Um ator chamado Elvis Presley

Foi por causa de Clambake. Em português, “O Barco do Amor”.

O negócio é que sempre gostei dos filmes de Elvis Presley. É um desses vícios de infância, essas coisas que a gente vê quando criança e nunca mais esquece, uma versão humana da estampagem. Sei que são ruins, quase todos, mas eu gosto mesmo assim.

Vi a maior parte deles há mais de 30 anos; eram figurinhas fáceis na Sessão da Tarde, e a TV Itapuã, aí por 80, 81, exibiu um grande festival nos finais das tardes de alguns sábados com um bocado desses filmes — foi quando assisti a “Talhado Para Campeão”, “Em Cada Sonho Um Amor” e “Com Caipira Não Se Brinca”, por exemplo. E assim eu contava nos dedos os filmes a que não tinha assistido — hoje, acho que apenas “Joe É Muito Vivo” está faltando, e não tenho lá muita vontade de sair procurando por ele.

Ter visto todos eles não quer dizer muita coisa, no entanto: não lembro de quase nada da maioria. E daí que eu estava tentando rever um filme de Elvis que, segundo minha memória, se passava no Havaí, como tantos e tantos outros. De acordo com a minha sinopse pessoal, no filme Elvis era um herdeiro que se passava por pobre para conquistar uma moça — porque sabe como é, ele queria ser amado pelo que era, não pelo que tinha. No final, no seu conversível esportivo vermelho, ele dizia à moça que era dono daquela enorme plantação de abacaxis diante deles.

O problema é que eu não achava esse filme. Revi a maior parte dos que se passavam no Havaí, e não era nenhum deles. Durante algum tempo imaginei que fosse Blue Hawaii, mas assisti ao filme recentemente e, diabo, não era ele, embora os abacaxis estivessem ali, o carro vermelho também, e as cenas do início — em que ele chega de viagem e vai para uma cabana de praia — mostravam que eu tinha misturado cenas de filmes diferentes.

Essas coisas, se a gente não cuida, viram pequenas obsessões. E por isso baixei um pacote imenso de filmes de Elvis. Faltavam alguns, como “Saudades de um Pracinha” e “Férias no Harém”, mas está quase tudo lá. E passei algumas semanas dando uma olhada nesses filmes. (Hoje está disponível um pacote mais completo e com arquivos em melhor qualidade, em que falta apenas “Com Caipira Não Se Brinca”.)

Bem, finalmente achei o filme, era o tal de “Barco do Amor”. Vendo por alto o filme, fico impressionado ao perceber como transformei as coisas na minha cabeça, como misturei partes de Blue Hawaii e de Clambake para construir um filme só meu. De agora em diante não confio mais em minha memória.

Mas isso significou também um reencontro com Elvis, ator.

A primeira sensação ao ver esse material é a de um certo embasbacamento ao perceber como o coitado do Elvis era anacrônico nos anos 60. Não se trata apenas da ideologia professada nos filmes: o texto, a linguagem cinematográfica, tudo parece estar 10 anos atrasado, tudo parece emergir de um limbo cinquentista, da visão de executivos alcoólatras de Hollywood do que era a adolescência e a modernidade nos anos 60.

No início de sua carreira cinematográfica Elvis tentou ser levado a sério. Ele morre ao final de “Ama-me Com Ternura”, é ele mesmo em “A Mulher Que Eu Amo”, mais ou menos ele no fraco “O Prisioneiro do Rock”, um ator de verdade em “Balada Sangrenta” (seu melhor filme, provavelmente). Em todos esses filmes, mesmo quando basicamente veículos para aproveitar sua popularidade, há uma seriedade inerente, um certo respeito à sua história e ao mundo em que ele se inseria e estava ajudando a transformar.

Mas em Blue Hawaii Elvis realiza o equivalente cinematográfico à sua entrada no Exército. A partir daí seus filmes se tornam cada vez mais formulaicos e medíocres. São sempre comédias românticas leves, em que ele é um bom moço. Já escrevi sobre isso aqui.

E a partir daí Elvis seria congelado no tempo. Ele demoraria sete anos para sair de 1961, e então seria tarde demais. Até lá houve muita água debaixo da ponte, no entanto.

Em 1967 o mundo era completamente diferente daquele de cinco anos antes, mas a julgar pelos filmes de Elvis é como se a vida fosse exatamente igual. No universo distorcido e infantilizado de Elvis, o tempo não passa. Clambake, por exemplo, é exatamente o mesmo filme que Elvis fez em 1961, em 1962, em 1963. Philip Larkin para ele não existia. Os hippies não se amontoavam em Hashbury, o Vietnã continuava distante.

Boa parte dos filmes de Elvis parecem acordos com secretarias de turismo de alguns estados. Três filmes no Havaí, três na Flórida, até mesmo um em Seattle durante a Expo 1964. O número de filmes de Elvis ambientados no Havaí só deve ser menor ao número de filmes seus que começam com uma tomada aérea de um carro numa estrada. Essa era a imagem de Elvis: o arquétipo do roqueiro de segunda naquele limbo entre a derrocada da primeira geração do rock e o surgimento dos Beatles. Mas no final dos anos 60 os Beatles estavam prestes a acabar e Elvis parecia ainda não ter percebido que eles tinham chegado. Como cinema, os filmes de Elvis são uma piada repetida inúmeras vezes. E esse anacronismo vai se aprofundando com o passar do tempo.

Uma grande surpresa foi Change of Habit, em português “Ele e as Três Noviças” (que lindo o título em português. Não é “Elvis e as Noviças”. É “ele”. Elvis não precisa de mais que isso para ser identificado). É o último filme de Elvis, que jamais voltaria a ser tão magro, e ele aparece menos que Mary Tyler Moore, sua co-estrela. No entanto é um dos poucos filmes dele que parece se passar no ano em que é lançado, que consegue olhar para fora e ver que há um mundo problemático lá fora, que tenta oferecer uma resposta à realidade. E um dos finais mais gostosos entre os seus filmes, o mais ambíguo, com Mary Tyler Moore indecisa entre o celibato da vocação religiosa e o desejo que a pélvis de Elvis lhe faz queimar nas entranhas.

Mas àquela altura as pessoas já tinham se cansado do mundo de faz de conta de Elvis. Ele nunca mais voltaria a fazer um filme, com exceção de dois documentários no início dos anos 70. Quase 15 anos depois, ele tinha entendido que havia criado um mundo novo em que a permanência não estava mais no cinema.

É isso o que eu acho. Mas nada disso impede que eu sorria feliz enquanto assisto a um filme de Elvis.

Diário de guerra

Procurando arquivos antigos deste blog, achei uns textos que comecei a escrever em 2008 e nunca terminei. Era uma espécie de diário de campanha, escrito, se não me engano, para poder comparar depois com os resultados. As exigências da campanha e o cansaço natural acabaram fazendo com que ele durasse pouco mais que os primeiros 10 dias; ou talvez não tenha sido por isso, tenha sido apenas porque melhor que registrar ou comentar uma campanha é fazê-la. O que sobrou está aí. E de repente me vi transportado a uns dias que já tinha esquecido.

***

19 de agosto
Amanhã começa.

Até agora, Almeida Lima tem impressionado pelo volume de campanha. 30 carros de som na rua, dizem que a maioria vindos de Brasília (segundo alguns, presente do Roriz). Gente pra cacete segurando bandeiras nos cruzamentos.

É engraçado que ele, um candidato isolado politicamente, tenha tantos carros de som na rua, tantos cabos eleitorais. Dizem que é o dinheiro de Renan Calheiros e de Roberto Jefferson. Não parece improvável. A não ser que Almeida realmente tenha se dado àquele desfrute, à humilhação de ser chamado de “boneca” em plenário por Tasso Jereissati, sem receber nada em troca.

Mas amanhã é que a guerra começa mesmo.

20 de agosto
Começou. Depois de mês e meio de punheta, de caminhos falsos e verdadeiros, o programa está no ar. A gente fez um programa correto: a biografia de Edvaldo e um resumo das obras desses dois anos, além da sua fala introdutória à campanha. É o caminho mais correto possível, uma apresentação simples do candidato.

Mendonça apresentou uma biografia medíocre, sem emoção, e se amparou no apoio dos sogros, o ex-governador João Alves Filho e a senadora Maria do Carmo Alves — a mulher está em São Paulo se tratando de uma doença grave. Ficou esquisito. Programa mal concebido, mal dirigido e mal escrito. Isso é ruim, eu queria que Mendonça crescesse um pouco e embolasse com Almeida, mas se continuar assim a vaca dele vai para o brejo rápido demais.

Almeida fez basicamente uma biografia longa e a sua própria fala. A biografia é uma coisa bisonha: filmada em preto e branco, com atores. Falso, artificial. O texto é bem escrito, mas a insistência em mostrar que o sujeito vendia cajus quando era criança é uma bobajada: hoje o cabra é milionário, comprou uma rádio assim que saiu da Prefeitura, tudo isso soa falso. Como soa falsa a fala dele. O sujeito tem boa impostação de voz, mas tudo nele é fake e excessivamente professoral. Me lembrou Lombardi mandando abrir as portas da esperança. Ele não cria empatia. Almeida acabou incorrendo no erro oposto ao de Mendonça.

Essa nós ganhamos.

21 de agosto
A quali confirmou tudo aquilo que imaginamos. Apresentamos o melhor programa, as pessoas não gostaram da biografia de Almeida, e a única coisa que notaram fora do programa de Edvaldo foi a presença de Maria do Carmo, como uma moribunda. Eu pensava que a fala de João seria mais significativa e teria mais recall. Estava errado.

O Damien transformou o comercial “Vida” em uma peça lindíssima. O belga está se revelando um puta diretor publicitário. E ele nem sabia disso.

Assisti de novo aos programas dos proporcionais [candidatos a vereador]. É bom rir. Mas o melhor é ver que a Ivana, que é cantora, é uma bela apresentadora. Outro talento que a gente descobre. Isso é bom.

22 de agosto
Programa de saúde. Blindagem necessária e valorização do trabalho realizado. Não gostei muito do programa, saiu “picotado” demais, o ritmo não é o melhor possível. Eu acho que o ideal seria um programa mais lento, mais emotivo, mais consistente em termos de informação. Mas comparado aos outros da noite, é bem superior.

Tive um acesso de riso quando vi Mendonça e Maria do Carmo em pé, no programa. Mendonça falava e Maria, em pé ao lado dele, fazia cara de zonza. A impressão que dá é a de que ele está segurando a mulher para que ela não caia; ele parece de ventríloquo e ela parece um boneco mudo. Que coisa bisonha. Gargalhei durante a cena inteira, nem mesmo ouvi o que ele dizia. E quando ele está terminando de falar, a impressão que se tem é a de ele a solta por uns segundos, e ela parece que começa a cair e então ele a segura de novo. Tosco. Acho que nunca ri tanto, parecia uma crise histérica. Talvez seja mesmo.

E o louco do Almeida simplesmente repetiu o primeiro programa, sem tirar nem pôr. Não consigo conceber uma explicação para isso. Apostam aqui que isso se dá pelo narcisismo dele: ele adora se ver, acha que todos adoram vê-lo, e aí empurrou aquela merda. Deus queira que ele continue se achando tão bom.

23 de agosto
Agora é oficial, a gente não pode mais mostrar imagens externas em movimento nos comerciais. Pode nos programas, mas não nos comerciais. A justiça eleitoral é de uma estupidez impressionante. Mas esperar o quê de advogados, afinal? Vamos ter que trocar os pés-de-boi, os comerciais diretos que falavam sobre a obra de Edvaldo. Isso é mais preocupante porque que a última onda do tracking demonstrou um crescimento significativo a partir do dia 19, quando os comerciais entraram no ar. Eles lembraram ao povo o volume e a qualidade das obras de Edvaldo. Agora é descobrir uma solução criativa para contornar esse problema.

A quali confirmou tudo o que esperávamos. Destaque para a rejeição causada pela aparição de Maria no programa de Mendonça. Coitado de Mendonça.

Rosalvo o encontrou no almoço e lhe deu um bom conselho: em vez de bater só na gente, ele devia bater também em Almeida. É Almeida quem está se consolidando como o nome da oposição. Almeida não tira votos da gente, tira votos dele. Até a cor do bloco de oposição, o verde, Almeida tomou deles. Mas duvido que Mendonça siga os conselhos do pândego, e a gente vai continuar apanhando e a porrada não vai surtir efeito.

25 de agosto
Mendonça Prado fez um programa fazendo uma denúncia sobre o Santa Maria. Mostrou uma rua em condições desumanas. Fez o melodrama típico de apresentadores de programas de mundo cão. Alguém devia dizer a ele que a Prefeitura está investindo 66 milhões de reais ali, urbanizando o bairro todo e construindo 2 mil casas. É claro que o bairro está em más condições; se não estivesse, não precisava de obras desse porte. Se ele tivesse visto os programas da gente saberia disso. De qualquer forma, ele deveria lembrar que quem botou aquele pessoal ali, naquelas condições sub-humanas, foi a sogra dele, Maria. A gente acertou em escolher Infraestrutura como o tema de hoje, porque acabamos apresentando a nossa versão na mesma hora, com mais competência, e não fica parecendo uma resposta.

O programa de Almeida parece ter finalmente encontrado um eixo decente: estão mostrando as obras que ele fez há 12 anos, quando foi prefeito. Não têm imagens em movimento — pelo visto não cuidaram do arquivo –, e por isso usam muitas fotos. Aposto que isso vai acabar cansando.

Fico impressionado ao ver como o sujeito mente. Eu sei que ele não fez metade do que diz que fez, mas ele mente e diz a verdade com a mesma ênfase, é impressionante. Não dá para diferenciar.

E nós fizemos um programa perfeito. Perfeito. Modéstia à puta que pariu, o fato é que a gente entende desse babado. Demos um baile nos outros e desmontamos todos os seus argumentos. Mostramos as obras de Edvaldo, o PAC no Santa Maria, um baile.

26 de agosto
O pessoal que fica segurando as bandeiras de Almeida nos cruzamentos não usa mais as camisas verdes com o A de Almeida. Agora nego segura o pau de Almeida sem se identificar. É mais uma estupidez da justiça eleitoral, exigir que o pessoal que trabalha para um candidato não se identifique. Eles acham mesmo que aquele pessoal fica o dia inteiro nos cruzamentos, debaixo de um sol desgraçado, de graça? Qual o problema?

A quali confirmou o chocolate de ontem. O programa de Mendonça foi considerado apelativo, e Almeida conseguiu um certo recall mostrando fotos de suas obras. Eu estava errado, pelo visto, mas continuo achando que esse eixo vai se esgotar e ele vai começar a bater na gente. Não entendi por que não bateu ainda na saúde, porque esse é sempre o ponto mais óbvio. Talvez porque Edvaldo tenha aumentado o volume de recursos próprios investidos em Saúde para 18% enquanto Almeida, que pegou em 6%, baixou para 4%. Esses dados vão ser aproveitados na hora certa, se for preciso. Outra coisa: ontem ele fez um rap sobre a dengue; acho que esqueceu que na gestão dele teve epidemia, sim. Ou então aposta que a gente esqueceu.

E o povo está blindando Edvaldo. Não é a gente, é o povo. Isso é fantástico, por si só e porque é um grande indicativo de vitória. Almeidinha, você não vai ter nem 20% dos votos.

27 de agosto
Programa sobre Educação já na produção, tudo caminhando bem. O programa de Proteção Social ficou lindíssimo. E vai ajudar a resolver uma dúvida minha. Tenho a impressão de que o eleitor anda mais refratário a sentimentalismo barato — o que torna mais difícil uma denúncia como a do Vale do Cotinguiba, em 94. A recepção ao programa de hoje vai ser um bom indicativo. Se bem que há variáveis demais: há uma certa boa vontade em relação a Edvaldo. Mas acho que o segredo está na forma como se faz esse tipo de peça.

29 de agosto
Pela primeira vez, o Mendonça Prado fez um programa quase bom. Eu não sei se é por falta de dinheiro ou por falta de talento, mesmo, mas insistem num formato esquisito: o sujeito o tempo todo no vídeo, plano americano, jogando uma cacetada de propostas. Para começar, Mendonça não é simpático. Para terminar, as propostas soam vagas, excessivamente ambiciosas, parecem promessa típica de político. Tem muito tempo que não faço campanha de oposição, provavelmente nem sei mais fazer, mas se eu estivesse ali faria menos propostas, mas mais conseqüentes, mais detalhadas; mostraria, por exemplo, de onde tiraria o dinheiro. Acho que passa mais credibilidade. Sei lá.

Mas hoje ele resolveu bater no trânsito. Questionou os parquímetros. E disse que vai substituí-los pela zona azul. O programa me soou mais denso. Fizeram apenas uma grande idiotice: chamaram o Cássio Taniguchi — “Olha com quem eles foram se pegar”, disse o Rosalvo — para dizer o que poderiam fazer com a avenida Euclides Figueiredo — justamente uma das grandes que Edvaldo está terminando de recapear agora. E o sujeito se sai com essa: “As calçadas são muito largas, podemos diminuí-las”. Isso não vai dar bom recall, eu aposto.

Almeida deu uma boa porrada na saúde, e bateu de novo na dengue. Acho que o ataque vai surtir efeito; foi pelo menos mais bem articulado que os de Mendonça. Mas aí ele tem que aparecer falando com aquela voz de Lombardi e aquele ar arrogante e pouco confiável. E joga as propostas mirabolantes dele. É impressionante como o programa está ruim.

O nosso programa de Educação ficou lindíssimo. Os drops com dados que o Paulinho criou ficaram fantásticos, espalhados ao longo do programa. A diferença entre os nossos programas e os deles é gritante. Não só no conteúdo, na forma também.

30 de agosto
A quali mostrou que a tirada do Taniguchi foi mal recebida: “E a gente vai andar onde?” Povo 1 x 0 tecnocratas. Lindo. Mostrou também algo que eu não esperava: o povo sabe muito bem que trocar parquímetros por zona azul é, nas palavras deles, “trocar 6 por meia dúzia”.

31 de agosto
Eu estou apostando que Almeida Lima vai terminar em terceiro, que Mendonça Prado vai ultrapassá-lo. Em parte pela conjuntura política, mas em parte porque o programa de Almeida me parece meio desvairado.

Alceu Valença se ofereceu pra regravar o jingle de Aracaju. Estamos chiques. Chique no último.

1 de setembro
Talvez o que mais maravilhe a gente seja a forma como o povo esteja demonstrando carinho por Edvaldo. É algo que ninguém esperava. Eu acho que isso se deve a uma série de fatores. O primeiro é a bênção de Déda sobre Edvaldo; o segundo, a mitificação natural que acontece durante uma campanha; e terceiro o conforto natural que Edvaldo começa a sentir no seu papel de prefeito.

O programa de Mobilidade Urbana ficou redondíssimo. A gente usou o mesmo tema que Mendonça usou no programa de sexta — a diferença é que conseguimos ser levados a sério e ele não.

Mendonça fez o programa de sempre, agora sobre juventude. É um tema do qual eu nunca gostei, por ser limitado demais. Acho que deveria ser tratado sempre em conjunto com outros temas, como uma espécie de tema transversal. Mas alguém deve ter convencido o coitado de que ele tem respaldo junto à juventude, e o sujeito concentrou o programa nisso. Foi um dos seus piores programas até agora. Mostrou também a sua carreata com João Alves. É perceptível que não tinha ninguém, até porque eles não têm mais o dinheiro do Estado para distribuir 30 litros de gasolina para os participantes. Mas pelo menos pode dar a impressão de que a sua campanha existe nas ruas.

Já Almeida voltou a centrar fogo na saúde. Repetiu o programa de sexta, basicamente, tirando as partes que tiveram menos aceitação. É um programa muito ruim, o dele. Quando a campanha acabar eu descubro qual é a equipe. Porque o texto do primeiro programa era muito bom; minha impressão é a de que são bons profissionais em uma circunstância ruim.

2 de setembro
E o Déda viu o programa ontem e disse: “Não tenho nada a acrescentar a esse programa”. É um dos maiores elogios que a gente pode receber. É difícil, para quem nunca viu o cabra, entender o que ele é, ou a sua inteligência e sensibilidade.

Nova pesquisa, agora do Jornal da Cidade/Instituto Soma: Edvaldo com 54,1% dos votos válidos. Bate com os números anteriores. Agora é esperar a da Globo/Ibope, na quinta. Deve dar números semelhantes.

3 de setembro
Engraçado: agora que todo mundo admite a possibilidade de Mendonça ultrapassar Almeida, começo a ter dúvidas da aposta que eu queria fazer. Não sei direito. Talvez porque o programa de juventude de Mendonça tenha sido horroroso, talvez porque parece que nada que ele diga merece ser levado a sério. De qualquer forma, ele está aí como herdeiro do bloco de oposição, talvez suba com isso. Eu não sei, sinceramente.

Sinto falta de um pouco de medo. Não cautela, porque isso a gente tem; mas medo, mesmo, um sentido um pouco maior de urgência.

***

Resumo da ópera: a campanha seguiu por mais um mês. Houve momentos em que me arrependi de ter dito que “sentia falta de um pouco de medo”, e nunca mais digo isso novamente em uma campanha.

A informação sobre a epidemia de dengue durante a administração de Almeida não foi utilizada originalmente no programa, mas em um debate. Eu estava na platéia e vi Almeida ficar com a mesma cara de menino pego em flagrante roubando um pirulito que mostrou ao receber um esporro antológico de Aluízio Mercadante no Senado, em 2003.

(Uma explicação sobre a importância que dávamos à dengue. Em 2008 Aracaju teve uma epidemia, e das grandes. Morreu gente. Mas em abril nós já tínhamos a sensação de que aquilo acabaria sendo uma vantagem para nós, por causa da ação rápida de Edvaldo, e o episódio acabaria reforçando a imagem de Edvaldo como administrador eficiente e forte. Almeida, no entanto, resolveu apostar na dengue. E disse que “em sua gestão não houve epidemia de dengue”. Foi uma das coisas mais estúpidas que alguém poderia dizer. Porque houve uma pequena epidemia, sim — mas se ele não tivesse falado isso não faria diferença, já que à época o combate à dengue não era atribuição municipal. Ou seja, ele tomou para si uma responsabilidade que não era sua, e o tiro saiu pela culatra.)

Mendonça Prado, contando com a força de João Alves Filho, realmente conseguiu ultrapassar Almeida Lima. Deu uma boa subida depois de se sair bem em um debate e, finalmente, aproveitar competentemente esse material no programa. Mas Edvaldo ganhou no primeiro turno.

E eu, mais uma vez, aprendi um bocado com a campanha.

Não costumo rever campanhas, porque depois que passam elas me incomodam, e só consigo ver os erros nelas, meus e dos outros. Mas dia desses revi alguns programas dessa campanha. Embora a minha campanha preferida de 2008 seja a de Kassab em São Paulo, eu tenho que admitir que nós fizemos um belíssimo trabalho. E é isso o que a gente leva da vida.