Nossos comerciais, por favor

Infelizmente, por motivo de viagem, este blog vai passar por um pequeno recesso durante os próximos dez dias.

Rafael tem que fazer o seu trottoir.

Por isso, resolvi publicar aqui um pequeno esquete escrito há mais de dez anos. Depois dos acontecimentos de agosto de 1997 ele perdeu o sentido e a família real saiu de moda. Mas, com todo o cabotinismo de que sou capaz, ainda acho bastante interessante. E é, provavelmente, a única ocasião em que acertei em uma previsão.

Um abraço a todos, e até a volta.

Noblesse obliges

Palácio de Buckingham. Interior. Noite. Em uma sala luxuosa, decorada em estilo vitoriano, encontra-se reunida a Casa Real de Windsor. Presentes a rainha Elizabeth, sentada em frente a uma escrivaninha amontada de papéis, o príncipe Charles agarrado a uma samambaia, o príncipe Andrew ao seu lado, o príncipe Edward abandonado em um divã, lady Diana sentada ao lado do chefe da Guarda Real, acariciando suas coxas. Afastado do centro, o príncipe William assiste a tudo.

ELIZABETH: Muito bem. Os jornais já estão reclamando: dois meses e nada, nadinha.

Silêncio.

ELIZABETH: Qual é, pessoal? Precisamos de um escândalo, um escandalozinho que seja. Pelo amor de Deus, o que é que vocês querem? Acabar comigo? Por favor, colaborem! Defendam o que é de vocês!

Pausa. Ela olha para Charles.

CHARLES: Não olhe para mim. O último escândalo foi meu. Fui eu que dei. Por falar nisso, a Camilla quer o cheque dela.

Elizabeth finge que não ouviu e olha para o outro lado.

ELIZABETH: Di?

DIANA (parando de passar a mão na coxa do major): Pelo amor de Deus, Bess, eu não! Desse jeito vão cansar de mim. Ainda estão comprando a minha biografia. Um escândalo agora seria demais, você não acha? Pelo menos não tão cedo. (Pausa.) E tem uma coisa que eu queria falar, Bess: estou levando prejuízo nessa história. O dinheiro vai quase todo para o Morton. Bem que eu queria escrever minha própria autobiografia, mas você disse (em falsete) “não, não fica bem, deixa alguém escrever.” Certo. Fiz o que você mandou. O Morton escreveu e está enchendo o rabo de dinheiro. Eu devia parar de ouvir você. Nunca mais eu ouço você, nunca mais.

ELIZABETH (demonstrando ostensivamente infinita paciência): O que é que você queria, Diana? Você acha que eu sou maluca? Você é a nossa galinha dos ovos de ouro — perdão. Se você escrevesse a sua história, ela só podia sair de duas formas: ou ia ser um escândalo total ou então uma historinha de contos de fadas. Se fosse uma historinha melosa iam lhe chamar de mentirosa e aí adeus, Diana. As pessoas gostam de você porque parece sincera e sofrida, porque agüenta o Charles, você não viu aquela pesquisa? Mas, é claro, você poderia apimentar tudo e fazer um livro de deixar a vaca da duquesa de Windsor vermelha de vergonha. Pois se fosse um escândalo todo mundo ia achar que era tudo verdade, e quem vai ter pena de uma piranha, de uma vagabunda que faz tudo aquilo que está no livro? E aí, minha filha, fim de escândalos. E fim do seu cheque no fim do mês. Você ia ter que voltar a dar aulas para aqueles bacuris catarrentos naquela escola mixuruca, onde o máximo de escândalo que você ia conseguir era deixar que um idiota qualquer te fotografasse usando uma saia transparente. Você ainda lembra dos tempos difíceis, Di? Você quer voltar a eles?

Diana olha para baixo, volta a olhar para Elizabeth, sorri sem graça.

DIANA: Você tem razão, Bess. Desculpe.

ELIZABETH: Esquece. (Voltando-se para Andrew) E você, Andrew-my-darling? Tem alguma idéia?

ANDREW (com cara de enfado): Ah, mãe, tudo sobra para mim! Eu levei um baita corno no ano passado, lembra? E lembra quanto custou aquela viagem para que a Sarah pudesse fazer a parte dela? Eu lembro: uma grana, mãe, uma grana. O povo reclamou nem tanto de eu ter levado um chifre, mas de ter esbanjado o dinheiro deles. Aí a Sarah se mandou pra Argentina, e quem teve que ficar aqui agüentando as piadinhas de corno fui eu. Sei não. É melhor dar um tempo.

ELIZABETH: Mas meu filho, a gente podia criar uma bela história pra você. (Pausa.) Veja só: você podia desertar da Marinha…

ANDREW: Nem pense nisso, mãe. Marketing errado. O povo ia ficar com raiva de mim. Ia me achar um traidor. No mínimo um covarde. Afinal o dinheiro que a gente gastou para botar o moral das Forças Armadas lá em cima foi bem gasto…

ELIZABETH: É, tem razão… Deixa ver então… Que tal punk? Você não conhece nenhum príncipe punk, conhece?

ANDREW: Isso combina mais com o Charlie.

CHARLES (enfático): Me deixa fora disso!

DIANA: Ei, por que é que a Anne não está aqui? Talvez ela pudesse ajudar.

ELIZABETH: Ajudar como?

DIANA: Ora, Bess, ela se casou agora, não foi?

ELIZABETH: Foi.

DIANA: E existe algo mais excitante que traição na lua-de-mel?

ELIZABETH: Eles não estão mais em lua-de-mel.

DIANA: E de que isso importa? A gente grava uma fita com a Anne telefonando e se referindo ao casamento recente. O Charlie é bom de imitar vozes, diz umas putarias para ela. E depois a gente arranja alguém para ser o caso dela. Fácil.

ELIZABETH: Mas quem?

DIANA: Um soldado, ora. A Anne sempre gostou de soldados. Ela até já casou com um. Além disso o povo gosta, e cobram pouco. (Para o major) Não é nada pessoal, meu bem.

ELIZABETH: Não… Acho que não ia dar certo… A Anne já corneou o Mark antes. É repetitivo. Os jornais já disseram tudo o que tinham para dizer da… (Pára, iluminada por uma idéia.) Esperem! Acho que tive uma idéia! Genial, genial!

TODOS (vozes misturadas, balbúrdia): Que foi? Diz! Conta logo!

ELIZABETH: Incesto! É isso! Incesto! Charles e Anne! Mas que grande idéia! Caralho, isso nem aquele povinho de Mônaco fez ainda!

CHARLES (se levanta, transtornado): Não, não, e não! Puta merda, sempre que tem bagulho no meio sobra para mim?! Primeiro foi aquela crioula brasileira ridícula — eu até tive que dançar com ela, lembra? Que vergonha, meu Deus… Depois casei com a Diana e pensei que iam me dar uma folga. Porra nenhuma, era só um refresco. Aí vocês me castigaram com a Camilla. Mãe, eu já vi um acidente de trem na Índia. Mais de 300 mortos. E eu juro: aquilo não era tão feio quanto a Camilla nua. Porra, aquela do Tampax foi foda… Até hoje, quando lembro disso no almoço, eu perco o apetite. Agora vocês querem me empurrar a Anne. Ah, não. Aí já é sacanagem.

ELIZABETH: Mas, Charlie…

CHARLES: Não!

ANDREW: Mãe, eu tive uma idéia.

ELIZABETH: Ah, meu filho, idéias são o que eu mais quero agora. Vamos, meu amor, diga, diga, diga!

ANDREW: Que tal se o Edward pegasse Aids?

EDWARD (levantando-se do divã): Eu? A maldita? Ohhh… (Desmaia. Diana e o major ajudam-no a se recompor.)

EDWARD (irritado): Você sempre querendo me foder, né?

ANDREW (irônico): Eu teria que pegar uma fila imensa…

EDWARD: Seu corno!

ANDREW: Viado!

EDWARD: Corno!

ANDREW: Viado!

EDWARD: Corno!

ANDREW: Melhor tomar corno que tomar no cu!

EDWARD: Eu gosto e pronto! Corno manso! Chifrudo!

CHARLES (abraçando a sua planta): Parem com isso! Parem, agora! Vocês estão assustando a Gertrude! (Para a planta, em tom doce) Calma, Trudie… Isso vai passar logo… Daqui a pouco a gente vai embora daqui…

ELIZABETH (exasperando-se, dando tapas na mesa): Vocês dois, parem com isso, já! Vocês parecem crianças! É isso o que vocês são: crianças. Crianças mimadas. Parece que não percebem que têm a responsabilidade de um império nas mãos. Irresponsáveis. (Olha suplicante para Diana) Di, você não…

DIANA (interrompendo-a): Já sei! Tão simples, meu Deus! Chama a Sarah, Bess. Faz tempo que ela não dá as caras.

ELIZABETH: Eu não sei… Se tivesse outro jeito… (Pausa. Elizabeth pensa) É, Di, gostei da idéia… É boa. (Pega o telefone. Disca. Espera) Alô? Sarah? Sou eu, Elizabeth. Tudo bem com você? Recebeu seu cheque direitinho? An-han… Que bom. Fergie, meu amor, sabe o que é? Eu andei pensando muito em você ultimamente e…

SARAH FERGUSON (voz em off): Ah, não, Beth. Nem pensar. Porra, da última vez eu tive que mostrar meus peitos. Ninguém teve que mostrar os peitos, só eu. Por que não mostram os da Diana agora? Não são grande coisa, mas… Sei lá, manda ela fazer um filme pornô quando tinha quinze anos, uma coisa desse tipo. Eu mereço um descanso. Me deixa fora dessa! (Desliga o telefone.)

ELIZABETH (balançando a cabeça, desanimada): Essa Sarah… Intempestiva, não?

DIANA: Sempre foi uma mal-educada e desbocada e incompreensiva. Desligou na sua cara, Bess. Na sua cara. Você tem que fazer alguma coisa.

ELIZABETH (resignada): Deixa pra lá, Di. Reinar é isso mesmo, é a arte de engolir sapos. Mas como cansa, meu Deus… Tem cada um enorme…

CHARLES: Mãe?

ELIZABETH: Fala, filho meu.

CHARLES: Por que a gente não usa a vovó desta vez?

ELIZABETH: Onde já se viu velha dar ibope, filhote? Se desse, você não acha que ela já tinha ido parar nos jornais? Você acha que eu não pensei nisso, que não penso nisso toda noite, quando vejo aquela velha encher o rabo de comida e peidar e arrotar a noite toda sem fazer nada? Deixa de ser burro, meu filho…

Charles baixa a cabeça amuado.

ANDREW (resmungando, à parte): Eu ainda acho que o Edward devia arranjar um caso público e pegar Aids.

ELIZABETH (colocando as mãos na cabeça): Ai, meu Deus… Está cada vez mais difícil, e eu não conto com a colaboração de vocês… Se pelo menos o Maxwell estivesse aqui… Ele teria uma idéia. Ele era tão bom nisso. Sinto tanta falta do Bob nessas horas… Nós precisamos de novidades. O público quer sempre mais, não passam de uns abutres. Enquanto eram só besteirinhas era fácil, mas agora… Agora só falta um de nós matar o outro.

EDWARD: Quer que eu mate o Andrew? Dou umas três giletadas na cara dele, faço um buraco do tamanho de Piccadilly Circus na bochecha dele, arranco os seus cabelos…

ELIZABETH (horrorizada): Eddie! Isso é coisa que se diga?

ANDREW: Ele queria que eu pegasse Aids!

ELIZABETH: Foi só brincadeirinha, não foi, Andy? (Andrew olha para o lado e começa a assoviar o God Save The Queen) Você não pode ter levado isso a sério, Eddie… O Andy ama você, é seu irmão. E ainda que não amasse, ele sabe a falta que você faria aos negócios. (Pausa.) Vamos, meus queridos, qualquer idéia serve. Sexo, mentiras, traição. Qualquer coisa. Vamos! Precisamos trazer divisas para o país! Precisamos manter a monarquia viva! (Solene.) Se eu não fosse tão importante pra manter a estabilidade desta bosta, juro que arranjava alguma coisa para mim. Sei lá, algo assim como a Belle de Jour, por exemplo… (Elizabeth levanta os olhos para o alto, suspira longamente, sonhadora. Volta a si de repente, batendo palmas.) Vamos, meus queridos. Precisamos de novidades, urgente! A Inglaterra não pode parar!

Todos se calam, concentrados. Longa pausa.

Diana olha com expressão ausente para o seu filho William, que sentado do jeito como está é o mais perfeito retrato da pureza infantil.

Ela volta a olhar para Elizabeth.

DIANA: William.

Todos olham para William. Ele se encolhe ao ver todas as atenções voltadas para ele. Então todos voltam os olhos para Elizabeth, cujo olhar é indecifrável.

Apagam-se as luzes. Fecham-se as cortinas.

ELIZABETH (voz em off): Di, você sempre foi a mais inteligente da família…

Após cinco segundos a claque inicia os aplausos.

Como diriam os Titãs…

Um comentário do Tuzi ficou me incomodando esses dias.

Falando da Benedita, ele notou que, por ter comido o pão que o diabo amassou com o rabo, ela deveria ter aprendido a evitar cair nessas armadilhas da vaidade em que está sempre caindo.

O Tuzi comete o mesmo pecado que eu: acreditar que a experiência negativa nos ensina a evitá-las.

Temos a noção meio romântica de que a pobreza nos ensina invariavelmente a ter um senso de ética mais rigoroso e mais humano. Sei de alguém que acreditou ainda mais nessa idéia, um velhote barbudinho chamado Karl Marx. A idéia de que o proletariado, ao se desenvolver e organizar, acabaria optando pelo socialismo é apenas essa noção enfeitada por uma base teórica hegeliana.

Infelizmente, todos nós estamos errados, mesmo que as nossas crenças — talvez fosse mais adequado dizer fé — sejam mais bonitas.

Miséria não ensina nada a ninguém, a não ser talvez que é sempre urgente evitá-la.

O Jogo do Foda-se

Alguém já prestou atenção à sensação de alívio que às vezes se tem quando tudo dá errado?

Passa-se, por exemplo, por horas ou dias de angústia, e tudo dá irremediavelmente errado. E então, como por milagre, toda a ansiedade vai embora, e fica apenas a sensação de que, mesmo com tudo devidamente ferrado, pelo menos você está livre daquela agonia. É como se o caminho estivesse liberado para o futuro. Quase como começar de novo.

Mas tem horas que nem isso acontece. E foi por essa razão, aliada ao fato de carregar uma herança genética de séculos de baianidade, que decidi seguir o caminho de Pollyanna e inventei o Jogo do Foda-se.

É para aqueles momentos em que o tal “Jogo do Contente” não funciona, porque não há qualquer motivo para você ficar feliz.

Deu tudo errado e mesmo assim você não está aliviado? Então dê de ombros, admita que você não pode resolver e diga, tranqüilamente: “Foda-se”.

Mademoiselle D'Aiglemont

O blog da Julia foi parar merecidamente no What’s Up do Blogger.

Só acho que o sujeito que escreveu sobre ele foi econômico demais. O blog é engraçado, leve e interessante. Merece muito mais que uma notinha. Blogs não tão bons receberam mais elogios.

De qualquer forma, Rafael não seria Rafael se não fizesse uma pequena maldade, e não publicasse essa foto da Julia em um momento de absoluta meditação.

ECAD

Eu nunca parei para pensar no ECAD até que vi um anúncio deles na Veja. No anúncio, eles reclamavam que o promotor do show do U2 no Brasil não pagou os direitos autorais devidos. Enquanto isso, na Argentina (segundo o anúncio), pagaram quase 1 milhão de dólares. Eu não sabia que os milongueiros lá do sul eram tão otários.

Foi quando vi o absurdo que é o ECAD. Não consta que o U2 cante músicas dos outros. Portanto, de acordo com o ECAD eles teriam que pagar para tocar suas próprias músicas.

Isso não é arrecadação de direitos autorais. É, simplesmente, uma espécie de imposto ilegal sobre uma manifestação artística, feita de uma forma covarde: através de uma legislação canalha.

Mais que isso, é apropriação do talento e do suor dos outros. Um grupo de gente esperta decidiu que os outros trabalham, criam e eles recebem dinheiro por isso. É algo muito semelhante à proteção vendida por mafiosos.

Eu não entendo do assunto, claro. Mas de vez em quando o ECAD aparece nos jornais porque alguém se revoltou contra o seu esquema de extorsão. E parece estar na hora que um Elliott Ness acabe com essa farra.

Fixing a Hole

Tem outro beatlemaníaco por aí, o Galvão do Valle. Deve ser primo, sei lá, mas na minha família de insanos irremediáveis o único acometido por essa doença específica fui eu, até onde sei.

De qualquer forma, o Galvão 2 é provavelmente um garoto, ainda descobrindo os Beatles; daí essa devoção cega.

Essa é uma sensação absurdamente deliciosa, que perdi há muito tempo; hoje nem mesmo uma canção inédita que eu eventualmente desconheça causa essa empolgação, porque em 5 segundos posso dizer exatamente em que época foi gravada; em alguns minutos talvez até possa dizer quem toca o quê. É o que se ganha depois de milhares de horas ouvindo e tocando as músicas dos Beatles. O mistério, aquela coisa análoga ao casal recém-apaixonado que se delicia em descobrir detalhes do ser amado, já acabou faz um bom tempo.

Mas o amor apaixonado do Galvão 2 não devia ofuscar o seu juízo. O Let it Be… Naked é um anti-clímax para quem vem esperando o lançamento do Get Back.

Em primeiro lugar, é um roubo. Serão dois CDs, com cerca de 60 minutos ao todo. Para que se tenha uma idéia, eles tinham à disposição mais de 100 horas de gravações. E em cada CD cabem 80 minutos de música. Resultado: poderia haver pelo menos mais 1 hora e 40 minutos de música. E naqueles arquivos há uma infinidade de pérolas — Wake Up in the Morning, If Tomorrow Ever Comes, Watching Rainbows, entre dezenas de outras; e estou só citando “originais de Lennon e McCartney” que nunca foram lançados.

Deixa só eu relembrar o que foi o projeto Get Back. No final de 68, com os Beatles se recuperando das gravações do Álbum Branco e com o pau começando a comer de verdade entre eles, McCartney teve a brilhante idéia de fazer a banda voltar a tocar ao vivo. Conversa vai, conversa vem e acabaram decidindo por um documentário para a TV que mostraria o processo de criação e gravação de um disco dos Beatles; originalmente deveria culminar em um show no Roundabout, uma boate de Londres (uma idéia brilhante, de fazer um show em Pompéia, foi abandonada e mais tarde resgatada pelo Pink Floyd).

O programa de TV deveria mostrar os Beatles de volta as raízes, ensaiando à exaustão para gravar tudo em um take só, sem overdubs, sem nada daquele aparato de estúdio que vinham usando desde o Revolver. Daí o nome Get Back: de volta às origens.

O que se viu, no fim das contas, foi o documentário da desintegração da banda, e o agravamento da crise entre eles. George abandonaria a banda nesse período (“See you ’round the clubs“), mas voltaria e eles terminariam as gravações com o show no telhado da Apple, interrompido pela polícia.

O resultado foi tão miserável que eles simplesmente abandonaram o projeto e gravaram o Abbey Road; e em 20 de setembro de 1969 Lennon avisou que estava fora.

Mas mesmo assim eles teriam que lançar o Get Back, e Lennon chamou Phil Spector (um grande, grande produtor) para dar um jeito naquilo. Spector deu, embora McCartney nunca tenha ficado satisfeito. O álbum Get Back recebeu o nome de Let it Be e acabou sendo lançado um mês após o fim oficial da banda. O filme, em vez de ir para as TVs, acabou nos cinemas.

Pois bem.

Nesses 30 anos, o que os fãs sempre quiseram ver foi o Get Back original, “as nature intended“, mixado por Glyn Johns. Mas o que eles estão lançando agora, na verdade, é só uma releitura do Let it Be. Se o projeto original tinha uma unidade conceitual, o que McCartney e Yoko Ono estão lançando agora é só mais um caça-níqueis, uma maneira de faturar uma graninha a mais.

E sabe por quê? Porque eles sabem que os fãs vão comprar de olhos fechados. E ainda achar uma maravilha.

Quer um conselho? Procure por aí (na internet você acha de graça) os bootlegs lançados a partir dessas sessões. O Thirty Days é um dos mais completos. Ao que tudo parece indicar, vale mais a pena.

Guitarras

Tuzi, eu não sou o maior fã de Hendrix no mundo. Mas acho exagero dizer que ele só tinha criatividade.

Até porque a criatividade só se manifesta plenamente, mesmo, quando tem uma base técnica muito forte. E se tem algo que aquele rapaz conhecia era cada detalhe de sua guitarra. Mais que isso, o sujeito tinha raízes muito sólidas no blues. O que eu quero dizer é que tecnicamente ele era excelente, também.

Hendrix mudou a forma como se toca guitarra. Clapton e boa parte dos outros não fizeram isso; aliás, o Clapton de que gosto é aquele que tocava com John Mayall, quando era conhecido como Deus e como Slow Hand. É curioso comparar a gravação de Steppin’ Out dos Bluesbreakers de Mayall com a gravação do Cream; de virtuose Clapton tinha passado a exibicionista. E deixou meio de lado aquelas “seguradas” de notas que pareciam impossíveis.

E eu não conheço o Jason Becker, não. Culpa minha: ouço cada vez menos música moderna.

Quinze bichas enrustidas

Do Ancelmo Góis, hoje:

Na madrugada de segunda, por volta das 2h, uns 15 adolescentes, com porretes, acredite, agrediam gays, lésbicas e simpatizantes que saíam do Club GLS Dama de Ferro, em Ipanema. A polícia, chamada, não apareceu.

A Mônica é quem milita contra a homofobia, não eu. Nunca fui capaz de negar os meus próprios preconceitos — e admito até gostar deles.

Mas uma coisa é ter preconceitos, outra é pegar um pedaço de pau e sair batendo em homossexuais que estão cometendo o crime de se divertir.

Homofobia, para mim, é simplesmente a incapacidade de idiotas de admitirem que, no fundo, bem que gostariam estar no lugar daqueles a quem dizem odiar. É medo, é desejo, sei lá — só sei que normalmente são imbecis incapazes de compreender os seus próprios desejos conflitantes.

Essas 15 bichas novinhas de Ipanema estão tão confusas que não entendem sequer o significado fálico “de pegar em porretes”. Nem sequer o benefício da novidade eles têm: sua atitude foi traduzida muito tempo antes de nascerem, em um velho standard americano: You always hurt the one you love.

Sabe de uma coisa? Está na hora da deles se levantarem. Peguem uns 30 viados saradões, agarrem esses meninos, peguem-nos no colo, deitem-nos no solo e os façam mulheres. Provavelmente eles vão acabar agradecendo, e certamente o mundo vai se tornar um pouco menos violento.