Hoje estou cansado e vou passar a noite em casa. Vou aproveitar para beber uma garrafa de vinho, ler pelo menos uma das revistinhas antigas da Disney que baixei ultimamente e assistir a algum filme. “Sartoris” fica para depois.
Queria mesmo era ver um western. Nos últimos dias meu interesse pelo gênero se reacendeu, apesar de tragédias recentes como The Lone Ranger. Sempre foi um dos meus gêneros favoritos, como já disse algumas vezes neste blog, mas depois que finalmente assisti a Heaven’s Gate, o filme de Michael Cimino que destruiu a United Artists e que é o maior caso de filme-malfeito-que-poderia-ser-grande da história, a vontade de ver faroestes ainda desconhecidos parece ter recrudescido. Também a de rever alguns grandes filmes, e talvez hoje reveja “Consciências Mortas”.
O western sempre fez parte da minha vida. Era um gênero tão comum na TV dos anos 70, comecinho dos 80. Acho que já tinha sido mais; anos antes havia um número aparentemente infinito de seriados de bangue-bangue exibidos toda semana, quase todo dia. Mas já não peguei “Bat Masterson”, “O Homem de Virgínia” ou “Chaparral”, não que eu lembre. De qualquer forma, o western ainda era parte importante do imaginário das crianças, e brincávamos de mocinho e bandido e eu tive sucessões de revólveres de espoleta — que aparentemente fizeram de mim um serial killer com 357 mortes nas costas. Pensando bem, talvez reveja “Da Terra Nascem os Homens”, um filme gigantesco de William Wyler que poderia estar sem problemas em qualquer lista de dez melhores westerns da história.
Se havia menos seriados sendo exibidos, para garantir sua programação a TV aproveitava o acervo de mais de meio século de cinema falado. Isso significava que se apoiava, principalmente, na produção americana dos anos 50 — talvez a última grande década do cinema hollywoodiano, e certamente a última grande década do studio system. E boa parte da produção dos anos 50 era, oras, composta de westerns. Acho que podia ver novamente “Um Certo Capitão Lockhart”, porque cowboy mais típico que James Stewart, para mim, só John Wayne.
Se a Sessão da Tarde hoje é motivo de deboche, naqueles dias exibia bons filmes com regularidade. Filmes em preto e branco ainda eram comuns, nem todo mundo tinha TV em cores (trívia: as TVs em preto e branco só deixaram de ser fabricadas em 1997), e a média da grade de programação era muito superior ao que se tem hoje. Por exemplo, vi “Uma Aventura na África” na Sessão da Tarde, além de tudo o que Chaplin fez de importante. Logicamente, nessa época era virtualmente impossível evitar a exposição aos bangue-bangues. A maior parte das pessoas não ligava para eles, claro, e estava mais preocupada com dramas contemporâneos; outras, que sempre gostaram de cavalos e de estourar coisas, se apaixonavam. Ainda hoje, a ideia do cowboy errante com um rifle em sua sela, um cobertor na garupa do cavalo e um cantil ao lado dos alforjes é uma das principais imagens da aventura para mim. Mesmo assim talvez veja “Josey Wales — O Fora da Lei”, um pouco diferente desse arquétipo, mas um filme brilhante, talvez o mais subestimado de Clint Eastwood, e dialoga maravilhosamente com o seu tempo.
O fato é que rever westerns me faz voltar a um blog que, nos últimos meses, se tornou uma verdadeira referência para mim: o Westerncinemania.
O Westerncinemania, se não o melhor, é um dos melhores espaços na web brasileira sobre westerns. Levado adiante pelo Darci Fonseca, é um grande repositório de informação sobre westerns, conhecidos ou não. O conhecimento do Darci sobre westerns é enciclopédico; e o blog parece ter formado uma comunidade de apreciadores e fanáticos que discutem o gênero com propriedade e conhecimento impressionantes. É um dos poucos lugares onde vi, por exemplo, a apreciação equilibrada de um filme superestimado como Johnny Guitar. Seu penúltimo post, sobre o belíssimo “O Preço de um Homem”, é um bom exemplo do que o blog tem a oferecer. “O Preço de Um Homem” tem um Robert Ryan brilhante no papel de vilão. Pode ser esse.
Como eu disse, uma garrafa de vinho e um western. A noite está ganha.
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Devo fazer parte da última geração que cresceu assistindo a filmes de faroeste. Esse pessoal mais novo deve ter visto alguns, fãs de cinema veem uns clássicos aqui e ali, John Ford e Howard Hawks; mas seu interesse é o cinema, não é o Velho Oeste. A minha geração, não: ela tinha na fronteira um referencial não apenas estético, mas ético também. Víamos faroestes o tempo todo, na Sessão da Tarde, no Bangue Bangue à Italiana, Sessão Western. Bons e ruins, claro; mas eram tantos filmes exibidos que, mesmo com o bocado de fitas ruins que faziam a base da programação, provavelmente vi a maior parte dos grandes clássicos do western ali, na TV.
É fascinante a maneira como os americanos, através do cinema e do faroeste, criaram para si mesmos um mito fundador que os países europeus só conseguiram depois de muitos séculos de história. O pistoleiro se tornou o cavaleiro andante; a prostituta, a donzela em perigo; o vaqueiro, o fiel vassalo. Deturpando e mitificando sua própria história, apagando seus crimes e embelezando suas pequenas tragédias, os Estados Unidos criaram um corpo de memórias em umas poucas décadas que lhes deu dignidade, respeitabilidade e um profundo senso de identidade.
A história americana é a história da busca do oeste, desde quando esse oeste era o Kentucky. Mas foi ao roubar ao México uma faixa de terra considerável — Arizona, Novo México, Califórnia — que os Estados Unidos se tornaram o que são hoje. Aquela foi a primeira guerra imperialista americana, uma guerra sem nenhuma justificativa ética ou moral além da cobiça e da necessidade de expansão territorial. Vergonhosa até mesmo para os americanos — nomes como Abraham Lincoln, então deputado em início de carreira, e Horace Greeley se pronunciaram contra ela —, a guerra tornou o “destino manifesto” uma realidade e transformou os EUA numa potência territorial.
E foi ali que se desenrolaram as últimas guerras contra os índios. O cinema se encarregou de mitificar e colocar para sempre na história tribos das Grandes Planícies como Apaches, Sioux, Cheyennes, Comanches, em menor medida os Navajos. Foram essas tribos que barraram a expansão espanhola na América no Norte, que atrapalharam durante décadas a expansão americana, e sua importância jamais poderia ser subestimada. Mas apesar da mitificação hollywoodiana, a grande guerra americana contra os índios se deu no leste. Chocktaw, Shawnee, Creek, Cherokee, Seminole, Chickasaw — tribos menos conhecidas mas vilipendiadas de uma maneira que, exemplificada na Grande Trilha de Lágrimas, deveria envergonhar cada americano, como o tratamento dado aos nossos guaranis caiovás deveria envergonhar os brasileiros.
No meu caso, o amor aos westerns acabou degringolando em uma curiosidade estranha sobre o processo histórico de conquista. Ainda são, para mim, os melhores capítulos da história americana (além de Jamestown com seus casos de canibalismo com a fleuma inglesa e, um pouco menos mas mais importante, Plymouth). Minha antipatia ao que representa a América não se estende à história de sua fundação, mesmo os tantos momentos vergonhosos como o Tratado de Guadalupe. A maneira como, em menos de um século, tomaram conta de praticamente todo um continente é impressionante e, dentro de seu contexto, ao menos parcialmente invejável.
Os comanches são talvez meus personagens favoritos. De tribo vagabunda e humilhada por milênios, em menos de 100 anos se tornaram a nação mais poderosa das Grandes Planícies americanas. Foram eles, junto com os apaches, que barraram a expansão espanhola na América do Norte, e apenas a invenção do revólver de ação dupla possibilitou aos americanos vencer definitivamente a guerra contra eles e os sioux. E tudo isso por causa de uma nova tecnologia: o cavalo.
A chegada do cavalo não teve tanto impacto, por exemplo, no leste americano. É compreensível: numa região com vegetação densa, o bicho não faz tanta diferença. Mas em uma pradaria quase infinita, ele coloca tudo em um nível diferente. Ao dominar o cavalo como pouquíssimas outras tribos, os comanches adquiriram um poder que a maioria dos outros índios americanos jamais sonharia em ter.
Hoje em dia é feio, em muitos círculos, falar qualquer coisa positiva dos colonos americanos que se aventuraram rumo ao oeste. A maneira como seu país roubou terras valiosas aos mexicanos e praticou um dos mais vergonhosos casos de genocídio contra os índios se sobrepõe a qualquer de suas qualidades, e a isso junta-se um processo de “beatificação” do índio, que passa a ser visto, de maneira excessivamente maniqueísta, apenas como o bom selvagem de Rousseau vítima de brancos odiosos.
Mas o fato é que a americana é uma história bela. Uma história que, apesar de tudo, é também a das pessoas que abandonaram tudo em busca de uma vida melhor. E que sofreram, e muito. Essa história é fácil de entender — e infelizmente, mais fácil ainda de mitificar erroneamente. Crescemos com esses estereótipos falsos: do cowboy galante (mal sabíamos que no Oeste se matava mesmo era na tocaia e atirando pelas costas), do índio morto em guerra aberta, do valor pessoal diante dos grandes interesses econômicos. Mas mesmo que tudo isso seja falso, há também o outro lado: o do cotidiano criado por gente que, apesar de branca e de fazer parte de um dos mais canalhas processos históricos, tinha também o seu valor pessoal. A história acaba sendo obra de gente que, apesar de branca, era corajosa e arriscava, ali, não apenas suas posses, mas também suas vidas.
O western conta um pedaço dessa história. Deturpa tudo, repito. Mas como cinema, como entretenimento, é absolutamente fantástico. Para algumas pessoas, o western é a própria definição do cinema, porque é apenas nele que pode existir em sua plenitude. E quem pensa assim tem toda a razão.