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Abercrombie, Fitch e os idiotas

Uma campanha diferente foi deflagrada semana passada no Brasil, seguindo os moldes de campanha semelhante nos Estados Unidos. É uma resposta à declaração de Mike Jeffries, dono da marca Abercrombie & Fitch, de que não faz roupas para gordos porque quer apenas gente descolada e invejável usando seu produto.

Para mostrar o quão inadequadas as pessoas consideraram essas declarações, grupos nos EUA e aqui resolveram doar roupas da marca para mendigos, em protesto à discriminação e ao preconceito de Jeffries.

Essa campanha é uma das coisas mais idiotas e hipócritas que vi em muito tempo, e é prova cabal da imbecilidade generalizada neste início de século.

Seu problema central é que a Abercrombie & Fitch tem o direito de focar seu produto no target que quiser. Se não quer vender para gordos, problema dela. Mas ela só faz isso — abdicar de um nicho em crescimento rápido e constante — porque funciona, porque é assim que o rebanho age: ele está disposto a pagar um ágio bem razoável por uma simples imagem, e nada mais que isso.

O erro do dono da Abercrombie não foi ser canalha — até porque não fazer roupa para gordos não é canalhice, é opção de mercado, assim como não é canalhice da Chanel não fazer roupas para pobres. Seu erro foi explicar a lógica do que faz. Numa sociedade cada vez mais hipócrita, que transforma uma alucinada como a Angelina Jolie em heroína, você pode fazer o que quiser, desde que não assuma publicamente.

A Abercrombie & Fitch não é uma grife de preços excessivamente exorbitantes. Segundo dizem, suas camisas custam em torno de 80 reais. São caras para o que realmente valem, mas não são inacessíveis (parece ser, por exemplo, a marca preferida do bom Nissim Ourfali — que é magro). É uma roupa para a classe média metida a besta. Mas isso é o beabá da propaganda: posicione bem o seu produto, faça-o parecer melhor do que é, e eles virão até você.

O posicionamento da Abercrombie & Fitch é válido do ponto de vista do mercado. Funciona porque entende o comportamento da humanidade. Mas as mesmas pessoas que compram, ou gostariam de comprar, suas roupas por serem pretensamente elitistas não admitem que ela assuma sua postura, porque isso as forçaria a admitir que esses também são os seus valores.

Em vez de protestar, as pessoas deviam era procurar entender o que faz a marca se posicionar dessa forma, esnobando a legião de gordinhos que atravancam as filas do McDonald’s, e entender o que as faz desejar uma camiseta comum com uns retalhos costurados em cima. Mas é difícil que façam, porque não iam gostar muito das conclusões. Assim como Mike Jeffries, elas também querem roupas que não sirvam em gordos e que façam delas, automaticamente, pessoas mais “cool” do que jamais conseguiriam ser sem ajuda. É por isso que tem coisas na vida que a gente simplesmente não deve falar: este é um século que recompensa a hipocrisia e pune a honestidade.

Mas é a campanha em si, nascida nos EUA, que me incomoda — ao resto já estou me acostumando, anos exposto ao Facebook me acostumaram a esse macaquear impostor. Me incomoda não apenas porque esse pessoal não passa muito de um bando de idiotas fúteis que se mobiliza para brigar com uma marca direcionada a gente que se pretende bonita, magra e rica e, portanto, ignorada pela grande maioria da humanidade. Mas porque a própria ação é ainda mais elitista que a Abercrombie & Fitch.

O foco aqui não é o bem-estar desse pessoal que está no extremo oposto do público-alvo da marca: é só protestar contra o posicionamento assumido por ela, diminuindo seu valor ao associá-la a mendigos. O recado é simples: “Vocês não são ‘cool’ porque mendigos vestem suas camisas. Mendigos, ora. E isso me faz mais ‘cool’ que vocês”

Pelo preço que se compra uma camisa da Abercrombie & Fitch o sujeito que está fazendo essa campanha poderia comprar alguns cobertores para proteger os mendigos paulistanos no frio que se aproxima. Era isso que o faria melhor que o Mike Jefrries, não um protesto que humilha seres humanos destituídos, utilizando-os apenas para desvalorizar uma marca de roupas.

Isso é o mais triste nesse protesto: esses assim chamados militantes, com sua “ira justa” de classe média estultificada, dão mais valor à marca que à dignidade das pessoas. Mas quem está preocupado com eles? Mendigos não são tão importantes quanto uma marca que não gosta de gordos, nem quanto a mídia gratuita que se pode conseguir às suas custas. Mas pelo menos agora eles dormem na rua vestindo uma camisa da Abercrombie & Fitch.

O século XXI

O século XXI é isso: o arroz simples que você comeu a vida inteira, que milhões de brasileiros e brasileiras cozinham todos os dias sem sequer pensar no assunto, que sempre foi era a parte mais fácil do almoço, agora se chama pilaf e tem história, tem um contexto, e se sofisticou para continuar sendo, no fundo, a mesma coisa.

As espetaculares oportunidades aracnídeas desperdiçadas

Só o Homem-Aranha para me tirar da minha aposentadoria como frequentador de cinemas.

Acho que todo mundo que escreve sobre filmes de super-heróis deveria lembrar de uma coisa antes: eles estão aí há já quase um século, e fazem parte do imaginário das pessoas de maneiras mais profundas do que se imagina. Personagens como Bruce Wayne, Peter Parker ou Mary Jane Watson são mais familiares à maioria da humanidade do que nomes como Bazarov, De Rubempré, Vronski ou Murdstone. No entanto, se ninguém em sã consciência respeitaria um filme em que o sr. Pickwick se tornasse parte de algo como a Liga Extraordinária, ou que transformasse Julien Sorel em um super-herói atlético, parecem aceitar as barbaridades que se faz com as histórias dos personagens.

Resumindo a história original em algumas linhas: o secundarista Peter Parker é uma dessas vítimas preferenciais de bullying que é picado por uma aranha radioativa e, em vez de câncer, desenvolve superpoderes. Ao deixar escapar um bandido que posteriormente mata seu tio, ele descobre que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Passa a atuar como um vigilante uniformizado, combatendo principalmente supervilões como o Abutre e Duende Verde enquanto tira fotos de si mesmo para um jornal chamado Clarim Diário, onde tem um rápido namoro com Betty Brant. Parker entra na universidade, onde conhece Gwen Stacy, que virá a ser sua namorada, Mary Jane Watson e Harry Osborn, seu futuro melhor amigo. Harry é filho do Duende Verde, que causa a morte de Gwen Stacy e morre em seguida. Parker então começa a namorar Mary Jane, com quem posteriormente se casa, até que os editores percebam a grande cagada que é casar um herói e desfaçam tudo.

Basicamente, essa foi a história do Aranha durante 50 anos. O que faz produtores de cinema quererem mudá-la é um mistério para mim. Não apenas por causa do seu tempo de serviço; mas porque esse é um excelente argumento, que pode ser desenvolvido de maneiras fascinantes.

Por exemplo, eu faria uma trilogia diferente (alguém um dia pode me explicar por que Hollywood desenvolveu essa tara em trilogias? Eu não consigo achar explicações razoáveis). Filme 1: Conhecemos Peter Parker, o babaca. Vítima eterna dos colegas, desprezado pelas meninas — com exceção de Liz Allan, o que ele não percebe. Parker é picado por uma aranha, tenta ganhar a vida como lutador, mas deixa escapar o bandido que mata seu tio. Vira herói e aparece então seu primeiro grande inimigo, o Abutre (na verdade o primeiro vilão do Aranha foi o Camaleão, mas ele não daria um personagem adequado ao cinema). Parker começa a tirar fotos de si mesmo para ajudar a sustentar a casa, que vende para o Clarim Diário, onde conhece não apenas J. J. Jameson — cujo filho salva e, por isso, ganha sua inimizade eterna –, mas também Betty Brant, com quem passa a ter uma relação complicada — e estabelece um pequeno triângulo confuso com Liz Allan. O filme termina com o Aranha derrotando o Abutre, mas perdendo suas mulheres. Porque o Aranha sempre se ferra no final.

Filme 2: Parker entra na faculdade. Conhece Gwen Stacy e Harry Osborn, e também Mary Jane Watson. Muita tensão sexual entre Parker e Stacy, mal resolvida. Aparece um novo vilão, o dr. Octopus. Tia May adoece, Parker se vira para tratá-la, a vida se torna um inferno. Jameson consegue fazer com que o Aranha seja procurado pela polícia. Parker finalmente começa a namorar Gwen Stacy, mas logo depois seu pai (que já tinha deduzido a identidade secreta de Parker) morre ao salvar uma criança durante uma luta entre o Aranha e o Octopus. Ele pede para que Parker cuide de Gwen, mas ela agora tem horror ao Aranha, complicando a vida do nosso herói. Ah, sim: no final o Aranha derrota o Octopus, mas eis que surge um tal de Duende Verde. Porque o Aranha sempre se ferra no final.

Filme 3: esse seria o filme “montanha russa”, em que a base delineada no filme anterior teria como cobertura uma ação assustadora. Agora o Duende Verde se torna um grande problema para o Aranha, que mora com Harry Osborn. O namoro com Gwen fica cada vez mais complicado. Parker enfrenta novos vilões (à escolha do freguês: pode ser o Kraven, pode ser o Rei do Crime ou o Electro, mas eu recomendaria muito o Escorpião). Depois de derrotá-los, eis que reaparece o Duende e mata Gwen Stacy. Ele morre num confronto com o Aranha, que termina o filme de maneira bem filosófica no Empire State. Sabe como é: o Aranha sempre se ferra no final.

Digam o que quiserem: eu gosto mais da minha trilogia do que dos filmes do Aranha feitos até agora. O engraçado é que esses filmes não mudam quase nada em relação à história tradicional dos personagens; são basicamente os dez primeiros anos das revistas do Aranha condensados em seis horas. Infelizmente, essa nova trilogia só existe na minha cabeça, e o que eu queria comentar mesmo era esse filme novo do Aranha.

Não é possível assistir a “O Espetacular Homem-Aranha” sem compará-lo à trilogia de Sam Raimi. Junto com os dois primeiros Supermen, de 1978 e 1980, o “Homem-Aranha 2″ é o melhor filme de super-heróis já feito, e mesmo os defeitos que tinha foram herdados do filme inicial: erraram ao colocar Mary Jane na história desde o começo — e ainda por cima escolheram a Mary Jane errada. A decisão de utilizar uma teia orgânica gerou um comentário excelente do Henrique Plácido aqui neste blog: “Se é pra ser anatomicamente correto, ele tinha que soltar teia do cu”. Robbie Robertson era interpretado pelo ator errado, assim como ambos os Osborns, e o uniforme do Duende Verde parecia contrabandeado de um episódio dos Power Rangers. Mas o resto foi excelente. De J. J. Jameson à tia May, o elenco era perfeitamente adequado — Alfred Molina como o Dr. Octopus é inesquecível. Além disso, o filme mostrava o máximo possível de respeito ao uniforme original, em um tempo em que virtualmente nenhum uniforme é deixado intacto — olha o Batman aí, que depois de 7 filmes ainda não aprendeu a fazer seu uniforme.

Nessa comparação é fácil perceber que “O Espetacular Homem-Aranha” acaba sendo um filme contraditório. De um lado, umas poucas melhorias bem vindas; do outro, um amontoado de boas oportunidades perdidas, com boas ideias sendo jogadas fora por um roteiro que, se não é ruim, não amarra todas as pontas.

A principal melhoria está nos efeitos especiais. 10 anos fazem muita diferença, e hoje eles estão próximos à perfeição. O resultado é fluido, realístico. O elenco é surpreendentemente bom, e Andrew Garfield é uma excelente surpresa, apesar da estranheza inicial causada por sua carinha enjoada de menino punk punheteiro viciado em Rivotril, adequado ao público de “Crepúsculo”. Seu desempenho impressiona porque, ao contrário que agora andam dizendo, Tobey McGuire foi um excelente Peter Parker. Mais otário até do que o Parker original, McGuire resgatava o seu espírito, aquele dos estertores extemporâneos da década de 50 — o sujeito que enquanto vencia grandes vilões não conseguia levar a namorada para um jantar. No entanto também transmitia uma certa passividade; Garfield transmite melhor a angústia e as contradições da adolescência e de um personagem dividido, dando nova vida ao personagem e iluminando facetas que andavam meio esquecidas.

Martin Sheen está adequado ao papel do tio Ben, embora um ator menos famoso fosse mais recomendável. Mas nem a pau que a Noviça Voadora pode ser a tia de Parker: Sally Field como tia May é uma escolha tão ruim quanto Kirsten Dunst para Mary Jane, talvez pior. Quanto ao capitão Stacy, o fato é que durante anos, desde que se começou a falar em um filme do Aranha, aí por 1990, eu tinha meus favoritos para o papel. Primeiro Ralph Bellamy, então ainda vivo; depois James Cromwell com sua altivez patrícia, ainda hoje minha opção preferencial para o papel. Mas Dennis Leary não faz feio como o personagem. Rhys Ifans, um excelente ator, está bem como o dr. Curt Connors. O único problema é que destruíram o personagem, ao tirar dele a mulher e o filho, o que possibilitava conflitos entre o reptiliano e o humano que davam grandeza e importância ao Lagarto.

Levar Parker de volta para a escola secundária foi uma escolha acertada, porque possibilita uma série de conflitos bem adequados ao público-alvo. No entanto é mal aproveitada, e o resultado é que tudo é excessivamente superficial. Parker sempre foi mais importante que o Aranha, e se compreendessem melhor isso poderiam evitar absurdos como a transformação de Flash Thompson em amiguinho do peito sem nenhuma explicação. Esse é o tipo de coisa que dá para fazer rapidamente: nas revistas, por exemplo, Parker e Harry Osborn vencem a antipatia inicial e se tornam amigos em exatamente cinco quadros. Se o filme não consegue fazer algo semelhante, é por pura incompetência.

O uniforme sofreu uma modernização desnecessária e, o pior, inadequada. E isso vai ser sempre incompreensível para mim. Eu entendo que algumas modificações — em nome principalmente das características técnicas do meio — geralmente são necessárias; daí porque a teia no uniforme do Aranha de Raimi mudou de cor e ganhou relevo. Mas Batman: Dead End provou há muito tempo que é possível, sim, fazer um filme de ação respeitando o uniforme dos personagens. Isso talvez não incomode a maioria dos espectadores: mas incomoda aqueles que, como eu, estão às voltas com o personagem há tempo demais.

Mas o grande equívoco de “O Espetacular Homem-Aranha” é a maneira como trataram Gwen Stacy.

Gwen é um personagem que morreu há 40 anos, no que é uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Sua ignorância a respeito da outra identidade do namorado gerou situações dramáticas interessantes que carregaram as histórias do Aranha durante alguns anos. No entanto, no filme ela não apenas conhece a identidade secreta o Homem-Aranha, como ainda o ajuda. No fim das contas, o filme a trata como os quadrinhos trataram Mary Jane depois de casada. É um desperdício enorme, quase vergonhoso, porque as possibilidades dramáticas, especialmente quando se faz um filme voltado para o público adolescente, são enormes. Dizem que isso foi feito para aproximar o filme de uma série alternativa do Aranha, a “Ultimate”. Pois é. Deve ser.

No fim das contas, O novo filme do Aranha equivale ao primeiro filme, lançado dez anos atrás, embora com erros e acertos diferentes e perdendo a vantagem da novidade. Um filme razoável, com erros e acertos, nada mais que isso. Como aliás é uma boa história em quadrinhos.

Post para a Lucia Malla

O tubarão cabeça-chata é comum em todo o Brasil, em especial na costa nordestina, e mais especificamente no Ceará. Mede até 3 metros e meio e sua dieta é composta principalmente de surfistas pernambucanos. É considerada uma espécie alegre e amigável, e tem mania de contar piadas. Se ameaçado, costuma reagir com um “arre égua, macho!”.

Sobre esse pessoal que só gosta de matinho

Eu não gosto de militantes vegetarianos. Me dão preguiça, sempre deram. Mas de uns tempos para cá começam a incomodar.

A minha preguiça era principalmente estética, e obviamente não se aplica apenas aos militantes. Eu realmente não consigo compreender o que leva uma pessoa em sã consciência a abjurar o sabor do sangue que escorre de uma picanha mal passada, ou aquele fenômeno da natureza comparável à aurora boreal: aquilo que chamam de marmorização da carne de vitela. O bichinho, coitado, vai morrer de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde; que seja para vir parar na minha barriga. Eu sinceramente acho a vida dos vegetarianos mais pobre, e tenho pena deles por isso. É como se faltasse algo — uma costela, por exemplo. Vegetarianismo, para mim, não é consciência: é deformação de caráter.

Mas os militantes, aqueles que fazem de sua vida uma pregação constante, estão passando a me irritar. Talvez porque adquiriram mais e mais visibilidade; talvez porque, como acontece com virtualmente todo movimento, à medida que esse negócio de comer só mato vai se espalhando como metástase e tendo suas ideias mais aceitas, vai desenvolvendo também um certo tipo de proselitismo fundamentalista, uma certeza puritana de que só eles estão certos e que é dever sagrado de cada um levar a Boa Nova aos gentios, salvar o mundo dos meus pecados.

É basicamente a mesma certeza bovina de evangélicos e antitabagistas, sonhando com um mundo chato, sem sabor. A diferença está na aceitação e, principalmente, na composição social. Porque eu, pelo menos, não conheço vegetariano pobre: são sempre de classe média ou ricos. Não é à toa que esse negócio é mais forte na Europa, especialmente na sede do antigo Império Britânico. Vegetarianismo e suas variações são perversões de sociedade rica e autocomplacente, que acha que alimentos nascem em sacos de papel alumínio e que supermercados são chocadeiras de ovos orgânicos. Pobre — e aqui incluo a nova classe C — não pode se dar a esse luxo; precisa antes passar ao nível de comer aquilo que os vegetarianos, de barriga cheia, desprezam. Imagine o sujeito que mora no sertão do Piauí se dando ao desfrute de dispensar um bife de alcatra. Seria linchado pelos seus conterrâneos, e com razão.

Essas coisas — e as roupas feitas de fibras naturais, cultivadas no estilo príncipe Charles, em que se fala carinhosa e às vezes até libidinosamente com as plantas — são coisas de rico porque, se não fosse tudo isso a que esse pessoal hoje pode se dar ao luxo de virar as costas, a galinha de granja, a soja transgênica, mesmo os agrotóxicos que possibilitaram os aumentos constantes de safras e de áreas cultivadas, ao mesmo tempo em que barateavam os preços, a profecia de Malthus se teria cumprido já há algum tempo.

Que Deus abençoe as granjas e os frangos criados nelas. Antes delas, o Barão de Itararé dizia que quando pobre comia frango, um dos dois estava doente. Ou seja: foi esse frango criado em condições aparentemente desumanas, repleto de hormônios para que possa ser abatido o quanto antes, que possibilitou a inversão desse estado deletério das coisas. Sem isso, sem esse ganho de escala, frango continuaria sendo iguaria para poucos.

Talvez seja verdade o que dizem, que esses frangos fazem mal à saúde em longo prazo. Mas, se fazem, eu sou capaz de apostar que os pobres que hoje comem seu franguinho ensopado vão morrer mais felizes daqui a uns 30 anos do que aqueles que só tinham farinha e, eventualmente, jabá de jumento para comer e morreriam depois de amanhã.

Os militantes europeus que protestavam contra a soja transgênica no Brasil (num momento em que virtualmente todos os grandes produtores brasileiros já tinham aderido a ela, a propósito, e o processo já era irreversível) não ligam em subsidiar a sua agricultura cara e ineficiente em detrimento da agricultura dos países do terceiro mundo. São aqueles que podem dar mais de 25 euros num quilo de filé mignon (é o Allan quem me faz o favor de informar, e a ele sou eternamente grato; também me diz que a carne italiana não tem lá muito gosto, e minha admiração pela bota diminui um pouquinho). São os pobres coitados que, com paladar embotado e sustentados pela certeza messiânica de estarem sendo superiores à humanidade animalesca, já não sabem a diferença entre acém e filé mignon.

Dentre as perversões desse pessoal, uma em especial é curiosa: uma tendência tatibitate ao antropomorfismo, agregando emoções e qualidades humanas a animais, e tentando nos fazer crer que somos todos iguais, nós e os bichinhos. Vi há algum tempo uma dessas imagens de Facebook em que havia dois gráficos: uma com um desenho de um homem acima dos outros animais, outra com o homem no mesmo nível e uma pergunta, algo tipo “Dá para entender agora”?

É essa arrogância que é irritante (a única arrogância que toleramos é a nossa, afinal). Porque não é que a gente não entenda a maneira como eles pensam. A gente entende. Só que acha uma grande imbecilidade. É muito triste ter que dizer a um adulto que não, nós não somos iguais aos outros animais desde o momento em que amarramos uma lasca de sílex a um pedaço de pau, e passamos a transformar o mundo em que vivemos, em vez de apenas nos adaptarmos. Não é só uma questão de desejo. Ou melhor: somos diferentes desde a hora em que aprendemos a fazer fogo e cozinhamos a carne de um bichinho fofinho como um mamute para que ela ficasse mais macia.

Essa “superioridade” nos obriga a concessões, claro. Não se trata aqui de continuar a defender aquele modelo de consumo que viabilizou a evolução econômica do mundo e levou mais qualidade de vida para cada vez mais pessoas. O processo civilizatório custou caro ao planeta, claro; mas a questão não é voltar as costas a tudo isso, é saber como garantir essas conquistas. É saber se o mundo pode pagar de maneira permanente esses custos, e garantir as condições para isso.

***

Há algumas semanas vi uma coisa no Facebook que me deixou meio bobo, meio descrente: o germe de uma campanha em prol da construção de um hospital veterinário público. É a classe média, velha e nova, sentindo o peso da ração e das vacinas no orçamento familiar. (Não duvido que daqui a pouco venham a pedir que as farmácias populares deem ração de graça.)

A saúde pública tem problemas muito graves: de gestão, de profissionais e de dinheiro. Vem melhorando nos últimos anos, universalizando-se aos poucos; mas só um gestor irresponsável e canalha teria a pachorra de dizer que ela funciona a contento. No entanto um grupo de gente doida acha que a situação dos cachorrinhos de madame e dos gatos que pouco a pouco vão se tornando os animais de estimação preferenciais de um mundo fragmentado, substituindo aos poucos as relações humanas, deve merecer a mesma atenção.

Eu gostaria de acreditar que esse pessoal que pede a um Estado problemático — que não consegue garantir saúde para todos os seus cidadãos — dinheiro para um hospital veterinário público jamais foi aos corredores de um pronto-socorro público de grande porte. Mas já há algum tempo acho que não faz diferença. Que é uma questão simples: é gente mais preocupada com os bichos bonitinhos que criam do que com pobres malcheirosos gemendo numa maca, no corredor de um hospital.

O que me assustou foi a tentativa de mobilização, a ideia imbecil de pressionar o Estado para que ele cuide dos seus poodles e yorkshires. É paradoxal que justamente essa capacidade de raciocínio, essa consciência de nossa existência e de nossa finitude que nos faz humanos traga dentro de si justamente o germe de sua autodestruição. É para isso que esse pessoal quer lutar? Por sorte o conceito de luta deles é diferente, consiste em dar likes em fotos no Facebook. Eu teria medo desse pessoal realmente organizado, porque algo neles me lembra o “Planeta dos Macacos”, com seus arremedos de civilização.

E a classe C incomoda muita gente

Um dos textos mais bobos publicados na imprensa brasileira nos últimos tempos, o artigo “Sobre a Classe Média” de Artur Xexéo na revista do Globo do último domingo já chegou às redes sociais. Nele, Xexéo reclama do incômodo que a ascensão da classe C está causando em quem, como ele, representa a “Velha Classe Média”. É um artigo leve; é preciso lembrar que um caso bizarro como o do Ed Motta reclamando de gente feia é a exceção, que em suas melhores encarnações aquela classe média de Ipanema-Leblon é doce, tranquilinha e sorridente. O texto do Xexéo traz isso, essa condescendência e essa suavidade que mascaram um grande preconceito e um enorme incômodo da Velha Classe Média ao se ver diante de ex-pobres nos mesmos lugares que ela.

Talvez o aeroporto seja o lugar onde as frustrações e o desconforto desse pessoal sejam mais evidentes. É altamente simbólico, isso. O aeroporto era um dos lugares em que a pequena burguesia, para usar termos antigos como a Velha Classe Média, se sentia superior à patuleia e mais próxima dos ricos. Porque pobre paulista, por exemplo, não ia para Porto Seguro de avião; pegava um ônibus para Pindamonhangaba no Terminal do Tietê e passava uns dias na casa de uma irmã. A ascensão social das duas classes mudou isso: para Porto Seguro agora vão os ex-pobres, enquanto a Velha Classe Média passa uns dias na Europa todo santo ano.

O problema é que tem mais gente esperando ser atendida, as filas aumentaram, aquele povo mais feio ocupa atravanca o diacho do aeroporto. No entanto não dá para reclamar disso, porque cá entre nós ficaria muito feio, é quase como reclamar de preto no mesmo clube que você.

Aí a classe média reclama dos cereais nos aviões.

É tão bobo, isso, tão bobo colocar a culpa pela barra de cereal na Nova Classe C. Alguém podia dizer ao Xexéo que essa culpa não é dela. Porque esse processo, comum no mundo inteiro, não tem nada a ver com a afluência recente desse grupo socioeconômico no Brasil. Tem a ver com corte de custos em terra e começou bem antes do governo Lula. Na verdade é a classe C que está possibilitando que a Velha Classe Média possa continuar a viajar de avião, dando mais fôlego a um setor que, a julgar por sua história, é cronicamente inviável — e viajar para a Europa, ainda por cima. Eu, pelo menos, venho de um tempo distante em que só os ricos viajavam para lá.

Mas a VCM precisa de um bode expiatório para justificar o que ela não tem coragem de dizer: que não quer pegar filas maiores, que não quer aquela gente perto demais, que se sentiria mais confortável com a plebe atulhada nos ônibus da Itapemirim. Então fica achando motivos para implicar.

Essa reação, esse desconforto generalizado, podem ser vistos em outros lugares. No incômodo causado pelos evangélicos, enquanto a intolerância católica é mais aceita. Na reação de tanta gente à proliferação dos ciclomotores em 36 prestações, quando o problema aí é a falta de uma legislação mais rigorosa e maior fiscalização. Essa Velha Classe Média tem vergonha de dizer que a classe C a incomoda. Tem vergonha de dizer que não gosta de viajar ao lado de gente mais feia, que não gosta dos engarrafamentos maiores porque os outros agora têm carros, que não gosta das concessões que é obrigada a fazer. Não é polido; e a Velha Classe Média, sejamos justos, sempre teve pruridos em excesso.

Para fins de implicância disfarçada, normalmente não há nada como preconceito cultural. Mas não para o Xexéo. Ele é o sujeito que teve coragem de escrever que “Eu quero de volta o meu filme legendado na TV e torço pela possibilidade de passar um intervalo comercial inteirinho sem assistir a um anúncio do Supermarket.” Porque na melhor das hipóteses ele deve estar gagá e lembrando de um tempo que nunca existiu. Na TV aberta filmes legendados só eram exibidos uma vez por semana, por força de lei, em horários muito ingratos, como a meia-noite da segunda-feira. Na TV por assinatura, essa de que ele provavelmente reclama agora, os filmes legendados continuam aí, em canais como Telecine Premium, Cult e Fox. O que o incomoda, no fundo, é a simples existência dos filmes dublados. Eles jamais assumirão; mas é a diversidade que incomoda o Xexéo e toda a Velha Classe Média. (Quanto aos comerciais, faz mesmo diferença se é anúncio de Supermarket ou Chanel?)

Mais bobagem ao reclamar que “a tal Classe C ama música em alto volume”. Bobagem porque as outras também gostavam, principalmente quando se tratava de rock and roll — e aposto que um ou outro tem um orgulho danado de ouvir ópera bem alto para impressionar os vizinhos: “L’amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser” impressiona mais do que “Ai, se eu te pego, ai, ai se eu pego.” Mesmo no subúrbio.

Mas que não se diga que o texto do Xexéo é totalmente desprovido de qualidades. Há um ponto que a Velha Classe Média poderia levantar, com mais razão do que ao fazer picuinha com cereal.

Para todos nós, a classe C se tornou uma espécie de panaceia universal. É justificativa para tudo. E acaba obscurecendo o fato de que a Velha Classe Média (que gosta de ser chamada assim, percebo agora pelo texto do Xexéo, porque lembra vagamente o conceito de “quatrocentão”; como quem diz “eu viajo na classe econômica dos aviões há mais tempo do que você!”) tem, sim, uma certa razão.

O afluxo de um volume alto de consumidores fez com que a qualidade de muitos produtos e serviços diminuísse sensivelmente. É cada vez mais comum ouvir justificativas do tipo “o trânsito está pior, mas poxa, deixa para lá porque isso quer dizer mais pobre com carro”. E essa é uma atitude equivocada. É preciso encontrar soluções para isso, e não apenas tolerar.

Mais de 20 anos atrás, li uma entrevista muito interessante com o Stephen Kanitz na revista Imprensa. Ele apontava um caminho para o desenvolvimento do país; o investimento na classe C. E dava como exemplo o videocassete: em vez da indústria apostar em VCRs sofisticados, com 739 cabeças (alguém lembra disso?), era melhor fazer aparelhos mais simples, com duas cabeças apenas, e vendê-los mais barato. Me pareceu válido, na época. E de certa forma foi isso que a ascensão da Nova Classe C possibilitou.

O desafio agora é outro, não é oferecer produtos e serviços de segunda para esse pessoal ascendente. É oferecer mais qualidade por preços mais baixos. E quem não entende isso não entende a classe C. É o caso desse pessoal. Fossem mais inteligentes e deixariam um pouco de lado seus preconceitos de classe, se juntariam ao “diferenciados” para exigir mais. Sairiam ganhando. Mas essa Velha Classe Média não consegue ver isso. E por isso acabamos lendo artigos como esse.

Seu Gusmão, mais uma vez

Duvido que alguém acredite nisso que vem a seguir, porque até para mim parece história de mineiro mentiroso. Mas eu tenho os e-mails para provar.

O caso é que o senhor Gusmão, que já foi motivo deste e deste posts, respondeu ao último e-mail que lhe mandei, logo depois que o enviei. Isso já tem algumas semanas:

Em primeiro lugar, Sr Rafael, nunca lhe faltei com o respeito. Sempre achei o Sr. uma pessoa digna. O sr. nunca tem um meio de comunicacao certo pois tem infinitos e mails e mil telefones. Era so entrar em comunicacao como fazem meus outros inquilinos que a gente sempre resolve as situações inexperadas, mas para isso precisa de COMUNICACAO. Sei que o sr. passa por uma situaçao dificil mas nao sabia que chegava a tanto como fazer programa mas isso nao cabe a mim julgar. Por outro lado eu VIVO somente dos meus alugueres, por isso tenho que ficar preocupado em recebe los, pois tenho inumeos compromissos como plano de saude, cartao de credito, condominios caros, remedios que tomo para pressão carissimos e para sindrome do intestino irritavel.. Pois é . fica entao o Sr sabendo que não e so o Sr. que passa dificuldades.Nao sou nenhum cara rico para me dar esse luxo. Todos tem problemas na vida, e se eu pudesse nao tinha esses apartamentos que volta e meia me dão so dor de cabeça.
alem disso passei muito mal todo o mes de fevereiro, ficando em CTI por dez vezes consecutivas com minha pressao a 21×12, por meus remedios de pressao nao surtirem mais efeitos. tive que muda los e so ontem melhorei, e isso tudo me incomoda demais. Outra coisa. nao sabia que o Sr sublocava o apartamento o que e proibido no nosso contrato, mas ate relevo isso pelo seu pagamento sempre efetuado pelo sr e por sempre ter sido boa pessoa comigo, mas se o Sr. nao estiver satisfeito, podemos encerrar nosso contrato, ja que se passou o prazo do mesmo. Nao quero o seu mal mas tambem nao quero o meu.

Ps achei desnecessario isso tudo e podemos conversar

Dr. Antonio Gusmao

E eu me compadeci do senhor Gusmão. Certo, ele tem a mania de lascar um “dotô” na assinatura, mas esse tipo de asneira é perdoável em advogado. Isso e carro grande: são compensações, você entende. O que me comoveu foi o fato de que qualquer pessoa que se recusa a entender o despautério absoluto que era aquele e-mail que enviei não poderia ser totalmente má; ou pelo menos deveria ser tratada com certo cuidado. Além disso, pessoas boas não merecem que outras pessoas boas sacaneiem com eles.

O problema é que só sou gente boa lá no fundo. Por isso foi preciso um acordo, e eu e as vozes na minha cabeça, essas que me fazem responder às pessoas, chegamos a um compromisso: eu não continuaria sacaneando o seu Gusmão, mas tampouco esclareceria as coisas. Não respondi ao e-mail.

Mas aí, algumas semanas depois, no Sábado de Aleluia, recebi mais uma mensagem do sujeito:

Sr. Rafael. Por favor entrar em contato pois precisamos conversar sobre o imovel.

Opa. Esse e-mail me deixou intranqüilo. Fiquei pensando que seu Gusmão, coitado, com sua pressão a 21×12, é do tipo que guarda rancor. Imaginei o seu dotô trancado em seu escritório repleto de livros antigos de direito, puto com aquele Rafael que ainda por cima violava o contrato e sublocava o apartamento, e imaginando as medidas cabíveis para ferrar de vez o rapaz.

O meu doppelganger pode ser um caloteiro safado, mas não merece perder o apartamento. E seu Gusmão pode ser uma anta, mas não merece perder um inquilino por causa de um mal-entendido.

Eu disse: no fundo sou gente boa. Um e-mail, então, serviria para resolver as coisas, para esclarecer o mal-entendido causado pela estupidez do seu Gusmão.

Caro senhor Gusmão,

O senhor vem mandando e-mails para o endereço errado há algum tempo. Eu respondi há algumas semanas, como se fosse o Rafael Galvão que é seu inquilino, dizendo que tinha perdido o emprego, sublocado o apartamento e etc., esperando que o senhor percebesse que estava mandando e-mails para o endereço errado.

No entanto o senhor não percebeu, e até respondeu o e-mail. Por isso, peço que corrija os endereços que o senhor tem aí. O e-mail xxxxx@gmail.com não pertence ao seu inquilino. E eu sequer moro no Rio de Janeiro.

Obrigado,
Rafael

Pronto. Fiz minha parte, ia dormir tranqüilo no Sábado de Aleluia, e nem ia precisar ver o filme do Zefirelli para isso. Não esperava mais resposta. No máximo um e-mail me esculhambando, me chamando de irresponsável, cafajeste — essas coisas às quais, sinceramente, eu já estou acostumado e nem ligo mais.

Mas eu não contava com a mente analítica e inquieta do dr. Antônio Gusmão. Ele respondeu com um e-mail de uma linha só:

COMO E ISSO SE O PAGAMENTO CONFERE COM O DEPOSITO BANCARIO? PODE ME EXPLICAR ISSO?

E aí chega. Porque eu tenho cá meus limites, e eles normalmente são ultrapassados por desafios, principalmente aqueles mais estúpidos.

Caro senhor Gusmão,

O senhor tem razão. Me pegou. Este e-mail realmente pertence ao seu inquilino caloteiro que nunca paga o aluguel em dia. Por isso, continue mandando seus e-mails para cá. Eu prometo que, assim que recebê-los, vou correndo ao banco pagar o aluguel imediatamente.

Nada como perceber que um sujeito não diz a verdade por um detalhe tão simples, não é? Claro. “Como é isso se o pagamento confere com o depósito bancário?” Eu obviamente não faço idéia do que o senhor está falando, mas isso não interessa. Obviamente, não posso explicar isso, nem acho que valha a pena. O importante é que o senhor tem a verdadeira alma do detetive. Uma mente inquisitória, que não se detém até encontrar a verdade. Senhor Gusmão, o senhor poderia ter sido um Einstein.

Eu andava dizendo por aí que o senhor não era lá um corretor dos mais espertos.

Como eu estava enganado.

Um abraço,
Rafael

Aí eu pensei que tudo tinha terminado, que o senhor Gusmão tinha ficado satisfeito com o e-mail — se ele não era capaz de entender a brincadeira anterior, era improvável que entendesse o sarcasmo nessa mensagem.

Mas não é o danado entendeu? E no dia seguinte, em vez de comer um ovo de Páscoa, respondeu com um e-mail duro para mim:

Sr. Rafael. O que mas detesto nesta vida sao tribulacoes como esta acontecendo conosco. Acho que como esta o nosso relacionamento, o melhor para nos dois e encerrar definitivamente com isso, pois esta tanto fazendo mal a mim como ao sr. Nunca passei por isso e espero que nunca mais aconteça. O que quero e que nos encerremos nosso compromisso, ja que o contrato terminou e nao ha mais dialogo entre nos. Fui no apartamento ontem e vi que esta vazio faz tempo e que os recibos se acumulam. O que queria e que o sr. nos liberasse do nosso compromisso permitindo a mim a entrada do mesmo, ja que o sr. nao vem ao Rio e o mesmo se encontra abandonado.
Desculpe por qualquer coisa

Antonio Gusmao

Logo depois, um adendo:

em tempo: Podemos encerrar de comum acordo tudo isso sem o sr. nao me dever mais nada, encerrando assim, pelo bem estar de nos dois. O sr. por estarem dificuldades, e eu para viver mais tranquilo, pois ja parei ate em hospital , pela pressao alta que tenho, nao so pelo sr. mas com coisas que acontecem na vida cotidiana que maltratam a gente. Acho que seria bom tanto para o sr. e para mim.

E assim o pobre do caloteiro homônimo ficou ameaçado de perder seu apartamento. Tudo bem que não o usava (eu faço idéia do por quê, julgando por um dos e-mails do sujeito), mas se ele o mantinha era por alguma razão. E assim, contrariando os meus mais básicos instintos, respondi mais uma vez, uma última tentativa de mostrar a luz para o cérebro hipertenso do senhor Gusmão:

Senhor Gusmão,

Eu não ia mais responder aos seus e-mails, porque o senhor pelo visto se recusa a acreditar que está enviando mensagens à pessoa errada.

Vou repetir mais uma vez: este e-mail específico, xxxxx@gmail.com, não pertence ao seu inquilino. Os outros e-mails para os quais o senhor manda mensagens eu não sei; mas se o senhor não percebeu, é só deste que o senhor recebe e-mails desaforados com histórias malucas.

Ou seja: não é o seu inquilino que está lhe mandando e-mails dizendo barbaridades. É uma pessoa para a qual o senhor mandou mensagens por engano.

Eu não sei quem é o Rafael Galvão que aluga o seu apartamento. E não deveria estar preocupado com ele. Mas odiaria saber que ele perdeu um apartamento por minha causa. Meu homônimo pode ser um caloteiro, a julgar pelos seus constantes e-mails de cobrança, mas acho que nem ele merece ter um contrato de locação cancelado porque o senhor enviou e-mails a outra pessoa por engano, e não entendeu que era tudo uma brincadeira.

(Cá para nós: sublocação a uma prostituta da Help? Piloto de provas de fábrica de supositórios? O senhor nunca percebeu que isso era uma grande brincadeira, do tipo que só quem não tem nada a ver com a história escreveria? Eu sei que há um monte de Rafaéis Galvão por aí, mas duvido que algum deles fosse idiota a ponto de mandar um e-mail a seu senhorio dizendo que sublocava o apartamento.)

Obviamente, eu estou fazendo o que posso para evitar que o senhor tome uma decisão impensada. Além disso, não gostaria que o meu sósia onomástico perdesse o apartamento, nem que o senhor perdesse um aluguel. No entanto, eu já fiz o que posso. Se o senhor se recusa a entender o que está acontecendo, paciência.

Boa sorte a vocês dois, e um abraço,
Rafael

Quer saber? Seu Gusmão e meu clone que se virem para resolver isso. Porque se esse Rafael Galvão pagasse as drogas de suas contas em dia, e se a mãe do seu Gusmão tivesse dado miolo de boi para ele quando era pequeno, para ficar esperto, nada disso teria acontecido.

Nova carta para seu Gusmão

Um tempão atrás publiquei a resposta que dei a um sujeito que me mandou um e-mail cobrando de um dos meus tantos homônimos o aluguel de um imóvel em Copacabana. Esse doppelganger caloteiro vive atrasando o aluguel. E por alguma razão seu locador acha que o meu e-mail é o dele.

A resposta, no entanto, não sensibilizou o sujeito. Ele continua mandando e-mails para mim, me cobrando algo que não devo. Deve ser mau corretor, porque sequer sabe o e-mail correto de seu cliente. Por isso escrevi um novo e-mail para ele na esperança de que esse senhor finalmente entenda que está mandando e-mails para a pessoa errada.

Seu Gusmão,

Olha, eu venho evitando falar isso faz tempo: mas o senhor é muito chato.

O senhor sabe que estou passando por uma fase delicada na vida. Perdi o emprego, perdi a mulher, as coisas começaram a dar errado para mim de repente. E mesmo assim o senhor vive me mandando esses e-mails de cobrança.

Eu estou me esforçando, de maneiras que o senhor nem imagina. Mas mesmo assim, mesmo sublocando o apartamento para uma amiga que trabalhava na Help e agora recebe seus clientes aqui em casa, nem sempre é possível pagar o aluguel em dia.

O senhor quer mesmo saber por que eu atraso?

Eu lhe disse que tinha perdido o emprego, o senhor lembra? Não me foi possível arranjar uma colocação à altura da anterior. Inicialmente fui ser piloto de provas numa fábrica de supositórios. Não é o melhor emprego que há por aí, e isso me deixava com uma certa má vontade em relação ao mundo, mas serve para o senhor entender o que estou disposto a fazer para lhe pagar os aluguéis que lhe devo.

Infelizmente fui demitido por causa do meu hábito de beber. Então agora eu faço vida.

É, seu Gusmão. VI-DA. V-I-VI-D-A-DA — vida. Tudo isso para pagar o aluguel que o senhor me cobra.

Olha, seu Gusmão, é uma vida dura, sabe? Mas até que compensa. Alguns clientes são delicados, tratam bem a gente, levam até para jantar no Giraffa’s da Barata Ribeiro.

Mas claro que nem todo dia é bom, porque a crise, o senhor sabe, está chegando até nós. O dinheiro é difícil. Tem dias — e eu não falo isso apenas para conquistar a sua simpatia — que a gente sai só pelo sanduíche do Cervantes com Fanta.

Certo, eu atraso de vez em quando. Mas eu pago essa merda, não pago? Cá entre nós, não é sequer um grande apartamento esse que alugo do senhor. Mesmo assim, todo mês o senhor me manda uma cobrança que nós dois sabemos ser desnecessária. Eu vou pagar. Eu sempre pago, não importa que para isso eu tenha que sair com 20 numa noite só.

Eu só peço ao senhor um pouco de compreensão.

Portanto, o senhor tem duas alternativas. Ou para de me mandar essas cobranças, ou então me arranja uns clientes assim, tipo cheios da grana, para que eu possa pagar tudo em dia.

Este seu criado,
Rafael Galvão