Monthly Archives: September 2008

Essa tal ética protestante do trabalho

Fulana says:
Eu não sou uma pessoa que fica de braços cruzados olhando outra trabalhar, vc sabe disso

Rafael says:
Eu também não.

Rafael says:
Acho esse negócio de cruzar os braços um desrespeito ao trabalho dos outros

Rafael says:
É por isso que eu boto os braços atrás da cabeça, deito no sofá e relaxo.

Fulana says:
Cachorro

Rafael says:
Au, au.

Anatomia de um crime – o esquema nigeriano

Quem conhece um pouco de internet já ouvir falar do “Nigerian Scam“, um conto do vigário já clássico da internet. Funciona assim: alguém te manda um e-mail dizendo ser um africano rico que precisa transferir o dinheiro para o seu país, coisa de milhões. Pede a sua ajuda e lhe oferece uma boa comissão. Você acaba dando o número da sua conta e eles tiram dela todo o seu dinheiro.

É um golpe simples, que dá certo por causa da ganância ingênua de algumas pessoas. É o que me faz não ter muita pena de quem cai nesse tipo de 171.

Um amigo recebeu um e-mail desses e eu pedi para ele me repassar. Estava na hora de brincar um pouco, para aliviar as tensões da campanha.

Olá!,
Meu nome é Stella Benard eu vivo em África, eu não escrevo nem falo portugues, mas eu quero vir ao Brasil e investir meu dinheiro, o problema é que eu não conheço o Brasil e nem quem possa me ajudar para investir meu dinheiro em um negócio rentável em seu país… eu tenho um filho o nome dele é James Benard, agora eu quero procura uma pessoa sincera e honesta que possa nos ajudar e invista o dinheiro. eu emiti-lo-ai em seu país estou aguardando sua resposta.
Obrigado. Stella Benard

Com português de tradutor online, a carta de Stella era o scam típico. Jogava a isca e esperava que a sua ganância fizesse o resto. É inacreditável que algumas pessoas ainda caiam nessa, mas já dizia P. T. Barnun que nasce um otário a cada minuto. Se de cada milhão de e-mails que mandam eles conseguem fisgar um mané, saem no lucro. Então criei um e-mail falso e respondi ao negão que se escondia sob o nome de Stella:

Stella,
Como posso te ajudar? E por que você quer vir para o Brasil? Você vive em que país da África?
Atenciosamente,
João Sem Braço

Stella respondeu no dia seguinte:

Agradecimentos para sua resposta, eu sao (Sierra Leone) em África ocidental, mim tenho uma criança que seu nome é James Benard é 28yrs da idade, meu marido o nome é Williams Benard era o diretor da empresa petrolífera de Omega em meu país, ele morreu (27 março 2005) em conseqüência da guerra em meu Sierra Leone África ocidental do país,mas desde a morte de meu marido atrasado minha família do marido foi-me dada um problema grande sobre minha riqueza do marido, que eu recusei lhes liberar porque é a única herança meu marido deixado para seu somente filho James.
eu que procura uma pessoa que possa ajudar e dirija-nos em como investir este fundo. .since que nós não nos conhecemos muito bem, mim pode emitir meu filho James a seu país para que você saiba que pessoalmente antes que eu poderia arranjar para transferência de meu fundo desde que nós não nos conhecemos . minha foto do pasport é anexo a este correio, emite-me sua foto em seu correio seguinte.
O deus abençoa-o. Stella Benard.

Tem trechos desses e-mail que são praticamente incompreensíveis. A sorte é que abaixo vinha também o original em inglês. Nem sempre correto, claro, mas um pouco mais inteligível.

Stella,
Como eu poderia ajudar você a investir esse fundo? De quanto estamos falando?
Atenciosamente,
João Sem Braço

Eu não mandei a foto que ela pediu. Não tinha tempo nem vontade de procurar uma foto qualquer na internet; e talvez parecesse mais verossímil uma certa reticência minha. Stella respondeu rápido:

Olá!, a quantidade total de dinheiro que eu quero investir em seu país é $8.6 o milion USD, mas antes então do eu emitirei meu filho para vir e para conhecer-me pessoalmente o e igualmente o arrenge para transferência deste dinheiro em seu país com um serviço diplomático do carrer, evitará a intervenção de seu governo sobre nosso dinheiro. nós concordamos dar-lhe 10% do dinheiro total após esta transação. deixe-me saber se você é disposto dar boas-vindas a meu filho em seu país.
Stella Benard

Deus do céu. Ninguém jamais me ofereceu 860 mil dólares. Pensando bem, ninguém jamais me ofereceu sequer 80 mil dólares. Por 860 mil dólares eu faria coisas inimagináveis; batia na minha mãe, espancava a minha mulher, dava minha filha para a adoção, mijava na cruz, chutava velhinhas na rua e empurraria tetraplégicos ladeira abaixo.

Mas coisas assim são boas demais para serem verdade, e a minha sina é tentar ser enganado por malandros em Londres.

Stella,
Me parece um excelente negócio. Não vejo necessidade que seu filho venha antes para o Brasil, mas se você preferir assim, está tudo bem.
Como faremos, então? Posso lhe mandar meu endereço agora, se quiser, e receberei seu filho.
Atenciosamente,
João Sem Braço

Depois de mandar esse e-mail percebi que estava dando um grande vacilo, e desperdiçando uma chance única de brincar um pouco. Decidi que depois do e-mail seguinte eu mudaria o tom da conversa. Ainda bem que a resposta de Stella não demorou muito:

Olá!,
Dê-nos seu número que de telefone será em Brasil esta semana. explicar-lhe-á tudo com o diplomata que você os encontrará.
Stella Benard

Era a hora de mudar o rumo da prosa, de jogar todo o meu charme em uma africana bonita, sensual e rica. Porque se eu sou um grande otário, tenhoq ue ser um otário completo:

Stella,
Meu telefone é 8843-0831.
Eu estava olhando a foto do seu passaporte. Você é uma mulher de extrema beleza, e apesar de ser um homem de posses consideráveis, eu me sinto atualmente muito solitário. Estou disposto a abrir mão de metade de minha comissão se você concordar em passar uma semana comigo em um resort agradável e discreto no Rio de Janeiro. Beberíamos muito champanhe e faríamos muito sexo. O que você acha?
Atenciosamente,
João Sem Braço

Stella demorou um pouco para responder esse e-mail. Quando me respondeu, fingiu que o convite não era com ela:

Caro João,
Agradecimentos para seu elogio, você escreveu ao banco para confirmar que eu disse sobre minha riqueza atrasada do marido? contate-os por favor porque eu quero o banco transferir o dinheiro no acount pessoal do yor durante minha chegada em Brasil. Meu filho James visitá-lo-á em seu país este fim de semana.
Stella Benard.

Que coisa feia. Que cachorra. Quer dizer que eu faço uma proposta irrecusável dessas e ela finge que não é com ela? Tudo bem que não era o milhão de “Proposta Indecente”, mas eu também não sou o Robert Redford, nem o negão aí é a Demi Moore — era muita sacanagem. Por isso insisti:

Cara Stella,
Foi um elogio, mas também foi um convite. Infelizmente, você não se pronunciou sobre o convite: uma semana de muito champanhe e sexo em um resort discreto e aconchegante no Rio de Janeiro, em troca de metade da comissão que você me ofereceu.
Ainda não escrevi para o banco, porque estou esperando a sua resposta.
Atenciosamente,
João Sem Braço

Stella respondeu depois do fim de semana seguinte:

Olá! João,
Está um prazer ouvir de você, por favor mim quero que entre em contato com o banco, o banco disse-me que ninguém lhes escreve.
Stella Benard

E aí eu comecei a ficar chateado. É preciso uma certa decência nesse negócio de escroqueria internacional. A Stella deveria, pelo menos, dizer que não estava interessada na minha proposta,l me dar uma satisfação, mínima que fosse. Mas não, finge que não é com ela, e isso não se faz.

Eu falando da poesia da sacanagem e ela preocupada apenas com dinheiro que ia roubar de mim.

Cansei. Chega de conversa que eu tenho mais o que fazer. Resolvi enviar um e-mail que eu já tinha escrito, mas que estava esperando a aceitação de Stella.

Cara Stella,
Antes de mais nada, eu preciso ser honesto com você. Atualmente, enfrento alguns problemas com a polícia do meu país por um incidente com uma moça há alguns anos. Felizmente, graças ao meu dinheiro, minha posição social e influência, nada aconteceu, mas agora que um laço mais forte está se criando entre nós dois, eu preciso te contar que gosto de um tipo de sexo mais rústico. Por isso, gostaria que você respondesse algumas perguntas: você tem seios grandes? Você cospe ou engole? Você gosta de sentir dor durante o sexo selvagem? Gosta de ser amarrada, gosta de ser docemente espancada?
Aguardo sua resposta com ansiedade e terrivelmente excitado,
João Sem Braço

Parece que a minha proposta assustou a Stella, porque ela não me respondeu. É uma pena. É impressionante como esses picaretas são pudicos: me oferecem 860 mil dólares para passar a perna no governo de Serra Leoa, mas não aceitam fazer sexo selvagem e rústico por 430 mil. O que há com esse mundo? Cadê os leitores de Jorge Amado, aquele gênio que dizia ser a profissão de gigolô a mais doce que um homem pode ter? Como posso respeitar um picareta desses, que não tem lirismo na alma?

Não há mais poesia no mundo torpe do golpe do vigário.

De qualquer forma, eu tinha que mandar um último e-mail. E dessa vez mandei em inglês para ter certeza de que a Stella iria entender:

Meu caro amigo,
Seus e-mails foram enviados para a Interpol, que os rastreou e encontrou a sua localização. Você está sob vigilância agora.
Eu sei que não deveria enviar esse e-mail, mas as ações da Interpol, pelo que me disseram, estão bem avançadas, e eles o apanharão nos próximos dias. Você não tem mais saída.
Eu tinha que lhe mandar este e-mail porque você não respondeu às minhas propostas sexuais.
Obrigado pela diversão, e boa sorte na prisão,
João Sem Braço

Lula e as viúvas de Fernando Henrique

Quanta mágoa, Márcio Rothstein Bacha. Quanta agressividade.

Em primeiro lugar, eu só queria corrigir uma informação sua. Você pode não ter votado em Lula, mas infelizmente ele é também o seu presidente, a partir do momento em que governa o país em que você mora. Desculpe. Você vai ter que dormir com isso, e acordar sabendo que o pau-de-arara analfabeto é o seu presidente. A vida tem dessas coisas.

Fora isso, acho fantástico quando as viúvas do PSDB vêm pedir a paternidade da política econômica de Lula. Como se tivessem inventado o dinheiro e a ciência econômica.

Vamos colocar as coisas em pratos limpos: seis anos são muito tempo, Márcio Rothstein Bacha. Em seis anos, o Brasil já teve cinco moedas diferentes — aliás, sei de um Bacha que criou duas. Sabe Deus quantos planos econômicos são possíveis nesse período. Lembro de um presidente que assim que assumiu confiscou o dinheiro de todo mundo e criou uma nova moeda, pouco mais de um ano depois do Plano Verão.

A partir do momento em que um presidente assume o seu mandato, a política econômica passa a ser dele. Se ele resolve ou não seguir um modelo anterior, é uma decisão que ele toma. Não se trata de pedir a paternidade do plano Real. Isso é de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e vai ficar bonita no túmulo deles essa informação. O Plano Real foi fundamental para que o Brasil chegasse ao nível que chegou, sim, e ninguém é imbecil a ponto de negar isso. (A propósito, as iniciativas privatizantes de Collor também foram fundamentais para que se chegasse ao Real, e eu gostaria que sempre que uma viúva de FHC fosse catar o plano Real para jogar na cara dos lulistas lembrasse também disso. Infelizmente, têm vergonha.) Mas a política econômica atual é de Lula. Ponto final. Para desgosto das viúvas, o que vai ficar é que enquanto cada crise internacional deixava o Brasil de quatro na época de FH, o Brasil está resistindo, pelo menos por enquanto, à maior crise econômica que se viu nas últimas décadas.

Há também os saudosos da política externa. Se alguém pegar exemplares da finada Primeira Leitura, pode ver uma infinidade de exemplos disso. Aquele ministro que tirava os sapatos nos Estados Unidos era mestre nessa tática de tentativa de desmonte absoluto. Chega a ser risível uma entrevista com Rubens Ricúpero: o repórter tentando a todo custo arrancar dele uma condenação à política externa de Lula e o Ricúpero dizendo: “não, está indo bem, pode melhorar mas está indo bem…”

É como se a manada ficasse triste porque as suas previsões de que Lula iria afundar e desmoralizar o Brasil não se concretizaram. Essa manada sempre foi retrógrada; mas agora mostra definitivamente ser burra, porque enquanto o resto do mundo reconhece a importância de Lula, ela continua do alto de sua torrezinha de marfim gritando que as uvas estão verdes. Foi por isso que levaram a surra que levaram em 2006. É por isso que nestas eleições de 2008 o governo tende a sair fortalecido. Lula pode não gostar de ler, o que é uma pena — eu, pelo menos, gosto. Mas é um grande presidente. Melhor que o intelectual que ninguém lê, o FH.

O Márcio Rothstein Bacha, até pelo nome um aparente membro de uma elite que não entende por que o povo que não come não concorda com a sua visão política, mostra a mesma incapacidade que a oposição tem demonostrado nos últimos anos. Não consegue entender o que mudou no Brasil. Continua observando e analisando tudo da mesma maneira que antes.

Pior, fala do que evita conhecer. A diferença fundamental de Lula foi dar uma guinada em relação às necessidades de uma parcela da população. Nisso, o Bolsa Família (que o Márcio Edmar Bacha chama de esmola, mostrando ignorância total a respeito do programa e das necessidades de gente que passa fome, gente com a qual ele certamente não tem nenhum contato) foi fundamental, porque mudou as regras (Márcio Rothstein Bacha, dá uma olhada aqui). Até Lula, o que se tinha era uma elite governando de acordo com seus padrões e a sua distância do Brasil real. Com Lula houve mudanças significativas — mudanças que em 8 anos, ou pelo menos nos últimos 4, Fernando Henrique foi incapaz de fazer.

E não se trata aqui de esquecer o mensalão. O Márcio Rothstein Bacha tem razão ao falar das mazelas do mensalão — e nisso eu recomendo a leitura do arquivos do Idelber, que sempre teve uma postura extremamente crítica e racional a respeito disso. Houve a crise, foi um problema grave, e de custo elevadíssimo para o projeto de poder. Mas isso não significa que viúvas como o Márcio Rothstein Bacha pode falar com tanta autoridade sobre isso. Porque tampouco esquecemos a compra de votos pela reeleição, a mudança das regras em pleno vôo. (FHC e suas viúvas, certamente, jamais terão a mínima autoridade para falar em respeito à constituição ou em projeto de poder.) Também não esquecemos casos como o de Chico Lopes. Ou a farra que foi o que o Elio Gaspari chama, de maneira extremamente adequada, de “privataria”. As viúvas seguem assim mesmo. Não conseguem entender o que Lula mudou no país, investem contra o mensalão como se o governo FHC fosse uma ilha de ética neste país — o que não foi, eu posso garantir.

Há pouco tempo alguém lá nos estrangeiros elegeu Lula uma das pessoas mais influentes do século XXI. Tomara que não digam isso ao Márcio Rothstein Bacha, porque se ele já destila tanta raiva agora, só porque os botocudos reconhecem a importância de Lula, vai começar a botar espuma pela boca ao saber que o resto do mundo também pensa assim.

Meu presidente

Foi em Lula que votei pela primeira vez, e até hoje não votei em nenhum outro candidato a presidente.

Em 1989 — provavelmente 8 de novembro, mas não tenho certeza da data — nós que fazíamos a UJS puxamos uma das maiores passeatas de estudantes que Aracaju já viu — e o comício foi obrigado a parar para anunciar aos outros participantes que havíamos chegado, tamanha a barulheira que fizemos. Em 1989 eu pintei bandeiras, fiz caminhadas, panfletagens, boca de urna. Perdemos aquela eleição, infelizmente; e nós, que queríamos um novo Brasil, acabamos tendo que engolir um Brasil Novo.

Mas em 2002 nós conseguimos.

Ao longo dos últimos seis anos, assisti à oposição fazer de tudo para desacreditar o presidente que eles não conseguiram derrubar. Disseram que ele traiu seu projeto social — e ele criou o Bolsa Família e os programas de inclusão produtiva. Chamaram-no de bêbado — e a sobriedade com que conduziu o país impressionou a todos. Chamaram-no de despreparado — e com ele o Brasil passou a ter uma proeminência internacional que está matando Fernando Henrique Cardoso de inveja e despeito, aos pouquinhos. Chamaram-no de analfabeto — e ele criou o ProUni. Vi gente esculhambando cada área do governo de Lula: a economia, as políticas sociais, a política externa. E no entanto, nesses mesmos seis anos, o Brasil que eles nunca quiseram ver ou entender emergiu e iniciou um processo de consolidação. Queiram ou não os apóstolos do mercado que neste exato momento desaba, Lula criou um país melhor, mais sólido e, principalmente, mais justo.

Lula venceu. E a oposição jamais vai conseguir admitir que, do pedestal de sua arrogância, de sua escolaridade, perdeu para um pau-de-arara de Garanhuns, que mostrou que não era ela a mais preparada para dirigir um país do tamanho do Brasil. E por não entender isso, por discordar do projeto de país encabeçado por Lula, essa oposição se perdeu completamente, pregou o golpe às vésperas da eleição, apostou na mentira e no engodo, se recusou a admitir que o país estava melhorando.

Em fevereiro deste ano, nos fundos de um palanque onde o governador Marcelo Déda mostrava mais uma vez por que é um dos maiores, senão o maior, orador que eu já vi, e em que Lula inaugurava um viaduto em Aracaju e mandava o Judiciário meter o nariz em seus próprios assuntos, eu aproveitava para tirar fotos do presidente.

(Espaço para um pequeno parêntesis: quem acompanha um pouco da política nacional já deve ter prestado atenção em um prenúncio de crise institucional que está se formando, com o Judiciário e do Ministério Público ocupando gradativamente espaços que não lhe deveriam ser permitidos, aproveitando um vácuo deixado pelo Legislativo. A imprensa apóia, incentivada pela classe média, e sabe Deus qual será o resultado disso.)

Mas este post, na verdade, não tem muito a ver com tudo isso que eu disse até agora; e eu só disse por desabafo, por estar cansado. Tem a ver com uma posição tomada que, mais uma vez, me deu orgulho do presidente que tenho, em quem votei e de cujo projeto indiretamente faço parte. Lula foi o primeiro presidente a dizer que é a favor da união civil de homossexuais, e a Igreja que se vire com isso.

Eu tenho orgulho de ter um presidente como Lula.

Há quase 30 anos

Tá Com Medo Tabaréu
Super Bacana

Tá com medo, tabaréu
É de linha de carretel
Tá com medo, tabaréu
É de linha de carretel

Você encosta, ela estica
Tira a mão da minha pipa
Que eu quero soltar,
Chega pra lá, assim não dá
Minha pipa é voadora
Minha pipa tá no ar

Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar
Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar

Tem rabo grande e linha grossa
Com meu cerol não há quem possa,
Não encosta, não encosta
Com meu cerol não há quem possa

Tá com medo, tabaréu
É de linha de carretel
Tá com medo, tabaréu
É de linha de carretel.

Novos factóides sobre Lennon

Livro novo sobre Lennon na praça: John Lennon — The Life, de Philip Norman.

Ao que tudo indica, parece ser um bom livro, razoavelmente honesto. Vem sendo elogiado, até porque Norman é autor de um bom livro sobre os Beatles, Shout!. A capa lembra a de The Beatles – A Biography, de Bob Spitz (livro traduzido no Brasil, a propósito), parecendo quase um desdobramento lógico dele.

A essa altura, há pouco o que se dizer de Lennon ou dos Beatles. É um assunto praticamente esgotado. Não resta muito o que dizer. A solução é apostar em pequenos factóides. A crítica fala de informações novas no livro: ensina que Eight Days a Week nasceu de uma frase dita a Paul McCartney por um taxista, e que Lennon teve um “lance” com Alma Cogan. Nada disso é novidade. As duas informações estão em Many Years Ago, a autobiografia de McCartney escrita por Barry Miles. Norman também fala da mitificação negativa sofrida por Freddie Lennon, pai de John — mas isso foi investigado a fundo em The Lives of John Lennon, de Albert Goldman, o primeiro a questionar a imagem santificada de Lennon. Norman diz que o livro de Goldman é “malevolente, risivelmente ignorante”, e certamente tem alguma razão em suas alegações — principalmente sobre a maldade de Goldman; o que, no entanto, não parece ter impedido que bebesse de sua fonte de dados.

Essas são informações pequenas e pouco interessantes, no entanto. Para chamar a atenção do mercado, o livro fala sobre duas pretensas fantasias sexuais de Lennon: com a mãe, Julia, e com Paul McCartney. Incesto e homossexualismo: nada melhor para atrair atenção para um livro que, no final das contas, não traz muita coisa nova.

Só que nada disso é realmente novidade, tampouco. E não significa nada. Para uma pessoa conturbada (ou complexa, se preferir) como Lennon — e com uma sexualidade maleável, como o pretenso caso com Brian Epstein demonstra — os dois aspectos são até de se esperar. Vulnerável, sensível, carente e agressivo, Lennon tinha dificuldade em lidar com suas emoções, ou em entender a sua natureza.

No caso da sua mãe, a relação absolutamente edipiana já tinha sido explorada pelo próprio Lennon em suas próprias canções, como My Mummy’s Dead, Mother (“I wanted you, you didn’t want me“) e, de maneira mais reveladora, em Julia — em que as figuras de Julia Lennon e Yoko Ono são confundidas e assemelhadas. Além disso, declarações a esse respeito do próprio Lennon são facilmente encontradas por aí, como o trecho em seu áudio-diário explorado por Norman, de 5 de setembro de 1979:

Lembrei da vez em que estava com a mão no peito de minha mãe, em 1 Blomfield Road. Eu tinha cerca de 14 anos. Faltei à escola, eu sempre fazia isso e ia para a casa dela. Nós estávamos deitados na cama e eu pensava, “Será que eu deveria fazer algo mais?” Foi um momento estranho, porque na verdade eu estava a fim de uma moça de classe baixa que morava do outro lado da rua. Eu sempre penso que deveria ter ido em frente — presumindo que ela tivesse deixado.

Fãs hardcore de Lennon já conheciam essas gravações, disponíveis em uma série de discos piratas chamada The Lost Lennon Tapes e já comentadas aqui e ali em listas de fãs, como o rec.music.beatles da Usenet. E dão a elas a importância adequada: uma mostra de confusão existencial de Lennon e incapacidade de entender seus próprios sentimentos ou resolver o seu complexo de Édipo.

No que se refere a Paul McCartney (segundo Norman, Lennon só foi barrado pela “heterossexualidade inamovível” de Mccartney), é muito mais simples. Não é nada realmente novo, pelo menos não do ponto de vista de Lennon; já se especulou muito sobre a natureza da afeição de Lennon por Stuart Sutcliffe, por exemplo — especulação que chegou a filmes como “Os Cinco Rapazes de Liverpool”. Não quer dizer nada. De qualquer forma, algo que nunca passou de uma fantasia na cabeça do sujeito, provavelmente pouco elaborada, não é exatamente algo importante.

De modo geral, essas revelações não acrescentam muita coisa à história de Lennon. E em termos de impacto, não chegam perto do estrago feito pelo livro de Goldman, o primeiro grande exercício de iconoclastia sobre Lennon.

Agora, resta apenas esperar dois eventos. O primeiro é a biografia monumental que Mark Lewinsohn está escrevendo — Lewinsohn é provavelmente o maior historiador dos Beatles, autor de um dos livros fundamentais sobre a banda, The Complete Beatles Recording. Talvez não traga grandes revelações, mas é provável que venha a ser a biografia definitiva sobre os Beatles, o único livro que alguém precisará ter para conhecer sua história. Pelo histórico de Lewinsohn, pode-se esperar acurácia histórica e abrangência factual, os mais importantes elementos desse tipo de biografia.

O segundo será a morte de Paul McCartney. Até agora, quem escreve uma biografia sobre McCartney tem que escolher entre o máximo de cuidado possível ou o acesso a fontes razoáveis. Além disso, ele é um homem poderoso, o que certamente intimida aqueles que querem explorar eventuais escândalos em sua vida, e dono de uma forte camada de teflon, que impede que a má fama grude a ele. No entanto, é possível imaginar a avalanche de livros escandalosos que surgirão a partir de sua morte, explorando fatos como ele ser extremamente mulherrengo, de não ter reconhecido alguns filhos, de ter sacaneado amigos e colaboradores.

Escritores sensacionalistas devem estar torcendo para que o velho e bom Macca morra logo.

Rafael Galvão, novamente redator de conselhos para bobos que acreditam em astrologia e em conselhos dados de graça

A moça dos serviços gerais trouxe mais uma Guia Astral — dessa vez graças à minha insistência, porque fiquei fascinado pelos conselhos de João Bidu e queria mais. E aqui, para amainar a minha inveja de seus redatores, vai mais uma rodada de conselhos rafaelianos para aqueles que crêem em astrologia:

SOU LOUCA PARA FAZER SEXO ANAL
O problema, Bidu, é que a dor me empata. Já tentei de tudo. Meu namorado é supercarinhoso e não consigo de forma alguma. Meu sonho é transar com três caras, mas como vou realizá-lo se não consigo fazer sexo anal?
K.

Cara K, eu tenho três conselhos possíveis para você. O primeiro é fazer a sua suruba aí com 3 japoneses. Vai doer menos, é o que reza a lenda. O segundo é você deixar de sonhar tão alto. Caia na orgia com dois, apenas. Comece de baixo. Deixe de ser tão gananciosa. Mas caso você insista em fazer sexo anal, vamos ao terceiro conselho. Em primeiro lugar, atenha-se à qualidade. Não aceite genéricos: nada de cuspe. Exija KY da melhor qualidade e da melhor safra. Além disso, já que não vai sobrar buraco nenhum vago e uma devassa prevenida vale por duas (por favor, não leve essa frase ao pé da letra, e não tente fazer sua bacanal aí com seis homens), tenha à mão um bom balão de oxigênio. Ou então arranje um homem, um homem só, que consiga apagar esse fogo imenso que você tem.

ELE SONHA QUE EU O TRAIO E FICA BRAVO
Sou de Áries, tenho um namorado de Sagitário e moro junto com ele. Às vezes, meu amor sonha que estou traindo ele, isso já aconteceu três vezes, mas nunca fiz isso. Nós nos damos muito bem, só que, quando tem esses pesadelos, fico com medo, parece que ele vai fazer alguma coisa comigo de tanta raiva que sente ao acordar. Bidu, o que você acha desses sonhos que ele tem? O que faço?
KATIANA

Seu sagitariano, Katyana, é um caso exemplar de corno por antecipação. É um tipo incomum, mas extremamente irritante. Acorda coçando a testa, vê traição em tudo quanto é lugar. Mas o verdadeiro problema dele não é ser um corno putativo, é ser um chato real. No seu lugar, eu tomaria providência: cairia na esbórnia e isso não mudaria nada, porque ele já acha que é corno, mesmo. Além do mais, você já foi punida com antecedência.

João Bidu, preciso de uma simpatia para o meu marido desejar ficar comigo, pois ele prefere a companhia de amigos. Você pode me ajudar?
R

Se ele prefere os amigos à mulher, o meu melhor conselho é que você arranje um marido heterossexual. Ou então ele não fica com os amigos, isso é só desculpa para cair na bandalha com aquele bando de vadias. E então é você que embagulhou e não vale mais a pena. Nesse caso eu recomendo não uma simpatia, mas uma temporada num spa e uns vídeos pornôs para ver se você aprende alguma coisa. Obnviamente, os conselhos acima só são válidos se eu tenho razão ao ficar apenas na putaria, botando a culpa no sujeito. Na verdade há outra possibilidade, talvez mais provável: ele não agüentar mais ficar perto de uma mulher extremamente chata que lê Guia Astral. Eu estou quase apostando nisso.

ME TROCOU POR UMA GAROTA DE PROGRAMA
Bidu, sou de Virgem e me envolvi com um garoto de Libra há um ano. A gente ficou um tempinho junto e ele queria algo sério, mas eu não quis. Quando esse garoto se afastou, me apaixonei, mas já estava tudo perdido. Ele começou a morar junto com uma outra garota que é prostituta. Tentei tê-lo de volta, mas ele me disse que, apesar de gostar de mim, não dá pra ficar comigo agora. Meu amor voltou a morar com os pais e continua namorando a outra. Nos fins de semana, quando ela vai executar sua profissão, a gente fica junto. Pra mim, isso não é suficiente e sei que estou me vulgarizando. O que faço para tê-lo de volta?
D.

Bem feito para você, D. Fez doce, fez doce, e agora virou estepe de puta. É por isso que eu sempre digo, minha filha: esnobismo demais não leva a lugar nenhum. O que você ganhou regulando aí essa mixaria? Também estranho o fato de você só passar a dar bola para o sujeito depois que ele parou de correr atrás de você. Tem gente que não consegue ser feliz. Tanta mulher aí reclamando de cafajestes que só querem mesmo é “curtir”, e você encontra um rapaz sério e manda pastar? Você merece, D, porque envergonha a classe das mulheres de 30 desesperadas alucinadas atrás de um homem para chamar de seu. Mas olhe o lado bom de tudo isso, D. O seu libriano é casado com uma profissional. Se mesmo assim ele ainda te dá uns pegas de vez em quando, é porque você está bem na fita.

RAPIDINHO
Sou casada há dois anos e namorei mais dois. Durante todo esse tempo, foram poucas as vezes que meu companheiro consegui transar mais do que dois minutos. Aí eu fico sempre “chupando o dedo”. Por que isso acontece? Tem cura?
CARMEN, Salvador – BA

Primeiro as más notícias, Carmen: seu marido vai ser assim para sempre. Agora as piores: você merece tudo isso. Me desculpe, Carminha, mas você não tem nenhum direito de reclamar, e tem mais é que aturar a sua sina calada. Namorou o galo aí durante dois anos e ainda casou com ele? Você sabia no que estava se metendo. Você não foi enganada. Não foram duas vezes ou duas semanas: foram dois anos de “vai ser bom, não foi?”. Agora agüente. Para sua sorte, esse seu suplício não dura muito. Só dois minutos.

O Lobo do Arrocha

A Época desta semana publicou uma matéria sobre o processo de recriação de peças em campanhas eleitorais. Ou seja, tentou explicar por que slogans como “Deixe o homem trabalhar” são reutilizados por várias campanhas diferentes.

Os marqueteiros entrevistados deram a única resposta possível: porque funcionam. É simples assim. Isso aqui não é o festival de Cannes e o voto não admite comerciais fantasmas. O que interessa é ganhar a eleição. Mais nada. E numa guerra é imbecilidade se recusar a usar um tipo de canhão porque outro exército já o utilizou.

A matéria não quer dizer muita coisa para quem acompanha programas eleitorais. Mas me fez lembrar da sina do Paulo Lobo.

Paulinho, para quem não sabe, é um dos grandes músicos sergipanos. É também um grande redator publicitário, um grande cronista e o maior jinglista que esta cidade já viu. Pode ser encontrado, violão a tiracolo, em seu escritório no Mineiro, um bar e restaurante agradabilíssimo defronte ao rio, na Coroa do Meio, ao lado de ícones e ídolos como o Cleomar Brandi e sua garrafa de conhaque.

A matéria me fez lembrar do Paulinho porque aqui também a gente fez uma música com o “deixa o homem trabalhar”. O Paulinho fez a música rapidinho. Só que em vez do forró tradicional, elegante e sofisticado imaginado pelo Paulinho, o Cauê deu a idéia de transformá-la num arrocha, o que foi feito num arranjo brilhante do Alegria com a voz do Tiago.

Você pode ouvir o arrocha do Paulinho no site de Edvaldo. Procura pelo “Jingle Arrocha”. (Aliás, todos os jingles nessa página são do Paulinho, com exceção do Jingle Forró, que é do Zinho.)

É esse Paulo Lobo, artista cônscio de sua responsabilidade na perpetuação da boa cultura brasileira, homem que fez uma das mais belas e intensas campanhas internas (com direito a cartaz e jingle) já vistas apenas para conseguir ir ao show de João Gilberto, que de repente se vê em meio a um sucesso absoluto de uma música sua que ele diz não gostar.

A música está tomando conta da cidade. Outro candidato, o Almeida Lima, gravou um jingle com Dominguinhos, em que o refrão diz “A, A, A…” Essa é a nossa resposta. É o nosso “A, A, A”. Aracaju inteira requebra ao som do arrocha e faz troça do pobre Almeidinha, que não pára de cair nas pesquisas, coitado.

Mas o Paulinho se sente incomodado por tanto sucesso. 30 anos de uma bela carreira, um sujeito respeitado e sério, e de repente é um arrocha que toma a cidade de assalto, um filho bastardo, safado, gigolô, vagabundo e maconheiro, e com um jeito meio esquisito.

Resta a mim dar um conselho ao Paulinho.

Pára com essa viadagem de ser músico sério, Paulinho. Coloca uma blusinha baby look, uma calça apertada e rasgada em lugares estratégicos, e arranja duas putas daquele tipo que se equilibra mal e mal entre o “gorda” e o “gostosa” para dançar ao seu lado no palco. Bota uma tiara no cabelo e deixa para trás essa vida sofisticada e boêmia, porque a voz do povo é a voz de Deus, e depois de ouvir esse arrocha o povo quer que você se transforme no Lobo do Arrocha.

Você vai ganhar um dinheiro danado, Paulinho. E me deixa ser seu empresário, por favor.

A minhoquinha do Galvão

O Carlos ficou magoado.

Veio parar num post em que coletei praticamente todas as ocorrências de pinto pequeno nas Alegrias do Google, e não deixou barato:

Ou, rafael galvão eu acho que vc tem também uma pequena minhoquinha, na foto aparece que vc é bem gordo ou seja uma jamanta que não da nem p/ver seu pinto. kkkkkk como tem coragem de expor ao ridiculo.

Ele ficou mesmo muito puto. E com razão. Deve ser muito chato, mesmo, procurar ajuda para algo que lhe incomoda muito e de repente se deparar com uma página onde alguém faz troça do seu problema. Pequeno, sim, mas ainda assim problema.

Eu posso ser cruel, Carlos, mas não sou injusto. Por isso pode fazer piada sobre pinto pequeno. Pode fazer piada com a minha minhoquinha. Fale o que quiser, que eu vou permitir. Talvez chore escondido, mas prometo agüentar estoicamente o seu deboche.

Mas piada de gordo, não. Aqui não pode.

A triste sina do cabra Manoel Duda, que em 1833 tentou estuprar a mulher do Xico Bento

PROVÍNCIA DE SERGIPE

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.

CONSIDERO:

QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregâncias, coisas que só ao marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;

QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;

QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO:

O cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa.

Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito da Villa de Porto da Folha, Sergipe, 15 de Outubro de 1833.