Um certo lamento feminino

O Hermenauta me manda um texto da Ruth Manus, publicado há algum tempo no Estadão, em que ela lamenta a triste sorte das mulheres hoje em dia, sonhando com um homem inexistente que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

A colunista olha em volta e não encontra esse homem. A culpa é, em última análise, da sociedade, esse ente indefinível que cria homens que fogem de mulheres independentes. Reclama que não ouviu esse discurso de nenhum homem. “Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.”

(Vamos desconsiderar o primeiro parágrafo que só serve para ambientar a situação, a besteira que é alguém sonhar com uma mulher assim. Como seria uma besteira uma mulher sonhar com um homem que trabalhe 16 horas por dia, que viva respondendo a emails ou telefonemas de trabalho extemporâneos e que tenha que fazer serão  — com ou sem a secretária  — dia sim, dia não. Se é para sonhar, vamos sonhar direito.)

Vamos desconsiderar também o fato de que a última sentença parece indicar que tudo isso é apenas um grande e elaborado lamento por não ter um homem para chamar de seu. O fato é que eu poderia fazer esse discurso, se isso a confortasse. Casado algumas vezes, olho para trás e vejo que nenhuma de minhas mulheres se encaixa no perfil que ela acha que os homens querem. Cozinho melhor que elas; todas tiveram trajetória acadêmica melhor que a minha; a maior parte teve, sim, subordinados em algum momento da vida. Mas isso não é sobre elas, é sobre a inexistência de homens que admitam mulheres que não dependam deles. Talvez por isso, por comparar a minha própria trajetória com a da moça descrita no texto, fiquei me perguntando de que mundo fala a colunista.

Pistas vêm mais adiante. Ela fala da educação que recebeu, dos cursos, do incentivo entusiasmado dos pais para que ela desenvolvesse seu potencial e garantisse independência. Indica também uma mulher bem-sucedida. A combinação específica de salto alto e overload de e-mails (mais adiante ela menciona subordinados) indica uma mulher que certamente não é nem vendedora nem operadora de telemarketing.

O primeiro problema do texto está aí. Ela descreve o mundo quase idílico da classe média — a velha, não a nova. É o mundo daqueles cujos pais lhes possibilitaram (geralmente com pai e mãe trabalhando em tempo integral) acesso a oportunidades variadas em sua formação. Fala daquela parte abençoada da sociedade cujas necessidades básicas, e boa parte de suas aspirações, já são atendidas — justamente porque uma geração anterior de mulheres se sacrificou para garanti-las. O mundo sofisticado daqueles que, em vez de um feriadão na Praia do Forte ou até mesmo quatro noites em Paris pela CVC, almeja uma viagem para o Leste Europeu.

Talvez se ela olhasse para o mundo das comerciárias, das funcionárias públicas, das professoras, visse um mundo levemente diferente. E talvez ela aventasse a possibilidade que esse mundo de homens querendo dondocas dependentes e ignorantes aconteça apenas nas vidas dos super-ricos; nas dos mortais reles, coitados, isso é impossível.

Nesse mundo, as pessoas não apenas precisam trabalhar: elas esperam que as outras trabalhem, também. E nesse mundo, ao que parece a maior parte das mulheres não está preocupada com os problemas que parecem afligir a personagem do texto da Ruth Manus; ou porque já têm o seu merecido quinhão ou porque simplesmente têm mais o que fazer.

Claro que há homens como os que povoam os pesadelos da Ruth Manus. Há piores, na verdade. Esses bichos costumam vir em todos os tipos e cores. Há moços antigos assim e moços modernos, rapazes que querem filhos e rapazes que não os querem, senhores que se pudessem prenderiam a mulher em casa e senhores que dividem a mulher graciosamente com outros, cavalheiros que ajudam em casa e cavalheiros que se especializam na doce arte da gigolagem.

Mas há muito tempo o homem que se vê como provedor único da casa, senhor absoluto da família e da mulher mantida em rédeas curtas, deixou de ser a norma, ou mesmo parte significativa. Não porque eles quisessem ou deixassem de querer, que isso é irrelevante: mas porque a necessidade os obrigou.

A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho a partir da II Guerra alterou, aos poucos mas para sempre, as configurações familiares no mundo inteiro. E assim como a classe média passou a se condoer da situação das empregadas domésticas a partir do momento em que não precisou mais delas — ou, mais acuradamente, não pôde mais mantê-las —, a grande maioria das famílias passou a tomar como garantido o fato de que todos precisam trabalhar para garantir padrões de vida mais ou menos adequados às suas aspirações.

A colunista parece ver seus problemas como resultado do machismo inculcado nos homens desde sempre. Mas certamente não é nessa esfera que está o grande problema causado pelo machismo, pela maneira como a sociedade educou seus varões, e nem vamos falar aqui de outros ainda mais graves, como agressões, disparidades salariais, essas coisas. Aquele tipo de problema é mais facilmente visto nas famílias com filhos, em que normalmente a mulher acaba sobrecarregada. Mas não é disso que o artigo trata.

De vez em quando se vê por aí textos em que mulheres tentam fazer passar suas carências e preocupações idiossincráticas por feminismo, ou ao menos pelo diagnóstico de um problema universal feminino. Esse é um deles. Tenho a impressão de que se essa moça fizesse uma pesquisa rápida e procurasse ver com quem os homens que poderiam interessá-la estão (aqueles comprometidos e satisfeitos com isso, claro), teria uma surpresa desagradável. O mais provável é que os encontrasse com mulheres que incorporassem, ao menos em parte, os predicados descritos no início do texto.

Relações interpessoais são sempre complicadas. E os anos que passam me fazem desconfiar cada vez mais que grande parte desses problemas se devem a desencontros. Mas nesse caso específico, a Manus personifica as reclamações não de homens, mas das mulheres que acham que a vida lhes passou uma rasteira e não lhes deu de presente um conto de fadas moderno. Não parece haver muitos homens por aí lamentando que as mulheres se emanciparam e por isso eles estão solteiros, apesar do MBA em Harvard que ostentam no currículo, apenas porque não encontram mais amélias submissas como antigamente. E é isso que faz desse texto pouco mais que o lamento de uma moça bem sucedida de classe média reclamando que a educação primorosa que teve não lhe serviu para o que era mais importante: arranjar um marido.

João Barreto Neto

Vi agora a notícia da morte de João Barreto Neto, nestes tempos em que essas notícias ruins vêm pelo Facebook. E então bateu uma tristeza imensa, tristeza e aquela culpa difusa causada pela sensação de que você poderia ter dado um pouco mais de atenção àqueles que se foram.

Fazia alguns anos que não via Joãozinho. Da penúltima vez ele gritou meu nome no Calçadão da João Pessoa como quem acabou de avistar um fantasma — e tinha avistado mesmo. Confundira este Rafael, vaso ruim que a terra há de ter muito trabalho para engolir, com o Rafael Rodrigues, filho do Rômulo que tinha morrido pouco tempo antes em um acidente estúpido. Na época, maravilhado por poder fazer a crônica da minha própria morte, privilégio de poucos, escrevi sobre isso aqui.

Da última, em frente a um restaurante na Praça da Imprensa onde ele ia pegar sopa para dar aos assistidos pela Ação Social Santo Antônio, a herança que Barrinhos lhe deixou, eu vi um homem velho e cansado. Nem parecia aquele que me acompanhava aos cabarés da cidade, como o de Ciganinha — puteiro admirável porque parecia um terreiro de candomblé escondido no Santos Dumont, ainda melhor porque pertencia a uma cafetina que tinha perdido tudo por amor a um homem.

Ainda lembro das noites na varanda da casa de João com Yara, conversando coisas sérias e coisas bobas. Ou ainda uma noite em que, passando em frente à sua casa na rua Maruim, parei para conversar e encontrar um ombro amigo para chorar o fim de um namoro, xingar aquela desgraçada que não queria mais saber de mim — ou eu não queria mais saber dela, não lembro bem. Na verdade eu chorava pelo fim do namoro e pelo show de McCartney no Maracanã a que não iria assistir por não ter dinheiro. O que sei é que naquela noite uma garrafa de Natu Nobilis encontrou seu fim — porra, Joãozinho, se fosse sua mãe teria me servido um uísque melhor.

Ela era uma daquelas mulheres fortes, que inspiram respeito à primeira vista. Fosse umas décadas mais nova e eu uns anos mais velho, teria inspirado também uma daquelas paixões avassaladoras, imorais. O meu respeito era ainda maior porque eu sabia de coisas que pouca gente parecia saber. Sabia que Joãozinho era filho do tio, fruto de uma daquelas tragédias rodrigueanas que abalam as famílias, causam infelicidade para todos e resultam em mortes tristes; tragédias que se tenta esconder a todo custo, tentativa infrutífera sempre. 30, 40 anos depois tio Joffre me contava a história, que só conto agora porque, exatamente hoje, todos morreram. Foi tio Joffre quem me disse também que o pai real de Joãozinho conhecia o meu — real e oficial, deixe-me antes de mais nada esclarecer porque eu tenho cá minhas frescuras também.

O que ninguém sabe é que o pai dele foi um dos últimos, se não o último, taxista a levar meu pai a algum lugar, e num certo dia em que eu ia com tio Joffre para o seu sítio em Socorro ele desandou a falar do meu, como era inteligente, como bebia, como conhecia os piores botecos da cidade.

Saí do jornal e perdi o contato com Joãozinho. Mais tarde, olhando para trás, teria a impressão de que ele, gay, estava esperando apenas uma chance para me pegar. Meninos novos costumam ser alvos fáceis. No entanto, quando lembro da amizade tranquila e das longas conversas sobre jornalismo e sobre a história de Aracaju, fico pensando que não, que isso é maldade minha. Melhor assim.

E então eu não vou ao seu velório, Joãozinho. A maior homenagem que podemos fazer a um amigo é a lembrança. E eu, assim como tanta gente, lembro de você.