importa se um lutador tem melhor jogo de pernas, boa esquiva e domínio perfeito dos fundamentos — se o outro lhe aplicar um bom direto no queixo e ele beijar a lona, nada daquilo lhe valeu de alguma coisa. Boxe é também o nocaute perfeito — o soco dado na hora certa e no lugar certo, que manda um sujeito inconsciente ou quase para o chão e então a platéia instintivamente se ergue e grita o nome do vencedor.

Grandes campeões tinham essa combinação de técnica e força. Joe Louis, George Foreman, Joe Frazier, em certa medida Rocky Marciano. E ninguém as teve mais do que Muhammad Ali. Float like a butterfly, sting like a bee, ele dizia; e até hoje há poucas coisas tão perfeitas quando Muhammad Ali no ringue, esquivando-se, jabeando, golpeando. É assombroso que ainda haja críticos de boxe afirmando que Joe Louis foi melhor que Ali — mas isso se pode creditar apenas ao seu medo da personalidade altiva de Ali, em contraste com a atitude de “bom neguinho” de Joe Louis.

Porque ninguém jamais lutou como Muhammad Ali. Ele foi o último grande gênio do boxe; foi também o maior de todos, aquele em que cada lutador deveria se espelhar, aquele de quem cada um deveria ter uma estátua em um altar sagrado e, toda manhã, se ajoelhar diante dela em respeito contrito. Com Ali, a violência adquiria a graciosidade de um balé — o mais perfeito em sua categoria a que o corpo humano pode chegar, um mestre absoluto daquilo que torna o boxe, mais que uma luta, uma arte.

Foi isso o que aprendi assistindo às lutas daqueles grandes lutadores de outrora. O que eu não entendia era que, a cada nova luta, via o declínio do boxe.

Desde a aposentadoria de Muhammad Ali, cada novo campeão era um pouco menor que o anterior; e foi isso, mais do que a roubalheira, mais do que Don King, que destruiu o boxe. O último boxeador peso pesado excepcional que vi lutar foi Mike Tyson — e mesmo ele era incompleto, um lutador limitado e de técnica banal que jamais seguraria os tantos rounds da melhor luta de todos os tempos, Ali vs. Frazier em Manila — luta que se pode achar facilmente no YouTube — ou  fazer o que Ali fez contra Foreman no Zaire, se deixar espancar durante oito rounds para só então nocautear um dos maiores punchers de todos os tempos. Tyson batia, e batia como ninguém jamais bateu, mas não fazia muito mais que isso. Paradoxalmente foi um dos tantos responsáveis pela aceleração da decadência do boxe, com vexames como a luta contra Bruce Seldom ou a mordida na orelha de Holyfield.

Com a queda de Tyson, caiu junto o boxe. Um a um, campeões foram sendo sucedidos por lutadores inferiores, e o resultado é isso, um Valuev campeão apenas porque é grande, uma negação absoluta dos valores do boxe e um retrato da decadência de um esporte de beleza singular.

Isso não quer dizer que não existam grandes lutadores em atividade. Existem, sim. Mas é apenas na categoria dos pesos pesados que o boxe pode se realizar em sua plenitude, e ela hoje consiste em lutas com excesso de tática e clinches e pouca arte. Hoje os melhores lutadores estão nas categorias mais leves. Cerca de um ano atrás vi um grande lutador, franco-argelino cujo nome esqueço, dar uma aula de técnica e rapidez. Mas isso não muda nada, porque esses lutadores não passam muito de mosquitinhos brigando e zunindo. Nessas categorias inferiores o boxe não pode se realizar completamente — porque se nela sobra técnica e rapidez, falta a completa violência, a celebração absoluta da força. É isso que faz do boxe uma arte masculina por definição. E é por isso que ele está decaindo, esperando que surja novamente um grande campeão para lhe dar novo fôlego.

Para piorar as coisas, é também por isso que o vale-tudo está ocupando o espaço que deveria ser da nobre arte do Marquês de Queensberry.

O vale-tudo está para o boxe assim como a dança da galinha está para o balé, como o Bonde do Tigrão está para Mozart, ou como a vulgaridade da Mulher Melancia está para a elegância de Márcia Haydée. Um arremedo de dança do acasalamento homossexual, o vale-tudo é o retrato de uma época em que o que importa é sempre, e apenas, o resultado. Não importa que para isso seja necessário dar uma cotovelada no rosto do oponente ou uma joelhada em seu estômago. Se o boxe tem a beleza estética que decorre da sistematização e da limitação das possibilidades da agressão, o vale-tudo é apenas violência rasteira. E feia.

Badminton e peteca são esportes mais masculinos que esse vale-tudo. Até patinação no gelo é mais masculino, porque eventualmente o patinador com seus paetês e suas calças justas vai sentar a moça em seus ombros, os dois frente a frente, e vai lembrar a todos uma das melhores razões pelas quais é bom ser homem. Enquanto isso lutadores de vale-tudo fazem meia-noves intermináveis com a voracidade de um amor vespertino e urgente, cabeças enfiadas com sofreguidão nas virilhas dos seus parceiros, e na falta de outros fluidos se contentam com a urina em seus calções.

Vale-tudo é um sujeito dizendo para o outro “vem e me domina, meu homem”. Por baixo, o sujeito aperta com as pernas os quadris do seu amor com força, chama-o para si, e os abraços são fortes e esganados e desesperados, “diz que eu sou teu”. Não é à toa que um dos movimentos ali se chama submissão. É um sujeito meio depravado dizendo para o seu objeto de desejo “vem, cachorro, eu sou o teu senhor, faz a minha vontade”, variação sado-masoquista de uma relação de domínio. Vale-tudo é sexo selvagem, sem limites, em que o cheiro do sangue se torna o maior afrodisíaco imaginável. É por nunca ter conseguido enxergá-lo de outra forma que durante muito tempo brinquei com a idéia de fazer um curta-metragem sobre essa coisa bizarra a que chamam “esporte”, mostrando as cenas desses lutadores atracados em suas lides de amor enquanto, em BG, ouviríamos Serge Gainsbourg e Jane Birkin cantando Je t’Aime (Moi Non Plus). Mas uma moça já fez esse filme.

Eu me recuso a me contentar com o vale-tudo, eu que vi grandes lutadores darem o melhor de si nos ringues. Mas há uma esperança. Enquanto o vale-tudo é sublimação homoerótica de playboys de zona sul, que gostam de passear com seus pitbulls pelos calçadões da vida, o boxe ainda é praticado em academias de subúrbio. E é isso, essa fé meio boba na força do povo, que me faz acalentar a esperança de que um dia um novo Muhammad Ali apareça no ringue para dizer que é o rei do mundo. Esse dia vai chegar.

Jerry Lewis

Tive a chance de rever um filme de Jerry Lewis e Dean Martin visto há muito tempo e do qual eu praticamente não lembrava: “Malucos no Ar“, uma comédia ambientada nas Forças Armadas. É um filme da metade da carreira cinematográfica da dupla, que se separaria depois de Hollywood or Bust. Àquela altura, a dupla Martin & Lewis era um fenômeno de popularidade nos Estados Unidos.

Curiosamente, é um dos poucos filmes a dar papel pouco relevante a Dean Martin, centrando sua atenção no histrionismo de Lewis. É uma pena. Martin era o par ideal para Jerry Lewis. Provavelmente seria para qualquer outro. Generoso, despreocupado, Martin estava à vontade em seu papel — mais ou menos o de Dedé Santana em relação a Renato Aragão, com mais categoria, mais presença e mais elegância e um ar de cinismo absolutamente verdadeiro e cafajeste. Dean Martin dava a Jerry Lewis toda a chance necessária para que ele, um talento cômico como poucos outros, pudesse brilhar. E fazia isso sem nenhum problema. Dean Martin era autêntico, coisa rara em Hollywood, e um sujeito que sentia não dever nada a ninguém, nem estava preocupado com isso. Mais tarde, seria o único membro do Rat Pack a não ter medo de Frank Sinatra. Sua morte em 1995 foi uma das poucas de celebridades que me deixaram triste.

Assistindo ao filme pude lembrar o que faz de Jerry Lewis o maior humorista americano da segunda metade do século XX. Lewis era anárquico, subversivo, incontrolável. Mas não é a anarquia dos Irmãos Marx. Se estes são intencionalmente anárquicos e deletérios, a subversão de Lewis vem da incapacidade de adequação ao mundo. Não há má vontade em Jerry Lewis: ele é um ingênuo que tenta fazer as coisas da maneira certa, mas que simplesmente não consegue porque não pode evitar fazê-las do seu próprio jeito.

A subversão presente em Jerry Lewis não era politicamente óbvia — ele jamais faria um filme como If, por exemplo. Em vez disso, o seu era o tipo mais perigoso: subversão social e de costumes. Tudo em Lewis é insolência, rebeldia e incapacidade de se adaptar ao mundo, ainda que de forma inconsciente e involuntária. Seus personagens não são como os de Charlie Chaplin, em que há, ainda que de maneira sutil e graciosa, uma atitude clara de confronto com o mundo. Tudo o que os personagens de Jerry Lewis querem é se encaixar uma sociedade com padrões claros e perfeitamente compreensíveis — e no entanto, inadvertidamente, são eles que acabam ameaçando sua estrutura.

Em “O Meninão”, refilmagem de um filme de Billy Wilder, esse aspecto subversivo de Lewis está bem claro em uma única cena, que pode servir de ilustração para toda a sua obra: ele interfere em um reino de educação física e, enquanto tenta dar o melhor de si, leva o grupo de garotas ao caos absoluto, destruindo qualquer possibilidade de ordem. O mundo não pode funcionar direito se Jerry Lewis está nele.

É possível lembrar um pouco dos irmãos Marx a partir capacidade de gerar o caos, embora a comparação com Chaplin fosse mais adequada. Mas Lewis tem atrás de si outras tradições, principalmente a de Bob Hope e Bing Crosby, e uma delicadeza que os Marx, definitivamente, não tinham.

Foi essa capacidade subversiva que os franceses da Cahiers du Cinema perceberam imediatamente. Deram a Lewis um reconhecimento que lhe faltou em seu próprio país. Se nos Estados Unidos ele era visto como um careteiro, na França esses aspectos foram percebidos e valorizados. Os franceses foram os primeiros a apontar a genialidade de Lewis; a isso acrescentaram, claro, a bobajada da teoria do autor, para justificar as eventuais explosões de genialidade que se vê ao longo de vários filmes de Lewis. Com isso acabam relevando defeitos na obra de Lewis que tornam a apreciação de seus filmes uma tarefa mais complexa do que o usual: boa parte dos filmes de Jerry Lewis tem problemas em costurar uma sucessão de gags muitas vezes geniais em uma narrativa coesa e fluida, ao ponto de parte deles simplesmente abrir mão dessa premissa para ser nada mais que coleções de cenas, como The Delicate Delinquent e The Bellboy. Por outro lado, seu uso da metalinguagem sugere um autor consciente e com domínio da idéia de narrativa cinematográfica.

Mais tarde, a persona cinematográfica de Lewis se desgastaria e acomodaria. Ele desenvolveria seus próprios tiques cinematográficos, combinaria isso a um ego desproporcional e que lhe levou a equívocos como “A Família Fuleira”, e antes do fim da primeira metade dos anos 60 seus filmes perderiam o vigor e o frescor que apresentaram até “O Professor Aloprado”.

Mas nada disso apaga um fato simples: Jerry Lewis foi o maior humorista americano da segunda metade do século XX. Jerry Lewis era um gênio.

***

Escrever sobre Jerry Lewis é sempre um prazer para mim. É algo que eu devo a mim mesmo.

Em uma noite do primeiro semestre de 1979, a TV exibiu uma chamada para o filme da Sessão da Tarde do dia seguinte: “O Rei do Laço”. Minha mãe comentou que assistia aos filmes dele no cinema, nos anos 60, e que gostava muito dele. Isso bastou para que eu quisesse assistir ao filme.

O resultado foi paixão à primeira vista. De repente, Jerry Lewis era o meu novo ídolo. Não só meu, na verdade: meus amigos paravam o que estavam fazendo para assistir aos seus filmes na TV. Não foram poucas as vezes em que estávamos na rua e de repente todos debandávamos porque ia começar um filme de “Djeury Líus”, como eu pronunciava na época e como, por respeito à criança que fui, continuando pronunciando.

Naquele ano e nos dois seguintes, eu vi todos os filmes de Jerry Lewis exibidos na TV, com exceção de “De Caniço e Samburá”. Mais tarde, assistiria a praticamente todos. Mais tarde ainda, revendo boa parte daqueles filmes, eu identificaria os muitos defeitos, aqueles que fazem com que os americanos torçam o nariz para ele.

Mas depois eu faria as pazes com Jerry Lewis. Porque no seu caso não se trata de entender seus filmes. Se trata apenas de reconhecer a sua genialidade, maior que o que se pode ver se analisamos apenas seus filmes em vez do conjunto de sua cinematografia. Principalmente, se trata de reconhecer e gostar do fato de que, durante a minha infância, Jerry Lewis foi um dos meus grandes ídolos.

Sobre beleza e censura

O Sítio do Sergio Leo pergunta se apoiamos as iniciativas de deputadas inglesa e francesa por leis que proíbam o uso de Photoshop em fotos de mulheres. Segundo as moças, que aparentemente devem saber do que estão falando, as imagens retocadas trazem a possibilidade de jovens se sentirem obrigadas a corresponder a esse tipo de beleza, que elas, provavelmente por experiência própria, julgam inatingíveis para moças de fino trato mas pobre estética.

Este blog, obviamente, apóia iniciativas valorosas como essas e que devem orgulhar os cidadãos franceses e ingleses.

Na verdade, acho até que é muito pouco.

Claro que a beleza extorsiva dessas modelos de revista representa uma enorme e intolerável falta de respeito aos teiús que se miram no espelho e não vêem nada além da fealdade, e então têm que se consolar com frases como “a verdadeira beleza é a beleza interior”, aquela frase que só é dita por decoradores e por jaburus, gente feia, consciente de que é feia e conformada por ser feia.

Por isso eu vou além, porque proibir é comigo mesmo: é urgente e imprescindível a aprovação de uma lei que proíba as pessoas de nascerem bonitas, porque isso causa uma tristeza sem par às legiões de mocréias, urutaus e tracajás que se espalham por esse mundão sem porteira, e terão que conviver com esses exemplos opressivos no seu dia a dia.

São exemplos ainda mais graves porque um trabuco pode simplesmente não comprar uma revista “photoshopada”, mas não poderá evitar ver na rua exemplos vivos de beleza que lhe farão sentir ainda mais feia, coisa que interiormente ela não é.

Que as dignas deputadas européias libertem e protejam a feiúra, esse valor universal.

Podem também criar uma lei que obrigue homens bonitos a casarem com trapizombas, porque essas moças, coitadas, vítimas de um darwinismo estético incompatível com o nosso estágio de desenvolvimento sócio-cultural, também têm o direito de acordar pela manhã ao lado de um homem bonito.

E se não for pedir demais, que alguma deputada também proíba que moças bonitas nasçam com bundas e peitos grandes, porque aí já é demais, e se vamos incentivar a feiúra que seja de maneira completa e absoluta, e tudo é válido em nome do direito das barangas de serem felizes.