A vida, negra e esfumaçada

A Vivien me encaminha um e-mail sugerindo um boicote à Coca-Cola.

Um e-mail desse tipo teria mais chances de sucesso se me propusesse matar minha mãe.

Eu não bebo água. Eu bebo Coca-Cola. Ninguém teria a pachorra de me mandar um e-mail pedindo que eu parasse de beber água. Mas por alguma razão incompreensível acham que eu, Rafael Galvão, marquês de Qüem-Qüem, senhor das luxúrias e deflorador das madrugadas (título usurpado de um amigo pândego que acaba de comemorar 33 anos de prisão e tortura na última grande ofensiva da “ditabranda”, a Operação Cajueiro) vou realmente cometer um crime de lesa-majestade e deixar de beber Coca-Cola.

Falem o que quiserem da Coca-Cola. Mas eu vou continuar trocando água por ela, porque água não tem gosto de nada e Coca-Cola é uma delícia — e o que é a vida além das lembranças das coisas boas que a gente provou ou sentiu? A Coca-Cola é a evolução da água. É a superação dos sonhos de Prometeu: se Deus criou a água, essa coisa insípida, inodora e incolor, nós conseguimos por conta do nosso engenho criar algo ainda melhor, uma neguinha agridoce e efervescente, quase tão gostosa como uma baianinha sambando no ensaio do Araketu. A Coca-Cola é o xeque-mate da humanidade em Deus.

Além disso, em um momento de crise econômica como este, seria o caso de perguntar se essas pessoas sabem quantos empregos a Coca-Cola gera em todo mundo. E deve gerar ainda mais impostos. Eu acho fascinante gente que quer ser politicamente correta à custa dos empregos dos outros. Que quer salvar as pessoas tirando seus empregos.

Esse email — e tantos outros recebidos ao longo dos tempos porque email, afinal, não custa nada — me lembra que as coisas podem ser piores.

Eu fumo, também. Pouco mais de dois maços por dia. É, eu fumo muito. Não precisa me dizer. Eu sei. Por causa disso, entre as coisas que mais ouço cotidianamente está uma frase que, ao longo desses vinte e tantos anos, já sei de cor: “Pare com isso. Sabia que cigarro dá câncer?” E então tenho que controlar a vontade de pedir para a pessoa deixar de ser idiota, ou sugerir que arranje uma trouxa de roupa para lavar, porque essa informação é uma das mais redundantes que pode haver, e só essas pessoas, em sua arrogância e ingenuidade, não percebem isso.

Eu sei que cigarro aumenta os riscos de câncer. Não tem como não saber. Eu e todos os fumantes ouvimos essa arenga todos os dias. Todos os dias.

O problema com essas boas intenções é que a sua repetição monótona é inútil em um primeiro momento, e aborrecida depois. Talvez seja algo no DNA dos não-fumantes, essa idéia de que uma informação tão banal será apresentada a mim como grande novidade, e que a súbita revelação dos riscos à minha saúde, combinada ao seu samaritanismo, me fará deixar de fumar como por milagre.

Eles não conseguem entender que nós, fumantes, temos mais consciência dos problemas associados ao tabaco do que muitos médicos, porque ouvimos tanto a mesma ladainha que não há como esquecer, em nenhuma hipótese. Todo dia, várias chatos bem-intencionados repetem a mesma coisa para nós, como se fosse uma novidade. É impressionante como pessoas de boa índole e vocação proselitista acham que são as únicas a transmitir esse importantíssimo conhecimento arcano. É a sina dos fumantes, encontrar em cada não-fumante um São João Batista anunciando a chegada do Messias — ou, mais propriamente, revelando que cigarro, ora vejam, dá câncer.

Normalmente eu respondo: “Rapaz, isso não é nada. Eu posso ou não ter câncer. Mas enfisema é quase certo” — e a maioria dos bobos fica com cara de quem perdeu a chave da bunda, porque aquela informaçãozinha que eles pareciam julgar tão importante na verdade não era nada; eles não conseguem compreender: como é que eu sei do mal que faço a mim mesmo e continuo acendendo meus cigarros?

Parece difícil colocar algo tão simples na cabeça das pessoas: fumantes sabem os riscos a que estão expostos. Fumamos, no entanto, a despeito disso. Eu não consigo entender bobos que correm sei lá quantos quilômetros por dia; eles não conseguem entender que eu goste de fumar. A diferença é que eu não digo aos corredores para pararem de correr porque podem ser atropelados por um caminhão da Souza Cruz.

Mas há outro argumento, esse o dos assumidamente chatos; aqueles que, não fosse a minha boa natureza pacífica e covarde, eu enxotaria a pontapés e delicadas referências às suas genitoras: o da poluição. É a gente sem noção que reclama que o meu cigarro está poluindo o seu ar.

Eu não tenho carro. Para mim é fácil argumentar que meu cigarro polui menos que o carro do chato que está falando. Alguns insistem, dizem que seu carro é necessário — e aí é só responder “Útil para quem? Para mim com certeza não é.” Outra resposta possível é perguntar se ele come carne. E depois, como os idiotas que nos lembram que “cigarro dá câncer”, lembrar que por causa disso o mundo está indo para o buraco, porque o metano dos peidos das vacas está acabando a camada de ozônio. Vacas peidonas são uma ameaça maior ao futuro do mundo do que fumantes inveterados.

É tão incômodo esse pessoal empenhado em salvar o mundo através da chatice.

Dia desses um amigo mandou um e-mail com um abaixo-assinado pedindo pelas foquinhas que são mortas no Ártico ou Antártida, não lembro bem. Respondi que um casaco daqueles ficaria bonito na minha mulher.

Na verdade, não tenho nada contra as foquinhas. Tenho algo contra peruas fúteis e idiotas que usam casacos de pele de foca. E tenho muito contra abaixo-assinados por causas bonitinhas. Não costumo respeitar gente que do conforto de seus lares com ligações irregulares de esgoto, consumindo supérfluos que custam um bocado em recursos naturais, resolve aliviar sua consciência desnecessariamente culpada fazendo coisas fáceis como encaminhar um abaixo-assinado achando que está salvando o mundo. Não acho honesto, só isso.

Só respeito, mesmo, as iniciativas de gente que se arrisca de verdade por aquilo em que acredita. Gente como os malucos do Greenpeace que jogam seus botes na proa de baleeiras. Esse pessoal eu respeito e admiro; até quase invejo, sentado aqui na minha poltrona na mais santa paz de Deus. Não diria que sinto o mesmo em relação a quem fica em casa tomando H2O ou Aquarius enquanto clama contra a Coca-Cola achando que está fazendo sua parte pelo meio-ambiente.

Então fica aqui um pedido público. Não me mandem abaixo-assinados. Não me engajem em causas bonitinhas porque eu não gosto de causas bonitinhas. Agora me dê licença, que eu vou tomar uma Coca e fumar um cigarro na varanda olhando o rio que corre aqui em frente.

Bangue-bangue

Revi dia desses uma foto minha aos oito anos. Nela estou vestindo calça, kichute e camisa de manga comprida. Não era minha roupa habitual — eu normalmente vestia apenas um short qualquer (na época os shorts de nylon começavam a ser a grande moda) e descia para a rua, para brincar e acumular cicatrizes em virtualmente todo o corpo, além de algumas fraturas aqui e ali. No máximo usava uma sandália — nessa época, Katina Surf.

Mas aquela indumentária específica, naquele dia, era o que eu podia chegar de mais próximo à roupa de cowboy: na cintura havia um cinturão de plástico com dois coldres e dois revólveres prateados de espoleta.

Ver esses revólveres novamente é estranho. Lembro exatamente de quando os ganhei — uma manhã de sábado de 1979. Pela primeira vez eu tinha uma cartucheira — embora ela não fosse de couro, fosse de plástico. Na caixa vinha também uma estrela prateada de xerife.

Revólveres de espoleta foram uma das constantes da minha infância, assim como os bonecos Falcon e os filmes da Sessão da Tarde. Com um revólver na mão tinha-se garantida uma tarde inteira de brincadeiras. Podia-se, com um pouco, quase nada de imaginação, imaginar que postes eram saguaros, que portões de garagens eram celeiros, que ruas asfaltadas eram as ruas empoeiradas de uma cidadezinha qualquer da fronteira, onde iríamos duelar até a morte.

Havia dois tipos de espoleta. Um em que ela vinha em pequenos rolos de papel, as espoletas Ringo, e outro em que elas eram acondicionadas em aros de plástico: eram as espoletas Far-West. Eu preferia, de longe, essas últimas. As espoletas de papel davam muitos problemas. Eram mais baratas, davam mais tiros sem precisar recarregar, mas enganchavam — e se elas enganchavam um dos comanches que eu perseguia poderia me matar.

Nessas horas, todo cuidado é pouco.

Eu tive alguns revólveres daquele modelo Far-West, da Estrela, além de alguns outros. Não sei exatamente quantos revólveres de espoleta eu tive, nem os seus modelos, embora saiba que a maior parte eram o Far-West ou variações. Mas lembro desse que estou usando na foto, provavelmente uma variação do modelo Laramie, com dois revólveres e cartucheiras, um modelo semelhante ao que está na foto ao lado, com a diferença de que não vinha com corda e provavelmente nem com lenço, mas em compensação vinha com uma estrela de xerife e com dois revólveres. Mas eu não gostava tanto deles, porque usavam espoletas Ringo.

Lembro também dos que eu não tive; o Álamo da foto ao lado foi meu objeto de desejo ainda em 1981. Não adiantou que eu atravessasse a rua constantemente para ir namorá-lo no Burako da Fechadura, uma pequena loja de presentes quase em frente ao edifício onde eu morava. Um dia venderam o último exemplar, e eu fiquei sem ele.

Não eram apenas revólveres. Ainda lembro do sábado em que fui com meu pai comprar uma espingarda de espoleta nas antigas Lojas Brasileiras da Avenida Sete. Era uma bem parecida, se não igual, ao modelo abaixo. Com ela pude brincar de Daniel Boone — que não usava revólveres, apenas uma espingarda de caça. Aquela era a também a minha Winchester, e não era difícil imaginar carroções em círculo nos defendendo de um ataque de siouxies ou cheyennes — de apaches nunca, porque apaches eram bonzinhos, pelo menos na maior parte dos filmes — com um sofá e algumas poltronas.

Mas brincar de cowboy e de índio é uma brincadeira que não faz mais sentido hoje. Os referenciais das gerações que se seguiram à minha não estão mais em Monument Valley. Eu e tantos outros crescemos assistindo a faroestes na TV, durante as Sessões da Tarde. Ainda assistíamos a inúmeros seriados como Zorro (o Lone Ranger, aquele com Tonto). Não posso listar o número de bons filmes que assisti ali — Jerry Lewis, Danny Kaye, Burt Lancaster, John Wayne. E à noite, horário interditado para mim, ainda havia o “Bangue-Bangue à Italiana”. Mas hoje faroestes não fazem mais sentido. As Sessões da Tarde são ocupadas por filmes com chimpazés motociclistas e bizarrices como Thunderpants.

Role playing game” também tem um sentido totalmente diferente, hoje. É a vitória dos meninos bem cuidados que ficavam em casa tomando nescau com um termômetro debaixo do braço; o futuro pertencia ao modelo que eles preparavam em seus pequenos ninhos, não ao meu, em que me estabocava no chão de vez em quando e dava e recebia socos, pontapés e ofensas fraternas de amigos que viravam inimigos e depois viravam amigos novamente. Não me cabe dizer se o que foi feito do mundo é melhor ou pior, até porque é um contrasenso dizer que uma brincadeira é melhor ou pior. Mas não é a minha maneira, nem a da minha geração.

Mesmo reconhecendo tudo isso, eu ainda sinto falta de revólveres de espoleta. Eles saíram de moda e foram banidos há mais de 20 anos. Pelo menos sei que não estou sozinho na impressão de que os meus tempos eram mais interessantes: é o caso dos autores do Brinquedos Faroeste, de onde foram tiradas as fotos que ilustram este post.

Ao que parece, isso se deve em parte ao fato de que marginais passaram a usá-los para assaltos (e embora eu confesse que preferiria ser assaltado com um revólver de espoleta em vez de um de verdade, não vou discutir isso). Mas em parte, também, sua queda se deve também à histeria politicamente correta e eminentemente imbecil que acha esses brinquedos excessivamente violentos. Para essas pessoas, brincar com revólveres de brinquedo criava adultos violentos.

Essa justificativa deve ser válida, porque essas pessoas sempre sabem do que estão falando. Tantos anos depois, essa geração que hoje entra em sua terceira década de vida, como se pode ver, está menos violenta. Há menos homicídios. As cidades estão mais seguras. A violência urbana nunca foi tão baixa, e isso se deve única e exclusivamente ao fim dos revólveres de espoleta.

Pequena eulogia a um gênio da raça que desgraçou a si e ao seu mister

Era Jorge Amado quem dizia que a profissão de gigolô era a mais doce que um homem pode ter. Ele tinha razão, como tinha em tantas outras coisas, porque baianos entendem desses negócios da vida.

Repito aqui o que eu já disse sobre esses artistas: um gigolô é um sujeito que ganha para fazer o que qualquer idiota faz de graça. Dizer que a melhor coisa que você faz é sexo não é como dizer que escreve ou elabora e destrincha fórmulas matemáticas complexas. Porque tudo isso é algo limitado, faz parte das habilidades de alguns indivíduos e não de outros, é a própria razão da diversidade humana.

Se alguém diz que pinta melhor do que você, sua resposta pode ser um simples dar de ombros, porque isso lhe importa pouco ou nada. Você nunca pegou em um pincel na vida e isso não significa que ele é melhor que você — você duvida, por exemplo, que ele seja melhor jogador de basquete, e se o Michael Jordan disser que é melhor você pode dizer que entende mais de marcenaria. A vida é um infinito sistema de compensações, e então ficam elas por elas, e os egos de cada um se satisfazem plenamente em seus pequenos universos próprios.

Mas um gigolô, não. Ele faz o que todo mundo faz. E faz melhor. Este é um conceito absoluto, completo. Se tal sujeito é melhor nas lides do amor do que você, ele está se referindo àquilo que você faz com dedicação e abandono, está entrando no seu campo, está lhe vencendo no seu próprio jogo. E você não pode recorrer ao consolo do despeito e da negação, porque as provas estalam em sua cara. É assim que ele ganha a vida. Ele é bom o suficiente para que lhe paguem para fazer, com mais talento, mais sensibilidade, aquilo que você também faz e que constitui uma das partes fundamentais da sua vida. Ele está dizendo que, enquanto você se limita a nascer, crescer, reproduzir e morrer, ele dominou a técnica do supérfluo e elevou o ato da reprodução ao nível de arte, e superou a mera humanidade.

Você é apenas espasmos, gemidos e suor, ele é transcendência. Onde você é tosco, irremediavelmente tosco, ele é um artista. E, sim, se alguém pode dizer que é melhor que você, esse alguém é um gigolô.

Helg Scarbi é um gigolô, e gigolô de alta classe, daqueles que evocam a classe de um Porfirio Rubirosa sem ter o dinheiro que ele tinha. Um gigolô bom o suficiente para conquistar 9 milhões de euros da herdeira da BMW apenas com a sua conversa.

É preciso ser especial para conseguir isso: ganhar 9 milhões de euros de uma mulher. Não é o dinheiro para o carnê das Casas Bahia. Não são os trocados para pagar a conta do bar, ou mesmo a prestação do carro. São 9 milhões de euros, dinheiro suficiente para que algumas famílias vivam bem pelo resto da vida.

Um michê qualquer arranca mirréis a uma velha feia e desesperançada; um gênio e um artista ganha 9 milhões de uma mulher razoavelmente bonita e extremamente rica, como é essa senhora Susanne Klatten.

Se gigolôs já são pessoas acima de você, Herb Scarbi estava acima dos gigolôs. Pertencia a um Olimpo imaginário, um mundo onde gigolôs bebem néctar e comem ambrosia servidos por pequenos Cupidos com bochechas grandes e asas delicadas. E é por ele ter sido tão especial que eu escrevo, em luto, esta pequena eulogia.

Scarbi está preso e foi condenado a seis anos de cadeia, porque depois de ganhar os 9 milhões resolveu chantagear a pobre senhora Klatten. Cometeu um crime perante os homens; mas o que realmente importa é que se desgraçou diante do deus dos gigolôs, seja ele quem for.

O verdadeiro crime de Helg Scarbi foi transformar uma atividade excelsa em algo menor e desprezível. Foi macular a sua arte com a mesquinhez e a ganância e a chantagem. Chantagem e gigolôs não combinam, são como água e óleo. Scarbi não gosta de mulheres, e aí que está o seu problema. Se gostasse veria a beleza suprema em sua profissão; entenderia que a sua labuta tem um lirismo que nenhuma outra pode aspirar a ter. Ele gosta de dinheiro, e é isso que denuncia a sua completa ignorância acerca da arte que, por um acaso da Natureza, ele dominou como poucos.

É um assombro, e um mistério, ver como alguém tão torpe, alguém que não consegue ver a majestade de sua missão neste mundo de amargura e pequenez, conseguiu alcançar os páramos da excelência na arte de fazer uma mulher dar mais que a sua justa cota neste mundo. Scarbi não conseguia sentir que a verdade estava na dobra dos seios da mulher que lhe dava 9 milhões de euros, e que ela tinha que ser amada e respeitada, guardada como uma pequena jóia de valor inestimável. Um homem com o coração negro não consegue ver a beleza sublime que há no ventre de uma mulher.

Tivesse ficado nos seus 9 milhões conseguidos não pela chantagem mais baixa, mas pelo seu talento e gênio, e nós o veneraríamos como alguém que elevou uma doce arte à perfeição. Mas não; Scarbi misturou ao mais nobre ofício de um homem a chantagem e a baixeza, e isso faz o seu crime, e o torna hediondo, e para isso não há, jamais haverá perdão.

Qualquer castigo para Scarbi será pequeno diante do seu ato. É o que diria o sindicato dos gigolôs, se sindicato de uma atividade tão individual e tão meritória houvesse.

É uma triste sina, a dele, triste e irônica. Um homem que elevou o seu mister ao mais alto da glória — apenas para desgraçá-lo e jogá-lo aos porcos depois, em vergonha e nojo. Helg Scarbi é um gênio que se deixou decair ao mais fundo dos precipícios ao macular a beleza da sua arte, e merece o nosso repúdio e o esquecimento da história.

Sobre livros

Há algumas coleções de livros que deveriam ser reeditadas imediatamente. Simples assim.

Uma delas é a “Brasiliana”, da Companhia Editora Nacional, hoje controlada pelo IBEP. A Nacional foi fundada por Monteiro Lobato. Foi provavelmente a editora mais importante do século XX, noves fora, pela sua importância no cenário literário nacional. Tem muita coisa boa ainda em seu catálogo, mas é apenas uma sombra pálida do portento que foi um dia.

Na sua “Brasiliana” foram publicadas, pela primeira vez, algumas das mais importantes obras do pensamento brasileiro. “Sobrados e Mucambos” de Gilberto Freyre, por exemplo, ou ainda “Brancos e Pretos na Bahia”, de Donald Pierson, que um sebo de Salvador vende por 180 reais (na Estante Virtual achei por 40, e esse vai ser um favor que deverei para sempre ao Bia).

Essa coleção é um dos maiores repositórios do pensamento brasileiro no século XX, e não pode ser esquecida.

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A coleção “Clássicos da Literatura Juvenil” foi publicada pela Editora Abril no início da década de 1970, e já foi mencionada neste blog umas duas vezes — uma delas em comparação com a Coleção Vagalume.

A coleção é do tempo em que a Abril, que hoje tenta fazer pouco de qualquer revista ou jornal que lance fascículos, se consolidava justamente com eles — como as coleções de clássicos, bíblias ou enciclopédias como a Conhecer. A “Clássicos da Literatura Juvenil” é encontrada com relativa facilidade em sebos, por preços de vão de 1 a 7 reais, cada. Vale a pena, e é provavelmente a coleção que eu recomendaria a qualquer pessoa, em qualquer tempo.

A coleção é brilhante, perfeita para quem está começando a ler. Não apenas pelos excelentes títulos. Mas porque, com sua capa dura, ilustrações e bom trabalho de edição, ensina as crianças a gostarem do objeto livro. Talvez isso seja meio antiquado numa época em que se tenta vender o conceito de e-book readers, mas à medida que o tempo passa tenho mais e mais certeza de que ainda não inventaram nada melhor que ler um bom livro, numa edição bem cuidada, deitado em um sofá, uma cama ou uma rede, com a perna apoiada sobre uma bunda redonda e quente, enquanto a brisa da praia passa devagarinho por você.

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Outra coleção que deveria ser posta na rua novamente não é propriamente uma reedição.

A editora mineira Itatiaia tem uma das melhores coleções sobre história do Brasil, a “Reconquista do Brasil“. São textos fundamentais da história brasileira. Rugendas, Mawe, Burton, Saint-Hillaire, Ewbank: esses livros são peças fundamentais para quem quer entender a evolução histórica do Brasil. Porque são as fontes originais, utilizadas por praticamente todos os historiadores decentes do país. É comum as pessoas, por exemplo, se posicionarem contra ou a favor de Gilberto Freyre — mas a maior parte dessas pessoas nunca chegou perto do material que ele utilizou para chegar às suas conclusões. Esses livros são o antídoto definitivo contra a epigonia.

Estão todos ali, mas esses livros são vendidos por preços altíssimos, bem acima da média. E os preços altos condicionam também os preços dos mesmos livros nos sebos. Não há justificativa real para isso: a maior parte dos textos originais, inclusive, já entrou em domínio público há tempos. Só são caros assim porque são raros. E só são raros porque, mesmo sendo fundamentais para a formação do pensamento nacional, não encontram competição. Não são livros que vendam muito, não sustentariam a livre concorrência,

Universidades brasileiras, em vez de gastarem tempo e dinheiro financiando pesquisas e teses ruins ou incoerentes, bem que poderiam gastar um pouco de esforço e dinheiro para traduzir e transcrever esses livros, colocando-os em domínio público sob uma licença Creative Commons. Se esquecessem um pouco seus interesses corporativos, estariam prestando um favor maior à cultura nacional do que incentivando seus alunos a publicarem monografias bobas e mal escritas.

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A edição brasileira da “Comédia Humana”, de Balzac, era uma das melhores do mundo.

O responsável por ela foi o Paulo Rónai, que publicou uma edição quase perfeita: excelentes traduções, em português acima da média, com introduções críticas e uma abundância de notas de rodapé explicando o contexto histórico do livro e também as relações com outros livros da “Comédia”. A Editora Globo reeditou esses livros entre o fim dos anos 80 e começo dos 90, mas essa edição está fora de catálogo já há muito tempo.

Eu ainda não faço idéia da razão pela qual a “Comédia Humana” está fora de catálogo. É impressionante que um dos maiores autores da história da literatura mundial esteja relegado à reimpressão de alguns dos seus piores livros, como “A Mulher de Trinta Anos”.

Balzac faz falta.

Decadência e queda da era da imprensa

Tanto o Sergio Leo quanto o Pedro Dória estão discutindo questões semelhantes em seus blogs: a situação de decadência e provável queda da imprensa.

É mais que sintomático que o grande palco dessas discussões seja a blogosfera, e não os jornais. Recentemente a Time tocou no assunto, mostrando incompreensão acerca do mundo que se anuncia propondo micro-pagamentos. Chegou atrasadíssima à discussão; e quem acompanhou o BuzzMachine de Jeff Jarvis nos últimos 5 anos tem uma sensação de dejà-vu.

Este post não pretende discutir propriamente o tema. Jornalistas e diretamente interessados na questão, o Pedro e o Sergio abordam o assunto com mais propriedade do que eu. Mas um ponto defendido pelo Pedro me chamou a atenção. Ele disse que a “imprensa é fundamental para a democracia”.

Isso era uma verdade absoluta até há uns 10 anos, e há uma infinidade de exemplos para provar isso: Watergate, Correio da Manhã, Eriberto, tantos outros. Mas a cada dia essa verdade se torna mais relativa, e está caminhando para ser não mais que uma lembrança de velhos tempos passados.

A imprensa era fundamental por uma razão simples: a propriedade dos meios de produção e distribuição de informação pertencia a poucos. Era caro ter uma prensa, como ainda hoje é caro possuir uma emissora de TV ou mesmo uma rádio. Mas a partir do momento em que, como definiu bem o Pedro, puseram uma rotativa nas mãos de cada cidadão, esse monopólio deixa de existir.

Essa mudança tem sido muito mais rápida do que jornalistas gostariam, e isso é mostrado por uma certa reação à novidade. Por enquanto, os momentos em que blogs trouxeram à tona casos importantes ou mesmo derrubaram jornalistas consagrados como Dan Rather são levados em consideração como casos isolados. São, mesmo. Mas é preciso ter uma coisa em mente: essa é uma mídia que mal completou dez anos. Qual outra teve impacto tão grande em tão pouco tempo, no aspecto da defesa da democracia e de influência política?

Há dois pontos fundamentais, aqui, que deveriam ser analisados de maneira isolada. Uma é a questão da distribuição. À medida que a internet tornou jornais impressos caros e defasados, é natural e inevitável que eles migrem completamente para o meio eletrônico. Esta semana o Seattle Post-Intelligencer, um jornal tradicional, com 146 anos de história, anunciou que vai encerrar sua versão impressa. Recentemente, o Los Angeles Times anunciou que a receita com internet já paga seu corpo editorial, o que permite antever o fim de sua versão impressa em poucos anos.

Até aí a mudança seria razoavelmente pouco importante. Seria apenas tecnológica, e não deveria assustar muita gente. Mas há a questão da produção, também. Essa é assustadora.

A partir do momento em que jornais começarem a disputar com milhares, talvez milhões de outros produtores de informação, a notícia tende a se tornar uma commodity. E é aí que a coisa complica de verdade.

O cerne da questão é que imprensa é, basicamente, a sociedade falando para si mesma. Até agora, era necessária a intermediação de uma classe específica. Essa intermediação, no entanto, começa a se tornar redundante. É a própria função social da imprensa que está desaparecendo.

Essa conclusão é óbvia e já se tornou ponto pacífico: a internet está tornando obsoleto o antigo modelo de jornalismo. Por exemplo, quem vai perder tempo tendo o caderno de arquitetura e decoração do New York Times se, nos blogspots e wordpresses da vida, gratuitamente e por gente muitas vezes muito mais qualificada do que jornalistas, há uma infinidade de excelentes blogs sobre o assunto?

Um exemplo claro da diferença que essa possibilidade de produção de informação faz está no crescente questionamento que se vem fazendo ultimamente sobre a ética dos meios tradicionais de comunicação. Um trecho do post do Pedro explica os padrões ideais dos jornalistas:

Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém.

O problema é que o produto final, que não depende apenas de repórteres, é bem mais que isso. O fato de jornalistas olharem com desdém esses episódios não impede que eles aconteçam — nem que redefinam a imagem da imprensa perante a sociedade. O Pedro e o Sergio que me desculpem, mas vejo tantas matérias pagas ou “politicamente alinhadas” nesses grandes meios de comunicação que se tornou quase um passatempo descobrir quais são as matérias pagas em um jornal ou revista e por que ela foi veiculada.

Não é apenas nos que “cheiram mal”. Na maior revista do país há uma matéria antológica — aí do final de 2003 — em que disfarçada de reportagem estava um imenso press release da Monsanto. Um grande jornal nacional publicou, há pouco mais de dois anos, uma matéria sobre Sergipe obviamente paga, ainda que assinada, com o agravante de o mesmo teor da matéria já ter sido publicado alguns meses antes, por uma dessas revistas de negócios. O jornal levou um furo até mesmo em matéria paga. Nas vésperas das eleições municipais do ano passado a Exame publicou uma matéria mais que elogiosa — e tão óbvia que chega a ser eufemismo falar em “suspeita” de interesses comerciais por trás — sobre o prefeito de Porto Alegre.

Esses exemplos são os que me vêm à cabeça agora; há uma infinidade deles. Mas as coisas podem piorar, e pioram. Até aqui se falou apenas nos jornalões, revistas e grandes redes nacionais de TV. Se passarmos para os outros 99% de meios de comunicação em todo o país, a situação chega a dar medo. O que o Sergio Leo chama de imprensa regional sobrevive de achaques, chantagens claras ou veladas, de propaganda disfarçada de jornalismo, com equipes reduzidas que acabam se tornando craques no que se costumava chamar de “tesourapress”. Costuma ter uma intimidade nociva e prejudicial com o Estado, independente de quem está no governo. Nessa categoria se enquadram, sem dúvida, 98% dos periódicos nacionais. E não se pode falar em “estado da imprensa”  sem mencioná-los.

Até há pouco, nada disso sofria grandes questionamentos fora de certos círculos sociais. A imagem pública da imprensa era aquela que ela fazia de si mesma — porque afinal de contas ela detinha o monopólio da informação. Mas a internet mudou isso, e é cada dia mais claro que essa mudança é irreversível e inexorável.

É essa democratização da produção de informação que começa a tornar a imprensa redundante e não mais fundamental. Não vai demorar muitas décadas até o momento em que os grandes debates nacionais dispensem os jornais. E se alguém precisar de um marco que simbolize o momento de ruptura, pode dizer que foi quando os blgos começaram a questionar a própria necessidade da imprensa tradicional.

Novamente o Oscar 2009

Depois de assistir a todo os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme, dá para ter uma idéia do que foi a cerimônia.

Primeiro, a constatação óbvia: “Benjamin Buttom” recebeu exatamente o que merecia. Não mais, não menos. Que o oblívio da história descanse sobre ele.

O mesmo não pode ser dito de Slumdog Millionaire, que ganhou a estatueta de Melhor Filme. Slumdog é um filme fraco, apelativo. Talvez não seja tão ruim quanto muitos dizem, porque afinal acaba chamado a atenção para a sua história óbvia e piegas, mas nem de longe é tão bom quanto quer o Luiz Carlos Merten, do Estadão.

“Frost/Nixon” é um bom filme, mas tampouco escapa de clichês e forçações de barra. Na verdade ele é carregado nas costas pela excepcional interpretação de Frank Langella, um daqueles atores brilhantes e injustamente relegados a segundo plano. Um amigo, o Leal, o acha um canastrão; mas basta ver seu desempeho em Nixon para ver como ele consegue encarnar à perfeição o seu personagem.

Já “Milk” é um filme mediano e demagógico, mais uma daquelas biopics que fazem a festa do cinemão americano. Gus Van Sant já teve uma certa reputação — mas ao longo de sua história fez o que pôde para acabar com ela. “Milk”, no entanto, tem um ator maravilhoso fazendo um dos melhores papéis de sua vida. A interpretação de Sean Penn é antológica pela sua riqueza e delicadeza.

No fim das contas, o melhor filme entre os indicados era mesmo “O Leitor”, o mais firmemente dirigido, o mais redondo. No entanto seria demais esperar que ele ganhasse o Oscar, quando havia um concorrente piegas como Slumdog no páreo. É mais ou menos como esperar que um livro como “Ulisses” venda mais que um livro qualquer de Sidney Sheldon ou Paulo Coelho. Ou, para lembrar um exemplo caro aos brasileiros, esperar que “Central do Brasil” vencesse “A Vida é Bela”.

Mas a grande surpresa para mim foi “Doubt”.

Não é que Kate Winslet não merecesse o Oscar de Melhor Atriz. Merecia. É uma atriz brilhante e faz um trabalho admirável no papel de Hannah. Mas eu não teria dado o prêmio a ela. A melhor interpretação feminina deste ano cabe à hors-concours das atrizes americanas: Meryl Streep, por seu papel em Doubt.

Winslet faz um trabalho admirável como Hannah. Mas o seu personagem é o mesmo durante todo o filme, a sua expressão é basicamente a mesma.

Em Doubt, Streep faz uma freira que acusa um padre de abuso sexual de um garoto. Seu personagem é definido em uma cena no início do filme: ela só se benze ao final do sermão do padre brilhantemente interpretado por Phillip Seymour Hoffman depois de se assegurar que todos os alunos estão em seus devidos lugares. Seu dever vem antes de sua fé. O pouco de bondade que mostra é dirigida apenas à mais velhas das outras freiras.

Pois é esse personagem que Streep, em um diálogo com a mãe do menino que ela suspeita estar sendo moelstado pelo padre, desconstrói com absoluta perfeição. A imensidão de emoções demonstradas, a capacidade da atriz de, inesperadamente, mostrar um lado insuspeito do personagem que até minutos atrás ela construía — também com brilho — em uma direção totalmente diferente, tudo isso faz da sua interpretação uma verdadeira aula de como atuar.

Doubt é um filme melhor que boa parte dos indicados ao Oscar de Melhor Filme — o que, cá entre nós, não quer dizer muita coisa. Mas vale a pena, mesmo, pela chance de ver uma grande atriz em seu auge.

Quando o Vaticano corrige as excomunhões alheias

Talvez a Igreja Católica tenha salvação ainda.

O Vaticano condenou a atitude do arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho ao anunciar a excomunhão dos médicos que fizeram um aborto em uma criança de 9 anos estuprada pelo padrasto.

Deve ter sido um golpe e tanto para os tantos prosélitos descerebrados que apoiaram, de uma maneira ou outra, a posição do arcebispo. A própria CNBB já tinha tirado o corpo fora, dizendo que não tinha havido excomunhão. Os anencéfalos provavelmente diriam que isso era coisa daqueles “comunistas” da CNBB, como se a CNBB fosse uma sombra do que já foi nos tempos da ditadura.

Mas agora é o Vaticano quem diz, em outras palavras, que não concorda com a gigantesca cagada de Dom José Cardoso Sobrinho.

A atitude do Vaticano, que não tem se notabilizado nas últimas muitas décadas por posições exatamente progressistas, é mais digna do que a de muitos prosélitos da Igreja católica. É humana, pelo menos; é decente e, se mesmo decência for pedir demais, é ao menos sensata.

O que o Vaticano fez foi exatamente aquilo de que os tantos fiéis que apoiaram a decisão canalha do arcebispo se eximiram de fazer: pensar um pouco e ver a desumanidade e a impropriedade política daquela decisão.

Eu gostaria de ver o que aqueles que defenderam tanto o padre tacanho de Recife, pensando — ou não pensando, o que é pior — que defendiam a instituição católica, vão dizer agora. Deve ser duro ser mais realista que o rei e, de repente, ver que nem mesmo o rei acredita nas bobagens que eles falam.

Mais que qualquer outra coisa, a posição do Vaticano deveria servir de deixa para que aquele bando de gente, que por causa de sua fé e de sua burrice compactuou com uma das decisões mais infelizes da história recente da Igreja Católica no Brasil, repense seus conceitos de vida e suas atitudes.

Seria também útil que isso os fizesse retomar seus estudos de teologia. Em todos os lugares, e até mesmo aqui neste blog, os descerebrados e desalmados fizeram questão de lembrar que o arcebispo não tinha exocmungado ninguém, apenas anunciado o fato, uma espécie de milagre divino às avessas. Agora o Vaticano diz que não houve excomunhão. Se não houve, então a danda não é automática. Afinal de contas, o que aconteceu?

Mas algo me diz que os descerebrados vão continuar sem cérebro, e os desalmados, sem alma. Que caia o pano da decência sobre os conflitos internos da Igreja Católica. Mas, antes que ele cubra completamente a imoralidade da excomunhão anunciada por Dom José Cardoso Sobrinho, que fique aqui um leve comentário sobre esses conflitos.

A foto ao lado foi tirada em novembro de 2005, numa igreja no Saara, Rio de Janeiro — acho que a Nossa Senhora do terço, não sei. O aviso pregado ali — “Cuidado com as bolsas” — mostra bem as lutas intestinas da Igreja. De um lado, os honestos; do outro, o resto. Como vítima da sanha cleptomaníaca da Igreja — João Paulo II me roubou 30 mil liras no Vaticano, alguns anos atrás –, eu sei o risco que correm as pobres almas e suas bolsas nas auto-proclamadas “casas de Deus”. Mas essa pequena placa, assim como o anúncio do Vaticano colocando Dom José Cardoso Sobrinho em seu devido lugar — o reconhecimento público de que a ele está reservado o primeiro nível do nono círculo do inferno –, alivia um pouco os nossos corações ao vermos que na venerável Igreja Católica há gente honesta; e, portanto, há ainda esperança para os discípulos de São Paulo.

Desorganização

Um memezinho de que o Doni participou me chamou a atenção. A gente participa de memes quando não tem o que dizer, e então bota uma foto bonitinha, escreve umas duas palavras engraçadinhas e dá por encerrada a sua tarefa. MEmes quebram um galho danado. Aí lá fui eu procurar a sexta foto do sexto folder de fotos no meu computador.

O resultado foi uma foto do meu “escritório” no meu antigo apartamento. Acho que em algum lugar debaixo daqueles livros na mesa está um computador. E se a bagunça pode impressionar os mais incautos, posso garantir que o que estava à direita da foto, onde ficava o resto das prateleiras de livros, era ainda pior.

Coluninha social

Notícias velhas que todo mundo já conhece mas que mesmo assim eu insisto em contar atrasado.

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O Doni já tinha um dos melhores blogs brasileiros, o Hedonismos. Agora ele criou mais um: o Marcos Donizetti, um blog mais sério onde ele discute temas ligados à psicanálise. Inveja do Doni. Ele tem dois blogs. Eu mal consigo manter um.

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E uma das melhores notícias da blogosfera: o Guto voltou a blogar, agora no Imaginação Sociológica. O Guto, para quem não é dessa época, tinha um dos melhores blogs da pré-história da blogoseira, o NCC. Agora é esperar que a Mônica, mulher do Guto e outra grande blogueira, retome o Monicômio.

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A série do Alex sobre economia doméstica é uma das melhores que já vi. Tanto blog sobre dinheiro por aí (nenhum deles previu a crise, a propósito) e o Alex conseguiu dar um banho em todos eles, usando uma coisa simples mas constantemente em falta: bom senso. Eu sempre disse, mas ele não me ouve: se o Alex desistisse dessa viadagem de ser escritor sério e se tornasse um escritor de auto-ajuda, ia finalmente poder parar de se queixar que é pobrinho.

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O Verbeat está completando cinco anos. É uma das mais legais iniciativas da Internet brasileira. Eu lembro de quando ele apareceu. Eu estou ficando velho.

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A Luciana saiu do Cintaliga e, em em um novo condomínio de blogs, o Dialética.org, montou o Agridoce. O Marmota também acompanhou a Lu, e Marmota saiu do Interney e foi para lá.

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O Hermenauta é o autor de uma das frases mais verdadeiras e proféticas que eu já li: “Será que Ivete [Sangalo] está fadada a transformar-se na Derci Gonçalves do século XXI?”

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Depois de anos usando uma combinação de Bloglines e clientes de RSS, migrei para o Google reader. E aí queria agradecer ao Tiagón, à Olivia, ao Doni, à Lucia Malla e ao Idelber. É graças aos posts compartilhados por eles que leio algumas das coisas mais interessantes nessa internet que me interessa cada vez menos.

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Se alguém acha que eu escrevo pouco hoje em dia devia ver o Inagaki.

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Exatamente na véspera de Natal chegou um cartão e um calendário da Lucia Malla. E embora o verdadeiro presente tenha sido o cartão, eu fiquei deslumbrado mesmo foi com o calendário. As fotos submarinas do André, marido da Malla, são uma coisa impressionante.

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Rapaz, isso é o mais próximo que eu consigo chegar do Twitter.

A falência moral da Igreja Católica

Ao excomungar os médicos que salvaram a vida de uma menina estuprada e engravidada por seu padrasto realizando um aborto, o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, colocou a pá de cal na idéia de que a Igreja Católica no Brasil tem algum compromisso com o ser humano.

Não tem. Seu compromisso é com um ideário antigo. Mas as coisas são ainda piores: é um compromisso completamente antagônico à idéia de amor ao próximo e à própria noção de ética.

A excomunhão dos médicos e parentes da menina indica mais que rigidez ética. Indica a total falência moral da Igreja Católica no Brasil. Com a excomunhão, a Igreja fez uma escolha uma escolha clara: de acordo com os seus princípios éticos, os verdadeiros criminosos são aqueles que salvaram a vida da menina — não o monstro que a estuprou e engravidou. Este a Igreja deixa aos encargos das leis seculares, porque seu crime não foi tão grave. Mas os médicos que salvaram uma vida, não: estes cometeram o mais grave dos crimes, e não merecem a salvação eterna.

Não é mais uma questão de fé. O que se tem aqui é uma autoridade religiosa realizando um ato de crueldade inadmissível em nome de eventuais princípios de sua Igreja e emitindo um julgamento inequívoco: para todos os efeitos, o estupro de uma criança de 9 anos é um crime menor, posto que não passível de excomunhão. Esse é o estado da Igreja Católica no ano da graça de 2009. Um caso triste e bizarro de decadência moral absoluta e absolutamente indesculpável.

Essa decadência se sobrepõe à sua necessidade de conciliação com os valores humanos e de respeito à humanidade. A decisão do arcebispo deixa uma coisa muito clara: mais que o bem estar humano, mais que o respeito a um código qualquer de moral, o que importa são os princípios definidos pela Igreja Católica.

É quase irresistível a tentação de lembrar que a Igreja Católica trata melhor pedófilos do que meninas estupradas porque seus padres têm um longo histórico de abuso de crianças. Nesses casos a Igreja prefere pagar indenizações bilionárias a excomungar seus membros. Mas isso é desnecessário diante de uma decisão absurda como a tomada pelo arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho, uma autoridade rígida, talvez, mas certamente um homem sem bondade e sem senso de respeito ao Homem. A decisão é aterradora por si própria, uma pequena monstruosidade destinada a envergonhar milhões de católicos em todo o mundo.

Ninguém pede que a Igreja concorde com o aborto, ainda que por razões humanitárias. Nesse caso, uma solução de compromisso ético seria o simples silêncio diante de algo que não lhe compete — o aborto foi realizado dentro das leis brasileiras, se eles precisam dessa justificativa, e dentro do conceito de amor ao próximo, algo que a Igreja pregou com sucesso durante quase 2 mil anos mas que, em meio à sua debâcle moral, é hoje menos importante.

Em vez disso, ela preferiu se pronunciar e condenar os médicos. Respeitou o seu compromisso, e nisso deve ter agido certo. Como agiram corretamente os oficiais nazistas que trucidaram 6 milhões de judeus na II Guerra Mundial. Nos dois casos já não há um parâmetro moral, nem limite para a degradação, além da pura estupidez. O arcebispo Dom José Oliveira Sobrinho e os oficiais fizeram o que julgaram correto. Resta-nos agradecer aos céus que, felizmente, a Igreja Católica não tem mais o poder coercitivo de outrora.

Alguém lembrou que a ética dos ladrões e assassinos nas penitenciárias é superior à da Igreja Católica; todos sabem o destino de estupradores de crianças nas cadeias. O que esqueceram de ressaltar é que a ética das penitenciárias é a da barbárie e da vingança. Hoje, a ética da Igreja está abaixo dela. É ética da obediência cega e da analogia burra de princípios programáticos em detrimento do amor ao próximo e do respeito ao ser humano. Não é algo muito distante dos princípios de São Tomás de Torquemada; a diferença é que hoje a Igreja fala para cada vez menos gente.

É por isso que as igrejas neo-pentecostais crescem a cada dia, em detrimento da Igreja Católica. No que já foi o maior país católico do mundo, hoje o termo “cristão” é sinônimo de evangélico. Diante de excomunhões como as proferidas pelo arcebiso Dom José Cardoso Sobrinho, é perfeitamente compreensível.