O triste fim do futebol brasileiro

A quase derrota do Brasil ante o Paraguai anteontem foi melancólica. Talvez mais melancólica para mim, que lembro de um Brasil e Paraguai em 1979 como um dos primeiros jogos da Seleção Brasileira a que assisti.

Mais melancólica, no entanto, foi a certeza de que o futebol brasileiro acabou.

Não é pelo 7 a 1, nem pelo futebol feio ao mesmo tempo que ineficaz que se tornou a marca de um time que um dia “jogou por música”. Esses são apenas sintomas tardios. O futebol brasileiro vive já há muito tempo uma lenta agonia, cujo fim parece ser a redundância irreversível do antes considerado o melhor futebol do mundo.

As pessoas buscam causas aqui e ali. Criticam a corrupção endêmica na CBF, a velhice tática dos técnicos, a mudança estrutural do próprio futebol. Claro que todas essas mazelas contribuem, e muito, para deteriorar essa situação. Mas nada disso é razão suficiente.

A CBF em 1982 não era mais honesta que em 2016 — a única diferença era de escala. As concepções táticas atuais dos técnicos não são tão diferentes das de suas contrapartes europeias. E embora tenhamos hoje a impressão desconfortável de que somos um cachorro velho que não aprende os novos truques que os outros cachorros aprenderam, quem acha que o futebol mudou a ponto de se tornar realmente diferente deveria assistir ao documentário “Isto é Pelé”. Nele o ex-namorado da Xuxa menciona, em 1974, como o futebol tinha mudado desde 1958: mais rápido, menos espaços, mais aplicação tática — exatamente o mesmo diagnóstico que se faz agora.

Se eu fosse procurar uma culpada para servir de bode expiatório seria a Lei Pelé. E é no mínimo irônico que uma lei que deu dignidade ao ofício de jogador, e que leva o nome do símbolo da melhor fase do ludopédio pátrio, esteja destruindo o futebol brasileiro.

Não é que ela seja intrinsecamente má. Quando se lembra que Garricha deixou de ganhar um aumento porque um dos cartolas do Botafogo não admitia que um jogador ganhasse mais que um engenheiro como ele, não há como se opor à lei. Mas seus efeitos colaterais foram perversos.

Ao tirar dos clubes o controle sobre os destinos dos jogadores, a Lei Pelé tornou inviável a criação de grandes times como os do passado. Não é apenas o fato de que clubes não investem mais em jogadores porque sabem que na temporada seguinte eles estarão em outro time; é porque não têm mais condições de garantir que um time permaneça o mesmo por mais de um ano, e se perdem no labirinto complexo de negociações e renegociações em que cada um leva uma fatia do dinheiro, às expensas do time. Um time como o Flamengo do início dos anos 80 não é mais possível.

E sem grandes times, estáveis, não há grande Seleção Brasileira.

Até os primeiros anos depois do início da debandada geral dos jogadores brasileiros para a Europa, cada escrete canarinho era baseada nos melhores times de sua época. Em 1982, por exemplo, eram o Flamengo e o São Paulo; em 1962 e 1970, o Botafogo e o Santos.

Eram jogadores acostumados a jogar juntos. Conheciam seus companheiros de time, sabiam o que podiam esperar de cada um deles. E também eram acostumados a jogar uns contra os outros, o que fazia com que também conhecessem seus estilos, suas características. Com bastante tempo de preparação e aclimatação na velha e boa Toca da Raposa, era relativamente fácil formar um time entrosado e eficiente.

Era isso que fazia o Brasil o dono do melhor futebol. Não era o número de Copas conquistadas: era a certeza de que se teria, mesmo na derrota, um futebol com personalidade e um mínimo de qualidade. Eram os tempos em que o pior Brasil era infinitamente superior ao melhor Paraguai.

Em 1990 a Seleção tinha se tornado uma versão esportiva da Legião Estrangeira; e apenas Careca e Alemão jogavam juntos, no Napoli. Já naquele ano dava para perceber a diferença de qualidade em relação às Copas anteriores. Mas ainda havia um tempo relativamente grande de concentração, e embora claramente decadente a coisa ainda se sustentava porque, bem ou mal, os jogadores eram formados no Brasil. Iam para a Europa tarde, normalmente depois de consagrados na Seleção.

A Lei Pelé, acompanhando a evolução do mercado, pegou esse estado de coisas e o tornou insustentável. Indo cada vez mais cedo para o exterior — há dezenas, centenas de jogadores brasileiros mundo afora que sequer chegaram a jogar profissionalmente no Brasil —, eles simplesmente não conhecem uns aos outros. Convocados, trazem estilos de jogo diferentes entre si, baseados no modelo europeu. Alie a isso o tempo cada vez mais exíguo de preparação, e então pode-se compreender o 7 a 1. É impossível montar um time realmente bom dessa forma. O resultado é a dependência enorme do talento individual de cada um — que, por sua vez, precisa do suporte do grupo para se realizar. Como esse tal de grupo mal existe, o resultado é um jogo como o de anteontem.

A tragédia estava anunciada há muito tempo.

Talvez haja uma possibilidade de recuperação. Se não pode nem deve revogar a Lei Pelé, a CBF poderia determinar que apenas jogadores que atuem no Brasil sejam convocados. Talvez isso pudesse forçar ao menos um adiamento da emigração; na pior das hipóteses, pode-se perder em talento, mas ganha-se em entrosamento e na redefinição de um estilo próprio, adequado aos novos tempos.

Pode até parecer uma solução radical, e talvez nem seja suficiente. Mas qualquer coisa é melhor que o modelo atual.

Infelizmente, essa solução não vai ser tomada. De qualquer forma, o problema real está nos mecanismos do mercado, e contra eles não há remédio. E por isso é possível sair pelo meio da rua bradando em desespero que o futebol brasileiro acabou, que o futuro lhe reserva apenas sua cada vez mais rápida decadência à irrelevância.

Quem nasceu entre o final dos anos 60 e início dos 70 cresceu sob a égide do tricampeonato, ainda ouvindo os ecos de um tempo em que Pelé e Garrincha assombravam o mundo. Mesmo passando 24 anos sem ganhar uma Copa, sabíamos que só nos revoltávamos com isso porque acreditávamos que estávamos muito acima do resto do futebol mundial; uma Copa era um direito natural do melhor futebol do mundo. Tínhamos consciência de quem éramos, e essa consciência nos definia.

Não nos define mais.

Oscars de Melhor Filme: quem ganhou, quem deveria ter ganhado e por quê

Um dia, 11 anos atrás, resolvi fazer uma lista boba de filmes que ganharam o Oscar, e quais deveriam ter vencido no seu lugar, se fosse o caso.

Resolvi atualizar a lista e acrescentar alguns comentários rápidos justificando as escolhas. Os critérios continuam os mesmos: eu estava limitado apenas aos indicados.

Nesses 11 anos, vi e revi vários filmes. E é engraçado perceber que minha opinião mudou bastante sobre alguns deles.

Acima de tudo, uma certeza se consolidou: o Oscar não quer dizer nada sobre o cinema, nem mesmo sobre o cinema americano. É apenas um barômetro da indústria cinematográfica americana, suas circunstâncias e idiossincrasias. Não tem nada a ver com arte. Olhando a lista, o que realmente impressiona é o tanto de filmes brilhantes, muitas vezes melhores que a esmagadora maioria dos indicados, que foram repetidamente esquecidos pela Academia: “Rastros de Ódio”, “Tempos Modernos”, “Cantando na Chuva”, “Um Corpo que Cai”, “2001”, “Rio Vermelho”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Luzes da Cidade”, “Psicose”, “Manhattan”, “Quanto Mais Quente Melhor”.

A lista segue abaixo.

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Uma pequena bibliografia dos Beatles – edição definitiva

Ao longo dos anos publiquei neste blog algumas versões de uma pequena lista de livros fundamentais para entender os Beatles. Com o lançamento de All Those Years: Tune In, a lista mudou mais uma vez. Esta deve ser a última.

All Those Years: Tune In
Mark Lewisohn
A mais aguardada na história das biografias dos Beatles é também a melhor e mais completa, talvez definitiva. Um trabalho hercúleo de pesquisa e de checagem de fatos, é infelizmente uma obra ainda em andamento: este é apenas o primeiro volume (com mais de 800 páginas, além de uma versão especial estendida, imensa, para colecionadores) de uma trilogia — os próximos volumes, imagino, se chamarão Turn On e Drop Out. Uma análise um pouco mais aprofundada do livro está aqui.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações pelo seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, o livro mais acurado que já se escreveu sobre elas. Imediatamente se tornou uma bíblia para os beatlemaníacos, o livro a que se recorria para dirimir dúvidas. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações que mostrou lacunas e erros no livro. Ainda assim ele continua sendo imprescindível para a compreensão rápida do dia-a-dia dos Beatles, e importante para que se entenda o processo que fez da banda a maior de todos os tempos.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado pouco depois do Complete Beatles Recordings, é basicamente um diário das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida do que no livro anterior, e também um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, canções tocadas ao longo dos anos, etc. Traz também bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) —, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, e certamente uma fonte inestimável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua própria história, a sua versão edulcorada e consolidada para a posteridade. Além disso é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso? Está disponível em português.

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko), e este é um relato de insider. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor: as chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas e ciumeira internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ler um só, é um daqueles necessários para que se tenha uma visão mais completa, menos romantizada da história da banda.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do “Notícias Populares”, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por virtualmente todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido — Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados, inclusive pela própria Yoko. É também um bom mergulho na personalidade complexa de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que o ídolo que ele tenta destruir aqui era uma mistura única e fascinante de carisma e talento gigantescos e uma personalidade singular e muitas vezes detestável. Se lido com atenção e cautela, é um livro importante. Um pouco mais sobre ele pode ser lido aqui.

Here, There and Everywhere
Geoff Emerick
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de Revolver, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu bem, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está nesta lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor que Martin o seu papel real na história, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir desnecessária e injustamente o ex-patrão.

Beatles Gear
Andy Babiuk
Uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação — indo do Zenith de McCartney e o violão “garantido contra rachaduras” de Lennon ao Moog usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender como se materializava a música dos Beatles, e principalmente a relação deles com seus instrumentos. Incidentalmente, é um dos livros que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente é um livro de Barry Miles, mas isso é apenas disfarce para uma autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. Mas é uma fonte primária, assim como o Anthology, de modo geral bem honesto, e apesar de tudo abrangente e bem detalhado, fundamental para a compreensão da história dos Fab Four.

You Never Give Me Your Money
Pete Doggett
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contra-processos posteriores. Cobre uma grande lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro compreende muito bem a evolução histórica dos Beatles, tem um excelente nível de imparcialidade e boa apreciação musical. Sua única grande falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livro importante para entender o processo de separação da banda. Foi lançado recentemente no Brasil.

Revolution In The Head
Ian McDonald
Deixei esse livro de lado nas versões anteriores desta lista porque, embora universalmente incensado, sempre me pareceu tendencioso e incompleto, com algumas teorias meio estranhas; o próprio McCartney esculhambou recentemente McDonald, basicamente dizendo que ele não sabia do que falava. Mudei de ideia porque percebi que essa era uma visão elitista: para a maior parte das pessoas, Revolution in the Head é fundamental para conhecer as canções, sua história e seus significados, além de quem toca o quê em cada canção.

***

Além dos livros acima, há uma série de livros importantes que não foram incluídos por interessarem mais a beatlemaníacos exagerados. Enquanto os volumes restantes do All These Years não chegam, Shout!, de Philip Norman, e The Beatles de Bob Spitz ainda são necessários (falei sobre eles nas versões anteriores desta lista). The Beatles, de Hunter Davies, foi a primeira biografia de verdade da banda, definiu a sua história oficial e foi a mais completa até o lançamento de Shout!. Mas não apenas é extremamente sanitizada como chega a insistir em mentiras deslavadas, como as verdadeiras razões pelas quais Lennon espancou Bob Wooler na festa de 21 anos de McCartney; seu valor é meramente histórico. Get Back: The Unauthorized Chronicle of the Beatles “Let It Be” Disaster, de Doug Sulpy, é bem interessante e vale a pena ser lido. A Cellarful of Noise, de Brian Epstein, é uma fonte primária, mas tão ou mais mentirosa quanto o livro de Davies; em termos de relatos em primeira pessoa, John, Paul, George, Ringo and Me: The Real Beatles Story, de Tony Barrow; With The Beatles, de Alistair Taylor; e até mesmo As Time Goes By, de Derek Taylor, são melhores. Lennon é objeto de uma série de biografias que dão um bom perfil do artista. John Lennon: The Life, também de Norman, é uma boa biografia, ainda que sem nada de realmente importante; The Last Days of John Lennon: A Personal Memoir, de Fred Seaman, baseado nos diários que o autor roubou de Lennon, é limitado no tempo, cobrindo apenas seu último ano e meio, mas muito bom e equilibrado; A Twist of Lennon e John, de Cynthia Lennon, são importantes, e John Lennon: In My Life, de Pete Shotton, é excelente. All You Need is Ears, de George Martin, merece ser lido, claro, mas é bem inferior ao que poderia ser. Há hoje em dia uma série de biografias de McCartney, como McCartney de Chris Salewickz, McCartney: A Life, de Peter Carlin Ames e Fab: An Intimate Life of Paul McCartney, de Howard Sounes mas todas soam incompletas; delas, a melhor é a de Sounes. Está prevista para este ano uma nova biografia escrita por Philip Norman; como ele detesta seu biografado talvez traga algo realmente novo, mas é difícil. O mais provável é que, até que McCartney morra, dificilmente veremos uma biografia de qualidade, profunda e equilibrada como a de Peter Guralnick sobre Elvis Presley. Além disso, faltam boas biografias sobre George Harrison e Ringo Starr — no caso de Harrison, não custa ler sua autobiografia, I Me Mine. Finalmente, Recording the Beatles: The Studio Equipment and Techniques Used to Create Their Classic Albums, de Kevin Ryan e Brian Kehew, é um livro fascinante que, infelizmente, ainda não li: custa 450 dólares. Mas parece ser inestimável, e mesmo sem ler eu teria colocado na lista acima se não fosse excessivamente técnico.

 

Chatô – O Rei do Brasil

Eu não tenho nenhuma dúvida de que a maior surpresa cinematográfica que poderia ter em 2016 foi “Chatô — o Rei do Brasil”, o filme-odisseia de Guilherme Fontes que demorou 20 anos para ficar pronto.

A trajetória peripatética de “Chatô” é tão longa que é fácil perder de vista a sequência dos acontecimentos, e fazê-la maior que o próprio filme. Para que se tenha uma ideia do que aconteceu, pode-se ler a entrevista que Guilherme Fontes deu à revista Trip ano passado, no início do processo de finalização e divulgação do filme, em que conta a sua versão dos fatos. Ali parece estar um bom resumo desses 20 anos.

Ao que tudo indica, a entrevista à Trip deveria servir para, além de preparar o terreno para o lançamento do filme, limpar a imagem de Fontes; a mim, pelo menos, o cineasta passou a impressão de um megalomaníaco inveterado e de um sujeito que torce a verdade de acordo com uma visão toda própria do mundo. A todos nós que já tínhamos esquecido dessa história, a entrevista serviu também para reacender os medos sobre a qualidade artística do filme.

Um trailer semi-acabado divulgado no início do ano passado aumentou o pessimismo. Era muito, muito ruim. “Chatô” parecia, ali, reeditar todos os defeitos e vícios do cinema nacional: a alegoria inconsequente, a chacota patropi, a caricatura do personagem principal. Eu estava entre os que tinham certeza de que o filme seria uma grande, monumental tragédia.

Por isso a surpresa ao assistir “Chatô”, que depois de um lançamento modesto em algumas praças foi vendido rapidamente para o Netflix, no que parece ter sido um movimento acertado. Porque o filme que eu esperava que fosse uma tragédia medíocre é decente, digno, quase bom.

Em um aspecto, ao menos, ele está um ponto acima da média do cinema nacional atual: tem uma ambição estética que falta a grande parte dos filmes que chegam ao circuito comercial. Está longe, felizmente, da estética de novela das 8 de parte significativa da produção atual; mas recorre a fórmulas antigas e batidas como o julgamento do moribundo, usa a chanchada como principal referencial estético, igual a algumas dezenas de filmes antes dele, e de certa forma está firmemente ancorado nos anos 70, com a qual parece compartilhar a mesma visão niilista e elitista de um Brasil simultaneamente incurável e exuberante.

Mas o recurso da alegoria, que no trailer me pareceu temerária, salvou “Chatô” do destino medíocre de “Mauá, o Imperador e o Rei”, de Sergio Rezende, que ao tentar contar uma biografia vasta de maneira linear acabou se resumindo a uma costura rasa e mal feita  de episódios esparsos. Ainda que não seja excelente, “Chatô” é cinema, e um filme digno. Tem uma unidade que seria difícil de conseguir de outra forma; e certamente é melhor que a maior parte das comédias de situação que a Globo Filmes emplaca nos Cinemarks da vida.

Infelizmente o filme tem defeitos demais para que seja aclamado como a obra-prima que seus autores apregoam. O principal deles está na abordagem do seu protagonista. O Assis Chateaubriand que resulta da alegoria é unidimensional, pouco mais que uma caricatura, ainda que macunaímica. É impossível compreender a grandeza não apenas do personagem, mas do seu papel histórico em um momento de consolidação de um projeto de nação. Não são apenas as relações entre imprensa e poder que nos são apresentadas de maneira rasteira. A TV Tupi acaba sendo introduzida como pouco mais que uma arapuca para tomar dinheiro de anunciantes; vemos a epopeia da fundação do MASP como basicamente um leilão para satisfazer o ego de Chatô.

Esse é o grande problema do filme: somos apresentados não a Assis Chateaubriand, mas a um reflexo insuficiente e distorcido dele. Este filme não lida com sutilezas; e alguém que não conheça a sua história talvez desligue a TV se perguntando como diabos aquele sujeito ficou tão famoso e poderoso. “Chatô” não oferece essas respostas.

Talvez isso se deva ao fato de que a visão da política brasileira apresentada ali é pueril, simplória, e acaba refletindo um pouco aquela coisa já cansada do país vira-lata. Ao filme falta a necessária densidade de pensamento para compreender o papel de Chateaubriand na história do país. Talvez seja também por isso o recurso à farsa, o equivalente cinematográfico à pizza política; se não dá para explicar, vamos fazer uma piada. O resultado não é exatamente ruim; mas define bem os limites a que o filme pode chegar.

Apesar do sotaque, Marco Ricca está excelente como Assis Chateaubriand — e um roteiro mais denso poderia extrair uma atuação excelente (o mesmo, curiosamente, não pode ser dito dos atores que falam um inglês tosco).

No fim das contas, “Chatô” cumpre duas grandes missões. A primeira é dar, com dignidade, um fim à maior novela de produção da história do cinema brasileiro; não é à toa que Fontes vem falando em fazer um novo filme, agora sobre as aventuras dessa produção. A segunda é deixar o espectador que se interessa pela história com um gostinho de quero mais. Mas não será o cinema a dar essa resposta.

No final dos anos 90, a TV ainda não havia passado pela revolução criativa que das séries dos canais por assinatura americanos. Um filme de cerca de duas horas talvez parecesse, portanto, a única forma de contar com alguma qualidade as aventuras e desventuras de Assis Chateaubriand contadas por Fernando Morais. Hoje, a TV é o meio mais adequado para narrar essa história.

Sir George Martin

O que mais chama a atenção nos obituários de George Martin publicados hoje são uma omissão insignificante e a maneira como insistem em uma mentira que, de tão repetida, foi verdade durante muito tempo.

A mentira está até mesmo na matéria do New York Times, assinada por um sujeito que realmente entende do assunto, Allan Kozinn. Ele começa repetindo essa história falsa, chamando o recém-finado de “the urbane English record producer who signed the Beatles to a recording contract on the small Parlophone label after every other British record company had turned them down”. É uma narrativa que vem dos tempos em que a máquina promocional de Brian Epstein e Derek Taylor consolidava a história oficial da banda.

A verdade é que Martin não contratou ninguém: os Beatles lhe foram impostos pela Parlophone. Felizmente Kozinn corrige o erro do parágrafo inicial mais adiante, narrando corretamente os fatos e esquecendo apenas de mencionar a verdadeira razão da contratação. Mas os outros jornais e sites continuam repetindo o mito do George Martin que apostou nos Beatles quando todo mundo lhes voltava as costas.

Em 1962 Martin estava com sérios problemas pessoais. Seu casamento estava naufragando e ele mantinha um caso com sua secretária, Judy, com quem ficaria casado até ontem. Embora responsável pelo A&R da Parlophone, as complicações decorrentes dessa situação familiar não lhe permitiam elevar muito a voz em questões do tipo.

Em The Complete Beatles Recording Sessions, de 1988, Mark Lewinsohn já tinha apontado a discrepância entre os documentos existentes e a versão oficial: o contrato dos Beatles fora assinado no dia 4 de junho de 1962, dois dias antes da famosa primeira audição. Na época ele imaginou que fosse um erro de datilografia. Mas há alguns anos, no primeiro volume de All Those Years, sua biografia definitiva da banda, Lewisohn juntou os dados que faltavam e mostrou que não foi erro: apesar do que Martin repetiria até a morte, ele não desempenhou absolutamente nenhum papel na contratação da banda.

A contratação teve relativamente pouco a ver com as qualidades musicais dos Beatles: Brian Epstein era um dos principais revendedores de discos do norte da Inglaterra, e jogou seu peso comercial para conseguir o contrato. Martin sequer julgou necessário estar presente à tal primeira audição, no dia 6 de junho, mandando seu assistente em seu lugar. O assistente gostou do que ouviu e insistiu para que ele fosse até lá; incidentalmente, isso selou o destino do baterista Pete Best, pobre Pete Best.

Ao longo dos anos, o papel de George Martin na trajetória da banda foi inflado injustamente; ele jamais seria o “quinto beatle”, como querem agora os obituários, porque não existe essa figura. Os Beatles sempre se viram como uma unidade monolítica diante do resto do mundo, o “monstro de quatro cabeças” como dizia Mick Jagger; e quando Lennon mudou de ideia e quis empurrar um certo niguiri goelas dos outros abaixo, a casa caiu.

Além disso, às vezes se tem a impressão de que os Beatles eram apenas a mão de obra que realizava as ideias de Martin; sobre isso eu já escrevi há muito tempo, aqui.

Nada disso tira os méritos e a importância de George Martin na história dos Beatles.

Ele foi o homem ideal para uma banda excepcional. Compreendeu como poucos o verdadeiro papel de um produtor: tirar o melhor possível de um artista, valorizando sem modificar a sua música. Um sujeito mais autocrático e com ideias próprias de como os outros devem soar, como Phil Spector, poderia ter destruído aqueles Beatles ainda verdes no estúdio. Ao contrario, respeitando a banda Martin possibilitou que ela florescesse. Soube sair do seu caminho, e estar presente quando a banda precisava. Também conseguiu adaptar seu papel de acordo com a evolução dos Beatles: serviu como guia nos primeiros tempos, e mais tarde, diante de um grupo cada vez mais ambicioso e inovador, consciente de suas possibilidades, deu materialidade a suas ideias. Talvez isso se deva mais ao talento absurdo e à força comercial dos Beatles do que às qualidades de Martin; o que importa, mesmo, é que a foto que ilustra este post (tirada em 1969, nas sessões do Abbey Road) mostra uma cena impensável antes de 1965.

O lugar de George Martin na história da música pop está assegurado há muito tempo. Talvez por isso tenha passado batido uma omissão curiosa nesses obituários: foi Martin quem definiu o som definitivo das canções de abertura dos filmes de James Bond, ao realizar a gravação magistral de Goldfinger com Shirley Bassey para “007 Contra Goldfinger”. É um detalhe bobo, uma nota de rodapé sem importância de que ninguém parece lembrar.

E enquanto ouço pelo milionésima vez A Day in the Life, acho que sei por quê.