Triste fim de Tróia

Acabei de descobrir que Tróia não tem mais acento. Troia. Parece trolha. Os gregos de Agamenon, os atenienses, os persas, os espartanos, os macedônios de Alexandre, os romanos, todo mundo meteu a mão na desgraçada do Helesponto, todo mundo tirou sua lasquinha, como se a gloriosa Tróia de Páris fora uma prostituta bêbada em um fim de noite, pobre guardiã do Dardanelos — e agora ela é destruída mais uma vez pela reforma ortográfica do dr. Houaiss. Sina triste, a dessa cidade.

Infância

Há uma série de coisas que me irritam no Facebook; mas tem uma, em particular, que me faz pensar em como as pessoas conseguem usar qualquer coisinha de nada para se autoconferir uma nesga de grandeza imaginária e ter o direito putativo de serem arrogantes no pouquíssimo que acham que podem ser.

São aqueles posts que falam que sua infância foi melhor que a atual. “Você viveu isso ou isso? Parabéns, sua infância foi a melhor”, e daí para baixo.

Eu gosto muito da minha infância. Nostálgico jamais arrependido, gosto de lembrar dela, dos elementos que a fizeram. Sigo grupos de outros saudosistas que viveram o mesmo que eu, como Imagens Antigas de Salvador, Aracaju Como Eu Via, Imagens Antigas do Rio de Janeiro. Gosto da minha infância, repito; mas não porque ela foi melhor que as outras, de outros tempos. Gosto porque foi a minha infância, a única que eu tive e da qual às vezes tenho dúvidas de que saí. Gosto como alguém gosta de jenipapo.

É por isso que quando vejo alguém se vangloriando por ter andado de carrinho de rolimã, por exemplo, tenho a certeza de que o nível de estupidez mundial não dá sinais de arrefecer.

Eu andei, também. Tenho uma cicatriz no pé para provar. E que merda, isso. Sinceramente, em vez de andar de carrinho de rolimã eu queria era ter dinheiro para comprar o CP-500 que era bonitão mas que nunca tive e por isso eu tinha que me contentar em ir para a rua brincar.

Joguei bola de gude joguei bafo quase aprendi a rodar pião joguei bola e fiz gols porque eu colocava a bola onde queria quebrei braço quebrei cabeça quebrei braço de novo vi todas as unhas dos pés irem embora nas topadas mas elas sempre voltavam e Maura a empregada fazia o melhor bolo de laranja fui ao circo ver o domador de leões brinquei todas aquelas brincadeiras violentas que os meninos de minha época brincavam sofri bullying na escola e fiz bullying também porque o mundo é um grande sistema de compensações e talvez eu seja um pouco menos estressado porque briguei muito na rua e levei murro e levei chute mas bati mais do que apanhei.

O que me consola bastante.

Mas grandes merdas, tudo isso. Para começar, essa meninada faz mais sexo e mais cedo do que a minha geração, criada numa pequena província de muro baixo. E só por isso ela já é melhor (em compensação não vai poder as históricas tragicômicas que eu posso contar). Mais que isso, faz sexo com menos preocupações, com menos culpa.

Eu posso até lamentar que não leiam mais as historinhas Disney que eu lia; eles certamente não sentem a mínima falta. E se estranho a maneira cada vez mais diferente com que se relacionam, utilizando a internet e estabelecendo novos padrões, o fato é que essa é uma geração que está avançando em uma nova fronteira, instaurando uma nova normalidade. Não é pior, nem melhor. É só diferente.

Há exceções, claro. A TV aberta era realmente melhor que a atual — a variedade de atrações numa mesma programação me impressiona até hoje —, e o fato de mesmo assim haver poucas opções fazia com que ela tivesse um papel importante e já desaparecido, de unificação da conversa (“Bestão, você não viu mesmo SWAT ontem?”, e droga, agora eu tinha que dar uma porrada no babaca que disse isso, porque eu caía no sono às 8 da noite e não tinha tempo de ver SWAT porra nenhuma). Para quem, como eu, gostava de filmes — ainda era cedo para gostar de cinema — a programação era infinitamente melhor. A programação era composta principalmente de alguns dos grandes clássicos do cinema anos 50. Chaplin era exibido na Sessão da Tarde.

Se alguém realmente acha que a sua infância foi melhor que porque assistiu a “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, que pena que se contente com tão pouco. A propósito, os meninos de hoje também podem ver o seriado, e na hora que quiserem, porque ele está no YouTube — enquanto na minha época a gente via quando a TVs deixavam. Eles só não veem graça nele, e eu entendo.

A meninada tem Netflix, tem torrents para assistirem o que quiserem quando quiserem, têm Spotify para ouvir a música ruim que se faz hoje — mas é a música deles, do seu tempo, como eu tinha que aturar a música ruim do meu tempo. Sua noção de tempo para esse tipo de relação com o mundo e com a informação e o entretenimento é provavelmente o sonho de todo menino de minha época, que não tendo nada disso se contentava em subir em árvores, como macacos vinham fazendo já havia milhões de anos.

Em virtualmente todo e qualquer aspecto, a infância de hoje é melhor que a de antigamente.

E sempre que vejo algum sujeito encher a boca para falar de como brincou de carrinho de rolimã, eu penso: besta, brincou porque não tinha internet.

Das cobranças indevidas a que a vida nos submete

Eu nem lembrava disso, mas fuçando e-mails antigos descobri que uns dois anos atrás um escritório de contabilidade me mandou um e-mail cobrando um serviço qualquer.

Subject: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Thu, 18 Dec 2014 16:33:25 -0200
From: XXX Contabilidade Empresarial
To: Rafael Galvão
CC: fulana.galvao@hotmail.com

Prezado Sr.,

Boa tarde!

Encontra-se em aberto o valor de $ 1.156,00 referente honorários contábeis junto ao escritório.

Por gentileza entrar em contato urgente para negociação pois estamos encaminhando todos os débitos do escritório para cobrança externa junto à escritório de advocacia.

No aguardo,

Depto. Financeiro

XXX Contabilidade Empresarial Telefone: (11) XXXX.XXXX
Telefax: (11) XXXX.XXXX e-mail: xxx@xxx.com.br

Cá entre nós, cobrança é uma coisa chata. Mas ainda pior é cobrança por algo que você não comprou. Você está em casa, quieto, e de repente lá vem um sujeito esfregando uma promissória nas suas fuças. Você tenta se lembrar de quem, entre as suas dezenas de credores, teria a pachorra de lhe cobrar assim, na lata, de forma tão grosseira. Até que você entende que é só mais um caso de erro de pessoa, de gente que tem a mania estranha de mandar e-mails para gente errada.

(Eu não duvido que seja o mesmo homônimo caloteiro que tirou a tranquilidade do senhor Gusmão, embora aquele fosse carioca e esse escritório seja de São Paulo.)

Também cá entre nós, eu sei ser valente quando o meu não está na reta. É quando aparece o melhor de mim. É quando se revela a minha altivez, a minha superioridade espiritual em relação a essas coisas comezinhas do dia a dia. Quando, qual rei absoluto diante da patuleia ignara, mostro todo o meu desprezo imperial à humanidade.

Acima de tudo, é uma questão de princípios. Porque se se deixa iniquidades como essa prosperarem, daí a pouco estão lhe cobrando a dívida de Creso, pedindo explicações sobre a decapitação de Maria Stuart, vem até um mais ousado insinuar que você estava mancomunado com Judas.

Além disso, eram tempos estranhos, aqueles; nessa época eu estava reformando meu cafofo e morando temporariamente numa casa no cu do mundo mas na beira da praia. E mamãe me ensinou a ser uma pessoa educada e nunca deixar alguém falando ao vento. Por isso dei uma resposta lacônica, mas sincera; nas minhas boas intenções, eu esperava estar traduzindo em poucas palavras os sentimentos mais autênticos do tal Rafael Galvão:

Subject: Re: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Thu, 18 Dec 2014 19:11:16 -0300
From: Rafael Galvão
To: XXXX Contabilidade Empresarial

Fodam-se.

E por aí deviam ficar. Era resposta suficiente, e deviam seguir o meu conselho. Mas não, eles não se conformaram, insistiram na baixaria, tem gente que, sei não, parece que gosta de ver o circo pegar fogo.

Subject: Re: Re: Urgente – Honorários em Aberto!
Date: Fri, 19 Dec 2014 11:53:52 -0200
From: XXX Contabilidade Empresarial
To: advogado@aasp.org.br
CC: Rafael Galvão

Dr. Ricardo,

Bom dia!

Encaminho resposta de e-mail recebido pelo escritório para vossa ciência.

Solicito as providências cabíveis ao caso uma vez que o serviço fora prestado e não devidamente pago e além disso fomos constrangidas perante os nossos funcionários.

Att.,

Fulana de Tal
Beltrana de Taltal
Sicrana de Taltaltal
Contadoras

E a essa altura eu já estava até simpatizando com o Rafael Galvão caloteiro, vítima de cobranças de gente que sequer sabe endereçar corretamente um e-mail, de gente que faz tempestade em copo d’água por qualquer coisa, que chama advogado e o diabo por causa de um simples “foda-se”. Fiquei imaginando a moça abrindo o e-mail, arregalando os olhos, “Fulana, olha o que esse safado disse!”, e Fulana indignada dizendo “Sicrana, vamos chamar o adevogado! Liga pro dotô Ricardo!”, e Beltrana a meio caminho do banheiro, sobraçando uma Sabrina ou Júlia ou Bianca, resmungando “Ah, mas isso não fica por isso mesmo…”, e o dia passa e o escritório de contabilidade só fala em um assunto, um escritório de contabilidade em polvorosa — visão rara, a não ser que o tal escritório tenha como cliente alguma empresa da Lava Jato.

Duvido que esse seja o único foda-se que essas moças receberam na vida, porque elas têm o mau hábito de cobrar quem não lhes deve nada e essas coisas deixam as pessoas tristes. E ainda que fosse, deveria ter servido de lição.

Infelizmente os e-mails terminaram por aí. Eu estava preparado para invocar novamente os mesmos argumentos que dei ao dotô Gusmão para a minha inadimplência. Mas não sei o que foi feito do caso. É possível que tenham mandado o email para o Ricardo errado. Caso não tenham repetido o erro, espero que ele, oxalá um advogado experiente, tenha mandado essas moças se aquietarem depois de descobrir que elas tinham começado tudo, mandando e-mail para quem não deviam. Porque essa é a ironia da coisa: a vida sempre cobra o seu troco.

O triste fim do futebol brasileiro

A quase derrota do Brasil ante o Paraguai anteontem foi melancólica. Talvez mais melancólica para mim, que lembro de um Brasil e Paraguai em 1979 como um dos primeiros jogos da Seleção Brasileira a que assisti.

Mais melancólica, no entanto, foi a certeza de que o futebol brasileiro acabou.

Não é pelo 7 a 1, nem pelo futebol feio ao mesmo tempo que ineficaz que se tornou a marca de um time que um dia “jogou por música”. Esses são apenas sintomas tardios. O futebol brasileiro vive já há muito tempo uma lenta agonia, cujo fim parece ser a redundância irreversível do antes considerado o melhor futebol do mundo.

As pessoas buscam causas aqui e ali. Criticam a corrupção endêmica na CBF, a velhice tática dos técnicos, a mudança estrutural do próprio futebol. Claro que todas essas mazelas contribuem, e muito, para deteriorar essa situação. Mas nada disso é razão suficiente.

A CBF em 1982 não era mais honesta que em 2016 — a única diferença era de escala. As concepções táticas atuais dos técnicos não são tão diferentes das de suas contrapartes europeias. E embora tenhamos hoje a impressão desconfortável de que somos um cachorro velho que não aprende os novos truques que os outros cachorros aprenderam, quem acha que o futebol mudou a ponto de se tornar realmente diferente deveria assistir ao documentário “Isto é Pelé”. Nele o ex-namorado da Xuxa menciona, em 1974, como o futebol tinha mudado desde 1958: mais rápido, menos espaços, mais aplicação tática — exatamente o mesmo diagnóstico que se faz agora.

Se eu fosse procurar uma culpada para servir de bode expiatório seria a Lei Pelé. E é no mínimo irônico que uma lei que deu dignidade ao ofício de jogador, e que leva o nome do símbolo da melhor fase do ludopédio pátrio, esteja destruindo o futebol brasileiro.

Não é que ela seja intrinsecamente má. Quando se lembra que Garricha deixou de ganhar um aumento porque um dos cartolas do Botafogo não admitia que um jogador ganhasse mais que um engenheiro como ele, não há como se opor à lei. Mas seus efeitos colaterais foram perversos.

Ao tirar dos clubes o controle sobre os destinos dos jogadores, a Lei Pelé tornou inviável a criação de grandes times como os do passado. Não é apenas o fato de que clubes não investem mais em jogadores porque sabem que na temporada seguinte eles estarão em outro time; é porque não têm mais condições de garantir que um time permaneça o mesmo por mais de um ano, e se perdem no labirinto complexo de negociações e renegociações em que cada um leva uma fatia do dinheiro, às expensas do time. Um time como o Flamengo do início dos anos 80 não é mais possível.

E sem grandes times, estáveis, não há grande Seleção Brasileira.

Até os primeiros anos depois do início da debandada geral dos jogadores brasileiros para a Europa, cada escrete canarinho era baseada nos melhores times de sua época. Em 1982, por exemplo, eram o Flamengo e o São Paulo; em 1962 e 1970, o Botafogo e o Santos.

Eram jogadores acostumados a jogar juntos. Conheciam seus companheiros de time, sabiam o que podiam esperar de cada um deles. E também eram acostumados a jogar uns contra os outros, o que fazia com que também conhecessem seus estilos, suas características. Com bastante tempo de preparação e aclimatação na velha e boa Toca da Raposa, era relativamente fácil formar um time entrosado e eficiente.

Era isso que fazia o Brasil o dono do melhor futebol. Não era o número de Copas conquistadas: era a certeza de que se teria, mesmo na derrota, um futebol com personalidade e um mínimo de qualidade. Eram os tempos em que o pior Brasil era infinitamente superior ao melhor Paraguai.

Em 1990 a Seleção tinha se tornado uma versão esportiva da Legião Estrangeira; e apenas Careca e Alemão jogavam juntos, no Napoli. Já naquele ano dava para perceber a diferença de qualidade em relação às Copas anteriores. Mas ainda havia um tempo relativamente grande de concentração, e embora claramente decadente a coisa ainda se sustentava porque, bem ou mal, os jogadores eram formados no Brasil. Iam para a Europa tarde, normalmente depois de consagrados na Seleção.

A Lei Pelé, acompanhando a evolução do mercado, pegou esse estado de coisas e o tornou insustentável. Indo cada vez mais cedo para o exterior — há dezenas, centenas de jogadores brasileiros mundo afora que sequer chegaram a jogar profissionalmente no Brasil —, eles simplesmente não conhecem uns aos outros. Convocados, trazem estilos de jogo diferentes entre si, baseados no modelo europeu. Alie a isso o tempo cada vez mais exíguo de preparação, e então pode-se compreender o 7 a 1. É impossível montar um time realmente bom dessa forma. O resultado é a dependência enorme do talento individual de cada um — que, por sua vez, precisa do suporte do grupo para se realizar. Como esse tal de grupo mal existe, o resultado é um jogo como o de anteontem.

A tragédia estava anunciada há muito tempo.

Talvez haja uma possibilidade de recuperação. Se não pode nem deve revogar a Lei Pelé, a CBF poderia determinar que apenas jogadores que atuem no Brasil sejam convocados. Talvez isso pudesse forçar ao menos um adiamento da emigração; na pior das hipóteses, pode-se perder em talento, mas ganha-se em entrosamento e na redefinição de um estilo próprio, adequado aos novos tempos.

Pode até parecer uma solução radical, e talvez nem seja suficiente. Mas qualquer coisa é melhor que o modelo atual.

Infelizmente, essa solução não vai ser tomada. De qualquer forma, o problema real está nos mecanismos do mercado, e contra eles não há remédio. E por isso é possível sair pelo meio da rua bradando em desespero que o futebol brasileiro acabou, que o futuro lhe reserva apenas sua cada vez mais rápida decadência à irrelevância.

Quem nasceu entre o final dos anos 60 e início dos 70 cresceu sob a égide do tricampeonato, ainda ouvindo os ecos de um tempo em que Pelé e Garrincha assombravam o mundo. Mesmo passando 24 anos sem ganhar uma Copa, sabíamos que só nos revoltávamos com isso porque acreditávamos que estávamos muito acima do resto do futebol mundial; uma Copa era um direito natural do melhor futebol do mundo. Tínhamos consciência de quem éramos, e essa consciência nos definia.

Não nos define mais.

Um certo lamento feminino

O Hermenauta me manda um texto da Ruth Manus, publicado há algum tempo no Estadão, em que ela lamenta a triste sorte das mulheres hoje em dia, sonhando com um homem inexistente que descreva assim a mulher dos seus sonhos:

Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.

A colunista olha em volta e não encontra esse homem. A culpa é, em última análise, da sociedade, esse ente indefinível que cria homens que fogem de mulheres independentes. Reclama que não ouviu esse discurso de nenhum homem. “Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.”

(Vamos desconsiderar o primeiro parágrafo que só serve para ambientar a situação, a besteira que é alguém sonhar com uma mulher assim. Como seria uma besteira uma mulher sonhar com um homem que trabalhe 16 horas por dia, que viva respondendo a emails ou telefonemas de trabalho extemporâneos e que tenha que fazer serão  — com ou sem a secretária  — dia sim, dia não. Se é para sonhar, vamos sonhar direito.)

Vamos desconsiderar também o fato de que a última sentença parece indicar que tudo isso é apenas um grande e elaborado lamento por não ter um homem para chamar de seu. O fato é que eu poderia fazer esse discurso, se isso a confortasse. Casado algumas vezes, olho para trás e vejo que nenhuma de minhas mulheres se encaixa no perfil que ela acha que os homens querem. Cozinho melhor que elas; todas tiveram trajetória acadêmica melhor que a minha; a maior parte teve, sim, subordinados em algum momento da vida. Mas isso não é sobre elas, é sobre a inexistência de homens que admitam mulheres que não dependam deles. Talvez por isso, por comparar a minha própria trajetória com a da moça descrita no texto, fiquei me perguntando de que mundo fala a colunista.

Pistas vêm mais adiante. Ela fala da educação que recebeu, dos cursos, do incentivo entusiasmado dos pais para que ela desenvolvesse seu potencial e garantisse independência. Indica também uma mulher bem-sucedida. A combinação específica de salto alto e overload de e-mails (mais adiante ela menciona subordinados) indica uma mulher que certamente não é nem vendedora nem operadora de telemarketing.

O primeiro problema do texto está aí. Ela descreve o mundo quase idílico da classe média — a velha, não a nova. É o mundo daqueles cujos pais lhes possibilitaram (geralmente com pai e mãe trabalhando em tempo integral) acesso a oportunidades variadas em sua formação. Fala daquela parte abençoada da sociedade cujas necessidades básicas, e boa parte de suas aspirações, já são atendidas — justamente porque uma geração anterior de mulheres se sacrificou para garanti-las. O mundo sofisticado daqueles que, em vez de um feriadão na Praia do Forte ou até mesmo quatro noites em Paris pela CVC, almeja uma viagem para o Leste Europeu.

Talvez se ela olhasse para o mundo das comerciárias, das funcionárias públicas, das professoras, visse um mundo levemente diferente. E talvez ela aventasse a possibilidade que esse mundo de homens querendo dondocas dependentes e ignorantes aconteça apenas nas vidas dos super-ricos; nas dos mortais reles, coitados, isso é impossível.

Nesse mundo, as pessoas não apenas precisam trabalhar: elas esperam que as outras trabalhem, também. E nesse mundo, ao que parece a maior parte das mulheres não está preocupada com os problemas que parecem afligir a personagem do texto da Ruth Manus; ou porque já têm o seu merecido quinhão ou porque simplesmente têm mais o que fazer.

Claro que há homens como os que povoam os pesadelos da Ruth Manus. Há piores, na verdade. Esses bichos costumam vir em todos os tipos e cores. Há moços antigos assim e moços modernos, rapazes que querem filhos e rapazes que não os querem, senhores que se pudessem prenderiam a mulher em casa e senhores que dividem a mulher graciosamente com outros, cavalheiros que ajudam em casa e cavalheiros que se especializam na doce arte da gigolagem.

Mas há muito tempo o homem que se vê como provedor único da casa, senhor absoluto da família e da mulher mantida em rédeas curtas, deixou de ser a norma, ou mesmo parte significativa. Não porque eles quisessem ou deixassem de querer, que isso é irrelevante: mas porque a necessidade os obrigou.

A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho a partir da II Guerra alterou, aos poucos mas para sempre, as configurações familiares no mundo inteiro. E assim como a classe média passou a se condoer da situação das empregadas domésticas a partir do momento em que não precisou mais delas — ou, mais acuradamente, não pôde mais mantê-las —, a grande maioria das famílias passou a tomar como garantido o fato de que todos precisam trabalhar para garantir padrões de vida mais ou menos adequados às suas aspirações.

A colunista parece ver seus problemas como resultado do machismo inculcado nos homens desde sempre. Mas certamente não é nessa esfera que está o grande problema causado pelo machismo, pela maneira como a sociedade educou seus varões, e nem vamos falar aqui de outros ainda mais graves, como agressões, disparidades salariais, essas coisas. Aquele tipo de problema é mais facilmente visto nas famílias com filhos, em que normalmente a mulher acaba sobrecarregada. Mas não é disso que o artigo trata.

De vez em quando se vê por aí textos em que mulheres tentam fazer passar suas carências e preocupações idiossincráticas por feminismo, ou ao menos pelo diagnóstico de um problema universal feminino. Esse é um deles. Tenho a impressão de que se essa moça fizesse uma pesquisa rápida e procurasse ver com quem os homens que poderiam interessá-la estão (aqueles comprometidos e satisfeitos com isso, claro), teria uma surpresa desagradável. O mais provável é que os encontrasse com mulheres que incorporassem, ao menos em parte, os predicados descritos no início do texto.

Relações interpessoais são sempre complicadas. E os anos que passam me fazem desconfiar cada vez mais que grande parte desses problemas se devem a desencontros. Mas nesse caso específico, a Manus personifica as reclamações não de homens, mas das mulheres que acham que a vida lhes passou uma rasteira e não lhes deu de presente um conto de fadas moderno. Não parece haver muitos homens por aí lamentando que as mulheres se emanciparam e por isso eles estão solteiros, apesar do MBA em Harvard que ostentam no currículo, apenas porque não encontram mais amélias submissas como antigamente. E é isso que faz desse texto pouco mais que o lamento de uma moça bem sucedida de classe média reclamando que a educação primorosa que teve não lhe serviu para o que era mais importante: arranjar um marido.

Pourquoi je suis Charlie

O que mais tem me impressionado nas reações de parte do pessoal que comenta nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre a chacina da redação da Charlie Hebdo por fanáticos fundamentalistas islâmicos não é a má fé e a ignorância visíveis em boa parte delas. É, principalmente, a prontidão com que esta sociedade está disposta a relativizar e mesmo abdicar de um direito básico da civilização ocidental: o direito de expressão.

A ignorância presente nessas reações pôde ser vista quando milhares de pessoas que jamais ouviram falar antes da Charlie Hebdo tomaram posições imediatamente. Sem conhecer sua história, definiram por ouvir dizer que a Charlie era racista, etc., etc. Em um exemplo de um traço curioso da humanidade, amplificado pelo imediatismo das redes sociais, as pessoas parecem sentir que precisam tomar posições radicais e se pronunciar sobre qualquer coisa, mesmo que não tenham base nenhuma para isso.

Para isso tentam buscar as ferramentas que validem suas crenças. E é aí que está a má-fé: está, por exemplo, no destaque exclusivo das capas ofensivas ao Islã publicadas pela revista para fazê-la parecer anti-islâmica — ou, quando muito, de capas que ofendam outros valores caros a você ou ao seu grupo. Descartam então as capas que satirizaram e muitas vezes ofenderam Sarkozy, Hollande, judeus e cristãos, e assim têm a prova cabal de que sim, aqueles racistas miseráveis mereceram — se não a chacina, ao menos a reação indignada dos assassinos que se dizem inspirados no Islã, mais ou menos como certo pessoal relativiza a culpa do estupro dizendo que a moça não deveria usar aquele decote tão perdulário. “Ah, ele não respeita o Profeta. Vamos matar os cães infiéis!” Pessoalmente, não vejo muita diferença disso para “Ah, ele não respeita Lula. Vamos matá-lo!”

Chegaram a divulgar uma charge retratando a ministra francesa Christiane Taubira como uma macaca como prova do racismo da Charlie. A charge, na verdade, foi feita pela Minute, publicação de extrema-direita francesa. As pessoas que falsificaram a informação ou divulgaram-na, no entanto, não estão preocupadas com isso: precisam apenas de evidências, verdadeiras ou não, que embasem suas posições equivocadas.

Frei Leonardo Boff publicou dois artigos sobre o assunto. O primeiro foi repleto de platitudes como “não apoio a chacina” e “não vamos culpar todos os muçulmanos”; platitudes porque nenhum ser humano decente apoiou a chacina, e porque a condenação dos assassinos e a separação entre muçulmanos e terroristas foi feita por todos os líderes mundiais, principalmente pelas lideranças islâmicas. Rupert Murdoch foi contra a corrente, é verdade; mas Murdoch não conta porque é escória.

O segundo, em que republicou um artigo primeiro atribuído ao padre Antonio Piber, e posteriormente ao jornalista Rafo Saldanha, é diferente.

Num texto canalha, que acusa a Charlie de perseguir muçulmanos sem explicar o contexto em que o confronto se acirrou (em 2006 a revista republicou as charges do jornal Jyllands-Posten ridicularizando Maomé [charges que este blog republicou na época], como uma atitude de solidariedade e defesa do direito de expressão diante das ameaças que o jornal dinamarquês sofreu por causa delas; por isso passou a também receber ameaças que chegaram a um atentado em 2011 e culminaram na chacina da semana passada), ele classifica as charges do Charlie como “criminosas”. O adjetivo não é inesperado de um representante da velha e boa Igreja Católica Apostólica Romana: a tradição nos lembra que qualquer coisa desabonadora que se diga sobre ela é considerada criminosa.

Ele diz ainda que a Charlie Hebdo é covarde; o atentado de 2011 e a chacina da semana passada deveriam servir para que ele entendesse que, certos ou não, o que não faltou aos cartunistas da revista foi coragem. Se não bastam, o ataque ao Hamburger Morgenpost e principalmente os massacres hediondos que o Boko Haram vem conduzindo na Nigéria, e que só este ano mataram mais de 2 mil pessoas, deveriam ao menos explicar que muçulmanos são, sim, minoria na Europa, mas o alcance daquela minoria de fanáticos que se dizem inspirados por eles pode ser gigantesco. Enfrentá-los é indício de coragem, acima de tudo. Coragem que não tiveram, por exemplo, os meios de comunicação que borraram as capas da Charlie em suas reportagens sobre a chacina.

É triste que um homem que foi calado pela Igreja Católica hoje se resigne a amplificar seu ideário reacionário disfarçado de respeito ao diverso.

O trecho que mais incomoda, no entanto, e que é o que tem a ver com este post, é esse:

“O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?”

Essa eu posso responder, e nem preciso mencionar os problemas que, além da lógica e da decência, o sujeito tem com a ortografia: porque quando o cristianismo não era banalizado destruiu cietualmente todas as culturas ocidentais. Porque perseguiu, calou e assassinou milhões de pessoas, de Justiniano massacrando 30 mil pessoas no Hipódromo e fechando a Academia de Platão, passando pelos pogroms russos e pelo Holocausto, pelo massacre de Sabra e Chatila e chegando às explosões periódicas de clínicas de aborto nos EUA — sem esquecer, claro, de São Tomás de Torquemada e sua Santa Inquisição. É preciso porque, em nome de sua fé, o cristianismo extinguiu civilizações inteiras no Novo Mundo e persegue, até hoje, os adeptos das religiões africanas e brasileiras.

Charb disse, uma vez, que o Islã não era sagrado para ele, que ele não lhe devia respeito. Ele estava certo. Então vamos todos acabar com as nossas imagens de Deus barbudinho na nuvem porque o judaísmo não permite representações do Bambambam? Não podemos dizer que Jesus é filho do Boto porque os cristãos se ofenderão? Se Maomé, Jesus ou Jeová são sagrados para eles, ótimo: eles que respeitem e estabeleçam as regras rígidas que quiserem para os seus fiéis. Mas não se pode exigir que os outros sigam os mesmos padrões.

Paradoxalmente, em um mundo cada vez mais multicultural, é apenas o direito à irreverência em relação às outras religiões que garante o direito ao exercício da sua. O contrário é o totalitarismo que vimos durante o auge do domínio católico e vemos hoje no mundo islâmico.

Por isso, uma das maiores conquistas das sociedades ocidentais foi garantir o direito de expressão. O direito a falar o que você pensa, sem medo de ser morto por isso. Esse direito dá a você a responsabilidade pelo que fala, e só a você. À sociedade, reserva os mecanismos sociais para tornar o seu discurso irrelevante. (O Sergio Leo deu o link para um artigo instigante de David Brooks no New York Times sobre o tema: “I am not Charlie Hebdo”.)

É o exercício desse direito que possibilita, por exemplo, que neo-nazistas saiam hoje em passeatas pelas ruas. Sempre conhecemos a ideologia nazista, e pelo menos há 70 anos já sabemos do que são capazes. Cabe à sociedade combater suas ideias: mas não é calando-os que vamos conseguir isso. É justamente permitir que eles marchem com suas suásticas ridículas e suas ideias canalhas que nos faz melhores que eles.

Acima de tudo, e essa é a verdadeira questão, é muito fácil defender o direito de expressão daqueles que não incomodam, daqueles que só expressam aquilo que já ouvi chamar de “as ideias certas”. Isso não é defesa de um direito, é a defesa pura e simples de um interesse individual: é aquilo que você mesmo defenderia. Não há nenhum mérito nisso. Você defende a si mesmo.

É muito fácil, por exemplo, defender a liberdade de expressão usando uma tirinha mediocremente chata como aquela do Armandinho. Bons sentimentos não são alvo de pressão, não são vítimas de censura. Todo mundo gosta do bonitinho ou do conformista. Ninguém censurou, por exemplo, os elogios à ditadura militar brasileira ou ao regime de Pinochet. No mundo desses fundamentalistas fanáticos, ninguém mata alguém por dizer Allāhu Akbar.

Difícil é defender o direito do outro falar aquilo que nos desagrada. Como disse um biógrafo de Voltaire, numa frase erroneamente atribuída ao seu biografado, “estou em desacordo com cada uma de suas palavras, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. Esse é o verdadeiro desafio.

É bizarra a ideia de que alguém admita viver em um mundo em que há temas em que não pode falar — não porque não ache que deva, mas porque não permitem. É por isso que o verdadeiro desafio sempre esteve em garantir à Charlie o direito de fazer humor como quer. Agressivo, sim. Ofensivo, se necessário. É nisso que consiste o direito de expressão, e em mais nada. E é triste ver que parte da sociedade brasileira falhou diante desse desafio.

Normalmente eu não diria que sou Charlie. Porque não vejo graça em muitas de suas piadas — para mim pecado maior que a eventual ofensa — e, sim, considero algumas delas ofensivas e desnecessárias para o meu gosto. Mas hoje ser Charlie quer dizer, acima de tudo, respeitar e defender o seu direito de publicá-las. Diz respeito a tomar uma posição clara em relação ao direito de expressão, reafirmá-lo como um direito universal inalienável. Hoje, relativizar a morte dos cartunistas da Charlie, culpá-los pelo seu destino, é dar alguma razão àqueles que os mataram, é dizer sim a esse tipo de violência.

E por isso eu sou, sim, Charlie.

Abercrombie, Fitch e os idiotas

Uma campanha diferente foi deflagrada semana passada no Brasil, seguindo os moldes de campanha semelhante nos Estados Unidos. É uma resposta à declaração de Mike Jeffries, dono da marca Abercrombie & Fitch, de que não faz roupas para gordos porque quer apenas gente descolada e invejável usando seu produto.

Para mostrar o quão inadequadas as pessoas consideraram essas declarações, grupos nos EUA e aqui resolveram doar roupas da marca para mendigos, em protesto à discriminação e ao preconceito de Jeffries.

Essa campanha é uma das coisas mais idiotas e hipócritas que vi em muito tempo, e é prova cabal da imbecilidade generalizada neste início de século.

Seu problema central é que a Abercrombie & Fitch tem o direito de focar seu produto no target que quiser. Se não quer vender para gordos, problema dela. Mas ela só faz isso — abdicar de um nicho em crescimento rápido e constante — porque funciona, porque é assim que o rebanho age: ele está disposto a pagar um ágio bem razoável por uma simples imagem, e nada mais que isso.

O erro do dono da Abercrombie não foi ser canalha — até porque não fazer roupa para gordos não é canalhice, é opção de mercado, assim como não é canalhice da Chanel não fazer roupas para pobres. Seu erro foi explicar a lógica do que faz. Numa sociedade cada vez mais hipócrita, que transforma uma alucinada como a Angelina Jolie em heroína, você pode fazer o que quiser, desde que não assuma publicamente.

A Abercrombie & Fitch não é uma grife de preços excessivamente exorbitantes. Segundo dizem, suas camisas custam em torno de 80 reais. São caras para o que realmente valem, mas não são inacessíveis (parece ser, por exemplo, a marca preferida do bom Nissim Ourfali — que é magro). É uma roupa para a classe média metida a besta. Mas isso é o beabá da propaganda: posicione bem o seu produto, faça-o parecer melhor do que é, e eles virão até você.

O posicionamento da Abercrombie & Fitch é válido do ponto de vista do mercado. Funciona porque entende o comportamento da humanidade. Mas as mesmas pessoas que compram, ou gostariam de comprar, suas roupas por serem pretensamente elitistas não admitem que ela assuma sua postura, porque isso as forçaria a admitir que esses também são os seus valores.

Em vez de protestar, as pessoas deviam era procurar entender o que faz a marca se posicionar dessa forma, esnobando a legião de gordinhos que atravancam as filas do McDonald’s, e entender o que as faz desejar uma camiseta comum com uns retalhos costurados em cima. Mas é difícil que façam, porque não iam gostar muito das conclusões. Assim como Mike Jeffries, elas também querem roupas que não sirvam em gordos e que façam delas, automaticamente, pessoas mais “cool” do que jamais conseguiriam ser sem ajuda. É por isso que tem coisas na vida que a gente simplesmente não deve falar: este é um século que recompensa a hipocrisia e pune a honestidade.

Mas é a campanha em si, nascida nos EUA, que me incomoda — ao resto já estou me acostumando, anos exposto ao Facebook me acostumaram a esse macaquear impostor. Me incomoda não apenas porque esse pessoal não passa muito de um bando de idiotas fúteis que se mobiliza para brigar com uma marca direcionada a gente que se pretende bonita, magra e rica e, portanto, ignorada pela grande maioria da humanidade. Mas porque a própria ação é ainda mais elitista que a Abercrombie & Fitch.

O foco aqui não é o bem-estar desse pessoal que está no extremo oposto do público-alvo da marca: é só protestar contra o posicionamento assumido por ela, diminuindo seu valor ao associá-la a mendigos. O recado é simples: “Vocês não são ‘cool’ porque mendigos vestem suas camisas. Mendigos, ora. E isso me faz mais ‘cool’ que vocês”

Pelo preço que se compra uma camisa da Abercrombie & Fitch o sujeito que está fazendo essa campanha poderia comprar alguns cobertores para proteger os mendigos paulistanos no frio que se aproxima. Era isso que o faria melhor que o Mike Jefrries, não um protesto que humilha seres humanos destituídos, utilizando-os apenas para desvalorizar uma marca de roupas.

Isso é o mais triste nesse protesto: esses assim chamados militantes, com sua “ira justa” de classe média estultificada, dão mais valor à marca que à dignidade das pessoas. Mas quem está preocupado com eles? Mendigos não são tão importantes quanto uma marca que não gosta de gordos, nem quanto a mídia gratuita que se pode conseguir às suas custas. Mas pelo menos agora eles dormem na rua vestindo uma camisa da Abercrombie & Fitch.

O século XXI

O século XXI é isso: o arroz simples que você comeu a vida inteira, que milhões de brasileiros e brasileiras cozinham todos os dias sem sequer pensar no assunto, que sempre foi era a parte mais fácil do almoço, agora se chama pilaf e tem história, tem um contexto, e se sofisticou para continuar sendo, no fundo, a mesma coisa.