O futuro aos olhos de todos

O Facebook está contribuindo seriamente para um mundo pior, mais intolerante, mais chato, mais neurótico, em que a vida de todo mundo pertence a todo mundo — e onde seus amigos percebem o quanto você é burro.

National Geographic Magazine

Diante de mim três edições da National Geographic Magazine — 1957, 1971 e 2008. (Só a mais recente é brasileira. As outras são americanas, compradas em sebos. A National Geographic só chegou ao Brasil há relativamente pouco tempo; antes o que existia era um genérico chamada “Revista Geográfica Universal”, cuja moldura de capa era vermelha em vez de amarela, mas que era basicamente a mesma revista, pelo menos na minha memória.)

Olhando para elas, o que sinto é uma pena grande por algo que parece não fazer mais sentido. Uma fascinação pessoal por revistas antigas, por anúncios dos anos 50 e 60 e pelas técnicas de impressão da época, com suas cores distorcidas — tudo parece ter sido impresso em três cores, apenas — acaba dando lugar a uma sensação triste: a de que eu olho para um fóssil vivo, cujos dias estão prestes a terminar.

Não importa muito o ano da National Geographic. Ela é sempre basicamente a mesma, não mudou muito nessas tantas décadas de vida; a principal mudança foi a adoção de fotos na capa, em 1959, progressivamente substituindo o índice de matérias. O conteúdo no entanto é basicamente o mesmo: reportagens sobre coisas importantes ou curiosas do mundo e muitas, muitas fotografias.

Uns tantos anos atrás, a leitura de uma National Geographic significava a descoberta de um mundo novo. Imagino que gerações inteiras ficaram sabendo de coisas do mundo que os rodeava através suas páginas — fiordes na Noruega, mergulhos em Bora-Bora, mulheres com roupas multicoloridas feitas com pelo de lhama na Bolívia, festivais de rena estranhos em algum lugar da Lapônia, esquimós são aqueles indiozinhos besuntados de gordura de baleia? A revista era uma janela importante para o mundo que hoje, mais de cem anos depois de sua primeira edição, vemos principalmente na TV, numa era de informação farta, até excessiva.

Por isso é triste olhar para uma National Geographic. Porque é triste ver algo perder sua função. Ela não faz mais sentido — por causa da TV e por causa da internet. Não tenho idéia de seus números de circulação. Não sei se aumentaram ou diminuíram nos últimos anos, mas se aumentaram são um caso raro entre revistas. Porque o que ela fazia agora é feito de maneira mais eficiente nos canais de TV, como Discovery e o próprio NatGeo, em alta definição e em câmera lenta. E quanto às fotos, elas abundam na internet.

Ou seja: uns 60 anos atrás o sujeito no interior de Minas via uma foto do mar, pela primeira vez — e aquilo já era mais do que 150 anos antes, quando nem isso ele tinha, tinha apenas as impressões eventuais de um viajante que lhe descrevia a imensidão da água, o ribombar das ondas, o sal em seus lábios. E mesmo aquela foto ainda era uma experiência incompleta, não era ainda o mar, era algo como a sombra platônica na parede da caverna. O cinema e o vídeo diminuíram ainda mais esse fosso, deixando menos espaço para a imaginação, para a criação de um mundo próprio, de um mar apenas seu. Isso não é algo necessariamente bom ou ruim; mas é mais um pedaço de um tempo que se vai, um modo de ver as coisas que o progresso tornou obsoleto.

É por isso que sei que a National Geographic Magazine vai acabar, mais cedo ou mais tarde. Com ela vai embora, ao menos em termos simbólicos, uma grande tradição do século XX, a da fotografia como principal janela visual para o mundo. E junto vai uma forma de descobrir esse mesmo mundo, sempre incompleta, sempre distorcida — mas paradoxalmente de alguma forma mais rica também. Porque todos esses canais que aos poucos sucedem a National Geographic podem transmitir as mesmas informações de maneira mais eficiente, sim; mas também são menos poéticos, deslumbram menos, porque não me permitem mais completar o vazio que as fotos permitiam e recriar o mundo de acordo com o que eu gostaria que fosse, ou com o que eu podia pensar.

Transexuais

Um comentário do Gabriel à minha homenagem ao Dia da Mulher merece ser republicado aqui, porque ao resumir algo que eu penso é algo embaixo de que eu assinaria.

Rafael, pode até parecer uma piada aleatória, mas o travesti e o transexual dizem muito sobre as lutas feministas do último século.

É como bem disse outro dia o Rogério Skylab em uma entrevista ao Danilo Gentili (no minuto 17:50 mais ou menos), o travesti/transexual é um dos grandes retratos da modernidade.

Se a modernidade é a fluidez de valores, inclusive, e principalmente talvez, de identidade, se o movimento negro subvertia a ideia de superioridade de raças, se a luta operária subvertia uma realidade histórica de exploração, se o feminismo a o movimento gay já discutiam a construção cultural do que deve ser homem e do que deve ser mulher, se tudo isso é a cara da modernidade, um passo mais adiante ainda é aquele sujeito que além de querer subverter o papel social que lhe foi imposto ainda contesta a determinação biológica sobre sua identidade.

Pago pau mesmo pros transexuais, estão entre o que há de mais revolucionário e corajoso nesses tempos.

É isso.

Flanelinhas, a salvação da humanidade

No meu tempo era diferente, revistas femininas diziam como decorar a casa e o que vestir no verão; acho que prefiro os novos tempos.

O caso é que, lendo uma matéria numa dessas revistas sobre as necessidades de comunicação durante o sexo oral, fiquei sabendo que os participantes de tal colóquio se beneficiariam amplamente de um pouco mais de diálogo em hora tão prazerosa.

Como leigo no assunto, me espantou o fato de que ninguém até hoje tenha percebido a oportunidade que está bem aí, debaixo — literalmente — de seus narizes. Uma profissão nova poderia surgir para administrar essas necessidades e vontades, cuidando para o desempenho satisfatório de tais atividades.

Flanelinha de boceta.

Ou seja, alguém que desse ao senhor inexperiente as indicações necessárias para o bom cumprimento de sua tarefa. Que facilitasse as coisas e tornasse irrelevantes as vergonhas do senhor e da senhora — o senhor, que nunca para para pedir direções; e a senhora, que tem vergonha de dizer para aquele puto que porra, mordida dói.

Profissão tão útil, essa seria. E, pelo menos para mim, não é difícil imaginar o flanelinha desempenhando seu doce mister:

“Vai! Vai! Isso. Pra esquerda! Vai, vai! Mais um pouquinho! Desfaz, desfaz! Pra frente. Agora um pouquinho pra direita! Um pouquinho pra direita! Agora desfaz! Isso! Vai, vai direto! Isso! Isso! Cavuca fundo!”

Nova carta para seu Gusmão

Um tempão atrás publiquei a resposta que dei a um sujeito que me mandou um e-mail cobrando de um dos meus tantos homônimos o aluguel de um imóvel em Copacabana. Esse doppelganger caloteiro vive atrasando o aluguel. E por alguma razão seu locador acha que o meu e-mail é o dele.

A resposta, no entanto, não sensibilizou o sujeito. Ele continua mandando e-mails para mim, me cobrando algo que não devo. Deve ser mau corretor, porque sequer sabe o e-mail correto de seu cliente. Por isso escrevi um novo e-mail para ele na esperança de que esse senhor finalmente entenda que está mandando e-mails para a pessoa errada.

Seu Gusmão,

Olha, eu venho evitando falar isso faz tempo: mas o senhor é muito chato.

O senhor sabe que estou passando por uma fase delicada na vida. Perdi o emprego, perdi a mulher, as coisas começaram a dar errado para mim de repente. E mesmo assim o senhor vive me mandando esses e-mails de cobrança.

Eu estou me esforçando, de maneiras que o senhor nem imagina. Mas mesmo assim, mesmo sublocando o apartamento para uma amiga que trabalhava na Help e agora recebe seus clientes aqui em casa, nem sempre é possível pagar o aluguel em dia.

O senhor quer mesmo saber por que eu atraso?

Eu lhe disse que tinha perdido o emprego, o senhor lembra? Não me foi possível arranjar uma colocação à altura da anterior. Inicialmente fui ser piloto de provas numa fábrica de supositórios. Não é o melhor emprego que há por aí, e isso me deixava com uma certa má vontade em relação ao mundo, mas serve para o senhor entender o que estou disposto a fazer para lhe pagar os aluguéis que lhe devo.

Infelizmente fui demitido por causa do meu hábito de beber. Então agora eu faço vida.

É, seu Gusmão. VI-DA. V-I-VI-D-A-DA — vida. Tudo isso para pagar o aluguel que o senhor me cobra.

Olha, seu Gusmão, é uma vida dura, sabe? Mas até que compensa. Alguns clientes são delicados, tratam bem a gente, levam até para jantar no Giraffa’s da Barata Ribeiro.

Mas claro que nem todo dia é bom, porque a crise, o senhor sabe, está chegando até nós. O dinheiro é difícil. Tem dias — e eu não falo isso apenas para conquistar a sua simpatia — que a gente sai só pelo sanduíche do Cervantes com Fanta.

Certo, eu atraso de vez em quando. Mas eu pago essa merda, não pago? Cá entre nós, não é sequer um grande apartamento esse que alugo do senhor. Mesmo assim, todo mês o senhor me manda uma cobrança que nós dois sabemos ser desnecessária. Eu vou pagar. Eu sempre pago, não importa que para isso eu tenha que sair com 20 numa noite só.

Eu só peço ao senhor um pouco de compreensão.

Portanto, o senhor tem duas alternativas. Ou para de me mandar essas cobranças, ou então me arranja uns clientes assim, tipo cheios da grana, para que eu possa pagar tudo em dia.

Este seu criado,
Rafael Galvão

***

Mas seu Gustmão não desistiu de receber o seu dinheiro: Seu Gusmão, mais uma vez.

PT saudações

Recebi um telegrama dia desses. Parece brincadeira, mas recebi.

Os telegramas estão bem diferentes dos de antigamente. Mais parecem aerogramas, aquelas cartas alaranjadas pré-fabricadas que os Correios vendiam — não sei se ainda vendem.

Eu já sabia o que o telegrama dizia, mas de alguma forma, ainda que incompleta, consegui relembrar um pouco da sensação qeu se tinha ao, de repente, receber um telegrama inesperado. Mais que isso, veio também a impressão de que esse, provavelmente, é o último que receberei na vida. É um telegrama temporão, porque eles não fazem mais sentido no mundo de hoje.

Há alguns anos, quando a Western Union avisou que estava cancelando sua unidade de telegramas nos Estados Unidos, foi colocada a lápide sobre uma instituição do século XX. No entanto essa agonia começou em silêncio, e ninguém parece ter notado. Telegramas já não faziam sentido há muito tempo. E o passar dos dias não melhora, em nada, a sua situação.

É difícil, para quem não recebeu alguns telegramas, entender exatamente o que significava a chegada de um deles. Um telegrama era um carimbo de urgência e de importância em um tempo que não era tão corrido, em que as pessoas ainda admitiam não encontrar outras no momento em que queriam; o telefone celular ainda não existia. Um telegrama era uma esfinge à espera de um Édipo. Podia significar algo que teria a faculdade fatal de mudar sua vida, de transformar radicalmente, e para sempre, o seu mundo. De certa forma, era imparcial como a mão divina, e igualmente inesperado: podia lhe avisar de maneira seca que alguém querido havia morrido, que alguém que mais tarde também seria querido tinha nascido, ou podia simplesmente mandar você passar em algum lugar para pagar uma dívida.

Telegramas tinham uma linguagem própria. CHEGO SEGUNDA TREM DAS ONZE PT, e a gente sabia o que o PT e VG significavam. E isso fazia com que fossem mais concisos que SMS ou Twitter, porque não era uma limitação tecnológica que lhe fazia ser sucinto, mas o preço de cada letra, ou palavra, não lembro bem.

Eu disse que eles podiam significar que algo bom havia acontecido com você,  mas não falei toda a verdade. Porque algo na natureza humana, talvez a sensação permanente de queda iminente, fazia com se soubesse instintivamente que um telegrama, quase por princípio, trazia notícia ruim. Boas notícias não vinham por telegrama com a mesma freqüência com que as más chegavam. Más notícias, não, essas sempre fporam rápidas; com o telegrama, elas passaram a voar na velocidade da luz. Por alguma razão esquisita, as pessoas parecem achar que boas notícias podem esperar. Já as más, por menos relevantes que sejam, por menos que você possa fazer em relação ao fato que elas contam, precisam ser ditas com urgência. E para isso inventaram o telegrama.

O mais próximo da sensação causada pela chegada de um deles, hoje, é a sensação de alerta que se tem ao ouvir os acordes da vinheta do plantão do Jornal Nacional. Vinheta que hoje, mesmo vulgarizada em toques de telefones celulares, causa o mesmo desconforto instintivo, a mesma sensação de urgência, de acontecimento importante. Mas há uma diferença, e é por isso que o telegrama não tem nada, hoje, que se possa comparar a ele: o telegrama era algo pessoal, urgente. Dizia respeito a você, diretamente. O plantão do Jornal Nacional diz apenas que uma pessoa que você não conhece se fodeu, ou uma catástrofe aconteceu — e aí muitas pessoas que você não conhece se foderam. É uma má notícia, também, mas menos má porque é impessoal, não lhe afeta diretamente.

Não que isso signifique algo hoje. Tudo isso pertence a uma era atrás. O telegrama foi destruído pelo telefone e pela internet. Em um mundo em que quase todos têm celular, ficou mais fácil comunicar-se com a urgência que o telegrama implicava, e muito mais. E se o telefone não tinha a capacidade de dar um caráter definitivo às coisas, faltando a ele a solidez e inevitabilidade da palavra impressa, o e-mail representou o golpe de misericórdia.

Não foi um processo linear ou imediato, mas foi constante. Há uns 30 anos, se alguém — mesmo no Brasil, que já tinha um dos sistemas de telefonia mais avançados e abrangentes do mundo — queria falar com uma pessoa de alguma cidadezinha no interior da maioria dos Estados, ligava para o posto de serviços da companhia telefônica na cidade ou povoado. De lá mandavam alguém chamar o cidadão em questão: “Zinho, vai ali chamar Neco de Cotinha que tem uma moça de João Pessoa querendo falar com ele.”

Se o telefone celular conseguiu acabar com isso, destruir o telegrama foi, então, como tirar doce da boca de criança. Ele se tornou redundante. É por isso que vou guardar esse que acabei de receber. Daqui a alguns anos quero mostrar a minha filha o que era esse negócio já esquecido, da mesma forma como ainda guardo um aerograma como os que mandava para minha avó. Eles ainda têm a mesma cor, laranja, e com a sua praticidade já prenunciavam a decadência da carta pessoal escrita à mão. Talvez, com um telegrama, eu consiga explicar o que ele significava, e dar a ela uma noção específica de tempo e espaço que a ubiqüidade da informação suplantou para sempre. Mas duvido que ela se importe com isso. O telegrama acabou, não vai fazer falta, e PT saudações para ele.